20 de novembro de 2017

Capítulo 8

O Guia do Mochileiro das Galáxias é um livro realmente admirável. Há muitos anos que vem sendo escrito e revisto, por muitos redatores diferentes. Contém contribuições fornecidas por inúmeros viajantes e pesquisadores.
A introdução começa assim:
“O espaço é grande. Grande, mesmo. Não dá pra acreditar o quanto ele é desmesuradamente inconcebivelmente estonteantemente grande. Você pode achar que da sua casa até a farmácia é longe, mas isso não é nada em comparação com o espaço. Vejamos...” E por aí vai.
(Mais adiante o estilo fica mais seco, e o livro começa a dizer coisas realmente importantes, como por exemplo que o lindíssimo planeta Bethselamin está agora tão preocupado com a erosão cumulativa causada pela presença de dez bilhões de turistas por ano que qualquer discrepância entre o que você come e o que você evacua durante sua estada no planeta é removida cirurgicamente do seu corpo antes de você partir de lá: assim, cada vez que se vai ao banheiro é vitalmente necessário pegar um recibo.)
Porém, justiça seja feita: quando se trata de falar sobre a imensidão das distâncias entre as estrelas, inteligências superiores à do autor da introdução do Guia do Mochileiro também fracassaram. Há quem peça ao leitor que imagine um amendoim em Londres e uma noz das pequenas em Johannesburgo, entre outras comparações estonteantes.
A simples verdade é que as distâncias interestelares esteio além da imaginação humana.
Até mesmo a luz, que se desloca tão depressa que a maioria das espécies de seres vivos leva milênios para descobrir que ela se move, demora para se deslocar de uma estrela a outra. Ela leva oito minutos para ir do Sol até o lugar onde ficava antigamente a Terra, e mais quatro anos para chegar à estrela mais próxima ao Sol, a Alfa do Centauro.
Para chegar até o outro lado da Galáxia, a Damogran, por exemplo, demora muito mais: 500 mil anos.
O tempo mais rápido em que um mochileiro cobriu essa distância foi pouco menos de cinco anos, mas desse jeito a pessoa não aproveita nada da paisagem.
O Guia do Mochileiro das Galáxias afirma que, com os pulmões cheios de ar, é possível sobreviver no vácuo total por cerca de 30 segundos. Porém afirma também que, sendo o espaço estonteantemente grande do jeito que é, a probabilidade de ser salvo por outra nave durante esse período de 30 segundos é da ordem de uma chance em duas elevado a 276.709.
Por uma coincidência absolutamente inacreditável, este é o mesmo número do telefone de um apartamento em Islington onde Arthur uma vez foi a uma festa ótima e conheceu uma garota ótima que ele não conseguiu ganhar, ela acabou saindo com um penetra.
Embora o planeta Terra, o apartamento de Islington e o telefone tenham sido todos destruídos, não deixa de ser um consolo saber que, de algum modo, eles foram homenageados pelo fato de que, 29 segundos depois, Ford e Arthur foram salvos.

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Boa leitura :)