15 de novembro de 2017

Capítulo 4

Paris, 1912

— Mademoiselle!
Olhei por cima da vitrine das luvas e fechei o vidro; o barulho foi engolido pelo enorme átrio que constituía a área central de compras do La Femme Marché.
— Mademoiselle! Aqui! Pode me atender?
Eu o teria notado mesmo se ele não estivesse gritando. Ele era alto e corpulento, com um cabelo ondulado que lhe caía em volta das orelhas, destoando do corte rente da maioria dos cavalheiros que entravam em nossa loja.
Suas feições eram fortes e amigáveis, do tipo que meu pai teria classificado de paysan. O homem parecia, pensei, um cruzamento entre um imperador romano e um urso russo.
Enquanto eu me encaminhava em sua direção, ele apontou para os lenços.
Mas não tirou os olhos de mim ao fazer isso. Na verdade, eles me fitaram tão demoradamente que olhei para trás, com medo de que Madame Bourdain, que era minha supervisora, pudesse ter notado o que se passou entre nós.
— Preciso que você me ajude a escolher uma echarpe — disse ele.
— Que tipo de echarpe, Monsieur?
— Uma echarpe de mulher.
— Qual seria o tom de pele dela? Ela tem preferência por algum tecido em particular?
Ele continuou me olhando. Madame Bourdain estava ocupada atendendo uma mulher com um chapéu de plumas de pavão. Se tivesse olhado de onde estava, na seção de cremes faciais, ela veria que eu tinha corado até as orelhas.
— O que ficar bem em você — disse ele, e acrescentou: — Ela tem o seu tom de pele.
Selecionei cuidadosamente as echarpes de seda, minha pele ficando cada vez mais quente e peguei uma das minhas favoritas: uma faixa de tecido fino e leve como uma pluma de um azul intenso e opalescente.
— Esta cor fica bem em quase todo mundo — eu disse.
— Sim... sim. Segure a echarpe no alto — pediu ele. — Encostada em você. Aqui. — Apontou para sua clavícula.
Olhei para Madame Bourdain. Havia orientações estritas quanto ao nível de intimidade de tais trocas, e eu não sabia se segurar uma echarpe encostada no meu pescoço nu estava entre elas. Mas o homem estava esperando. Hesitei, depois trouxe-a até o rosto. Ele me observou por tanto tempo que todo o andar térreo pareceu desaparecer.
— É essa. Linda. Pronto! — exclamou ele, pegando a carteira no bolso. — Você facilitou a minha compra.
Ele riu, e eu me peguei rindo para ele também. Talvez fosse simplesmente o alívio por ele ter parado de me olhar.
— Não sei se eu... — Eu estava embrulhando a echarpe em papel de seda, então abaixei a cabeça enquanto minha supervisora se aproximava.
— Sua assistente fez um trabalho excelente, Madame — disse ele com um vozeirão. Olhei de soslaio, observando-a enquanto ela tentava conciliar a aparência um tanto desalinhada do homem com o domínio da linguagem que normalmente vinha com uma extrema riqueza. — A senhora devia promovê-la. Ela tem bom olho!
— Tentamos garantir que nossas assistentes sempre ofereçam atendimento profissional, Monsieur — disse ela docemente. — Mas esperamos que a qualidade dos nossos artigos faça com que todas as compras sejam satisfatórias. São dois francos e quarenta.
Entreguei-lhe o embrulho, depois o observei atravessar com muita calma o andar apinhado da maior loja de departamentos de Paris. Ele cheirava os perfumes nos frascos, examinava os chapéus coloridos, falava com quem estava atendendo ou mesmo simplesmente passando. Como seria ser casada com um homem daqueles, pensei distraidamente, alguém para quem cada momento parecia conter um prazer sensorial? Mas — lembrei a mim mesma — um homem que também se sente com liberdade para ficar encarando uma vendedora de loja até ela corar. Quando chegou às imponentes portas de vidro, ele se virou e olhou diretamente para mim. Levantou o chapéu por três segundos, depois desapareceu na manhã de Paris.

* * *

Eu fora para Paris no verão de 1910, um ano antes da morte de minha mãe e um mês depois do casamento de minha irmã com Jean-Michel Montpellier, um escriturário do vilarejo vizinho. Eu arranjara um emprego no La Femme Marché, a maior loja de departamentos de Paris, e conseguira subir de assistente de loja a assistente de andar, morando na grande pensão da própria loja.
Estava satisfeita em Paris, após ter superado a solidão inicial, e ganhava bastante para usar outros sapatos que não os tamancos que me identificavam como provinciana. Eu adorava o trabalho; chegava às oito e quarenta e cinco, quando as portas se abriam e as parisienses elegantes entravam, com aqueles chapéus altos, aquelas cinturas dolorosamente finas, os rostos emoldurados por peles ou penas. Eu adorava estar livre da sombra que o temperamento do meu pai lançara sobre a minha infância inteira. Os bêbados e os tarados do 9º arrondissement não me assustavam. E eu adorava a loja: uma profusão de coisas bonitas. Seus aromas e cenários eram inebriantes, seu estoque, sempre em constante transformação, com novidades e belos objetos dos quatro cantos do mundo: sapatos italianos, tweeds ingleses, caxemiras escocesas, sedas chinesas, modas dos Estados Unidos e de Londres. No subsolo, a nova seção de comida oferecia chocolates da Suíça, untuosos peixes defumados, queijos fortes e cremosos. Passar um dia no movimentado La Femme Marché significava adquirir uma noção do que havia em um mundo mais amplo e mais exótico.
Eu não desejava me casar (não queria terminar como minha mãe), e a ideia de ficar onde eu estava, como Madame Arteuil, a costureira, ou minha supervisora, Madame Bourdain, me convinha perfeitamente.
Dois dias depois, ouvi a voz dele de novo:
— Vendedora! Mademoiselle!
Eu estava atendendo uma jovem na compra de um par de finas luvas de pelica. Fiz um sinal de cabeça para ele e continuei caprichando no embrulho da jovem.
Mas ele não esperou.
— Preciso urgentemente de outra echarpe — anunciou. A mulher pegou o embrulho da minha mão com um muxoxo. Se ele ouviu, não demonstrou. — Pensei em algo vermelho. Alguma coisa vibrante, acesa. O que você tem?
Fiquei meio aborrecida. Madame Bourdain incutira em mim a ideia de que essa loja era um pedacinho do paraíso: o cliente sempre devia sair com a sensação de ter encontrado uma trégua para a agitação das ruas (mesmo que deixando com elegância o seu dinheiro). Eu temia que a minha cliente pudesse reclamar. Ela saíra rapidamente, com o queixo empinado.
— Não não não, essas não — disse ele, quando comecei a repassar o meu mostruário. — Aquelas. — Apontou, na vitrine, as mais caras. — Aquela.
Peguei a echarpe. Com um tom rubi de sangue vivo, a echarpe brilhava nas minhas pálidas mãos, como uma ferida.
Ele sorriu ao vê-la.
— O seu pescoço, Mademoiselle. Levante um pouco a cabeça. Isso. Assim.
Fiquei inibida ao segurar a echarpe dessa vez. Sabia que minha supervisora me observava.
— Você tem uma tez bonita — murmurou ele, pondo as mãos nos bolsos para pegar o dinheiro enquanto, depois de retirar depressa a echarpe, comecei a embrulhá-la em papel de seda.
— Tenho certeza de que a sua esposa ficará encantada com os presentes — falei.
Minha pele ardia onde seu olhar pousara.
Ele me olhou então, franzindo os olhos.
— De onde é a sua família? Você com essa pele... Do Norte? Lille? Bélgica?
Fingi que não tinha ouvido. Não estávamos autorizadas a falar de assuntos pessoais com clientes, especialmente os do sexo masculino.
— Sabe qual é a minha comida preferida? Moules marinière com creme da Normandia. Umas cebolas. Um pouquinho de pastis. Humm. — Ele encostou os dedos na boca e segurou o embrulho que lhe entreguei. — À bientôt, Mademoiselle!
Mas dessa vez não me atrevi a acompanhar com o olhar seu deslocamento pela loja. Pelo calor na minha nuca, porém, eu sabia que ele parara de novo para me olhar. Fiquei furiosa. Em St Péronne, tal comportamento seria impensável. Em Paris, os homens se sentiam tão à vontade para olhar que às vezes eu tinha a sensação de estar andando na rua só com as roupas de baixo.

* * *

Duas semanas antes do Dia da Bastilha, houve uma grande agitação na loja. A cantora Mistinguett entrara no andar térreo. Rodeada por um séquito de acólitos e assistentes, ela se destacava com seu sorriso deslumbrante e seu chapéu coberto de rosas, como se tivesse sido desenhada de forma mais brilhante que qualquer outra pessoa. Comprava sem examinar os produtos e apontava alegremente para as vitrines, de onde os assistentes recolhiam os artigos depois que ela passava.
Olhávamos de longe como se ela fosse um pássaro exótico, e nós apenas pombos parisienses cinzentos. Vendi-lhe duas estolas: uma de seda creme e outra de plumas macias, tingidas de azul. Podia ver a estola ao redor de seu pescoço, e me senti aspergida com um pouco do glamour dela.
Passei alguns dias me sentindo meio instável depois disso, como se sua beleza excessiva, seu estilo me tivessem conscientizado da ausência desses atributos em mim.
O Homem Urso, enquanto isso, veio mais três vezes à loja. A cada vez, comprava uma echarpe, sempre fazendo questão de que fosse eu a atendê-lo.
— Você tem um admirador — comentou Paulette (Perfumes).
— Monsieur Lefèvre? Cuidado — disse com desdém Loulou (Bolsas e Carteiras). — O Marcel, do correio, viu-o em Pigalle, conversando com umas garotas de rua. Afe. Falando no diabo.
Ela tornou a se virar para o seu balcão.
— Mademoiselle.
Estremeci e me virei.
— Desculpe-me. — Ele se apoiou no balcão, com as mãos grandes tomando a largura do vidro. — Não tive intenção de assustá-la.
— Longe de mim estar assustada, Monsieur.
Seus olhos castanhos exploravam meu rosto com tanta intensidade que ele parecia travar um diálogo interno, do qual eu não podia me inteirar.
— Gostaria de ver mais algumas echarpes?
— Hoje não. Queria... pedir-lhe algo.
Levei a mão à gola.
— Eu gostaria de pintá-la.
— O quê?
— Meu nome é Édouard Lefèvre. Sou artista. Eu gostaria muito de pintá-la, se puder me ceder uma ou duas horas.
Pensei que ele estivesse brincando comigo. Olhei para onde Loulou e Paulette estavam atendendo, perguntando-me se elas ouviam.
— Por que... por que o senhor haveria de querer me pintar?
Foi a primeira vez que o vi parecer pelo menos ligeiramente desconcertado.
— Quer mesmo que eu responda?
Eu falara, percebi, como se estivesse esperando elogios.
— Mademoiselle, não estou lhe fazendo nenhuma proposta indecorosa. Você pode levar uma acompanhante se quiser. Eu simplesmente quero... O seu rosto me fascina. Fica na minha cabeça até bem depois de eu sair do La Femme Marché. Quero colocá-lo no papel.
Contive o desejo de pôr a mão no queixo. Meu rosto? Fascinante?
— A sua esposa vai estar presente?
— Eu não tenho esposa. — Pegou um pedaço de papel no bolso e rabiscou algo. — Mas tenho um monte de echarpes.
Estendeu o papel para mim, e me peguei olhando de soslaio, como uma criminosa, antes de pegá-lo.

* * *

Não contei a ninguém. Eu nem sabia direito o que poderia ter dito. Botei e tirei o meu melhor vestido duas vezes. Levei um tempo extraordinário me penteando. Passei vinte minutos sentada junto à porta do meu quarto e desfiei todas as razões pelas quais eu não devia ir.
A proprietária ergueu uma sobrancelha quando afinal saí. Eu tirara os sapatos bons e calçara os tamancos para diminuir as suspeitas dela. Enquanto caminhava, eu argumentava comigo mesma.
Se as supervisoras souberem que você posou para um artista, vão pôr em dúvida a sua moral. Você poderia perder o emprego!
Ele quer me pintar! A mim, Sophie de St Péronne. O oposto da beleza de Hélène.
Talvez haja alguma coisa de ordinário na minha aparência que o tenha convencido de que eu não recusaria. Ele anda com garotas em Pigalle...
Mas o que eu faço na vida além de trabalhar e dormir? Seria assim tão ruim me permitir essa experiência?
O endereço que ele me dera ficava a duas ruas do Panthéon. Segui pela rua estreita, parei à porta, conferi o número e bati. Ninguém respondeu. Do alto, chegava uma música. A porta estava entreaberta, então entrei. Subi devagar a escada estreita até chegar a uma porta. Através dela, eu ouvia um gramofone, uma mulher cantando uma canção de amor e desespero, um homem a acompanhando, com um baixo intenso e rouco inconfundível. Fiquei parada um instante, ouvindo, sorrindo distraidamente. Empurrei a porta.
Uma ampla sala estava inundada de luz. Uma parede era de tijolos aparentes, outra, quase toda de vidro, com janelas que iam de uma ponta a outra. A primeira coisa que chamou minha atenção foi a bagunça impressionante. Havia pilhas de telas encostadas em todas as paredes; vidros de pincéis sujos espalhados por todas as superfícies, disputando espaço com caixas de carvão e cavaletes, com gotas endurecidas de cores vivas. Havia peças de tecidos de tela, alguns lápis, uma escada, pratos com restos de comida. E em todo o ambiente, o cheiro penetrante da terebintina misturada com tinta a óleo, um ranço de fumo e eflúvios avinagrados de vinho velho. Havia garrafas verdes em todos os cantos, algumas com uma vela enfiada no gargalo, outras visivelmente com o resíduo de comemoração. Havia um monte de dinheiro em cima de uma cadeira: uma porção de moedas e notas amontoadas. E ali, no centro de tudo aquilo, andando devagar para a frente e para trás com um vidro de pincéis, concentrado, estava Monsieur Lefèvre, vestido com uma bata e calças de camponês, como se estivesse a mais de cem quilômetros do centro de Paris.
— Monsieur?
Ele piscou duas vezes para mim, como se tentando recordar quem eu era, depois pôs o vidro de pincéis na mesa ao seu lado.
— É você!
— Bem. Sim.
— Maravilhoso! — Ele balançou a cabeça como se ainda estivesse custando a registrar minha presença. — Maravilhoso. Entre, entre. Vou encontrar um lugar para você se sentar.
Ele parecia maior, seu corpo claramente visível através do tecido da bata.
Fiquei segurando minha bolsa sem jeito enquanto ele começava a retirar pilhas de jornais de uma chaise longue velha até haver espaço.
— Por favor, sente-se. Gostaria de beber alguma coisa?
— Só água, obrigada.
Eu não me sentira desconfortável no caminho para lá, apesar da precariedade da minha posição. Não me incomodara com a sordidez da área, com o ateliê estranho. Mas agora eu me sentia insegura, e meio tola, e isso me deixou tensa e constrangida.
— O senhor não estava me esperando, Monsieur.
— Desculpe-me. Eu apenas não acreditei que você viesse. Mas estou muito feliz por ter vindo. Muito feliz.
Ele recuou e olhou para mim.
Eu sentia seus olhos percorrendo o meu rosto, meu pescoço, meu cabelo.
Sentei-me diante dele dura como um colarinho engomado. Ele exalava um cheiro ligeiramente vulgar. Não era desagradável, mas quase forte demais nas circunstâncias.
— Tem certeza de que não quer uma taça de vinho? Alguma coisa para relaxar um pouco?
— Não, obrigada. Eu só queria começar. Eu... só tenho uma hora de folga.
De onde viera aquela afirmação? Acho que metade de mim queria ir embora.
Ele tentou me posicionar, fazer com que eu largasse a bolsa e encostasse um pouco no braço da chaise longue. Mas eu não conseguia. Sentia-me humilhada sem conseguir dizer por quê. E enquanto Monsieur Lefèvre trabalhava, olhando do cavalete para mim e vice-versa, raramente falando, percebi que não me sentia admirada nem importante, como secretamente achara que poderia me sentir; a sensação na verdade era como se ele estivesse olhando através de mim. Eu me tornara, ao que parecia, um objeto, um tema, sem significado maior que a garrafa verde ou as maçãs na tela de natureza-morta ao lado da porta.
Era evidente que ele também não estava gostando daquilo. À medida que a hora passava, ele parecia cada vez mais consternado, emitindo pequenos ruídos de frustração. Eu estava imóvel como uma estátua, temendo estar fazendo algo errado, mas afinal ele disse:
— Mademoiselle, vamos terminar. Não sei se os deuses do carvão estão comigo hoje.
Endireitei-me com algum alívio, alongando o pescoço.
— Posso ver?
A garota no quadro era eu, certamente, mas fiz uma careta. Ela parecia sem vida, como uma boneca de porcelana. Tinha uma expressão firme e dura, e o recato empertigado de uma solteirona. Tentei não demonstrar quão decepcionada eu estava.
— Não. Não é você, Mademoiselle. — Ele encolheu os ombros. — Estou... estou frustrado comigo mesmo.
— Eu poderia voltar no domingo, se o senhor quisesse.
Não sei por que eu disse aquilo. Não era como se eu tivesse gostado da experiência.
Ele sorriu para mim então. Tinha olhos bondosos.
— Seria... muita generosidade. Tenho certeza de que vou conseguir fazer-lhe justiça em outra ocasião.
Mas domingo não foi melhor. Tentei, tentei mesmo. Fiquei recostada com o braço atravessado na chaise longue, o corpo torcido como a Afrodite reclinada que ele me mostrou num livro, a saia caída em pregas sobre as pernas. Tentei relaxar e fazer uma expressão mais suave, mas naquela posição meu corpete apertava na cintura e uma mecha de cabelo ficava se soltando e a tentação de esticar a mão para prendê-la era quase avassaladora. Foram algumas horas longas e difíceis. Antes mesmo de ver o quadro, percebi pela cara de Monsieur Lefèvre que ele estava, de novo, desapontado.
Esta sou eu?, pensei, olhando para a garota de cara triste que era menos Vênus que uma dona de casa passando o dedo nos móveis para ver se havia poeira.
Dessa vez, acho que ele até sentiu pena de mim. Desconfio que eu era a modelo mais feia que ele já tivera.
— Não é você, Mademoiselle — insistia ele. — Às vezes... a gente demora um pouco a captar a verdadeira essência de uma pessoa.
Mas era isso que me perturbava mais. Eu tinha medo de que ele já tivesse captado.

* * *

Era o Dia da Bastilha quando tornei a vê-lo. Eu caminhava pelas ruas apinhadas do Quartier Latin, passando embaixo das enormes bandeiras listradas de azul, branco e vermelho e das perfumadas coroas de flores penduradas nas janelas, andando em zigue-zague pela multidão, que esperava para ver os soldados passarem marchando, com os rifles carregados nos ombros.
Paris celebrava. Em geral fico confortável sozinha, mas naquele dia eu estava inquieta, sentindo-me estranhamente só. Quando cheguei ao Panthéon, parei: diante de mim, a rue Soufflot virara uma massa rodopiante de corpos, sua extensão normalmente cinzenta agora repleta de gente dançando, as mulheres com saias compridas e chapéus de abas largas, a banda em frente ao Café Léon.
As pessoas se movimentavam em graciosos círculos, ficavam paradas na beira da calçada observando e conversando, como se a rua fosse um salão de baile. Então lá estava ele, sentado no meio daquela gente toda, com uma echarpe colorida enrolada no pescoço. Mistinguett, com seus acompanhantes em volta dela, tinha a mão pousada possessivamente em seu ombro enquanto dizia algo que o fez dar uma estrondosa gargalhada.
Fiquei olhando espantada para eles. Então, talvez compelido pela intensidade do meu olhar, ele me viu. Escapuli rapidamente por uma passagem e tomei a direção oposta, o rosto em chamas. Corri entre os casais que dançavam, meus tamancos estrepitando no cascalho. Mas em segundos a voz dele retumbou atrás de mim.
— Mademoiselle!
Eu não podia fingir que não o ouvira. Virei-me. Por um momento, parecia que ele ia me abraçar, mas algo em minha atitude deve tê-lo detido. Em vez de me abraçar, tocou de leve no meu braço e me encaminhou na direção da aglomeração.
— Que maravilha esbarrar com você — disse ele. Comecei a dar desculpas, tropeçando nas palavras, mas ele levantou a mão. — Vamos, Mademoiselle; é feriado. Mesmo os mais atarefados precisam se divertir de vez em quando.
À nossa volta, as bandeiras tremulavam à brisa do fim da tarde. Dava para ouvir o panejar, como o palpitar errático do meu coração. Tentei pensar em um jeito educado de escapulir, mas ele voltou a insistir.
— Vejo, Mademoiselle, que vergonhosamente, apesar de nos conhecermos, eu não sei o seu nome.
— Bessette — respondi. — Sophie Bessette.
— Então, por favor, deixe-me oferecer-lhe uma bebida, Mademoiselle Bessette.
Neguei com um gesto de cabeça. Eu me sentia mal, como se no simples ato de ir até ali tivesse revelado muito sobre mim. Olhei para o ponto às costas dele, onde Mistinguett continuava parada em meio ao seu grupo de amigos.
— Vamos? — Ele estendeu o braço.
E naquele momento, a grande Mistinguett olhou diretamente para mim.
Houve, para ser honesta, algo na expressão dela, um lampejo de irritação quando ele estendeu o braço. Esse homem, esse Édouard Lefèvre, tinha o poder de fazer uma das maiores estrelas de Paris sentir-se apagada e invisível. E ele me preferira a ela.
Olhei para ele.
— Só uma água, então; obrigada.
Acompanhei-o de volta à mesa.
— Misty, minha querida, esta é Sophie Bessette.
O sorriso permanecia, mas o olhar de alto a baixo que me lançou era frio. Eu me perguntei se ela se lembrava de eu tê-la atendido na loja de departamentos.
— Tamancos — disse um dos cavalheiros atrás dela. — Que coisa mais... pitoresca.
O murmúrio das risadas me deixou com a pele formigando. Respirei fundo.
— O empório vai estar cheio deles para a coleção de primavera — respondi com calma. — São a última moda. É la mode paysanne.
Senti as pontas dos dedos de Édouard tocarem nas minhas costas.
— Com os tornozelos mais delicados de Paris, acho que Mademoiselle Bessette pode usar o que quiser.
Fez-se um breve silêncio entre o grupo, como se assimilassem o significado das palavras de Édouard. Os olhos de Mistinguett se desviaram de mim.
— Enchantée — disse ela, com seu sorriso deslumbrante. — Édouard, querido, tenho que ir. Ocupadíssima. Ligue-me assim que puder, está bem?
Ela estendeu a mão enluvada, e ele a beijou. Tive que me esforçar para tirar os olhos dos lábios dele. Então ela se retirou, criando uma ondulação na multidão, como se estivesse separando águas.
Então, nos sentamos. Édouard Lefèvre esparramado em sua cadeira, como se supervisionasse uma praia, enquanto eu continuava tensa e sem jeito. Sem dizer nada, ele me entregou uma bebida, e havia um leve pedido de desculpas em sua expressão, com — seria mesmo? — o vestígio de um sorriso contido. Como se tudo — como se as pessoas ali — fosse tão ridículo que eu não podia me sentir menosprezada.
Em meio àquela gente dançando feliz, cercada de alegria sob um céu azul, comecei a relaxar. Édouard falava comigo com a maior educação, perguntando sobre minha vida antes de Paris, a política dentro da loja, interrompendo de vez em quando para colocar o cigarro no canto da boca e gritar “Bravo!” para a banda, batendo palmas com aquelas mãos grandes. Ele conhecia quase todo mundo. Perdi a conta da quantidade de gente que parava para cumprimentá-lo ou pagar-lhe uma bebida: artistas, lojistas, mulheres aventureiras. Era como estar com a realeza. Salvo pelo fato de que era possível observar as pessoas me olhando rapidamente enquanto se perguntavam o que um homem que poderia ter tido Mistinguett estava fazendo com uma garota como eu.
— As garotas na loja dizem que você fala com les putains de Pigalle.
Não me contive: eu estava curiosa.
— Falo. E muitas delas são ótimas companhias.
— Você as pinta?
— Quando posso pagar pelo tempo delas. — Ele acenou com um gesto de cabeça a um homem que nos cumprimentou tocando a aba do chapéu. — Elas são excelentes modelos. Em geral, totalmente desinibidas em relação ao corpo.
— Diferentemente de mim.
Ele viu que corei. Após uma breve hesitação, colocou a mão sobre a minha, como se pedisse desculpas. Isso me fez corar ainda mais.
— Mademoiselle — disse ele baixinho —, aqueles quadros foram um fracasso meu, não seu. Eu... — Ele mudou de abordagem. — Você tem outras qualidades. Você me fascina. Não se intimida com muita coisa.
— Não — concordei. — Acho que não.
Comemos pão, queijo e azeitonas, e foram as melhores azeitonas que eu já provara. Ele tomou pastis, pousando na mesa com um prazer ruidoso os copos que ia virando. A tarde foi passando. As pessoas riam mais alto, as bebidas chegavam mais depressa. Eu me permiti tomar duas tacinhas de vinho e comecei a me divertir. Ali, na rua, naquele dia quente, eu não era a forasteira provinciana, a vendedora no penúltimo nível mais baixo da escala. Eu era apenas mais uma participante da festa, aproveitando as comemorações da Bastilha.
Então Édouard afastou a mesa e ficou em pé na minha frente.
— Vamos dançar?
Não consegui pensar numa razão para recusar. Peguei a mão que ele me oferecia, e ele me levou girando para o mar de gente. Eu não dançava desde que saíra de St Péronne. Agora sentia a brisa rodopiando em meus ouvidos, o peso da mão dele na minha cintura, os tamancos extraordinariamente leves em meus pés. Ele recendia a fumo, anis e algo másculo que me deixou um pouco com falta de ar.
Não sei o que era. Eu bebera pouco e não podia culpar o vinho. Ele não era especialmente bonito, e eu não achava minha vida incompleta por não ter um homem.
— Pinte-me de novo — falei.
Ele parou e me olhou, intrigado. Eu podia entendê-lo: eu mesma estava confusa.
— Pinte-me de novo. Hoje. Agora.
Ele não disse nada; voltou para a mesa, pegou os cigarros, e fomos para o ateliê dele, abrindo caminho em meio à multidão que enchia as ruas.
Subimos os degraus estreitos de madeira, ele abriu a porta do ateliê claro, e eu esperei ele tirar o paletó, colocar um disco no gramofone e misturar as tintas na paleta. Então, enquanto ele cantarolava para si mesmo, comecei a desabotoar a blusa. Tirei os sapatos e as meias. Despi a saia até ficar vestida só com o chemise e a anágua branca de algodão. Sentei-me ali, quase nua, e soltei o cabelo, que me caiu em volta dos ombros. Quando ele voltou a se virar para mim, ouvi seu suspiro.
Ele piscou.
— Assim? — perguntei.
Ansiedade atravessou seu rosto. Estava, talvez, com medo que seu pincel me traísse de novo. Mantive o olhar firme, a cabeça erguida. Olhei para ele como se fosse um desafio. Então, um impulso artístico assumiu o comando e ele se concentrou completamente na inesperada brancura leitosa da minha pele e no castanho-avermelhado do meu cabelo solto; tudo que se assemelhasse a preocupação com a castidade foi esquecido.
— Sim, sim. Chegue a cabeça um pouco para a esquerda, por favor — orientou. — E a mão. Assim. Fique com ela um pouquinho aberta. Perfeito.
Quando começou a pintar, fiquei observando. Ele examinava cada centímetro do meu corpo com uma intensa concentração, como se fosse insuportável representá-lo errado. Vi a satisfação se estampar em seu rosto, e a senti se espelhar no meu. Eu já não tinha inibições. Eu era Mistinguett, ou uma mulher da vida de Pigalle, atrevida, desinibida. Queria que ele observasse a minha pele, as rugas do meu pescoço, o brilho secreto de debaixo de meu cabelo.
Eu queria que ele visse todas as partes do meu corpo.
Enquanto pintava, eu via suas feições, o jeito que ele falava sozinho enquanto misturava as cores na paleta. Observei-o arrastar os pés, como se fosse mais velho. Era uma afetação — ele era mais jovem e mais forte do que a maioria dos homens que entrava na loja. Recordei como ele comia: avidamente, com um prazer visível. Ele acompanhava a música no gramofone, pintava quando queria, falava com quem desejava e dizia o que pensava. Eu queria viver como Édouard, com alegria, sugando o máximo de cada momento e cantando porque era muito bom.
E então escureceu. Ele parou para limpar os pincéis e olhou em volta, como se só então tivesse notado a noite. Acendeu velas e um lampião a gás, colocando-os ao meu redor, depois suspirou quando viu que a penumbra o vencera.
— Está com frio? — perguntou.
Fiz que não com a cabeça, mas ele foi até uma cômoda e pegou um xale de lã vermelho-vivo, que enrolou cuidadosamente em meus ombros.
— A luz acabou por hoje. Quer ver?
Enrolei-me no xale e fui até o cavalete, pisando descalça no chão de madeira. Parecia que eu estava num sonho, que a vida real tinha evaporado durante as horas que eu passara sentada ali. Eu estava com medo de olhar e quebrar o encanto.
— Venha.
Ele fez sinal para que eu me aproximasse.
Na tela, vi uma garota que não reconheci. Ela me olhava de volta de modo desafiador, com o cabelo cor de cobre reluzindo à meia-luz, a pele clara como alabastro, uma garota com a autoconfiança imperiosa de uma aristocrata.
Ela era estranha, orgulhosa e bela. Era como se tivessem me mostrado um espelho mágico.
— Eu sabia — disse ele, com a voz macia. — Eu sabia que você estava aí dentro.
Seus olhos estavam cansados e tensos agora, mas ele estava satisfeito. Olhei para ela mais demoradamente. Então, sem saber por quê, dei um passo à frente, estiquei o braço devagar, tomei o rosto dele nas mãos, e ele teve que olhar de novo para mim. Eu mantinha seu rosto a centímetros do meu, e fazia com que continuasse me olhando, como se eu pudesse de alguma forma absorver o que ele via.
Eu nunca quisera intimidade com um homem. Os sons e os gritos animalescos que haviam vazado do quarto de meus pais — geralmente quando meu pai estava bêbado — tinham me apavorado, e eu sentia pena de minha mãe por seu rosto machucado e seu andar cauteloso no dia seguinte. Mas o que senti por Édouard foi avassalador. Eu não conseguia tirar os olhos de sua boca.
— Sophie...
Eu mal o ouvi. Aproximei mais seu rosto do meu. O mundo evaporava à nossa volta. Senti nas palmas da mão a aspereza de sua barba, o calor do seu hálito na pele. Seus olhos estudavam os meus, com muita seriedade. Juro que até naquela hora era como se ele tivesse me vendo pela primeira vez.
Inclinei-me, só um pouco, sem respirar, e encostei os lábios nos dele. Suas mãos vieram pousar na minha cintura, e me seguraram instintivamente com mais força. Sua boca encontrou a minha, e inspirei seu hálito recendendo a cigarro e a vinho, seu gosto quente e úmido. Ah, Deus, eu queria que ele me devorasse. Meus olhos se fecharam, meu corpo se atiçava e se movia em espasmos. Suas mãos se embaraçaram em meu cabelo, sua boca desceu para o meu pescoço.
Eu ouvia as explosões de alegria das pessoas na rua, e enquanto as bandeiras tremulavam ao vento da noite, algo em mim era modificado para sempre.
— Ah, Sophie. Eu poderia pintar você todos os dias da minha vida — murmurou dentro de mim.
Pelo menos acho que ele disse “pintar”. Àquela altura, eu não queria mais saber.

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