15 de novembro de 2017

Capítulo 8

Prisioneiro, Édouard Lefèvre fora acusado de entregar a outro cativo um pequeno pedaço de pão. Ele revidara agressivamente ao apanhar por isso. Eu quase ri quando soube: era tão típico de Édouard.
Mas minha alegria durou pouco. Cada informação que eu recebia servia para aumentar meus temores. O campo de prisioneiros onde ele estava detido era considerado um dos piores: duzentos homens dormiam num galpão sobre tábuas nuas, subsistiam à base de sopa aguada com algumas cascas de cevada e de vez em quando um camundongo morto. Eram enviados para trabalhar quebrando pedra ou construindo ferrovias, forçados a andar quilômetros carregando pesadas vigas de ferro nos ombros. Os que sucumbiam à exaustão eram punidos, espancados ou privados das rações. As doenças multiplicavam-se e os homens eram fuzilados pelo mais banal dos deslizes.
Eu assimilava tudo e cada uma dessas imagens assombrava meus sonhos.
— Ele vai ficar bem, não? — perguntei ao prefeito.
Ele deu tapinhas na minha mão.
— Vamos rezar por ele — disse.
Ele suspirou profundamente ao se levantar para sair, e seu suspiro pareceu uma sentença de morte.
Recebíamos a visita do prefeito quase todos os dias depois do acontecido com Liliane Béthune. À medida que a verdade sobre ela corria pela cidade, sua imagem era aos poucos redesenhada no imaginário coletivo. Os lábios já não se contraíam automaticamente à menção de seu nome. Alguém rabiscou com giz a palavra “héroïne” na praça do mercado na calada da noite, e embora a inscrição tenha sido apagada mais do que depressa, todos nós sabíamos a quem se referia.
Alguns objetos de valor que haviam sido saqueados de sua casa quando ela foi presa foram misteriosamente recolocados no lugar.
Claro, havia aquelas que, como Madame Louvier e Madame Durant, não a perdoariam nem se alguém contasse que ela fora vista esganando alemães com as próprias mãos. Mas houve algumas vagas confissões de arrependimento em nosso modesto bar, pequenas gentilezas feitas a Édith; chegavam para ela no Le Coq Rouge algumas peças de roupa que já não cabiam no dono e um ou outro alimento. Liliane aparentemente fora enviada para um campo de detenção ao sul da nossa cidade. Ela teve sorte, confidenciou o prefeito, por não ter sido fuzilada de imediato. Ele desconfiava de que só um pedido especial de um dos oficiais a salvara de uma execução sumária.
— Mas não adianta tentar intervir, Sophie — disse ele. — Ela foi pega fazendo espionagem para os franceses, e acho que não será poupada por muito tempo.
Quanto a mim, eu já não era persona non grata. Não que eu estivesse preocupada com isso. Era difícil para mim sentir o mesmo em relação aos meus vizinhos. Édith ficava grudada em mim, como uma sombra. Comia pouco e vivia perguntando pela mãe. Eu lhe dizia com sinceridade que não sabia o que aconteceria com Liliane, mas que ela, Édith, estaria segura conosco. Eu passara a dormir com ela no meu quarto antigo, para impedir que seus gritos durante os pesadelos acordassem os outros dois menores. À noite, ela descia sorrateiramente até o quarto degrau da escada, o ponto mais próximo de onde podia ver a cozinha, e nós a encontrávamos ali mais tarde, quando terminávamos a limpeza, ferrada no sono, abraçando os joelhos com seus braços finos.
Meus temores por sua mãe se misturavam aos temores por meu marido. Eu passava os dias num turbilhão silencioso de preocupação e exaustão. Poucas notícias chegavam à cidade, e nenhuma saía. Em algum lugar ele poderia estar passando fome, estar de cama com febre, ou sendo espancado. O prefeito recebeu a notícia oficial de três baixas, duas no front e uma num campo perto de Mons, e soube que havia um surto de tifo perto de Lille. Eu ouvia essas informações como se fossem dirigidas a mim.
Perversamente, Hélène parecia prosperar nessa atmosfera sinistra de maus presságios. Acho que me ver desmoronar a fizera achar que o pior já devia ter acontecido. Se Édouard, com toda a sua força e vitalidade, enfrentava a morte, não poderia haver esperança para Jean-Michel, um homem delicado e estudioso. Ele não poderia ter sobrevivido, concluía ela, portanto era melhor seguir em frente. Parecia fortalecida e insistia para que eu me erguesse quando me via chorando escondida na adega de cervejas, obrigava-me a comer, ou cantava cantigas de ninar para Édith, Mimi e Jean, num tom estranhamente desenvolto.
Eu ficava grata por sua força. Passava a noite abraçada com a filha de outra mulher e desejava nunca mais ter o que pensar.

* * *

No fim de janeiro, Louisa morreu. O fato de todos nós já sabermos que isso iria acontecer não tornou a situação mais fácil. Da noite para o dia, o prefeito e sua mulher pareciam ter envelhecido dez anos.
— Eu digo a mim mesmo que é uma bênção ela não ter que ver o mundo assim — disse-me ele, e concordei com um gesto de cabeça.
Nenhum de nós acreditava naquilo.
O funeral aconteceria cinco dias depois. Decidi que não seria bom levar as crianças, e disse a Hélène que ela devia ir me representando; eu levaria os pequenos ao bosque atrás do antigo quartel dos bombeiros. Por causa do frio rigoroso, os alemães haviam concedido aos aldeões duas horas por dia para catar no bosque da região gravetos para acender o fogo. Eu estava convencida de que não acharíamos muita coisa: na calada da noite, as árvores já haviam sido despojadas de quaisquer galhos que prestassem. Mas eu precisava me afastar da cidade, do luto, do medo e da vigília constantes, fosse dos alemães ou dos meus vizinhos.
Era uma tarde fria e quieta, e o sol brilhava timidamente através das silhuetas esquálidas das árvores que restavam, aparentemente muito esgotado para subir mais que uns poucos metros do horizonte. Era fácil olhar para a nossa paisagem, como fiz naquela tarde, e se perguntar se o mundo estava acabando.
Caminhei, conversando em silêncio com meu marido como eu sempre fazia naqueles dias. Seja forte, Édouard. Aguente. Basta ficar vivo, e sei que estaremos juntos de novo. Édith e Mimi de início caminharam em silêncio ao meu lado, pisando nas folhas geladas, mas depois, quando chegamos ao bosque, foram vencidas por um impulso infantil, e parei um instante para olhar quando elas correram até um tronco podre, onde ficaram brincando de subir e pular para o chão, de mãos dadas, dando risadinhas. Seus sapatos ficariam esfolados e suas saias, enlameadas, mas eu não lhes negaria aquele consolo simples.
Abaixei-me e botei alguns punhados de gravetos na cesta, torcendo para as vozes das meninas abafarem o zumbido constante de pavor em minha mente.
Então, quando me levantei, eu o vi: na clareira, um rifle no ombro, falando com um de seus homens. Ele ouviu as meninas e se virou. Édith gritou, olhou em volta esgazeada à minha procura e correu para os meus braços, os olhos arregalados de medo. Mimi, confusa, acompanhou-a aos tropeções, tentando entender por que a amiga ficara tão abalada com o homem que ia todas as noites ao restaurante.
— Não chore, Édith, ele não vai nos machucar. Por favor, não chore. — Eu o via nos observando e soltei a menina das minhas pernas. Agachei-me para falar com ela. — É Herr Kommandant. Vou falar com ele agora sobre o jantar. Fique aqui brincando com Mimi. Estou bem. Olhe, está vendo?
Ela tremia quando a entreguei a Mimi.
— Vão brincar ali um instante. Só vou falar com Herr Kommandant. Peguem aqui a minha cesta e vejam se conseguem achar uns gravetos. Prometo a vocês que não vai acontecer nada de ruim.
Quando afinal consegui arrancá-la das minhas saias, dirigi-me a ele. O oficial ao seu lado disse algo em voz baixa. Ajustei os xales no corpo, cruzando os braços no peito, e aguardei o Kommandant dispensá-lo.
— Achamos que poderíamos caçar — disse ele, olhando o céu vazio. — Pássaros — acrescentou.
— Não sobrou nenhum pássaro aqui — disse eu. — Todos se foram há muito tempo.
— Provavelmente isso foi sensato.
Ao longe, ouvíamos os canhões rugindo. Por um instante parecia que o ar havia diminuído à nossa volta.
— Aquela é a filha da prostituta?
Ele engatilhou o rifle sobre o braço e acendeu um cigarro. Olhei para as meninas atrás de mim, paradas ao lado do tronco.
— Filha de Liliane? Sim. Ela vai ficar conosco.
Ele a observou com atenção, e não consegui imaginar o que estava pensando.
— Ela é uma criança — eu disse. — Não entendeu nada do que estava acontecendo.
— Ah — fez ele e deu uma tragada no cigarro. — Uma inocente.
— Sim. Existem inocentes.
Ele me lançou um olhar severo, e tive que me esforçar para não baixar os olhos.
— Herr Kommandant. Preciso pedir-lhe um favor.
— Um favor?
— Meu marido foi levado para um campo de prisioneiros em Ardennes.
— E não é para eu lhe perguntar como obteve essa informação.
O modo como ele me olhava nada dizia. Não dava pista alguma.
Respirei fundo.
— Eu me perguntava... Estou pedindo para ajudá-lo. Ele é um homem bom. Como sabe, ele é um artista, não um soldado.
— E quer que eu encaminhe uma mensagem para ele.
— Quero que o tire de lá.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Herr Kommandant. O senhor age como se fôssemos amigos. Então, estou lhe implorando. Por favor, ajude meu marido. Sei o que acontece nesses lugares, sei que ele tem pouca chance de sair vivo.
Ele não disse nada, então aproveitei a oportunidade e continuei. Eram palavras que eu havia enunciado mentalmente mil vezes nas últimas horas.
— Sabe que ele passou a vida toda em busca da arte, da beleza. Ele é um homem pacífico, um homem distinto. Gosta de pintar, dançar, comer e beber. Sabe que não faz diferença à causa alemã se ele está vivo ou morto.
Ele olhou em volta, pelo bosque despido, como se para monitorar aonde os outros oficiais tinham ido, depois deu mais uma tragada no cigarro.
— Você assume um risco considerável me pedindo algo assim. Viu como os habitantes desta cidade tratam uma mulher que eles julgam estar colaborando com os alemães.
— Eles já acham que colaboro. O fato de vocês estarem em nosso hotel aparentemente me tornou culpada sem sequer um julgamento.
— Isso e dançar com o inimigo.
Agora foi minha vez de ficar surpresa.
— Eu já lhe disse antes, Madame. Não acontece nada nesta cidade que não chegue aos meus ouvidos.
Ficamos calados, olhando o horizonte. Um estrondo surdo ao longe fez a terra vibrar muito ligeiramente sob nossos pés. As meninas sentiram: eu as vi olhando para os sapatos. Ele deu uma baforada final do cigarro, depois o amassou sob a bota.
— É o seguinte. Você é uma mulher inteligente. Acho que deve ser uma boa juíza da natureza humana. E, no entanto, tem atitudes que me dariam o direito, como soldado inimigo, a fuzilá-la sumariamente. Apesar disso, você vem aqui e espera não só que eu ignore esse fato, mas também que a ajude. Minha inimiga.
Engoli em seco.
— Isso... isso é porque não o vejo só como... inimigo.
Ele esperou.
— Foi o senhor que disse... que às vezes somos apenas... duas pessoas.
O silêncio dele me deixou mais ousada. Falei mais baixo.
— Sei que é um homem poderoso. Sei que tem influência. Se disser que ele deve ser solto, ele será solto. Por favor.
— Você não sabe o que está pedindo.
— Sei que se ele ficar lá, vai morrer.
Em seus olhos, o mais fugaz dos lampejos.
— Sei que é um cavalheiro. Um erudito. Sei que gosta de arte. Sem dúvida, salvar um artista que o senhor admira seria... — As palavras me faltaram. Dei um passo à frente. Estendi a mão e toquei em seu braço. — Herr Kommandant. Por favor. Sabe que eu não lhe pediria nada, mas eu lhe imploro. Por favor, por favor, me ajude.
Ele estava muito sério. E, então, fez algo inesperado. Levantou a mão e, de leve, afastou uma mecha de cabelo do meu rosto. Foi um gesto delicado, pensado, como se fosse algo que tivesse sido imaginado há algum tempo. Disfarcei o meu susto e fiquei absolutamente imóvel.
— Sophie...
— Eu lhe dou o quadro — eu disse. — Aquele de que tanto gosta.
Ele abaixou a mão. Suspirou e virou as costas.
— É a coisa mais preciosa que eu tenho.
— Vá para casa, Madame Lefèvre.
Em meu peito, começou a se formar um nó de pânico.
— O que devo fazer?
— Vá para casa. Pegue as crianças e vá para casa.
— Qualquer coisa se o senhor conseguir libertar o meu marido. Eu farei qualquer coisa.
Minha voz ecoou pelo bosque. Senti a única chance de Édouard me fugindo das mãos. Ele continuava andando.
— Ouviu o que eu falei, Herr Kommandant?
Ele se voltou, com uma expressão subitamente furiosa. Aproximou-se de mim a passos largos e só parou quando seu rosto estava perto do meu. Eu sentia o seu hálito no meu rosto. Via as meninas com o canto do olho, rígidas de aflição. Eu não podia demonstrar medo.
Ele me olhou, depois baixou a voz.
— Sophie... — Olhou para as meninas às suas costas... — Sophie, eu... eu não vejo minha mulher há quase três anos.
— Eu não vejo meu marido há dois.
— Você deve saber... você deve saber o que está me pedindo...
Ele virou o rosto, como se estivesse determinado a não olhar para mim.
Engoli em seco.
— Estou lhe oferecendo uma pintura, Herr Kommandant.
Um pequeno tique aparecera na mandíbula dele. Ele olhou para um ponto além do meu ombro direito e recomeçou a andar.
— Madame. Você ou é muito tola ou muito...
— Será que ele compra a liberdade do meu marido? Será que compro a liberdade do meu marido?
Ele tornou a se virar para mim, com uma expressão angustiada, como se eu o estivesse forçando a fazer algo que ele não queria. Olhava para o chão.
Finalmente, deu dois passos na minha direção, aproximando-se o suficiente para poder falar sem ser ouvido.
— Amanhã à noite. Venha me encontrar no quartel. Depois que terminar no hotel.

* * *

Fomos andando de mãos dadas pelas trilhas, para evitar atravessar a praça, e, quando chegamos no Le Coq Rouge, nossas saias estavam cobertas de lama. As meninas estavam caladas, embora eu tentasse lhes assegurar que o alemão só tinha ficado contrariado porque não havia pombos para caçar. Preparei uma bebida quente para elas, depois fui para o meu quarto e fechei a porta.
Deitei-me na cama e tapei os olhos com as mãos para bloquear a claridade.
Fiquei ali talvez meia hora. Então me levantei, tirei do guarda-roupa o vestido de lã azul e estendi-o na cama. Édouard sempre dissera que ele me deixava parecida com uma professora de escola. Dizia isso como se ser professora de escola fosse uma coisa maravilhosa. Tirei o vestido cinza enlameado, deixando que caísse no chão. Despi a saia de baixo, cuja bainha também estava respingada de lama, e fiquei só de anágua e camisola. Retirei o corpete, depois as roupas de baixo. O quarto estava frio, mas eu não prestei atenção nisso.
Fiquei de frente para o espelho.
Eu não olhava meu corpo havia meses. Não tivera razões para isso. Agora, a silhueta que eu tinha refletida diante de mim era a de uma estranha. Eu parecia ter metade da largura de antes. Meus seios estavam caídos e murchos.
Meu traseiro também. Eu estava magra, e os ossos apareciam por baixo da pele: a clavícula, o ombro e as costelas ganhando proeminência. Até meu cabelo, antes lustroso, estava sem brilho.
Cheguei mais perto e examinei meu rosto: as sombras embaixo dos olhos, os leves vincos entre as sobrancelhas. Estremeci, mas não de frio. Pensei na garota que Édouard deixara para trás havia dois anos. Pensei no toque das mãos dele na minha cintura, seus lábios macios no meu pescoço. E fechei os olhos.

* * *

Ele andara mal-humorado havia alguns dias. Estava trabalhando numa tela representando três mulheres sentadas a uma mesa, e não conseguia acertá-la. Eu posara para ele em todas as posições e observara em silêncio enquanto ele bufava e fazia caretas, até jogou a paleta no chão a certa altura, esfregando as mãos nos cabelos e amaldiçoando a si mesmo.
— Vamos tomar um pouco de ar — sugeri, alongando-me.
Meu corpo doía por ter ficado imóvel, mas eu não queria que ele soubesse.
— Eu não quero tomar ar.
— Édouard, você não vai conseguir nada neste estado de espírito. Venha tomar vinte minutos de ar comigo. Venha. — Peguei meu casaco, enrolei um cachecol no pescoço e me postei à porta.
— Não gosto de ser interrompido — resmungou ele, pegando seu casaco.
Eu não ligava para o seu mau gênio. Àquela altura, já estava acostumada.
Quando o trabalho de Édouard ia bem, ele era o mais doce dos homens, alegre, entusiasmado por ver beleza em tudo. Quando ia mal, era como se pairasse uma nuvem escura sobre a nossa pequena casa. Nos primeiros meses do nosso casamento, eu temera que isso fosse de algum modo minha culpa, que eu devia ser capaz de animá-lo. Mas, ouvindo os outros artistas conversarem em La Ruche, ou nos bares do Quartier Latin, passei a ver essa alternância em todos eles: os bons momentos das obras finalizadas com sucesso ou vendidas; os maus momentos de obras estagnadas ou que exigem um trabalho árduo, ou que eram alvo de críticas ferinas. Esses estados de ânimo eram simplesmente frentes climáticas a que eu devia me adaptar e que tinha de suportar.
Mas nem sempre eu era tão compreensiva.
Édouard resmungou ao longo de toda a rue Soufflot. Estava irritado. Não conseguia entender por que tínhamos que caminhar. Não conseguia entender por que não podia ficar em paz. Eu não entendia. Eu não sabia da pressão sob a qual ele estava. Ora, Weber e Purrmann já estavam sendo procurados pelas galerias perto do Palais Royal, faziam exposições individuais. Diziam que Monsieur Matisse preferia o trabalho deles ao seu. Quando tentei lhe garantir que não era esse o caso, ele fez um gesto de desdém com a mão, como se a minha opinião não contasse. Seu discurso cansativo e colérico prosseguiu até chegarmos à Rive Gauche, e finalmente perdi a paciência.
— Muito bem — eu disse, soltando o meu braço do dele. — Sou uma vendedora ignorante. Como se pode esperar que eu entenda as pressões artísticas da sua vida? Sou simplesmente quem lava as suas roupas e posa durante horas, com o corpo dolorido, enquanto você brinca com o carvão e recolhe dinheiro de gente para quem não quer deixar de parecer generoso. Bem, Édouard, vou deixar você sozinho com as suas pressões. Talvez a minha ausência lhe traga alguma satisfação.
Fui andando depressa pela margem do Sena, furiosa. Ele me alcançou em minutos.
— Desculpe-me.
Continuei andando, contrariada.
— Não fique zangada, Sophie. Só estou de mau humor.
— Mas não precisa me deixar de mau humor por causa disso. Só estou tentando ajudar.
— Eu sei. Eu sei. Fique calma. Por favor, não se aborreça com seu marido indelicado.
Ele estendeu o braço. Tinha uma expressão terna e suplicante. Ele sabia que eu não conseguia resistir a ele.
Olhei furiosa para ele, depois lhe dei o braço e caminhamos algum tempo em silêncio. Ele pôs a mão sobre a minha e percebeu que estava fria.
— Suas luvas!
— Esqueci.
— Então, onde está seu chapéu? — perguntou. — Você está gelada.
— Você sabe muito bem que eu não tenho chapéu de inverno. Deu traça no meu chapéu de veludo de passeio, e ainda não tive tempo de consertar.
Ele parou.
— Você não pode usar um chapéu de passeio remendado.
— É um chapéu muito bom. Apenas não tive tempo para cuidar dele.
Não acrescentei que não tinha tido tempo porque estava correndo a Rive Gauche atrás dos materiais dele e recolhendo o dinheiro que lhe deviam para pagar esses materiais.
Estávamos em frente a uma das melhores lojas de chapéu de Paris. Ele viu a loja e me fez parar.
— Venha — chamou.
— Não seja ridículo.
— Não me desobedeça, mulher. Você sabe que não preciso de muito para ficar com o pior dos humores. — Ele pegou meu braço, e antes que eu pudesse protestar mais, tínhamos entrado na loja. A porta se fechou às nossas costas, a campainha soou e olhei em volta assombrada. Em prateleiras ou em colunas ao redor das paredes, refletidos em enormes espelhos de moldura dourada, estavam os chapéus mais lindos que eu já vira: criações imensas e intrincadas, negras ou de um vermelho vivo, abas largas debruadas de pele ou renda. Plumas de marabu agitavam-se de leve com o deslocamento de ar. A sala recendia a rosas secas. A mulher que apareceu do fundo da loja usava uma longa saia de cetim justa nos tornozelos, a roupa mais em moda nas ruas de Paris.
— Em que posso servi-los? — Seus olhos percorreram o meu casaco de três anos e meu cabelo despenteado pelo vento.
— Minha esposa precisa de um chapéu.
Eu quis impedi-lo. Quis dizer-lhe que já que ele insistia em me comprar um chapéu, deveríamos ir ao La Femme Marché, onde eu até poderia ganhar um desconto. Ele não sabia que aquele lugar era uma casa de alta-costura, fora das possibilidades de mulheres como eu.
— Édouard, eu...
— Um chapéu muito especial.
— Certamente, senhor. Tem algo em mente?
— Um parecido com este.
Ele apontou para um enorme chapéu de abas largas, vermelho-escuro, estilo directoire, debruado com marabu negro. Um buquê de plumas de pavão tingidas de preto desenhava um arco na aba.
— Édouard, você não pode estar falando sério — murmurei.
Mas a mulher já o tirara com solenidade do lugar e, enquanto eu olhava boquiaberta para a peça, ela a colocava cuidadosamente em minha cabeça, enfiando o meu cabelo atrás da gola.
— Acho que seria melhor se Madame tirasse o cachecol.
Ela me posicionou na frente do espelho e desenrolou o cachecol com tanto cuidado que ele parecia tecido a ouro. Eu mal a sentia. O chapéu mudou meu rosto completamente. Fiquei, pela primeira vez na vida, com a aparência das mulheres que eu costumava atender.
— Seu marido tem bom olho — disse a mulher.
— É este! — exclamou Édouard todo alegre.
— Édouard. — Puxei-o para um canto e falei com a voz baixa e assustada.
— Olhe a etiqueta. É o preço de três de seus quadros.
— Não quero saber. Quero que você tenha o chapéu.
— Mas você vai se arrepender disso. Vai ficar ressentido comigo. Você devia gastar esse dinheiro em material, em telas. Essa é... Não sou eu.
Ele me cortou. Fez um gesto para a mulher.
— Vou levar este.
Enquanto ela mandava sua assistente buscar uma caixa, ele olhou de novo a minha imagem no espelho. Correu a mão de leve pela lateral do meu pescoço, inclinou minha cabeça delicadamente para o lado e encontrou o meu olhar refletido. Então, inclinando o chapéu, abaixou a cabeça e beijou meu pescoço onde começavam os ombros. Sua boca ficou ali tempo suficiente para me fazer corar, e fazer as duas mulheres desviarem os olhos, constrangidas, fingindo estar distraídas. Quando tornei a levantar a cabeça, com a vista meio fora de foco, ele continuava a me olhar no espelho.
— É você, Sophie — disse, baixinho. — É sempre você...

* * *

Aquele chapéu ainda estava em nosso apartamento em Paris. A muitos quilômetros do meu alcance.
Cerrei os lábios, afastei-me do espelho e coloquei o cachecol de lã azul.

* * *

Contei a Hélène depois que o último oficial alemão já havia se retirado naquela noite. Estávamos varrendo o restaurante, limpando as últimas migalhas da mesa. Não que houvesse muitas: até os alemães tendiam a catar tudo que podiam, naquela época — o racionamento parecia deixar todo mundo querendo mais.
Eu estava parada, vassoura em punho, e pedi baixinho para ela parar um instante. Então, contei a ela sobre meu passeio no bosque, o que eu pedira ao Kommandant e o que ele me pedira em troca.
Ela empalideceu.
— Você não concordou com isso!
— Eu não disse nada.
— Ah, graças a Deus. — Ela balançou a cabeça, com a mão no meu rosto. — Graças a Deus que ele não tem nenhuma promessa sua.
— Mas... isso não significa que eu não vá.
Minha irmã sentou-se bruscamente a uma mesa, e após um instante, deslizei para o assento em frente ao dela. Ela pensou um pouco, depois tomou as minhas mãos.
— Sophie, sei que você está apavorada, mas precisa pensar no que está dizendo. Pense no que fizeram com Liliane. Você realmente se entregaria a um alemão?
— Eu... eu não prometi tanto.
Ela me fitou.
— Acho... o Kommandant é honrado à maneira dele. E, além do mais, ele talvez nem queira que eu... Ele não disse isso com muitas palavras.
— Ah, você não pode ser tão ingênua! — Ela levantou as mãos para os céus. — O Kommandant executou um inocente com um tiro! Você viu quando ele bateu a cabeça de um dos homens dele contra a parede por um deslize que não podia ser mais insignificante! E você iria sozinha ao alojamento dele? Não pode fazer isso! Pense!
— Não penso em quase mais nada. O Kommandant gosta de mim. Acho que me respeita, do jeito dele. E, se eu não fizer isso, Édouard certamente vai morrer. Você sabe o que acontece nesses lugares. O prefeito acha que ele já pode ser dado como morto.
Ela se debruçou na mesa, numa voz urgente.
— Sophie, nada garante que Herr Kommandant vá ter um comportamento honrado. Ele é alemão! Por que cargas-d’água você vai acreditar numa palavra do que ele diz? Talvez você se deite com ele para nada!
Eu nunca vira minha irmã tão zangada.
— Tenho que falar com ele. Não há outro jeito.
— Se isso se espalhar, Édouard não vai querer você.
Ficamos nos olhando.
— Acha que pode esconder isso dele? Não pode. Você é muito honesta. E mesmo se tentasse, acha que essa cidade não faria com que ele soubesse?
Ela estava certa.
Ela baixou o olhar para as mãos. Depois se levantou e se serviu de um copo d’água. Bebeu devagar, olhando duas vezes para mim, e como o silêncio se prolongou, comecei a sentir sua reprovação, a pergunta velada ali contida, e isso me revoltou.
— Acha que eu seria leviana a ponto de fazer isso?
— Não sei — disse ela. — Ultimamente não a reconheço.
Isso foi como uma bofetada. Minha irmã e eu nos fuzilamos com os olhos e senti como se estivesse balançando à beira de algo. Não há ninguém que brigue tanto com a gente como uma irmã. Não há mais ninguém que conheça tanto os nossos pontos fracos e mire neles sem piedade. O espectro da minha dança com o Kommandant nos rondava, e de repente senti que estávamos sem fronteiras.
— Está bem. Diga uma coisa, Hélène. Se fosse sua única chance de salvar Jean-Michel, o que você faria?
Afinal, eu a vi vacilar.
— Vida ou morte. O que você faria para salvá-lo? Sei que o que você sente por ele não tem limites.
Ela mordeu o lábio e virou para a janela escura.
— Isso tudo pode sair muito errado.
— Não vai.
— Você pode muito bem pensar assim. Mas é impulsiva por natureza. E não é só o seu futuro que está em jogo.
Levantei-me, então. Eu queria ir até a minha irmã do outro lado da mesa. Queria me agachar ao lado dela e abraçá-la e ouvir que tudo daria certo, que estaríamos todas fora de perigo. Mas a expressão dela me dizia que não havia mais nada a dizer; então ajeitei minhas saias, e, de vassoura em punho, fui para a cozinha.

* * *

Dormi um sono agitado aquela noite. Sonhei com Édouard, com sua expressão de contrariedade. Sonhei que estávamos discutindo, que eu tentava repetidamente convencê-lo de que só fizera o que era certo enquanto ele me virava as costas. No sonho, ele afastou a cadeira da mesa enquanto discutíamos, e, quando olhei, ele não tinha a parte inferior do corpo: faltavam as pernas e metade do tronco. Pronto, ele me disse. Está satisfeita agora?
Acordei soluçando e encontrei Édith me olhando, com seus olhos escuros insondáveis. Ela esticou a mão e tocou delicadamente em meu rosto molhado, em solidariedade. Estendi a mão e aconcheguei-a em mim, e ficamos ali caladas, abraçadas enquanto o dia raiava.
Passei o dia como se estivesse num sonho. Preparei o café da manhã das crianças enquanto Hélène fazia compras, e observei Aurélien, outra vez de mau humor, levar Édith para a escola. Abri a casa às dez horas e atendi as poucas pessoas que entraram àquela hora. O velho René estava rindo de um veículo militar que caíra numa vala perto do quartel e não conseguia ser puxado dali.
Esse contratempo alegrou o bar durante algum tempo. Eu sorria vagamente e balançava a cabeça fazendo que sim, de fato, aquilo mostraria a eles, sim, aquilo era mesmo a boa direção alemã. Eu via e ouvia tudo como se estivesse em uma bolha.
Na hora do almoço, Aurélien e Édith vieram para comer um pão com um pedacinho de queijo, e, enquanto estavam sentados na cozinha, recebemos um aviso do prefeito, requisitando cobertores e vários jogos de talheres para um novo alojamento a aproximadamente dois quilômetros adiante, na mesma rua. Houve muita reclamação quando nossos clientes olharam o papel e se lembraram de que voltariam para casa e encontrariam avisos semelhantes. Uma pequena parte de mim estava feliz por terem visto que eu também era incluída nos confiscos.
Às três horas, paramos para ver a passagem de um comboio médico alemão; a fila de veículos e cavalos fazia a nossa rua vibrar. O bar ficou em silêncio por alguns minutos. Às quatro horas, a mulher do prefeito entrou e agradeceu a todos por suas cartas e solidariedade, e nós a convidamos a ficar para uma xícara de café, mas ela não aceitou. Não era boa companhia, disse, desculpando-se. Voltou com passo inseguro pela praça, amparada pelo marido.
Às quatro e meia, os últimos clientes se retiraram, e vi, com a noite caindo, que outros não viriam, embora ainda faltasse meia hora para fecharmos. Cerrei as cortinas das janelas do restaurante, e ficamos de novo às escuras lá dentro. Na cozinha, Hélène corrigia a ortografia de Édith, interrompendo de vez em quando para cantar canções com Mimi e Jean. Édith se apaixonara pelo pequeno Jean, e Hélène comentara várias vezes que a menina era de grande ajuda, brincando tanto com ele. Hélène não questionara uma única vez a minha decisão de trazê-la para nossa casa, não lhe ocorreria enjeitar uma criança, embora isso significasse menos comida para todos nós.
Quando subi, peguei meu diário nas vigas do teto. Ia começar a escrever, mas então vi que não tinha nada a dizer. Nada que não me incriminasse. Tornei a guardar o diário em seu esconderijo e me perguntei se algum dia eu teria de novo alguma coisa a falar ao meu marido.

* * *

Os alemães vieram, sem o Kommandant, e nós lhes demos de comer. Eles estavam quietos. Eu me vi torcendo, como sempre torcia, para que isso significasse alguma notícia terrível para o lado deles. Hélène ficava me olhando enquanto trabalhávamos. Dava para vê-la tentando imaginar o que eu ia fazer.
Eu servi a comida, o vinho, lavei a louça e aceitei com um gesto de cabeça seco os agradecimentos dos homens que nos felicitaram pela refeição. Então, quando o último deles se retirou, apanhei Édith, que estava dormindo de novo na escada, e levei-a para o meu quarto. Coloquei-a em minha cama e puxei suas cobertas até o queixo. Fiquei olhando para ela um instante e afastei com delicadeza uma mecha de cabelo do seu rosto. Ela se mexeu, seu rosto estava perturbado mesmo enquanto dormia.
Olhei para ter certeza de que ela não acordaria. Então escovei o cabelo e prendi-o com gestos lentos e pensados. Enquanto eu contemplava minha imagem à luz de vela, algo me chamou a atenção. Virei e peguei um bilhete que fora passado por baixo da porta. Fiquei olhando para as palavras, com a letra de Hélène.

Uma vez feito, não pode ser desfeito.

Então, pensei no prisioneiro morto com aqueles sapatos grandes demais para os seus pés, nos homens andrajosos que haviam subido a rua naquela tarde. E de repente era muito simples: não havia escolha.
Coloquei o bilhete no esconderijo e desci em silêncio. No pé da escada, olhei para o retrato na parede, depois levantei-o com cuidado do gancho e enrolei-o num xale, de modo a não deixar nada da tela à mostra. Cobri-me com mais dois xales e saí na escuridão. Quando fechei a porta às minhas costas, ouvi minha irmã sussurrar lá de cima, como um sino de alerta.
Sophie.

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Boa leitura :)