29 de novembro de 2017

Capítulo 7 - Mares sem costas

Antes que Julian ou Emma pudessem falar, a porta da frente do Instituto se abriu com força. Diana estava lá, com Mark logo atrás, ainda com as roupas de treinamento. Ela, de terno branco, estava bonita e elegante como sempre.
O imenso cavalo malhado de Gwyn empinou quando Mark se aproximou do topo da escada. Ao ver Emma e Jules andando em sua direção, Mark pareceu mais do que surpreso. Emma sentiu as bochechas ardendo, mas ao olhar para Julian, ele tinha a aparência serena e tranquila de sempre.
Eles se juntaram a Mark quando Diana alcançou o topo da escada. Os quatro Nephilim encararam o Caçador – os olhos do cavalo de Gwyn eram vermelhos como sangue, assim como a armadura que ele portava: couro duro escarlate, rasgada aqui e ali por marcas de garras e cortes feitos por armas.
— Por causa da Paz Fria, não posso lhe dar as boas-vindas — falou Diana. — Por que está aqui, Gwyn Caçador?
O olhar ancião de Gwyn percorreu Diana de cima a baixo; não havia malícia ou arrogância nele, apenas a apreciação das fadas pela beleza.
— Adorável dama — falou ele —, acredito que não nos conhecemos.
Por um instante, Diana pareceu confusa.
— Diana Wrayburn. Sou a tutora aqui.
— Aqueles que ensinam são honrados na Terra Sob a Colina — disse Gwyn. Debaixo do braço, ele segurava um enorme capacete decorado com as galhadas de um cervo. O chifre de caça estava apoiado na sela. Emma se admirou: será que Gwyn estava dando em cima de Diana? Ela não sabia como fadas fa-ziam isso exatamente, mas ouviu Mark emitir um ruído exasperado.
— Gwyn — falou o menino. — Dou-lhe as boas-vindas. Meu coração se alegra em vê-lo.
Emma não pôde deixar de imaginar se alguma parte da fala era verdade. Ela sabia que Mark tinha sentimentos complicados em relação a Gwyn. Ele já tinha falado sobre isso algumas vezes, durante as noites no quarto dela, com a cabeça apoiada na mão. Agora ela tinha uma imagem mais clara da Caçada Selvagem do que jamais tivera, de suas alegrias e horrores, do caminho estranho que Mark tinha sido forçado a abrir para si mesmo entre as estrelas.
— Gostaria de poder dizer o mesmo — disse Gwyn. — Trago notícias ruins da Corte Unseelie. Kieran, do seu coração...
— Ele não é mais do meu coração. — Mark o interrompeu. Era uma expressão das fadas: “do meu coração” era o mais próximo que podiam chegar de dizer “namorada” ou “namorado”.
— Kieran Caçador foi declarado culpado pelo assassinato de Iarlath. — Gwyn informou. — Ele foi julgado pela Corte Unseelie, mas foi um julgamento breve.
Mark ficou vermelho e tenso.
— E a sentença?
— Morte — respondeu Gwyn. — Ele vai morrer ao nascer da lua, amanhã à noite, se não houver intervenção.
Mark não se mexeu. Emma pensou se deveria fazer alguma coisa – ir para perto dele, oferecer conforto, uma mão amiga? Mas ela não conseguiu interpretar a expressão no rosto dele – se era de pesar, não reconheceu. Se era de raiva, era diferente de qualquer raiva que ele já tivesse demonstrado antes.
— É uma notícia triste — falou Mark, afinal.
Foi Julian quem se moveu, indo para o lado do irmão. Ele pôs a mão no ombro de Mark, e Emma sentiu o alívio tomar conta dela.
— Só isso? — perguntou Gwyn. — Você não tem mais nada para dizer?
Mark balançou a cabeça. Ele parecia frágil, Emma pensou, preocupada. Como se ela conseguisse enxergar até os ossos sob sua pele.
— Kieran me traiu — falou. — Ele não é nada para mim agora.
Gwyn olhou incrédulo para Mark.
— Ele o amava. E ele o perdeu, e tentou tê-lo de volta — falou o Caçador. — Ele queria que você cavalgasse com a Caçada outra vez. E eu também. Você era um dos nossos melhores. Isso é tão ruim assim?
— Você viu o que aconteceu. — Mark soou irritado agora, e Emma acabou se lembrando da árvore torta na qual se apoiou quando Iarlath chicoteou Julian e depois ela, sob os olhares de Kieran, Mark e Gwyn. A dor e o sangue, os açoites que pareciam fogo sobre sua pele, apesar de nada ter doído tanto quanto ver Julian sendo machucado. — Iarlath açoitou minha família, minha amiga. Por causa de Kieran. Ele chicoteou Emma e Julian.
— E agora você abriu mão da Caçada por eles — disse Gwyn, os olhos bicolores desviando para Emma —, e então, eis a sua vingança, se você a desejava. Mas onde está sua compaixão?
— O que você quer do meu irmão? — quis saber Julian, com a mão ainda no ombro de Mark. — Você quer vê-lo sofrer para seu entretenimento? Foi por isso que veio?
— Mortais — disse Gwyn. — Vocês acham que sabem tanto, mas sabem tão pouco. — A mão grande do Caçador apertou com mais força o capacete. — Não quero que sofra por Kieran. Quero que o salve, Mark Caçador.


Trovões roncavam ao longe, mas na frente do Instituto havia apenas silêncio, profundo como um grito. Até Diana parecia sem fala. No silêncio, Emma conseguia ouvir os sons de Livvy e dos outros na sala de treinamento, as vozes e as risadas. Jules estava sem expressão, mas calculava alguma coisa. Agora a mão no ombro de Mark apertava com força. Quero que o salve, Mark Caçador.
A raiva cresceu rapidamente dentro de Emma; ao contrário de Julian, ela não se controlou.
— Mark não é mais da Caçada Selvagem — falou com veemência. — Ele não é mais um “Caçador”; não o chame assim.
— Ele é Caçador de Sombras, não é? — perguntou Gwyn. Agora que ele já tinha feito o pedido bizarro, parecia mais relaxado. — Uma vez caçador, sempre caçador de algum tipo.
— E agora você quer que eu vá caçar para Kieran? — falou Mark com um tom estranho e hesitante, como se estivesse com dificuldade de falar as palavras por causa da raiva. — Por que eu, Gwyn? Por que não você? Por que não qualquer um de vocês?
— Você não me ouviu? — perguntou Gwyn. — O pai o prendeu. O próprio Rei Unseelie, nas profundezas da Corte.
— E então Mark é indestrutível? Você acha que ele consegue vencer a Corte Unseelie, se a Caçada Selvagem não consegue? — Foi Diana; ela tinha descido um degrau, e os cabelos escuros voavam ao vento do deserto. — Seu nome é famoso, Gwyn ap Nudd. Você cavalga com a Caçada Selvagem há centenas de anos mortais. Há muitas histórias sobre você. Mesmo assim eu nunca soube que o líder da Caçada Selvagem tinha sucumbido à loucura.
— A Caçada Selvagem não está sujeita ao comando das Cortes — explicou Gwyn. — Mas nós as tememos. Seria loucura não temer. Quando levaram Kieran, eu e todos os meus Caçadores fomos forçados a jurar que não questionaríamos o julgamento ou sua sentença. Tentar resgatar Kieran agora seria a nossa morte.
— Por isso veio atrás de mim. Porque eu não jurei. Porque mesmo que tivesse jurado, posso mentir. Um ladrão mentiroso é o que você quer — disse Mark.
— O que eu queria era alguém em quem pudesse confiar — disse Gwyn. — Alguém que não tivesse jurado, alguém que desafiasse a Corte.
— Não queremos problemas com você — retrucou Julian, mantendo a voz calma com um esforço que Emma desconfiava que só ela podia sentir. —Mas você deve saber que Mark não pode fazer o que está pedindo. É perigoso demais.
— Nós, do Povo do Ar, não tememos perigo, nem morte — interveio Gwyn.
— Se não temem a morte — disse Julian —, então deixem que Kieran a encontre.
Gwyn recuou diante da frieza na voz de Julian.
— Kieran não tem nem vinte anos.
— Nem Mark — disse Julian. — Se acham que temos medo de você, tem razão. Seríamos tolos se não tivéssemos. Sei quem você é. Gwyn, sei que já fez um homem comer o coração do próprio pai. Sei que tomou a Caçada de Herne na batalha por Cadair Idris. Sei de coisas que o surpreenderiam. Mas sou irmão de Mark. E não vou deixar que ele se arrisque no Reino das Fadas outra vez.
— A Caçada Selvagem também é uma irmandade — disse Gwyn. — Se não consegue ajudar Kieran por amor, Mark, faça por amizade.
— Chega! — Diana se irritou. — Nós o respeitamos aqui, Gwyn Caçador, mas acabou a discussão. Mark não será tirado de nós.
A voz de Gwyn era grave como um baixo.
— E se ele escolher ir?
Todos olharam para Mark. Até Julian se virou, tirando a mão lentamente do ombro do irmão. Emma viu o medo em seus olhos e imaginou que se refletia nos dela. Se Mark ainda amava Kieran – ainda que minimamente...
— Eu não escolho — disse Mark. — Eu não escolho, Gwyn.
O rosto de Gwyn ficou tenso.
— Você não tem honra.
Um raio atravessou os espaços entre as nuvens acima deles. A tempestade se movia em direção às montanhas, e a iluminação cinzenta obscurecia os olhos de Mark, deixando-os ilegíveis.
— Achei que você fosse meu amigo — falou Mark, e depois se virou e cambaleou de volta para o Instituto, a porta se fechando atrás dele.
Gwyn começou a desmontar, mas Diana ergueu a mão com a palma para fora.
— Você sabe que não pode entrar no Instituto — retrucou ela.
Gwyn recuou. Por um instante, ao encarar Diana, seu rosto pareceu enrugado e velho, apesar de Emma saber que ele não aparentava a idade.
— Kieran não tem nem vinte anos — repetiu ele. — É só um menino.
O rosto de Diana suavizou, mas antes que ela pudesse falar, o cavalo de Gwyn empinou. Alguma coisa voou da mão dele e pousou no degrau abaixo dos pés de Diana. Gwyn se inclinou para a frente, e o cavalo partiu com um movimento brusco. A crina e o rabo viraram um borrão, como uma única chama branca, que disparou na direção do céu e desapareceu, sumindo nas nuvens que ornamentavam a noite.


Julian abriu a porta do Instituto com o ombro.
— Mark? Mark!
A entrada vazia girou ao seu redor quando ele virou. O medo pelo irmão era como pressão sob a pele, apertando suas veias, desacelerando a circulação Não era um medo que ele pudesse nomear – Gwyn tinha ido embora; Mark estava seguro. Foi um pedido, não um sequestro.
— Jules? — Mark veio da direção do armário embaixo da escada, e dava para notar que ele tinha acabado de pendurar o casaco. Seus cabelos louros estavam emaranhados, a expressão confusa. — Ele já foi?
— Foi — disse Emma, que tinha entrado atrás de Julian. Diana, um passo atrás dela, estava fechando a porta da frente. Mark cruzou a sala e só parou diante de Emma, passando os braços em volta dela.
O ciúme que ardeu em Julian o deixou sem fôlego. Ele achava que já tinha se acostumado a ver Emma e Mark assim. Não eram um casal particularmente exibido. Não se beijavam nem se abraçavam na frente dos outros. Emma não faria isso, pensava Julian. Ela não era assim. Era determinada, prática, e faria o que tivesse que ser feito. Mas não era cruel.
Era Mark que esticava o braço para tocá-la normalmente; para as coisas pequenas e silenciosas: a mão no ombro, a retirada de um cílio, um rápido abraço. Havia uma dor profunda em ver isso, mais do que doeria vê-los se abraçando apaixonadamente. Afinal, quando você morre de sede, você sonha com o gole de água, não com o reservatório inteiro.
Mas agora – a sensação de segurar Emma estava tão próxima, o gosto dela ainda estava em sua boca, o cheiro de água de rosas, ainda nas roupas dele. Ele reviveria a cena do beijo muitas e muitas vezes na mente, sabia disso, até ela se desbotar, se fragmentar e se desfazer, como uma foto dobrada e desdobrada muitas vezes. Mas agora estava perto demais, como um ferimento recém-aberto. E ver Emma nos braços de Mark era um esguicho de ácido em carne viva. Um lembrete brutal: ele não dava conta de ser sentimental, nem de pensar nela como dele, nem mesmo em um futuro imaginário. Considerar as possibilidades era se abrir para a dor. A realidade tinha que ser seu foco – a realidade e suas responsabilidades familiares. Do contrário, ele enlouqueceria.
— Você acha que ele vai voltar? — Emma se afastou de Mark.
Julian teve a impressão de que ela tinha lançado um olhar ansioso de lado, mas não tinha certeza. E não havia motivo para imaginar. Ele esmagou sua curiosidade brutalmente.
— Gwyn? — disse Mark. — Não. Eu recusei. Ele não vai implorar e não vai voltar.
— Tem certeza? — perguntou Julian.
Mark o olhou com uma expressão irônica.
— Não deixe Gwyn enganá-lo — falou. — Se eu não ajudar, ele encontrará quem o faça ou ele mesmo o fará. Nada acontecerá a Kieran.
Emma deu um suspiro aliviado. Julian não disse nada – ele também estava pensando em Kieran. Ele se lembrava de como o menino fada tinha feito Emma sangrar com os açoites, e de como ele tinha partido o coração de Mark. E também se lembrava de como Kieran os ajudara a derrotar Malcolm. Sem ele, não teriam tido chance alguma. E se lembrava do que Kieran tinha dito antes da batalha com Malcolm. Você não é gentil. Você tem um coração implacável.
Se ele pudesse salvar Kieran arriscando a própria segurança, teria feito. Mas não arriscaria seu irmão. Se isso fazia dele impiedoso, que fosse. Se Mark tivesse razão, Kieran ficaria bem de qualquer jeito.
— Diana — chamou Emma. A tutora deles estava se apoiando na porta fechada, olhando para a própria palma. — O que foi que Gwyn jogou em você?
Diana estendeu a mão; brilhando sobre a pele escura via-se uma pequena bolota dourada. Mark pareceu surpreso.
— É um belo presente — falou. — Se você abrir a bolota, convocará Gwyn para ajudá-la.
— Por que ele daria algo assim para Diana? —perguntou Emma.
O esboço de um sorriso moveu a boca de Mark quando ele começou a subir as escadas.
— Ele a admirou — disse. — Raramente vi Gwyn gostar de uma mulher antes. Achei que talvez seu coração estivesse fechado para esse tipo de coisa.
— Gwyn gostou de Diana? — insistiu Emma; seus olhos escuros brilhando. — Quero dizer, não que você não seja muito atraente, Diana, só me parece inesperado.
— Fadas são assim — disse Julian. Ele quase teve pena de Diana; nunca a tinha visto tão confusa. Ela estava mordendo o lábio inferior, e Julian se lembrou de que Diana não era muito velha, tinha apenas vinte e oito ou coisa assim. Não era tão mais velha do que Jace e Clary.
— Não significa nada — retrucou ela. — E, além disso, temos coisas mais importantes para pensar!
Ela soltou a bolota na mão de Mark no mesmo instante que a porta da frente se abriu, e os Centuriões entraram. Pareciam desalinhados pelo vento e estavam encharcados, todos eles. Diana, parecendo aliviada por não estar mais discutindo a sua vida amorosa, foi buscar cobertores e toalhas (símbolos de secagem funcionavam bem na pele, mas não faziam muito pelas roupas).
— Encontraram alguma coisa? — perguntou Emma.
— Acho que localizamos o provável ponto onde o corpo afundou — respondeu Manuel. — Mas o mar estava revolto demais para mergulharmos. Tentaremos outra vez amanhã.
— Manuel — falou Zara em tom de alerta, como se ele tivesse revelado a senha secreta que abriria os portões do Inferno sob seus pés.
Manuel e Rayan reviraram os olhos.
— Não é como se eles não soubessem o que estamos procurando, Zara.
— Os métodos da Scholomance são secretos. — Zara jogou o casaco molhado nos braços de Diego e virou-se para Emma e Julian. — Muito bem. O que tem para jantar? — falou.


— Não sei distinguir nenhum deles — disse Kit. — São os uniformes. Faz com que todos pareçam iguais para mim. Como formigas.
— Formigas não parecem iguais — disse Ty. Eles estavam sentados na beira da galeria do segundo andar, olhando para a entrada principal do Instituto embaixo. Centuriões molhados iam de um lado para o outro; Kit viu Julian e Emma, junto com Diana, tentando puxar papo com os que não tinham ido para a sala de jantar, onde se localizava a lareira, para se aquecerem.
— Quem é todo mundo mesmo? — perguntou Kit. — E de onde são?
— Dane e Samantha Larkspear — falou Livvy, indicando dois Centuriões de cabelos escuros. — Atlanta.
— Gêmeos — disse Ty.
— Como ousam — emendou Livvy, com um sorriso. Kit receou que ela não fosse se animar com o plano de Ty de integrá-lo aos seus planos de detetive, mas ela apenas sorriu quando eles foram procurá-la na sala de treinamento e disse: “bem-vindo ao clube”. Livvy apontou. — Manuel Casales Villalobos. De Madri. Rayan Maduabuchi, Instituto de Lagos. Divya Joshi, Instituto de Mumbai. Mas nem todo mundo é ligado a um Instituto. Diego não é, Zara também não, nem sua amiga Jessica, que é francesa, eu acho. E tem Jon Cartwright, Gen Whitelaw e Thomas Aldertree, todos formados pela Academia. — Ela inclinou a cabeça. — Nem um deles tem o bom senso de sair da chuva.
— Diga-me de novo por que você acha que estão tramando alguma coisa? — perguntou Kit.
— Muito bem — respondeu Ty. Kit tinha percebido que Ty respondia diretamente ao que lhe era dito, sem passar muito no tom ou entonação. Não que ele não fosse se beneficiar de um lembrete sobre por que estavam no alto, olhando para um bando de idiotas. — Eu estava sentado na frente do seu quarto hoje de manhã quando vi Zara entrando no escritório de Diana. Quando eu a segui, vi que ela estava vasculhando alguns papéis lá.
— Ela pode ter tido algum motivo — comentou Kit.
— Para vasculhar sorrateiramente os papéis de Diana? Qual motivo? — perguntou Livvy, com tanta firmeza que Kit teve que admitir que, se parecia indecente, provavelmente era indecente.
— Eu mandei uma mensagem para Simon Lewis, perguntando sobre Cartwright, Whitelaw e Aldertree — explicou Livvy, apoiando o queixo na barra mais baixa da grade. — Ele disse que Gen e Thomas são legais, e Cartwright é meio grambão, mas basicamente inofensivo.
— Pode ser que não estejam todos envolvidos — disse Ty. — Temos que descobrir quais deles estão e o que querem.
— O que é um grambão? — perguntou Kit.
— Uma mistura entre grande e bobão, eu acho. Tipo, grande, mas não muito inteligente. — Livvy deu seu sorrisinho rápido quando uma sombra se ergueu sobre eles: Cristina, com as mãos na cintura, sobrancelhas franzidas.
— O que vocês três estão fazendo? — perguntou ela.
Kit tinha um respeito saudável por Cristina Rosales. Por mais doce que ela parecesse, ele já a tinha visto lançar uma faca a quinze metros de distância e acertar o alvo com precisão.
— Nada — disse Kit.
— Fazendo comentários maldosos sobre os Centuriões — respondeu Livvy.
Por um instante, Kit achou que Cristina fosse brigar com eles. Em vez disso, ela se sentou ao lado de Livvy, com a boca se curvando em um sorriso.
— Estou dentro — falou.
Ty estava apoiando os braços na barra. Ele desviou seus olhos cinzentos, cor de tempestade, para Kit.
— Amanhã — falou baixinho — nós os seguiremos para ver aonde vão.
Kit ficou surpreso ao constatar que estava ansioso por isso.


Foi uma noite desagradável – os Centuriões, mesmo após se secarem, estavam exaustos e relutavam em falar sobre o que tinham feito durante o dia. Em vez disso, devoraram a comida servida na sala de jantar como lobos esfomeados.
Kit, Ty e Livvy não estavam em parte alguma. Emma não os culpava. As refeições com os Centuriões eram eventos cada vez mais aborrecidos. Apesar de Divya, Rayan e Jon Cartwright terem feito o melhor que podiam para manterem uma conversa amistosa sobre onde cada um pretendia passar seu ano de intercâmbio, Zara logo os interrompeu com uma longa descrição do que ela estava fazendo na Hungria antes de chegar ao Instituto.
— Vários Caçadores de Sombras reclamando que suas estelas e lâminas serafim pararam de funcionar durante uma briga com algumas fadas — disse Zara, revirando os olhos. — Falamos que foi só uma ilusão; fadas jogam sujo, e alguém devia ensinar isso na Academia.
— Fadas não jogam sujo, na verdade — disse Mark. — Jogam notavelmente limpo. Elas têm um severo código de honra.
— Honra? — Samantha e Dane riram ao mesmo tempo. — Duvido que você saiba o que isso significa, mes...
Eles se calaram. Era Dane quem estava falando, mas foi Samantha que ruborizou.
A palavra solta pairou pelo ar. Mestiço.
Mark empurrou a cadeira para trás e se retirou.
— Lamento — falou Zara no silêncio após a saída do menino —, mas ele não deveria ser tão sensível. Vai ouvir coisa muito pior se for a Alicante, principalmente a uma reunião de Conselho.
Emma a encarou, incrédula.
— Isso não justifica nada — retrucou. — Só porque ele vai ouvir absurdos dos intolerantes do Conselho, isso não significa que tenha que ouvir antes em casa.
— Ou em qualquer momento em casa — disse Cristina, cujas bochechas ficaram muito vermelhas.
— Parem de tentar nos fazer sentir culpados. — Samantha se irritou. — Nós é que passamos o dia fora tentando limpar a bagunça que vocês fizeram confiando em Malcolm Fade, como se fosse possível confiar em um membro do Submundo. Vocês não aprenderam nada com a Guerra Maligna? As fadas nos apunhalaram pelas costas. É isso que o povo do Submundo faz, e Mark e Helen farão o mesmo com vocês também, se não tomarem cuidado.
— Você não sabe nada sobre o meu irmão, nem sobre a minha irmã — interveio Julian. — Por favor, não toque no nome deles.
Diego estava sentado ao lado de Zara, em silêncio. E quando finalmente falou, seus lábios mal se moveram:
— Um ódio tão cego não dá crédito ao ofício ou ao uniforme dos Centuriões.
Zara levantou a taça, os dedos apertando o cabo fino.
— Eu não odeio membros do Submundo — falou, e havia uma convicção fria em sua voz. Por alguma razão, era mais fria do que a paixão teria sido. — Os Acordos não funcionaram. A Paz Fria não funciona. Os integrantes do Submundo não seguem nossas regras, nem quaisquer regras que não tenham interesse em seguir. Eles rompem a Paz Fria sempre que sentem vontade. Nós somos guerreiros. Demônios devem nos temer. E integrantes do Submundo devem nos temer. Antigamente fomos grandiosos; fomos temidos e governávamos. Agora somos uma sombra do que costumávamos ser. Só estou dizendo que, quando os sistemas não funcionam, quando nos trouxeram ao estágio em que estamos agora, precisamos de um novo sistema. Melhor.
Zara sorriu, ajeitou uma mecha rebelde em seu coque perfeito, e tomou um gole de água. Os Centuriões terminaram o jantar em silêncio.


— Ela está mentindo. Ela fica sentada ali e mente, como se suas opiniões fossem fatos — falou Emma, furiosa.
Depois do jantar ela tinha ido para o quarto de Cristina e agora ambas estavam sentadas na cama, a amiga passava os dedos pelos cabelos escuros.
— Acho que são fatos para ela e para quem a segue — disse Cristina. — Mas não devemos perder tempo com Zara. Enquanto subíamos você disse que tinha uma coisa para me contar, não foi?
Da forma mais resumida possível, Emma relatou a visita de Gwyn.
Enquanto falava, o rosto de Cristina foi ficando cada vez mais preocupado.
— Mark está bem?
— Acho que sim... às vezes, é difícil saber.
— Ele é uma dessas pessoas cheias de coisas na cabeça — disse Cristina. — Ele já perguntou... sobre você e Julian?
Emma balançou a cabeça com força.
— Acho que jamais passaria pela cabeça dele que pudéssemos ter quaisquer sentimentos que não fossem os de parabatai um pelo outro. Eu e Jules nos conhecemos há tanto tempo. — Ela esfregou as têmporas. — Mark imagina que Julian se sinta da mesma maneira que ele em relação a mim: como um irmão.
— São estranhas as coisas que nos cegam — disse Cristina. Ela levantou os joelhos e os abraçou.
— Você tentou entrar em contato com Jaime? — perguntou Emma.
Cristina apoiou a bochecha sobre os joelhos.
— Mandei uma mensagem de fogo, mas ainda não tive resposta.
— Ele era seu melhor amigo — disse Emma. — Ele vai responder. — Ela torceu um pedaço do cobertor de Cristina entre os dedos. — Sabe o que mais sinto falta? Em Jules? Só de... ser parabatai. De sermos Emma e Julian. Sinto falta do meu melhor amigo. Sinto falta da pessoa a quem eu contava tudo o tempo todo. Da pessoa que sabia tudo sobre mim. As coisas boas e as ruins. — Ao falar, ela conseguia ver Julian em sua mente; o jeito como ele era na Guerra Maligna, com ombros angulosos e olhos determinados.
O ruído de uma batida na porta ecoou pelo quarto.
Emma olhou para Cristina – será que ela estava esperando alguém? – mas a amiga parecia tão surpresa quanto.
— Pasa — chamou Cristina.
Era Julian. Emma o observou surpresa, o Julian mais jovem de sua lembrança virou um borrão e voltou a ser o Julian na frente dela: um Julian quase adulto, alto e musculoso, com cachos rebeldes e um esboço de barbicha aparecendo no queixo.
— Vocês sabem onde está o Mark? — perguntou, sem rodeios.
— Mark não está no quarto? — retrucou Emma. — Ele saiu durante o jantar, então pensei...
Julian balançou a cabeça.
— Não está lá. Será que pode estar no seu quarto?
Ele precisou de um esforço visível para perguntar, Emma pensou. Ela viu Cristina morder o lábio e rezou para que Julian não notasse. Ele jamais poderia descobrir o quanto Cristina sabia.
— Não — disse Emma. — Eu tranquei a porta. — Ela deu de ombros. — Não confio nos Centuriões.
Julian passou a mão distraidamente pelo cabelo.
— Olha... Estou preocupado com Mark. Venham comigo que eu vou mostrar o que quero dizer.
Cristina e Emma seguiram Julian até o quarto de Mark; a porta estava escancarada. Julian entrou primeiro, depois Emma e Cristina, ambas olhando cuidadosamente ao redor como se Mark pudesse ser encontrado escondido em um dos armários.
O quarto de Mark tinha mudado muito desde que ele voltou do Reino das Fadas. Naquela época, era um quarto empoeirado e era evidente que não estava sendo usado, mas que o mantinham vazio por causa das lembranças. Todas as coisas dele tinham sido retiradas e guardadas, e as cortinas, cobertas de pó, viviam fechadas. Estava bem diferente agora. Mark tinha dobrado as roupas em pilhas organizadas ao pé da cama; uma vez, ele disse a Emma que não via razão para ter um guarda-roupa ou uma cômoda, considerando que essas coisas só serviam para esconder as roupas dos donos.
Os parapeitos estavam cobertos com pequenos itens da natureza: flores secas, em vários estágios, folhas e agulhas de cactos, conchas da praia. A cama estava arrumada; dava para notar que ele nunca tinha dormido nela. Julian desviou o olhar da cama feita.
— As botas dele sumiram — falou. — Ele só tinha aquele par. Era para terem mandado mais de Idris, mas ainda não fizeram isso.
— O casaco também — disse Emma. Era o único pesado dele, jeans forrado com pele de carneiro. — A bolsa... ele tinha uma bolsa de pano, não?
Cristina engoliu o ar com força. Emma e Julian se viraram e a viram pegar um pedaço de papel que tinha acabado de aparecer, flutuando na altura do ombro. Símbolos brilhantes o fechavam; eles desapareceram quando ela pegou a mensagem de fogo no ar.
— É do Mark. — Os olhos dela examinaram o papel; suas bochechas empalideceram, e ela entregou a mensagem sem dizer nada. Julian pegou o recado e Emma leu por cima do ombro dele enquanto ele o examinava.

Minha querida Cristina,
Sei que você mostrará isso para as pessoas certas, no momento certo. Sempre posso confiar em você para fazer o que é necessário quando precisa ser feito.
A essa altura você já sabe o que aconteceu com a prisão de Kieran. Apesar de as coisas terem terminado mal entre nós, ele foi meu protetor durante muitos anos no Reino das Fadas. Eu devo a ele e não posso permitir que morra na Corte sombria de seu pai. Pego a estrada da lua para o Reino hoje à noite. Diga aos meus irmãos e irmãs que voltarei assim que puder. Diga a Emma que voltarei. Voltei para eles da Terra Sob a Colina uma vez. E eu vou fazer isso de novo.
Mark Blackthorn

Julian amassou o papel com raiva entre os dedos trêmulos.
— Eu vou atrás dele.
Emma se adiantou para pegar o braço dele antes de se lembrar e abaixar a mão para a lateral do corpo.
— Eu vou com você.
— Não — disse Julian. — Você entende o que Mark está tentando fazer? Ele não pode invadir a Corte Unseelie sozinho. O Rei das Sombras vai matá-lo antes que ele consiga piscar.
— Claro que eu entendo — retrucou Emma. — Por isso temos que encontrá-lo antes que ele chegue à entrada do Reino das Fadas. Depois que ele entrar no Reino das Fadas, será praticamente impossível interceptá-lo.
— Também tem a questão do tempo — disse Cristina. — Depois que ele cruzar a fronteira, o tempo será diferente para ele. Ele poderia voltar em três dias ou três semanas...
— Ou três anos — falou Emma sombriamente.
— Por isso devo ir atrás dele agora — disse Julian. — Antes que ele chegue ao Reino das Fadas e o tempo se transforme em nosso inimigo...
— Eu posso ajudar com isso — disse Cristina.
Quando era mais nova, as fadas foram o tema de estudo de Cristina. Uma vez ela confessou a Emma que isso fora em parte por causa de Mark, e o que ela tinha ouvido falar sobre ele quando era criança. Ele a fascinava, o menino Caçador de Sombras levado por fadas durante a Guerra Maligna.
Cristina tocou o pingente dourado em seu pescoço, que tinha uma imagem de Raziel.
— Este é um pingente encantado por fadas. Minha família tem... — Ela hesitou. — Muitos deles. Anos atrás, eles eram próximos do Povo das Fadas. Ainda temos muitos objetos deles. Mas falamos pouco disso, considerando que a postura da Clave em relação àqueles que são amigos do Povo das Fadas é... — Ela olhou em volta do quarto de Mark. — É como vocês sabem.
— O que o pingente faz? — perguntou Emma.
— Impede que o tempo passe rápido demais para mortais no reino das fadas. — Cristina segurou o pingente entre os dedos, olhando para Jules com uma pergunta silenciosa como se quisesse dizer que ainda tinha muitas surpresas na manga, caso ele quisesse ouvir.
— É só um pingente — disse Julian. — Como pode proteger a todos nós?
— Se eu entrar usando no reino, a proteção se estenderá a você e Emma, e a Mark também, desde que ele não se afaste muito.
Julian se apoiou contra a parede e suspirou.
— E eu suponho que você não vai me dar para eu usar ao entrar no Reino das Fadas? Sozinho?
— Absolutamente não — respondeu Cristina, cerimoniosa. — É uma herança de família.
Emma poderia ter beijado Cristina, mas se contentou em dar uma piscadela. O canto da boca de Cristina se curvou levemente para cima.
— Então vamos os três — disse Emma, e Julian pareceu perceber que não adiantava discordar.
Ele concordou com a cabeça para ela, e havia um pouquinho do antigo olhar parabatai na expressão de Julian, o olhar que dizia que ele esperava que os dois fossem embarcar rumo ao perigo. Juntos.
— O pingente também permitirá que tomemos a estrada da lua — disse Cristina. — Normalmente só quem tem sangue de fada consegue. — Ela esticou os ombros. — Mark não imagina que a gente possa ir atrás dele; por isso mandou o bilhete.
— A estrada da lua? — perguntou Julian. — O que é isso, exatamente?
Ao ouvir a pergunta, Cristina sorriu. Foi um sorriso estranho – não era exatamente de felicidade, e Emma imaginou que ela também estivesse preocupada demais para isso – mas havia um certo deslumbre ali, a aparência de alguém que poderia experimentar algo que jamais achou que fosse ter a chance de fazer.
— Eu mostro — respondeu ela.


Eles reuniram as coisas rapidamente. A casa estava escura, incomumente viva com as respirações desordenadas de muitas pessoas adormecidas. Quando cruzou o corredor, ajeitando as alças da mochila nos ombros, Julian viu Ty dormindo em frente ao quarto de Kit, sentado e curvado, com o queixo na mão. Tinha um livro aberto ao seu lado no chão.
Julian parou em frente à porta do sótão. Hesitou. Ele poderia deixar um bilhete, ir embora. Seria a coisa mais fácil a se fazer. Não havia muito tempo; tinham que chegar a Mark antes que ele chegasse ao Reino das Fadas. Não seria uma atitude covarde. Apenas prática. Apenas...
Ele abriu a porta e subiu as escadas. Arthur estava onde ele o havia deixado, à mesa. A luz da lua entrava, formando um ângulo, pela Arthur soltou a caneta e se virou para olhar para Julian. Cabelos grisalhos emolduravam seus fatigados olhos Blackthorn. Era como olhar para uma foto borrada do pai de Julian, algo que dera errado durante o processo de revelação, deformando os ângulos do rosto de um alinhamento familiar.
— Tenho que me ausentar por alguns dias — avisou Julian. — Se precisar de alguma coisa, fale com Diana. Mais ninguém. Só Diana.
Os olhos de Arthur pareciam vidrados.
— Você vai... aonde vai, Julian?
Julian cogitou mentir. Ele era bom em mentir, e para ele era fácil. Mas, por algum motivo, não queria fazer isso.
— Mark... foi embora — falou. — Vou buscá-lo, com sorte antes de ele cruzar para o Reino das Fadas.
Um tremor atravessou o corpo de Arthur.
— Você vai atrás do seu irmão nas Cortes? — perguntou ele, com voz rouca, e Julian se lembrou dos fragmentos que conhecia da história do tio: que ele tinha ficado preso com o pai de Julian, Andrew, durante anos com as fadas no reino, que Andrew se apaixonara por uma nobre e eles tiveram Helen e Mark, mas Arthur foi separado dele, trancafiado e torturado com feitiços.
— Sim. — Julian equilibrou a mochila em um ombro só. Arthur esticou a mão, como se quisesse alcançar Julian, e o menino recuou, espantado. Seu tio nunca tinha encostado nele.
Arthur abaixou a mão.
— Na República de Roma — falou —, havia sempre um serviçal designado para cada general que vencia uma guerra. Quando o general passava pelas ruas, aceitando os agradecimentos das pessoas, a tarefa do serviçal era sussurrar ao seu ouvido, “Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori”.
— Olhe atrás de você — traduziu Julian. — Lembre-se de que você é um homem. Lembre-se de que vai morrer. — Um leve tremor subiu por sua espinha.
— Você é jovem, mas não é imortal — retrucou Arthur. — Se você acabar chegando no Reino das Fadas, e eu rezo para que isso não aconteça, pois lá é o Inferno, se é que existe Inferno... Se você for parar lá, não dê ouvidos a nada do que as fadas disserem. Não dê ouvidos a nenhuma de suas promessas. Jure para mim, Julian.
Julian soltou o ar. Pensou naquele general de tantos anos atrás, exortado a não deixar a glória subir-lhe à cabeça. A se lembrar de que tudo passava. Tudo passava. A felicidade passava, assim como a perda e a dor.
Tudo, menos o amor.
— Eu juro — falou.


— Temos que esperar o momento certo — disse Cristina. — Quando a lua na água parecer sólida. Você consegue ver se olhar; como o clarão verde.
Então sorriu para Emma, entre ela e Jules. Os três estavam enfileirados na beira do oceano. Havia pouco vento e o mar se estendia diante deles, espesso e escuro, com a borda branca onde a água encontrava a areia. Ondulações de espuma marinha onde as ondas tinham quebrado e sumido na costa empurravam algas e pedaços de conchas mais para longe na praia. O céu estava limpo da tempestade de antes. A lua estava alta, projetando uma linha perfeita e ininterrupta sobre a água, alcançando o horizonte. As ondas emitiam um ruído suave como sussurros enquanto entornavam em volta dos pés de Emma, e a maré atingia suas botas à prova d'água. Julian estava de olho no relógio – ele fora de seu pai, um velho relógio mecânico, que brilhava em seu pulso. Emma viu com uma guinada sutil que a pulseira de vidro marinho ainda estava no pulso dele, brilhando ao luar.
— Quase meia-noite — falou. — Fico pensando qual será a vantagem de Mark em relação a nós.
— Depende de quanto tempo ele teve que esperar pelo momento certo de entrar na trilha — disse Cristina. — Os momentos vêm e vão. A meia-noite é só um deles.
— E como estamos planejando capturá-lo? —perguntou Emma. — Só uma perseguição e um avanço básico, ou vamos tentar distraí-lo com o poder da dança e depois laçá-lo pelos tornozelos?
— Piadas não ajudam — disse Julian, olhando fixamente para a água.
— Piadas sempre ajudam — retrucou Emma. — Principalmente quando não estamos fazendo nada além de esperar a água solidificar...
Cristina soltou um gritinho.
— Vão! Agora!
Emma foi primeiro, saltando sobre uma pequena onda que quebrou em seus pés. Metade do seu cérebro ainda lhe dizia que ela estava se jogando na água, que ela mergulharia. O impacto quando suas botas tocaram uma superfície dura foi desconcertante. Deu alguns passos, correndo, e girou para olhar para a praia. Ela estava em uma trilha brilhante que parecia feita de cristal sólido, fino como vidro. O luar sobre a água tinha solidificado. Julian já estava atrás dela, equilibrado em uma linha brilhante, e Cristina estava saltando para a trilha atrás dele. Ela ouviu Cristina arfar ao aterrissar. Como Caçadores de Sombras, todos eles tinham visto maravilhas, mas havia algo de distintamente Fada nesse tipo de magia: parecia acontecer nos interstícios do mundo normal, entre luz e sombra, entre um minuto e outro. Como Nephilim, eles existiam no próprio espaço. Isso era Entre.
— Vamos — disse Julian, e Emma começou a andar.
A trilha era larga; parecia dobrar e se curvar sob seus pés com o movimento e a ondulação da onda. Era como andar em uma ponte que se mantinha suspensa sobre um abismo. Mas quando ela olhava para baixo, não via o espaço vazio; via o que temia mais que tudo. A escuridão profunda do oceano, onde os cadáveres de seus pais flutuaram antes de encalhar na praia.
Durante anos, ela os imaginou lutando, morrendo embaixo d'água, com quilômetros de mar em volta, isolados. Agora ela sabia mais sobre como eles morreram, sabia que eles estavam mortos quando Malcolm Fade entregou seus corpos ao mar. Mas você não podia falar com o medo, não podia falar a verdade: o medo vivia em seus ossos.
Longe assim, Emma imaginaria que a água seria tão funda que era opaca. Mas a luz do luar a fazia brilhar como se fosse por dentro. Ela conseguia olhar para a água como se fosse um aquário. Ela viu as folhas de alga, se movendo e dançando com o vaivém das ondas. A agitação dos cardumes. E sombras mais escuras também, e maiores. Lampejos de movimento, pesados e enormes – uma baleia, talvez, ou algo maior e pior – demônios aquáticos podiam ser do tamanho de campos de futebol. Ela imaginou a trilha, de repente, se rompendo, se abrindo, e todos eles caindo na escuridão, a enormidade ao redor, fria, mortal e cheia de monstros cegos e com dentes de tubarão, e sabe o Anjo o que mais podia sair das profundezas...
— Não olhe para baixo — foi o que Julian falou, aproximando-se da trilha. Cristina estava um pouco atrás deles, olhando em volta, maravilhada. — Olhe reto para o horizonte. Vá na direção dele.
Ela levantou o queixo. Conseguia sentir Jules ao seu lado, sentir o calor da pele dele, arrepiando os pelos dos braços.
— Estou bem.
— Não está não — falou ele secamente. — Eu sei como você se sente em relação ao mar.
Estavam longe da costa agora – era uma linha brilhante ao longe, a rodovia era uma linha de luzes móveis; as casas e restaurantes que alinhavam a costa brilhavam.
— Bem, meus pais não morreram no mar. — Ela respirou trêmula. — Eles não se afogaram.
— Saber disso não apaga anos de pesadelos. — Julian olhou para ela. O vento soprou fios suaves do cabelo dele no rosto. Ela se lembrou de como era passar as mãos por aquele cabelo, de como abraçá-lo funcionava como uma âncora não só em relação ao mundo, mas em relação a ela mesma.
— Detesto me sentir assim — disse ela, e por um instante nem Emma sabia ao certo do que estava falando. — Detesto sentir medo. Faz com que eu me sinta fraca.
— Emma, todo mundo tem medo de alguma coisa. — Julian tinha se aproximado um pouco mais; ela sentiu o ombro dele tocar o dela. — Tememos coisas porque as valorizamos. Tememos perder as pessoas porque as amamos. Tememos morrer porque valorizamos viver. Não queira não temer nada. Tudo que isso significaria é que você não sente nada.
— Jules... — Ela começou a se virar para ele, surpresa com a intensidade de sua voz, mas parou quando ouviu os passos de Cristina acelerando, e depois sua voz, elevada ao reconhecê-lo, chamar:
— Mark!

5 comentários:

  1. Shadowhunters, selecionada, aluna da grifinoria, semi deusa, Hunter, meta humana, lenda do amanhã,2 de dezembro de 2017 20:52

    N intendi mt no como eles entraram na corte Unseelie alguém pode me explicar?

    Gente como eu amo o kit e o ty ahhhh Kitty ❤️❤️❤️ meu segundo shippe preferido desse livro.

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    1. Pela "estrada da lua", eles caminharam sobre o rastro de luar sobre o mar e foram parar na Corte

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  2. Essa Zara tá me irritando. .. só eu quero queimar essa vaca em praça pública? Morre logo bruxa! !

    Flavia

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  3. o mark e como imaginei ele especial nunca abandonaria uma pessoa que foi tao importante para ele. cada vez admiro mais esse garoto

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Boa leitura :)