29 de novembro de 2017

Capítulo 8 - Perto do rio

Emma viu Mark imediatamente. Uma sombra na trilha brilhante diante deles, a luz do luar cintilando em seus cabelos claros. Ele não parecia tê-los notado ainda. Emma começou a correr, com Cristina e Jules logo atrás.
Apesar de a trilha subir e descer embaixo dela, estava acostumada a correr na praia onde a areia fofa cedia sob seus pés. Ela conseguia ver Mark claramente agora: ele tinha parado de andar, e se virou para encará-los, com ar espantado. Ele tirara a roupa de combate. Usava trajes semelhantes ao que vestia quando entrou no Instituto, só que limpos e intactos: feita de linho e couro curtido macio, coturnos de couro e uma bolsa de pano nas costas. Emma pôde ver as estrelas refletidas em seus olhos arregalados ao se aproximar. Ele derrubou a bolsa a seus pés, olhando com ar acusador para seus três perseguidores.
— O que vocês estão fazendo aqui?
— Sério? — Julian chutou a bolsa de Mark para o lado, agarrando os ombros do irmão. — O que você está fazendo aqui?
Julian era mais alto do que Mark, um fato que Emma sempre estranhou – Mark fora mais alto durante muitos anos. Mais alto e mais velho. Mas agora não era uma coisa, nem outra. Ele parecia uma lâmina fina e pálida na escuridão, contra a força e a altura mais sólidas de Julian. Parecia que a qualquer instante ia virar luz do luar nas ondas e desaparecer.
Ele se virou para olhar para Cristina.
— Você recebeu minha mensagem de fogo.
Ela assentiu, e mechas de seu cabelo escuro, em uma presilha adornada de joias atrás da cabeça, se curvaram em torno da face.
— Todos nós lemos.
Mark fechou os olhos.
— Não achei que pudessem me seguir pela estrada da lua.
— Mas seguimos. — Julian apertou as mãos sobre os ombros de Mark. — Você não vai a lugar nenhum do Reino das Fadas, ainda mais sozinho.
— É por Kieran — respondeu Mark com simplicidade.
— Kieran te traiu — disse Julian.
— Eles vão matá-lo, Jules — insistiu Mark. — Por minha causa. Kieran matou Iarlath por minha causa. — Ele abriu os olhos e encarou o irmão. —Eu não devia ter tentado sair sem falar com você. Não foi justo. Sabia que ia tentar me impedir, e eu sabia que tinha pouco tempo. Nunca vou perdoar Kieran pelo que aconteceu com você e com Emma, mas não vou abandoná-lo para morrer, nem para ser torturado.
— Mark, o Povo das Fadas não gosta de você — disse Julian. — Foram obrigados a devolvê-lo, e eles detestam devolver qualquer coisa que pegam. Se você entrar no Reino das Fadas, vão mantê-lo lá se puderem, e não vai ser fácil. Vão machucá-lo. Não vou permitir que isso aconteça.
— Então você será meu carcereiro, irmão? — Mark estendeu as mãos, com as palmas para cima. — Vai prender meus pulsos com ferro frio, meus tornozelos com espinhos?
Julian se escolheu. Estava escuro demais para se ver as feições de Mark Blackthorn, os olhos azul-esverdeados; no escuro os irmãos pareciam apenas um Caçador de Sombras e uma fada, eternamente em desacordo.
— Emma — chamou Julian, tirando as mãos dos ombros de Mark. Havia amargura e desespero em sua voz. — Mark te ama. Convença você.
A amargura de Julian era como espinhos sob a pele de Emma, e ela ouviu as palavras angustiadas de Mark outra vez: você será meu carcereiro?
— Não vamos impedi-lo de ir. Vamos junto com você.
Mesmo ao luar ela pôde ver o rosto de Mark perder a cor.
— Não. Vocês são claramente Nephilim. Estão com uniforme de combate. Suas Marcas não estão escondidas. Caçadores de Sombras não são apreciados na Terra Sob a Colina.
— Aparentemente só Kieran é — disse Julian. — Ele tem sorte de ter sua lealdade, Mark, já que nós não temos.
Ao ouvir isso, Mark corou e se virou para o irmão, seus olhos brilhando furiosos.
— Muito bem, parem... parem — disse Emma, dando um passo em direção a eles. A água reluzente se curvava e dobrava sob os pés dela. —Vocês dois...
— Quem caminha sobre a trilha da lua?
Um vulto se aproximou, e sua voz soou como uma explosão profunda acima das ondas. A mão de Julian foi para o cabo da adaga em sua cintura. Emma já sacara a lâmina serafim, e Cristina tinha o canivete em mãos.
Os dedos de Mark tocaram o lugar onde a flecha de elfo que Kieran tinha lhe dado ficava em seu pescoço. Não estava mais lá.
Seu rosto enrijeceu antes de relaxar em reconhecimento.
— É uma puca — falou baixinho. — Em geral, são inofensivas.
O vulto no caminho diante deles tinha se aproximado. Era uma fada alta, vestida com calças rasgadas suspensas por um cinto de corda. Linhas finas de ouro se misturavam aos longos cabelos escuros e brilhavam contra a pele escura. Seus pés estavam descalços.
Ele falou, e sua voz soava como a maré ao pôr do sol.
— Querem entrar pelo Portão de Lir?
— Sim — respondeu Mark.
Olhos dourados metálicos sem íris ou pupilas passaram por Mark, Cristina, Julian e Emma.
— Só um de vocês é fada — disse a puca. — Os outros são humanos. Não: Nephilim. — Os lábios finos se curvaram em um sorriso. — Isso é uma surpresa. Quantos de vocês querem passar pelo portão para as Terras das Sombras?
— Todos nós — respondeu Emma. — Os quatro.
— Se o Rei ou a Rainha os acharem, vão matá-los — disse a puca. — O Povo das Fadas não tem amizade com os de sangue de anjo, não desde a Paz Fria.
— Sou meio fada — disse Mark. — Minha mãe era Lady Nerissa, da Corte Seelie.
A puca ergueu as sobrancelhas.
— A morte dela nos deixou todos de luto.
— E estes são meus irmãos — prosseguiu Mark, se aproveitando de sua vantagem. — Eles me acompanham; eu os protegerei.
A puca deu de ombros.
— O que lhes acontece nas Terras não me concerne — falou. — Só que antes precisam pagar um pedágio.
— Sem pagamentos — disse Julian, e suas mãos apertaram o cabo da adaga. — Sem pedágio.
A puca sorriu.
— Vamos conversar um instante, em particular, e depois decida se pagaria meu preço. Não vou obrigá-lo.
A expressão de Julian ficou sombria, mas ele deu um passo para a frente. Emma se esforçou para ouvir o que ele estava dizendo para a puca, mas o barulho do vento e das ondas deslizou entre eles. Atrás deles, o ar girava e ficava nebuloso: Emma teve a impressão de ter visto uma forma nele, arqueada como o formato de uma porta. Julian ficou imóvel enquanto a puca falava, mas Emma viu um músculo tremer na bochecha dele. Um instante mais tarde, ele tirou o relógio do pai do pulso e o entregou na mão da puca.
— Um pagamento — disse a puca em voz alta enquanto Julian se afastava. — Quem é o próximo?
— Eu vou — disse Cristina, e seguiu cuidadosamente pela trilha em direção à puca.
Julian se juntou a Mark e Emma.
— Ele te ameaçou? — murmurou Emma. — Jules, se ele ameaçou...
— Não ameaçou — respondeu Julian. — Eu não teria deixado Cristina chegar perto dele, se tivesse ameaçado.
Emma virou para observar enquanto Cristina esticava o braço e tirava a presilha adornada de joias do cabelo. O cabelo caiu em cascata sobre as costas e os ombros, mais negro do que o mar noturno. Ela entregou a presilha e começou a caminhar de volta para eles, parecendo espantada.
— Mark Blackthorn será o último — disse a puca. — Deixe a menina de cabelos dourados vir até mim agora.
Emma sentiu os outros olhando para ela enquanto ela ia até a puca, Julian mais intensamente. Ela pensou na pintura que ele tinha feito dela, na qual Emma se erguia sobre o mar com um corpo feito de estrelas.
Ela ficou imaginando o que ele teria feito com aqueles quadros. Se teria jogado todos fora. Ele os jogara fora, tinham sido queimados? Seu coração doeu só de pensar. Um trabalho tão lindo de Jules; cada pincelada, um sussurro, uma promessa.
Ela se aproximou da fada, que estava sorrindo astutamente, como as fadas faziam quando viam graça nas coisas. Ao redor de todos o mar se esticava, preto e prata. A puca baixou a cabeça para falar com ela; o vento soprou em volta. Emma estava com ela em um círculo de nuvem. Não conseguia mais ver os outros.
— Se vai me ameaçar — falou, antes que a fada pudesse falar — saiba que vou caçá-lo por isso; e se não for agora, será mais tarde. E eu deixarei você morrendo por um longo tempo.
A puca riu. Seus dentes também eram dourados, com as pontas prateadas.
— Emma Carstairs — falou. — Vejo que sabe pouco sobre pucas. Somos sedutores e não valentões. Quando eu disser o que tenho a dizer, você vai querer ir ao Reino das Fadas. Vai querer me dar o que eu pedir.
— E o que vai pedir?
— Essa estela — retrucou a puca, apontando para o objeto no cinto dela.
Tudo em Emma se rebelou. A estela tinha sido um presente de Jace, há anos, em Idris, após a Guerra Maligna. Era um símbolo de tudo que tinha marcado sua vida após a Guerra. Clary lhe dera palavras e ela as valorizava; Jace lhe dera uma estela, e, com ela, um propósito a uma menina assustada e abalada pelo luto: o futuro é seu agora. Faça dele o que quiser.
— Que utilidade uma estela teria para uma fada? — perguntou. — Vocês não desenham símbolos, e elas só funcionam para Caçadores de Sombras.
— A estela não tem utilidade — respondeu ele. — Mas o precioso osso de demônio do cabo tem muita.
Ela balançou a cabeça.
— Escolha outra coisa.
A puca se inclinou para perto de Emma. Ele tinha cheiro de sal e alga sob o sol.
— Ouça — falou. — Se você entrar no Reino, verá novamente o rosto de alguém que amou, que está morto.
— O quê? — O choque a acertou. — É mentira.
— Você sabe que não posso mentir.
A boca de Emma estava seca.
— Você não pode contar aos outros o que eu lhe disse ou não acontecerá — disse a puca. — E não posso lhe dizer o que significa. Sou apenas um mensageiro, mas a mensagem é verdadeira. Se desejar novamente olhar para alguém que já amou e perdeu, se deseja ouvir sua voz, deve atravessar o Portão de Lir.
Emma tirou a estela do cinto. Uma pontada a atingiu quando ela a entregou e, sem pensar, se virou de costas para a puca, com as palavras ainda ressoando em seus ouvidos. Mal notou Mark passando por ela; o último a falar com a fada aquática. Seu coração estava acelerado demais.
Alguém que você amou e perdeu. Mas foram tantos, tantos perdidos na Guerra Maligna. Os pais — mas ela sequer ousava pensar neles, ela podia perder sua habilidade de pensar, de continuar. O pai dos Blackthorn, Andrew. Sua antiga tutora, Katerina. Talvez...
O som do vento e das ondas diminuiu. Mark estava em silêncio diante da puca, com o rosto abalado, e Emma estava louca para saber o que a fada tinha dito a eles. O que poderia estimular Jules, Mark ou Cristina a cooperar?
A puca esticou a mão.
— O Portão de Lir se abre agora — falou. — Atravessem agora ou fujam de volta para a costa; a trilha da lua já está começando a se dissolver.
Ouviu-se um ruído como gelo quebrando, derretendo sob a luz de primavera. Emma olhou para baixo: a trilha brilhante abaixo estava suja de preto onde a água entrava através de rachaduras.
Julian a pegou pela mão.
— Temos que ir — falou. Atrás de Mark, que estava à frente deles na trilha, formara-se um arco de água. Brilhava em prata forte; a parte interna girando, a água em movimento.
Com uma risada, a puca saltou da trilha com um mergulho elegante e deslizou entre as ondas. Emma percebeu que não fazia ideia do que Mark tinha dado a ele. Não que isso importasse agora. A trilha estava estilhaçando rapidamente: agora estava aos pedaços, como flocos de gelo no Ártico.
Cristina estava do outro lado de Emma. Os três avançaram, saltando de um pedaço sólido de trilha para o outro. Mark gesticulava e gritava com eles, atrás dele o arco se solidificava. Através dele, Emma podia ver a grama verde, o luar e as árvores. Ela empurrou Cristina; Mark a segurou, e os dois desapareceram pelo portão.
Emma se moveu para dar um passo a frente, mas a trilha sucumbiu sob seus pés. Pelo que pareceram mais do que segundos, ela caiu na direção da água negra. Então Julian a segurou. Com os braços em volta dela, eles caíram pelo arco.


As sombras tinham aumentado no sótão. Arthur estava sentado, imóvel, e olhava o luar sobre o mar pela janela com o jornal rasgado. Ele podia adivinhar onde Julian e os outros estavam agora: conhecia a estrada da lua, como conhecia as outras estradas do Reino das Fadas. Ele tinha passado por elas, guiado por bandos de fadas e duendes, cavalgando à frente de seus mestres, os príncipes e princesas sobrenaturalmente belos da nobreza. Uma vez ele caíra na floresta em pleno inverno, e seu corpo tinha estilhaçado o gelo de um lago. Ele se lembrava de ter visto sangue esguichar pela superfície prateada do lago.
— Que bonito — dissera uma fada nobre, enquanto o sangue de Arthur derretia no gelo.
Às vezes, era assim que ele pensava em sua mente: uma superfície estilhaçada, que refletia uma foto rasgada e imperfeita. Ele sabia que sua loucura não era como a loucura humana. Ela ia e vinha, e, às vezes, mal o tocava, deixando-o esperançoso de que tivesse acabado de vez. E depois voltava, esmagando-o sob um desfile de pessoas que mais ninguém conseguia ver, um coro de vozes que ninguém podia ouvir.
O remédio ajudava, mas tinha acabado. Julian sempre trazia o remédio, desde pequeno. Arthur não sabia ao certo quantos anos ele tinha agora. O bastante. Às vezes, Arthur ficava imaginando se amava o menino. Se amava algum dos filhos do irmão. Algumas vezes, ele acordara de sonhos em que coisas terríveis tinham acontecido a eles, com o rosto molhado de lágrimas.
Mas poderia ter sido culpa. Ele não tinha nem a capacidade de criá-los, nem a coragem de permitir que a Clave o substituísse por um guardião melhor. Mas quem os teria mantido juntos? Ninguém, talvez, e famílias devem ficar juntas.
A porta ao pé da escada rangeu. Arthur virou, ansioso. Talvez Julian tivesse pensado melhor sobre seu plano louco e voltado. A estrada da lua era perigosa. O mar era cheio de trapaças. Ele tinha crescido perto do mar, na Cornualha, e se lembrava dos monstros. E amargo como sangue é o esguicho; e as cristas são como presas que devoram.
Ou talvez nunca tenha havido monstros.
Ela apareceu no alto da escada e o encarou friamente. Seus cabelos estavam puxados com tanta força que a pele parecia esticada. Ela inclinou a cabeça, assimilando o recinto apertado e sujo, as janelas cobertas. Havia algo em seu rosto, algo que despertou um lampejo de lembrança.
Algo que fez um pavor gelado assolá-lo. Ele agarrou os braços da cadeira, sua mente se rompendo em pedaços de antigas poesias. Sua pele era branca como lepra, o pesadelo Vida em Morte era ela...
— Arthur Blackthorn, suponho? — falou, com um sorriso recatado. — Sou Zara Dearborn. Acredito que conheceu meu pai.


Emma bateu com força no gramado espesso, abraçada em Julian. Por um instante, ele ficou apoiado sobre ela, com os cotovelos no chão e o rosto pálido, luminoso ao luar. O ar que os cercava era frio, mas seu corpo era quente contra o dela. Ela sentiu o peito de Julian quando ele inspirou fundo e a corrente de ar na bochecha quando ele rapidamente virou o rosto para longe do dela.
Logo depois ele estava de pé, esticando o braço e puxando-a para cima. Mas ela levantou sozinha, cambaleando e girando para constatar que estavam em uma clareira cercada por árvores.
A luz do luar era clara o bastante para que Emma conseguisse ver que a grama era intensamente verde e as árvores carregadas de frutas em cores vivas: ameixas roxas, maçãs vermelhas, frutas em forma de estrelas e rosas, que Emma não reconhecia. Mark e Cristina também estavam lá, sob as árvores.
Mark tinha arregaçado as mangas da camisa e esticava as mãos como se estivesse tocando o ar do Reino das Fadas, sentindo-o na pele. Inclinou a cabeça para trás, com a boca ligeiramente aberta: Emma, olhando para ele, enrubesceu. Parecia um momento particular, como se ela estivesse vendo alguém reencontrando um amor.
— Emma. — Cristina arfou. — Olha. — E apontou para cima, para o céu.
As estrelas eram diferentes. Elas se curvavam e giravam em padrões que Emma não reconhecia, e tinham cores: azul gelo, verde frio, ouro cintilante, prata brilhante.
— É tão lindo — sussurrou. Ela viu Julian olhar para ela, mas foi Mark que falou. Ele não parecia mais tão abandonado à noite, mas ainda parecia um pouco aturdido, como se o ar dali fosse vinho e ele tivesse bebido demais.
— A Caçada cavalgava pelo céu do Reino, de vez em quando — falou. — No céu, as estrelas parecem o pó esmagado de joias: rubi, safira e diamante em pó.
— Eu sabia sobre as estrelas do Reino das Fadas — falou Cristina em uma voz baixa e impressionada. — Mas nunca achei que fosse vê-las pessoalmente.
— Será que devemos descansar? — perguntou Julian. Ele rondava os arredores da clareira, espiando entre as árvores. Conte com Julian para fazer as perguntas práticas. — Reunir energia para viajarmos amanhã?
Mark balançou a cabeça.
— Não podemos, Temos que viajar pela noite. Só sei navegar as Terras pelas estrelas.
— Então precisamos de Marcas de Energia. — Emma estendeu o braço para Cristina. Não teve intenção de esnobar Jules deliberadamente; símbolos aplicados pelo seu parabatai são sempre mais poderosos, mas ela ainda podia sentir onde o corpo dele havia colidido contra o dela na queda. Ainda podia sentir a contorção visceral dentro dela quando a respiração dele roçou sua bochecha. Precisava que ele não ficasse tão perto dela agora, não visse o que havia em seus olhos. A forma como Mark olhava para o céu do Reino das Fadas: era assim que ela imaginava que olhava para Julian.
O toque de Cristina era quente e confortante, sua estela, veloz e habilidosa; a ponta traçando a forma de um símbolo de Energia no antebraço de Emma e, ao terminar, soltou o pulso dela. Emma esperou pelo alerta habitual, pelo calor queimando, como uma injeção dupla de cafeína.
Nada aconteceu.
— Não está funcionando — falou, franzindo o rosto.
— Deixe-me ver... — Cristina deu um passo para a frente. Ela observou a pele de Emma e arregalou os olhos. — Olha.
A Marca, preta como tinta quando Cristina a aplicou no antebraço de Emma, estava ficando clara e prateada. Desbotando, como gelo derreando. Em segundos, se misturou à pele de Emma e desapareceu.
— O quê...? — Emma começou. Mas Julian já tinha se virado para Mark.
— Símbolos — falou Jules. — Eles funcionam? No Reino das Fadas?
Mark pareceu espantado.
— Jamais me ocorreu que não funcionariam — disse. — Ninguém nunca mencionou.
— Eu estudei o Reino das Fadas durante anos — disse Cristina. — Nunca vi em lugar nenhum que símbolos não funcionam nas Terras.
— Quando foi a última vez que tentou usar um aqui? — Emma perguntou a Mark.
Ele balançou a cabeça, cachos louros caindo nos olhos. Ele os puxou novamente para trás com seus dedos finos.
— Não me lembro — respondeu. — Eu não tinha estela... eles quebraram... mas minha pedra enfeitiçada sempre funcionou... — Ele remexeu no bolso e sacou uma pedra redonda e polida. Todos observaram, sem fôlego, enquanto ele a levantava, esperando que a luz saísse e brilhasse forte em sua palma.
Nada aconteceu.
Xingando baixo, Julian sacou uma de suas lâminas serafim do cinto. O adamas brilhou fraco ao luar. Ele a virou de modo que a lâmina ficou na horizontal, refletindo o brilho multicolorido das estrelas.
Michael — falou.
Algo faiscou dentro da lâmina — um brilho leve e fraco. Depois, desapareceu. Julian fitou o objeto. Uma lâmina serafim que não pudesse ganhar vida tinha pouco uso além de uma faca plástica: sem fio de corte, pesada e curta.
Com um movimento violento do braço, Julian jogou a lâmina longe. Ela quicou pela grama. Ele levantou os olhos. Emma pôde sentir o quanto ele estava se segurando. Ela sentiu como uma pressão em seu próprio corpo, que dificultava a respiração.
— Então — falou. — Vamos ter que viajar pelo Reino das Fadas, um lugar onde Caçadores de Sombras não são bem-vindos, usando apenas as estrelas para navegar, e não podemos usar símbolos, lâminas serafim, nem pedras enfeitiçadas. É mais ou menos isso?
— Eu diria que é exatamente isso — respondeu Mark.
— E, além disso, estamos indo para a Corte Unseelie — acrescentou Emma. — Que supostamente é como um dos filmes de terror que Dru gosta, mas, vocês sabem, menos divertido.
— Então viajaremos à noite — disse Cristina. E apontou para a distância. — Alguns marcos eu já vi em mapas. Estão vendo aqueles cumes ao longe, contra o céu? Acho que são as montanhas Thorn. As Terras Unseelie ficam à sombra delas. Não é muito longe.
Emma pôde ver Mark relaxando ao som da voz sensata de Cristina. Mas não parecia estar funcionando para Julian. A mandíbula dele travou, e as mãos eram punhos rígidos nas laterais do corpo.
Não que Julian não se irritasse. É que ele não se permitia mostrar. As pessoas o achavam quieto, calmo, mas isso era enganoso. Emma se lembrava de algo que já tinha lido: os vulcões tinham os declives verdes mais vivos, o aspecto mais quieto e adorável porque o fogo que pulsava através deles impedia que a Terra congelasse.
Mas quando entravam em erupção, podiam causar destruição por quilômetros.
— Jules — chamou ela. Ele a encarou; fúria ardia por trás de seus olhos. — Podemos não ter luz enfeitiçada, nem Marcas, mas ainda somos Caçadores de Sombras. Com tudo que isso representa. Podemos fazer isso. Podemos.
Pareceu um discurso desajeitado, mas ela viu o fogo apagar nos olhos dele.
— Você tem razão — falou ele. — Desculpa.
— E eu peço desculpas por tê-los trazido aqui — disse Mark. — Se eu soubesse... dos símbolos... mas deve ser novidade, muito recentemente...
— Você não nos trouxe aqui — disse Cristina. — Nós o seguimos. E todos viemos, não só por você, mas pelo que a puca disse a todos nós; não é verdade?
Alguém que já amou e já perdeu.
— Para mim, é verdade — disse Emma, fitando o céu. — Mas é melhor irmos. Em breve, deve amanhecer. E se não temos Marcas de Energia, teremos que recuperar as nossas forças do jeito tradicional.
Mark pareceu confuso.
— Drogas?
— Chocolate — disse Emma. — Eu trouxe chocolate. Mark, de onde você tira essas ideias?
Mark sorriu um sorriso torto, dando de ombros de um lado só.
— Humor de fada?
— Eu pensei que fadas basicamente fizessem piada à custa dos outros e pregassem peças em mundanos — disse Julian.
— Às vezes contam histórias longas e rimadas que consideram hilárias — disse Mark. — Nunca entendi por quê.
Julian suspirou.
— Isso soa pior do que qualquer coisa que eu já tenha ouvido sobre a Corte Unseelie.
Mark lançou um olhar de gratidão a Julian, como se dissesse que entendia que seu irmão tinha em parte controlado o temperamento por ele, por todos eles, para que todos ficassem bem. Para que pudessem prosseguir e encontrar Kieran, com Julian liderando, como sempre fazia.
— Vamos — disse Mark, virando. — É por aqui; temos que começar a anda; pode ser que não tenhamos muito tempo até o amanhecer.
Mark se dirigiu às sombras entre as árvores. A bruma se prendia aos falhos, como cordas brancas e prateadas. Folhas balançavam suavemente ao vento sobre suas cabeças. Julian se moveu para andar na frente, ao lado do irmão; Emma pôde ouvi-lo perguntando:
— Trocadilhos? Por favor, ao menos, me prometa que não haverá trocadilhos.
— O jeito como meninos dizem um ao outro que se amam é tão estranho — comentou Cristina enquanto ela e Emma se desviavam de um galho. — Por que não podem simplesmente dizer? É tão difícil assim?
Emma sorriu para a amiga.
— Eu te amo, Cristina — falou. — E fico feliz que você tenha conseguido visitar o Reino das Fadas, mesmo em meio a circunstâncias tão estranhas. De repente, você encontra algum cara fada e gato, e esquece o Diego Imperfeito.
Cristina sorriu.
— Também te amo, Emma — retribuiu. — É, quem sabe, encontro mesmo.


A lista de reclamações de Kit contra os Caçadores de Sombras agora já tinha se tornado longa o suficiente para que ele tivesse começado a escrever de fato. Malditas pessoas bonitas, ele tinha escrito, não me deixam ir para casa buscar minhas coisas.
Não me contam nada sobre o que, de fato, significaria ser um Caçador de Sombras. Eu teria que ir para algum lugar treinar?
Não me falam quanto tempo posso ficar aqui, exceto “o tempo que você precisar”. Uma hora não terei que ir para a escola? Algum tipo de escola?
Não falam sobre a Paz Fria e sobre como é uma droga.
Não me deixam comer biscoitos.
Ele pensou um pouco, depois riscou essa última linha. Eles o deixavam comer biscoitos; ele apenas desconfiava que o julgavam por isso.
Não aprecem entender o que é autismo, doença mental, terapia, nem tratamento médico. Será que acreditam em coisas como quimioterapia? E se eu tiver câncer? Provavelmente não terei. Mas se tiver...
Não me contam como Tessa e Jem encontraram meu pai. Ou por que meu pai odiava tanto os Caçadores de Sombras.
Essa foi difícil de escrever. Kit sempre pensou em seu pai como um pequeno trapaceiro, um adorável rebelde, uma espécie de Han Solo, percorrendo a galáxia. Mas rebeldes adoráveis não eram destruídos por demônios no instante em que seus elaborados feitiços de proteção se desfaziam. E, apesar de Kit estar muito confuso pelo que tinha acontecido no Mercado das Sombras, ele tinha aprendido uma coisa: seu pai não tinha sido como Han Solo.
Às vezes, nas rondas noturnas, Kit ficou imaginando com quem ele próprio se parecia.
Por falar em rondas noturnas, ele tinha mais uma reclamação a acrescentar. Eles me acordam cedo.
Diana, cujo título oficial era de tutora, mas que parecia atuar como guardiã/diretora de colégio, tinha acordado Kit cedo e o levado, junto com Ty e Livvy, para um escritório de canto com uma vista enorme e uma grande mesa de vidro. Ela parecia irritada, como adultos às vezes pareciam ficar quando estavam bravos com alguém, mas iam descontar em você.
Kit estava certo. Diana nesse momento estava furiosa com Julian, Emma, Mark e Cristina, que, segundo Arthur, tinham desaparecido e ido para o Reino das Fadas na calada da noite para resgatar alguém chamado Kieran, que Kit nunca tinha visto. Mais discussão esclareceu que Kieran era o filho do Rei Unseelie, e ex-namorado de Mark, ambas informações interessantes que Kit arquivou para mais tarde.
— Isso não é bom — concluiu Diana. — Qualquer viagem ao Reino das Fadas é terminantemente proibida aos Nephilim, a não ser que obtenhamos permissão oficial.
— Mas eles vão voltar, certo? — perguntou Ty. Ele parecia tenso. — Mark vai voltar?
— Claro que vão voltar — disse Livvy. — É só uma missão. Uma missão de resgate — acrescentou ela, voltando-se para Diana. — A Clave não vai entender que tiveram que ir?
— Resgatar uma fada... não — disse Diana, balançando a cabeça. — Elas não desfrutam da nossa proteção pelos Acordos. Os Centuriões não podem saber. A Clave ficaria furiosa.
— Eu não vou contar — disse Ty,
— Nem eu — concordou Livvy. — Óbvio.
Ambos olharam para Kit.
— Eu nem por que estou aqui — falou ele.
— Você tem razão — disse Livvy. Ela se virou para Diana. — Por que ele está aqui?
— Você parece ter um meio de saber de tudo — Diana disse a Kit. — Achei que seria melhor controlar a informação. E obter sua promessa.
— De que não vou contar? Claro que não vou contar. Nem gosto dos Centuriões. Eles são... — O que sempre achei que Caçadores de Sombras seriam. Vocês não. Vocês são todos... diferentes. — Babacas — concluiu.
— Não posso acreditar — disse Livvy. — Julian e os outros embarcaram numa aventura divertida e simplesmente deixaram o restante de nós aqui para buscar toalhas para os Centuriões.
Diana pareceu surpresa.
— Achei que fosse ficar transtornada — falou. — Preocupada com eles.
Livvy balançou a cabeça. Seus cabelos longos, tons mais claros que os de Ty, esvoaçaram ao redor.
— Por eles estarem se divertindo e vendo o Reino das Fadas? Enquanto trabalhamos duro aqui? Quando eles voltarem, vou dar uma palavrinha com Julian.
— Que palavrinha? — Ty pareceu confuso por um momento, antes de seu rosto de iluminar. — Ah. Vai brigar com ele.
— Vou usar todos os palavrões que conheço, e pesquisar novos — ameaçou Livvy.
Diana mordia o lábio.
— Vocês realmente estão bem?
Ty fez que sim com a cabeça.
Cristina estudou muito sobre o Reino das Fadas, Mark foi um Caçador, e Julian e Emma são inteligentes e corajosos — falou. — Tenho certeza de que ficarão bem.
Diana pareceu espantada. Kit tinha que admitir que ele também estava surpreso. Os Blackthorn pareciam uma família tão próxima que “costurada” nem começava a descrever. Mas Livvy manteve sua irritação alegre quando foram contar a Dru e Tavvy que os outros tinham ido até a Academia dos Caçadores de Sombras para buscarem alguma coisa — e ela foi bem convincente ao contar que a Cristina tinha ido junto porque visitar a Academia agora era um requisito no intercâmbio — e repetiram a mesma história para um Diego furioso e diversos Centuriões, incluindo sua noiva, que Kit tinha passado a chamar mentalmente de Detestável Zara.
— Resumindo — concluiu Livvy, delicadamente — vocês podem ter que lavar algumas das próprias toalhas. Agora, se nos dão licença, eu e Ty vamos levar Kit para conhecer o perímetro.
Zara ergueu a sobrancelha.
— O perímetro?
— Os bloqueios que vocês acabaram de levantar — disse Livvy, e marchou para fora. Ela não arrastou Ty e Kit atrás de si fisicamente, de fato, mas alguma coisa na força de sua personalidade fez basicamente isso. As portas do Instituto se fecharam atrás deles quando ela já estava descendo os degraus da frente.
— Vocês viram a cara daqueles Centuriões? — perguntou ela enquanto circulavam a enorme lateral do Instituto. Ela estava de botas e short jeans, que exibia suas pernas longas e bronzeadas. Kit tentou fazer parecer que não estava olhando.
— Acho que eles não apreciaram o que você disse sobre as toalhas — observou Ty.
— Talvez eu devesse ter desenhado um mapa para eles, indicando onde fica o sabão — disse Livvy. — Vocês sabem, já que eles gostam tanto de mapas.
Kit riu. A menina olhou para ele, meio desconfiada.
— O que foi?
Eles tinham pausado no estacionamento atrás do Instituto e chegado a uma pequena cerca viva, atrás da qual havia um jardim de estátuas. Dramaturgos e historiadores gregos ficavam por ali em poses de gesso, segurando coroas de loucos. Parecia estranhamente fora do lugar, mas, pensando bem, Los Angeles era uma cidade de coisas que não pareciam pertencer ao lugar.
— Foi engraçado — disse Kit. — Só isso.
Ela sorriu. A camiseta azul combinava com seus olhos, e a luz do sol encontrava os fios vermelhos e acobreados nos cabelos castanho-escuros e os fazia brilhar. No começo, Kit ficou um pouco nervoso com o excesso de semelhança entre os Blackthorn — exceto por Ty, é claro — mas ele tinha que admitir, se as pessoas precisavam compartilhar traços familiares, olhos azul-esverdeados luminosos e cabelos escuros e ondulados não eram nada mal. As únicas coisas que ele compartilhava com seu pai eram o mau humor e a apreciação por furtos.
Quanto a mãe...
— Ty! — Livvy chamou. — Ty, desça daí!
Eles tinham se afastado da casa o suficiente para estarem agora em um verdadeiro chaparral. Kit só tinha estado nas Montanhas de Santa Monica algumas vezes, em passeios escolares. Ele se lembrava de ter respirado o ar, e a mistura de sal e vegetação, o calor suave e sem fôlego do deserto. Lagartos verdes apressados brotavam como folhas súbitas entre os cactos, e desapareciam com a mesma velocidade. Havia pedras grandes tombadas por todos os lados — partes descartadas de alguma geleira veloz de um milhão de anos atrás.
— Vou descer quando acabar isso. — Ty estava ocupado escalando uma das pedras maiores, encontrando apoios para as mãos e os pés com facilidade. Ele subiu até o topo sem a menor preocupação, com os braços abertos para manter o equilíbrio. Parecia estar se preparando para se lançar em voo, os cabelos como asas escuras.
— Ele vai ficar bem? — perguntou Kit, observando-o subir.
— Ele escala muito bem — disse Livvy. — Eu ficava assustada quando éramos mais novos. Ele não tinha nenhum senso realístico de quando estava em perigo ou não. Eu achava que ele fosse cair das pedras em Leo Carillo e esmagar a cabeça. Mas Jules o acompanhava a toda parte, Diana mostrou como se fazia, e ele aprendeu.
Ela olhou para o irmão e sorriu. Ty estava na ponta dos pés olhando para o mar. Kit quase conseguia imaginá-lo em uma planície isolada em algum lugar, com uma capa preta voando em volta dele como um herói em uma ilustração de fantasia.
Kit respirou fundo.
— Você não acredita no que disse para Diana — falou para Livvy. Ela virou para encará-lo. — Que não está preocupada com Julian e os outros.
— Por que você acha isso? — O tom dela soou cuidadosamente neutro.
— Eu tenho te observado — disse ele. — Todos vocês.
— Eu sei. — Ela o encarou com olhos brilhantes, com expressão um pouco divertida. — Parece que você tem feito anotações mentais.
— Hábito. Meu pai me ensinou que todas as pessoas no mundo estavam divididas em duas categorias. As que você podia enganar e trapacear, e as que não podia, Então você observa as pessoas. Tenta descobrir como são. Como ficam.
— Como somos?
— Como uma máquina muito complicada — disse Kit. — Vocês são todos interligados, um de vocês se move um pouco, e isso guia os outros. E se vocês se moverem para o outro lado, isso também direciona o que fazem. Vocês são mais ligados do que qualquer outra família que já vi. E você não pode me dizer que não está preocupada com Julian e os outros, sei que está. Eu sei o que vocês pensam sobre o Povo das Fadas.
— Que eles são do mal? É muito mais complicado do que isso, acredite.
Os olhos azuis de Livvy desviaram-se para o irmão. Agora Ty estava deitado de costas na pedra, quase invisível.
— Então por que eu mentiria para Diana?
— Julian mente para proteger todos vocês — disse Kit. — Se ele não estiver por aqui, então você mente para proteger os mais novos. Nada com que se preocupar, Julian e Mark foram para a Corte Seelie, espero que mandem um cartão-postal, queria ter ido junto.
Livvy parecia oscilar entre a irritação e o alívio — raiva por Kit ter adivinhado a verdade, aliviada por ter alguém para quem não precisava fingir.
— Acha que convenci Diana? — perguntou ela afinal.
— Acho que a convenceu de que você não estava preocupada — disse Kit. — Ela ainda está. Provavelmente está fazendo tudo que pode para descobrir como encontrá-los.
— Estamos em busca de estoque do que fazer por aqui, você deve ter percebido — disse Livvy. — Considerando como são os Institutos, nós somos um bem estranho.
— Eu não tenho muito pra comparar. Mas acredito em você.
— Mas você não me falou. — Livvy colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Somos o tipo de gente que pode ser enganada e trapaceada ou não?
— Não — respondeu o menino. — Mas não por serem Caçadores de Sombras. Porque vocês realmente parecem se importar mais com os outros do que com vocês mesmos. O que dificulta na tarefa de convencê-los a serem egoístas.
Ela deu alguns passos para longe, esticando a mão para tocar uma pequena flor vermelha que brotava de um arbusto verde prateado. Quando se voltou novamente para Kit, seus cabelos estavam soprando em volta do rosto, e os olhos brilhavam de modo pouco natural. Por um instante, ele temeu que ela estivesse prestes a chorar, ou gritar com ele.
— Me beija — falou.
Kit não sabia que rumo ele achava que a conversa estava tomando, mas definitivamente não era esse. Ele apenas deu conta de não começar a tossir.
— Quê?
— Vocês ouviu. — Ela foi para perto dele, andando proposital e deliberadamente devagar. Ele tentou não olhar para as pernas dela outra vez. — Eu pedi para me beijar.
— Por quê?
Ela estava começando a sorrir. Atrás dela, Ty ainda estava equilibrado na pedra, olhando para o mar.
— Nunca beijou antes? — perguntou ela.
— Já. Não sei como isso é relevante, no entanto, para você querer me beijar aqui e agora.
— Tem certeza de que você é um Herondale? Tenho certeza de que um Herondale agarraria uma oportunidade dessas. — Ela cruzou os braços. — Existe algum motivo para não querer me beijar?
— Para começar, você tem um irmão mais velho assustador — falou Kit.
— Eu não tenho um irmão mais velho assustador.
— É verdade — disse Kit. — Tem dois.
— Tudo bem — disse Livvy, abaixando os braços e virando de costas. — Tudo bem, se você não quer...
Kit a pegou pelo ombro. Estava quente sob sua mão, o calor da pele dela era tátil mesmo através do tecido fino da camiseta.
— Mas eu quero.
Para a própria surpresa, ele falou sério. Seu mundo estava se afastando dele, ele sentia como se estivesse caindo em direção a alguma coisa, um desconhecido escuro, a borda esfarrapada de escolhas indesejáveis. E cá estava uma menina bonita oferecendo a ele algo em que se agarrar, uma maneira de esquecer, algo para pegar e segurar, mesmo que apenas por um instante.
A pulsação vibrou levemente no pescoço quando ela virou um pouco a cabeça, seus cabelos tocando a mão dele.
— Muito bem — falou ela.
— Mas me diga uma coisa. Por que eu? Por que você quer me beijar?
— Eu nunca beijei ninguém — retrucou ela em voz baixa. — Na vida. Eu quase nunca conheço ninguém. Somos só nós, sozinhos, contra o mundo inteiro, e eu não me importo, eu faria qualquer coisa pela minha família, mas sinto que estou perdendo todas as chances que eu deveria ter. Você tem a minha idade e é um Caçador de Sombras. E você não me irrita. Não tenho tantas opções assim.
— Você poderia beijar um Centurião — sugeriu Kit.
Ao ouvir isso, ela se virou completamente, a mão dele ainda em seu ombro, a expressão dela indignada.
— Tudo bem, acho que essa sugestão foi um pouco sem noção — ele admitiu. O impulso de beijá-la tinha se tornado opressor, então ele desistiu de tentar não fazer, e curvou o braço em volta do ombro dela, puxando-a mais para perto. Seus olhos se arregalaram, e ela inclinou a cabeça para trás, a boca angulada para a dele, e as bocas se uniram de forma surpreendentemente delicada.
Foi suave, doce, e quente, e ela foi para o círculo feito pelo braço dele, as mãos se apoiando, de início, hesitantes e, depois, mais firmes em seus ombros. Ela agarrou firme, puxando-o para perto, os olhos dele fechando contra o brilho azul do oceano ao longe. Ele se esqueceu do chão sob seus pés, do mundo ao seu redor, de tudo, exceto do senso de ser confortado por alguém que o segurava. Alguém que se importava.
— Livvy. Ty! Kit!
Era a voz de Diana. Kit saiu do torpor e soltou a menina; ela se afastou dele parecendo surpresa, levantando a mão para tocar os lábios.
— Todos vocês! — Diana chamou. — Voltem aqui, agora! Preciso de ajuda!
— Como foi? — perguntou Kit. — Tudo bem para o seu primeiro?
— Nada mal. — Livvy abaixou a mão. — Você realmente se empenhou. Eu não esperava por isso.
— Os Herondale não dão beijos superficiais — disse Kit. Houve uma breve movimentação, e Ty tinha descido da pedra onde subira, e vinha em direção a eles com cuidado entre a vegetação desértica.
Livvy soltou uma risada curta e baixa.
— Acho que é a primeira vez que eu o vejo se referir a você mesmo como um Herondale.
Ty se juntou a eles, seu rosto pálido e oval era ilegível. Kit não conseguia extrair nada de sua expressão — se ele tinha visto o beijo ou não. Mas por que se importaria, se tivesse visto?
— Parece que a noite vai ser clara — falou. — Nenhuma nuvem vindo.
Livvy disse alguma coisa sobre clima melhor para seguir Centuriões desconfiados, e ela já estava se encaminhando para caminhar ao lado de Ty, como sempre fazia. Kit foi atrás deles, com as mãos nos bolsos da calça jeans, apesar de conseguir sentir o anel Herondale, pesado em seu dedo, como se só agora tivesse se lembrado do peso.


A Terra Sob a Colina. A Deliciosa Planície. O Local Abaixo da Onda. As Torras dos Eternamente Jovens.
À medida que as horas avançavam, todos os nomes que Emma já tinha escutado para a terra das fadas passaram por sua cabeça. As conversas entre os quatro diminuíram e eventualmente desapareceram em um silêncio exausto; Cristina caminhou calada ao lado de Emma, seu pingente brilhando ao luar. Mark foi na frente, verificando o caminho pelas estrelas, de tempos em tempos. Ao longe, as Montanhas Thorn se tornavam mais claras e próximas, erguendo-se, imponentes e inesquecíveis, contra um céu da cor de uma safira escurecida.
Contudo, as montanhas não eram frequentemente visíveis. Na maior parte do tempo, a trilha que seguiam passava por árvores baixas que se aglomeravam, galhos que ocasionalmente se entrelaçavam. Mais de uma vez, Emma viu olhos brilhantes piscando entre as sombras. Quando os galhos faziam barulhos, ela olhava para o alto e via sombras se movendo rapidamente entre eles, risos seguindo-os como bruma.
— Estes são os lugares das fadas selvagens — disse Mark, quando a estrada se curvou em torno de uma colina. — As fadas nobres ficam nas Cortes, ou, às vezes, na cidade. Gostam de conforto.
Em determinados pontos havia sinais de habitação: pedaços quebrados de velhos muros de pedra, cercas de madeira habilidosamente montadas sem uso de pregos. Passaram por diversas vilas na hora que precedeu o amanhecer: todas fechadas e escuras, com janelas quebradas e vazias. Na medida que avançavam pelo Reino das Fadas, começaram a ver mais alguma coisa. Da primeira vez, Emma parou e exclamou — a grama por onde vinham andando, de repente, tinha se dissolvido em seus pés, levantando o que pareciam partículas cinzentas e brancas em volta de seus calcanhares,
Ela olhou em volta espantada e constatou que os outros também estavam olhando. Eles tinham caminhado até a beirada de um círculo irregular de terra com aparência doentia. Isso fez com que Emma se lembrasse das fotos de círculos de colheita. Tudo no perímetro do círculo tinha um tom opaco, cinza-esbranquiçado: a grama, as árvores, as folhas e plantas. Ossos de pequenos animais estavam espalhados entre a vegetação cinzenta.
— O que é isso? — perguntou ela. — Algum tipo de magia negra de fadas?
Mark balançou a cabeça.
— Nunca tinha visto nenhuma praga como esta antes. Vamos embora depressa.
Ninguém questionou, mas enquanto se apressavam pelas cidades fantasmas e pelas colinas, viram mais trechos com a praga feia. Finalmente, o céu começou a clarear com a aurora. Estavam todos caindo de exaustão quando deixaram a estrada para trás e se viram em um local de árvores e colinas.
— Podemos descansar aqui — disse Mark. Ele apontou para um montinho em frente, cujo topo estava escondido por um monte de pedras. — Eles vão nos oferecer abrigo e proteção.
Emma franziu o rosto.
— Estou ouvindo barulho de água — falou. — Tem alguma corrente?
— Sabe que não podemos beber água aqui — disse Julian, enquanto ela descia colina, em direção ao som de líquido borbulhando sobre pedras e em torno de raízes de árvores.
— Eu sei, mas podíamos, pelo menos, nos lavar... — A voz dela se interrompeu. Havia uma corrente, uma espécie de corrente, dividindo o vale entre as duas colinas baixas, mas a água não era água. Era escarlate e espessa. Ela se movia preguiçosa e lentamente, vermelha e pingando, entre os troncos escuros de árvores.
— “Todo o sangue entornado na terra corre pelas nascentes daquele país” — disse Mark, atrás dela. — Vocês fez essa citação para mim,
Julian foi para a beira do rio de sangue e se ajoelhou. Com um rápido gesto, mergulhou dois dedos. Eles saíram com a cor vermelha.
— Isso coagula — falou, com um misto de fascínio e nojo, e limpou a mão na grama. — É mesmo... sangue humano?
— É o que dizem — respondeu Mark. — Nem todos os rios do Reino são assim, mas dizem que o sangue dos assassinados do mundo humano corre pelos rios, regatos e nascentes daqui do bosque.
— Quem dizem? — perguntou Julian, levantando-se. — Quem diz isso?
— Kieran — respondeu Mark simplesmente.
— Eu também conheço a história — disse Cristina. — Existem diferentes versões das lendas, mas eu ouvi muitas e a maioria diz que o sangue é humano e mundano. — Ela recuou, correu e saltou, aterrissando do outro lado do rio de sangue com alguns centímetros de folga.
Os outros repetiram o movimento, e subiram a colina até o topo plano e coberto de grama, que tinha vista para a paisagem ao redor. Emma desconfiava que as pedras antigamente funcionassem como um ponto de vigia.
Eles desenrolaram os cobertores que tinham e espalharam os casacos, agrupando-se sobre eles para se aquecer. Mark se ajeitou e imediatamente caiu no sono. Cristina foi mais cuidadosa e se enrolou no velho casaco azul-escuro, com os longos cabelos caindo sobre o braço onde sua cabeça se apoiava.
Emma encontrou um lugar na grama e dobrou o casaco do seu uniforme de combate para servir de travesseiro. Ela não tinha nada com que se cobrir, e tremeu quando a pele tocou o chão frio ao se esticar para equilibrar Cortana em uma pedra próxima.
— Emma, — Foi Julian quem falou, rolando para perto dela. Ele estava tão parado que ela achou que estivesse dormindo. Ela nem se lembrava de ter deitado tão perto dele. Sob a luz do amanhecer, os olhos de Jules brilhavam como vidro marinho. — Tenho um cobertor extra. Pode ficar com ele.
Era macio e cinza, uma coberta fina que ficava ao pé da cama dele. Emma fez um esforço para afastar as lembranças em que acordava com ela enrolada aos pés, bocejando e se espreguiçando ao sol do quarto de Julian.
— Obrigada — sussurrou, cobrindo-se. A grama estava úmida de orvalho. Julian continuava olhando para ela, com a cabeça apoiada no braço dobrado.
— Jules — murmurou Emma. — Se nossas pedras de luz enfeitiçadas não funcionam aqui, nossas lâminas serafim não funcionam aqui, e os símbolos não funcionam aqui... o que isso significa?
Ele falou como se estivesse cansado.
— Quando olhei para uma pousada, em uma das cidades por onde passamos, vi um símbolo angelical que alguém tinha marcado em uma parede. Estava manchado de sangue, arranhado e destruído. Não sei o que aconteceu aqui desde a Paz Fria, mas sei que nos odeiam.
— Acha que o pingente de Cristina vai funcionar assim mesmo? — perguntou Emma.
— Acho que só a magia dos Caçadores de Sombras que é bloqueada aqui — disse Julian. — O pingente de Cristina foi um presente das fadas. Deve funcionar bem,
Emma fez que sim com a cabeça.
— Boa noite, Jules — murmurou.
Ele esboçou um sorrio.
— Já é manhã, Emma.
Ela não disse nada, apenas fechou os olhos — mas não totalmente, para que pudesse continuar olhando para ele. Ela não dormia perto dele desde o terrível dia em que Jem contou a ela sobre os parabatai e a maldição, e ela não tinha se dado conta do quanto sentia falta disso. Estava exausta, seu cansaço ia até os ossos e o chão abaixo dela enquanto seu corpo dolorido relaxava; ela tinha se esquecido de como era deixar a consciência desaparecer lentamente, enquanto a pessoa em quem mais confiava deitava ao seu lado. Mesmo aqui no Reino das Fadas, onde Caçadores de Sombras eram odiados, ela se sentia mais segura do que sozinha em seu quarto, porque Jules estava com ela, tão perto que, se ela esticasse o braço, poderia tocá-lo.
Ela não podia esticar, é claro. Não podia tocá-lo. Mas eles estavam respirando juntos, respirando o mesmo ar enquanto a consciência se fragmentava, enquanto Emma abria mão da vigília e adormecia, a imagem de Julian ao amanhecer seguindo-a em seus sonhos.

7 comentários:

  1. Eles são tããão fofos! <3
    Se a tia Cassie não deixar eles juntos, eu acho que entro em depressão :(

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  2. Shadowhunters, selecionada, aluna da grifinoria, semi deusa, Hunter, meta humana, lenda do amanhã,2 de dezembro de 2017 21:15

    Naooooooo quero ele com ty ahhhhh

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  3. Já sei quem morre nesse livro kit.
    OBS:causa da morte cortado ao meio por Julian e Max após acabo de guerra pq cada um deles queria matá ele depois que ty contou que ele beijou livvy.😂😂😂😂😂😂😂o cara e um herondale mesmo

    ~MiRELLE

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  4. Aaaaaaah, gritei tanto nesse capitulo😍😍😍😍😍
    Agora, eu não sei se shippo o Kit com a Livvy ou com o Ty, duvida cruelll😨

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  5. Acho que estou shipando a livvy com o kit
    Gosto da atitude dela misturada ao jeito digamos que arrogante dele
    Acho que daria um belo casal
    Ass: kath

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  6. Livvy e Kit <3

    Fiquei curiosa pra saber o que tem Arthur com o pai da Zara? Não me lembro de ter lido o sobrenome dela em lugar nenhum...

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  7. JEMMA
    Quero o Kit com o Ty

    Ass: J CARSTAIRS

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Boa leitura :)