29 de novembro de 2017

Capítulo 5 - Terra e céu

Emma conduziu Julian pelo prédio, através de corredores familiares a ambos mesmo no escuro. Foram em silêncio. As tranças dela balançavam enquanto andava. Julian se concentrou nelas por um instante, pensando nas milhares de vezes em que tinha caminhado ao lado de Emma saindo do Instituto, carregando suas armas, rindo, conversando e fazendo planos para quem quer que fossem encarar. A forma como seu coração sempre ficava mais leve quando saíam do Instituto, prontos para entrar no carro, dirigir veloz pela rodovia, com vento no cabelo, gosto de sal na pele.
A lembrança era como um peso contra o peito agora ao saírem pela área plana e arenosa atrás do Instituto. Jace e Clary esperavam por eles. Ambos vestiam os casacos do uniforme e carregavam sacos de pano. Estavam conversando, concentrados, as cabeças inclinadas juntas. Suas sombras, projetadas com precisão pela luz de fim de tarde pareciam se fundir em uma.
Emma limpou a garganta, e os dois se afastaram.
— Sentimos muito por ter que sair assim — falou Clary, um pouco inquieta. — Achamos que seria melhor evitar perguntas dos Centuriões sobre nossa missão. — Ela olhou em volta. — Onde está Kit?
— Acho que está com Livvy e Ty — respondeu Emma. — Pedi para Drusilla chamá-lo.
— Estou aqui. — Kit, uma sombra loura com as mãos nos bolsos, abriu a porta dos fundos do Instituto com o ombro.
Passos leves, Julian pensou. Uma característica natural dos Caçadores de Sombras. Seu pai foi um ladrão e um mentiroso. Esses também tinham passos leves.
— Temos algo para você, Christopher — disse Jace, estranhamente sombrio. — Pelo menos, Clary tem.
— Tome. — Clary deu um passo à frente e deixou cair um objeto brilhante e prateado nas mãos abertas de Kit. — Esse é um anel da família Herondale. Pertenceu a James Herondale antes de ser de Jace. James foi próximo de muitos Blackthorn quando era vivo.
O rosto de Kit era ilegível. Ele fechou os dedos em volta do anel e fez que sim com a cabeça. Clary colocou a mão na bochecha dele. Foi uma espécie de gesto maternal, e por um instante Julian teve a impressão de ter enxergado vulnerabilidade passar pela expressão de Kit. Se o menino tinha mãe, Julian percebeu, nenhum deles sabia nada sobre ela.
— Obrigado — disse Kit. Ele colocou o anel no dedo, parecendo surpreso quando coube. Anéis de família de Caçadores de Sombras sempre cabem; era parte da magia deles.
— Se está pensando em vender — disse Jace —, eu não faria isso.
— Por que não? — Kit levantou o rosto; olhos azuis olharam para o dourado. Tinham olhos de cor diferente, mas o formato era o mesmo: a forma das pálpebras, as maçãs do rosto afiadas e os ângulos atentos de suas faces.
— Eu simplesmente não o faria — disse Jace, com muita ênfase; Kit deu de ombros, fez que sim com a cabeça, entrou de volta no Instituto e desapareceu.
— Você estava tentando assustá-lo? — quis saber Emma, assim que a porta se fechou atrás dele.
Jace apenas sorriu de lado para ela.
— Agradeça ao Mark pela ajuda — falou, abraçando Emma e afagando-a no cabelo.
Os momentos seguintes foram uma confusão de abraços e despedidas; Clary prometeu que mandaria uma mensagem de fogo quando pudesse e Jace se certificou de que eles tivessem o telefone de Alec e Magnus, caso se encrencassem. Ninguém mencionou que tecnicamente, tinham a Clave, caso tivessem algum problema. Mas Clary e Jace tinham aprendido a ter cautela com a Clave quando eram mais novos, e, ao que parecia, crescer não diminuíra suas desconfianças.
— Lembre-se do que falei no telhado — Clary disse a Emma com a voz baixa, e as mãos nos ombros da menina. — Do que me prometeu.
Emma fez que sim com a cabeça, parecendo incomumente séria. Clary virou-se de costas para ela, levantando a estela, se preparando para abrir um Portal para o Reino das Fadas. Quando as formas começaram a fluir sob suas mãos, a porta começou a brilhar contra o ar seco, a porta do Instituto se abriu novamente. Desta vez foi Dru; seu rosto redondo estava ansioso. Ela enrolava uma das tranças no dedo.
— Emma, é melhor você vir — falou. — Aconteceu uma coisa com Cristina.


Ele não ia jogar aquele jogo idiota de espiões, pensou Kit. Independente do quanto os gêmeos pareciam estar se divertindo, escondidos em um canto da galeria do segundo andar, e olhando para a entrada principal, protegidos dos olhos alheios pela grade.
Essencialmente o jogo envolvia tentar entender o que as pessoas estavam falando umas para as outras através da linguagem corporal, ou pela forma como gesticulavam. Livvy era infinitamente criativa, capaz de imaginar cenários dramáticos entre pessoas que provavelmente só estavam conversando sobre o tempo – ela já tinha decidido que a menina bonita do sul da Ásia com estrelas no casaco estava apaixonada por Julian, e que dois dos outros Centuriões eram espiões secretos da Clave. Ty se pronunciava menos, mas Kit desconfiava que as coisas que ele falava tinham mais chance de estarem certas. Ele era bom em observar pequenas coisas, como qual símbolo de família estava nas costas de um casaco, e o que aquilo significava sobre o local de origem deles.
— O que você acha do Diego Perfeito? — Livvy perguntou a Kit, quando ele voltou da despedida de Clary e Jace.
Estava com os joelhos levantados, os braços abraçando as pernas longas. Seu rabo de cavalo ondulado caía sobre os ombros.
— É um idiota metido — disse Kit. — O cabelo dele é bom demais. Não confio em pessoas com cabelo tão bom assim.
— Acho que aquela garota de coque está brava com ele — disse Ty, se inclinando mais para perto da grade. Seu rosto delicado era todo cheio de pontas e ângulos.
Kit seguiu o seu olhar para baixo e viu Diego conversando seriamente com uma menina de pele clara, cujas mãos gesticulavam muito enquanto falava.
— O anel. — Livvy pegou a mão de Kit, virando-a. O anel Herondale brilhava em seu dedo. Ele já tinha notado o desenho delicado de pássaros no anel. — Jace te deu isso?
Ele balançou a cabeça.
— Clary. Ela disse que pertencia a James Herondale.
— James... — Livvy parecia estar se esforçando para lembrar de alguma coisa.
Ela chiou e soltou a mão dele quando uma sombra se ergueu diante dela. Era Emma.
— Muito bem, pequenos espiões — falou. — Onde está Cristina? Já procurei no quarto dela. — Livvy apontou para cima. Kit franziu o rosto; ele não achava que houvesse nada além do sótão acima do terceiro andar. — Ah — disse Emma. — Obrigada. — Ela balançou as mãos nas laterais do corpo. — Quando eu puser as mãos em Diego...
Ouviu-se uma exclamação alta lá de baixo. Todos os quatro esticaram as cabeças para a frente para verem a garota pálida dar um tapa forte na cara de Diego.
— O quê...? — Emma pareceu espantada, depois furiosa outra vez. Ela girou e foi para a escada.
Ty sorriu, parecendo um querubim pintado numa parede de igreja, com os cachos e com os olhos claros.
Kit riu.


O céu acima do Instituto brilhava colorido: rosa vibrante, vermelho-sangue, dourado profundo. O sol estava se pondo, e o deserto estava banhado em brilho. O próprio Instituto brilhava, e a água também, lá longe onde esperava o sol cair. Cristina estava exatamente onde Emma supôs que estaria: sentada como sempre, com as pernas cruzadas, e o casaco do uniforme esticado sobre as telhas embaixo dela.
— Ele não veio atrás de mim — falou, quando Emma se aproximou.
Seus cabelos negros se moviam e levantavam com a brisa, as pérolas em suas orelhas cintilavam. O pingente no pescoço também, as palavras nele destacadas pelo sol: Abençoado seja o Anjo, minha força, que guia minhas mãos na guerra e meus dedos na luta.
Emma sentou no telhado ao lado da amiga, o mais próximo que conseguia chegar. Ela esticou o braço e pegou a mão de Cristina, apertando-a com força.
— Está falando de Diego?
Cristina fez que sim com a cabeça. Não havia marcas de lágrimas em seu rosto; ela parecia surpreendentemente serena, levando tudo em conta.
— Aquela garota chegou e disse que era noiva dele — disse Cristina. — E eu achei que devia ser alguma espécie de engano. Mesmo quando virei e saí da sala, achei que fosse um engano e que ele viria atrás de mim explicar. Mas ele não veio, o que significa que ele ficou por ela. Porque ela realmente é sua noiva e é mais importante para ele do que eu.
— Não sei como ele poderia fazer isso — disse Emma. — É bizarro. Ele te ama tanto... ele veio para cá por sua causa.
Cristina soltou um ruído abafado.
— Você nem gosta dele!
— Eu gosto dele... bem, gostava dele... às vezes — disse Emma. — A coisa de ser perfeito era um pouco irritante. Mas o jeito como olhava para você. Não tem como fingir isso.
— Ele tem uma noiva, Emma. Não é nem só uma namorada. Uma noiva. Quem sabe há quanto tempo ele está noivo? Noivo. Para se casar.
— Eu invado o casamento — sugeriu Emma. — Pulo do bolo, mas não de um jeito sexy. Tipo, com granadas.
Cristina riu, depois virou o rosto.
— Estou me sentindo muito burra — falou. — Ele mentiu para mim e eu perdoei, e depois ele mentiu de novo... que espécie de idiota sou eu? Por que achei que ele fosse confiável?
— Porque você queria — falou Emma. — Você o conhece há muito tempo, Tina, e isso faz diferença. Quando alguém faz parte da sua vida há tanto tempo, cortá-lo é como cortar as raízes de uma planta.
Cristina ficou em silêncio por um longo instante.
— Eu sei — disse ela. — Sei que você entende.
Emma sentiu a ardência ácida da amargura no fundo da garganta e engoliu em seco. Ela precisava apoiar Cristina agora, e não pensar nas próprias preocupações.
— Quando era pequena — falou —, eu e Jules costumávamos vir aqui juntos no pôr do sol praticamente toda noite para esperar o clarão verde.
— O quê?
— O clarão verde. Quando o sol se põe, exatamente quando desaparece, você vê um clarão de luz verde. — As duas olharam para a água. O sol estava desaparecendo abaixo do horizonte, o céu manchado de vermelho e preto. — Se você fizer um desejo, ele se realiza.
— Realiza? — perguntou Cristina suavemente, com os olhos no horizonte junto com os de Emma.
— Não sei — disse Emma. — Já fiz muitos desejos.
O sol desceu mais alguns milímetros. Emma tentou pensar no que poderia desejar. Mesmo quando era mais nova, ela de algum jeito entendia que havia coisas que não podia desejar: paz no mundo, a volta dos pais mortos. O universo não podia virar do avesso por sua causa. Desejos só traziam pequenas bênçãos: sono sem pesadelo, a segurança do seu melhor amigo por um dia, um dia de sol no seu aniversário.
— Você se lembra — disse Emma — antes de reencontrar Diego, você disse que deveríamos ir juntas para o México? Passar um ano de viagem lá?
Cristina fez que sim com a cabeça.
— Levaria um tempo até eu poder ir — disse Emma. — Eu só faço dezoito no inverno. Mas quando fizer...
Deixar Los Angeles. Passar um ano com Cristina, aprendendo, treinando, e viajando.
Sem Jules. Emma engoliu em seco a dor que o pensamento causava. Era uma dor com a qual teria que aprender a viver.
— Eu gostaria — falou Cristina. O sol era só uma borda dourada agora. — Vou desejar isso. E talvez desejar esquecer Diego também.
— Mas aí você precisa esquecer as coisas boas assim como as ruins. Eu sei que tiveram coisas boas. — Emma entrelaçou os dedos nos de Cristina. — Ele não é a pessoa certa para você. Ele não é forte o suficiente. Ele vive te decepcionando. Sei que ele te ama, mas isso não basta.
— Aparentemente não sou a única que ele ama.
— Talvez ele tenha começado a namorá-la para tentar te esquecer — falou Emma. — E depois vocês voltaram, mesmo sem ele esperar, e ele não sabia como contar para ela.
— Que idiota — disse Cristina. — Quero dizer, se isso fosse verdade, o que não é.
Emma riu.
— Tudo bem, eu sei, também não acredito. — Ela se inclinou para a frente. — Então, deixa eu dar uma surra nele por você. Você vai se sentir muito melhor.
— Emma, não. Não encoste uma mão nele. É sério.
— Posso bater nele com os pés — sugeriu Emma. — Eles são registrados como armas letais. — Ela os balançou.
— Você tem que prometer que não vai encostar nele. — Cristina a encarou com tanta severidade que Emma levantou a mão, submissa.
— Tudo bem, tudo bem, eu prometo — falou. — Não encostarei no Diego Perfeito.
— E também não pode gritar com Zara — disse Cristina. — Não é culpa dela. Tenho certeza de que ela não faz ideia de que eu existo.
— Então tenho pena dela — disse Emma. — Porque você é uma das melhores pessoas que eu conheço.
Cristina começou a sorrir. O sol quase tinha baixado completamente agora.
Um ano com Cristina, Emma pensou. Um ano longe de tudo, de todos que lembravam Jules. Um ano para esquecer. Se ela aguentasse.
Cristina engasgou de leve.
— Veja, ali está!
O céu brilhou em verde. Emma fechou os olhos e desejou.


Quando Emma voltou para o quarto se surpreendeu ao ver que Mark e Julian já estavam lá, cada qual de um lado da cama, os braços cruzados sobre o peito.
— Como ela está? — perguntou Mark assim que a porta se fechou. — Cristina, quero dizer.
Seu olhar estava ansioso. O de Julian era mais insensível; ele parecia neutro e autocrático, o que Emma sabia que significava que ele estava irritado.
— Ela está chateada?
— Claro que está chateada — retrucou Emma. — Acho que não tanto por ele ter voltado a namorá-la por algumas semanas, mas porque se conhecem há muito tempo. Eles têm vidas completamente entrelaçadas.
— Onde ela está agora? — perguntou Mark.
— Ajudando Diana e os outros a arrumarem os quartos para os Centuriões — disse Emma. — Ninguém imaginaria que carregar lençóis e toalhas alegraria alguém, mas ela jura que vai.
— No Reino das Fadas, eu desafiaria Rosales para um duelo por isso — disse Mark. — Ele quebrou sua promessa, e uma promessa de amor, ainda por cima. Ele lutaria comigo, se Cristina concordasse que eu fosse seu representante.
— Bem, sem sorte nesse quesito — falou Emma. — Cristina me fez prometer que eu não encostaria a mão nele, e aposto que o mesmo vale para vocês dois.
— Então está dizendo que não há nada que possamos fazer? — Mark fez uma careta, uma careta igual à de Julian.
Há alguma coisa neles dois, Emma pensou, por mais luz e sombra que fossem; nesse momento pareciam mais irmãos do que em muito tempo.
— Podemos ir ajudar a preparar os quartos para Cristina poder dormir — falou Emma. — Diego está trancado em um dos escritórios com Zara, então não é como se ela fosse se encontrar com ele, mas seria bom para ela descansar.
— Vamos nos vingar de Diego dobrando as toalhas dele? — falou Julian.
— Tecnicamente não são toalhas dele — observou Emma. — São toalhas dos amigos dele.
Ela foi para a porta, e os dois meninos a seguiram relutantemente. Era evidente que eles preferiam um combate mortal na grama a arrumarem as camas para os Centuriões. A própria Emma não estava animada para isso. Julian era muito melhor em fazer camas e lavar roupa do que ela.
— Eu posso cuidar de Tavvy — sugeriu ela. Mark estava à frente dela no corredor, e ela se viu caminhando ao lado de Julian.
— Ele está dormindo — respondeu Jules. Ele não falou como encontrou tempo de colocar Tavvy para dormir com tanta coisa acontecendo. Julian era assim. Ele achava tempo. — Sabe o que acho estranho?
— O quê? — perguntou Emma.
— Diego devia saber que a máscara ia cair — disse Julian. — Mesmo que não estivesse esperando que Zara viesse com os outros Centuriões hoje, todos eles sabem sobre ela. Um deles teria mencionado a noiva ou o noivado.
— Bem pensado. Diego pode ser desonesto, mas não é idiota.
— Tem formas de machucá-lo sem tocar nele — falou Julian. Falou baixo, de modo que só Emma pudesse escutá-lo; e havia algo sombrio em sua voz, algo que a fez tremer.
Ela se virou para responder, mas viu Diana vindo pelo corredor em direção a eles, e sua expressão era a de alguém que pegou pessoas matando aula. Ela os despachou para diferentes partes do Instituto: Julian para o sótão para verificar como Arthur estava, Mark para a cozinha e Emma para a biblioteca para ajudar na arrumação com os gêmeos.
Kit tinha desaparecido.
— Ele não fugiu — informou Ty solicitamente. — Ele só não queria arrumar camas.
Já era tarde quando terminaram de limpar tudo, escolheram que quarto ficaria com cada Centurião, e providenciaram entrega de comida para o dia seguinte. Também organizaram uma patrulha para vigiar o Instituto em turnos durante a noite, caso demônios marinhos rebeldes resolvessem aparecer.
Percorrendo o corredor para o seu quarto, Emma notou que uma luz estava acesa no quarto de Julian. Aliás, a porta não estava totalmente fechada; música vazava para o corredor. Sem vontade consciente, ela se viu na frente do quarto dele, a mão levantada para bater na porta. Inclusive, ela tinha batido. E abaixou a mão, meio em choque, mas ele já tinha aberto. Ela piscou para ele. Ele estava com uma calça velha de pijama e uma toalha no ombro, com um pincel na mão. Havia tinta no peito nu dele, e um pouco no cabelo. Apesar de ele não estar encostando nela, ela tinha consciência do corpo de Julian, do seu calor. As Marcas pretas em espiral descendo pelo tronco, como vinhas entrelaçadas em um pilar. Ela mesma tinha feito algumas, na época em que tocá-lo não fazia com que suas mãos tremessem.
— Você quer alguma coisa? — perguntou. — Está tarde, e Mark provavelmente está esperando você.
— Mark? — Ela quase tinha se esquecido de Mark por um instante.
— Eu o vi entrar no seu quarto. — Tinta pingava do pincel, salpicando o chão. Ela conseguia enxergar além dele dentro do quarto: não entrava ali há uma eternidade. Havia plástico cobrindo parte do chão, e ela podia ver pontos claros na parede onde ele evidentemente estava retocando o mural que ocupava metade do quarto. Ela se lembrava de quando ele tinha pintado, depois que voltaram de Idris. Depois da Guerra Maligna.
Eles estavam deitados, acordados na cama, como frequentemente faziam quando crianças. Emma estava falando sobre ter encontrado um livro de contos de fadas na biblioteca, do tipo que os mundanos liam há centenas de anos: eram cheios de sangue, assassinato e tristeza. Ela falou sobre o castelo da Bela Adormecida, cercado por espinhos, e sobre como a história dizia que centenas de príncipes tentaram romper a barreira, mas todos foram espetados até a morte pelos espinhos, seus corpos largados para se decomporem até virarem osso no sol. No dia seguinte, Julian pintou o quarto: o castelo e o muro de espinhos, o brilho de osso e o príncipe triste, com a espada quebrada ao seu lado. Emma tinha ficado impressionada, apesar de eles terem tido que dormir no quarto dela por uma semana até a tinta secar. Ela nunca perguntou por que a imagem e a história o marcaram. Sempre soube que se ele quisesse contar para ela, ele contaria.
Emma limpou a garganta.
— Você disse que eu poderia machucar Diego sem encostar nele. O que quis dizer?
Ele passou a mão livre pelo cabelo. Estava desgrenhado – e tão lindo que doía.
— Provavelmente é melhor eu não contar.
— Ele magoou Cristina — falou Emma. — E acho que ele nem liga.
Ele esticou o braço para esfregar a nuca. Os músculos no peito e na barriga se moveram quando ele se esticou, e ela sempre tinha consciência da textura da pele dele, e desejava desesperadamente poder de algum jeito voltar no tempo para ser novamente a pessoa que não se destroçava ao ver Julian – com quem ela tinha crescido, a quem já tinha visto seminu milhões de vezes – sem camisa.
— Eu vi o rosto dele quando Cristina correu da entrada — disse ele. — Acho que não precisa se preocupar com a hipótese de ele não estar sofrendo. — E colocou a mão na maçaneta. — Ninguém consegue ler a mente alheia ou conhecer seus motivos — falou. — Nem mesmo você, Emma.
Ele fechou a porta na cara dela.


Mark estava deitado no chão ao pé da cama de Emma.
Estava descalço; parcialmente enrolado em uma coberta. Parecia adormecido, seus olhos como luas crescentes escuras contra a pele clara, mas ele abriu parte do azul quando ela entrou.
— Ela realmente está bem?
— Cristina? Está. — Emma se sentou no chão ao lado dele, se apoiando no pé da cama. — É péssimo, mas ela vai ficar bem.
— Seria difícil, eu acho — falou ele com sua voz engrossada pelo sono —, merecê-la.
— Você gosta dela — falou Emma. — Não gosta?
Ele rolou para o lado e olhou para ela com aquele olhar de fada que a fazia se sentir como se estivesse sozinha em um campo, observando o vento soprar a grama.
— Claro que gosto.
Emma maldisse a intensidade da língua das fadas – gostar não significava nada para eles: viviam em um mundo de amor ou ódio, desprezo ou adoração.
— Seu coração sente alguma coisa por ela — falou.
Mark se sentou.
— Ela não sentiria, eu acho... isso por mim.
— Por que não? — disse Emma. — Ela certamente não tem problemas com fadas, você sabe disso. Ela gosta de você...
— Ela é gentil, bondosa, tem um coração generoso. Sensata, profunda, gentil...
— Você já disse “gentil”.
Mark a olhou fixamente.
— Ela não é nada como eu.
— Você não tem que ser como alguém para amar a pessoa — disse Emma. — Veja eu e você. Somos bem parecidos, e não temos esses sentimentos um pelo outro.
— Só porque você está envolvida com outra pessoa — falou Mark com naturalidade, mas Emma o olhou surpresa.
Ele sabe sobre Jules, pensou ela, por um instante de pânico, antes de se lembrar de sua mentira sobre Cameron.
— Uma pena, não é — respondeu ela suavemente, tentando impedir que o coração batesse acelerado. — Você e eu, juntos, teria sido... tão fácil.
— Paixão não é fácil. Nem a falta dela. — Mark se apoiou nela. Seu ombro era quente contra o dela. Ela se lembrou do beijo, pensou em seus dedos passando pelos cabelos macios dele. Seu corpo contra o dela, ativo e forte. Mas mesmo ao tentar se apegar a essa imagem, ela escorregava por entre os dedos como areia seca. Como a areia da praia na vez em que ficou com Julian, a única noite que tiveram juntos. — Você parece triste — disse Mark. — Sinto muito por ter tocado no assunto amor. — Ele a tocou na bochecha. — Em outra vida, talvez. Você e eu.
Emma deixou a cabeça cair para trás contra o pé da cama.
— Em outra vida.

12 comentários:

  1. Dói ver Julles e Emma assim...
    🙁🙁

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  2. Nossa fico imaginando a pintura de Julian e na dor e no amor que ele senti por Emma
    Ass:Leticia Oliver

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  3. Emma e Mark não combinam mesmo, mas também nao acho Jules e Emma um casal shippavel.

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  4. Doeu na almaaa quando o Jules fechou a porta na cara dela Jesus

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  5. Tô começando a gostar mais de mark do que jules...😒☺

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  6. Gente, isso tá pior que minha vida amorosa, e eu achava que nada era pior que minha vida amorosa :v

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  7. Eu não sei o que faço da vida depois desses capítulos. E Emma com Mark..clary achando que vai morrer. Ta difícil

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  8. sofrer por amor geralmente deixa a pessoa amarga e om vontade de fazer o outro sofrer nem que seja um pouco esse deve ser o caso jules. sinto pena deles

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  9. sofrer por amor geralmente deixa a pessoa amarga e om vontade de fazer o outro sofrer nem que seja um pouco esse deve ser o caso jules. sinto pena deles

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  10. Emma e Jules é perfeito.
    Mas, Emma e Mark também.
    E Mark e Cristina também.
    Sei lá é complicado...
    Eu amo todos esses três shipps.
    Fazer o quê, gosto de sofrer, eu acho?!

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  11. tadinho do Julian a Emma tem que ficar com ele
    Ass:J CARSTAIRS

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  12. Eu tô vendo as pessoas meio que shippando ela com Mark ou com Julian... mas não acho que isso seja mesmo um caso. Não é como era com Will e Jem. E não é como era com Jace e Simon. Ela não gosta de Mark e Mark não gosta dela. Não há exatamente pelo quê torcer. Assim, eu particularmente não queria Mark com Cristina também, mas com Emma não vejo chances.

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Boa leitura :)