15 de novembro de 2017

Capítulo 5

O relógio do avô de René Grenier começara a soar. Isso, reconhecia-se, era um desastre. O relógio estava enterrado havia meses no canteiro lateral da casa, com o bule de chá de prata, quatro moedas de ouro e o relógio de bolso do avô, para evitar que sumissem nas mãos dos alemães.
O plano dera certo — de fato, quando se andava na cidade, o chão rangia por causa dos objetos de valor que haviam sido enterrados às pressas em jardins e caminhos — até Madame Poilâne entrar no bar numa fria manhã de novembro e interromper o jogo de dominó de René com a notícia de que a cada quarto de hora soavam badaladas abafadas sob o que restava das cenouras dele.
— Posso ouvir, até com os meus ouvidos — murmurou ela. — E se eu consigo ouvir, pode estar certo de que eles ouvirão.
— Tem certeza de que foi isso que ouviu? — perguntei. — Faz muito tempo que não se dá corda nele.
— Talvez seja Madame Grenier se revirando na cova — disse Monsieur Lafarge.
— Eu não enterraria minha mulher embaixo dos meus legumes — murmurou René. — Ela os deixaria ainda mais amargos e murchos do que estão.
Debrucei-me para esvaziar o cinzeiro e falei mais baixo.
— Você precisa desenterrá-lo à noite, René, e enchê-lo de juta. Esta noite deve ser seguro; entregaram comida extra para o jantar deles. Com quase todos eles aqui, haverá menos homens de plantão.
Fazia um mês que os alemães haviam começado a comer no Le Coq Rouge, e uma trégua precária se instalara em seu território compartilhado. Das dez da manhã até as cinco e meia da tarde, o bar era francês, frequentado pela usual mistura de idosos e solitários. Eu e Hélène lavávamos tudo, depois cozinhávamos para os alemães, que chegavam pouco antes das sete, esperando ter a comida na mesa assim que colocassem os pés lá dentro. Havia vantagens: no caso de haver sobras, várias vezes por semana, nós as dividíamos (embora agora tendesse a haver um ou outro resto de carne e legumes em vez de um banquete de frango).
Com o clima mais frio, os alemães sentiam mais fome, e Hélène e eu não éramos corajosas o bastante para guardar um pouco para nós. Mesmo assim, até aqueles bocados ocasionais de comida faziam diferença. Jean adoecia menos agora, nossa pele começava a clarear, e algumas vezes conseguíamos levar furtivamente para a casa do prefeito um vidro pequeno de caldo, feito com os ossos, para a enfermiça Louisa.
Havia outras vantagens. Na hora em que os alemães se retiravam, à noite, eu e Hélène corríamos para apagar o fogo da lareira e botar as achas que ainda prestavam para secar no porão. No fim de alguns dias, a soma desses restos podia significar um pouco de fogo durante o dia quando estava especialmente frio.
Sempre que acendíamos esse fogo, o bar ficava repleto, ainda que poucos de nossos clientes comprassem algo para beber.
Mas havia, como era de se prever, um lado negativo. Madame Durant e Madame Louvier haviam decidido que, mesmo que eu não falasse com os oficiais, nem sorrisse para eles, nem agisse como se fossem outra coisa que não uma imposição grosseira em minha casa, eu devia estar sendo contemplada com a generosidade alemã. Eu sentia seus olhos em mim quando recebia os suprimentos regulares de comida, vinho e combustível. Eu sabia que éramos assunto de acaloradas conversas na praça. Meu único consolo era que o toque de recolher significava que elas não podiam ver a comida gloriosa que preparávamos para os homens, nem como o hotel virava um lugar de sons e debates animados durante aquelas sinistras horas noturnas.
Eu e Hélène havíamos aprendido a viver ouvindo sotaques estrangeiros em nossa casa. Reconhecíamos alguns dos homens — havia o alto, magro e orelhudo, que sempre tentava nos agradecer em nosso idioma. Havia o rabugento de bigode grisalho, que sempre conseguia encontrar defeito em alguma coisa, pedindo sal, pimenta e mais carne. Havia o baixinho Holger, que bebia demais e olhava pela janela como se só estivesse com parte da mente no que quer que estivesse acontecendo à sua volta. Eu e Hélène fazíamos um gesto de cabeça civilizado diante de seus comentários, tomando cuidado para sermos educadas, mas não simpáticas. Certas noites, para ser honesta, era quase agradável tê-los ali. Não alemães, mas seres humanos. Homens, companhia, cheiro de comida.
Estávamos privadas de contato masculino, de vida, havia muito tempo. Mas em outras noites podia-se ver, pelas fisionomias tensas e severas, que algo dera errado. Não havia conversa, e o diálogo consistia em rajadas de sussurros. Eles nos olhavam de soslaio então, parecendo lembrar-se de que éramos o inimigo. Como se pudéssemos entender alguma coisa do que diziam.
Aurélien estava aprendendo. Ele adquirira o hábito de se deitar no chão do Quarto Três, com o rosto colado na fresta entre as tábuas do assoalho, torcendo para um dia poder ver um mapa ou alguma instrução que nos desse uma vantagem militar. Adquirira um domínio espantoso do alemão: depois que eles se retiravam, arremedava o sotaque dos homens ou dizia coisas que nos faziam rir.
De vez em quando, até entendia trechos da conversa; que oficial estava em der Krankenhaus (hospital), quantos homens tinham sido tot (mortos). Ele me causava preocupação, mas orgulho também. Eu sentia que talvez ainda poderia haver algum propósito oculto no serviço que prestávamos aos alemães.
O Kommandant, enquanto isso, era sempre cortês. Cumprimentava-me, se não com carinho, pelo menos com uma espécie de civilidade cada vez mais familiar. Elogiava a comida, sem tentar bajular, e controlava com firmeza seus homens, que eram proibidos de se exceder na bebida ou de se comportar de maneira expansiva.
Várias vezes, ele me procurou para falar de arte. Eu não me sentia muito à vontade com a conversa pessoal, mas lembrar do meu marido me dava alguma satisfação. O Kommandant falava de sua admiração por Purrmann, o artista de raízes alemãs, e de quadros de Matisse que vira que o haviam feito desejar ir a Moscou e Marrocos.
A princípio, eu relutava em falar, e depois via que não conseguia parar. Era como ser lembrada de outra vida, outro mundo. Ele era fascinado pela dinâmica da Académie Matisse, se havia rivalidade entre os artistas ou amor genuíno. Tinha a maneira de falar de um advogado: rápido, inteligente, impaciente com quem custava a entender o seu argumento. Acho que ele gostava de conversar comigo porque eu não ficava constrangida com ele. Era uma característica minha, acho, não me mostrar intimidada, ainda que, no íntimo, eu me sentisse assim. Isso me ajudara muito no ambiente altivo da loja de departamentos parisiense e também me servia agora.
Ele tinha uma predileção especial pelo meu retrato do bar e passava tanto tempo admirando-o e discutindo os méritos técnicos de Édouard no uso das cores, na pincelada que, por um instante, eu conseguia esquecer o constrangimento de ser o tema do quadro.
Seus pais, ele confidenciou, “não tinham cultura”, mas inspiraram nele a paixão de aprender. Ele esperava, dizia, aprofundar seus estudos depois da guerra, viajar, ler, instruir-se. Sua mulher se chamava Liesl. Ele tinha um filho, também, revelou certa noite. Um menino de dois anos que ainda não conhecia.
(Quando contei isso a Hélène, esperei que sua fisionomia demonstrasse um pouco de compaixão, mas ela dissera bruscamente que ele devia passar menos tempo invadindo os países dos outros.)
Ele me disse tudo isso de passagem, sem tentar solicitar qualquer informação pessoal em troca. Não por egoísmo, mas por entender que, estando em minha casa, ele já invadira a minha vida. Procurar algo mais seria uma imposição excessiva. Ele era, de certa forma, percebi, um cavalheiro.
Naquele primeiro mês, fui tendo cada vez mais dificuldade de classificá-lo como um animal, um boche, como faria com os outros. Acho que eu passara a considerar todos os alemães bárbaros e era difícil imaginá-los com esposas, mães, bebês. Mas lá estava ele, comendo na minha frente, noite após noite, conversando, discutindo cores e formas e a técnica de outros artistas como meu marido. De vez em quando, ele sorria, franzindo de repente os claros olhos azuis, como se a felicidade lhe fosse uma emoção muito mais familiar do que as suas feições demonstravam.
Eu não defendia o Kommandant nem conversava sobre ele na frente dos outros cidadãos. Se alguém puxava conversa comigo sobre as agonias de ter os alemães no Le Coq Rouge, eu respondia simplesmente que, se Deus quisesse, chegaria o dia em que nossos maridos voltariam e tudo aquilo seria uma lembrança distante.
E eu rezava para ninguém notar que nada fora confiscado de nossa casa desde que os alemães haviam entrado lá.

* * *

Pouco antes do meio-dia, deixei o interior abafado do bar e saí com o pretexto de bater um tapete. Havia uma leve camada de geada, cristalina e brilhante, no lugar em que ainda havia sombra. Fui tiritando pela rua com o tapete até o jardim de René e lá ouvi: o som abafado de um relógio, indicando um quarto para o meio-dia.
Quando voltei, um bando de idosos mal-ajambrados vinha saindo do bar.
— Vamos cantar — anunciou Madame Poilâne.
— O quê?
— Vamos cantar. Isso vai abafar o som do relógio até hoje à noite. Depois vamos dizer que isso é um costume francês. Canções da Auvergne. Qualquer coisa que conseguirmos lembrar. O que eles sabem?
— Vão cantar o dia inteiro?
— Não, não. A cada hora. Só se houver alemães por perto.
Olhei para ela, incrédula.
— Se eles desenterrarem o relógio do René, Sophie, vão escavar essa cidade inteira. Não vou perder as pérolas da minha mãe para uma Hausfrau alemã.
Sua boca se contraiu numa moue de repugnância.
— Bem, é melhor irem andando. Quando o relógio der meio-dia, metade de St Péronne vai ouvir.
Era quase engraçado. Fiquei no degrau da frente enquanto o grupo de idosos se reunia na entrada do beco, de frente para os alemães, que ainda estavam parados na praça, e começaram a cantar. Cantaram as cantigas de ninar da minha juventude, bem como “La Pastourelle”, “Bailero”, “Lorsque j’étais petit”, tudo em vozes desafinadas e ásperas. Cantaram de cabeça erguida, ombro a ombro, de vez em quando se entreolhando de soslaio. René parecia ora mal-humorado, ora aflito. Madame Poilâne conservava as mãos unidas à frente, piedosa como uma professora de catecismo.
Enquanto eu estava ali, com um pano de prato na mão, tentando não rir, o Kommandant atravessou a rua.
— O que essas pessoas estão fazendo?
— Bom dia, Herr Kommandant.
— Vocês sabem que não deve haver reuniões na rua.
— Não é exatamente uma reunião. É um festival, Herr Kommandant. Uma tradição francesa. A cada hora, em novembro, os idosos de St Péronne cantam canções folclóricas para espantar a chegada do inverno.
Eu disse isso com absoluta convicção. O Kommandant franziu a testa, depois olhou além de onde eu estava, para os idosos. Suas vozes se elevaram em uníssono e calculei que, atrás deles, o relógio começara a soar.
— Mas eles são terríveis — disse ele, baixando a voz. — É o pior coral que já ouvi.
— Por favor... não os interrompa. São canções camponesas inocentes, como pode ouvir. Os velhos sentem prazer ao entoar as canções da terra deles, por um dia só. Certamente o senhor entenderia isso.
— Eles vão cantar assim o dia inteiro?
Ele não estava irritado com a reunião propriamente dita. Era como o meu marido: sentia dor física ao ver uma arte sem beleza.
— É possível.
O Kommandant ficou quieto, com seus sentidos focados no som. De repente fiquei aflita: se seu ouvido para música fosse tão bom quanto seu olho para pintura, ele ainda poderia detectar o som do relógio ao fundo.
— Eu estava me perguntando o que o senhor gostaria de comer hoje à noite — disse eu de forma abrupta.
— O quê?
— Se tem alguma preferência. Quer dizer, nossos ingredientes são limitados, claro, mas há várias coisas que eu poderia fazer.
Eu ouvia Madame Poilâne instando os outros a cantarem mais alto, as mãos apontando disfarçadamente para cima.
O Kommandant pareceu intrigado. Sorri, e, por um instante, seu rosto se relaxou.
— Isso é muito... — interrompeu-se ele.
Thierry Arteuil subia a rua correndo, sua estola vermelha voando enquanto ele apontava para trás.
— Prisioneiros de guerra!
O Kommandant virou-se rapidamente para seus homens, que já se reuniam na praça, e fui esquecida. Esperei que partisse, depois corri para o coro dos idosos.
Hélène e os clientes que estavam no Le Coq Rouge, talvez ouvindo a comoção crescente, olhavam da janela, e alguns saíam de mansinho para a calçada.
Fez-se um breve silêncio. Então, subindo a rua principal, vieram eles, cerca de cem homens, organizados num pequeno comboio. Ao meu lado, os velhos continuavam cantando; suas vozes falharam pela primeira vez, quando se deram conta do que testemunhavam, mas depois continuaram com mais força e determinação.
Não houve homem ou mulher que não tenha olhado com ansiedade um a um os soldados trôpegos, tentando identificar um rosto conhecido. Mas não havia alívio na ausência de reconhecimento. Aqueles eram de fato franceses? Pareciam tão murchos, tão pálidos e derrotados, as roupas penduradas em corpos desnutridos, os ferimentos enfaixados com ataduras velhas e sujas. Eles passaram a poucos metros de nós, cabisbaixos, com alemães na frente e na retaguarda, e estávamos impotentes para fazer qualquer coisa senão olhar.
Ouvi o coro dos idosos se elevando com determinação ao meu redor, de repente mais afinado e mais harmônico:
— Enfrento o vento e a chuva e canto bailero lero...
Senti um nó na garganta ao pensar que, em algum lugar, a quilômetros dali, poderia ser Édouard. Senti a mão de Hélène apertar a minha e vi que ela pensava o mesmo.

Aqui a relva toda é mais verde,
Cante bailero lero...
Virei buscar você...

Examinamos o rosto deles, sem piscar. Madame Louvier apareceu ao nosso lado. Rápida como um camundongo, abriu passagem pelo pequeno grupo e colocou o pão preto que tínhamos acabado de pegar na boulangerie nas mãos de um homem esquelético, o xale de lã voando e enrolando-se em seu rosto. O homem ergueu os olhos sem saber direito o que lhe chegava às mãos. Então, um soldado alemão surgiu diante deles gritando e atirou longe o pão com uma coronhada antes mesmo que o homem registrasse o que havia recebido. O pão caiu na sarjeta como um tijolo. A cantoria parou.
Madame Louvier olhou para o pão, depois levantou a cabeça e gritou, cortando o silêncio:
— Animais! Alemães! Vocês vão matar esses homens de fome como cães! O que há de errado com vocês? Vocês são todos uns filhos da mãe! Filhos da puta! — Eu nunca a ouvira usar um linguajar daquele. Era como se um fio tênue tivesse se arrebentado, deixando-a solta, sem amarras. — Querem bater em alguém? Batam em mim! Andem, bandidos filhos da mãe, batam em mim!
Sua voz cortava o silêncio do dia frio.
Senti a mão de Hélène apertar meu braço. Eu desejava com todas as forças que a velha se calasse, mas ela continuava gritando com o dedo na cara do jovem soldado. Fiquei com medo por ela. O alemão olhou-a com uma expressão de fúria incontida. Os nós dos seus dedos ficaram brancos na coronha do rifle e temi que ele fosse golpeá-la. Ela era muito frágil: seus ossos velhos quebrariam se o soldado fizesse isso.
Mas, enquanto prendíamos a respiração, ele se abaixou, pegou o pão na sarjeta e o atirou de volta para ela.
Ela olhou para ele como se tivesse sido picada.
— Acha que eu comeria este pão sabendo que você tirou ele da mão de um irmão faminto? Acha que ele não é meu irmão? São todos meus irmãos! E meus filhos! Vive la France! — Ela cuspiu as palavras, os olhos brilhando. — Vive la France!
Como se animados a lhe fazer eco, os velhos atrás de mim murmuraram em uníssono, esquecendo por um instante a cantoria.
— Vive la France!
O jovem soldado olhou para trás, talvez aguardando instruções do superior, mas um grito mais adiante lhe desviou a atenção. Um prisioneiro aproveitara a comoção para fugir. O rapaz, com o braço numa tipoia improvisada, escapulira da formação e corria pela praça.
O Kommandant, posicionado com dois de seus oficiais ao lado da estátua quebrada do prefeito Leclerc, foi o primeiro a vê-lo.
— Alto! — gritou. O rapaz correu mais, com os sapatos grandes demais saindo dos pés. — ALTO!
O prisioneiro largou a mochila e, por um instante, pareceu ganhar velocidade. Tropeçou ao perder o segundo sapato, mas de alguma forma se reequilibrou. Estava quase dobrando a esquina. O Kommandant sacou uma pistola da jaqueta. Antes de eu registrar o que ele fazia, ele ergueu o braço, apontou e atirou. O rapaz caiu no chão com um baque surdo.
O mundo parou. Os pássaros se calaram. Ficamos olhando para o corpo imóvel no chão, e Hélène deixou escapar um gemido grave. Ela fez menção de acudi-lo, mas o Kommandant ordenou que ninguém se aproximasse. Gritou algo em alemão, e seus homens levantaram os rifles, apontando-os para os demais prisioneiros.
Ninguém se mexia. Os cativos olhavam para o chão. Não pareciam surpresos com o rumo dos acontecimentos. Hélène tapava a boca com as mãos e tremia, murmurando algo que eu não conseguia ouvir. Passei o braço em volta da sua cintura. Ouvia minha própria respiração entrecortada.
O Kommandant foi com passos enérgicos até o corpo do rapaz. Agachou-se ao seu lado e pressionou sua mandíbula com os dedos. Já havia uma poça de sangue manchando a jaqueta esfarrapada, e vi seus olhos vidrados fitando a praça. Ficou um instante agachado ali, depois se levantou. Dois oficiais alemães foram na sua direção, mas ele fez um gesto para que entrassem em formação.
Voltou pela praça, guardando a pistola na jaqueta. Parou um instante ao passar diante do prefeito.
— Queira tomar as providências cabíveis — disse.
O prefeito assentiu com a cabeça. Vi o leve movimento de sua mandíbula.
Com um grito, a coluna avançou rua acima, os prisioneiros com as cabeças abaixadas, as mulheres de St Péronne agora chorando abertamente nos lenços.
O corpo jazia como um entulho a poucos passos da rue des Bastides.
Menos de um minuto depois de os alemães terem ido embora, o relógio de René Garnier entoava no silêncio lúgubre o toque do quarto de hora decorrido.

* * *

Aquela noite, o ambiente no Le Coq Rouge foi solene. O Kommandant não tentou puxar conversa, nem dei a mais leve impressão de que desejava isso. Eu e Hélène servimos o jantar, lavamos as panelas e ficamos na cozinha o máximo que pudemos. Eu estava sem apetite. Não conseguia deixar de pensar na imagem daquele pobre rapaz, as roupas esfarrapadas voando atrás dele, os sapatos grandes demais lhe caindo dos pés enquanto ele fugia para a morte.
Mais que isso, eu não conseguia acreditar que o oficial que sacara a pistola e o executara tão impiedosamente era o mesmo que se sentara em minha sala de jantar, parecendo nostálgico pelo filho que não conhecia, falando com emoção sobre as obras de arte que possuía. Senti-me tola, como se o Kommandant tivesse escondido o seu verdadeiro eu. Era esse o motivo de os alemães estarem aqui, não para discussões sobre arte e boa comida. Eles estavam aqui para matar nossos filhos e nossos maridos. Estavam aqui para nos destruir.
Naquele momento, a falta que eu sentia do meu marido me doeu no corpo.
Já fazia quase três meses que eu não recebia notícias dele. Eu não sabia o que ele passava. Enquanto existíamos naquela estranha bolha de isolamento, eu podia me convencer de que ele estava bem e forte, que estava lá no mundo real, dividindo uma garrafa de conhaque com os camaradas, ou talvez desenhando num pedaço de papel nas horas vagas. Quando fechava os olhos, eu via o Édouard de que me lembrava de Paris. Mas era difícil me aferrar à minha fantasia tendo visto aqueles franceses miseráveis marchando nas ruas. Édouard poderia estar preso, ferido, passando fome. Poderia estar sofrendo como aqueles homens. Poderia estar morto.
Encostei-me na pia e fechei os olhos.
Nesse instante, ouvi o estrondo. Sacudida para longe dos meus pensamentos, saí correndo da cozinha. Hélène estava de costas para mim, com as mãos levantadas e uma bandeja de copos quebrados aos seus pés. O Kommandant segurava um rapaz pelo pescoço contra a parede. Gritava alguma coisa para ele em alemão, com o rosto contorcido quase colado no dele. A vítima tinha as mãos para cima num gesto de submissão.
— Hélène?
Ela estava lívida.
— Ele segurou em mim quando passei. Mas... mas Herr Kommandant ficou louco.
Os outros homens agora os cercavam, suplicando ao Kommandant, tentando afastá-lo do rapaz; as cadeiras estavam reviradas, e eles gritavam uns com os outros, na tentativa de se fazerem ouvir. O restaurante ficou em polvorosa. Por fim, o Kommandant pareceu ouvi-los e soltou o rapaz. Achei que os olhos dele cruzaram com os meus, rapidamente, mas ele então deu um passo atrás, com o punho cerrado, e desferiu um forte murro na cabeça do rapaz, que bateu com o rosto na parede.
— Sie können nicht berühren die Frauen — gritou ele.
— A cozinha.
Empurrei minha irmã para a porta, sem parar sequer para apanhar os cacos de vidro. Ouvi vozes exaltadas, uma porta bater, e fui depressa atrás dela pelo corredor.

* * *

— Madame Lefèvre.
Eu estava lavando o último copo. Hélène fora se deitar. Os acontecimentos do dia deixaram-na mais esgotada do que a mim.
— Madame?
— Herr Kommandant.
Virei-me para ele, enxugando as mãos no pano. Tínhamos ficado reduzidos a uma única vela na cozinha, um pavio sustentado num pouco de sebo dentro de uma lata de sardinha. Eu mal conseguia ver o rosto dele.
Ele estava parado na minha frente com o quepe nas mãos.
— Sinto muito pelos copos. Vou mandar substituí-los.
— Por favor, não se incomode. Os que temos são suficientes para nos virarmos.
Eu sabia que quaisquer copos seriam simplesmente confiscados dos meus vizinhos.
— Sinto muito pelo... jovem oficial. Por favor, assegure à sua irmã que isso não se repetirá.
Eu não duvidava. Pela janela dos fundos, eu vira o homem ser ajudado por um de seus amigos a voltar para o alojamento, com um pano molhado pressionado na cabeça.
Pensei que o Kommandant fosse se retirar, mas ele não saiu do lugar. Senti-o olhando para mim. Tinha os olhos inquietos, quase angustiados.
— A comida hoje estava... excelente. Como era o nome do prato?
— Chou farci.
Ele aguardou, e, quando a pausa ficou inconfortavelmente longa, acrescentei:
— É carne de linguiça, alguns legumes e ervas, enrolados em folhas de repolho e cozidos em caldo de carne.
Ele olhava para os pés. Deu alguns passos pela cozinha, depois parou, tocando num vidro de utensílios. Eu me perguntei, distraidamente, se ele já iria pegá-los.
— Estava muito bom. Todos acharam. A senhora me perguntou hoje o que eu gostaria de comer. Bem... gostaríamos que não demorasse muito para tornarmos a ter esse prato, se não der muito trabalho.
— Como quiser.
Havia algo diferente nele essa noite, uma agitação sutil que emanava em ondas. Eu me perguntava qual era a sensação de se ter matado um homem, se para um Kommandant alemão era mais inusitado do que tomar uma segunda xícara de café.
Ele me olhou como se fosse dizer algo, mas eu me voltei de novo para as minhas panelas. Eu ouvia as cadeiras sendo arrastadas para trás pelos oficiais, que se preparavam para sair. Caía uma garoa fina, que batia nas janelas quase na horizontal.
— Deve estar cansada — disse ele. — Vou deixá-la em paz.
Peguei uma bandeja de copos e acompanhei-o em direção à porta. Ao chegar lá, ele se virou e pôs o quepe, o que me obrigou a parar.
— Ando querendo perguntar: como vai o bebê?
— Jean? Ele vai bem, obrigada, se bem que um pouco...
— Não, o outro bebê.
Quase deixei cair a bandeja. Hesitei um instante, recompondo-me, mas senti o sangue me subindo à cabeça. Eu desconfiava de que ele tinha visto.
Quando tornei a falar, tinha a voz embargada. Olhava os copos à minha frente.
— Acho que estamos todos... tão bem quanto possível, dadas as circunstâncias.
Ele pensou sobre isso.
— Proteja-o bem — disse baixinho. — É melhor ele não sair com muita frequência no sereno da noite.
Ele me olhou mais um instante, depois deu meia-volta e se retirou.

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