29 de novembro de 2017

Capítulo 6 - Lá o viajante

Como a cozinha era pequena demais para receber os moradores do Instituto mais os vinte Centuriões, o café da manhã foi servido na sala de jantar. Retratos dos Blackthorn do passado fitavam pratos de ovos e bacon e pilhas de torrada.
Cristina passou discretamente pela multidão, tentando não ser vista. Ela certamente não teria descido se não estivesse tão desesperada por café. Procurou em volta por Emma e Mark, mas nenhum dos dois tinha descido ainda. Emma não acordava cedo, e Mark ainda tendia a ser noturno. Julian estava lá, servindo comida, mas ele tinha a expressão agradável e neutra que sempre usava na presença de estranhos.
Estranho, pensou, que ela conhecesse Julian bem o suficiente para saber disso. Eles tinham uma espécie de laço, ambos amavam Emma, mas eram separados pelo conhecimento que Julian não sabia que ela tinha. Ele tentava esconder que amava Emma, e Cristina tentava esconder que sabia disso. Ela gostaria de poder oferecer alguma solidariedade, mas ele se encolheria horrorizado...
— Cristina.
Ela quase derrubou o café. Era Diego. Ele parecia péssimo – o rosto fatigado, olheiras, cabelo emaranhado. Estava com um uniforme normal e parecia ter perdido o distintivo de Centurião. Ela levantou a mão.
— Alejate de mí, Diego.
— Apenas me ouça...
Alguém passou entre eles. O menino espanhol com cabelos louros – Manuel.
— Você ouviu — falou, em inglês. Mais ninguém estava olhando para eles ainda; estavam todos ocupados com as próprias conversas. — Deixe-a em paz.
Cristina virou e se retirou. Ela manteve a coluna ereta. Recusou-se a correr pelos degraus – por ninguém. Ela era uma Rosales. Não queria a piedade dos Centuriões.
Cristina passou pela porta da frente e desceu as escadas. Queria que Emma estivesse acordada. Poderiam ir para a sala de treinamento chutar e socar as próprias frustrações. Ela continuou marchando sem ver nada até quase colidir contra a sorveira que ainda crescia na grama desbotada na frente do Instituto.
Tinha sido posta ali por fadas – uma árvore de chicotada, para castigo. Permaneceu ali mesmo após o fim do castigo, quando a chuva tinha limpado o sangue de Emma da grama e das pedras.
— Cristina, por favor. — Ela se virou. Diego estava lá, aparentemente tinha decidido ignorar Manuel.
Ele realmente parecia péssimo. As olheiras sob seus olhos pareciam ter sido esculpidas ali. Ele a tinha carregado pela grama, ela lembrou, há apenas duas semanas, quando ela se machucara. Ele a segurou firme, sussurrando seu nome sem parar. E o tempo todo, estava noivo de outra pessoa.
Ela se apoiou no tronco da árvore.
— Você realmente não entende por que não quero vê-lo?
— Claro que entendo — falou ele. — Mas não é o que você pensa.
— Sério? Você não está noivo? Você não vai se casar com Zara?
— Ela é minha noiva — disse ele. — Mas... Cristina... é mais complicado do que parece.
— Eu realmente não vejo como pode ser.
— Eu escrevi para ela — falou. — Depois que a gente voltou. Eu disse a ela que tinha acabado.
— Acho que ela não recebeu a sua carta — retrucou Cristina.
Diego passou as mãos no cabelo.
— Não, ela recebeu. Ela me disse que leu, e foi por isso que veio até aqui. Sinceramente, nunca achei que fosse vir. Achei que tinha terminado quando não recebi notícias dela. Achei... eu realmente achei que estivesse livre.
— Então terminou com ela ontem?
Ele hesitou, e naquele instante de indecisão, qualquer pensamento que Cristina cultivasse nos recessos mais ocultos de seu coração, qualquer esperança remota de que tudo não passava de um engano se desfez como bruma queimada pelo sol.
— Não — disse ele. — Não posso.
— Mas você acabou de dizer que terminou por carta...
— As coisas são diferentes agora — falou. — Cristina, você precisa confiar em mim.
— Não — respondeu ela. — Não confio. Já confiei, apesar das provas que meus próprios ouvidos tinham. Não sei se algo do que você disse antes era verdade. Não sei se as coisas que você disse sobre Jaime eram verdade. Onde ele está?
Diego abaixou as mãos para as laterais do corpo. Parecia derrotado.
— Existem coisas que eu não posso contar. Gostaria que você pudesse acreditar em mim.
— O que está acontecendo? — A voz alta e clara de Zara cortou o ar seco; ela vinha na direção deles, seu broche de Centurião brilhando sob o sol.
Diego olhou para ela, com uma expressão de dor no rosto.
— Eu estava conversando com Cristina.
— Estou vendo. — A boca de Zara estava firme em um pequeno sorriso, um olhar que não parecia deixar seu rosto. Ela olhou para Cristina e colocou a mão no ombro de Diego. — Volte para dentro — ordenou. — Estamos decidindo quais redes vamos investigar hoje. Você conhece bem a área. Hora de ajudar. Tique-taque. — Ela tocou o relógio.
Diego olhou para Cristina, depois voltou-se para a noiva.
— Tudo bem.
Com um último olhar superior, Zara deu a mão para Diego e foi meio que o arrastando de volta para o Instituto. Cristina os acompanhou com o olhar, e o café que tinha tomado revirou no estômago como ácido.


Para decepção de Emma, os Centuriões se recusaram a deixar que um dos Blackthorn os acompanhasse na busca pelo corpo de Malcolm.
— Não, obrigada — disse Zara, que parecia ter se nomeado líder não oficial dos Centuriões. — Nós treinamos para isso, e ter que lidar com Caçadores de Sombras menos experientes nessas situações atrapalha.
Emma encarou Diego, que estava ao lado de Zara. Ele desviou o olhar.
Eles passaram quase todo o dia fora e voltaram a tempo do jantar, que os Blackthorn acabaram preparando. Foi espaguete – muito espaguete.
— Sinto falta da pizza vampiresca — murmurou Emma, olhando para uma vasilha enorme de molho de tomate.
Julian bufou. Ele estava perto de uma panela de água fervente; o vapor subia e ondulava seu cabelo em cachos úmidos.
— Talvez pelo menos nos digam se encontraram alguma coisa.
— Duvido — disse Ty, que estava preparando a mesa. Era uma atividade da qual ele gostava desde pequeno; adorava colocar cada utensílio em uma ordem precisa e repetida. Livvy o ajudava; Kit tinha se retirado e ninguém sabia onde estava. Ele era o que mais parecia detestar a intrusão dos Centuriões. Emma realmente não podia culpá-lo; ele mal estava se adaptando ao Instituto do jeito que estava, quando, de repente, chegaram essas pessoas que esperavam que ele as servisse.
Ty estava certo. O jantar era um momento grandioso e animado; Zara de algum jeito tinha conseguido sentar na cabeceira, expulsando Diana, e passou a eles um breve resumo do dia – partes do oceano que tinham sido vasculhadas, nada significativo encontrado, embora o rastreamento de elementos de magia negra tenha indicado um ponto mais distante no oceano onde demônios marinhos se agrupavam.
— Vamos investigar amanhã — falou ela, espetando elegantemente o espaguete.
— Como estão procurando? — perguntou Emma, sua ansiedade por saber mais sobre técnicas avançadas dos Caçadores de Sombras se sobrepondo à antipatia por Zara. Afinal, como Cristina havia dito mais cedo, a situação não era culpa de Zara; era de Diego. — Vocês têm uniformes especiais?
— Infelizmente, essa informação é propriedade da Scholomance — retrucou Zara com um sorriso frio. — Até mesmo para alguém que supostamente é a melhor Caçadora de Sombras da sua geração.
Emma enrubesceu e se recostou na cadeira.
— O que isso quer dizer?
— Você sabe como as pessoas falam sobre você em Idris — disse Zara. Seu tom era descuidado, mas os olhos cor de âmbar estavam afiados. — Como se você fosse o novo Jace Herondale.
— Mas ainda temos o velho Jace Herondale — disse Ty, confuso.
— É um modo de falar — disse Julian, com a voz baixa. — Significa que uma pessoa é tão boa quanto a outra.
Normalmente ele teria dito: Vou desenhar para você, Ty. Representações visuais de expressões que, às vezes, eram confusas, como “ele morreu de rir” ou “se morder de raiva” resultavam em ilustrações hilárias feitas por Julian com bilhetes explicativos sobre o verdadeiro significado da expressão.
O fato de que ele não disse isso fez com que Emma o observasse com um pouco mais de atenção. Ele estava estressado por causa dos Centuriões, e ela não o culpava. Quando Julian não confiava em alguém, todos os seus instintos protetores entravam em ação: esconder o amor de Livvy por computadores, a forma incomum como Ty processava informações, os filmes de terror de Dru. As transgressões de Emma.
Jules ergueu seu copo de água com um sorriso brilhantemente artificial.
— As informações dos Nephilim não deviam ser compartilhadas? Combatemos os mesmos demônios. Se um núcleo dos Nephilim tem uma vantagem, isso não é injusto?
— Não necessariamente — disse Samantha Larkspear, a menina dos gêmeos Centuriões que Emma conhecera na véspera. O nome do seu irmão era Dane; eles tinham o mesmo rosto fino e magro, a mesma pele clara e os cabelos escuros e lisos. — Nem todo mundo tem o preparo para usar todas as ferramentas, e uma arma que você não sabe brandir é desperdiçada.
— Todo mundo pode aprender — disse Mark.
— Então talvez um dia você frequente a Scholomance e treine — disse a Centurião de Mumbai. Seu nome era Divya Joshi.
— É improvável que a Scholomance aceite alguém com sangue de fada — disse Zara.
— A Clave é intransigente — disse Diego.
— Isso é verdade.
— Não gosto da palavra “intransigente” — falou Zara. — O que eles são é tradicionais. Buscam restaurar as separações que sempre existiram entre os integrantes do Submundo e os Caçadores de Sombras. Misturar gera confusão.
— Quer dizer, vejam o que aconteceu com Alec Lightwood e Magnus Bane — disse Samantha, acenando com o garfo. — Todo mundo sabe que Magnus usa sua influência com os Lightwood para fazer o Inquisidor pegar leve com os integrantes do Submundo. Mesmo em questões como assassinato.
— Magnus jamais faria isso — disse Emma. Ela tinha parado de comer, apesar de ter se sentado faminta.
— E o Inquisidor não julga membros do Submundo; só Caçadores de Sombras — disse Julian. — Robert Lightwood não poderia “pegar leve com integrantes do Submundo” nem que quisesse.
— Tanto faz — disse Jessica Beausejours, uma Centurião com um singelo sotaque francês e anéis em todos os dedos. — A Aliança entre Submundo e Caçadores de Sombras em breve vai acabar.
— Ninguém vai acabar com ela — disse Cristina, e sua boca estava tensa. — Isso é boato.
— Por falar em boatos — disse Samantha —, ouvi dizer que Bane fez Alec Lightwood se apaixonar por ele usando um feitiço. — Seus olhos brilhavam, como se não conseguisse decidir se a ideia era interessante ou nojenta.
— Isso não é verdade — disse Emma, com o coração acelerado. — É mentira.
Manuel ergueu uma sobrancelha para ela. Dane riu.
— Fico imaginando o que vai acontecer quando o feitiço passar, nesse caso — disse ele. — Será péssimo para os integrantes do Submundo, se o Inquisidor não for simpatizante.
Ty parecia espantado. Emma mal podia culpá-lo. Ninguém do circulo de Zara parecia se importar com fatos.
— Não ouviram o que Julian disse? — insistiu ele. — O Inquisidor não supervisiona casos em que os membros do Submundo violaram os Acordos. Ele não...
Livvy colocou a mão no pulso dele.
— Todos nós apoiamos os Acordos aqui — disse Manuel, se ajeitando na cadeira.
— Os Acordos foram uma boa ideia — falou Zara. — Mas toda ferramenta precisa ser afiada. Os Acordos precisam de melhorias. Feiticeiros deveriam ser regulados, por exemplo. São poderosos demais, e independentes demais. Meu pai planeja sugerir um registro de feiticeiros ao Conselho. Todo feiticeiro deve dar suas informações à Clave e ser rastreado. Se isso der certo, será estendido a todos do Submundo. Não podemos permitir que andem soltos por aí sem que saibamos por onde eles andam. Vejam o que aconteceu com Malcolm Fade.
— Zara, você está falando bobagem — disse Jon Cartwright, um dos Centuriões mais velhos, cerca de vinte e dois anos, Emma chutou. Da idade de Clary e Jace. A única coisa que Emma se lembrava a respeito dele era que tinha uma namorada, Marisol. — Como uma integrante anciã do Conselho, com medo de mudanças.
— De acordo — disse Rayan. — Somos estudantes e combatentes, e não legisladores. O que quer que seu pai esteja fazendo, não é relevante para a Scholomance.
Zara pareceu indignada.
— É só um registro...
— Eu sou o único que leu X-Men e entendo por que isso é má ideia? — perguntou Kit.
Emma não fazia ideia de quando ele tinha voltado, mas lá estava ele, enrolando macarrão no garfo descuidadamente.
Zara começou a franzir o rosto, depois se alegrou.
— Você é Kit Herondale — disse ela. — O Herondale perdido.
— Não sabia que estava perdido — retrucou Kit. — Eu nunca me senti perdido.
— Deve ser empolgante, de repente, descobrir ser um Herondale —falou Zara.
Emma conteve o impulso de observar que se a pessoa não sabia muito sobre os Caçadores de Sombras, descobrir que é um Herondale era tão empolgante quanto descobrir que você fazia parte de uma nova espécie de lesmas.
— Conheci Jace Herondale uma vez.
Ela olhou em volta, cheia de expectativa.
— Uau — disse Kit. Ele realmente era um Herondale, pensou Emma. Conseguia incorporar indiferença e sarcasmo nível Jace em uma palavra.
— Aposto que você mal pode esperar para entrar na Academia — disse Zara. — Como você é um Herondale, certamente vai se sair bem. Eu poderia falar bem de você.
Kit ficou em silêncio.
Diana limpou a garganta.
— E quais são os seus planos para amanhã, Zara, Diego? O Instituto pode fazer alguma coisa para ajudar?
— Já que tocou no assunto — respondeu Zara — seria muito útil...
Todos, inclusive Kit, se inclinaram para a frente com interesse.
— Se enquanto estivermos fora durante o dia vocês pudessem lavar as nossas roupas. Água do mar estraga o tecido rápido, não acham?


A noite caiu com a rapidez das sombras no deserto, mas, apesar do ruído de ondas que entrava pela janela, Cristina não conseguia dormir. Doía pensar em sua casa. Na mãe, nos primos. Dias melhores, que ficaram no passado, com Diego e Jaime; ela se lembrava de um fim de semana que tinha passado com eles, rastreando um demônio na cidade-fantasma em ruínas de Guerrero Viejo. A paisagem que parecia um sonho ao redor deles: casas parcialmente inundadas, grama fofa, construções há muito desbotadas pela água. Ela tinha deitado em uma pedra com Jaime sob incontáveis estrelas, e eles tinham contado um ao outro o que mais queriam no mundo: ela, encerrar a Paz Fria; ele, devolver a honra à família.
Exasperada, ela saiu da cama e desceu, tendo apenas luz enfeitiçada para iluminar seus passos. As escadas estavam escuras e silenciosas, e ela conseguiu sair pela porta dos fundos do Instituto fazendo pouco barulho. A luz do luar iluminava um pequeno trecho de terra onde o carro do Instituto estava estacionado.
Atrás da área, havia um jardim, onde estátuas brancas clássicas de mármore brotavam incongruentemente da areia do deserto. De repente, Cristina sentiu uma saudade imensa do jardim de rosas de sua mãe. Do cheiro das flores, mais doce do que sálvia do deserto; sua mãe caminhando entre as fileiras organizadas. Ela costumava brincar que a mãe devia ter ajuda de um feiticeiro para manter as flores brotando mesmo no mais quente verão.
Ela se afastou ainda mais da casa, em direção às fileiras de cerejeiras e amieiros. Ao se aproximar, viu uma sombra e congelou, se dando conta de que estava desarmada. Burra, pensou Cristina – o deserto era cheio de perigos, nem todos sobrenaturais. Leões da montanha não sabiam a diferença entre humanos e Nephilim.
Não era um leão da montanha. A sombra se aproximou; ela ficou tensa, depois, relaxou. Era Mark.
A luz do luar deixava o cabelo branco dele prateado. Seus pés estavam descalços sob a bainha da calça jeans. Ao vê-la, o espanto cruzou o rosto dele; depois, foi até ela sem hesitar e a tocou na bochecha.
— Estou imaginando você aqui? — perguntou Mark. — Eu estava pensando em você, e agora você está aqui.
Era uma frase tão Mark, uma declaração tão aberta de suas emoções. Porque fadas não podiam mentir, ela pensou, e ele tinha crescido com elas, e aprendido a falar sobre amor e carinho com Kieran, que era orgulhoso e arrogante, mas sempre verdadeiro. Fadas não associavam verdade à fraqueza e vulnerabilidade, como fazem os humanos. Isso fez com que Cristina se sentisse mais corajosa.
— Eu também estava pensando em você.
Mark passou o polegar na maçã do rosto dela. A palma dele estava morna na pele dela, apoiando sua cabeça.
— O quê?
— No olhar no seu rosto quando Zara e os amigos estavam falando sobre integrantes do Submundo no jantar. Sua dor...
Ele riu sem humor.
— Eu devia ter esperado. Se eu tivesse sido um Caçador de Sombras atuante nos últimos cinco anos, sem dúvida, estaria mais acostumado a essas conversas.
— Por causa da Paz Fria?
Ele fez que sim com a cabeça.
— Quando uma decisão como essa é tomada por um governo, encoraja aqueles que já são preconceituosos a verbalizarem seus pensamentos mais profundos de ódio. Eles supõem que são simplesmente corajosos o suficiente para falarem o que todos realmente pensam.
— Mark...
— Na cabeça de Zara, eu sou odiado — disse Mark. Seus olhos estavam sombrios. — Tenho certeza de que o pai dela faz parte daquele grupo que exige que Helen permaneça presa na Ilha de Wrangel.
— Ela vai voltar — disse Cristina. — Agora que você voltou para casa e lutou com tanta lealdade ao lado dos Caçadores de Sombras, certamente vão libertá-la.
Mark balançou a cabeça, mas tudo que disse foi:
— Sinto muito por Diego.
Ela esticou o braço e colocou a mão sobre a dele, seus dedos leves e frios como galhos de salgueiros. De repente, queria tocá-lo mais, queria testar a sensação da pele dele sob a camisa, a textura da mandíbula, onde ele claramente nunca tinha barbeado e nunca tinha precisado.
— Não — disse ela. — Não sente, não de verdade. Sente?
— Cristina. — Mark respirou, um pouco desamparado. — Posso...?
Cristina balançou a cabeça — se ela deixasse que ele perguntasse, ela nunca conseguiria dizer não.
— Não podemos — falou. — Emma.
— Você sabe que não é real — disse Mark. — Eu a amo, mas não assim.
— Mas é importante o que ela está fazendo. — Ela se afastou dele. — Julian tem que acreditar.
Ele a olhou confuso e ela se lembrou: Mark não sabia. Nem sobre a maldição, nem que Julian amava Emma ou que Emma o amava.
— Todo mundo tem que acreditar. E, além disso — acrescentou ela apressadamente — tem Kieran. Você acabou de terminar com ele. E eu acabei de terminar com Diego.
Ele só pareceu mais confuso. Ela supôs que as fadas não adotassem as ideias humanas de dar espaço e tempo para superar relacionamentos. E talvez fossem ideias tolas. Talvez amor fosse amor e as pessoas devessem aceitar quando encontrassem. Certamente seu corpo estava gritando com sua mente para que calasse a boca: ela queria envolver Mark em seus braços, queria segurá-lo como ele a segurou, sentir seu peito no dela ao expandir com ar.
Alguma coisa ecoou na escuridão. Pareceu o estalo de um galho enorme, seguido por um ruído lento e arrastado. Cristina girou, para alcançar seu canivete, mas novamente esquecera que ele estava lá dentro, na cabeceira.
— Acha que é a patrulha noturna dos Centuriões? — sussurrou ela para Mark.
Ele também fitava a escuridão, com os olhos semicerrados.
— Não. Não foi um ruído humano. — Ele pegou duas lâminas serafim e entregou uma a ela. — Nem animal.
O peso da lâmina na mão de Cristina era familiar e reconfortante. Após um instante de pausa para aplicar um símbolo de Visão Noturna, ela seguiu Mark para as sombras do deserto.


Kit abriu uma fresta da porta do quarto e espiou. O corredor estava deserto. Nada de Ty sentado do lado de fora do quarto, lendo ou deitado com os fones nos ouvidos. Nada de luz transbordando por baixo das outras portas. Apenas o brilho fraco das fileiras de luz branca que corriam pelo teto.
Ele quase esperava que alarmes soassem quando se esgueirou pela casa silenciosa e abriu a porta da frente do Instituto, uma espécie de assobio chiado ou explosões de luz. Mas nada aconteceu – só o som de uma porta pesada comum abrindo e fechando atrás dele. Ele estava do lado de fora. Na varanda sobre os degraus que levavam ao gramado na frente do Instituto, e, em seguida, à estrada para a rodovia.
A vista sobre o penhasco para o mar estava banhada em luar, prata e preto, com uma trilha branca sobre a água. Era lindo, Kit pensou, colocando a bolsa de pano sobre o ombro. Mas não era lindo o suficiente para que ele ficasse. Não dava para trocar a liberdade por uma vista para o mar.
Ele começou a descer as escadas. Seu pé tocou o primeiro degrau e se ergueu quando ele foi empurrado para trás. A bolsa de pano voou. Uma mão o agarrava pelo ombro, com força; Kit foi para o lado, quase caindo da escada, e balançou o braço, acertando alguma coisa sólida. Ele ouviu um rosnado abafado – era um vulto, que mal se via, só uma sombra entre as sombras, erguendo-se sobre ele, bloqueando a lua. Um segundo depois, os dois estavam caindo, Kit batendo de costas na varanda, a sombra escura por cima dele. Ele sentiu joelhos afiados e cotovelos o cutucarem e logo depois uma luz fraca acendeu: uma daquelas pedras idiotas que eles chamavam de luz enfeitiçada.
— Kit — disse uma voz acima dele; a voz de Tiberius. — Pare de se debater. — Ty balançou a cabeça escura. Estava ajoelhado sobre Kit – basicamente sentado em seu plexo solar, o que dificultava a respiração – todo vestido de preto, como os Caçadores de Sombras quando iam lutar. Só as mãos e o rosto estavam descobertos, muito brancos na escuridão.
— Você estava fugindo? — perguntou.
— Eu ia dar uma volta — respondeu Kit.
— Não, você está mentindo — falou o outro garoto, olhando a sacola de Kit. — Você estava fugindo.
Kit suspirou e deixou a cabeça cair para trás com uma batida.
— Por que você se importa com o que eu faço?
— Sou um Caçador de Sombras. Nós ajudamos as pessoas.
— Agora você está mentindo — afirmou Kit, com convicção.
Ty sorriu. Foi espontâneo, um sorriso do tipo que ilumina o rosto, e fez com que Kit se lembrasse de quando conheceu Ty. Na ocasião, Ty não estava sentado sobre ele, mas estava com uma faca em sua garganta. Kit tinha olhado para ele e se esquecido da faca e pensado, Lindo. Lindo como todos os Caçadores de Sombras, como luz do luar brilhando das bordas de vidros quebrados: adoráveis e mortais. Criaturas lindas, criaturas cruéis, cruéis de um jeito que só pessoas que realmente acreditavam na razão de sua causa podiam ser.
— Preciso de você — disse Ty. — Você pode se surpreender em ouvir isso.
— Sim — concordou Kit. Ficou imaginando se mais alguém apareceria correndo. Não estava ouvindo passos nem vozes se aproximando. — O que aconteceu com a patrulha noturna? — quis saber.
— Provavelmente estão a oitocentos metros daqui — respondeu Ty. — Tentando impedir que os demônios se aproximem do Instituto, e não que você saia. Agora quer saber por que preciso de você ou não?
Quase contra a vontade, Kit estava curioso. Ele se apoiou nos cotovelos e fez que sim com a cabeça. Ty estava sentado casualmente, como se ele fosse um sofá, mas seus dedos – dedos longos e rápidos, ágeis com uma faca, conforme Kit se lembrava – passaram sobre o cinto de armas.
— Você é um criminoso — disse Ty. — Seu pai era um trapaceiro e você queria ser como ele. Sua sacola provavelmente está cheia de coisas que roubou do Instituto.
— Tal... — Kit começou e parou quando Ty esticou a mão, puxou o zíper da bolsa, e viu o monte de adagas roubadas, caixas, bainhas, castiçais, e tudo mais que Kit tinha roubado se revelou à luz da lua. — ... vez — concluiu Kit. — O que isso tem a ver com você? Nada disso é seu.
— Eu quero desvendar crimes — disse Ty. — Ser um detetive. Mas ninguém aqui se importa com esse tipo de coisa.
— Vocês todos não acabaram de pegar um assassino?
— Malcolm mandou um bilhete — disse Ty, em tom fatigado, como se estivesse decepcionado pelo feiticeiro ter arruinado o trabalho de detetive com sua confissão. — E depois admitiu o que fez.
— Isso realmente reduz a lista de suspeitos — falou Kit. — Veja, se precisar de mim para poder me prender por diversão, devo observar que é o tipo de coisa que você só pode fazer uma vez.
— Não quero prendê-lo. Quero um parceiro. Alguém que sabe sobre crimes e sobre as pessoas que os cometem para me ajudar.
Uma lâmpada acendeu na cabeça de Kit.
— Você quer... espere, você tem dormido na porta do meu quarto porque quer um Watson para o seu Sherlock Holmes?
Os olhos de Ty brilharam. Continuavam se movendo incansáveis por Kit, como se o estivesse lendo, examinando, sem nunca encontrar seu olhar, mas isso não diminuiu o brilho.
— Você conhece eles?
Todo mundo no mundo conhece eles, Kit quase falou, mas em vez disso apenas disse:
— Não vou ser o Watson de ninguém. Não quero resolver crimes. Não me importo com crimes. Não ligo se estão sendo cometidos, ou se não estão...
— Não pense neles como crimes. Encare como mistérios. Além disso, o que mais vai fazer? Fugir? E ir para onde?
— Não ligo...
— Liga sim — disse Ty. — Você quer viver. Assim como todo mundo. Não quer ficar preso, só isso — ele inclinou a cabeça para o lado, seus olhos eram de uma profundeza quase branca à luz da pedra enfeitiçada. A lua tinha ido para trás de uma nuvem, e era a única iluminação.
— Como você sabia que eu ia fugir hoje?
— Porque você estava se acostumando a ficar aqui — respondeu Ty. — Estava se acostumando conosco. Mas os Centuriões, você não gosta deles. Livvy notou antes. E depois do que Zara disse hoje sobre você ir para a Academia... você deve achar que não terá escolha quanto ao que fizer depois disso.
Era verdade, surpreendentemente. Kit não conseguia encontrar as palavras que explicassem como ele tinha se sentido à mesa de jantar. Como se o fato de tornar-se um Caçador de Sombras significasse ser jogado em uma máquina que o mastigaria e cuspiria um Centurião.
— Eu olho para eles — falou —, e penso, “não posso ser como eles, e eles não suportam ninguém diferente”.
— Você não precisa ir para a Academia — falou Ty. — Pode ficar conosco pelo tempo que quiser.
Kit duvidava que o outro garoto tivesse autoridade para fazer esse tipo de promessa, mas apreciou ainda assim.
— Contanto que eu ajude a resolver mistérios — falou. — Com que frequência vocês têm mistérios a resolver, ou eu tenho que esperar até outro feiticeiro enlouquecer?
Ty se apoiou contra um dos pilares. Suas mãos batiam nas laterais do corpo como borboletas noturnas.
— Na verdade, tem um mistério acontecendo agora.
Kit ficou intrigado, apesar de tudo.
— Qual?
— Acho que eles não estão aqui pelo motivo que alegam estar. Acho que estão tramando alguma — disse Ty. — E definitivamente estão mentindo para nós.
— Quem está mentindo?
Os olhos de Ty faiscaram.
— Os Centuriões, é claro.


O dia seguinte estava muito quente, um daqueles raros dias em que o ar parecia ficar parado e a proximidade com o mar não oferecia nenhum alívio. Quando Emma chegou, atrasada, para o café na sala de jantar, os ventiladores de teto que raramente eram utilizados estavam girando a toda.
— Foi um demônio de areia? — Dane Larkspear estava perguntando a Cristina. — Akvan e Iblis são demônios comuns no deserto.
— Sabemos disso — respondeu Julian. — Mark já disse que foi um demônio marinho.
— Ele saiu deslizando assim que acendemos a luz enfeitiçada em cima dele — falou Mark. — Mas deixou para trás um fedor de água salgada e areia molhada.
— Não posso acreditar que não haja barreiras de perímetro aqui — disse Zara. — Por que ninguém nunca cuidou disso? Tenho que perguntar ao Sr. Blackthorn...
— As barreiras perimetrais fracassaram em manter Sebastian Morgenstern afastado — disse Diana. — Não foram mais usadas depois disso. Barreiras de perímetro raramente funcionam.
Ela soou como se estivesse se esforçando para manter o controle. Emma não podia culpá-la.
Zara olhou para ela com uma espécie de pena superior.
— Bem, com todos esses demônios marinhos se arrastando para fora do oceano... o que não estariam fazendo se o corpo de Malcolm Fade não estivesse lá em algum lugar, vocês sabem... acho que são necessárias. Concordam?
Houve um murmúrio de vozes: a maioria dos Centuriões, exceto por Diego, Jon e Rayan, parecia de acordo.
Enquanto faziam planos para armarem as barreiras naquela manhã, Emma tentou capturar o olhar de Julian e compartilhar a irritação dele, mas ele estava olhando para longe dela, na direção de Mark e Cristina.
— O que vocês dois estavam fazendo do lado de fora ontem, afinal?
— Não conseguíamos dormir — respondeu Mark. — Acabamos nos esbarrando.
Zara sorriu.
— Claro que se esbarraram. — Ela virou para sussurrar alguma coisa ao ouvido de Samantha. Ambas riram. Cristina enrubesceu, irritada.
Emma viu a mão de Julian apertar em volta do garfo. Ele o pousou lentamente ao lado do prato.
Emma mordeu o lábio. Se Mark e Cristina quisessem namorar, ela daria sua bênção. Fingiria um tipo de término com Mark; a “relação” deles já tinha feito quase tudo que precisava. Julian mal conseguia olhar para ela, e era isso que ela queria, não era? Mas ele não parecia feliz com a ideia de que ela e Mark pudessem terminar. Nem um pouquinho. Se estivesse pensando nisso. Houve um tempo em que ela sempre soube o que Julian estava pensando. Agora ela só conseguia ler a superfície de seus pensamentos: seus sentimentos mais profundos estavam escondidos.
Diego olhou de Mark para Cristina e se levantou, empurrando a cadeira para trás. Ele se retirou da sala. Após um instante, Emma jogou o guardanapo no prato e também saiu. Ele batera os pés até a porta dos fundos e fora para o estacionamento antes de perceber que ela o estava seguindo – um forte indício de que ele estava irritado, considerando o grau de treinamento de Diego.
Ele virou para olhar para ela, seus olhos escuros brilhando.
— Emma — falou. — Entendo que queira me repreender. Há dias que quer fazer isso. Mas não é uma boa hora.
— E quando seria? Quer anotar na sua agenda no dia de São Nunca? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Foi o que pensei. Vamos.
Ela deu a volta na Instituto, e Diego a seguiu relutantemente. Eles chegaram a um local onde um pequeno monte de terra surgia entre cactos, familiar a Emma por experiência.
— Você fica aqui — disse ela, apontando. Ele a olhou incrédulo. — Para não sermos vistos das janelas — explicou ela, e, mesmo emburrado, ele a obedeceu e cruzou os braços sobre o peito musculoso.
— Emma — começou ele. — Você não entende e não pode entender, e eu não posso explicar...
— Aposto que não pode — falou ela. — Ouça, você sabe que nunca fui sua grande fã, mas eu tinha uma opinião bem melhor sobre você.
Um músculo tremeu no rosto dele. A mandíbula estava rígida.
— Como eu disse. Você não pode entender, e não posso explicar.
— Uma coisa — disse Emma — era você só estar traindo, o que eu ainda acharia desprezível, mas... Zara? É por sua causa que ela está aqui. Você sabe que não somos... você sabe que Julian tem que ser cauteloso.
— Ele não deve se preocupar demais — disse Diego calmamente. — Zara só se interessa pelo que pode lucrar. Acho que ela não tem o menor interesse nos segredos de Arthur, só quer a atenção do Conselho por completar essa missão com sucesso.
— Para você é fácil supor essas coisas.
— Tenho motivos para tudo que faço, Emma — falou. — Cristina pode não conhecê-los agora, mas um dia conhecerá.
— Diego, todo mundo tem motivo para tudo que faz. Malcolm tinha motivos para fazer o que fez.
A boca de Diego se encolheu em uma linha fina.
— Não me compare a Malcolm Fade.
— Porque ele era um feiticeiro? — A voz de Emma era baixa, perigosa. — Porque você pensa como a sua noiva? Sobre a Paz Fria? Sobre feiticeiros e fadas? Sobre Mark?
— Porque ele era um assassino — respondeu Diego entre dentes. — O que quer que pense sobre mim, Emma, não sou um babaca insensato. Não acho que integrantes do Submundo sejam inferiores, nem que devam ser registrados ou torturados...
— Mas admite que Zara acha — falou Emma.
— Eu nunca contei nada a ela — disse ele.
— Talvez você possa entender por que estou imaginando como você pode preferi-la a Cristina — disse Emma.
Diego ficou tenso – e gritou.
Emma tinha se esquecido da velocidade com que ele podia se mover, apesar do tamanho: ele saltou para trás, praguejando e dando chutes com o pé esquerdo. Murmurando de dor, tirou o sapato. Filas de formigas marchavam pelo seu tornozelo, subindo pela perna.
— Ah, céus — falou Emma. — Você deve ter pisado em um formigueiro de formigas vermelhas. Sabe, acidentalmente.
Diego estapeou as formigas, ainda praguejando. Ele tinha chutado a parte de cima do formigueiro, e as formigas transbordavam dele.
Emma deu um passo para trás.
— Não se preocupe — disse ela. — Não são venenosas.
— Você armou para que eu pisasse em um formigueiro? — Ele calçou novamente o sapato, mas Emma sabia que as mordidas iam coçar durante dias a não ser que usasse um iratze.
— Cristina me fez prometer que eu não encostaria em você, então tive que ser criativa — respondeu ela. — Você não devia ter mentido para a minha melhor amiga. Desgraciado mentiroso.
Ele a encarou.
Emma suspirou.
— Espero que isso signifique o que eu acho que significa. Detestaria ter acabado de te chamar de balde enferrujado ou coisa do tipo.
— Não — disse ele. Para surpresa de Emma, ele parecia ligeiramente entretido. — Significa o que você acha.
— Ótimo. — Emma voltou para a casa. Estava quase fora do alcance quando ele a chamou. Ela virou e o viu parado onde o tinha deixado, aparentemente ignorando as formigas e o sol quente que batia em seus ombros.
— Acredite em mim, Emma — disse ele, alto o bastante para que ela o escutasse —, ninguém me odeia mais do que eu mesmo nesse momento.
— Você realmente acha isso? — perguntou ela. Emma não gritou, mas sabia que as palavras tinham viajado até ele. Ele a fitou por um longo instante em silêncio antes de ela se retirar.


O dia permaneceu quente até o fim da tarde, quando uma tempestade armou sobre o mar. Os Centuriões tinham saído antes do meio-dia, e Emma não conseguia deixar de olhar ansiosa pelas janelas enquanto o sol se punha atrás de uma massa de nuvens cinza e negras no horizonte, penetradas por raios de calor.
— Acha que eles vão ficar bem? — perguntou Dru, com as mãos nervosas no cabo da faca de arremesso. — Eles não saíram em um barco? Parece uma tempestade feia.
— Não sabemos o que estão fazendo — disse Emma. Ela quase acrescentou que graças ao desejo esnobe dos Centuriões de esconderem suas atividades dos Caçadores de Sombras do Instituto, seria muito difícil resgatá-los, caso alguma coisa perigosa de fato acontecesse, mas ela viu a expressão no rosto de Dru e não disse nada.
Dru praticamente idolatrava Diego como um herói; apesar de tudo, provavelmente ainda gostava dele. Emma se sentiu brevemente culpada pelas formigas.
— Eles vão ficar bem — afirmou Cristina para tranquilizá-la. — Centuriões são muito cautelosos.
Livvy chamou Dru para lutar com espadas contra ela, e Dru foi até onde Ty, Kit e Livvy estavam juntos em um tatame. De algum jeito, Kit tinha sido convencido a vestir uniforme de treinamento. Ele parecia um Jace em miniatura, Emma pensou, divertida, com seus cachos louros e maçãs do rosto angulosas. Atrás deles, Diana mostrava a Mark uma posição de treino. Emma piscou os olhos – Julian tinha estado ali há um instante. Ela tinha certeza disso.
— Ele foi ver seu tio — disse Cristina. — Alguma coisa sobre ele não gostar de tempestades.
— Não, é Tavvy que não gosta... — A voz de Emma se interrompeu. Tavvy estava sentado em um canto da sala de treinamento, lendo um livro. Ela se lembrou de todas as vezes em que Julian tinha desaparecido durante as tempestades, alegando que Tavvy tinha medo delas. Ela guardou Cortana na bainha. — Já volto.
Cristina a observou saindo com olhos perturbados. Mais ninguém pareceu notar quando ela passou pela porta da sala de treinamento e seguiu pelo corredor.
As janelas imensas e espaçadas do corredor permitiam a entrada de uma luz cinza peculiar, marcada com pontas prateadas. Ela alcançou a porta do sótão e subiu as escadas correndo; apesar de não ter tido o cuidado de disfarçar o barulho de suas pisadas, nem Arthur, nem Julian pareceram notar quando ela entrou na sala principal do sótão.
As janelas estavam bem fechadas e vedadas com jornal, todas menos uma, sobre a mesa onde Arthur sentava. O jornal tinha sido rasgado dela, mostrando nuvens correndo pelo céu, colidindo e se desenrolando como bolas espessas de fios cinza e pretos.
Bandejas de comidas intocadas se espalhavam sobre as muitas mesas de Arthur. A sala tinha cheiro de podridão e mofo. Emma engoliu em seco, imaginando se teria errado em vir.
Arthur estava encolhido na cadeira, cabelos ralos caindo sobre os olhos.
— Quero que saiam — dizia ele. — Não gosto de tê-los aqui.
— Eu sei. — Julian falava com uma suavidade que surpreendeu Emma. Como ele podia não estar furioso? Ela estava furiosa, furiosa com tudo que fazia Julian crescer rápido demais. Que o havia privado da infância. Como ele podia olhar para Arthur e não pensar isso? — Também quero que saiam, mas não há nada que eu possa fazer para mandá-los embora. Temos que ter paciência.
— Preciso do meu remédio — sussurrou Arthur. — Onde está Malcolm?
Emma fez uma careta ao ver a expressão de Julian – e Arthur, de repente, pareceu notá-la. Ele levantou os olhos, fixando-os nela – não, não nela, na espada.
— Cortana — disse ele. — Feita por Wayland, o Ferreiro, o lendário ferreiro de Excalibur e Durendal. Dizem que escolhe o dono. Quando Ogier a ergueu para matar o filho de Carlos Magno no campo, um anjo veio, quebrou a espada e disse a ele: “piedade é melhor do que vingança”.
Emma olhou para Julian. Era escuro no sótão, mas ela conseguiu ver que as mãos dele estavam cerradas nas laterais. Será que estava bravo por ela tê-lo seguido?
— Mas Cortana nunca foi quebrada — disse ela.
— É só uma história — falou Julian.
— Existe verdade nas histórias — disse Arthur. — Existe verdade em uma de suas pinturas, menino, ou em um pôr do sol, ou em um verso de Homero. Ficção é verdade, mesmo que não seja fato. Se você só acredita em fatos e se esquece das histórias, seu cérebro vive, mas seu coração morre.
— Eu entendo, tio — falou Julian, com voz cansada. — Volto mais tarde. Por favor, coma alguma coisa. Está bem?
Arthur abaixou o rosto para as mãos, balançando a cabeça. Julian começou atravessar o recinto para as escadas; no meio do caminho, pegou o pulso de Emma, puxando-a atrás de si.
Ele não fez nenhuma força, mas ela o seguiu assim mesmo, obedecendo em choque simplesmente pela sensação física da mão dele em seu pulso. Atualmente ele só encostava nela para fazer Marcas – ela sentia falta daqueles toques amigáveis aos quais estava acostumada pelos anos de amizade: uma mão acariciando seu braço, um tapinha no ombro. Sua forma secreta de comunicação: dedos desenhando palavras e letras na pele um do outro, de forma silenciosa e invisível a todos os outros. Parecia uma eternidade.
E agora faíscas percorriam seu braço a partir daquele ponto de contato, deixando-a com o corpo quente, formigando, e confuso. Os dedos dele envolveram o pulso dela enquanto saíam pela porta da frente.
Quando se fechou atrás deles, ele soltou, virando-se para encará-la. O ar parecia pesado e denso, pressionando a pele de Emma. Bruma obscurecia a rodovia. Ela enxergava as superfícies ondulantes e cinzentas batendo na costa; daqui, cada uma parecia tão grande quanto uma baleia jubarte. Ela via a lua, lutando para aparecer entre nuvens. Julian estava arfando, como se tivesse corrido quilômetros sem parar. A umidade do ar grudou sua camisa no peito quando ele se apoiou na parede do Instituto.
— Por que você foi até o sótão? — perguntou.
— Desculpa — falou ela, séria. Ela detestava ficar tensa perto de Jules. Eles raramente tinham uma briga que não terminasse com um pedido casual de desculpas ou em uma piada. Eu tive a sensação de que você precisava de mim, e não pude deixar de vir. — Entendo se você está bravo...
— Não estou bravo. — Um raio brilhou sobre a água, clareando brevemente o céu. — Essa é a desgraça da situação, eu não posso ficar bravo, posso? Mark não sabe nada sobre nós dois, ele não está tentando me machucar, nada disso é culpa dele. E você, você fez a coisa certa. Não posso te odiar por isso. — Ele se afastou da parede, e deu alguns passos inquietos. A energia dessa tempestade que ele guardara parecia irradiar da sua pele. — Mas não suporto. O que eu faço, Emma? — Julian passou as mãos pelo cabelo; a umidade estava fazendo com que ondulasse em cachos que se prendiam aos dedos. — Não podemos viver assim.
— Eu sei — falou. — Eu vou embora. São só mais alguns meses. Vou fazer dezoito anos. Tiraremos nosso ano de viagem longe um do outro. Vamos esquecer.
— Vamos? — A boca de Jules se curvou em um sorriso impossível.
— Temos que esquecer. — Emma tinha começado a tremer; estava frio, as nuvens acima deles se reviravam como a fumaça de um céu queimado.
— Eu nunca deveria ter tocado em você — falou. Ele tinha se aproximado dela, ou talvez ela dele, querendo pegá-lo pelas mãos, como sempre fazia. — Nunca achei que o que a gente tinha pudesse se quebrar com tanta facilidade.
— Não está quebrado — sussurrou ela. — Nós erramos, mas o erro não foi ficarmos juntos.
— A maioria das pessoas pode errar, Emma. Isso não precisa arruinar a vida delas.
Ela fechou os olhos, mas ainda conseguia vê-lo. Senti-lo, a poucos centímetros dela, o calor do seu corpo, o cheiro de cravo em sua roupa e no cabelo. Aquilo a estava enlouquecendo, fazendo seus joelhos tremerem como se ela tivesse acabado de sair de uma montanha-russa.
— Nossas vidas não estão arruinadas.
Ele a abraçou. Por um instante, ela pensou em resistir, mas estava tão cansada – tão cansada de lutar contra o que queria. Ela achava que nunca mais teria isso, Jules em seus braços novamente, magro e musculoso, tenso, mãos fortes de pintor alisando suas costas, seus dedos traçando letras, palavras em sua pele.
E-U E-S-T-O-U A-R-R-U-I-N-A-D-O.
Ela abriu os olhos, assustada. O rosto dele estava tão próximo que era quase um borrão de luz e sombra.
— Emma — falou, com os braços em volta dela, puxando-a para perto.
E então ele a estava beijando; eles estavam se beijando. Ele a puxou para perto; encaixou o corpo dela no dele, curvas e entradas, músculos e suavidade. Sua boca estava aberta sobre a dela, a língua passando suavemente pelos lábios.
O trovão explodiu em volta deles, um raio caiu contra as montanhas, inflamando uma trilha de calor seco no interior das pálpebras de Emma. Ela abriu a boca sob a dele, se encostou ainda mais contra o seu corpo, envolvendo os braços no pescoço de Julian. Ele tinha gosto de fogo, gosto de especiaria. Ele passou as mãos pelas laterais do corpo dela, pelos quadris. Puxou-a mais firme contra si ao mesmo tempo que emitia um ruído baixo na garganta, uma espécie de som angustiado de desejo.
Pareceu uma eternidade. Pareceu não durar nada. As mãos dele contornaram as omoplatas dela, a curva do seu corpo sob as costelas, os polegares arqueando sobre os quadris. Ele a levantou contra si, como se eles coubessem nos espaços vazios um do outro, enquanto palavras jorravam da boca dele: frenético, apressado.
— Emma... eu preciso de você, sempre, sempre penso em você, eu estava desejando que você estivesse comigo naquele maldito sótão e aí virei e você estava lá, como se tivesse me escutado, como sempre está presente quando eu preciso...
Um raio caiu outra vez, iluminando o mundo: Emma então viu suas mãos na barra da camisa de Julian... que diabos ela estava pensando, estava planejando que ela e Julian se despissem na varanda da frente do Instituto? A realidade bateu; ela se afastou, o coração acelerado no peito.
— Em? — Ele a encarou, espantado, seus olhos sonolentos, quentes e desejosos. Fez com que ela engolisse em seco. Mas as palavras dele ecoavam em sua mente: ele a quis, e foi como se ela tivesse ouvido Julian chamar, ela tinha sentido, sabido, e não conseguiu se conter. Todas aquelas semanas insistindo para si mesma que o laço parabatai estava enfraquecendo, e agora ele estava dizendo para ela que eles praticamente leram a mente um do outro.
— Mark — disse ela, e foi só uma palavra, mas era a palavra, o lembrete mais brutal da situação deles.
O olhar sonolento deixou o rosto dele; ele empalideceu, espantado. Levantou a mão como se quisesse dizer alguma coisa; explicar, pedir desculpas, e o céu pareceu se cortar no meio.
Os dois viraram para olhar as nuvens diretamente acima deles se partirem. Uma sombra cresceu no ar, escurecendo ao se aproximar deles: a figura de um homem, enorme e vestido de armadura, montado em um cavalo sem sela, de olhos vermelhos e malhado em preto e cinza, como as nuvens da tempestade acima deles.
Julian se moveu como que para empurrar Emma atrás dele, mas ela não se mexeu. Ela simplesmente encarou enquanto o cavalo parou relinchando, ao pé da escada do Instituto. O homem olhou para eles.
Seus olhos, como os de Mark, tinham duas cores diferentes; no caso dele, eram azul e preto. Seu rosto era assustadoramente familiar. Era Gwyn ap Nudd, o lorde e lider da Caçada Selvagem. E ele não parecia satisfeito.

10 comentários:

  1. Jon Cartwright namorando Marisol <3

    Ana Santos

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  2. Meu deus ❤ as fadas arrebentam nas suas chegadas

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  3. Finalmente as coisas esquentaram xD

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  4. eles nunca estão satisfeito!

    eu disse! eu disse que quando eh proibido ...😌o desejo só aumenta! o Negócio tá ficando mais intenso!

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  5. Pelo Anjo... Eu nem sei o que pensar sobre isso...

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  6. Mds que aflição de ver esses dois separados tá doendo até em mim 💔

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  7. Pelo amor de Deus pelo anjo que um demônio qualquer demoninho faça o favor de devorar a Zara, pessoa desnecessária insuportável não vejo a hora da Tina quebrar a cara dela...

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  8. angel 05/12/2017 isso monstra que o amor sempre encontra um jeito de fazer dar certo as pessoas e que criam dificuldades

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  9. Ah, Jules Jules, ele tá ficando meio louco de amor.. Sabe, estilo Damon Salvatore? Mas é só minha impressão.

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Boa leitura :)