15 de novembro de 2017

Epílogo

Entre 1917 e 1922, Anton e Marie Leville viveram numa casinha perto da margem de um lago na cidade suíça de Montreux. Eram um casal sossegado, pouco afeito a receber, mas aparentemente muito feliz. Madame Leville trabalhava como garçonete num restaurante local. Ela é lembrada como eficiente e simpática, mas também como uma pessoa que não era de muita conversa. (“Uma qualidade rara numa mulher”, observaria o proprietário olhando de soslaio para a sua esposa.)
Todas as noites, às quinze para as nove, Anton Leville, um homem alto, de cabelo escuro, com um andar desajeitado, podia ser visto fazendo a pé o percurso de quinze minutos até o restaurante, onde aguardava do lado de fora depois de ter feito da porta um cumprimento com o chapéu ao gerente. Dava o braço à esposa quando ela saía, e voltavam juntos, diminuindo o passo de vez em quando para apreciar o pôr do sol no lago ou uma vitrine particularmente decorativa.
Isso, segundo seus vizinhos, era a rotina do casal em todos os seus dias úteis, e eles raramente a modificavam. Às vezes, Madame Leville enviava pacotes pelo correio, pequenos presentes, para um endereço no Norte da França, mas, fora isso, os dois pareciam pouco se interessar pelo mundo fora dali.
Nos fins de semana, os Leville tendiam a ficar em casa, mas de vez em quando saíam para ir a um café do bairro, onde, com o tempo bom, passavam várias horas jogando cartas ou sentados de mãos dadas sem dizer nada, aproveitando a companhia um do outro.
— Meu pai brincava com Monsieur Leville dizendo que o vento não levaria Madame se ele a largasse um minutinho — contou Anna Baertschi, que crescera na casa ao lado. — Ele dizia à minha mãe que achava meio inconveniente ficar tão grudado com a esposa em público.
Pouco se sabia da vida de Monsieur Leville, a não ser que parecia ter uma saúde precária. Presumia-se que tivesse uma espécie de rendimento privado.

* * *

Uma vez, ele se ofereceu para pintar o retrato de dois dos filhos dos vizinhos, mas, dada a sua estranha escolha de cores e seu estilo não convencional, os quadros não tiveram muito boa aceitação.
Quase todos os cidadãos eram unânimes em preferir o estilo mais nítido e as imagens mais realistas de Monsieur Blum, ao lado do relojoeiro.

* * *

O e-mail chega na véspera de Natal.

Tudo bem. Então, oficialmente, eu sou péssima profetisa. E talvez péssima amiga. Mas gostaria muito de ver você, caso não tenha andado usando as habilidades que lhe ensinei para fazer bonecas de vudu me representando. (Isso é totalmente possível, tenho tido umas dores de cabeça fortes ultimamente. Se foi você, ofereço de má vontade minha admiração.)
A coisa com Ranic não está dando muito certo. Dividir um apartamento de dois quartos com quinze funcionários de hotel do Leste Europeu não é nenhuma maravilha. Quem poderia imaginar? Consegui um lugar novo por meio da Gumtree com um contador que está transando um lance de vampiro e parece achar que morar com uma pessoa que nem eu vai encher a bola dele. Acho que ele está meio decepcionado por eu não ter abastecido a geladeira de cadáveres de bichos atropelados nem lhe oferecido uma tatuagem feita em casa. Mas tudo bem. Ele tem tevê a cabo e, em dois minutos a pé, estou na casa de assistência social, de modo que não tenho mais desculpa para não chegar para mudar a bolsa da Sra. Vincent. (Não pergunte.)
Enfim, estou feliz por você ter conseguido manter o quadro. De verdade.
E sinto muito por não ser nada diplomática. Sinto sua falta.
Mo

— Convide ela — diz Paul, olhando por cima do ombro. — A vida é muito curta, não é?
Ela digita o número da amiga sem pensar duas vezes.
— E aí, o que você vai fazer amanhã? — pergunta, antes de Mo conseguir falar.
— Esta pergunta é uma pegadinha?
— Quer vir aqui em casa?
— E perder a reclamação dos meus pais, um controle remoto com defeito e a edição de Natal do Radio Times? Está brincando comigo?
— Espero você às dez. Estou fazendo comida para cinco mil pessoas, aparentemente. Preciso de ajuda com as batatas.
— Estarei aí. — Mo não consegue disfarçar a alegria. — Posso até levar um presente. Um que comprei mesmo. Ah. Mas lá pelas seis tenho que dar uma fugida para ir cantar para os velhinhos.
— Você tem mesmo coração.
— É. Você deve ter errado a última espetada.

* * *

O bebê Jean Montpellier morreu de gripe nos últimos meses da guerra. Hélène Montpellier entrou em choque e não chorou quando a funerária veio pegar o corpinho do menino, nem quando ele foi sepultado. Continuou tendo um comportamento aparentemente normal, abrindo o bar do Le Coq Rouge nas horas designadas e dispensando todas as ofertas de ajuda, mas era, recorda o prefeito, em seus diários da época, “uma mulher bloqueada”.
Édith Béthune, que assumira em silêncio muitas das responsabilidades de Hélène, descreve certa tarde, muitos meses depois, quando chegou à porta um homem uniformizado, magro e de aspecto cansado, o braço esquerdo na tipoia.
Édith estava secando copos e esperou que ele entrasse, mas ele se limitou a ficar parado no degrau, olhando com uma expressão estranha. Ela lhe ofereceu um copo d’água, e, como ele não saiu do lugar, ela perguntou:
— Devo chamar Madame Montpellier?
— Sim, menina — respondeu ele, inclinando a cabeça. Ficara ligeiramente com a voz meio embargada quando falou. — Sim, por favor.
Ela descreve os passos vacilantes de Hélène entrando no bar, sua expressão de incredulidade, e como ela largou a vassoura, segurou as saias e partiu para cima do homem, como um míssil, gritando tão alto que St Péronne inteira ouviu, e até os vizinhos, endurecidos pelas próprias perdas, ergueram os olhos, interrompendo o que quer que estivessem fazendo, e enxugaram as lágrimas.
Ela se lembra de estar sentada nos degraus em frente ao quarto deles, ouvindo os soluços abafados dos dois chorando pelo filho perdido. Observa, sem autopiedade, que apesar do afeto que tinha por Jean, não chorou. Depois da morte de sua mãe, conta, nunca mais chorou.
A história registra que, nos anos em que esteve nas mãos da família Montpellier, o Le Coq Rouge só fechou uma vez: por um período de três semanas, em 1925. Os cidadãos se lembram que, um belo dia, sem dar explicações a ninguém, Hélène, Jean-Michel, Mimi e Édith simplesmente fecharam as persianas, trancaram as portas e desapareceram, deixando um aviso de “en vacances” pendurado na porta. Isso rendeu um grau de consternação considerável na cidadezinha, duas cartas de reclamação para o jornal da região e um aumento considerável da freguesia do Le Bar Blanc. Na volta, quando lhe perguntaram onde estivera, Hélène respondera que viajara com a família para a Suíça.
— Consideramos o ar ali especialmente bom para a saúde de Hélène — dissera Monsieur Montpellier.
— Ah, sem dúvida é — retrucara Hélène, com um leve sorriso. — Muito restaurador.
Consta que Madame Louvier comentou em seu diário que uma coisa era os hoteleiros viajarem subitamente para o estrangeiro sem dar satisfações a ninguém, mas outra bem diferente era voltarem parecendo muito satisfeitos consigo mesmos por terem feito isso.

Eu nunca soube o que aconteceu com Sophie e Édouard. Sei que estiveram em Montreux até 1926, mas Hélène era a única em contato regular, e ela morreu de repente em 1934. Depois disso, minhas cartas voltaram com o carimbo Devolver ao Rementente.

Édith Béthune e Liv trocaram quatro cartas com informações ocultas durante muito tempo, preenchendo as lacunas da história. Liv começou a escrever um livro sobre Sophie, tendo sido procurada por duas editoras. O livro é, francamente, aterrador, mas Paul lhe pergunta quem mais está qualificado para escrevê-lo.
A letra da mulher mais velha é firme para alguém de idade avançada, é regular e tem boa inclinação. Liv chega mais perto da lâmpada de cabeceira para lê-la.

Escrevi para uma vizinha, que disse ter sabido que Édouard adoecera, mas não podia oferecer nenhuma prova. Com o passar do tempo, outros comunicados como este me levaram a pensar o pior. Uns se lembravam dele adoecendo, outros se lembravam de Sophie como aquela cuja saúde falhava. Alguém disse que eles haviam simplesmente desaparecido. Mimi pensou ter ouvido sua mãe dizer que eles haviam se mudado para um lugar mais quente. Eu já havia me mudado tantas vezes àquela altura que Sophie não teria como me encontrar.
Sei a que conclusão o bom senso me faria chegar a respeito de duas pessoas frágeis, já fisicamente tão castigadas pela inanição e pelo encarceramento. Mas sempre preferi pensar que sete, oito anos após a guerra, não sendo responsáveis por ninguém, talvez, eles tenham se sentido suficientemente seguros para seguir em frente e simplesmente tenham feito as malas e ido embora. Prefiro imaginar que estivessem pelo mundo, talvez em climas mais ensolarados, felizes como tinham estado nas nossas férias, bastando-se a si próprios.

Em volta dela, o quarto está ainda mais vazio que de costume, pronto para sua mudança na semana seguinte. Ela ficará no pequeno apartamento de Paul. Talvez ela compre uma casa para si mesma, mas nenhum deles parece com pressa de continuar esta conversa.
Ela olha para ele dormindo a seu lado, ainda impressionada com quanto é bonito, com a silhueta dele, a simples alegria de tê-lo ali. Pensa em algo que seu pai lhe dissera na cozinha no Natal enquanto enxugava os pratos que ela lavava, e os outros jogavam barulhentos jogos de tabuleiro na sala da frente. Ela erguera os olhos, impressionada com seu silêncio atípico.
— Sabe, acho que David teria gostado bastante dele.
Não olhou para ela, mas continuou secando os pratos.
Ela enxuga os olhos, como faz com frequência quando pensa nisso (está muito emotiva no momento) e torna a ler a carta.

Agora sou uma velha e talvez não viva para ver isso, mas acho que um dia vai aparecer uma série de quadros de origem desconhecida, lindos e estranhos, de cores inesperadas e ricas. Representarão uma mulher ruiva à sombra de uma palmeira, ou talvez olhando para um sol amarelo, o rosto um pouquinho mais velho, aquele cabelo com uns toques grisalhos, mas o sorriso aberto e os olhos cheios de amor.

Liv fita o retrato em frente à sua cama, e a jovem Sophie olha para ela também, iluminada pela luz dourada da lâmpada. Liv lê a carta de novo, estudando as palavras, os intervalos entre uma e outra. Torna a pensar no olhar de Édith Béthune: equilibrado e inteligente. E então lê mais outra vez.
— Ei. — Paul rola sonolento para o lado dela. Estica o braço e a puxa para ele. Sua pele é quente e seu hálito, doce. — O que está fazendo?
— Pensando.
— Isso é um perigo.
Liv pousa a carta, se enfia debaixo do edredom e fica de frente para ele.
— Paul.
— Liv.
Ela sorri. Sorri sempre que olha para ele. E suspira.
— Você sabe que é muito bom para encontrar coisas...

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Boa leitura :)