20 de novembro de 2017

Capítulo 7

A poesia vogon é; como todos sabem, a terceira pior do Universo. Em segundo lugar vem a poesia dos azgodos de Kria. Durante um recital em que seu Mestre Poeta, Gruntos, o Flatulento, leu sua “Ode ao pedacinho de massa de vidraceiro verde que encontrei no meu sovaco numa manhã de verão”, quatro pessoas na plateia morreram de hemorragia interna, e o presidente do Conselho Centro-Galáctico de Marmelada Artística só conseguiu sobreviver roendo uma de suas próprias pernas completamente. Consta que Gruntos ficou “decepcionado” com a reação da plateia, e já ia começar a ler sua epopeia em 12 tomos intitulada Meus Gargarejos de Banheira Favoritos quando seu próprio intestino grosso, numa tentativa desesperada de salvar a vida e a civilização, pulou para cima, passando pelo pescoço de Gruntos, e estrangulou-lhe o cérebro.
A pior poesia de todas desapareceu com sua criadora, Paula Nancy Millstone Jennings, de Greenbridge, Essex, Inglaterra, com a destruição do planeta Terra.
Prostetnic Vogon Jeltz sorria muito devagar, não que ele quisesse fazer gênero, estava era tentando lembrar-se da sequência de contrações musculares necessárias para realizar o ato. Tinha dado uns gritos de excelente efeito terapêutico com seus prisioneiros, e agora sentia-se bem relaxado, pronto para um pouquinho de crueldade.
Os prisioneiros estavam sentados em cadeiras de Apreciação Poética, amarrados nelas. Os vogons não alimentavam quaisquer ilusões acerca da reputação de sua literatura. Suas primeiras tentativas poéticas faziam parte de um esforço malogrado no sentido de serem aceitos como uma espécie evoluída e culta, mas agora só persistiam por puro sadismo.
Ford Prefect suava frio, e o suor de sua testa molhava os eletrodos aplicados a suas têmporas, os quais estavam ligados a um complicado equipamento eletrônico intensificadores de imagens, moduladores de ritmo, residuadores alterativos e descarregadores de símiles. Tais aparelhos tinham o efeito de intensificar a experiência poética e garantir que nenhuma nuança do pensamento do poeta passaria despercebida.
Arthur Dent, sentado, tremia. Não fazia ideia do que o esperava, mas não tinha gostado de nada que acontecera até então, e não achava que viria coisa melhor.
O vogon começou a ler um trechinho nauseabundo que ele próprio havia cometido.
— Ó fragúndio bugalhostro... — começou. O corpo de Ford foi sacudido por espasmos; aquilo era bem pior do que esperava. — ...tua micturição é para mim/ Qual manchimucos num lúrgido mastim. Aaaaaaarggggghhhhh! — berrou Ford Prefect, jogando a cabeça para trás, latejando de dor. Mal podia ver Arthur a seu lado, estrebuchando em sua cadeira. Ford rangeu os dentes.
— Frêmeo impbchoro-o  prosseguiu o vogon, implacável —, ó meu perlíndromo exangue. — Levantou a voz num crescendo horrível de estridência apaixonada. — Adrede me não apagianaste a crímidos dessartes?/Ter-te-ei rabirrotos, raio que o parte!
— NnnnnnnnnnyyyyyyuuuuuuurrrrrrggggghhhhhW — exclamou Ford Prefect, contorcido por um último espasmo quando a chave de ouro do poema golpeou-lhe as têmporas, ainda mais com o reforço eletrônico. Ficou todo mole.
Arthur estrebuchava.
— Bem, terráqueos — sibilou o vogon (ele não sabia que Ford Prefect era na verdade de um pequeno planeta perto de Betelgeuse, e estaria pouco ligando se soubesse) —, dou-lhes duas opções: ou morrer no vácuo do espaço ou ... — fez uma pausa, para criar suspense me dizer o quanto gostaram do meu poema!
Refestelou-se num grande sofá de couro em forma de morcego e ficou olhando para os dois. Deu aquele sorriso de novo.
Ford tentava respirar, com dificuldade. Revolveu a língua áspera na boca ressecada e gemeu.
Arthur disse então, entusiástico:
— Sabe, eu gostei bastante.
Ford virou-se para ele, boquiaberto. Simplesmente jamais lhe ocorrera tal saída.
O vogon, surpreso, levantou uma sobrancelha, a ponto de tapar-lhe o nariz, o que aliás foi ótimo.
— Ah, que bom... — sibilou, muito espantado.
— É, sim — disse Arthur. — Achei algumas das imagens metafísicas realmente muito vivas.
Ford continuava de olhos pregados em Arthur, lentamente reorganizando suas ideias em torno deste conceito radicalmente novo. Será que conseguiriam sair daquela enrascada com aquela cara-de-pau?
— Mas sim, continue... — falou o vogon.
Ah... e também... tem uns efeitos rítmicos interessantes — prosseguiu Arthur — que fazem contraponto ao... ao... — Nesse ponto, empacou.
Ford acudiu, chutando:
— ...ao surrealismo da metáfora subjacente da... ah... — Empacou também, mas Arthur já estava pronto: — ...da humanidade da...
— Vogonidade — soprou-lhe Ford.
— Sim, claro, da vogonidade (desculpe) da alma compassiva do poeta — prosseguiu Arthur, sentindo-se perfeitamente seguro agora — que consegue, através da estrutura do texto, sublimar isto, transcender aquilo e apreender as dicotomias fundamentais do outro — Arthur ia agora num crescendo triunfal —, proporcionando ao leitor uma visão aprofundada e intensa do... do... ah...
De repente, vacilou. Ford, então, deu o golpe de misericórdia:
— ...do sentido do poema, seja ele o que for. — gritou ele. E sussurrou discretamente: — Muito bem, Arthur, parabéns.
O vogon olhou-os detidamente. Por um momento, sua endurecida alma vogon fora tocada, mas em seguida ele pensou: não; é tarde demais, e muito pouco. Sua voz lembrava o som de um gato arranhando um pedaço de náilon:
— Em outras palavras, eu escrevo poesia porque, por trás da minha fachada cruel e insensível, no fundo o que eu quero é ser amado — disse ele. Após uma pausa, perguntou: — É isso?
Ford deu um risinho nervoso:
— Bem, quer dizer, é — disse ele. — Todos nós, lá no fundo, sabe... O vogon levantou-se.
— Não, vocês estão completamente enganados — disse. — Escrevo poesia só pra ressaltar minha fachada cruel e insensível por contraste. Vou expulsar vocês da nave de qualquer jeito. Guarda! Leve os prisioneiros para a câmara de descompressão número três e jogue-os para fora!
— O quê? — exclamou Ford.
Um jovem e enorme guarda vogon aproximou-se e arrancou os dois prisioneiros de suas amarras com seus brações gordos.
— Você não pode jogar a gente no espaço — gritou Ford.
Estamos tentando escrever um livro.
— Toda resistência é inútil! — exclamou o guarda vogon. Foi essa a primeira frase que ele aprendeu quando entrou para o Batalhão de Guarda Vogon.
O comandante ficou vendo a cena, distante, divertindo-se, e depois virou-se.
Arthur olhava para todos os lados, desesperado.
— Não quero morrer agora! — gritou ele. — Ainda estou com dor de cabeça! Não quero ir pro céu com dor de cabeça, vou ficar emburrado e não vou achar graça em nada!
O guarda agarrou os dois pelo pescoço e, curvando-se respeitosamente para o comandante, que estava de costas, arrastou-os para fora da ponte de comando; os prisioneiros protestavam sem parar. Uma porta de aço fechou-se, e o comandante estava sozinho de novo. Ele cantarolava baixinho, folheando seu caderno de poesias.
— Humm — exclamou ele —, contraponto ao surrealismo da metáfora subjacente...  Pensou nisso por um momento, então fechou o caderno com um sorriso mau. — A morte é um castigo suave demais pra eles — disse então.
O longo corredor de paredes de aço ressoava as fúteis tentativas de fuga dos dois humanoides firmementes apertados nas axilas do vogon, duras como borracha.
— Isso é genial! — explodiu Arthur. — Isso é só o que faltava! Me solta, seu covardão!
O guarda vogon continuava a arrastá-los.
— Não se preocupe — disse Ford —, eu dou um jeito. — Pelo tom de voz, não parecia acreditar muito no que dizia.
— Toda resistência é inútil — urrou o guarda.
— Pare de dizer isso, por favor — gaguejou Ford. — Como é que a gente pode manter uma atitude mental positiva com você dizendo coisas assim?
— Meu Deus — reclamou Arthur —, você fala de atitude mental positiva, e olhe que o seu planeta nem foi demolido. Eu acordei hoje achando que ia passar um dia tranquilo, ler um pouco, escovar meu cachorro... São só quatro da tarde e já estou sendo expulso de uma espaçonave extraterrestre a seis anos-luz do que resta da Terra! — Começou a engasgar, porque o vogon apertou com mais força.
— Está bem — disse Ford —, mas não entre em pânico!
— Quem é que falou em pânico? — gritou Arthur. — Isso é só choque cultural. Espere só até eu conseguir me situar e me orientar. Aí é que vou entrar em pânico!
— Arthur, você está ficando histérico. Cale a boca!
Ford estava tentando desesperadamente pensar em alguma saída, mas foi interrompido pelo grito do guarda:
— Toda resistência é inútil!


— E cale a boca você também! — exclamou Ford.
— Toda resistência é inútil!
    Ah, não me canse — disse Ford. Torceu-se todo até poder encarar o guarda. Teve uma ideia.  Você realmente gosta disso?
O vogon parou de repente, e uma expressão de imensa estupidez lentamente esboçou-se em seu rosto.
— Se eu gosto disso? — disse ele, com sua voz tonitruante. — Como assim?
— Quero dizer — explicou Ford —, isso é uma vida satisfatória pra você? Marchar de um lado pro outro, berrando, empurrando gente pra fora de espaçonaves...
O vogon levantou os olhos para o teto baixo de aço, e suas sobrancelhas quase passaram uma por cima da outra. A boca entreabriu-se. Por fim, disse:
— Bem, o horário é bom...
— Também, tem que ser — concordou Ford. Arthur revirou a cabeça para olhar para Ford.
— Ford, que diabo você está fazendo? — sussurrou ele, espantado.
— Nada, estou só tentando entender o mundo ao meu redor, está bem? — respondeu. — Então, quer dizer que o horário é bom?
O vogon olhou-o, e nas profundezas turvas de sua mente alguns pensamentos começaram a formar-se, pesadamente.
— É — disse ele —, mas agora que você falou nisso, a maior parte do tempo é um saco. Tirando... — e parou para pensar de novo, olhando para o teto — tirando a parte de gritar, de que gosto muito. — Encheu os pulmões e urrou: — Toda resistência...
— Sei, sei — interrompeu Ford mais que depressa —, você é bom nisso, já deu pra perceber. Mas se a maior parte do tempo é um saco — disse, lentamente, dando tempo para que suas palavras fossem bem entendidas —, então por que você continua nessa? Por quê? Por causa das garotas? O uniforme de couro? O machismo da coisa? Ou é só por que você acha um desafio interessante enfrentar o tédio imbecilizante desse trabalho?
Arthur olhava para um e para outro, sem entender nada.
— Ah... — disse o guarda — ah... ah... sei não. Acho que eu faço isso só pra... só por fazer, sabe. A titia me disse que trabalhar como guarda de espaçonave é uma boa carreira para um rapaz vogon, sabe, o uniforme, a pistola de raio paralisante na cintura, o tédio imbecilizante...
— Está vendo, Arthur? — disse Ford, como quem chegou à conclusão de uma argumentação. — E você que pensava que estava na pior?
Mas Arthur continuava pensando que estava na pior. Além da questão desagradável com seu planeta, o guarda vogon estava estrangulando-o, e a ideia de ser jogado no espaço também não lhe agradava, muito.
— Tente entender o problema dele — insistiu Ford. — Coitado do rapaz, o trabalho dele é só marchar de um lado pro outro, jogar gente pra fora da nave...
— E gritar — acrescentou o guarda.
— E gritar, claro — acrescentou Ford, dando tapinhas condescendentes no braço gordo apertado em torno de seu pescoço. — Mas... ele nem sabe por que faz o que faz!
Arthur concordou que era muito triste. Exprimiu esta ideia com um gesto tímido, pois estava asfixiado demais para falar.
O guarda emitia ruídos que indicavam sua perplexidade profunda.
— Bem. Do jeito que você coloca a coisa, pensando bem...
— Isso, garoto! — disse Ford, para estimulá-lo.
— Mas, nesse caso — prosseguiu o guarda —, qual é a alternativa?
— Bem — disse Ford, falando com entusiasmo, mas devagar —, parar de fazer isso, é claro! Diga a eles que você não vai continuar a fazer isso. — Teve vontade de dizer mais alguma coisa, mas sentiu que o guarda já tinha material para profundas ruminações em sua mente.
— Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm... — disse o guarda —, hum, bem, não acho essa ideia muito boa, não.
De repente, Ford sentiu que estava perdendo a oportunidade.
— Espere aí, é só o começo, sabe; a coisa é bem mais complicada do que parece à primeira vista...
Mas nesse momento o guarda apertou com mais força os pescoços dos prisioneiros e seguiu em frente, rumo à câmara de descompressão. Evidentemente, aquela conversa calara fundo em sua mente.
— É, mas se vocês não se incomodam — disse ele —, vou mesmo jogar vocês pra fora da nave e vou cuidar da minha vida, que ainda tenho muito que gritar hoje.
Só que Ford Prefect se incomodava, e muito.
— Mas espere aí... pense um pouco! — disse ele, falando mais depressa e mais preocupado.
— Huhhhhggggnnnnnnn... — disse Arthur, sem muita clareza.
— Além disso — insistiu Ford —, existe a música, a arte, tanta coisa pra lhe dizer! Arrggghhh!
— Toda resistência é inútil! — berrou o guarda, e depois acrescentou: — Sabe, se eu persistir, vou acabar sendo promovido a oficial superior gritador, e normalmente não tem vaga pra quem não grita nem empurra gente, por isso acho melhor ficar mesmo fazendo o que sei fazer.
— Haviam agora chegado à câmara de descompressão — uma grande escotilha redonda de aço, forte e pesada, embutida na parede interna da nave. O guarda acionou um botão e lentamente a escotilha se abriu.
— De qualquer forma, obrigado pela atenção — disse o guarda vogon. — Tchau! — Jogou Ford e Arthur para dento da apertada câmara de descornpressão. Arthur, ofegante, tentava recuperar o fôlego. Ford corria de um lado para o outro e tentava inutilmente impedir com o ombro que a escotilha fosse fechada.
— Mas, escute — gritou para o guarda —, existe um mundo de coisas das quais você nunca ouviu falar... que tal isso, por exemplo? — No desespero, apelou para o único dado cultural que ele tinha sempre à mão: cantarolou o primeiro compasso da Quinta Sinfonia de Beethoven.
— Tchã tchã tchã tchãããã! Isso não diz nada a você?
— Não — disse o guarda. — Nada. Mas vou contar pra titia. Se ele ainda disse alguma coisa depois, os dois não ouviram.
A escotilha foi hermeticamente fechada e todos os sons desapareceram, salvo o zumbido distante dos motores da nave. Estavam dentro de uma câmara cilíndrica, de metal polido, de cerca de dois metros de diâmetro por três de comprimento.
Ford olhou ao redor, ofegante.
— E eu que achava que o rapaz tinha até um certo potencial! — disse ele, e encostou-se na parede curva.
Arthur continuava deitado no chão, onde caíra ao entrar. Não levantou a vista. Continuava ofegante.
— Agora estamos ferrados, não é?
— É — disse Ford —, estamos ferrados.
E aí, você não pensou em nada? Você, se não me engano, me disse que ia pensar numa solução. Talvez você tenha pensado em alguma coisa, só que não percebi.
— Ah, é, eu realmente pensei numa coisa — disse Ford. Arthur olhou para ele, esperançoso. Ford prosseguiu:
— Infelizmente, só daria certo do outro lado desta escotilha. E chutou a escotilha pela qual haviam entrado.
— Mas a ideia era boa, não era?
— Ah, era ótima.
— O que era?
— Bem, eu não tinha ainda nem elaborado a coisa detalhadamente. Agora não adianta mais, não é?
— Mas... e agora? — perguntou Arthur.
— Bem, sabe, essa outra escotilha vai se abrir automaticamente daqui a pouco e nós vamos ser chupados para o espaço profundo, imagino, e vamos morrer asfixiados. Se você encher bem os pulmões ainda aguenta uns 30 segundos, é claro... — disse Ford. Pôs as mãos atrás das costas, levantou as sobrancelhas e começou a cantarolar uma velha canção marcial de Betelgeuse. De repente, Arthur se deu conta de que ele era um ser muito estranho.
— Quer dizer então — disse ele — que vamos morrer.
— É — disse Ford —, só que... não! Espere aV. — De repente levantou-se e lançou-se sobre algo que estava atrás do campo visual de Arthur. — O que é esse interruptor?
— O quê? Onde? — exclamou Arthur, virando-se.
— Nada, brincadeira minha — disse Ford. — A gente vai morrer, sim.
— Sentou-se no mesmo lugar de antes e recomeçou a cantarolar a mesma música a partir do trecho em que a havia interrompido.
— Sabe — disse Arthur —, é em ocasiões como esta, em que estou preso numa câmara de descompressão de uma espaço-nave vogon, com um sujeito de Betelgeuse, prestes a morrer asfixiado no espaço, que realmente lamento não ter escutado o que mamãe me dizia quando eu era garoto.
— Por quê? O que ela dizia?
— Não sei. Eu nunca escutei.
— Ah. — Ford recomeçou a cantarolar.
 “Que barato”, pensou Arthur. “A Coluna de Nelson não existe mais, o McDonald's não existe mais, só restamos eu e as palavras praticamente inofensiva. Daqui a alguns segundos, só restará praticamente inofensiva. E ontem mesmo o planeta parecia estar tão bem.”
Ouviu-se o ruído de um motor.
Um silvo suave foi aumentando, até transformar-se num rugido ensurdecedor; a escotilha exterior abriu-se, mostrando um céu vazio e negro cheio de pontinhos de luz incrivelmente brilhantes. Ford e Arthur foram expelidos da nave como rolhas atiradas por um revólver de brinquedo.

Um comentário:

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Boa leitura :)