20 de novembro de 2017

Capítulo 4

Longe dali, no braço oposto da Galáxia, a uma distância de 500 mil anos-luz da estrela Sol, Zaphod Beeblebrox, presidente do Governo Imperial Galáctico, navegava pelos mares de Damogran. Seu barco delta com drive iônico brilhava à luz do sol de Damogran.
Damogran, o quente; Damogran, o remoto; Damogran, o quase completamente desconhecido para todos.
Damogran, morada secreta da nave Coração de Ouro.
O barco deslizava rapidamente sobre a água. Ainda levaria algum tempo para chegar a seu destino, porque a geografia de Damogran não é nada prática. Consiste apenas em algumas ilhas desertas de tamanho médio a grande, separadas por oceanos de rara beleza, mas de uma vastidão chatíssima.
O barco seguia em frente.
Devido a sua incômoda geografia, Damogran sempre foi um planeta deserto. Foi por isso que o Governo Imperial Galáctico escolheu Damogran para o projeto Coração de Ouro, porque o planeta era muito deserto e o projeto Coração de Ouro era muito secreto.
O barco deslizava rápido pela superfície do mar, o mar que separava as principais ilhas do único arquipélago de tamanho aproveitável em todo o planeta. Zaphod Beeblebrox vinha do pequeno cosmoporto da ilha da Páscoa (o nome era uma coincidência sem nenhum significado, em galactês, páscoa quer dizer pequeno, plano e castanho-claro) para a ilha do projeto Coração de Ouro, cujo nome era França, em mais uma coincidência sem nenhum significado.
Um dos efeitos colaterais do projeto Coração de Ouro era uma série de coincidências sem significado.
Mas não era por coincidência que aquele dia, o dia da coroação do projeto, o grande dia do lançamento, o dia em que a nave Coração de Ouro seria finalmente revelada a uma Galáxia maravilhada, era também um dia muito especial para Zaphod Beeblebrox. Foi pensando nesse dia que ele havia decidido concorrer à Presidência, uma decisão que causou grande surpresa em toda a Galáxia Imperial
—Zaphod Beeblebrox? Presidente? Não aquele Zaphod Beeblebrox? Ele, presidente?* Muitos encararam o fato como prova de que todo o universo havia afinal pirado completamente.
Zaphod sorriu e aumentou a velocidade do barco.
— Zaphod Beeblebrox, aventureiro, ex-hippie, bon vivant, (trambiqueiro?, possivelmente) maníaco por autopromoção, péssimo em relacionamentos pessoais, frequentemente considerado um doido varrido.


Presidente: o nome oficial do cargo é presidente do Governo Imperial Galáctico. O termo Imperial é mantido embora seja atualmente um anacronismo. O imperador hereditário está quase morto) há muitos séculos. Nos últimos instantes de seu coma, ele foi colocado num campo de estase, que o mantém num estado de imutabilidade perpétua. Todos os seus herdeiros já morreram há muito tempo, o que significa que, sem ter havido nenhuma grande convulsão política, o centro do poder foi deslocado de forma simples e eficaz para escalões inferiores, sendo agora aparentemente atribuição de um órgão cujos membros antes atuavam como simples conselheiros do imperador — uma assembleia governamental eleita, chefiada por um presidente eleito por ela. Na verdade, não é aí que está o poder, em absoluto.
O presidente, em particular, é simplesmente uma figura pública: não detém nenhum poder. Ele é aparentemente escolhido pelo governo, mas as qualidades que ele deve exibir nada têm a ver com liderança. Ele deve é possuir um sutil talento para provocar indignação. Por esse motivo, o presidente é sempre uma figura polêmica, sempre uma personalidade irritante, porém fascinante ao mesmo tempo. Não cabe a ele exercer o poder, e sim desviar a atenção do poder. Com base nesses critérios, Zaphod Beeblebrox é um dos melhores presidentes que a Galáxia já teve  pois já passou dois dos dez anos de seu mandato na cadeia, condenado por fraude. Pouquíssimas pessoas sabem que o presidente e o governo praticamente não têm nenhum poder, e, dessas pouquíssimas pessoas, apenas seis sabem onde é, de fato, exercido o verdadeiro poder político. A maioria das outras está convencida de que, em última instância, o poder é exercido por um computador. Elas não poderiam estar mais erradas.


— Presidente?
 Mas o universo não havia enlouquecido, pelo menos não em relação a isso. Apenas seis pessoas em toda a Galáxia conheciam o princípio no qual sebaseava o governo galáctico, e sabiam que, uma vez proclamada a intenção de Zaphod Beeblebrox de concorrer à Presidência, a coisa estava mais ou menos resolvida: ele tinha tudo para ser presidente.
O que elas realmente não entendiam era por que Zaphod resolvera se candidatar.
Zaphod deu uma guinada súbita com o barco, levantando um lençol d'água.
O dia havia chegado; o dia em que todos entenderiam quais haviam sido as intenções de Zaphod. Aquele dia era a razão de ser da presidência de Zaphod Beeblebrox. Era também o dia em que ele completava 200 anos de idade, mas isto era apenas mais uma coincidência sem qualquer significado.
Enquanto seu barco atravessava os mares de Damogran, ele sorria de leve, pensando no dia maravilhoso e divertido que tinha pela frente. Relaxou os músculos e descansou os dois braços preguiçosamente no encosto, e ficou dirigindo o barco com um braço adicional que ele instalara recentemente embaixo de seu braço direito, para melhorar seu desempenho no esquiboxe.
— Sabe — cantarolou ele para si próprio —, você é realmente um cara incrível.
Mas seus nervos cantavam uma canção mais estridente do que um apito para chamar cachorro.
A ilha da França tinha cerca de 30 quilômetros de comprimento por nove de largura; era arenosa e em forma de crescente. Na verdade, dava a impressão de ser menos uma ilha propriamente dita do que uma simples maneira de definir o formato e a curvatura de uma grande baía. A impressão era ressaltada pelo fato de que a costa interior do crescente consistia apenas em penhascos íngremes. Do alto do penhasco, o terreno seguia um declive gradual até a costa oposta, nove quilômetros adiante.
No alto dos penhascos havia um comitê de recepção.
Era constituído basicamente de engenheiros e pesquisadores que haviam construído a nave Coração de Ouro — humanoides em sua maioria, mas havia um ou outro atomeiro reptiloide, dois ou três maximegalacticianos verdes silfoides, um ou dois fissucturalistas octópodes e um Huluvu (o Huluvu é uma tonalidade de azul superinteligente). Todos, com exceção do Huluvu, trajavam jalecos de laboratório de gala, multicoloridos e resplandecentes; o Huluvu fora temporariamente refratado num prisma capaz de ficar em pé, especialmente para a ocasião.
Havia um clima de enorme empolgação entre eles. Trabalhando em equipe, haviam atingido e ultrapassado os limites últimos das leis físicas, reestruturado a configuração fundamental da matéria, forçado, torcido e partido as leis das possibilidades e impossibilidades, mas apesar disso o que mais os entusiasmava era a oportunidade de conhecer um homem com uma faixa alaranjada«m volta do pescoço (o distintivo tradicional do presidente da Galáxia). Talvez até não fizesse muita diferença se eles soubessem exatamente quanto poder exercia o presidente da Galáxia: absolutamente nenhum. Apenas seis pessoas na Galáxia sabiam que a função do presidente não era exercer poder, e sim desviar a atenção do poder.
Zaphod Beeblebrox era surpreendentemente bom no seu trabalho.
A multidão exultava, deslumbrada pelo sol e pela perícia do presidente, que fazia o barco contornar o promontório e entrar na baía. O barco brilhava ao sol, ao deslizar pela superfície em curvas abertas.
Na verdade, o barco não precisava encostar na água, já que ele se apoiava numa camada de átomos ionizados, mas para fazer efeito ele vinha equipado com umas quilhas finas que podiam ser baixadas para dentro d'água. Elas levantavam lençóis d'água no ar e rasgavam sulcos profundos no mar, que espumava na esteira do barco.
Zaphod adorava fazer efeitos: era sua especialidade.
Virou a roda do leme subitamente. A embarcação descreveu uma curva fechada bem rente ao penhasco e parou, balançando ao sabor das ondas suaves.
Segundos depois, Zaphod já estava no tombadilho, acenando e sorrindo para mais de três bilhões de pessoas. Os três bilhões de pessoas não estavam fisicamente presentes, porém assistiam a tudo através dos olhos de uma pequena câmera-robô tridimensional, que pairava no ar ali perto, subserviente. As proezas do presidente faziam muito sucesso junto ao público: era para isso que elas serviam, mesmo.
Zaphod sorriu outra vez. Três bilhões e seis pessoas não sabiam, mas a proeza daquele dia seria mais incrível do que qualquer coisa que elas esperassem.
A câmera-robô aproximou-se para fazer um close da cabeça mais popular (ele tinha duas) do presidente, e ele acenou outra vez. Sua aparência era mais ou menos humanoide, afora a segunda cabeça e o terceiro braço. Seus cabelos claros e despenteados apontavam para todas as direções, seus olhos azuis brilhavam com um sentido absolutamente incompreensível e seus queixos estavam quase sempre com a barba por fazer.
Um globo transparente de sete metros de altura flutuava ao lado de seu barco, balançando as ondas, brilhando ao sol. Dentro dele flutuava um amplo sofá semicircular, estofado com um esplêndido couro vermelho. Quanto mais o globo balançava, mais o sofá permanecia completamente imóvel, como se fosse um rochedo transformado em sofá. Mais uma vez, o objetivo principal daquilo era fazer efeito.
Zaphod atravessou a parede do globo e refestelou-se no sofá. Pôs dois braços sobre o encosto do sofá, e com o terceiro espanou um pouco de poeira que tinha no joelho. Suas cabeças olharam ao redor, sorridentes; pôs os pés sobre o sofá. “Se não conseguisse se conter, ia começar a gritar”, pensou ele.
Debaixo da bolha a água fervia, subia, esguichava. A bolha elevava-se no ar, balançando-se na coluna de água. Subia mais e mais, refletindo raios de sol em direção ao penhasco. Subia impulsionada pela água que esguichava debaixo dela e caía de volta na superfície do mar, dezenas e dezenas de metros abaixo. Zaphod sorriu, imaginando o efeito visual.
Um meio de transporte absolutamente ridículo, porém belíssimo.
No alto do penhasco o globo parou por um instante, pousou numa rampa gradeada, rolou até uma pequena plataforma côncava e lá parou, por fim.
Aplaudido entusiasticamente, Zaphod Beeblebrox saiu da bolha. Sua faixa alaranjada brilhava ao sol. O presidente da Galáxia havia chegado. Esperou que os aplausos morressem e levantou a mão, saudando a multidão.
— Oi — disse.
Uma aranha do governo chegou-se até ele e tentou lhe entregar uma cópia de seu discurso previamente preparado. As páginas 3 a 7 da versão original estavam naquele momento flutuando no mar de Damogran, a uns dez quilômetros da baía. As páginas 1 e 2 haviam sido encontradas por uma águia-de-crista-frondosa de Damogran e já haviam sido incorporadas a um novo e extraordinário tipo de ninho que a águia inventara. Era construído basicamente de papier mâché, e era praticamente impossível para um filhote de águia recém saído do ovo escapar de dentro dele. A águia-de-crista-frondosa de Damogran ouvira vagamente falar de luta pela sobrevivência da espécie, mas não queria nem saber dessa história.
Zaphod Beeblebrox não ia precisar de seu discurso preparado e delicadamente recusou a cópia oferecida pela aranha.
— Oi — repetiu.
Todo mundo sorriu para ele, ou pelo menos quase todo mundo. Viu Trillian no meio da multidão. Era uma garota que Zaphod conhecera recentemente ao visitar um planeta, incógnito, como turista. Era esguia, morena, humanoide, com longos cabelos negros e ondulados, uma boca carnuda, um narizinho estranho e saliente e olhos ridiculamente castanhos. Seu lenço de cabelo vermelho, amarrado de modo diferente, e seu vestido longo e leve de seda marrom lhe davam uma aparência vagamente árabe. Não que ninguém ali jamais tivesse ouvido falar nos árabes, claro. Os árabes haviam deixado de existir muito recentemente, e mesmo no tempo em que eles existiam estavam a 500 mil anos-luz de Damogran. Trillian não era ninguém em particular, ou pelo menos era isso que Zaphod dizia. Ela simplesmente andava muito com ele e lhe dizia o que pensava a seu respeito.
— Oi, meu bem — disse para ela.
Ela lhe dirigiu um sorriso rápido e tenso e desviou o olhar. Então olhou novamente para ele por um momento e sorriu de forma mais calorosa, mas agora ele já estava olhando para outro lado.
— Oi — disse para um pequeno grupo de criaturas da imprensa, que estava a pouca distância dali, ansioso para que parasse de dizer “oi” e começasse logo a dizer coisas que eles pudessem publicar.
Zaphod sorriu, pensando que dentro de alguns instantes ia dar a eles coisas muito interessantes, mas muito interessantes, mesmo, para publicar.
Porém o que ele disse em seguida não interessou muito às criaturas da imprensa. Um dos funcionários do partido concluíra, irritado, que o presidente obviamente não estava a fim de ler o discurso fascinante que havia sido preparado para ele, e acionara um interruptor no controle remoto que tinha no bolso. Ao longe, uma enorme cúpula branca que se destacava contra o céu rachou ao meio, abriu-se e foi lentamente e dobrando-se sobre o chão. Todos ficaram boquiabertos, embora soubessem perfeitamente que aquilo ia acontecer, já que eles próprios haviam construído a cúpula.
Embaixo dela havia uma imensa espaçonave, de 150 metros de comprimento, esguia como um tênis de corrida, perfeitamente branca e estonteantemente bonita. Bem no centro dela, invisível para quem olhava de fora, havia uma pequena caixa de ouro que continha o aparelho mais alucinante jamais concebido em toda a Galáxia, o qual deu o nome à nave — o Coração de Ouro.
-— Uau! — disse Zaphod Beeblebrox ao ver a nave Coração de Ouro.
Também, não tinha outra coisa a dizer.
E repetiu, porque sabia que isso ia irritar a imprensa:
— Uau!
Toda a multidão virou-se para ele, cheia de expectativa. Zaphod piscou o olho para Trillian, que alçou as sobrancelhas e arregalou os olhos para ele. Ela sabia o que ele ia dizer agora, e achava-o muito exibido.
— É realmente incrível — disse Zaphod. — É realmente incrivelmente incrível. É tão incrivelmente incrível que acho que estou com vontade de roubá-la.
Uma maravilhosa frase presidencial, absolutamente apropriada. A multidão riu, satisfeita, os jornalistas apertaram os botões de suas repormáticas subeta e o presidente sorriu.
Enquanto sorria, seu coração batia desesperadamente e seus dedos tateavam a pequena bomba paralisomática que trazia no bolso.
De repente, não aguentou mais. Virou ambos os rostos para o céu, soltou
um tremendo grito, formando um acorde de terceira maior, jogou a bomba no chão e saiu correndo por entre aqueles rostos sorridentes imobilizados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)