15 de novembro de 2017

Capítulo 9

Depois de tantos meses passados sob toque de recolher, era estranho andar no escuro. As ruas geladas da pequena cidade estavam desertas, as janelas, fechadas, as cortinas, imóveis. Andei com um passo enérgico no escuro, cobrindo a cabeça com um xale, na esperança de que, mesmo que alguém olhasse para fora, só conseguisse ver um vulto indefinido andando depressa pelas ruas.
Fazia um frio horrível, mas eu mal sentia. Estava entorpecida. Nos quinze minutos que levei para chegar à periferia da cidade, na fazenda Fourrier, onde os alemães haviam se instalado quase um ano antes, perdi a capacidade de pensar. Virei um objeto enquanto caminhava. Temia que se parasse para pensar aonde estava indo eu não fosse capaz de mexer as pernas, de botar um pé na frente do outro. Se pensasse, eu ouviria os avisos de minha irmã e as vozes inclementes dos habitantes da cidade, se viesse a público que eu fora vista indo visitar Herr Kommandant na calada da noite. Eu poderia ouvir meu próprio medo.
Em vez disso, eu dizia baixinho o nome do meu marido como um mantra: Édouard. Vou libertar Édouard. Posso fazer isso. Eu segurava o quadro debaixo do braço.
Cheguei à periferia da cidade. Virei à esquerda, onde a rua de terra ficava acidentada e esburacada, a pista já precária destruída ainda mais pelos veículos militares que transitavam por ali. O velho cavalo do meu pai quebrara uma pata num desses buracos no ano anterior: um alemão que não olhava aonde ia forçara demais o animal. Aurélien chorou quando soube. Só mais uma vítima inocente da ocupação. Naquela época, ninguém chorava por cavalos.
Vou trazer Édouard para casa.
A lua sumiu atrás de uma nuvem, e eu ia aos tropeções pela trilha da fazenda, enfiando os pés tantas vezes em poças de água gelada que já tinha os sapatos e as meias encharcados, e meus dedos gelados seguravam o quadro com força, temendo que ele caísse. Eu enxergava apenas as luzes dentro da casa ao longe e continuei caminhando naquela direção. Vultos escuros andavam à minha frente nas margens, coelhos talvez, e a silhueta de uma raposa atravessou a estrada, parando rapidamente para me olhar, insolente e sem medo. Momentos depois, ouvi o guincho apavorado de um coelho e tive que engolir a bile que o susto me trouxe à garganta.
A fazenda assomou à minha frente, então, toda acesa. Ouvi o ronco de um caminhão e minha respiração se acelerou. Recuei dando um salto para trás de uma sebe, esquivando-me do facho dos faróis enquanto um veículo militar passava por mim sacolejando e gemendo. Na traseira, embaixo de uma capota de lona, pude identificar perfeitamente rostos de mulheres, sentadas umas ao lado das outras. Esperei até desaparecerem, depois saí da sebe, com o xale agarrando nos gravetos. Havia rumores de que os alemães traziam moças de fora da cidade.
Até então, eu achara que elas eram apenas isso. Tornei a pensar em Liliane e, em silêncio, fiz uma oração para ela.
Eu estava na entrada da fazenda. Trinta metros à minha frente vi o caminhão parar e os vultos das mulheres caminhando em silêncio para uma porta à esquerda, como se aquele fosse um percurso que já haviam feito muitas vezes. Ouvi vozes masculinas, um ruído distante de cantoria.
Halt.
O soldado apareceu na minha frente. Dei um pulo. Ele ergueu o rifle, depois olhou com mais atenção. Fez um gesto indicando as outras mulheres.
— Não... não. Estou aqui para falar com Herr Kommandant.
Ele tornou a fazer o mesmo gesto, com impaciência.
— Nein — disse eu, mais alto. — Herr Kommandant. Tenho... hora marcada.
— Herr Kommandant?
Eu não podia ver o rosto dele. Mas o vulto pareceu me observar, depois se dirigiu a passos largos a uma porta do outro lado do pátio. Ele bateu a essa porta, e ouvi uma conversa sussurrada. Aguardei, com o coração palpitando e a pele formigando de ansiedade.
— Wie heist? — perguntou ele, quando voltou.
— Sou Madame Lefèvre — sussurrei.
Ele apontou para o meu xale, que puxei rapidamente da cabeça, mostrando o rosto. Ele fez um gesto na direção de uma porta do outro lado do pátio.
— Diese Tur. Obergeschosse. Grune Tur auf der rechten Seite.
— O quê? — perguntei. — Não entendi.
Ele tornou a ficar impaciente.
— Da, da.
Ele gesticulou, pegou o meu braço e me empurrou à frente com rispidez.
Fiquei chocada com o tratamento dado a uma visita do Kommandant. Então compreendi: o fato de eu afirmar ser casada nada significava. Eu era apenas mais uma mulher visitando alemães depois que a noite caía. Ainda bem que ele não viu o rubor que me subiu às faces. Puxei o braço e fui depressa para o pequeno prédio à direita.

* * *

Não foi difícil ver qual cômodo era o dele: havia luz embaixo de uma única porta. Hesitei do lado de fora, depois bati e disse baixinho:
— Herr Kommandant?
Ouvi passos, a porta se abriu, e dei um passo atrás. Ele não estava de uniforme, vestia calça com suspensórios e uma camisa listrada sem colarinho e tinha um livro na mão, como se eu o tivesse interrompido. Olhou para mim, deu um meio sorriso e recuou para me deixar entrar.
O cômodo era amplo, cheio de vigas, e tinha o chão coberto de tapetes, vários dos quais eu reconhecia das casas de meus vizinhos. Havia uma mesinha e cadeiras, uma cômoda, cujas cantoneiras de latão reluziam à luz de duas lâmpadas de acetileno, um gancho, do qual pendia o seu uniforme, e uma vasta poltrona ao lado de um fogo generosamente alimentado. Sentia-se seu calor até do outro lado do quarto. No canto, havia uma cama, com duas grossas mantas.
Olhei para a cama e desviei a vista.
— Aqui. — Ele estava parado atrás de mim, tirando meus xales. — Deixe-me livrá-la disso.
Ainda com o quadro agarrado contra meu peito, permiti que retirasse os xales e os pendurasse no gancho. Mesmo estando quase paralisada, senti vergonha das minhas roupas surradas. Não dava para lavar roupa com muita frequência naquele frio: a lã demorava semanas para secar, ou simplesmente congelava do lado de fora e ficava toda deformada.
— Está gelado lá fora — observou ele. — Dá para sentir na roupa.
— Sim.
Minha voz, quando saiu, não parecia minha.
— Este inverno está rigoroso. E acho que temos mais alguns meses dele pela frente. Quer beber alguma coisa?
Ele foi até uma mesinha e serviu dois copos de vinho de uma jarra. Peguei em silêncio o que me foi oferecido. Eu continuava tremendo por causa da caminhada.
— Pode colocar o pacote no chão — disse ele.
Eu esquecera que o estava segurando. Pousei-o no chão, ainda de pé.
— Por favor — disse ele. — Sente-se, por favor.
Ele pareceu quase irritado por eu ter hesitado, como se meu nervosismo fosse um insulto.
Sentei-me numa das cadeiras de madeira, com uma das mãos apoiada na moldura do quadro. Não sei por que achei isso um consolo.
— Eu não fui jantar no hotel hoje. Pensei no que você disse sobre já estar sendo considerada uma traidora pela nossa presença em sua casa.
Dei um gole no meu vinho.
— Não desejo causar-lhe mais problemas, Sophie... mais do que já lhe causamos com a nossa ocupação.
Eu não sabia o que dizer. Tomei mais um gole. Ele me lançava olhares, como se aguardasse uma resposta.
Ouvíamos vozes cantando do outro lado do pátio. Eu me perguntava se aquelas mulheres estavam com os homens, e quem eram elas, de que aldeia tinham vindo. Será que também seriam obrigadas a desfilar pelas ruas como criminosas pelo que haviam feito? Será que elas sabiam do destino de Liliane Béthune?
— Está com fome?
Ele apontou para uma pequena bandeja de pão e queijo. Fiz que não com a cabeça. Eu passara o dia inteiro sem apetite.
— Não se compara ao nível da sua comida, admito. Eu estava pensando outro dia naquele pato que você fez mês passado. Com laranja. Talvez pudesse fazê-lo de novo. — Ele continuou falando. — Mas nossos suprimentos estão diminuindo. Eu me vi sonhando com um bolo de Natal chamado Stollen. Vocês têm isso na França?
Tornei a fazer que não com a cabeça.
Sentamos um de cada lado do fogo. Eu me sentia elétrica, como se cada parte de mim estivesse em efervescência, transparente. Tinha a sensação de que ele podia me ver por dentro. Ele sabia tudo. Controlava tudo. Eu ouvia as vozes ao longe, e de vez em quando a minha presença ali me agredia. Estou sozinha com um Kommandant no quartel alemão. Num quarto com uma cama.
— Pensou no que eu disse? — falei de supetão.
Ele ficou me olhando por um instante.
— Você não nos permitiria o prazer de uma pequena conversa?
Engoli em seco.
— Desculpe-me. Mas eu preciso saber.
Ele tomou um gole do vinho.
— Não penso em outra coisa — disse ele.
— Então... — Fiquei com a respiração presa no peito. Debrucei-me, pousei o copo e desembrulhei o quadro. Encostei-o na cadeira, iluminado pelo fogo, para ele poder vê-lo em seu melhor aspecto. — Vai aceitá-lo? Vai aceitá-lo em troca da liberdade do meu marido?
O ar no quarto ficou parado. Ele não olhou para o quadro. Seus olhos permaneciam nos meus, fixos, incompreensíveis.
— Se eu pudesse lhe transmitir o que esse quadro significa para mim... Se soubesse como ele me sustentou nos dias mais tenebrosos... saberia que eu não poderia oferecê-lo levianamente. Mas eu... eu não me importaria que o quadro fosse para o senhor, Herr Kommandant.
— Friedrich. Pode me chamar de Friedrich.
— Friedrich. Eu... há muito tempo percebi que entendeu o trabalho do meu marido. O senhor entende a beleza. Entende o que um artista coloca de si numa obra, e por que ela tem valor incalculável. Então, embora vá partir meu coração perdê-lo, eu o dou de bom grado. A você.
Ele continuava me fitando. Não desviei o olhar. Tudo dependia desse momento. Vi uma cicatriz antiga de vários centímetros descendo de sua orelha esquerda até o pescoço, uma ruga ligeiramente prateada. Vi que seus olhos azul-claros tinham uma borda preta, como se tivessem feito um círculo em volta de cada íris para destacá-la.
— O quadro nunca foi o principal, Sophie.
E lá estava: a confirmação do meu destino.
Fechei os olhos por um instante e me permiti assimilar essa informação.
O Kommandant começou a falar sobre arte. Falou de um professor de arte que conhecera na juventude, um professor que abrira seus olhos para obras distantes do classicismo em que foi educado. Falou de como tentara explicar a seu pai essa forma mais rude, mais primitiva de pintar, e sua decepção diante da incompreensão do homem mais velho.
— Ele me disse que parecia “inacabada” — contou ele com tristeza. — Achava que sair da tradição era em si um ato de rebeldia. Acho que minha esposa pensa da mesma forma.
Eu mal o ouvia. Levantei meu copo e dei um longo gole.
— Posso beber mais um pouco? — perguntei.
Esvaziei o copo, depois pedi para que ele fosse reabastecido. Nunca tinha bebido nem nunca mais bebi daquele jeito. Eu não me importava de parecer grosseira. O Kommandant continuou a falar, com a voz baixa e monótona. Não me pediu nada em troca: era como se só quisesse que eu o escutasse. Queria que eu soubesse que havia mais alguém por trás do uniforme militar. Mas eu mal o ouvia. Desejava apagar o mundo à minha volta, para que essa decisão não fosse minha.
— Acha que teríamos sido amigos se tivéssemos nos conhecido em outras circunstâncias? Gosto de pensar que sim.
Tentei esquecer que eu estava ali, naquele quarto, com os olhos de um alemão em mim. Eu queria ser uma coisa, insensível, inconsciente.
— Talvez.
— Quer dançar comigo, Sophie?
O jeito que ele dizia meu nome, como se tivesse esse direito.
Pousei meu copo e me levantei, com braços inúteis ao longo do corpo, enquanto ele foi até o gramofone e colocou uma valsa lenta. Aproximou-se de mim e hesitou apenas um instante antes de me envolver nos braços. Com a música, começamos a dançar. Eu me movia devagar pela sala, com a mão na dele, os dedos tocando de leve o algodão macio de sua camisa. Dançava com a mente vazia, vagamente consciente da cabeça dele quando ela acabou encostando na minha. Eu sentia o cheiro de sabonete e de fumo, as calças dele roçando na minha saia. Ele me segurava, sem me puxar para ele, mas com cuidado, como se carregaria algo frágil. Fechei os olhos, permitindo-me afundar numa névoa, tentando treinar meus pensamentos para acompanhar a música, colocar-me em outro lugar. Por várias vezes, tentei fantasiar que ele era Édouard, mas minha mente não deixava. Tudo naquele homem era muito diferente: a pele, o tamanho, o cheiro.
— Às vezes — disse ele, baixinho —, parece que restou muito pouca beleza neste mundo. Muito pouca alegria. Você acha que a vida é difícil na sua cidadezinha. Mas se visse o que há em volta... Ninguém sai ganhando. Ninguém sai vencedor numa guerra assim.
Era como se falasse sozinho. Eu tinha os dedos pousados em seu ombro.
Sentia o movimento de sua musculatura sob sua camisa quando ele respirava.
— Sou um homem bom, Sophie — murmurou. — É importante para mim que você me entenda. Que a gente se entenda.
Então a música parou. Ele me soltou com relutância e foi recolocar o disco para tocar. Aguardou que a música recomeçasse, e aí, em vez de dançar, contemplou por um instante o meu retrato. Senti um raio de esperança — quem sabe ele mudaria de ideia? Mas então, após uma hesitação quase imperceptível, estendeu o braço e puxou um grampo do meu cabelo. Fiquei ali paralisada, e ele retirou cuidadosamente os demais, um a um, e os colocou sobre a mesa, deixando o meu cabelo cair suave em volta do meu rosto. Ele não bebera quase nada, mas a expressão com que me contemplava era vidrada, melancólica. Seus olhos procuravam os meus, com um ar interrogativo. Eu nem piscava, parecendo uma boneca de porcelana. Mas não desviei o olhar.
Depois de soltar a última mecha do meu cabelo, ele a levantou com a mão e a deixou deslizar em seus dedos. Sua quietude era a de um homem com medo de se mexer, um caçador evitando espantar a presa. Então, ele tomou meu rosto entre as mãos e me beijou. Senti um pânico momentâneo. Não conseguia me fazer beijá-lo também. Mas deixei meus lábios se entreabrirem para os dele, fechei os olhos. O choque fez com que eu sentisse meu corpo alheio a mim. Senti suas mãos me apertando mais na cintura, senti que ele me conduzia de costas em direção à cama. E o tempo todo, uma voz silenciosa me lembrava de que aquilo era uma transação comercial. Eu estava comprando a liberdade do meu marido. Tudo que eu precisava fazer era respirar. Fiquei de olhos fechados, deitei-me nas colchas incrivelmente macias. Senti suas mãos subindo pelas minhas pernas, deslizando devagar por baixo da minha saia. Eu sentia na pele o olhar dele me percorrendo.
Édouard.
Ele me beijou. Beijou minha boca, meu peito, minha barriga nua, com a respiração audível, perdido em suas fantasias. Beijou meus joelhos, minhas coxas por cima das meias, deixando a boca descansar em minha pele como se isso fosse fonte de um prazer insuportável.
— Sophie — murmurou. — Ah, Sophie...
E suas mãos alcançaram a parte mais íntima das minhas coxas, uma parte traiçoeira que se acendeu, um calor que nada tinha a ver com fogo. Uma parte de mim se separou do meu coração e deixou escapar o desejo de ser tocada, de ter o peso de um corpo encostado ao meu. Enquanto os lábios dele percorriam minha pele, eu me mexi ligeiramente e deixei escapar um gemido. Mas a urgência da resposta dele, sua respiração mais acelerada em meu rosto sufocou o desejo tão depressa quanto ele se produziu. Minhas saias foram levantadas, minha blusa puxada do peito, e sentindo sua boca em meu seio, vi que me transformava, como uma figura mítica, em pedra.
Lábios alemães. Mãos alemãs.
Ele estava em cima de mim agora, seu peso me prendia à cama. Eu sentia suas mãos puxando as minhas roupas de baixo, desesperado para estar dentro delas. Ele afastou meu joelho para um lado, quase desabando por cima de mim em seu desespero. Senti-o duro, tenaz, encostado na minha perna. Algo se rasgou. Então, com um grito contido, ele estava dentro de mim, e eu tinha os olhos bem fechados, os lábios cerrados para não gritar em protesto.
Dentro. Dentro. Dentro. Eu ouvia sua respiração rouca em meu ouvido, sentia a leve viscosidade de seu suor em minha pele, a fivela de seu cinto em minha coxa. Ai, meu Deus, o que eu fiz? Dentro. Dentro. Dentro. Cerrei os punhos segurando a colcha com as mãos, as ideias confusas e fugidias. Uma parte distante de mim se incomodava mais com a maciez pesada do que com qualquer outra coisa. Roubada de alguém. Como eles roubam tudo. Ocupada. Eu estava ocupada. Desapareci. Eu estava numa rua em Paris, rue Soufflot. O sol brilhava, e ao meu redor, enquanto andava, eu via parisienses em suas melhores roupas, os pombos andando por entre as sombras salpicadas das árvores.
O braço do meu marido entrelaçado ao meu. Eu queria lhe dizer algo, mas, em vez de falar, deixei escapar um pequeno soluço. A cena congelou e evaporou. A pressão diminuiu, depois parou. Tudo parara. A coisa. A coisa dele já não estava dentro de mim, mas mole, encolhida em minha virilha como que pedindo desculpas. Abri os olhos e me vi fitando os dele.
O rosto do Kommandant, a centímetros do meu, estava corado e sua expressão, angustiada. Parei de respirar como se entendesse o conflito dele. Eu não sabia o que fazer. Mas os olhos dele não desgrudavam dos meus, e ele viu que eu sabia. Com esforço, levantou-se bruscamente, tirando o peso de cima de mim.
— Você... — começou ele.
— O quê? — Eu tinha consciência dos meus seios à mostra, minha saia embolada em volta da cintura.
— Sua expressão... muito...
Ele ficou em pé, e desviei os olhos enquanto o ouvia vestindo e abotoando as calças. Ele olhava seriamente para longe de mim, com a mão na cabeça.
— Sinto muito — eu disse, sem saber por que estava me desculpando. — O que eu fiz?
— Você... você... Eu não queria isso! — Ele apontou para mim. — Seu rosto...
— Não estou entendendo. — Eu já estava ficando furiosa com a injustiça daquele comentário. Será que ele sabia quão difícil fora para mim? Será que sabia o que me custara deixar que ele tocasse em mim? — Fiz o que você queria!
— Eu não queria você assim! Queria... — disse ele, erguendo a mão num gesto de frustração. — Eu queria isto! Queria a garota do quadro!
Ficamos olhando calados para o retrato. A garota olhava com firmeza para nós, com o cabelo em volta do pescoço, a expressão desafiadora, gloriosa, sexualmente plena. O meu rosto.
Cobri as pernas com as saias, apertei a blusa no pescoço. Quando falei, minha voz estava embargada, trêmula.
— Eu lhe dei... Herr Kommandant... tudo o que tinha para dar.
Seus olhos ficaram opacos, um mar que congelara. O tique saltou em sua mandíbula, em um estremecimento.
— Saia — pediu ele baixinho.
Pisquei.
— Desculpe-me — gaguejei, quando percebi que o ouvira direito. — Se... posso...
— SAIA! — rugiu ele.
Segurou-me pelo ombro, apertando a minha carne com seus dedos, e me arrastou pelo quarto.
— Meus sapatos... meu xale!
— FORA, SUA DESGRAÇADA!
Só tive tempo de pegar meu quadro, e fui posta porta afora. Tropecei e caí de joelhos no topo da escada, ainda me esforçando para entender o que estava acontecendo. Ouvi um estrondo tremendo do outro lado da porta. Então outro, agora acompanhado pelo ruído de vidro se espatifando. Olhei para trás. Então, descalça, corri escada abaixo a caminho do pátio e fugi.

* * *

Andei quase uma hora até chegar em casa. Depois de meio quilômetro, já não sentia os pés. Quando alcancei a cidade, eles estavam tão congelados que eu não percebia os cortes e arranhões que colecionara na longa caminhada pela trilha de cascalho. Segui, tropeçando no escuro, com o quadro embaixo do braço, tremendo com aquela blusa fina, e sem sentir nada. Enquanto andava, meu choque deu lugar à compreensão do que eu fizera, e do que eu perdera. Fiquei atordoada com isso. Caminhei pelas ruas desertas da minha cidade natal, já não me importando se alguém me visse.
Cheguei ao Le Coq Rouge pouco antes da uma hora da manhã. Ouvi a badalada solitária do relógio enquanto estava parada do lado de fora e me perguntei por um instante se seria melhor para todos eu não entrar. Então, naquele instante, uma luzinha surgiu por detrás da cortina de gaze e as trancas foram abertas do lado de dentro. Hélène apareceu, de touca de dormir, enrolada em seu xale branco. Deve ter me esperado acordada.
Olhei para ela, minha irmã, e vi na hora que ela tivera razão o tempo todo. Percebi que minha atitude pusera em perigo toda a nossa família. Quis me desculpar. Quis dizer que entendia a extensão do meu erro, e que meu amor por Édouard, meu desespero para que nossa vida juntos continuasse, haviam me deixado cega a tudo o mais. Mas eu não conseguia falar. Limitei-me a ficar parada à porta, muda.
Ela arregalou os olhos ao ver meus ombros nus, meus pés descalços.
Estendeu a mão e me puxou para dentro, fechando a porta em seguida. Colocou seu xale em volta dos meus ombros e afastou meu cabelo do rosto. Sem dizer nada, conduziu-me à cozinha, fechou a porta e acendeu o fogão. Aqueceu uma xícara de leite, e, enquanto eu a segurava (eu não conseguia beber), pegou nossa bacia de lata do gancho na parede e a colocou no chão diante do fogão. Encheu de água uma panela de cobre, levou-a ao fogo, e, assim que a água ferveu, despejou-a na bacia. Quando estava cheia o suficiente, ela deu a volta por trás de mim e retirou o xale com cuidado. Abriu minha blusa, depois retirou a combinação pela cabeça, como teria feito com uma criança. Desabotoou minha saia nas costas, afrouxou meu corpete, depois soltou minha anágua, estendendo tudo na mesa da cozinha, até eu estar nua. Quando comecei a tremer, ela me deu a mão e me ajudou a entrar na bacia.
A água estava pelando, mas eu mal senti. Sentei-me, ficando com o corpo quase todo dentro d’água, a não ser os joelhos e os ombros, e não liguei para a dor nos cortes dos meus pés. Então, minha irmã arregaçou as mangas, pegou um esfregão e começou a me ensaboar, do cabelo para os ombros, das costas aos pés.
Ela me deu banho em silêncio, e suas mãos eram ternas enquanto trabalhava, levantando meus braços e pernas, lavando delicadamente entre cada dedo, tomando cuidado para não deixar nenhuma parte de mim por lavar. Esfregou as solas dos meus pés, retirando com delicadeza os ciscos de pedra incrustados nos cortes. Lavou meu cabelo, enxaguando-me com uma cuia até a água sair transparente, depois penteou-o, mecha por mecha. Pegou a toalha e enxugou as lágrimas que me escorriam em silêncio pelo rosto. O tempo todo não disse uma palavra. Finalmente, quando a água começou a esfriar e comecei a tremer de novo, de frio e exaustão, ou de algo completamente diferente, ela pegou uma toalha grande e me enrolou nela. Então me abraçou, vestiu uma camisola em mim e me conduziu escada acima para a minha cama.
— Ah, Sophie — ouvi-a murmurar enquanto eu adormecia. E acho que eu soube mesmo naquela hora que o que eu fizera se abateria sobre todos nós. — O que você fez?

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