15 de novembro de 2017

Capítulo 7

Quando a temperatura caiu, os alemães foram apertando o controle sobre St Péronne. A cidade ficou inquieta, com um número maior de tropas passando diariamente. As conversas dos oficiais no bar ficaram mais prementes, de modo que eu e Hélène passávamos a maior parte do nosso tempo na cozinha. O Kommandant quase não falava comigo; estava quase sempre reunido com alguns homens de sua confiança. Parecia exausto, e, quando eu o ouvia falando na sala de refeições, era frequentemente num tom exaltado de raiva.
Por várias vezes naquele janeiro, prisioneiros de guerra franceses foram levados pela rua principal e passaram pelo hotel, mas já não tínhamos permissão de ficar na calçada para vê-los. A comida se tornava mais escassa, nossas rações oficiais diminuíram, e esperavam que eu produzisse banquetes com quantidades cada vez menores de carne e legumes. Os problemas estavam se aproximando.
O Journal des Occupés, quando vinha, falava de cidades que conhecíamos. À noite, não era incomum haver leves ondulações nos líquidos nos copos, provocadas pelo estrondo dos canhões ao longe. Custei um pouco a dar por falta do som do canto dos pássaros. Tínhamos sido informados de que todas as moças a partir dos dezesseis anos e todos os rapazes a partir dos quinze seriam agora obrigados a trabalhar para os alemães, no campo, arrancando beterraba ou cultivando batatas, ou em fábricas mais distantes. Faltando pouco tempo para Aurélien completar quinze anos, eu e Hélène ficamos cada vez mais tensas.
Corriam muitos rumores sobre o que acontecia com os jovens, histórias de moças alojadas com gangues de criminosos ou, pior, instruídas a “divertir” os soldados alemães. Os rapazes eram mal alimentados ou espancados e constantemente obrigados a mudar de um lugar para outro de forma a permanecerem desorientados e obedientes. Apesar de nossa idade, eu e Hélène estávamos livres, informaram-nos, porque éramos consideradas “essenciais ao bem-estar alemão” no hotel. Só isso já seria suficiente para provocar ressentimentos em todos os nossos conterrâneos.
Houve outro fato. Foi uma mudança sutil, mas eu tinha consciência dela. A frequência do Le Coq Rouge caíra. Dos vinte e poucos clientes habituais, estávamos reduzidas a cerca de oito. A princípio, pensei que o frio estivesse mantendo as pessoas dentro de casa. Depois fiquei preocupada e fui visitar o velho René para ver se ele estava doente. Mas ele me recebeu à porta e disse secamente que preferia ficar em casa. Não olhou para mim ao falar. O mesmo aconteceu quando fui visitar Madame Foubert e a mulher do prefeito. Fiquei me sentindo estranhamente perturbada. Disse a mim mesma que era tudo imaginação minha; mas um dia calhou de, a caminho da farmácia, eu passar pelo Le Bar Blanc na hora do almoço, e vi René e Madame Foubert sentados do lado de dentro, jogando damas. Convenci-me de que meus olhos haviam me enganado. Quando ficou claro que não, abaixei a cabeça e passei depressa.
Apenas Liliane Béthune me lançou um sorriso simpático. Flagrei-a certa manhã, pouco antes de o dia raiar, passando um envelope por baixo da minha porta. Ela se sobressaltou quando abri os trincos.
— Ah, mon Dieu. Graças a Deus é você! — exclamou ela, tapando a boca com a mão.
— Isto é o que estou pensando? — perguntei, olhando para o envelope grande, sem destinatário.
— Quem sabe? — disse ela, já se voltando para a praça. — Não vejo nada aí.
Mas Liliane Béthune era a única. Com o passar dos dias, reparei outras coisas: se eu vinha da cozinha e entrava no bar, o tom das conversas diminuía um pouco, como se quem quer que estivesse falando estivesse decidido a não me deixar entreouvir. Se eu dava a minha opinião durante uma conversa, era como se eu nada houvesse dito. Por duas vezes, ofereci um pequeno pote de caldo de carne ou sopa à mulher do prefeito, só para ouvir que já tinham bastante, obrigada. Ela desenvolvera um modo curioso de falar comigo, não exatamente antipático, mas como se sentisse certo alívio quando eu desistia da conversa. Eu nunca confessaria isso, mas era quase um consolo quando o restaurante estava cheio de vozes novamente, ainda que calhasse de serem alemãs.
Foi Aurélien que me alertou.
— Sophie?
— Sim?
Eu estava fazendo a massa para uma torta de coelho com legumes. Minhas mãos e meu avental estavam cobertos de farinha, e eu me perguntava se poderia usar sem problemas as aparas para fazer biscoitinhos para as crianças.
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro.
Limpei as mãos no avental. Meu irmão mais novo me olhava com uma expressão estranha, como se estivesse tentando entender algo.
— Você... você gosta dos alemães?
— Se eu gosto deles?
— É.
— Que pergunta absurda. Claro que não. Eu queria que todos eles fossem embora e nós pudéssemos voltar à nossa vida de antes.
— Mas você gosta de Herr Kommandant.
Parei, as mãos no rolo de pastel, e me virei.
— Você sabe que essa é uma conversa perigosa, do tipo que pode nos meter numa encrenca terrível.
— Não é a minha conversa que está nos metendo numa encrenca.
Da cozinha, ouvi os aldeões conversando no bar. Fui fechar a porta, e ficamos só nós dois ali dentro. Quando tornei a falar, mantive a voz baixa e contida.
— Fale logo, Aurélien.
— Eles dizem que você não é diferente de Liliane Béthune.
— O quê?
— Monsieur Suel viu você dançando com Herr Kommandant na véspera de Natal. Bem juntinho, de olhos fechados, colada nele, como se o amasse.
O choque quase me fez desmaiar.
— O quê?
— Dizem que este foi o verdadeiro motivo de você não ter ido à ceia: para ficar sozinha com ele. Dizem que é por isso que recebemos suprimentos extras. Você é a preferida do alemão.
— É por isso que você anda brigando na escola?
Pensei no olho roxo dele, na sua recusa ressentida em falar quando lhe perguntei como acontecera aquilo.
— É verdade? — perguntou ele.
— Não, não é verdade. — Bati com o rolo de pastel na mesa. — Ele perguntou... ele perguntou se eu podia dançar com ele, só uma música, já que era Natal, e achei melhor ele estar ali pensando em dançar a correr o risco de levá-lo a se perguntar o que estava acontecendo na casa de Madame Poilâne. Não houve nada além disso: a sua irmã tentando proteger você por aquela única noite. Essa dança lhe valeu uma ceia de carne de porco, Aurélien.
— Mas eu já vi o jeito dele. Já vi como ele a admira.
— Ele admira o meu retrato. Há uma grande diferença.
— Já ouvi como ele fala com você.
Franzi a testa para ele, e ele olhou para o teto. Claro: as horas que ele passava espiando pelas frestas do assoalho do Quarto Três. Aurélien deve ter ouvido e visto tudo.
— Não pode negar que ele gosta de você. Ele usa tu, não vous para falar com você, e você deixa.
— Ele é um Kommandant alemão, Aurélien. Não tenho como me opor à forma de tratamento que ele escolhe para se dirigir a mim.
— Todo mundo está falando de você, Sophie. Fico sentado lá em cima, ouço o que falam sobre você e não sei em que acreditar.
Seus olhos ardiam de raiva e confusão.
Aproximei-me dele e segurei seus ombros.
— Então acredite nisto. Eu não fiz nada, nada, que possa envergonhar a mim ou ao meu marido. Todo dia, procuro novas maneiras de cuidar bem da nossa família, cuidar para que nossos amigos e nossos vizinhos tenham comida, consolo e esperança. Não sinto nada pelo Kommandant. Tento me lembrar de que ele é um ser humano, como nós. Mas, Aurélien, se acha que algum dia eu trairia o meu marido, você é um tolo. Amo Édouard com cada parte do meu ser. Todos os dias desde que ele foi embora sinto a ausência dele como uma dor de verdade. À noite, fico acordada com medo do que pode acontecer com ele. E agora eu não quero nunca mais ouvir você falar assim. Está me ouvindo?
Ele afastou a minha mão.
— Está me ouvindo?
Ele fez que sim com a cabeça, emburrado.
— Ah — acrescentei. Talvez eu não devesse ter falado aquilo, mas meu sangue fervia. — E não vá logo condenando Liliane Béthune. Pode ser que descubra que deve a ela mais do que pensa.
Meu irmão me fuzilou com os olhos, depois saiu da cozinha batendo a porta.
Fiquei olhando para a massa um bom tempo antes de me lembrar que devia estar fazendo uma torta.

* * *

Mais tarde naquela manhã, fui dar um passeio na praça. Geralmente, Hélène buscava o pão — Kriegsbrot —, mas eu precisava desanuviar a cabeça, e o clima no bar tornara-se opressivo. Fazia tanto frio naquele janeiro que meus pulmões doíam quando eu respirava e uma película de gelo envolvia os galhos nus das árvores; enterrei o gorro na cabeça e protegi a boca com o cachecol. Havia pouca gente na rua, mas mesmo assim apenas uma pessoa, a velha Madame Bonnard, me cumprimentou com um gesto de cabeça. Eu disse a mim mesma que isso era simplesmente porque, por baixo de tantas camadas de roupa, era difícil saber quem eu era.
Fui até a rue des Bastides, que fora rebatizada de Schieler Platz (recusávamo-nos a nos referir a ela assim). A porta da boulangerie estava encostada, e eu a empurrei. Lá dentro, Madame Louvier e Madame Durant conversavam animadamente com Monsieur Armand. Elas se calaram no instante em que a porta se fechou às minhas costas.
— Bom dia — cumprimentei, ajeitando a cesta embaixo do braço.
As duas mulheres, agasalhadas embaixo de camadas de lã, fizeram um vago sinal de cabeça na minha direção. Monsieur Armand simplesmente ficou parado, com as mãos no balcão à sua frente.
Esperei, depois me virei para as senhoras.
— A senhora vai bem, Madame Louvier? Já tem várias semanas que não aparece no Le Coq Rouge. Temi que estivesse doente.
Minha voz pareceu estranhamente alta na pequena loja.
— Não — respondeu a senhora. — Tenho preferido ficar em casa.
Ela não me olhou nos olhos ao falar.
— Recebeu a batata que deixei para a senhora semana passada?
— Recebi. — Seu olhar deslizou de soslaio para Monsieur Armand. — Dei para Madame Grenouille. Ela é... menos exigente em relação à procedência da comida dela.
Fiquei imóvel. Então era assim. A injustiça daquilo tinha gosto de cinzas
amargas na minha boca.
— Então espero que ela tenha aproveitado. Monsieur Armand, eu queria uns pães, por favor. O meu e o de Hélène, por gentileza.
Ah, como desejei uma das brincadeiras dele. Uma gracinha picante ou um trocadilho de revirar os olhos. Mas o padeiro se limitou a me fitar, com um olhar firme e antipático. Não foi para os fundos da padaria, como eu esperara. Na verdade, não se mexeu. Quando eu já ia repetir o meu pedido, ele tirou dois pães pretos de baixo do balcão e os colocou em cima do móvel.
Fiquei olhando para eles.
A temperatura na pequena boulangerie parecia cair, mas senti os olhos daqueles três me queimando. Os pães estavam no balcão, achatados e pretos.
Ergui os olhos e engoli em seco.
— Na verdade, acho que me enganei. Não estamos precisando de pão hoje — eu disse baixinho, e tornei a botar a carteira na cesta.
— Acho que não está precisando de muita coisa no momento — resmungou Madame Durant.
Virei-me e ficamos nos encarando, a idosa e eu. Então, de cabeça erguida, saí da loja. Que vergonha! Que injustiça! Vi os olhares zombeteiros daquelas duas senhoras e me dei conta de que eu fora uma idiota. Como demorei tanto a ver o que estava acontecendo debaixo do meu nariz? Voltei a passos largos para o hotel, ruborizada, a cabeça a mil. A vibração em meus ouvidos era tão alta que, a princípio, não ouvi.
— Halt!
Parei e olhei em vota.
— Halt!
Um oficial alemão marchava na minha direção, com a mão levantada.
Esperei justo embaixo da estátua destruída de Monsieur Leclerc, ainda ruborizada. Ele veio até mim.
— Você me ignorou.
— Peço desculpas, oficial. Não ouvi o senhor.
— É crime ignorar um oficial alemão.
— Com eu disse, não ouvi. Peço desculpas.
Desenrolei um pouco a echarpe do rosto. E então vi quem era: o jovem oficial bêbado que agarrara Hélène no bar e tivera a cabeça golpeada contra a parede pelo que havia feito. Vi a pequena cicatriz em sua têmpora e percebi que ele também me reconhecera.
— Sua carteira de identidade.
Ela não estava no meu bolso. Eu ficara tão preocupada com as palavras de Aurélien que a deixara na mesa do hall do hotel.
— Esqueci de trazê-la.
— É crime sair de casa sem a carteira de identidade.
— Ela está logo ali. — Apontei para o hotel. — Se for até lá comigo, posso pegá-la...
— Não vou a lugar nenhum. O que está fazendo?
— Eu só estava... indo à boulangerie.
Ele olhou para a minha cesta vazia.
— Para comprar pão invisível?
— Mudei de ideia.
— Você deve estar comendo bem no hotel, atualmente. Todas as outras pessoas estão ansiosas para receber as rações.
— Eu não como melhor do que ninguém.
— Esvazie os bolsos.
— O quê?
Ele apontou o rifle para mim.
— Esvazie os bolsos. E tire alguma dessas camadas de roupa para eu poder ver o que está carregando.
Fazia menos um grau de dia. O vento gelado adormecia cada centímetro de pele descoberta. Pousei a minha cesta e tirei lentamente o primeiro dos meus xales.
— Largue o xale no chão — disse ele. — E o outro também.
Olhei em volta. Do outro lado da praça, os clientes do Le Coq Rouge deviam estar olhando. Tirei lentamente o segundo xale e depois o meu casaco pesado. Senti as janelas vazias da praça me olhando.
— Esvazie os bolsos. — Ele espetou o meu casaco com a baioneta, esfregando-o no gelo e na lama. — Vire-os do avesso.
Abaixei-me e pus as mãos nos bolsos. Eu estava tiritando, e meus dedos, que estavam roxos, se recusavam a me obedecer. Depois de várias tentativas, tirei do casaco o meu carnê de racionamento, duas notas de cinco francos e um pedaço de papel.
Ele o arrancou da minha mão.
— O que é isso?
— Nada de importante, oficial. Só... só um presente do meu marido. Por favor, deixe-me ficar com ele.
Ouvi o pânico na minha voz, e na hora em que falei isso, vi que tinha sido um erro. Ele abriu o pequeno desenho que Édouard havia feito de nós. Ele, o urso de uniforme, eu, séria, com o meu vestido azul engomado.
— Está confiscado — disse o oficial.
— O quê?
— Você não tem o direito de andar com retratos de uniformes do Exército francês. Vou jogar fora.
— Mas... — Eu estava incrédula. — É só um desenho bobo de um urso.
— Um urso de uniforme francês. Pode ser um código.
— Mas... mas é só uma brincadeira... uma bobagem entre mim e o meu marido. Por favor, não destrua o desenho. — Estendi a mão, mas ele a afastou. — Por favor, tenho tão pouca coisa para me lembrar...
Enquanto eu estava ali em pé, tiritando, ele me olhou nos olhos e rasgou o desenho ao meio. Depois rasgou as duas partes em pedacinhos, observando a minha expressão enquanto eles caíam como confetes no chão molhado.
— Da próxima vez, lembre-se dos seus documentos, sua puta — disse ele e foi se juntar aos camaradas.

* * *

Hélène me recebeu quando cheguei à porta de casa, apertando no corpo aqueles xales gelados e empapados. Ao entrar, senti os olhos dos clientes, mas não tinha nada para dizer a eles. Atravessei o bar e fui pendurar os xales nos ganchos de madeira do corredor com as mãos congeladas.
— O que houve?
Minha irmã estava atrás de mim.
Eu estava tão perturbada que não conseguia falar.
— O oficial que a agarrou aquela vez. Ele destruiu o desenho de Édouard. Rasgou em pedacinhos, para se vingar de nós depois que o Kommandant bateu nele. E não tem pão, porque Monsieur Armand aparentemente também acha que eu sou uma puta.
Eu tinha o rosto dormente e mal conseguia me fazer entender, mas estava furiosa e bradejava.
— Ssh!
— Por quê? Por que devo ficar quieta? O que fiz de errado? Esta cidade está infestada de gente sibilando e cochichando, e ninguém me diz a verdade.
Eu tremia de raiva e desespero.
Hélène fechou a porta do bar e me arrastou escada acima para os quartos vazios, alguns dos poucos lugares em que poderíamos não ser ouvidas.
— Acalme-se e fale comigo. O que houve?
Contei a ela. Contei o que Aurélien dissera e como as senhoras na boulangerie tinham falado comigo, e sobre Monsieur Armand e o pão dele, que não podíamos agora correr o risco de comer. Hélène ouviu tudo, envolvendo-me nos braços, encostando a cabeça na minha e fazendo exclamações de solidariedade enquanto eu falava. Até que perguntou:
— Você dançou com ele?
Enxuguei os olhos.
— É, dancei.
— Você dançou com Herr Kommandant?
— Não me olhe assim. Você sabe o que eu estava fazendo naquela noite. Sabe que eu teria feito de tudo para manter os alemães longe da ceia. Mantê-lo aqui significou que vocês puderam ter uma festa de verdade. Você me disse que foi o melhor dia desde que Jean-Michel foi para a guerra.
Ela olhou para mim.
— Bom, você não me contou isso. Não usou essas mesmas palavras.
Ela continuou calada.
— O quê? Vai me chamar de puta também?
Hélène baixou os olhos. Finalmente disse:
— Eu não teria dançado com um alemão, Sophie.
Deixei que suas palavras penetrassem em mim. Então me levantei, sem dizer nada, e desci. Ouvi-a me chamando e notei, lá no meu íntimo, que chamara um pouquinho tarde demais.

* * *

Eu e Hélène trabalhamos lado a lado em silêncio naquela noite. Falávamos o mínimo possível, dizendo o estritamente necessário apenas para confirmar que, sim, a torta estaria pronta para as sete e meia e, sim, o vinho estava aberto, e que de fato havia menos quatro garrafas do que na semana anterior. Aurélien ficou no andar de cima com as crianças. Só Mimi desceu e me abraçou. Eu a abracei com ardor, aspirando o seu cheirinho gostoso de criança, sentindo sua pele macia na minha.
— Amo você, pequena Mi — sussurrei.
Ela sorriu para mim em meio a suas longas madeixas louras.
— Eu também amo você, tia Sophie — disse ela.
Enfiei a mão no avental e rapidamente coloquei em sua boca uma tirinha de massa assada que eu guardara para ela mais cedo. Ela sorriu para mim e Hélène subiu com ela, para que fosse se deitar.
Em contraste com o estado de espírito de minha irmã e o meu, os soldados alemães pareciam curiosamente animados naquela noite. Ninguém se queixava das rações reduzidas. Pareciam não notar a redução do vinho. Apenas o Kommandant parecia preocupado e taciturno. Ficou sentado sozinho enquanto os outros oficiais brindaram a alguma coisa e aplaudiram. Eu me perguntava se Aurélien estava lá em cima ouvindo e se entendia o que diziam.
— Não vamos brigar — disse Hélène, quando nos deitamos mais tarde. — Acho exaustivo. — Estendeu-me a mão, e, no escuro, eu a peguei. Mas ambas sabíamos que algo mudara.

* * *

Hélène é quem foi às compras no dia seguinte. Só algumas lojas estavam funcionando naqueles dias: umas carnes em conserva, uns ovos caríssimos e uns poucos legumes, e um idoso de La Vendée que fazia roupas de baixo novas com tecidos velhos. Fiquei no bar do hotel, servindo aos poucos clientes que nos restavam, tentando ignorar o fato de nitidamente continuar sendo o assunto de conversas hostis.
Por volta das dez e meia, percebemos uma agitação na rua. Eu me perguntei por um instante se eram mais prisioneiros, mas Hélène entrou correndo, com o cabelo solto e os olhos arregalados.
— Você não vai adivinhar — disse ela. — É a Liliane.
Meu coração começou a palpitar. Deixei cair os cinzeiros que estava limpando e corri para a porta, com os clientes, que se levantaram ao mesmo tempo de suas cadeiras. Subindo a rua, vinha Liliane Béthune. Usava seu casaco de astracã, mas já não parecia uma modelo parisiense. Não vestia nada além. Tinha manchas azuis nas pernas causadas pelo frio e por hematomas.
Estava descalça, com os pés ensanguentados e o olho esquerdo quase fechado de tão inchado. O cabelo solto lhe caía no rosto, e ela mancava, como se cada passo fosse um esforço de Sísifo. Tinha um oficial alemão de cada lado, humilhando-a, e era seguida de perto por um grupo de soldados. Pela primeira vez, os soldados pareciam não se importar por termos saído para olhar.
O belo casaco de astracã estava todo sujo. Na parte das costas, havia não só trilhas viscosas de sangue, mas também inconfundíveis vestígios de muco.
Enquanto eu olhava aquilo, ouvi um soluço.
— Maman! Maman!
Atrás dela, contida por outros soldados, eu agora via Édith, a filha de sete anos de Liliane. Ela soluçava e se debatia, tentando chegar à mãe, o rosto contraído. Um soldado a agarrava pelo braço, impedindo que se aproximasse, e o outro ria, como se aquilo fosse engraçado. Liliane caminhava como que alheia, num mundo isolado de dor, cabisbaixa. Quando passou pelo hotel, irrompeu uma manifestação surda de escárnio.
— Vejam agora a puta orgulhosa!
— Acha que os alemães ainda vão querer você, Liliane?
— Eles se cansaram dela. E já vai tarde.
Eu não acreditava que aqueles fossem os meus conterrâneos. Olhei em volta para as expressões cheias de ódio, os sorrisos de desdém, e quando não consegui mais suportar, empurrei todo mundo e fui ao encontro de Édith.
— Entreguem-me a criança! — exigi.
Eu agora via que a cidade inteira parecia ter vindo assistir a esse espetáculo. Vaiavam Liliane de janelas dos andares mais altos, do outro lado da praça.
Édith soluçava, com a voz suplicante:
— Maman!
— Entregue-me essa menina! — gritei. — Ou os alemães agora também estão perseguindo criancinhas?
O oficial que a segurava olhou para trás, e vi Herr Kommandant parado perto da agência dos correios. Ele disse algo para o oficial ao seu lado, e, logo depois, a criança foi liberada para mim. Apanhei-a nos braços.
— Está tudo bem, Édith. Você vem comigo.
Ela escondeu o rosto em meu ombro, chorando inconsolavelmente, ainda esticando em vão um braço na direção da mãe. Tive a impressão de ter visto Liliane virar o rosto ligeiramente para mim, mas daquela distância não dava para ter certeza.
Levei Édith rapidamente para o bar, longe dos olhos da cidade, do barulho das manifestações de escárnio que já recomeçavam; fomos para os fundos do hotel, onde ela não ouviria nada. A menina estava histérica, e quem poderia censurá-la? Levei-a para o nosso quarto, dei-lhe água, depois peguei-a nos braços e a embalei. Disse e repeti várias vezes que tudo daria certo, faríamos com que desse, embora soubesse que não podíamos fazer nada nesse sentido. Ela chorou até ficar exausta. Pelo inchaço do rosto, calculei que chorara quase a noite inteira. Só Deus sabia o que ela havia visto. Afinal, relaxou em meus braços e eu a deitei com cuidado em minha cama, cobrindo-a. Depois desci.
Quando entrei no bar, fez-se silêncio. Fazia semanas que não havia tanto movimento no Le Coq Rouge; Hélène corria por entre as mesas com uma bandeja cheia. Vi o prefeito à porta, depois olhei para os rostos à minha frente e já não conhecia nenhum deles.
— Estão satisfeitos? — indaguei com a voz embargada. — Há uma criança deitada lá em cima depois de ter visto a mãe ser cuspida e escarnecida, tratada com brutalidade por vocês. Pessoas que ela considerara amigas. Estão orgulhosos?
A mão de minha irmã pousou em mim.
— Sophie...
Afastei-a com um movimento de ombros.
— Não me venha com “Sophie”. Vocês não têm ideia do que fizeram. Acham que sabem tudo sobre Liliane Béthune. Bem, vocês não sabem nada. NADA! — Eu agora chorava, lágrimas de raiva. — Vocês são muito rápidos na hora de julgar, mas também são muito rápidos na hora de aceitar o que ela oferece quando isso lhes convém.
O prefeito veio na minha direção.
— Sophie, precisamos conversar.
— Ah, agora quer falar comigo! Passou semanas me olhando como se eu cheirasse mal, porque Monsieur Suel supõe que eu seja uma traidora e uma puta. Eu! Que arrisquei tudo para levar comida para sua filha. Vocês sempre acreditavam antes nele que em mim! Bem, talvez eu não queira falar com o senhor agora, Monsieur. Sabendo o que eu sei, talvez eu prefira falar com Liliane Béthune!
Eu estava enfurecida. Sentia-me transtornada, louca, como se soltasse faíscas. Olhei para aqueles rostos idiotas, aqueles queixos caídos e afastei a mão que me segurava pelo ombro.
— De onde acham que vinha o Journal des Occupés? Acham que os passarinhos o jogavam aqui? Acham que vinha em algum tapete mágico?
Hélène começava a tentar me afastar.
— Não quero saber! Quem eles achavam que estava ajudando? Era Liliane. Vocês todos tiveram a ajuda dela! Mesmo quando cagavam no pão dela, tinham a ajuda dela.
Eu estava no corredor. O rosto de Hélène estava branco; o prefeito, atrás dela, afastava-me dos demais.
— O que foi? — protestei. — A verdade os incomoda muito? Estou proibida de falar?
— Sente-se, Sophie. Pelo amor de Deus, sente-se aí e cale a boca.
— Eu não conheço mais esta cidade. Como vocês podem ficar gritando na cara dela? Mesmo que ela tivesse dormido com os alemães, como podem tratar assim um ser humano igual a vocês? Eles cuspiram nela, Hélène, não viu? Cuspiram nela. Como se não fosse humana.
— Sinto muito por Madame Béthune — disse o prefeito baixinho. — Mas não estou aqui para falar dela. Vim para falar com você.
— Não tenho nada a lhe dizer — falei, enxugando o rosto com as mãos.
O prefeito respirou fundo.
— Sophie, tenho notícias do seu marido.
Custei um pouco a registrar o que ele dissera.
Ele se sentou pesadamente nos degraus ao meu lado. Hélène ainda segurava a minha mão.
— Não é uma notícia boa, receio. Quando os últimos prisioneiros passaram por aqui de manhã, um deles largou um bilhete na frente do correio. Um pedaço de papel. Meu assistente pegou. Diz que Édouard Lefèvre estava entre os cinco homens que foram levados para um campo de prisioneiros em Ardennes mês passado. Sinto muito, Sophie.

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