29 de novembro de 2017

Capítulo 9 - Estas terras

Kit logo tinha um novo item para adicionar à sua lista de coisas que ele não gostava sobre Caçadores de Sombras. Eles me acordam no meio da noite.
Foi Livvy quem o acordou, especificamente, sacudindo-o de um sonho de demônios Mantid. Ele se sentou, ofegante, uma faca na mão – um dos punhais que tirara da sala de armas. Estava na mesa de cabeceira e ele não se lembrava de pegá-lo.
— Nada mal — disse Livvy. Ela pairava sobre sua cama, seu cabelo trançado para trás, o uniforme meio invisível na escuridão. — Reflexos rápidos.
A faca estava a dois centímetros do peito dela, mas ela não se moveu. Kit deixou-a de volta na mesa de cabeceira.
— Você tem que estar brincando comigo.
— Levante-se — disse ela. — Ty acabou de ver Zara se esgueirando pela porta da frente. Nós a ratrearemos.
— Vocês vão o quê? — Kit ficou bocejando na cama, apenas para receber uma pilha de roupas escuras de Livvy. Ela ergueu as sobrancelhas à vista de sua cueca boxer, mas não fez nenhum outro comentário.
— Vista seu uniforme — disse ela. — Explicaremos no caminho.
Ela saiu do quarto, deixando Kit trocar de roupas. Ele sempre se perguntou qual seria a sensação de usar o equipamento dos Caçadores de Sombras. As botas, as calças, a camisa e a jaqueta de material resistente, o tecido escuro e o cinto de armas pesadas pareciam desconfortáveis, mas não eram. O uniforme era leve e flexível, apesar de ser tão resistente que, quando ele pegou a adaga de sua cabeceira e tentou cortar o braço da jaqueta, a lâmina nem mesmo arranhou o material. As botas pareciam se encaixar perfeitamente, como o anel, e o cinto de armas era ajustado em torno de seus quadris.
— Eu estou bem? — Ele perguntou, aparecendo no corredor. Ty olhava pensativamente para a mão direita fechada, uma runa cintilando na parte de trás dela.
Livvy ergueu um polegar para Kit.
— Você absolutamente poderia ter sido rejeitado do calendário anual Caçadores de Sombras Gatos.
— Rejeitado? — Kit exigiu enquanto eles desciam as escadas.
Os olhos dela dançavam.
— Por ser muito jovem, é claro.
— Não existe um calendário de Caçadores de Sombras Gatos — disse Ty. — Os dois fiquem quietos. Nós precisamos sair da casa sem sermos vistos.
Eles atravessaram o caminho dos fundos e desceram a estrada em direção à praia, com cuidado para evitar a patrulha noturna. Livvy sussurrou para Kit que Ty estava segurando um grampo de cabelo que Zara tinha deixado em uma mesa: funcionava como uma espécie de farol de aproximação, puxando-o na direção dela. Ela parecia ter ido até a praia e depois caminhado pela areia. Livvy apontou para suas pegadas, sendo apagadas pela maré crescente.
— Poderia ter sido um mundano — disse Kit, apenas para lançar a ideia.
— Seguindo esse caminho exato? — disse Livvy — Olha, estamos até ziguezagueando exatamente como ela fez.
Kit não podia realmente argumentar. Ele decidiu tentar acompanhar Ty, que praticamente voava sobre as dunas da areia e os pedregulhos e rochas irregulares que cobriam o litoral mais densamente conforme eles se moviam para o norte. Ele escalou uma parede alarmantemente alta de pedra pitada e caiu do outro lado; Kit, seguindo, quase tropeçou e caiu de cara na areia. Ele conseguiu recuperar o equilíbrio e ficou aliviado. Ele não tinha certeza de na frente de quem ele menos queria passar vergonha, Livvy ou Ty. Talvez fosse uma divisão igual.
— Lá — Ty disse em um sussurro, apontando para onde um buraco escuro que surgiu na parede rochosa da falésia que subia para dividir a praia da rodovia. As pilhas de pedra caíram para o oceano, onde ondas quebravam em torno delas, lançando uma espuma prateada e branca no ar.
A areia tinha dado lugar ao recife rochoso. Eles escolheram seu caminho com cuidado, mesmo Ty, que se inclinou para examinar algo em uma piscina de maré. Ele se endireitou com um sorriso e uma estrela do mar na mão.
— Ty — disse Livvy — Coloque de volta, a menos que você esteja planejando jogá-la em Zara.
— Um desperdício de uma estrela do mar perfeitamente boa — murmurou Kit, e Ty riu. O ar salgado tinha emaranhado seus cabelos pretos e lisos, e seus olhos brilhavam como a luz da lua na água. Kit apenas observou, incapaz de pensar em algo mais inteligente para dizer, quando Ty colocou suavemente a estrela do mar na piscina formada pela maré.
Eles chegaram à abertura da caverna sem outras pausas para exame da vida selvagem. Livvy entrou primeiro, seguida por Ty e Kit. Kit parou quando a escuridão da caverna o envolveu.
— Não consigo ver — disse ele, tentando lutar contra o pânico crescente. Ele odiava a escuridão total, mas quem não?
A luz explodiu ao redor dele como a aparição repentina de uma estrela que caía. Era mágica, Ty a estava segurando.
— Você quer uma runa de visão noturna? — perguntou Livvy, a mão em sua estela.
Kit balançou a cabeça.
— Sem runas.
Ele não tinha certeza de por que insistia. Não era como se a iratze tivesse machucado. Apenas parecia ser o obstáculo final, a última admissão de que ele era um Caçador de Sombras, não apenas um menino com sangue de Caçador de Sombras que havia decidido fazer do Instituto uma parada temporária enquanto descobria um plano melhor.
Qualquer que fosse o plano, Kit tentou não pensar nisso à medida em que avançavam mais profundamente nos túneis.
— Você acha que isso faz parte da convergência? — ele ouviu o sussurro de Livvy.
Ty balançou a cabeça.
— Não. As falésias da costa são cheias de cavernas, sempre foram. Quero dizer, poderia haver qualquer coisa estar aqui embaixo – ninhos de demônios, covil de vampiros – mas não acho que isso tenha a ver com Malcolm. E as linhas Ley não passam aqui perto.
— Eu realmente queria que você não tivesse dito “ninhos de demônios” — disse Kit. — Isso os faz soar como aranhas.
— Alguns demônios são aranhas — disse Ty. — O maior já relatado tinha seis metros de altura e mandíbulas gigantes. — Kit pensou nos demônios louva-a-deus gigantes que haviam rasgado seu pai em dois. Era difícil pensar em algo espirituoso para dizer sobre uma aranha gigante quando você viu o branco da caixa torácica de seu pai.
— Shh — Livvy levantou uma mão. — Estou ouvindo vozes.
Kit apurou os ouvidos, mas não ouviu nada. Ele suspeitava que houvesse outra runa lhe faltando, algo que lhe daria a audição do Superman. Ele podia ver luzes se movendo à frente, porém, após a curva do túnel.
Eles avançaram, Kit permanecendo na retaguarda de Ty e Livvy. O túnel abria-se para uma câmara maciça, uma sala com paredes de granito quebradas, de piso de terra batida e um cheiro de mofo e decomposição. O teto subia na escuridão.
Havia uma mesa de madeira e duas cadeiras no meio da sala. A única luz vinha de pedras com runas colocadas sobre a mesa; uma cadeira estava ocupada por Zara. Kit pressionou-se instintivamente contra a parede; no outro lado do túnel, Livvy e Ty fizeram o mesmo.
Zara examinava alguns papéis que ela havia espalhado sobre a mesa. Havia uma garrafa de vinho e um copo ao lado de seu cotovelo. Ela não estava vestida com o uniforme, mas com uma roupa escura e lisa, seus cabelos presos em um coque impossivelmente apertado.
Kit tentou ver o que ela estudava, mas ele estava muito longe. Conseguia ler algumas palavras gravadas na mesa, no entanto: O FOGO QUER QUEIMAR. Ele não tinha ideia do que elas queriam dizer. Zara não parecia fazer nada interessante. Talvez ela tivesse apenas ido ali para ter privacidade para sua leitura. Talvez estivesse secretamente cansada do Diego Perfeito e estivesse se escondendo. Quem poderia culpá-la?
Zara ergueu os olhos, suas sobrancelhas se curvando. Alguém estava vindo – Kit ouviu o rápido pisar de pés, e uma figura de cabelos loiros e jeans apareceu na extremidade da sala.
— É Manuel — sussurrou Livvy. — Talvez eles estejam tendo um caso?
— Manu — Zara disse, franzindo a testa. Ela não pareceu amorosa. —Você está atrasado.
— Desculpe. — Manuel sorriu um sorriso desarmado e agarrou a cadeira livre, girando-a de modo que pudesse sentar-se com os braços apoiados no encosto. — Não fique brava, Zara. Eu tive que esperar até que Rayan e Jon adormecessem, eles estavam com um humor alegre e eu não queria que alguém me visse deixar o Instituto. — Ele indicou os papéis. — O que você tem aí?
— Atualizações do meu pai — disse Zara. — Ele ficou desapontado com o resultado do último Conselho, obviamente. A decisão de deixar que o meio-sangue Mark Blackthorn permanecesse entre os Nephilim puros ofenderia qualquer um
Manuel pegou seu copo de vinho. As luzes brilhavam vermelhas em suas profundezas.
— Ainda assim, devemos olhar para o futuro — disse ele. — Livrar-nos de Mark não era o objetivo de nossa vinda, afinal. Ele é um pequeno aborrecimento, como seus irmãos.
Ty, Kit e Livvy trocaram olhares confusos. O rosto de Livvy estava apertado com raiva. Ty estava inexpressivo, mas suas mãos se moviam inquietamente para os lados.
— O primeiro passo é o registro — disse Zara. Ela bateu a mão sobre os papéis, provocando um ruído surdo. — Meu pai diz que a Tropa é forte em Idris, e eles acreditam que o Instituto de Los Angeles está apto demais para se extinguir. O incidente com Malcolm semeou dúvidas consideráveis na capacidade de julgamento da Costa Oeste. E o fato de que o Alto Feiticeiro de Los Angeles e o líder do clã de vampiros local se mostraram enredados na magia negra...
— Isso não foi nossa culpa — sussurrou Livvy. — Não como sabermos...
Ty a calou, mas Kit perdeu o final do que Zara dizia. Ele só estava consciente de seu sorriso como um traço vermelho escuro em seu rosto.
— A confiança não é muito alta — ela terminou.
— E Arthur? — perguntou Manuel. — O diretor titular do lugar? Não que eu o tenha visto alguma vez.
— Um lunático — respondeu Zara. — Meu pai me disse que ele suspeitava também. Ele o conheceu na Academia. Eu também conversei com Arthur. Ele pensou que eu fosse alguém chamado Amatis.
Kit olhou para Livvy, que deu de ombros.
— Será fácil levá-lo ao Conselho e provar que ele é louco — disse Zara. — Não posso dizer quem está dirigindo o Instituto em seu lugar, Diana, imagino, mas se ela quisesse a posição principal, ela já a teria tomado.
— Então seu pai entra, a Tropa garante que ele ganhe a votação, e o Instituto é dele — disse Manuel.
— Nosso — corrigiu Zara. — Eu dirigirei o Instituto ao seu lado. Ele confia em mim. Seremos uma equipe.
Manuel não pareceu impressionado. Ele provavelmente já tinha ouvido isso antes.
— E então, o registro.
— Absolutamente. Podemos propô-lo como Lei imediatamente, e uma vez que passe, podemos começar as identificações. — Os olhos de Zara brilharam. — Cada integrante do Submundo carregará o sinal.
O estômago de Kit se agitou. Era parecido o suficiente com a história mundana para fazê-lo sentir a bile subir no fundo de sua garganta.
— Nós podemos começar no Mercado das Sombras — continuou Zara. — As criaturas se reúnem lá. Se tivermos o suficiente deles em custódia, devemos apanhar o resto para registro em breve.
— E se eles não estiverem inclinados a se registrar, então poderão ser convencidos facilmente com um pouco de dor — apontou Manuel.
Zara franziu a testa.
— Acho que você gosta da tortura, Manu.
Ele se inclinou para frente, cotovelos na mesa, seu rosto aberto, bonito e encantador.
— Acho que você também, Zara. Eu a vi admirando meu trabalho. — Ele flexionou os dedos. — Você simplesmente não quer admitir isso na frente do Diego Perfeito.
— Sério? Eles o chamam assim também? — Kit murmurou em voz baixa.
Zara balançou a cabeça, mas Manuel sorria.
— Você terá que contar a ele eventualmente sobre os planos completos da Tropa — disse ele. — Sabe que ele não aprovará. Ele é um amante de Seres do Submundo, se houver algum.
Zara fez um som de repugnância.
— Absurdo. Ele não é nada como esse Alec Lightwood nojento e sua estúpida Aliança e seu namorado repulsivo. Os Blackthorn podem ser idiotas amantes das fadas, mas Diego está apenas... confuso.
— E quanto a Emma Carstairs?
Zara começou a reunir as páginas da carta do pai. Ela não olhou para Manuel.
— O que tem ela?
— Todos dizem que ela é a melhor Caçadora de Sombras desde Jace Herondale — disse Manuel. — Um título que sei que você deseja bastante para si.
— Vanessa Ashdown diz que ela é uma vagabunda louca por garotos — observou Zara, e as palavras pareceram ecoar pelas paredes de rocha.
Kit pensou em Emma com sua espada, Emma salvando sua vida, Emma abraçando Cristina e olhando Julian como se ele tivesse pendurado a lua, e se perguntou se conseguiria evitar pisar no pé de Zara na próxima vez que a visse. — E, pessoalmente, não fiquei particularmente impressionada com ela. Ela é bem, bem comum.
— Tenho certeza de que ela é — disse Manuel enquanto Zara se levantava, com os papéis na mão. — Ainda não entendo o que você vê em Diego.
— Você não entenderia. É uma aliança familiar.
— Um casamento arranjado? Quão mundano e medieval. — Manuel agarrou as pedras de runa na mesa, e por um momento a luz na sala pareceu dançar, um selvagem padrão de brilho e sombra. — Então, vamos voltar?
— É melhor. Se alguém nos vir, podemos dizer que checávamos as proteções. — Zara dobrou de qualquer jeito a carta do pai e a enfiou no bolso. — O conselho se encontrará em breve. Meu pai lerá minha carta lá, afirmando a incapacidade de Arthur Blackthorn de dirigir um Instituto e depois anunciará sua própria candidatura.
— Eles não saberão o que os atingiu — disse Manuel, pondo as mãos nos bolsos. — E quando tudo acabar, é claro...
— Não se preocupe — Zara interrompeu com irritação. — Você receberá o que deseja. Embora fosse melhor se você estivesse mais comprometido com a causa.
Ela já tinha se virado; Kit viu os olhos de Manuel brilhando sob seus cílios enquanto ele a observava. Havia algo em sua expressão, uma espécie de fome desagradável, embora se fosse desejo por Zara ou algo muito mais sombrio, Kit não sabia dizer.
— Ah, estou comprometido — devolveu Manuel. — Eu gostaria de ver o mundo totalmente livre de Seres do Submundo tanto quanto você, Zara. Eu simplesmente não acredito em fazer algo por nada.
Zara olhou por cima do ombro enquanto se movia para o corredor que Manuel usara como entrada.
— Não será por nada, Manu. Posso te prometer isso.
E eles se foram, deixando Kit, Ty e Livvy juntos na boca do túnel, atordoados em silêncio.


O som que despertou Cristina foi tão fraco que ela pensou ter imaginado. Ela ficou deitada, ainda cansada, piscando contra a nublada luz do sol. Ela se perguntou quanto tempo teria até o pôr-do-sol, quando eles poderiam navegar pelas estrelas novamente.
O som voltou, um grito doce chamando à distancia, e ela se sentou, sacudindo o cabelo para trás. Ele estava molhado com orvalho. Ela penteou-o com seus dedos, desejando ter algo para prendê-lo. Ela quase nunca usava o cabelo solto assim, e o peso contra o seu pescoço era incômodo.
Ela podia ver Julian e Emma, ambos adormecidos, figuras curvadas no chão. Mas onde estava Mark? Seu cobertor estava descartado, as botas estavam ao lado. A visão das botas a fez pular de pé: todos dormiam com os sapatos, por garantia. Por que ele tiraria os seus?
Ela pensou em acordar Emma, mas provavelmente ela estava sendo ridícula: ele provavelmente apenas foi dar um passeio. Cristina tirou sua faca borboleta do cinto de armas e começou a descer a colina, passando por Jules e Emma. Ela viu, com um aperto no coração, que as mãos deles estavam juntas: de alguma forma, encontraram o caminho um para o outro enquanto dormiam. Ela se perguntou se deveria separá-los gentilmente. Mas não, ela não poderia fazer isso. Não havia como separar suavemente Jules e Emma. A simples ação de separá-los era como um ato de violência, uma lágrima no tecido do mundo.
Ainda havia névoa pesada em todos os lugares, e o sol percorria essa névoa vagamente em vários lugares, criando um véu branco e brilhante através do qual ela podia ver apenas formas difusas.
— Mark? — ela chamou suavemente — Mark, onde você está?
Ela percebeu o som que tinha ouvido antes, e agora estava mais claro: música. O som de uma flauta, a vibração da corda de uma harpa. Ela se esforçou para ouvir mais e depois quase gritou quando algo tocou seu ombro. Ela girou e viu Mark na frente dela, erguendo as mãos como se fosse afastá-la.
— Não queria assustá-la — disse ele.
— Mark — ela respirou, e então fez uma pausa. — Você é Mark? As fadas tecem ilusões, não é?
Ele inclinou a cabeça para o lado. Seu cabelo loiro caiu sobre a testa. Ela lembrou-se de quando ele batia nos ombros, como se fosse a ilustração de um príncipe fada em um livro. Agora estava curto, suave e ondulado. Ela lhe dera um corte de cabelo moderno, e parecia estranho de repente, fora de lugar no reino das fadas.
— Não consigo ouvir meu coração ou o que ele me diz — falou ele. — Só ouço o vento.
Foi uma das primeiras coisas que ele dissera a ela.
— É você — ela disse, exalando com alívio. — O que você está fazendo? Por que não está dormindo? Precisamos descansar, se quisermos chegar à Corte Unseelie quando a lua aparecer.
— Você não está ouvindo a música? — ele perguntou. Estava mais alta agora, os sons bastante claros de instrumentos de cordas e sopro, e o som de dança também, risos e pés batendo. — É uma festa.
O coração de Cristina pulou uma batida. As festas das fadas eram coisas saídas de lendas. O Povo das Fadas dançava músicas encantadas e bebia vinho encantado, e às vezes dançavam por dias. Sua comida fazia com que você delirasse ou fosse atingido pelo amor ou ficasse louco... poderia invadir seus sonhos...
— Você deveria voltar a dormir — disse Mark. — Deleites podem ser perigosos.
— Eu sempre quis ver um. — Uma onda de rebelião passou por ela. — Eu vou me aproximar.
— Cristina, não. — Ele pareceu sem fôlego quando ela se virou e se moveu pela colina em direção ao barulho. — É a música, está fazendo você querer dançar.
Ela girou ao redor, uma onda de cabelo preto grudou em sua bochecha úmida.
— Você nos trouxe aqui — ela disse, e então mergulhou em direção à música, que se levantou e cercou-a, e ela podia ouvir Mark, xingando, mas seguindo atrás dela.
Ela alcançou um campo ao pé da colina e parou para olhar. O campo estava cheio de movimento borrado e colorido. Ao redor dela, a música ecoava, penetrantemente doce.
E em todos os lugares, é claro, havia fadas. Um grupo de fadas no centro dos dançarinos tocava seus instrumentos, as cabeças jogadas para trás, os pés batendo no chão. Havia fadas da floresta de pele verde dançando, suas mãos e olhos nodosos e amarelos brilhando como seiva. Fadas azuis e verdes e brilhantes como água, com os cabelos feito redes transparentes caindo em cascata até seus pés. Lindas garotas com flores na cabeça, presas em torno de suas cinturas e gargantas cujos pés eram cascos; meninos bonitos com roupas esfarrapadas e olhos febris e brilhantes que estendiam as mãos enquanto eles passavam.
— Venha e dance — eles chamaram. — Venha e dance, bela garota, chica bella, venha e dance conosco.
Cristina começou a se mover em direção a eles, em direção à música e à dança. O campo ainda estava nublado com a névoa, esculpindo faixas de branco pelo chão e escondendo o azul o céu. A névoa brilhava enquanto se movia para dentro dela, pesada com aromas estranhos: frutas e vinhos e incenso.
Ela começou a dançar, movendo seu corpo com o ritmo da música. A alegria parecia derramar-se a cada respiração. De repente, ela não era mais a garota que deixara Diego Rosales enganá-la não uma vez, mas duas, não era mais a garota que seguia as regras e confiava nas pessoas até elas quebrarem sua confiança tão fácil como um copo derrubado. Não era mais a garota que se afastava e deixava que seus amigos ficassem loucos e esperava para pegá-los quando caíam. Agora era ela quem caía.
Mãos a agarraram, girando-a. Mark. Seus olhos brilhavam. Ele a puxou para perto contra si, seus braços escorregando em volta dela, mas seu aperto era inflexível com raiva.
— O que você está fazendo, Cristina? — Ele perguntou em voz baixa. — Você sabe sobre as fadas, sabe que isso é perigoso.
— É por isso que estou fazendo isso, Mark. — Ela não o viu ficar tão furioso desde que Kieran veio até o Instituto com Iarlath e Gwyn. Ela sentiu um pulso pequeno e secreto de excitação dentro de seu peito, que ela pudesse irritá-lo.
— Eles odeiam Caçadores de Sombras aqui, você não se lembra?
— Eles não sabem que eu sou uma Caçadora de Sombras.
— Acredite em mim — disse Mark, inclinando-se para tão perto que ela podia sentir sua respiração, quente, contra sua orelha. — Eles sabem.
— Então eles não se importam — respondeu Cristina. — É uma festa. Eu li sobre isso. As fadas se perdem na música, como seres humanos. Eles dançam e esquecem, assim como nós.
As mãos de Mark se curvaram sobre sua cintura. Era um gesto protetor, ela disse a si mesma. Não significava nada. Mas sua pulsação acelerou independentemente. Quando Mark chegou ao Instituto pela primeira vez, ele estava magro, com os olhos ocos. Agora ela podia sentir músculos sobre seus ossos, a força dura dele contra ela.
— Eu nunca perguntei — ele falou, enquanto eles se moviam entre a multidão. Eles estavam perto de duas meninas dançando juntas; ambas tinham o cabelo preto amarrado em elaboradas coroas de frutinhas e bolotas. Elas usavam vestidos marrom avermelhados, fitas ao redor de suas minúsculas gargantas, e sacudiam as saias para longe de Mark e Cristina, rindo do casal atrapalhado. Cristina não se importou. — Por que fadas? Por que você fez disso o seu objeto de estudo?
— Por sua causa. — Ela inclinou a cabeça para olhar para ele, viu a surpresa que atravessou seu rosto expressivo. O começo das suaves curvas de espanto nos cantos de sua boca. — Por sua causa, Mark Blackthorn.
Eu? Seus lábios moldaram a palavra.
— Eu estava no jardim de rosas da minha mãe quando ouvi o que aconteceu com você — contou ela. — Eu tinha apenas treze anos. A Guerra Maligna estava terminando, e a Paz Fria tinha sido anunciada. Todos os Caçadores de Sombras sabiam do exílio da sua irmã, e que você tinha sido abandonado. Meu tio-avô veio me contar sobre isso. Minha família sempre gostava de brincar que eu era mole, que era fácil me fazer chorar, e ele sabia que eu estava preocupada com você... então ele me disse “Seu garoto perdido nunca será encontrado agora”.
Mark engoliu em seco. As emoções passaram como nuvens de tempestade atrás de seus olhos; ele não tinha a guarda de Julian, seus escudos.
— E o que você fez?
— O que eu fiz?
— Você chorou? — ele perguntou.
Eles ainda se moviam juntos, na dança, mas era quase mecânico agora: Cristina tinha esquecido os passos que seus pés seguiam, estava consciente apenas da respiração de Mark, dos dedos entrelaçados atrás do pescoço de Mark, Mark em seus braços.
— Eu não chorei. Mas eu decidi que me dedicaria a erradicar a Paz Fria. Não era uma Lei justa. Nunca será uma lei justa.
Seus lábios se separaram.
— Cristina...
Uma voz feito pombo os interrompeu. Suave, feérica e leve, cantarolou:
— Bebidas, senhora e senhor? Algo para refrescar depois de dançar?
Uma fada de rosto semelhante a um gato – peludo e com bigodes – estava diante deles vestindo os farrapos de um paletó eduardiano. Ele segurava uma bandeja de ouro em que havia muitos copinhos contendo líquidos de diferentes cores: azul, vermelho e âmbar.
— Está encantado? — Cristina perguntou sem fôlego. — Me dará sonhos estranhos?
— Isso esfriará sua sede, senhora — disse a fada. — E tudo o que peço em troca é um sorriso em seus lábios.
Cristina agarrou um copo cheio de fluido âmbar. Tinha gosto de maracujá, doce e azedo. Ela tomou um gole e Mark derrubou o copo de sua mão, que caiu com um tilintar aos seus pés, e o líquido respingou na mão dele. Ele lambeu o líquido de sua pele, olhando para ela o tempo todo.
Cristina recuou. Ela podia sentir um calor agradável espalhando-se no peito. O vendedor de bebidas ralhava com Mark, que empurrou uma moeda para ele, uma moeda mundana, e correu atrás de Cristina.
— Pare — disse ele. — Cristina, calma, você está indo em direção ao centro da festa. A música só será mais forte lá.
Ela parou, estendendo a mão para ele. Ela se sentiu destemida. Sabia que devia estar aterrorizada: tinha engolido uma bebida de fada e qualquer coisa poderia acontecer. Mas, em vez disso, ela sentiu apenas como se flutuasse. Ela estava voando livre, só Mark aqui para prendê-la ao chão.
— Dance comigo — pediu ela.
Ele pegou sua mão. Parecia com raiva, ainda, mas a segurou firme mesmo assim.
— Você já dançou o suficiente. E bebeu também.
— Dançou o suficiente? — As moças voltaram a andar, as suas bocas vermelhas rindo. Além dos olhos de cor diferente, elas pareciam quase idênticas. Uma deles tirou a fita de sua garganta – Cristina olhou fixamente; seu pescoço possuía uma cicatriz horrível, como se sua cabeça tivesse sido quase separada do corpo. — Dancem juntos — disse a garota, quase cuspiu, como se fosse uma maldição, e amarrou a fita em torno dos pulsos de Mark e Cristina, ligando-os. — Desfrute da ligação, Caçador. — Ela sorriu para Mark, e seus dentes eram pretos, como se estivessem pintados com essa cor e agudos como agulhas.
Cristina ofegou, tropeçando para trás, puxando Mark, a fita conectando-os. Esticou-se como uma borracha, sem quebrando ou desfiar. Mark alcançou-a, segurando sua mão na dele, seus dedos se cruzando.
Ele a puxou atrás de si, rápida e seguramente no terreno irregular, encontrando as áreas livres de névoa pesada. Eles abriram caminho entre os casais dançantes até que a grama debaixo deles já não estivesse pisoteada e a música estava fraca nos ouvidos.
Mark virou para o lado, indo em direção a um grupo de árvores. Ele deslizou sob os ramos, segurando os galhos baixos de lado para permitir que Cristina passasse depois dele. Uma vez que ela passou, ele os liberou, fechando-os em um espaço de terra firme sob as árvores, escondidos do mundo exterior por longos ramos carregados de frutas que tocavam o chão.
Mark sentou-se, tirando uma faca do cinto.
— Venha aqui — pediu ele, e quando Cristina sentou-se ao seu lado, ele pegou sua mão e cortou a fita que os ligava.
A fita fez um pequeno som choroso, como um animal ferido, mas cedeu. Ele soltou Cristina e deixou cair a faca. Luzes fracas eram filtradas pelos ramos acima, e na pouca iluminação, a fita ainda em volta do seu pulso parecia sangue.
A fita também estava em volta do pulso de Cristina, não mais queimando, fazendo seu caminho solitário até a sujeira. Ela fitou suas unhas até que a fita escorregou e caiu no chão. Seus dedos continuavam falhando. Provavelmente pela bebida das fadas ainda em seu sistema dela, pensou.
Ela olhou para Mark. Seu rosto estava contraído, seus olhos dourado e azul cheios de sombras.
— Isso poderia ter sido muito ruim — ele falou, afastando o resto de sua fita. — Um feitiço de ligação como esse pode amarrar duas pessoas e deixar uma delas louca, fazê-la se afogar e arrastar a outra junto.
— Mark — disse Cristina — Eu sinto muito. Eu deveria tê-lo ouvido. Você sabe mais sobre festas das fadas do que eu. Você tem experiência. Eu só tenho os livros que li.
— Não — ele respondeu inesperadamente. — Eu também queria ir. Gostei de dançar com você. Foi bom estar lá com alguém...
— Humano? — Cristina disse.
O calor em seu peito se transformou em um estranho sentimento de aperto, uma pressão quente que aumentou quando ela olhou para ele. Nas curvas das maçãs do rosto, as cavidades de suas têmporas. Sua camisa solta, da cor do trigo, estava aberta na garganta, e ela podia ver aquele lugar que ela sempre pensou ser o lugar mais bonito do corpo de um homem, o músculo liso sobre a clavícula e o vazio vulnerável.
— Sim, humano. Nós somos todos humanos, eu sei. Mas quase nunca conheci alguém tão humano quanto você.
Cristina sentiu-se ofegante. A névoa das fadas tinha roubado a sua respiração, pensou, aquilo e o encantamento ao seu redor.
— Você é gentil, uma das pessoas mais gentis que conheci. Na Caçada, não havia muita gentileza. Quando penso que na época em que a sentença da Paz Fria foi aprovada havia alguém a milhares de quilômetros de Idris, alguém que nunca me conheceu, mas que chorou por um menino que havia sido abandonado...
— Eu disse que não chorei. — A voz de Cristina falhou.
A mão de Mark era um borrão pálido. Ela sentiu os dedos contra o rosto dela. Eles voltaram molhados, brilhando na luz da névoa.
— Você está chorando agora — ele comentou.
Quando ela pegou sua mão, estava úmida com suas próprias lágrimas. E quando ela inclinou para ele através da névoa e beijou-o, sentiu gosto de sal.
Por um momento, Mark ficou assustado, imóvel, e Cristina sentiu uma lança de terror passar por ela, pior do que a visão de qualquer demônio. Que Mark pudesse não querer isso, que ele pudesse estar horrorizado...
— Cristina — ele falou, quando ela se afastou dele, e ele se ergueu sobre os joelhos, o braço virando-a um pouco lentamente, sua mão se enterrando em seus cabelos. — Cristina — ele falou novamente, com uma pausa em sua voz, o som áspero do desejo.
Ela colocou as mãos de ambos os lados do rosto dele, as palmas nas cavidades de suas bochechas, e se maravilhou com a suavidade onde Diego tinha uma barba áspera por fazer. Ela o deixou vir até ela dessa vez, fechando-a no círculo de seu braço esquerdo, encaixando a boca na sua.
Estrelas explodiram atrás de suas pálpebras. Não apenas qualquer estrela, mas as estrelas de muitas cores das fadas. Ela viu nuvens e constelações; ela sentia o ar noturno em sua boca. Seus lábios se moveram freneticamente contra os dela. Ele ainda sussurrava seu nome, incoerente entre beijos. Sua mão livre deslizou sobre sua cintura, pela suas costelas. Ele gemeu quando os dedos dela entraram pelo colarinho da camisa e tocaram a clavícula, sentindo o pulso batendo na garganta.
Ele falou algo em um idioma que ela não conhecia, e então ele estava no chão e ela estava sobre ele, e Mark a puxava para baixo, mãos ferozes em suas costas e seus ombros, e ela se perguntou se sempre fora assim para ele com Kieran, feroz e sem gentileza. Lembrou-se de vê-los se beijar na areia atrás do Instituto, e como tinha sido uma coisa frenética, um choque de corpos, e isso provocou desejo nela naquele momento e novamente agora.
Ele se arqueou e ela o ouviu suspirar enquanto deslizava baixando o corpo, beijando a garganta e depois o peito sobre a camisa, e então os dedos dela estavam em seus botões e ela o ouviu rir sem fôlego, dizendo o nome dela e depois:
— Nunca pensei que você sequer olharia para mim e não para alguém como você, a realeza dos Caçadores de Sombras, como uma princesa...
— É incrível o que um pouco de bebida encantada das fadas faz — ela queria que parecesse uma provocação alegre.
Mas Mark parou embaixo dela. Um momento depois, ele se moveu, rápido e gracioso, e estava sentado a pelo menos meio metro dela, com as mãos erguidas como que para mantê-la longe.
— Bebida das fadas? — ele ecoou.
Cristina olhou para ele com surpresa.
— A bebida doce que o homem com cara de gato me deu. Você a provou.
— Não havia nada nela — disse Mark, com uma dureza peculiar. — Eu sabia no momento em que coloquei os lábios na minha pele. Era apenas suco de amora, Cristina.
Cristina recuou ligeiramente, tanto por sua raiva quanto pela percepção de que não havia nenhum manto de magia embaçando as coisas que acabara de fazer.
— Mas pensei...
— Você pensou que estava me beijando por estar drogada — disse Mark. — Não porque queria, ou porque gosta de mim de verdade.
— Mas eu gosto de você. — Ela se endireitou, mas Mark já estava de pé. — Gosto desde que te conheci.
— É por isso que começou a namorar Diego? — perguntou Mark, e então balançou a cabeça, apoiando-se. — Talvez eu não possa fazer isso.
— Fazer o quê? — Cristina cambaleou de pé.
— Estar com um humano que mente — disse Mark, inflexível.
— Mas você também mentiu — disse Cristina. — Mentiu sobre estar com Emma.
— E você participou dessa mesma mentira.
— Porque tinha que ser feito. Pelo bem de ambos. Se Julian não estivesse apaixonado por ela, então ele não precisaria pensar...
Ela parou, então, quando Mark ficou branco nas sombras.
— O que você disse?
Cristina colocou a mão na boca. O fato de os sentimentos de Emma e Julian um pelo outro estarem tão enraizados no que ela sabia sobre eles tornava difícil lembrar que outros não sabiam. Era tão claro em cada palavra e gesto, mesmo agora; como poderia Mark não saber?
— Mas eles são parabatai — disse ele, perplexo. — É ilegal. O castigo... Julian não. Ele simplesmente não faria.
— Eu sinto muito. Eu não deveria ter dito nada. Eu estava apenas imaginando...
— Você não estava imaginando — disse Mark, e se afastou dela, abrindo caminho pelos galhos das árvores.
Cristina foi atrás dele. Ele tinha que entender que não podia dizer nada a Julian. Sua traição pesou em seu coração como uma pedra, a sensação de humilhação esquecida por seu medo por Emma, percebendo o que tinha feito. Ela atravessou os galhos das árvores, as folhas de borda seca roçando sua pele. Um momento depois, ela estava na colina verde e viu Julian.


A música despertou Jules, a música e uma sensação de calor envolvente. Ele não ficava quente há tanto tempo, nem mesmo à noite, enrolado em cobertores.
Ele piscou. Podia ouvir música ao longe, tecendo gavinhas esfumaçadas no céu. Ele virou a cabeça para o lado e viu com uma sacudida de familiaridade Emma ao seu lado, a cabeça apoiada na blusa. Suas mãos estavam apertadas na grama entre eles, seus próprios dedos manchados envolvidos em torno dos pequenos dela.
Ele puxou rapidamente a mão, o coração batendo, e se levantou. Ele se perguntou se ele a tinha procurado em seu sono, ou se ela procurara por ele. Não, ela não o teria buscado. Ela tinha Mark. Poderia ter beijado ele, Julian, mas era o nome de Mark que ela havia dito.
Ele pensou que ficaria bem, dormindo tão perto dela, mas, aparentemente, estava errado. Sua mão ainda sentia como se estivesse queimando, mas o resto de seu corpo estava frio de novo. Emma murmurou e se virou, seus cabelos loiros caíram sobre sua mão, que adora se fechava sobre a grama como se estivesse procurando por dele.
Ele não podia suportar isso. Pegou a jaqueta do chão, encolheu os ombros e foi olhar para fora da colina. Talvez pudesse dizer quão perto estavam do pé das montanhas. Quanto tempo demorariam para chegar à Corte Unseelie e acabar com essa missão insana. Não que ele culpasse Mark; ele não culpava. Kieran era como família para Mark, e Julian entendia família melhor do que entendia quase qualquer outra coisa.
Mas ele já estava preocupado com as crianças no Instituto, se estariam furiosas, se entraram em pânico, implacáveis. Ele nunca as deixara antes. Nunca.
O vento mudou e a música aumentou. Julian encontrou-se na beira da colina olhando para uma vastidão de grama verde, pontilhada aqui e ali com copas de árvores que davam para uma clareira onde um borrão de cor e movimento era visível.
Dançarinos. Eles estavam se movendo ao som de uma música que parecia surgir do interior da Terra. Era insistente, exigente. Convocava você a se juntar a eles, a ser varrido e levado como uma onda poderia levá-lo do mar para a costa.
Julian sentiu a atração, embora estivesse distante o suficiente para não se sentir desconfortável. Contudo, seus dedos doeram por seus pincéis. Em todo lugar, ele via uma intensidade de cor e movimento que o fazia desejar que ele estivesse em seu estúdio, de frente para o cavalete. Ele sentiu como se estivesse olhando para imagens onde as cores tinham sido ajustadas para a máxima saturação. As folhas e a grama eram intensa, quase dolorosamente, verdes. As frutas eram mais brilhantes do que gemas. Os pássaros que planavam e mergulhavam no ar tinham uma plumagem tão colorida que Julian se perguntou se nada aqui os perseguia, se não tinham outro propósito além de beleza e exibição.
— O que há de errado? — ele virou-se e a viu logo atrás dele no cume da colina. Emma. Seus longos cabelos se soltaram e voavam ao redor dela como uma folha de metal martelada. Seu coração perambulava, sentindo uma atração muito mais insistente do que a da música das fadas.
— Nada. — Sua voz soou mais áspera do que ele pretendia. — Estou apenas procurando por Mark e Cristina. Uma vez que os encontremos, devemos ir. Nós temos muito mais a caminhar.
Ela se moveu em direção a ele, sua expressão melancólica. O sol irradiava através das nuvens, iluminando seus cabelos em ondas de açafrão. Julian apertou a mão com força, recusando-se a deixar-se erguer os dedos, enterrá-los nos cabelos pálidos que Emma geralmente soltava apenas à noite. Isso lembrou Julian dos momentos de paz entre o crepúsculo e o anoitecer quando as crianças estavam dormindo e ele ficava sozinho com Emma, momentos de conversas em voz baixa e intimidade muito antes de qualquer percepção de sua parte de que eles fossem algo mais do que parabatai. Na curva de seu rosto adormecido, na queda de seus cabelos, nas sombras de seus cílios contra suas bochechas, era uma paz que ele raramente conhecia.
— Está ouvindo a música? — ela perguntou, dando um passo mais perto. Perto o suficiente para tocar. Julian se perguntou se era assim que os dependentes tóxicos se sentiam. Querendo o que eles não deveriam ter. Pensando Só mais uma vez não tem problema.
— Emma, não — disse ele. Ele não sabia o que estava pedindo, exatamente. Não fique perto de mim, não posso suportar isso. Não me olhe assim. Não seja tudo o que eu quero e não posso ter. Não me faça esquecer que você é de Mark e, de qualquer forma, você nunca poderá ser minha.
— Por favor — disse ela. Ela olhou para ele com olhos arregalados e doloridos. — Por favor, eu preciso...
A parte de Julian que nunca poderia suportar ser preciso libertou as mãos apertadas, os pés apoiados. Ele estava dentro da esfera de sua presença em segundos, seus corpos quase colidindo. Ele colocou uma mão contra sua bochecha. Ela não carregava Cortana, ele notou com uma perplexidade distante. Por que ela a deixou para trás?
Seus olhos brilharam. Ela ergueu-se nos dedos dos pés, inclinando o rosto. Seus lábios se moveram, mas ele não conseguiu ouvir o que dizia dizendo sob o rugido em seus próprios ouvidos. Ele lembrou de ser derrubado por uma onda uma vez, pressionado contra o fundo do oceano, sem fôlego e incapaz de se levantar. Havia um terror nisso, mas também uma sensação de se deixar ir: algo mais poderoso o levava, e ele não precisava mais lutar.
Os braços dela estavam ao redor de seu pescoço, seus lábios sobre os dele, e ele soltou, se rendeu. Todo seu corpo se contraiu, seu coração correndo, explodindo, veias pulsando com sangue e energia. Ele a apertou contra si, pequena e forte em seus braços. Ele ofegou, incapaz de respirar, saboreando a aguda nitidez do sangue.
Mas não era Emma. Ele não podia sentir Emma, a familiaridade dela, e o cheiro dela também era diferente. Não havia a doçura da pele aquecida pelo sol, das ervas em seu sabão e shampoo, o cheiro do uniforme e ouro e menina.
Você não cresce com alguém, sonha com ela, a permite dar forma à sua alma e colocar suas impressões digitais no seu coração, e não sabe quando a pessoa que você está beijando não é ela. Julian se afastou, limpando a boca com o dorso da mão. Sangue manchava seus dedos.
Ele estava olhando para uma mulher fada, sua pele lisa e pálida, uma tela sem marcas e sem rugas. Ela sorria, seus lábios vermelhos. Seu cabelo era da cor das teias de aranha – eram teias de aranha, cinzas e finas e à deriva. poderia ter qualquer idade. Suas únicas roupas eram trapos pretos. Ela era linda e também horrível.
— Você me deleita, Caçador de Sombras — ela murmurou. — Não vai voltar aos meus braços para mais beijos?
Ela estendeu a mão. Julian tropeçou para trás. Ele nunca tinha beijado em sua vida ninguém além de Emma; sentia-se enjoado agora, em seu coração e estômago. Queria alcançar uma lâmina serafim, queimar o ar entre eles, sentir o calor familiar acelerando seu braço e através de suas veias e cauterizar sua náusea.
Sua mão tinha acabado de fechar sobre o punho da lâmina quando ele se lembrou: Não funcionará aqui.
— Deixe-o em paz!— Gritou alguém. — Afaste-se do meu irmão, leanansídhe!
Era Mark. Ele saía de um bosque de árvores com Cristina logo atrás. Havia uma adaga em sua mão.
A mulher fada riu.
— Suas armas não funcionarão neste reino, Caçador de Sombras.
Houve um clique, e a faca dobrável de Cristina abriu-se em sua mão.
— Venha e fale suas palavras de desafio para minha lâmina, mulher-túmulo.
A fada recuou com um silvo, e Julian viu seu próprio sangue nos dentes dela. Ele sentiu-se chocado com náusea e raiva. Ela girou e desapareceu em um momento, um borrão cinza e preto correndo pela colina.
A música parou. Os dançarinos também começaram a se espalhar: o sol estava se pondo, as sombras se alongavam pelo chão. Qualquer que fosse a festa, era uma que, aparentemente, não era amigável com o anoitecer.
— Julian, irmão. — Mark apressou-se para frente, seus olhos preocupados. — Você parece mal, beba um pouco de água...
Um assobio suave veio do alto da colina. Julian virou-se. Emma estava parada no cume, apoiando-se em Cortana. Ele viu o alívio em seu rosto quando os viu.
— Eu estava me perguntando para onde vocês tinham ido — ela falou, apressando-se pelo monte. O sorriso dela, enquanto olhava para todos, era esperançoso. — Estava preocupada que vocês tivessem comido frutas do país das fadas e estivessem correndo nus ao redor do campo.
— Sem nudez — disse Julian. — Sem campo.
Emma apertou a cinta de Cortana. Seu cabelo havia sido preso de volta em uma trança longa, apenas alguns fios pálidos escapando. Ela olhou para seus rostos tensos, os olhos castanhos arregalados.
— Está tudo bem?
Julian ainda podia sentir as impressões digitais da leanansídhe nele. Ele sabia o que eram, fadas selvagens que tomaram a forma do que quer que você quisesse ver, o seduziam e se alimentavam de seu sangue e pele.
Pelo menos, ele era o único que teria visto Emma. Mark e Cristina teriam visto a leanansídhe em sua verdadeira forma. Essa seria uma humilhação, e o perigo poupou a todos.
— Está — ele respondeu. — É melhor irmos. As estrelas estão apenas despontando e ainda temos um longo caminho a percorrer.


— Tudo bem — disse Livvy, parando na frente de uma porta estreita de madeira. Não parecia muito com o resto do Instituto, cheio de vidro e metal e modernidade. Parecia um aviso. — Aqui vamos nós.
Ela não parecia ansiosa.
Eles haviam decidido, com Kit principalmente como observador silencioso, ir diretamente ao escritório de Arthur Blackthorn. Mesmo que fosse às duas da manhã, mesmo que ele não quisesse se incomodar com os negócios dos Centuriões, ele precisava saber o que Zara estava planejando.
Ela estava atrás do Instituto, Livvy havia explicado enquanto caminhavam pela praia e pelas pedras por onde começaram. Certamente fora por isso que ela dissera o que dissera sobre Arthur – claramente ela falaria qualquer mentira.
Kit nunca tinha pensado muito nos Institutos – eles sempre lhe passaram a impressão de uma delegacia de polícia, colmeias agitadas de Caçadores de Sombras com a finalidade manter um olho em locais específicos. Parecia que eles eram mais como pequenas cidades-estados: responsáveis por uma determinada área, mas administrados por uma família designada pelo Conselho em Idris.
— Existe de verdade um país inteiro povoado apenas por Caçadores de Sombras? — exigiu Kit enquanto caminhavam para o Instituto, subindo como uma sombra contra as montanhas por trás dele.
— Sim — disse Livvy, séria. Em outras palavras, feche a boca e escute. Kit teve a sensação de que ela estava processando o que estava acontecendo explicando isso a ele. Ele calou a boca e a deixou falar.
Um Instituto era dirigido por um diretor, cuja família vivia com ele ou ela; Eles também abrigavam famílias que perderam membros, ou órfãos Nephilins – dos quais havia muitos. O chefe de um Instituto tinha um poder significativo: a maioria dos Cônsules provinha desse grupo, e eles poderiam propor novas Leis, que seriam aprovadas se uma votação fosse ao seu favor.
Todos os Institutos estavam tão vazios quanto o de Los Angeles. Na verdade, esse estava inusitadamente lotado no momento, devido à presença dos Centuriões. Eles foram feitos para ser assim, caso precisassem abrigar um batalhão de Caçadores de Sombras a qualquer momento.
Não havia empregados, pois não havia necessidade: Caçadores de Sombra que trabalhavam para o Instituto, chamados de Conclave, estavam espalhados por toda a cidade em suas próprias casas.
Não que houvesse muitos deles também, Livvy acrescentou sombriamente. Muitos morreram na guerra de cinco anos atrás. Mas se o pai de Zara se tornasse o diretor do Instituto de Los Angeles, não só ele poderia propor sua Lei intolerável, como os Blackthorn seriam expulsos sem nenhum lugar para ir além de Idris.
— Idris é tão ruim? — Kit perguntou enquanto subiam as escadas. Não que ele quisesse ser enviado para Idris. Ele estava apenas se acostumando com o Instituto. Não que ele quisesse ficar ali se o pai de Zara assumisse o controle – não se ele fosse parecido com Zara.
Livvy olhou para Ty, que não a interrompeu durante a sua palestra.
— Idris é boa. Ótima, até. Mas é aqui que vivemos.
Eles chegaram à porta do escritório de Arthur e tudo ficou em silêncio. Kit se perguntou se ele deveria simplesmente liderar o caminho. Ele não se preocupava particularmente se irritaria Arthur Blackthorn ou não.
Ty olhou para a porta com olhos perturbados.
— Nós não deveríamos incomodar tio Arthur. Prometemos a Jules.
— Nós temos — Livvy disse simplesmente, e abriu a porta.
Um conjunto estreito de escadas levava a uma sala sombria sob os beirais da casa. Havia um conjunto de mesas, cada uma com uma lâmpada, tantas lâmpadas que a sala estava cheia de brilho. Cada livro, cada pedaço de papel com escrita rabiscada, cada prato com alimento meio comido, estava iluminado com dureza.
Um homem estava sentado numa das mesas. Ele usava um longo roupão sobre suéter e calças velhas; seus pés estavam descalços. O robe provavelmente já tinha sido azul, mas agora era uma espécie de branco sujo de muitas lavagens. Ele era claramente um Blackthorn, seus cabelos principalmente grisalhos enrolados como os de Julian, e seus olhos eram de um azul esverdeado brilhante.
Seu olhar passou por Livvy e Ty e parou em Kit.
— Stephen — ele disse, e deixou cair a caneta que segurava. Ela caiu no chão, derramando tinta em uma piscina escura sobre as tábuas do chão.
A boca de Livvy estava parcialmente aberta. Ty estava pressionado contra a parede.
— Tio Arthur, este é Kit — disse Livvy. — Kit Herondale.
Arthur riu secamente.
— Herondale, de fato — disse ele. Seus olhos pareciam queimar: havia um olhar de doença neles, como o calor de uma febre. Ele levantou-se e se aproximou de Kit, olhando para seu rosto. — Por que seguiu Valentim? Você, que tinha tudo? Sim, nem sequer é Apolo, com cabelos e harpas de ouro, um deus amargo a seguir, um lindo deus a contemplar? — Ele cheirava amargo, como um café antigo. Kit deu um passo para trás. — Que tipo de Herondale você será? — Arthur sussurrou. — William ou Tobias? Stephen ou Jace? Bonito, amargo ou ambos?
— Tio — disse Ty. Ele falou com voz alta, embora tenha se abalado ligeiramente. — Precisamos conversar com você. Sobre os Centuriões. Eles querem tomar o Instituto. Não querem mais que você seja o diretor.
Arthur girou para Ty com um olhar feroz – quase um brilho, mas não bastante. Então ele começou a rir.
— Isso é verdade? É? — ele exigiu. O riso subiu e pareceu quebrar quase num soluço. Ele girou ao redor e sentou-se pesadamente na cadeira da mesa. — Que piada — ele disse com brutalidade.
— Não é uma piada — começou Livvy.
— Eles querem tirar o Instituto de mim — disse Arthur. — Como se eu o tivesse! Eu nunca administrei um Instituto na minha vida, crianças. Ele faz tudo, escreve a correspondência, planeja as reuniões, fala com o Conselho...
— Quem faz tudo? — perguntou Kit, embora soubesse que não tinha lugar na conversa.
— Julian. — A voz era de Diana; ela estava de pé no topo da escada do sótão, olhando ao redor da sala como se o brilho da luz a surpreendesse. Sua expressão estava resignada. — Ele está falando de Julian.

13 comentários:

  1. aí meu deeeeeus, amando mt esse livro

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  2. "Estrelas explodiram atrás de suas pálpebras. Não apenas qualquer estrela, mas as estrelas de muitas cores das fadas. Ela viu nuvens e constelações; ela sentia o ar noturno em sua boca. Seus lábios se moveram freneticamente contra os dela. Ele ainda sussurrava seu nome, incoerente entre beijos. Sua mão livre deslizou sobre sua cintura, pela suas costelas. Ele gemeu quando os dedos dela entraram pelo colarinho da camisa e tocaram a clavícula, sentindo o pulso batendo na garganta."

    Aiiiiii meu shipp <3 #martina

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  3. é isso aí vc espera um ano pelo livro. Ok. Vem aqui na data prevista para a postagem do livro, a karina atrasa um dia e você baixa o livro pra ler. ok. Um dia depois, onde é que você está? (comecei a ler dia 1º) mas é tão bom ler o livro por aqui, ele está tão bem editado (gis_loveVA)

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  4. Assim não vou conseguir chegar ao final do livro com lágrimas restantes 😱

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  5. Mano qee easter egg sensacional de magistério no começo do capítulo putz

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  6. Cara, eu vou chorar, a cada capitulo a tia Cassie consegue acabar ainda mais com meu coraçãozinho, eu não aguento Não💔💔💔

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  7. Ai meu coração.

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  8. Olhe... essa Zara... ela parece aquelas conservadoras que só fazem atrapalhar a vida dos outros. Mas olhe... vá c* regra da vida de outro, miga.

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  9. Mark e Cristina <3

    Eu to lendo esse livro, mas to aqui pensando: Pelo Anjo, a Cassies vai ferrar tudo, deixar os Nephilins indefesos, separar os shipps, arriscar as famílias, ameaçar matar a Clary e nós vamos sofrer sofrer até os proximos livros nos darem um pouco dw alívio...
    Já to sofrendo por antecipação 😭

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Boa leitura :)