7 de dezembro de 2017

Capítulo 10

O Universo, como já foi observado anteriormente, é um lugar desconcertantemente grande, fato este que pelo bem de uma vida tranquila a maioria das pessoas tende a ignorar.
Muitos se mudariam contentes para lugares consideravelmente menores em suas próprias redondezas, e é aliás o que de fato a maioria dos seres faz. Por exemplo, num canto do Braço Oriental da Galáxia fica o planeta florestal Oglaroon, cuja totalidade da população “inteligente” vive permanentemente dentro de uma populosa e um tanto diminuta nogueira. Dentro de tal árvore nascem, vivem, apaixonam-se, entalham em sua casca minúsculos artigos especulando sobre o sentido da vida, a futilidade da morte e a importância do controle de natalidade, combatem em algumas guerras de pequena importância, e eventualmente morrem pendurados sob as ramagens de alguns dos galhos exteriores mais inacessíveis.
De fato, os únicos oglaroonienses que chegam a deixar sua árvore são aqueles que são atirados fora dela pelo abominável crime de imaginar se alguma das outras árvores poderia ser capaz de comportar vida, ou mesmo se as outras árvores são algo além de ilusões provocadas por comer ogla-nozes demais.
Por exótico que possa parecer este comportamento, não há uma única forma de vida na galáxia que não possa de algum modo ser acusada da mesma coisa, o que é a razão do Vórtice de Perspectiva Total ser tão horripilante.
Pois quando você é posto no Vórtice você tem um vislumbre momentâneo de toda a inimaginável infinidade da criação, e em algum lugar, um marcador minúsculo, um ponto microscópico sobre um ponto microscópico, dizendo “Você está aqui”.
A planície cinzenta estendia-se diante de Zaphod, uma planície destroçada e em ruínas. O vento soprava ferozmente sobre ela. Visível no meio dela estava a protuberância metálica do domo. Aquilo, percebeu Zaphod — era para onde estava indo. Aquilo era o Vórtice de Perspectiva Total. Quando parou e contemplou friamente o domo, um súbito uivo desumano de terror emanou dele, como se um homem estivesse tendo sua alma arrancada a fogo de dentro de seu corpo. Gritou por sobre o vento e morreu no silêncio.
Zaphod começou a ter medo e seu sangue parecia transformar-se em hélio líquido.
— Ei, o que foi isso?— murmurou sem voz.
— Uma gravação — disse Gargravarr — do último homem que foi posto no Vórtice. Sempre é tocada para a próxima vítima. Uma espécie de prelúdio.
— Ei, soa realmente mal... — gaguejou Zaphod — será que não dava para a gente dar uma saidinha, ir a uma festa, coisa assim, e conversar mais a respeito?
— Pelo que eu saiba — disse a voz etérea de Gargravarr — eu já estou numa. Ou seja, o meu corpo está. Ele vai a muitas festas sem mim. Diz que eu só atrapalho. Pois é.
— Como é isso que você tem com o seu corpo? — disse Zaphod, ansioso por fazer demorar o quanto pudesse o que quer que fosse aquilo que ia acontecer com ele.
— Bom, é meio... é complicado, sabe? — disse Gargravarr hesitante.
— Ele tem uma mente própria, é isso?
Houve uma pausa longa e um tanto gelada antes que Gargravarr voltasse a falar.
— Devo dizer — retrucou — que considero esse comentário um tanto de mau-gosto.
Zaphod murmurou um pedido de desculpas confuso e embaraçado.
— Não tem importância — disse Gargravarr —, você não sabia.
A voz vibrava, infeliz.
— A verdade é que — prosseguiu, num tom que sugeria que ela estava tentando com muito esforço manter o controle —, a verdade é que estamos atravessando um período de separação judicial. Suspeito que acabará em divórcio.
A voz ficou quieta de novo, deixando Zaphod sem saber o que dizer. Resmungou qualquer coisa sem convicção.
— Acho que provavelmente nós não combinávamos bem um com o outro — disse Gargravarr finalmente — parece que nunca estávamos felizes fazendo as mesmas coisas. Sempre tínhamos as maiores discussões a respeito de sexo e pescarias. Eventualmente tentávamos combinar as duas coisas, mas isso só acabava em desastre, como você pode provavelmente imaginar. E agora meu corpo se recusa a me deixar entrar. Não quer nem me ver...
Fez outra pausa, tragicamente. O vento gemia na planície.
— Diz que eu só o restrinjo. Eu argumentei que lá era o meu lugar e ele disse que esse era exatamente o tipo de resposta espertinha que entrava por um ouvido e saía pelo outro. Provavelmente vai conseguir a custódia do meu primeiro nome.
— Oh...? — disse Zaphod, indistintamente. — E qual é?
— Pizpot — disse a voz. — Meu nome é Pizpot Gargravarr. Diz tudo não?
— Ahnnnn — disse Zaphod com compaixão.
— E é por isso que eu, uma mente sem corpo, tenho esse emprego, Guardião do Vórtice de Perspectiva Total. Ninguém jamais andará na superfície deste planeta. A não ser as vítimas do Vórtice — mas essas não contam.
— Ah...
— Vou contar a história. Gostaria de ouvi-la?
— Ahn...
— Há muitos anos este era um planeta próspero e feliz; pessoas, cidades, lojas, um mundo normal. Exceto pelo fato de que nas ruas altas dessas cidades havia mais sapatarias do que se creria necessário. E lentamente, insidiosamente, o número dessas sapatarias ia aumentando. É um fenômeno econômico bastante conhecido, mas trágico de se ver em operação, pois quanto mais sapatarias havia, mais sapatos tinham que ser feitos, e piores e mais imprestáveis iam ficando esses sapatos. E quanto piores ficavam, mais as pessoas tinham que comprar para se manterem calçadas, e mais as sapatarias proliferavam, até que toda a economia do lugar passou pelo que creio que foi chamado de Advento da Era do Sapato, e não foi mais possível economicamente construir qualquer outra coisa que não fosse sapataria. Resultado: colapso, ruína e fome. A maioria da população pereceu. Aqueles poucos que tinham o tipo certo de instabilidade genética transformaram-se por mutações em pássaros – você viu um deles – que amaldiçoaram seus pés, amaldiçoaram o chão e juraram que ninguém mais pisaria nele. Bando infeliz. Venha, preciso levá-lo ao Vórtice.
Zaphod balançou a cabeça estupefato e seguiu cambaleando pela planície.
— E você — perguntou —, você vem deste fundo do inferno?
— Não, não — disse Gargravarr recuando. — Eu sou do Planeta Astrossapo C. Um bonito lugar. Maravilhoso para pesca. Voo de volta para lá à noitinha. Se bem que tudo que eu posso fazer agora é ficar olhando. O Vórtice de Perspectiva Total é a única coisa neste planeta que tem alguma função. Foi construído aqui porque ninguém mais o queria na porta de casa.
Nesse instante outro grito lúgubre cortou o ar e Zaphod estremeceu.
— O que que isso faz com o cara? — perguntou ofegante.
— O Universo — disse Gargravarr com simplicidade —, todo o Universo infinito. Os sóis infinitos, as infinitas distâncias entre eles, e você um pontinho invisível sobre um pontinho invisível, infinitamente pequeno.
— Ei, eu sou Zaphod Beeblebrox, cara, sabia? — sussurrou Zaphod, tentando agitar os últimos restos do seu ego.
Gargravarr não retrucou, mas apenas retomou seu zunido pesaroso até que chegaram ao deslustrado domo de aço no meio da planície.
Ao chegarem, a porta abriu de um lado, revelando uma pequena câmara escura no interior.
— Entre — disse Gargravarr.
Zaphod sentiu medo.
— Ei, o quê, já? — disse.
— Já.
Zaphod observou o interior nervosamente. A câmara era muito pequena. Era de aço e quase não havia espaço para mais de um homem dentro dela.
— Ahn... não... não parece muito com um Vórtice para mim — disse Zaphod.
— E não é mesmo — disse Gargravarr. — É apenas o elevador. Entre.
Com uma trepidação infinita, Zaphod deu um passo para dentro. Sabia que Gargravarr estava no elevador com ele, embora o homem sem corpo não estivesse falando naquele momento.
O elevador iniciou a descida.
— Preciso achar o estado de espírito certo para isso — murmurou Zaphod.
— Não há estado de espírito certo — disse Gargravarr duramente.
— Você sabe mesmo como fazer um cara se sentir inadequado.
— Eu não. O Vórtice sabe.
No fundo do poço, o elevador se abriu e Zaphod foi cair numa câmara de aço pequena e funcional.
Do outro lado havia uma única cabine vertical de aço, do tamanho exato para caber um homem em pé.
Era simples assim.
Estava conectada a uma pequena pilha de componentes e instrumentos através de um único fio grosso.
— É isso aí? — disse Zaphod, surpreso.
— É isso.
Não parecia tão ruim, pensou Zaphod.
— E eu entro aí dentro, é isso? — disse Zaphod.
— Entra — disse Gargravarr —, e creio que deve fazê-lo já.
— OK,OK —disse Zaphod. Abriu a porta da cabine e entrou. Dentro da cabine, ficou esperando.
Passados cinco minutos ouviu um clique, e o Universo estava na cabine com ele.

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