20 de novembro de 2017

Capítulo 6

Grito grito gargarejo grito gargarejo grito grito grito gar-garejo grito gargarejo grito grito gargarejo gargarejo pito gargarejo gargarejo gargarejo grito slurpt aaaaaaargh se divertindo. Repetindo mensagem. Aqui fala o comandante desta nave, por isso parem de fazer o que estiverem fazendo e prestem atenção. Em primeiro lugar, nossos instrumentos acusam a presença de dois mochileiros a bordo. Oi; mochileiros, onde quer que estejam. Eu gostaria de deixar bem claro que vocês não são em absoluto bem-vindos a bordo. Eu trabalhei duro para chegar aonde estou hoje e não virei comandante de uma nave de construção vogon apenas para servir de táxi para aproveitadores degenerados. Enviei uma equipe de busca e assim que vocês forem encontrados serão expulsos da nave. Se tiverem muita sorte, lerei para vocês alguns dos meus poemas primeiro.
“Em segundo lugar, estamos prestes a saltar para o hiperespaço e seguir rumo à estrela de Barnard. Ao chegar lá, vamos ficar na oficina durante 72 horas para reparos e ninguém sairá da nave durante este período. Repito: todas as licenças de desembarque estão canceladas. Acabo de sofrer uma desilusão amorosa. Logo, não quero ver ninguém se divertindo. Fim da mensagem.”
O ruído cessou.
Arthur constatou, envergonhado, que estava deitado no chão, todo encolhido, feito uma bola, com os braços apertados em torno da cabeça. Sorriu, meio sem graça.
— Sujeito encantador — disse ele. — Gostaria de ter uma filha, só pra proibir que ela se casasse com um deles...
— Não seria preciso — disse Ford. — Os vogons têm menos sex appeal que um desastre de carro. Não, não se mexa — acrescentou quando Arthur começou a se esticar. — É melhor ficar assim mesmo para se preparar pra entrar no hiperespaço. É uma sensação desagradável, como uma bebida.
— O que há de desagradável em uma bebida?
Pergunte como um copo d'água se sente. Arthur pensou um pouco.
— Ford.
— Que é?
— O que é que esse peixe está fazendo no meu ouvido?
— Está traduzindo pra você. É um peixe-babel. Consulte o livro, se quiser.
Jogou o Guia do Mochileiro para Arthur e depois encolheu-se todo, em posição fetal, preparando-se para o salto para o hiperespaço.
Nesse instante, o cérebro de Arthur se abriu em dois.
Seus olhos viraram-se do avesso. Seus pés começaram a escorrer do topo do crânio.
A cabine ao seu redor achatou-se, rodopiou, desapareceu, fazendo com que Arthur fosse chupado para dentro de seu próprio umbigo.
Estavam passando pelo hiperespaço.

* * *

“O peixe-babel”, disse O Guia do Mochileiro das Galáxias, baixinho, “é pequeno, amarelo e semelhante a uma sanguessuga, e é provavelmente a criatura mais estranha em todo o Universo. Alimenta-se de energia mental, não daquele que o hospeda, mas das criaturas ao redor dele. Absorve todas as frequências mentais inconscientes desta energia mental e se alimenta delas, e depois expele na mente de seu hospedeiro uma matriz telepática formada pela combinação das frequências mentais conscientes com os impulsos nervosos captados dos centros cerebrais responsáveis pela fala do cérebro que os emitiu. Na prática, o efeito disto é o seguinte: se você introduz no ouvido um peixe-babel, você compreende imediatamente tudo o que lhe for dito em qualquer língua. Os padrões sonoros que você ouve decodificam a matriz de energia mental que o seu peixe-babel transmitiu para sua mente.
“Ora, seria uma coincidência tão absurdamente improvável que um ser tão estonteantemente útil viesse a surgir por acaso, por meio da evolução das espécies, que alguns pensadores veem no peixe-babel a prova definitiva da inexistência de Deus.
“O raciocínio é mais ou menos o seguinte: 'Recuso-me a provar que eu existo', diz Deus, 'pois aprova nega a fé, e sem fé não sou nada.'
“Diz o homem: 'Mas o peixe-babel é uma tremenda bandeira, não é? Ele não poderia ter evoluído por acaso. Ele prova que você existe, e portanto, conforme o que você mesmo disse, você não existe. QED*.'
“Então Deus diz: 'Ih, não é que eu não tinha pensado nisso?' E imediatamente desaparece, numa nuvenzinha de lógica.
“'Puxa, como foi fácil', diz o homem, e resolve aproveitar e provar que o preto é branco, mas é atropelado ao atravessar fora da faixa de pedestres.
“A maioria dos teólogos acha que este argumento é uma asneira, mas foi com base nela que Oolon Colluphid fez uma fortuna, usando-a como tema central de seu best-seller Sai Dessa, Deus.
“Enquanto isso, o pobre peixe-babel, por derrubar os obstáculos à comunicação entre os povos e culturas, foi o maior responsável por guerras sangrentas, em toda a história da criação.”

Arthur gemeu baixinho. Horrorizou-se ao constatar que a passagem pelo hiperespaço não o matara. Agora estava a seis anos-luz do lugar onde se encontraria a Terra, se ela ainda existisse.

*Do latim quod emt demonstrandum (como queremos demonstrar). (N.T.) A Terra.
Visões de seu planeta flutuavam em sua mente nauseada. Não havia como apreender com sua imaginação a ideia de que toda a Terra deixara de existir, era uma ideia grande demais. Testou seus sentimentos, pensando que seus pais e sua irmã não existiam mais. Nenhuma reação. Pensou em todas as pessoas que conhecera bem. Nenhuma reação. Então pensou num estranho que estivera parado atrás dele na fila do supermercado, dois dias antes, e de repente sentiu uma pontada o supermercado deixara de existir, com todos que estavam dentro dele. A Coluna de Nelson havia desaparecido! Havia desaparecido e não haveria uma comoção popular, porque não restava ninguém para fazer uma comoção. Dali em diante, a Coluna de Nelson só existia em sua mente. A Inglaterra só existia em sua mente a qual estava enfiada naquela cabine úmida e fedorenta, numa espaçonave de metal. Sentiu-se invadido por uma onda de claustrofobia.
A Inglaterra não existia mais. Isso ele já entendia de algum modo conseguira entender. Tentou de novo: a América não existe mais. Não conseguia entender isso. Resolveu começar com coisas pequenas, de novo. Nova York não existia mais. Nenhuma reação. Na verdade, no fundo ele nunca acreditara mesmo na existência de Nova York. “O dólar”, pensou ele, “caiu completamente.” Isso lhe provocou um pequeno tremor. “Todos os filmes de Humphrey Bogart desapareceram”, pensou ele, e esta ideia lhe causou um choque desagradável. “O McDonalds”, pensou. “Não existe mais nenhum Big Mac.”
Desmaiou. Quando voltou a si, um segundo depois, chorava, chamando sua mãe.
De repente, pôs-se de pé, com um gesto violento.
— Ford!
Ford, que estava sentado num canto da cabine, cantarolando, olhou para ele. A parte da viagem em que a nave só se deslocava no espaço sempre lhe parecera muito chata.
— Que foi? — perguntou ele. — Se você está fazendo pesquisa pra esse livro e se você esteve na Terra, então você deve ter algum material sobre a Terra.
— É, deu pra aumentar um pouco o verbete original, sim.
Deixe-me ver o que estava nessa edição, tenho que ver.
— Está bem. — Estendeu o livro a Arthur de novo.
Arthur segurou o livro, tentando fazer com que suas mãos parassem de tremer. Apertou o botão da página que o interessava. A tela iluminou-se, piscou e exibiu uma página. Arthur ficou olhando para ela.
— Não tem nada aí — exclamou.
Ford olhou por cima do ombro de Arthur.
— Tem sim. Olhe lá embaixo, logo abaixo de T. Eccentrica Gallumbits, a prostituta de três seios de Eroticon 6.
Arthur seguiu com o olhar o dedo de Ford e viu para onde ele apontava. Por um momento, ficou sem entender; de repente, sua mente quase explodiu.
— O quê? Inofensiva? Só diz isso, mais nada? Inofensiva! Uma única palavra!
Ford deu de ombros.
— Bem, tem 100 bilhões de estrelas na Galáxia, e os microprocessadores do livro são limitados — disse ele. — Além disso, ninguém sabia muita coisa a respeito da Terra, é claro.
— Bem, eu espero que você tenha melhorado um pouco essa situação.
— Ah, sim, consegui transmitir um novo verbete pra redação. Tiveram que resumir um pouco, mas de qualquer modo melhorou.
— E o que diz o verbete agora? — perguntou Arthur.
— Praticamente inofensiva — disse Ford, com um pigarro, para disfarçar seu constrangimento.
— Praticamente inofensiva! — gritou Arthur.
— Que barulho foi esse? — sussurrou Ford.
— Era eu gritando — falou Arthur.
— Não! Cale a boca! Acho que estamos em maus lençóis.
— Tremenda novidade!
Ouvia-se lá fora o ruído inconfundível de pessoas marchando.
— Os dentrassis? — sussurrou Arthur.
— Não, são botas de ponta de metal — disse Ford. Ouviram-se batidas vigorosas na porta.
— Então quem é? — perguntou Arthur.
— Bem — disse Ford —, se estivermos com sorte, são os vogons que vieram nos jogar no espaço.
— E se estivermos com azar?
— Nesse caso — disse Ford, sombrio —, talvez o comandante tenha falado sério quando disse que antes de nos expulsar ia ler alguns poemas dele pra nós...

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Boa leitura :)