20 de novembro de 2017

Capítulo 9

Um computador disparou, quando percebeu que uma câmara de descompressão abriu-se e fechou-se sozinha, sem nenhuma razão. Isto porque a Razão, naquele exato momento, estava tomando um cafezinho.
Um buraco acabara de aparecer na Galáxia. Tinha exatamente um zerézimo de centímetro de largura e muitos milhões de anos-luz de comprimento.
Quando se fechou, um monte de chapéus de papel e balõezinhos de borracha saíram dele e se espalharam pelo Universo. Um grupo de sete analistas de mercado de um metro e meio de altura também saiu do buraco e morreu logo em seguida, em parte por asfixia, em parte por espanto.
Duzentos e trinta e nove mil ovos estrelados também saíram, materializando-se sob a forma de uma grande omelete na terra de Poghril, no sistema de Pansel, onde havia muita fome.
Toda a tribo de Poghril morrera de fome, com exceção de um último homem que morreu de intoxicação por colesterol algumas semanas depois. O zerézimo de segundo durante o qual o buraco existiu teve as mais improváveis repercussões no passado e no futuro. Num passado remotíssimo, ele causou perturbações profundas num pequeno grupo aleatório de átomos que cruzavam o espaço vazio e estéril, fazendo com que se agrupassem das maneiras mais extraordinárias. Estes agrupamentos rapidamente aprenderam a se reproduzir (era essa uma das características mais extraordinárias deles) e acabaram causando perturbações muito sérias em todos os planetas onde foram parar. Foi assim que começou a vida no Universo.
Cinco selvagens Redemoinhos de Eventos formaram-se, numa violenta tempestade irracional, e vomitaram uma calçada.
Na calçada, arquejantes como peixes moribundos, estavam Ford Prefect e Arthur Dent.
— Eu não disse? — exultou Ford, ofegante, tentando agarrar-se à calçada, que neste momento atravessava o Terceiro Domínio do Desconhecido. — Eu disse que ia pensar em alguma coisa.
— É, é claro — disse Arthur. — Claro.
— Grande ideia minha — disse Ford — achar uma nave passando por perto e ser salvo por ela.
O universo real se retorcia sob eles, assustadoramente. Diversos universos falsos passavam silenciosamente por ali, como cabritos monteses. A luz primai explodiu, espirrando pelo espaço-tempo como coalhada derramada. O tempo floresceu, a matéria encolheu. O maior número primo se acocorou quietinho num canto, para nunca mais ser descoberto.
— Ah, essa não — disse Arthur. — A probabilidade de isso acontecer era infinitesimal.
— Não reclame, deu certo — disse Ford.
— Que espécie de nave é essa? — perguntou Arthur. A seus pés, o abismo da eternidade bocejava.
— Não sei. Ainda não abri os olhos.
— Nem eu.
O Universo saltou, congelou, estremeceu e espalhou-se em diversas direções inesperadas.
Arthur e Ford abriram os olhos e olharam ao redor, muito espantados.
— Meu Deus — disse Arthur —, isso aqui é igualzinho ao calçadão da praia de Southend.
— Pô, é um alívio ouvir você dizer isso — disse Ford.
— Por quê?
— Porque achei que estava ficando maluco.
— E talvez esteja mesmo. Talvez você tenha apenas imaginado que eu disse isso.
Ford pensou nesta possibilidade.
— Bem, afinal, você disse ou não disse? — perguntou ele.
— Acho que sim.
— Vai ver, nós dois estamos ficando malucos.
— É — concordou Arthur. — Pensando bem, só mesmo um maluco poderia pensar que isso aqui é Southend.
— Bem, você acha que isso aqui é mesmo Southend?
— Acho, sim.
— Eu também.
— Portanto, devemos estar malucos.
— Um bom dia pra ficar maluco.
— É — disse um maluco que passava por ali.
— Quem é esse? — perguntou Arthur.
— Quem? Aquele cara com cinco cabeças e com um pé de sabugueiro carregadinho de filhotes de salmão?
— É.
— Não sei, não. Um cara qualquer.
— Ah.
Ficaram os dois sentados na calçada, vendo, um pouco preocupados, crianças enormes quicando pesadamente na areia e cavalos selvagens correndo pelo céu, levando grades reforçadas para as Regiões Incertas.
— Sabe — disse Arthur, com um pigarro —, se estamos mesmo em Southend, tem alguma coisa esquisita aqui...
— Você está se referindo ao fato de que o mar está parado como uma pedra e os edifícios formam ondas sem parar? — perguntou Ford. — É, eu também estranhei. Aliás — acrescentou ele no momento em que, com uma grande explosão, Southend partiu-se em seis pedaços iguais, que começaram a rodar um ao redor do outro, com gestos lascivos e lúbricos —, no geral, há alguma coisa bem esquisita por aqui.
Uma barulhada infernal de canos e cordas veio trazida pelo vento; bolinhos quentes pipocaram do chão, a dez pence cada um; peixes horrorosos choveram do céu, e Arthur e Ford resolveram sair correndo.
Atravessaram densas muralhas de som, montanhas de pensamento arcaico, vales de música suave, péssimas sessões de sapatos e morcegos bobos, e de repente ouviram uma voz feminina.
Parecia uma voz bastante sensata, porém ela disse apenas o seguinte:
— Dois elevado a 100 mil contra um e diminuindo. — Mais nada. Ford escorregou por um raio de luz e correu para todos os lados tentando descobrir de onde vinha a voz, mas não encontrou nada em que pudesse realmente acreditar.
— Que voz foi essa? — gritou Arthur.
— Não sei, não — gritou Ford. — Não sei. Parecia um cálculo de probabilidade.
— Probabilidade? Como assim?
— Probabilidade. Assim, tipo dois contra um, três contra um, cinco contra quatro. A voz falava numa probabilidade de dois elevado a 100 mil contra um. É uma probabilidade mínima.
— Um vasilhame contendo um milhão de litros de creme de leite despejou-se sobre eles. Mas o que significa isto? — exclamou Arthur.
— O que, o creme de leite?
— Não, esse cálculo de probabilidade.
— Não sei. Não faço ideia. Acho que estamos em algum tipo de espaçonave.
— Uma coisa eu garanto — disse Arthur. — Esta não é a primeira classe.
A textura do espaço-tempo começou a formar calombos, calombos grandes e feios.
— Haaaaauuuurgghhh... — disse Arthur, sentindo que seu corpo amolecia e dobrava-se em direções inusitadas. — Southend parece estar se desmanchando... as estrelas estão rodopiando... poeira pra todo lado... minhas pernas estão resvalando para o poente... meu braço esquerdo se soltou do corpo também...
 Ocorreu-lhe um pensamento assustador:
— Pô, como é que eu vou mexer no meu relógio digital agora? — Revirou os olhos, em desespero, na direção de Ford. — Ford — disse ele —, você está virando um pinguim. Pare com isso.
A voz ouviu-se mais uma vez:
— Dois elevado a 75 mil contra um e diminuindo.
Ford rodopiava em sua poça, num círculo furioso.
— Ei, quem é você? — disse ele, com voz de Pato Donald.
— Onde é que você está? O que está acontecendo aqui? E como é que a gente pode parar com isso?
— Por favor, relaxem — disse a voz, num tom agradável, como uma aeromoça em um avião com apenas uma asa e dois motores, um dos quais pegando fogo. — Vocês não estão correndo o menor perigo.
— Mas não é essa a questão! — disse Ford, irritado. — A questão é que agora sou um pinguim que não corre o menor perigo, e meu amigo daqui a pouco não vai ter mais membros para perder!
— Tudo bem, eles já voltaram — disse Arthur.
— Dois elevado a 50 mil contra um e diminuindo — disse a voz.
— É bem verdade — disse Arthur — que eles estão um pouco mais compridos do que eu estou acostumado, mas...
— Será que você não podia — grasnou Ford, com fúria — nos dizer uma coisa um pouco mais concreta?
A voz pigarreou. Um petit-four gigantesco foi galopando em direção ao infinito.
— Bem-vindos — disse a voz — à nave Coração de Ouro. Prosseguiu a voz:
— Por favor, não se assustem com nada do que virem ou ouvirem. É de esperar que vocês sintam certos efeitos negativos, já que foram salvos de uma morte certa, numa probabilidade de dois elevado a 276 mil contra um, ou talvez muito mais. Estamos no momento viajando a um nível de dois elevado a 25 mil contra um e diminuindo, e estaremos voltando à normalidade assim que tivermos a certeza do que é de fato normal. Obrigado. Dois elevado a 20 mil contra um, diminuindo.
 A voz calou-se. Ford e Arthur viram-se num pequeno cubículo rosado e luminoso. Ford estava excitadíssimo.
— Arthur! — exclamou ele. — É fantástico! Fomos salvos por uma nave movida por um gerador de improbabilidade infinita! É incrível! Eu já tinha ouvido falar sobre isso antes! Esses boatos sempre foram oficialmente negados, mas devem ser verdade! Eles conseguiram! Construíram o gerador de improbabilidade infinita! Arthur, é... Arthur? O que está acontecendo?
Arthur estava se apertando contra a porta do cubículo, tentando mantê-la fechada, mas a porta não encaixava bem no vão. Diversas mãozinhas peludas estavam introduzindo-se pela fresta, com os dedos sujos de tinta; vozinhas agudas tagarelavam incessantemente.
Arthur olhou para Ford.
— Ford! — exclamou ele. — Há um número infinito de macacos lá fora querendo falar conosco sobre um roteiro que eles fizeram, uma adaptação do Hamlet.

Um comentário:

  1. Leitor que sabe de matemática e essas coisas26 de novembro de 2017 19:12

    Várias referencias...
    A melhor parte foi a menção ao Teorema do Macaco Infinito.

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Boa leitura :)