20 de novembro de 2017

Prefácio

Desde tempos imemoriais houve menos que meia dúzia de mortais cujas mentes foram capazes de contemplar o universo em sua totalidade: Einstein, Hubble, Feynman e Douglas Adams são os nomes que surgem em meu cérebro comparativamente ínfimo e inútil. Destes poucos gênios especiais, Douglas Adams é, sem dúvida, o pensador mais hilariantemente original, embora seja consenso geral que Einstein era melhor dançarino de funk.
O Guia do Mochileiro das Galáxias começou sua história como uma série de rádio e, depois, uma compilação em fita cassete. Transformado em livro, tornou-se um best-seller mundial e foi parar, de forma curiosa, na televisão britânica.
Com uma galeria de personagens bizarros e tantas viradas abruptas na trama que você se sentirá em uma montanha-russa, O Guia do Mochileiro é, sem dúvida, uma das mais criativas e cômicas histórias de aventura jamais escritas. Arthur Dent, um inglês azarado, escapa de um evento dramático — a destruição da Terra —, graças a um amigo de Betelgeuse que, enquanto estava ilhado em nosso planeta, havia se disfarçado de ator desempregado. Arthur se vê arrastado, apesar de seus protestos histéricos (bem, “histérico” dentro da habitual fleuma britânica), para as situações mais alucinadas nos pontos mais distantes do tempo e do espaço.
O que realmente sustenta este livro hilariante, através de sua viagem freneticamente bizarra pela galáxia rumo ao legendário planeta de Magrathea, e além, é a pergunta profunda sobre o porquê. De onde viemos? Por que estamos aqui? Para onde vamos? Onde vamos almoçar hoje?
Além disso, enquanto Arthur tenta se entender com as formas de vida mais estranhas e os nomes ainda mais estranhos dessas formas de vida estranhas, nosso anti-herói descobre a verdadeira história da Terra e a resposta final à grande pergunta da Vida, do Universo e Tudo o Mais. No geral, um resultado bastante satisfatório, devo dizer.
Mas o que torna a escrita de Douglas Adams tão hipnótica? Além do fato de ser considerado por muitos como “um dos autores mais perspicazes de nossos tempos”1, ele também se envolveu profundamente com a literatura e a ciência. A leitura, o humor, os animais selvagens e a tecnologia eram suas grandes paixões, e ele soube reunir esses interesses aparentemente disparatados com toda a concisão e energia de um supercondutor de partículas atômicas, inundando seus leitores com um dilúvio feroz de hilariantes conceitos abstratos e teorias perversamente avançadas. Você não precisa saber nada a respeito de física nuclear ou biologia para apreciar sua obra; porém, quanto mais souber, mais agradáveis os livros se tornarão. Um exemplo clássico é o engenhoso gerador de improbabilidade infinita, que impulsiona a nave espacial de nossos heróis por todos os pontos da Galáxia em um único instante. Este conceito diabolicamente inteligente parece, ao menos para mim, ser diretamente derivado do conceito de “abordagem de somatório através da história”, ou da “abordagem de caminho integral” da física quântica, conforme concebido por Richard Feynman, ganhador do Prêmio Nobel de 1965.2
Adams nasceu no enclave acadêmico de Cambridge, na Inglaterra, em 1952, e sempre se divertia dizendo que ele era o verdadeiro “DNA” (Douglas Noel Adams) original de Cambridge, tendo chegado ao mundo uns nove meses antes que Crick e Watson, ganhadores do Prêmio Nobel, anunciassem sua descoberta da dupla-hélice do DNA em um pub local possivelmente não muito diferente do pub em que os heróis do Guia do Mochileiro, Ford Prefect e Arthur Dent, tomaram cerveja e comeram amendoins enquanto se preparavam para sua iminente partida de nosso planeta condenado.
Sob a orientação de alguns professores particularmente dedicados, Douglas Adams desenvolveu um intelecto privilegiado durante seu período na escola. O que lhe faltou em termos de agilidade física, suas dimensões exageradas fizeram dele um elemento perigoso em pistas de dança e competições esportivas, ele compensou amplamente com seus neurônios ágeis, impressionando seus mestres e colegas com pensamentos originais, introspecções profundas e um humor avassalador.
De acordo com o que se diz, Douglas Adams viveu para escrever, mas essa versão se opõe diretamente à sua própria confissão de que escrevia “de forma lenta e dolorosa”. Por outro lado, há muitos relatos sobre sua “escrita como a arte da performance”, uma habilidade invejável de gerar página após página de puro brilhantismo, com um editor desesperado e exigente bufando sobre seus ombros, como se ele fosse um mágico puxando do bolso uma corrente infinita de lenços coloridos. Curiosamente, mesmo após ter obtido sucesso internacional, tornou-se famoso nos círculos literários por fazer qualquer coisa, menos escrever. Sua impressionante falta de autoconfiança ante a enorme evidência de que era um gênio muitas vezes chegou a incapacitá-lo a tal ponto que simplesmente não conseguia enfileirar duas palavras. Não estava brincando totalmente quando disse: “Amo os prazos. Amo a pressão surda que geram quando se aproximam.” Editoras e editores, frustrados, tentaram diversos truques inteligentes para fazer com que sua criatividade fluísse, de forma que ele conseguisse terminar seus livros a tempo de colocá-los nas prateleiras antes da próxima era do gelo. Aparentemente, as melhores soluções parecem ter sido trancá-lo dentro de um cofre de banco ou então dentro de um quarto sem janelas, sem telefone, sem fax, sem conexão com a Internet sem nem mesmo uma portinhola de escape. Embora este livro que você acaba de comprar tenha sido um sucesso imediato, o percurso de Douglas Adams jamais foi previsível. Em um determinado momento, com suas ocupações literárias temporariamente “em suspenso”, ele foi empregado como “limpador de galinheiros e guarda-costas da família governante de Qatar”.3 Depois de entrar de cara em numerosos becos sem saída, finalmente encontrou seu lugar ao produzir a série de rádio da BBC em que este livro é baseado.
Embora declarasse ser “um ateu radical”, seus livros demonstram um sentido claro e nítido de justiça e compaixão universais. No início achei isso um pouco estranho e pensei que talvez ele estivesse apenas demonstrando sua enorme inteligência enquanto debochava da crendice pia dos fanáticos religiosos, mas em algum momento compreendi o que ele realmente queria dizer. Uma posição radicalmente ateísta pode até significar que sua vida é uma corrida rumo ao esquecimento, mas ao menos você pode fazer isso com estilo. Como você se comporta hoje, o que você faz com cada momento, como você explora os talentos e as oportunidades à sua disposição são coisas muito mais importantes para um ateu genuíno do que para os devotos mais religiosos. Longe de perder o sentido, o que você faz nesta vida subitamente torna-se incrivelmente importante, já que você só tem essa única possibilidade de fazer a coisa certa, de mudar alguma coisa, de contribuir de alguma forma para aqueles que você ama ou que seguirão seus passos.
Um homem apaixonado em  suas    convicções, Adams usou sua importância, intelecto e tremenda energia para contribuir de várias formas. Com seus livros, artigos, aparições públicas e donativos, Douglas Adams inspirou mudanças positivas e apoiou diversas causas significativas. Sua paixão por animais selvagens nunca esteve mais presente do que quando viajou ao redor do mundo com o zoólogo Mark Cawardine para documentar as espécies em risco de extinção para seu maravilhoso livro Last Chance to See (Última oportunidade para ver). E não parou nisso, pois ele seguiu em frente, transformando-se no energético e carismático patrono tanto do Diana Fossey Goriila Fund quanto do Save the Rhino International. Entre suas muitas ações para apoiar este último, houve a famosa vez em que escalou o Kilimanjaro, fantasiado de rinoceronte, para ajudar a divulgar sua causa.
Aparentemente não houve um assunto sequer sobre o qual não tenha se interessado. Sua crítica social afiada é recoberta pelo mais fino humor, tornando-se por vezes áspera e adoravelmente ofensiva de uma forma que muitas vezes parece a nós, australianos, ser essencialmente a nossa própria. A educação, ou            a falta dela, frequentemente emergia em seu descontentamento de várias formas. Tricia Macmillan (com quem você irá se encontrar em breve) é provavelmente a mais espantosa celebração da subclasse intelectual oprimida que já encontrei na ficção contemporânea. Ele também se preocupava muito em transmitir a ideia de que os recursos naturais eram finitos e estão acabando, com avisos ecológicos ocultos em quase tudo que escreveu.
A tecnologia era uma enorme paixão de Douglas Adams, que provavelmente possuiu e usou mais computadores da marca Apple do que qualquer outra pessoa, a não ser talvez o próprio Steve Jobs. Ele era um tanto peculiar nesse ponto, pois achava que a tecnologia poderia ser usada para salvar nosso planeta de quase todos os males, incluindo o tédio e a extinção da espécie. Essa noção o colocava em franca oposição com muitos conservadores mais prosaicos, os quais ansiavam pelo retorno das carroças puxadas a cavalo, talvez para que o ruído agradável dos cascos batendo ao longe os distraísse do aumento exponencial nas emissões de gases que causam o efeito estufa. Ele lutou até o fim pela visão de que as novas tecnologias são a extensão mais natural da mente humana.
Como um todo, Douglas Adams era um indivíduo extraordinário, que deixou um enorme vazio nesta dimensão quando morreu subitamente de um ataque cardíaco, no dia 11 de maio de 2001. Muitas pessoas sentem uma enorme falta dele, mesmo aquelas como eu que nunca apertaram sua mão. Depois de ler este livro você entenderá o porquê.
Esta edição da Editora Sextante do Guia do Mochileiro das Galáxias tem sido esperada por um longo tempo. Contudo, dentro de umas 100 páginas, estou certo de que você concordará comigo que a espera valeu a pena. A genialidade de Douglas Adams e a forma como ele usa as situações mais absurdas para nos fazer rir certamente encontrarão ecos no amor pela vida e no bom humor que meus amigos brasileiros têm de sobra.
Divirta-se!.
BRADLEY TREVOR GREIVE
Autor de Um Dia “Daqueles”


1 Richard Dawkins. The Guardian, 14 de maio de 2001.
2 John & Mary Gribbin. Richard Feynman: Uma vida na ciência, Viking, 1997.
3 Nicholas Wroe. The Guardian, junho 3, 2000.

4 comentários:

  1. É bem louca e inesperada a narração... fiquei um pouco confusa mas ainda assim é interessante husauhashu

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  2. "(...)embora seja consenso geral que Einstein era melhor dançarino de funk."
    Como é que é aí?

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  3. Interessante, me deixou curiosa pra ler até o fim

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Boa leitura :)