15 de novembro de 2017

Capítulo 6

Passei aquela noite em claro, apesar da exaustão. Observei Hélène dormir um sono agitado, murmurando, esticando inconscientemente a mão para ver se os filhos estavam ao seu lado. Às cinco, enquanto ainda estava escuro, levantei-me da cama, enrolando-me em várias mantas, e desci na ponta dos pés para ferver a água do café. A sala de jantar ainda estava impregnada com os cheiros da noite anterior: de lenha da lareira e um leve toque de linguiça, que deixou minha barriga roncando. Fiz uma bebida quente para mim e me sentei atrás do balcão, olhando para a praça vazia enquanto o sol nascia. Quando a luz azulada começou a ficar laranja, foi possível distinguir uma sombra no canto mais à direita onde o prisioneiro caíra. Será que aquele rapaz tinha esposa, filhos? Será que eles estavam sentados naquele instante escrevendo-lhe uma carta ou rezando para ele voltar são e salvo? Dei um gole na minha bebida e me obriguei a olhar para o outro lado.
Eu ia subir para me vestir, quando ouvi uma batida na porta. Estremeci ao ver uma sombra na tela de algodão. Enrolei-me na manta, olhando para o vulto, tentando imaginar quem estaria nos visitando a uma hora daquelas, se era o Kommandant, vindo me atormentar sobre o que sabia. Fui em silêncio até a porta. Levantei a tela e ali, do outro lado, estava Liliane Béthune. Tinha o cabelo preso com grampos, usava o casaco de astracã preto e seu olhar era sombrio. Ela olhou para trás enquanto eu destrancava e abria a porta.
— Liliane? Está precisando de alguma coisa? — perguntei.
Ela enfiou a mão dentro do casaco e sacou um envelope, que jogou para mim.
— Para você — disse.
Lancei um olhar para o envelope.
— Mas... Como você...?
Estendeu uma mão pálida, balançou a cabeça para um lado e para o outro.
Fazia meses que nenhum de nós recebia uma carta. Os alemães havia muito tempo nos mantinham num vácuo de comunicações. Segurei o envelope, descrente, e recuperei minha compostura.
— Gostaria de entrar? Tomar um café? Tenho um pouco de café de verdade guardado.
Ela me deu um sorriso quase imperceptível.
— Não, obrigada. Tenho que ir para casa ver minha filha.
Antes mesmo que eu tivesse conseguido lhe agradecer, ela já subia a rua com aqueles saltos altos, encolhida por causa do frio.
Fechei a tela e tornei a trancar a porta. Sentei-me e abri o envelope. A voz dele, ausente havia tanto tempo, encheu meus ouvidos.

Queridíssima Sophie,
Faz muito tempo que não tenho notícias suas. Rezo para que esteja sã e salva.
Digo a mim mesmo em momentos sombrios que alguma parte de mim sentiria, como as vibrações de um sino distante, se você não estivesse bem.
Tenho muito pouco para contar. Pela primeira vez, não desejo traduzir em cores o mundo que vejo ao meu redor. As palavras parecem inadequadas. Saiba apenas, adorada esposa, que estou bem física e mentalmente e que pensar em você é o que mantém meu espírito inteiro.
Os homens aqui seguram fotografias de seus entes queridos como se fossem talismãs, proteções contra a escuridão — imagens amassadas e sujas dotadas das propriedades de tesouros. Não preciso de fotografia para evocá-la, Sophie: basta eu fechar os olhos para recordar seu rosto, sua voz, seu cheiro, e você não tem ideia de quanto me conforta.
Saiba, minha querida, que marco cada dia, não do mesmo modo que meus companheiros, grato por ter sido mais um a ter sobrevivido, mas agradecendo a Deus pelo fato de cada um significar que seguramente devo estar vinte e quatro horas mais perto de voltar para você.
Seu Édouard

A carta era datada de dois meses antes.
Não sei se foi a exaustão, ou talvez o choque dos acontecimentos da véspera — não sou uma pessoa que chora facilmente, quando choro —, mas repus a carta com cuidado no envelope, apoiei a cabeça nas mãos e, na cozinha fria e vazia, solucei.

* * *

Eu não podia contar aos outros aldeões por que era hora de comer o porco, mas a chegada do Natal me deu a desculpa perfeita. Os oficiais deveriam ter a sua ceia de Natal no Le Coq Rouge, uma reunião maior que o normal, e estava acordado que, enquanto eles estivessem aqui, Madame Poilâne faria uma pequena ceia em casa, a duas ruas da praça. Enquanto eu conseguisse manter os alemães ocupados, nosso grupinho de concidadãos estaria seguro para assar o porco no forno de pão que Madame Poilâne tinha na adega. Hélène me ajudaria a servir o jantar dos alemães, depois escapuliria para o beco pelo buraco na parede da adega para ir ao encontro das crianças na casa de Madame Poilâne. Os aldeões que morassem muito longe, e por isso estivessem impossibilitados de atravessar a cidade a pé sem ser vistos, permaneceriam na casa dela após o toque de recolher, escondendo-se caso algum alemão viesse checar.
— Mas isso não é justo — comentou Hélène, quando resumi o plano para o prefeito, na frente dela, dois dias depois. — Se ficar aqui, você vai ser a única pessoa a perder a festa. Não é certo, em vista de tudo que você fez para salvar o porco.
— Uma de nós tem que ficar — ressaltei. — Você sabe que é muito mais seguro se pudermos ter certeza de que os oficiais estão todos num lugar só.
— Mas não vai ser igual.
— Bem, nada é igual — disse eu secamente. — E você sabe tão bem quanto eu que Herr Kommandant vai notar se eu tiver saído.
Vi que ela e o prefeito trocavam olhares.
— Hélène, não complique. Eu sou la patronne. Ele espera me ver aqui toda noite. Vai saber que algo está acontecendo se eu não estiver em casa.
Meu protesto soava exagerado até para mim mesma.
— Veja — prossegui, obrigando-me a falar num tom mais conciliador —, guarde um pouco de carne para mim. Traga para cá num guardanapo. Posso lhe prometer que, se os alemães receberem rações suficientes para se banquetearem, não vou deixar de me servir de uma porção. Não vou sofrer. Juro.
Eles pareceram conformados, mas eu não podia lhes dizer a verdade. Desde que descobrira que o Kommandant sabia do porco, eu perdera o apetite pela carne do bicho. O fato de ele não ter revelado saber de sua existência, e sobretudo não ter nos punido, não me deixava feliz e aliviada, mas profundamente inquieta.
Agora, quando o via admirando o meu retrato, eu já não me sentia gratificada pelo fato de que até um alemão conseguia reconhecer o talento do meu marido. Quando ele entrava na cozinha para puxar conversa, eu ficava tensa, temendo que ele pudesse mencionar o caso.
— No entanto — disse o prefeito —, desconfio que estamos em dívida com a senhora. — Ele parecia abatido. Sua filha estava doente havia uma semana. Sua esposa certa vez me dissera que, sempre que Louisa adoecia, ele mal dormia de aflição.
— Não seja ridículo — rebati secamente. — Comparado com o que os nossos homens estão fazendo, isso é só mais um dia de trabalho.
Minha irmã me conhecia muito bem. Ela não fazia perguntas diretas; isso não era do seu estilo. Mas eu sentia que ela me observava, ouvia o tom levemente tenso em sua voz sempre que a questão da ceia era levantada.
Finalmente, uma semana antes do Natal, abri-me com ela. Ela estava sentada na beira da cama, penteando o cabelo. A escova ficou imóvel em sua mão.
— Por que acha que ele não contou a ninguém? — perguntei ao terminar.
Ela ficou olhando para a colcha da cama. Quando olhou para mim, foi com uma espécie de pavor.
— Acho que ele gosta de você — concluiu.

* * *

A semana antes do Natal foi movimentada, embora tivéssemos pouca coisa para preparar para as festividades. Hélène e algumas das mulheres mais velhas tinham feito bonecas de retalhos para as crianças. Eram bonecas simples: as saias feitas de saco, os rostos, de meias bordadas. Mas era importante que as crianças de St Péronne tivessem um pouco de magia naquele triste Natal.
Fui ficando mais ousada em meus pequenos esforços. Por duas vezes, roubei batatas das rações dos alemães, amassando o que sobrara para disfarçar as porções menores, e as levei nos bolsos para quem parecia especialmente frágil.
Roubava as cenouras menores e as mantinha na bainha da saia, de modo que mesmo quando eu era detida e revistada, eles não encontravam nada. Levei para o prefeito dois vidros de caldo de frango, para que sua esposa fizesse uma canjinha para Louisa. A menina estava pálida e febril; a mãe me contava que pouca coisa lhe parava no estômago, e ela parecia estar se fechando em si mesma. Olhando para ela, engolida pela vasta cama antiga com aquelas cobertas esfarrapadas, apática e tossindo intermitentemente, pensei por um instante que não podia censurá-la. Que vida era aquela para as crianças?
Tentávamos como podíamos esconder delas o pior, mas elas viviam num mundo em que homens eram fuzilados na rua, em que estranhos arrastavam suas mães da cama pelos cabelos por alguma ofensa banal, como caminhar num bosque proibido ou deixar de demonstrar o devido respeito a um oficial alemão.
Mimi olhava nosso mundo calada e desconfiada, o que partia o coração de Hélène. Aurélien ficava revoltado: eu via a raiva crescendo nele, como uma força vulcânica, e rezava todos os dias para que, quando ela finalmente irrompesse, isso não lhe custasse um preço alto.
Mas a grande notícia daquela semana foi a chegada por baixo da minha porta de um jornal, toscamente impresso, intitulado Journal des Occupés. O único jornal permitido em St Péronne era o Bulletin de Lille, controlado pelos alemães, que era tão claramente propaganda alemã que poucos de nós fazíamos mais com ele do que usá-lo para acender o fogo. Mas o que chegara dava informações militares, nomeando cidades e vilarejos sob ocupação. Comentava comunicados oficiais e continha artigos cômicos sobre a ocupação, versinhos sobre o pão preto e caricaturas dos oficiais no comando. Pedia aos leitores que não perguntassem de onde ele vinha e que o destruíssem depois que o lessem.
Continha também uma lista, que chamavam de Dez Mandamentos de Von Heinrich, que ridicularizava as muitas regras insignificantes impostas a nós.
É difícil explicar o ânimo que aquela publicação de quatro páginas deu à nossa cidadezinha. Nos poucos dias que faltavam para a ceia, havia um fluxo contínuo de gente da cidade entrando no bar que ou folheava o jornal no banheiro (durante o dia, o guardávamos no fundo de uma cesta de papel velho) ou repassava suas notícias e suas melhores piadas pessoalmente. Passávamos tanto tempo no banheiro, que os alemães perguntaram se estava havendo algum surto de doença.
Pelo jornal, descobrimos que outras cidades vizinhas tinham tido o mesmo destino que a nossa. Soubemos dos temíveis campos de prisioneiros, onde homens eram privados de alimento e quase morriam de trabalhar. Descobrimos que Paris pouco sabia da nossa situação e que quatrocentas mulheres e crianças haviam sido retiradas de Roubaix, onde as reservas de alimentos eram menores ainda do que em St Péronne. Não que essas informações tivessem alguma utilidade. Mas elas nos lembravam de que ainda fazíamos parte da França, de que nossa cidade não estava sozinha em suas agruras. O mais importante: a existência do jornal em si era um motivo de orgulho; os franceses ainda eram capazes de subverter a vontade dos alemães.
Houve discussões inflamadas sobre a forma como esse jornal poderia ter chegado a nós. O fato de ter sido entregue no Le Coq Rouge contribuiu para diminuir o crescente descontentamento em relação a nós, causado por estarmos cozinhando para os alemães. Eu via Liliane Béthune passar depressa para pegar seu pão com aquele casaco de astracã e tinha as minhas próprias ideias.

* * *

O Kommandant insistira para que comêssemos. Era privilégio das cozinheiras, disse ele, na véspera de Natal. Tínhamos acreditado que estávamos preparando comida para dezoito pessoas, e no fim descobrimos que duas delas éramos Hélène e eu. Passamos horas correndo pela cozinha, o cansaço sobrepujado pelo prazer secreto de saber o que acontecia a duas ruas dali: a perspectiva de uma celebração e uma refeição de verdade para nossas crianças. Receber duas refeições completas também parecia quase demais.
E, no entanto, não era demais. Eu nunca mais seria capaz de rejeitar uma refeição. A comida estava deliciosa: pato assado com rodelas de laranja e conserva de gengibre, batatas dauphinoise com vagens, tudo acompanhado por um prato de queijos. Hélène comeu, maravilhada com o fato de que iríamos fazer duas ceias.
— Posso dar a minha porção de carne de porco para outra pessoa — disse ela chupando um osso. — Eu poderia guardar um pedacinho de torresmo. O que acha?
Era muito bom vê-la alegre. Nossa cozinha, naquela noite, parecia um lugar feliz. Havia velas extras, dando-nos um pouco mais daquela preciosidade que era a iluminação. Havia os aromas familiares do Natal — Hélène pendurara em cima do fogão uma laranja cheia de cravos espetados —, que se espalhavam por toda a cozinha. Se não pensássemos muito, era possível ouvir os copos tilintando, as risadas e as conversas, e esquecer que a sala ao lado estava ocupada por alemães.
Por volta das nove e meia, agasalhei minha irmã e ajudei-a a passar para o porão de nossos vizinhos e depois para o barracão de carvão deles. Ela desceria correndo o beco iluminado até a casa de Madame Poilâne, onde se juntaria a Aurélien e as crianças, levadas para lá à tarde. O porco fora na véspera. Já estava bem grande, e Aurélien tivera que segurá-lo enquanto eu colocava uma maçã em sua boca para que ele não guinchasse e, com um golpe certeiro de facão, Monsieur Baudin, o açougueiro, o abateu.
Coloquei os tijolos de volta na abertura depois que ela passou, o tempo todo atenta aos sons dos homens no bar lá em cima. Percebi com alguma satisfação que, pela primeira vez em meses, eu não sentia frio. Ter fome é estar quase permanentemente com frio também; foi uma lição que eu estava certa de nunca mais esquecer.
— Édouard, espero que você esteja aquecido — murmurei, sozinha no porão vazio, enquanto o som dos passos de minha irmã desparecia do outro lado da parede. — Espero que você coma tão bem quanto comemos essa noite.
Quando reapareci no corredor, tive um sobressalto. O Kommandant contemplava meu retrato.
— Eu não conseguia encontrá-la — disse. — Pensei que estivesse na cozinha.
— Eu... eu só saí para tomar um pouco de ar — gaguejei.
— Vejo uma coisa diferente cada vez que olho para esse retrato. Ela tem algo de enigmático. Quero dizer, a senhora. — Ele deu um meio sorriso diante do próprio deslize. — A senhora também tem algo de enigmático.
Fiquei quieta.
— Espero não constrangê-la, mas há algum tempo considero este o quadro mais bonito que já vi.
— É uma linda obra de arte, sim.
— Está desviando do assunto?
Não respondi.
Ele girou o vinho na taça. Quando voltou a falar, foi com os olhos no líquido cor de rubi.
— Honestamente, a senhora se considera feia, Madame?
— Acredito que a beleza está nos olhos de quem vê. Quando meu marido me diz que sou bela, acredito porque sei que, aos olhos dele, eu sou.
Ele então ergueu os olhos e fitou os meus sem desviar. Encarava-me com tanta insistência que senti minha respiração começar a se acelerar.
Os olhos de Édouard eram as janelas de sua alma; neles, seu próprio eu estava posto a nu. Os do Kommandant eram intensos, astutos e, no entanto, de certa forma velados, como se para esconder seus verdadeiros sentimentos. Eu temia que ele pudesse ver o meu autocontrole ruindo, que pudesse enxergar através das minhas mentiras se eu deixasse. Fui a primeira a desviar os olhos.
Ele alcançou do outro lado da mesa o caixote que os alemães tinham entregado e tirou uma garrafa de conhaque.
— Beba um copo comigo, Madame.
— Não, obrigada, Herr Kommandant.
Olhei para a porta da sala de jantar, onde os oficiais deviam estar terminando a sobremesa.
— Um só. É Natal.
Eu sabia identificar quando me davam uma ordem. Pensei nos outros, comendo o porco assado a poucas casas de onde estávamos sentados. Pensei em Mimi, com banha de porco escorrendo pelo queixo, e em Aurélien, rindo e fazendo piadas ao se gabar da grande rasteira nos alemães. Ele precisava de um pouco de felicidade: por duas vezes naquela semana, brigara na escola e fora mandado para casa, mas se recusara a me contar o motivo da briga. Eu precisava que todos eles tivessem uma boa refeição.
— Então... muito bem.
Aceitei um copo e dei um pequeno gole. O conhaque parecia fogo descendo pela minha garganta. Era revigorante, forte.
Ele esvaziou seu copo, observando enquanto eu bebia o meu; depois empurrou a garrafa para mim, sinalizando que eu devia reabastecê-lo.
Ficamos sentados em silêncio. Eu me perguntava quantas pessoas tinham ido comer o porco. Hélène achara que seriam quatorze. Dois idosos ficaram com medo de desrespeitar o toque de recolher. O padre prometera levar sobras para quem tivesse ficado preso em casa depois da missa de Natal.
Enquanto bebíamos, eu o observava. Ele mantinha os lábios cerrados, sugerindo ser uma pessoa inflexível; mas, sem o quepe, o cabelo quase raspado dava à sua cabeça um ar de vulnerabilidade. Tentei imaginá-lo sem uniforme, um ser humano normal, fazendo suas atividades rotineiras, comprando jornal, tirando férias. Mas não consegui. Não conseguia enxergar o que havia por trás do uniforme.
— É uma solidão, a guerra, não?
Dei um gole no conhaque.
— O senhor tem os seus homens. Eu tenho a minha família. Nenhum de nós está exatamente sozinho.
— Mas não é a mesma coisa, é?
— Vamos todos tocando a vida da melhor forma possível.
— Vamos? Não sei se alguém pode descrever isso como “a melhor forma”.
O conhaque me deixara franca.
— É o senhor que está sentado na minha cozinha, Herr Kommandant. Suponho, respeitosamente, que só um de nós tem escolha nessa questão.
Sua expressão se anuviou. Ele não estava acostumado a ser desafiado. Um leve rubor lhe subiu às faces, e eu o vi com o braço levantado, a pistola apontada para o prisioneiro fugitivo.
— Acha mesmo que algum de nós tem escolha? — disse ele baixinho. — Acha mesmo que é assim que algum de nós gostaria de viver? Cercado de desolação? Os responsáveis por ela? Se assistisse ao que vemos no front, a senhora se consideraria... — Ele deixou a frase no ar, balançou a cabeça. — Desculpe-me, Madame. É a época do ano. Basta isso para deixar um homem sentimental. E todos sabemos que não existe nada pior que um soldado sentimental.
Ele então sorriu, como se pedisse desculpas, e relaxei um pouco. Estávamos sentados um de cada lado da mesa da cozinha, bebericando nosso conhaque, cercados pelas sobras da ceia. Na outra sala, os oficiais haviam começado a cantar. Ouvi suas vozes subindo de tom, a melodia familiar, as palavras incompreensíveis. O Kommandant inclinou a cabeça para ouvir. Então pousou o copo.
— Você odeia a nossa presença aqui, não é?
Pisquei.
— Sempre tentei...
— Acha que seu rosto não transparece nada. Mas eu a observo. Anos neste trabalho me ensinaram muito sobre as pessoas e seus segredos. Bem. Podemos fazer uma trégua, Madame? Só por estas poucas horas?
— Uma trégua?
— A senhora esquecerá que pertenço a um exército inimigo, eu esquecerei que a senhora é uma mulher que passa a maior parte do tempo imaginando como subverter esse exército, e seremos apenas... duas pessoas?
A expressão dele, só por um instante, se abrandara. Ele ergueu o copo, aproximando-o do meu. Quase com relutância, o ergui.
— Vamos evitar o assunto do Natal, solitário ou não. Eu gostaria que me contasse dos outros artistas da Académie. Conte como os conheceu.

* * *

Não sei quanto tempo ficamos ali sentados. Para ser sincera, com a conversa e a sensação de bem-estar criada pelo álcool, não senti o tempo passar. O Kommandant queria saber como era a vida de um artista em Paris. Que tipo de homem era Matisse? Sua vida era tão escandalosa quanto sua arte?
— Ah, não. Ele era um homem do maior rigor intelectual. Bastante sério. E muito conservador, tanto no trabalho quanto nos hábitos domésticos. Mas de alguma forma... — pensei por um instante no professor de óculos, como ele olhava para verificar se a pessoa tinha entendido todos os pontos antes de mostrar a peça seguinte — ...alegre. Acho que obtém grande alegria no que faz.
O Kommandant refletiu sobre isso, como se tivesse ficado satisfeito com a minha resposta.
— Já quis ser pintor. Eu não era bom, claro. Tive que encarar essa realidade muito cedo. — Ajeitou a haste dos óculos. — Muitas vezes penso que a capacidade de se sustentar fazendo aquilo que se gosta deve ser um dos maiores presentes da vida.
Pensei em Édouard então, com o rosto concentrado, olhando-me de trás de um cavalete. Se eu fechasse os olhos, ainda sentiria o calor do fogo da lenha na perna direita, o friozinho na esquerda, que estava descoberta. Via-o erguer uma sobrancelha, e os momentos exatos em que seus pensamentos se desviavam do quadro.
— Eu também penso assim.
“A primeira vez que a vi”, disse-me Édouard em nossa primeira véspera de Natal juntos, “observei você parada no meio daquela loja movimentada e a considerei a mulher mais independente que eu já tinha encontrado. Dava a impressão de que o mundo podia explodir à sua volta e você continuaria ali, de queixo empinado, olhando imperiosamente para os estilhaços sob o manto daquele magnífico cabelo.”
Ele levara a minha mão até a boca e a beijara com ternura.
“Pensei que você fosse um urso russo”, eu disse a ele.
Ele erguera uma sobrancelha. Estávamos numa cervejaria lotada na rue de Turbigo.
“GRRRRRRR”, grunhiu, até me fazer rir. Ele me esmagara junto ao seu corpo, ali mesmo, no meio da banqueta, cobrindo meu pescoço de beijos, alheio às pessoas que comiam à nossa volta. “GRRRR.”
Os oficiais haviam parado de cantar na outra sala. Fiquei inibida de repente e me levantei, como se para tirar a mesa.
— Por favor — pediu o Kommandant, fazendo um gesto para que eu voltasse a me sentar. — Fique mais um pouco. É véspera de Natal, afinal de contas.
— Seus homens devem estar esperando que vá se juntar a eles.
— Ao contrário, eles se divertem muito mais se o Kommandant estiver ausente. Não é justo eu impor-lhes a minha presença a noite inteira.
Mas bastante justo a impor a mim, pensei. Foi então que ele perguntou:
— Onde está sua irmã?
— Eu lhe disse para se deitar. Ela estava indisposta e muito cansada depois de cozinhar hoje à noite. Eu queria que ela estivesse bastante bem para amanhã.
— E o que vão fazer? Para comemorar?
— Será que tem muita coisa para nós comemorarmos?
— Trégua, Madame?
Dei de ombros.
— Vamos à igreja. Talvez visitar alguns dos vizinhos mais velhos. É um dia difícil para estarem sozinhos.
— A senhora cuida de todo mundo?
— Não é crime ser boa vizinha.
— A cesta de lenha que mandei entregar para seu uso: sei que a levou para a casa do prefeito.
— A filha deles está doente. Ela precisa de mais calor do que a maioria de nós.
— A senhora devia saber, Madame, que nada me escapa nessa cidadezinha. Nada.
Não consegui encará-lo. Temia que dessa vez o meu rosto, o meu coração batendo acelerado, me traíssem. Desejei poder limpar da mente toda informação que eu tinha do banquete acontecendo a poucos metros dali. Desejei poder evitar a impressão de que o Kommandant estava fazendo um jogo de gato e rato comigo.
Tomei mais um gole de conhaque. Os homens estavam cantando de novo.
Eu conhecia aquela canção de Natal. Quase podia entender as palavras.

Stille Nacht, heilige Nacht.
Alles schläft, einsam wacht.

Por que ele continuava me olhando? Eu estava com medo de falar, medo de tornar a me levantar para o caso de ele fazer perguntas desconfortáveis. Mas me limitar a ficar ali sentada, deixando que ele me olhasse, dava a sensação de que eu me tornava cúmplice de algo. Finalmente, tomei fôlego e ergui os olhos. Ele continuava me olhando.
— Madame, quer dançar comigo? Só uma música? Pelo Natal?
— Dançar?
— Só uma música. Eu gostaria... eu gostaria que me lembrassem do lado bom da humanidade, só por uma vez este ano.
— Acho que... acho que não...
Pensei em Hélène e nos outros, ali na rua, livres, por uma noite. Pensei em Liliane Béthune. Estudei o rosto do Kommandant. O pedido dele parecia genuíno. Seremos apenas... duas pessoas...
Então pensei em meu marido. Será que eu desejava que ele pudesse dançar envolvido por um par de braços compreensivos? Só por uma noite? Será que eu não torcia para que em algum lugar, a muitos quilômetros dali, alguma mulher bondosa pudesse lembrar a ele, num bar sossegado, que o mundo poderia ser um lugar belo?
— Eu dançarei com o senhor, Herr Kommandant — concordei. — Mas só na cozinha.
Ele ficou de pé, estendeu a mão e, após uma ligeira hesitação, aceitei-a.
Tinha a palma surpreendentemente áspera. Aproximei-me alguns passos, sem olhar para seu rosto, e ele pousou a outra mão na minha cintura. Enquanto os homens na sala ao lado cantavam, começamos a nos mover devagarinho em volta da mesa, eu plenamente consciente do corpo dele a apenas centímetros do meu, da pressão da mão dele no meu corpete. Senti no braço nu a aspereza da sarja do seu uniforme, e em seu peito a vibração macia do seu cantarolar. Senti como se estivesse quase queimando de tensão, todos os sentidos monitorando os meus dedos, meus braços, tentando garantir que eu não me aproximasse demais, temendo que a qualquer momento ele pudesse me agarrar.
E o tempo inteiro uma voz repetia em minha cabeça: Estou dançando com um alemão.

Stille Nacht, heilige Nacht,
Gottes Sohn, o wie lacht...

Mas ele não fez nada. Cantarolava, me abraçava de leve e rodava sem parar em volta da mesa da cozinha. E só por uns minutos fechei os olhos, e era uma garota, viva, livre da fome e do frio, dançando na véspera de Natal, com a cabeça meio atordoada por causa de um bom conhaque, aspirando um aroma de especiarias e comida deliciosa. Eu vivia como Édouard vivia, deliciando-me com cada pequeno prazer, permitindo-me ver beleza naquilo tudo. Fazia dois anos que um homem não me abraçava. Fechei os olhos, relaxei e me entreguei às sensações do momento, deixando o meu par me conduzir pela cozinha, sua voz ainda murmurando em meu ouvido:

Christ, in deiner Geburt!
Christ, in deiner Geburt!

A cantoria terminou e, passado um momento, quase com relutância, ele recuou e me soltou.
— Obrigado, Madame. Muito obrigado.
Quando finalmente ergui os olhos, vi lágrimas em seus olhos.

* * *

Na manhã seguinte, um pequeno caixote chegava à nossa porta. Continha três ovos, um pequeno poussin, uma cebola e uma cenoura. Na lateral, numa letra cuidadosa, estava escrito: Fröhliche Weihnachten.
— Significa “Feliz Natal” — disse Aurélien.
Por alguma razão, ele não quis olhar para mim.

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