30 de novembro de 2017

Cena deletada

Sob a luz do amanhecer, a Ponte Blackfriars era estranhamente adorável, como uma ponte fantasma arqueando sobre as águas de uma cidade imaginária.
Emma estava de pé em um dos parapeitos, fitando a água abaixo. Não tinha conseguido dormir, embora tivesse passado horas tentando, revirando-se para lá e para cá no quarto que — Evelyn lhe dissera — tinha pertencido a Tessa Gray antes de se casar com Will Herondale, e que depois viera a pertencer à sua filha, Lucie.
Mas ela não estava pensando em Will. Estava pensando no outro menino que tinha amado Tessa: seu próprio ancestral, Jem Carstairs. Era aqui nesta ponte, com a visão enevoada da catedral de St. Paul, que eles se encontravam todos os anos. Eles viram a linha do trem ao lado da ponte ser construída, derrubada e reerguida. Assim como Emma, eles teriam sido capazes de enxergar o pináculo do Instituto, de um branco pálido como a torre de um bolo de casamento, erguendo-se como parte do horizonte que nenhum mundano podia ver.
Eles teriam visto as carruagens se transformando em ônibus vermelhos de dois andares, que zuniam em ambas as direções. As lâmpadas a gás se tornando elétricas. Anáguas virarem saias estilo melindrosa e então jeans.
Emma se ergueu até a mureta de pedra da ponte. O vestido se enrolou em suas pernas por causa do vento que vinha do rio. A água tinha a cor dos olhos de mel, um tipo de azul-castanho-esverdeado, e ela se perguntava se costumava ser assim quando Jem e Tessa eram jovens, se eles costumavam admirar a trilha dos barcos no Tâmisa respingando nos pilares.
Eis uma história de amor, pensou ela, que fora bem-sucedida, apesar de todos os obstáculos.
Mas nem todos tinham essa sorte.
Emma encolheu os dedos dos pés dentro das botas. Estava usando um feitiço de disfarce, assim os poucos pedestres que se apressavam para o trabalho, com golas levantadas por conta da névoa, não conseguiriam enxergá-la. Ela queria gritar, pular ou dançar, qualquer coisa para livrar da ansiedade que se enroscava pelo seu corpo, da pressão de saber que a família que ela tanto amava estava em perigo, que Julian estava em perigo, vindo de todas as direções. Ela queria explodir e sair da própria pele. Queria pegar Cortana e abrir caminho entre mil cavaleiros Unseelie.
Queria conversar com Jules. Mas nem isso podia fazer.
Alguma coisa a cutucou, como a mão invisível de alguém puxando sua manga. Ela se virou e o viu do outro lado da ponte.
Julian. Ele cruzou a ponte, sem pressa, com as mãos nos bolsos do jeans. Conforme foi se aproximando, ela notou que ele parecia cansado, muito cansado, com olheiras circulando os olhos e um restolho de barba escurecendo o queixo e a mandíbula.
Ela baixou o olhar em sua direção, quando ele parou ao seu lado.
— Como você me encontrou? — perguntou ela.
— Você é minha parabatai — retrucou ele. — Eu sempre vou conseguir te encontrar.
— Está tudo bem? — Emma pulou da mureta e começou a espanar a poeira do casaco de leve. Ela o encontrara em um dos depósitos do Instituto: era azul-claro, com detalhes de renda desbotada nas laterais.
— São cinco da manhã — observou ele. — Você sumiu. Eu fiquei preocupado.
— E lacônico — comentou ela. — Muito lacônico.
Julian deu um sorrisinho sem graça.
— Você sabia que a palavra "lacônico" vem do grego Lakônikos, o outro nome dos espartanos? Eles eram conhecidos pela concisão.
— E por abandonar crianças pouco obedientes em despenhadeiros gelados.
— Eu tentei fazer isso com Dru, mas ela me mordeu — retrucou Julian. Parte da tensão abandonando seus ombros, aí ele se aproximou um pouco mais de Emma no parapeito. Ambos fitaram a água abaixo, erguendo-se, respingando e formando cristas. Não era o Oceano Pacífico, mas era alguma coisa.
— É esquisito, não? — falou Emma. — Eu tenho a sensação de que já estive aqui.
— Eu também. Talvez porque a gente tenha ouvido falar daqui muitas vezes. — Eles ficaram em silenciosa contemplação por alguns momentos. Era verdade, eles tinham ouvido a história muitas vezes; de Jem, Tessa, e até de Diana. Jem era um nome famoso entre os Caçadores de Sombras, por ter sido Irmão do Silêncio durante muitos anos e então ter voltado literalmente numa chama de fogo celestial.
Emma sempre tinha a sensação de que, para Tessa, ele não era nenhuma dessas coisas — Irmão do Silêncio ou guerreiro ressuscitado em fogo. Ele era apenas Jem, que sempre fora seu amigo. Mesmo quando ela amara e se casara com outra pessoa, ele fora seu amigo.
Emma se perguntava se um dia seria capaz de lidar assim com Julian. Talvez ele se casasse com outra pessoa: será que ele ainda a amaria como amiga? Será que concordaria com encontros como este, uma vez ao ano, só os dois, sem a presença da mulher?
A mulher dele. De repente, Emma sentiu como se fosse vomitar no rio. Pensou na menina fada na festa, no momento em que Jules a beijou. E aí pensou que a dor sentida naquele dia seria apenas uma picadinha em comparação à ferida de espada que ela sentiria quando Julian realmente se apaixonasse por outra pessoa.
Pelo visto, ele estava achando que sua aparência doente era por causa da preocupação; pôs a mão sobre a dela na pedra e Emma sentiu seus dedos se dobrarem imponentemente.
— Eu também não consegui dormir. Fiquei pensando no que poderia acontecer com o Instituto. No início, quando Arthur morreu, eu senti... — Seu rosto endureceu.
— Alívio. — Emma sabia sem nem precisar perguntar. — Era uma coisa que você não precisava mais manter em segredo.
— Pode acreditar eu me odeio por isso. Mas depois percebi que, sem Arthur, nós temos basicamente o mesmo problema de antes. Quem concordaria em dirigir o Instituto sem nos separar? Em quem nós poderíamos confiar em relação a Ty? E agora temos que cuidar de Kit, esse Herondale secreto, isso sem falar em Kieran e Deus sabe quem mais da Corte das Fadas que pode aparecer...
— Nós não somos uma família normal — falou Emma.
— Foi esse eufemismo que fez Jonathan Caçador de Sombras se levantar do túmulo.
— Nós poderíamos pedir à Clave — falou ela. — Para trazer de volta...
— Helen? Você sabe que eles não a deixariam dirigir um Instituto, não com o sangue fada.
— Eu estava pensando em Aline — falou Emma. — Ela é uma Caçadora de Sombras. Tem idade para isso. Ela poderia dirigir o Instituto; Helen simplesmente estaria lá no papel de esposa.
Julian passou um dedo bronzeado pela pedra talhada da mureta.
— É uma boa ideia. Ainda teríamos que pedir à Clave que permitisse isso.
— Cristina também tem idade para isso — falou Emma.
— Cristina? — Julian pareceu incrédulo, depois sorriu. — Acho que ela tem idade para isso. Sempre penso que ela tem a nossa idade, mas ela está na metade do intercâmbio; não sei se eles a deixariam interrompê-lo para assumir o Instituto.
— Jace e Clary tinham 19 anos — falou Emma.
— E eram heróis famosos da Clave. Como os seus Jem e Tessa.
— Eles não são os meus Jem e Tessa. Quero dizer, ele é meu tataratio ou algo assim, mas parece mais um primo do que qualquer outra coisa.
— Eles se encontravam nessa ponte todos os anos, não é?
Emma fez que sim com a cabeça.
— Eu estava pensando em como deve ter sido. Observar o mundo mudar ao redor. Cavalos e carruagens se transformarem em carros. Lâmpadas elétricas e torres de energia...
— Eles se encontravam mesmo quando ela era casada — falou Julian. — Isso não parece... traição?
Emma olhou para ele, surpresa. Julian fitava o rio, conforme a luz da aurora se intensificava, iluminando as pontas de seus cílios, transformando-as em franjas cor de âmbar.
— Não — retrucou ela. — Will sabia.
— Tenho certeza de que ele a deixava fazer o que ela queria. Ele a amava e não teria gostado de dizer não — falou ele.
— Quando você ama alguém, quer que a pessoa seja feliz — falou Emma. — Não quer invejar sua felicidade, não quer que ela estrague a vida ficando de luto por você. Você quer que ela ame outras pessoas também porque o amor faz sua vida parecer mais plena...
Ela se calou, assustada. Não queria ter dito tanta coisa.
Ele semicerrou os olhos.
— Como você sabe disso?
A selvageria abrupta da pergunta foi como um tapa.
— Você sabe que eu quero que você seja feliz.
Julian se afastou do parapeito e se virou para encará-la.
— Eu não estava falando de mim.
— Então estamos falando de quem? — Ela se sentiu tonta, sem equilíbrio, e se recostou contra a mureta, grata por ter alguma coisa na qual se apoiar. — Jules?

* * *

— Jules? — Era como se a voz dela estivesse vindo de muito longe, abafada, como se a água tivesse levado sua força. As águas do rio tinham um cheiro próprio de metal, gasolina e manhã urbana; não lembrava nem um pouco o sal do oceano. A umidade da névoa que a trazia penetrara nos ossos de Julian.
— É tão fácil para você separar amor e amizade. Tão fácil — retrucou ele.
— Não é — murmurou ela. — Não é fácil. É apenas o que preciso fazer.
No fundinho de sua mente, ele a viu tocar o rosto de Mark ou talvez fosse o seu rosto mesmo. Ele sentia as marcas dos dedos dela em sua bochecha.
— Você falou que eu estava diferente — disse ele. — Na Corte Seelie, você falou que eu estava diferente.
Os cabelos dela estavam soltos e caíam em volta do rosto. A névoa se misturava às mechas louras-claras. Ela retribuiu o olhar dele, direta e desafiadora.
— Eu falei sério.
— Mas você ainda não sente nada — falou. Ele pôs a mão no ombro de Emma e a deslizou para a curva quente de seu pescoço. A outra mão envolveu a lateral da cintura dela. Ele podia ouvir as batidas do coração dela. — Não quando faço isto.
Julian estava emergindo no desejo, seu controle se despedaçava feito vidro lançado de uma janela após uma explosão. Ele quase conseguia imaginar ouvir os cacos chovendo no chão abaixo deles. Os pedaços estilhaçados de sua força de vontade. De sua vida.
— Eu sinto tudo quando estou com você. — Os lábios dele estavam abaixo da orelha de Emma; ele a beijou na pele clara e sensível ali, e ela estremeceu. Aí sentiu o corpo dela roçar no dele, e as estrelas negras de desejo explodiram sob suas pálpebras. Julian foi dominado pela sensação. O cheiro de Emma, os cabelos dela contra seu rosto. O corpo era todo calor e maciez. Emma tinha gosto de sal e sabonete. Meio ofuscado com isso, ele passou o braço em volta das costas dela e a apertou com mais força contra si. Ela devia saber. Tinha que saber.
— Você sente alguma coisa? — perguntou ele, e a beijou.
Foi um beijo lento. Ele queria que ela fosse capaz de empurrá-lo, se quisesse, mas ela permaneceu onde estava, congelada e ardendo. Os nós dos dedos dela estavam brancos sobre a mureta, mas os lábios ergueram-se para os dele mesmo assim, pressionando avidamente, abrindo-se para o mordiscar gentil dos dentes dele. Ela arfou colada à boca de Julian, aprumou-se para ele, deslizando pelo corpo dele de um modo que fez seu coração parecer prestes a explodir.
Ele se afastou. Ela o encarava, sem fôlego, tocando os lábios com os dedos. Seus olhos estavam úmidos, embora ele não soubesse se era lágrimas ou o vento cortante.
Ele queria beijá-la outra vez, beijá-la até que nenhum deles conseguisse respirar mais, queria enterrar as mãos nos cabelos dela, perder-se no prazer incontrolável que sabia que seus corpos poderiam lhe dar. Ele queria Emma. A única mulher que ele já desejara e a única que ele sempre desejaria.
— E agora? — perguntou ele, tentando obrigar a sua voz a sair com firmeza para passar a ilusão de controle, embora em seu coração ele soubesse que mal conseguia se controlar. Desespero e desejo, amarrados bem apertados, pulsavam em seu sangue. — Diga-me o que você está sentindo, Emma.
Ela o encarou. Nos olhos arregalados, ele viu uma praia, gaivotas voando em círculos, o rosto aflito. Ele ouviu a própria voz ecoando pelos dias.
— Eu te amo, Jules — falou ela. — Eu te amo. Só que não desse jeito.

9 comentários:

  1. Muito bom

    Ass : bruno

    ResponderExcluir
  2. Não entendi essa parte? Onde ela se encaixa no livro?? (Pq acho que eles não estariam nesse love todo depois daquele final)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, ficou até meio sem nexo isso aqui. Ela está inserida no meio do livro... reparem que eles estão em Londres, após voltarem do Reino das Fadas

      Excluir
  3. dinovo! Assim não dá! ela está mentindo denovo!😍vcs se amam!

    ResponderExcluir
  4. ALGUÉM ME EXPLICA ESSE FINAL POR FAVOR, QUER DIZER Q ELA N GOSTA DELE NO SEMTIDO PREGAÇÃO? QUE MERDA ESSA AUTORA FEZ, MATOU A LIVVY E QUANDO O PAI DO ALEc PARECE TA FICANDO LEGAL MATA ELE TBM? PQ N MATA A CLARY JA TA FALANDO SOBRE A MORTE DELA MSMO

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Né! Não acredito que ela matou Robert! Ele ia ajudar Emma e Julian! Entendia!
      E essa cena se passa no começo do livro. Em Londres. Emma ainda estava mentindo, ela ama Julian sim

      Excluir
  5. Ata essa cena aconteceu antes?

    ResponderExcluir
  6. Como ela tirou isso? Ficou tão boom

    ResponderExcluir
  7. Triste por ter acabado e ter que esperar mais um ano pelo próximo T-T
    Ana Santos

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)