29 de novembro de 2017

Capítulo 4 - Um clima estranho e selvagem

Cristina estava no topo da colina onde antes ficava a casa de Malcolm Fade e olhou ao redor, para as ruínas.
Malcolm Fade. Ela não o havia conhecido como os Blackthorn. Ele tinha sido amigo deles, ou era o que pensavam, por cinco anos, morando a apenas alguns quilômetros em sua bela casa de vidro e aço nas colinas secas de Malibu. Cristina o visitara uma vez, com Diana, e ficou encantada com a desenvoltura e bom humor do feiticeiro. E se flagrou desejando que o Alto Feiticeiro da Cidade do México fosse como Malcolm, jovem e charmoso, em vez de uma senhora mal-humorada, com orelhas imensas, que vivia no Parque Lincoln. Depois, Malcolm acabou se revelando um assassino, e tudo se desfez. As mentiras foram reveladas, a fé que tinham nele foi destruída, e a segurança de Tavvy esteve em risco até conseguirem pegá-lo de volta e Emma despachá-lo com uma espada nas entranhas.
Cristina ouvia som de carros na rodovia abaixo. Eles tinham subido a lateral da colina para chegar até aqui, e ela estava suada e se coçando. Clary Fairchild estava no topo de entulhos da casa de Malcolm, segurando um objeto estranho que parecia uma mistura de lâmina serafim e uma daquelas máquinas mundanas utilizadas para encontrar metal escondido sob a areia.
Mark, Julian e Emma estavam em diferentes partes da casa em ruínas, revirando metais e vidro. Jace preferira passar o dia com Kit na sala de treinamento do Instituto. Cristina admirou a atitude. Ela tinha sido criada com o ensinamento de que nada é mais importante do que a família, e Kit e Jace eram os únicos Caçadores de Sombras da linhagem Herondale vivos no mundo. Além disso, o menino precisava de amigos – ele era estranho. Novo demais pra ser bonito, mas com grandes olhos azuis que faziam com que você quisesse confiar nele mesmo enquanto ele roubava a sua carteira.
Ele tinha um ar de travessura, um pouco como Jaime, seu melhor amigo de infância, um dia teve – do tipo que facilmente poderia se converter em criminalidade.
— ¿En que piensas? — perguntou Diego, se aproximando dela. Ele estava de calça jeans e coturnos. Cristina não queria se irritar com o fato de que ele insistia em usar seu distintivo de Centurião mesmo na manga de uma camiseta preta totalmente normal. Ele era muito bonito. Muito mais bonito do que Mark, na verdade, se você for totalmente objetiva. Suas feições eram mais regulares, sua mandíbula mais quadrada, o tórax e os ombros mais largos.
Cristina jogou de lado pedaços do reboco de gesso pintado. Ela e Diego ficaram encarregados da parte leste da casa, que ela tinha quase certeza de ser onde ficavam o quarto e o closet de Malcolm. Ela não parava de achar pedaços de roupas.
— Estava pensando em Jaime, para falar a verdade.
— Ah. — Seus olhos escuros eram solidários. — Não tem problema sentir a falta dele. Eu também sinto.
— Então você deveria falar com ele. — Cristina sabia que tinha soado ríspida. Não conseguia evitar. Ela não sabia ao certo por que Diego a estava enlouquecendo, e não era de um jeito bom. Talvez fosse por ela tê-lo culpado por tanto tempo por tê-la traído que era difícil se desfazer da raiva. Talvez fosse porque não culpá-lo significaria mais culpa para Jaime, o que parecia injusto, considerando que Jaime não estava perto para se defender.
— Não sei onde ele está — disse Diego.
— Nem ideia? Não sabe onde ele está no mundo, ou como entrar em contato? — Por alguma razão, Cristina tinha perdido essa parte. Provavelmente porque Diego não tinha mencionado.
— Ele não quer ser incomodado por mim — disse Diego. — Todas as minhas mensagens pelo fogo voltam bloqueadas. Ele não fala nem com nosso pai. — A mãe deles tinha morrido. — Ou com os nossos primos.
— Como sabe que ele sequer está vivo? — perguntou Cristina, e imediatamente se arrependeu.
Os olhos de Diego brilharam.
— Ele continua sendo meu irmão caçula — falou. — Eu saberia se ele estivesse morto.
— Centurião! — foi Clary que falou, gesticulando para o topo da colina.
Diego começou a correr sobre as ruínas em direção a ela sem olhar para trás. Cristina sabia que ela o chateara, encheu-se de culpa e chutou um pedaço pesado de gesso, com um parafuso de vergalhão preso como um palito. O reboco rolou para o lado. Ela piscou ao ver o objeto revelado embaixo dele, depois se abaixou para pegar. Uma luva – uma luva masculina, de couro, macia como seda, mas mil vezes mais dura. No couro estava impressa a imagem de uma coroa dourada cortada ao meio.
— Mark! — chamou ela. — ¡Necesito que veas algo!
Um instante depois Cristina percebeu que tinha ficado tão espantada que chamou em espanhol, mas isso não pareceu ter importância. Mark tinha vindo saltitando pelas pedras até ela. Ele estava logo em cima, o vento levantando seus cachos claros das pontas das orelhas. Ele parecia alarmado.
— O que foi?
Ela entregou a luva a ele.
— Esse não é o emblema de uma das Cortes das Fadas?
Mark virou a luva na mão.
— A coroa quebrada é o símbolo do Rei Unseelie — murmurou. — Ele acredita que é o verdadeiro Rei das duas Cortes, Seelie e Unseelie, e, até governar ambas, a coroa permanecerá cortada ao meio. — Ele inclinou a cabeça para o lado como um pássaro estudando um gato a uma distância segura. — Mas esse tipo de luva... Kieran tinha quando chegou à Caçada. São bem trabalhadas. Poucos além da nobreza as usavam. Aliás, poucos, além dos filhos de Rei, as usariam.
— Você não acha que é de Kieran? — perguntou Cristina.
Mark balançou a cabeça.
— As dele foram... destruídas. Na Caçada. Mas significa que quem quer que tenha visitado Malcolm aqui e deixado essa luva tem alta patente na corte ou então foi o próprio Rei.
Cristina franziu o rosto.
— É muito estranho que esteja aqui.
Seus cabelos tinham escapulido das tranças e sopravam em longos cachos ao redor do seu rosto. Mark esticou o braço para colocar uma mecha atrás da orelha dela e seus dedos a tocaram na bochecha. Os olhos estavam sonhadores, distantes.
Ela estremeceu um pouco com a intimidade do gesto.
— Mark — falou. — Não.
Ele abaixou a mão. Não parecia irritado, como muitos meninos tendiam a ficar quando uma garota pedia que não a tocasse. Ele pareceu confuso e um pouco triste.
— Por causa de Diego?
— E Emma — emendou ela, com a voz bem baixa.
Sua confusão aumentou.
— Mas você sabe que...
— Mark! Cristina! — Era Emma, chamando de onde ela e Julian tinham se juntado a Diego e Clary.
Cristina ficou feliz por não ter que responder a Mark; ela correu pela pilha de pedras e vidro, grata por suas botas de Caçadora de Sombras e seu uniforme a terem protegido contra pontas agudas perdidas.
— Encontraram alguma coisa? — perguntou Cristina ao se aproximar do pequeno grupo.
— Vocês já quiseram ver de muito perto um tentáculo nojento? — perguntou Emma.
— Não — retrucou Cristina, se aproximando com cuidado. Clary, de fato, parecia ter alguma coisa desagradavelmente flácida espetada na ponta de sua estranha arma. A coisa se balançava um pouco, exibindo ventosas cor-de-rosa contra uma pele verde pintada.
— Ninguém nunca parece dizer sim a essa pergunta — falou Emma com tristeza.
— Certa vez Magnus me apresentou a um feiticeiro com tentáculos como esse — falou Clary. — O nome dele era Marvin.
— Imagino que estes não sejam os restos mortais de Marvin — falou Julian.
— Não tenho certeza de que são os restos mortais de quem quer que seja — retrucou Clary. — Para comandar demônios marinhos seria preciso ter o Cálice Mortal ou algo assim: um pedaço de um demônio poderoso que você possa enfeitiçar. Acho que temos evidências definitivas de que a morte de Malcolm está relacionada aos recentes ataques Teuthida.
— E agora? — perguntou Emma, olhando o tentáculo com o rabo do olho. Ela não era muito fã do oceano ou dos monstros que nele habitavam, embora fosse capaz de lutar contra qualquer um ou qualquer coisa em terra firme.
— Agora voltamos para o Instituto — disse Clary —, e decidimos qual será o próximo passo. Quem quer levar o tentáculo?
Ninguém se ofereceu.

* * *

— Você só pode estar brincando — disse Kit. — Não tem a menor possibilidade de eu pular daqui.
— Apenas considere. — Jace se inclinou para baixo de uma viga. — É surpreendentemente fácil.
— Tente — gritou Emma.
Ela tinha ido para a sala de treinamento quando voltaram da casa de Malcolm, curiosa para ver como as coisas estavam indo. Tinha encontrado Ty e Livvy sentados no chão, observando Jace tentar convencer Kit a arremessar algumas facas (o que ele se dispôs a fazer) e depois a aprender a pular e cair (o que não se dispôs).
— Meu pai me alertou que vocês tentariam me matar — falou Kit.
Jace suspirou. Ele estava com o uniforme de treinamento, equilibrado em uma das elaboradas redes de vigas que cortavam o interior do telhado da sala. Variavam entre seis e nove metros do chão. Emma tinha aprendido sozinha a cair daquelas mesmas vigas ao longo dos anos, às vezes, quebrando alguns ossos. Um Caçador de Sombras tinha que saber escalar – demônios eram rápidos e frequentemente tinham muitas pernas, subindo pelas laterais de prédios como aranhas. Mas aprender a cair era tão importante quanto.
— Você consegue — disse Emma agora.
— É? E o que acontece se eu me espatifar todo? — perguntou Kit.
— Você terá um funeral com honras — retrucou Emma. — Colocaremos o seu corpo em um barco e o jogaremos por uma cachoeira como um viking.
Kit a encarou.
— Isso é de um filme.
Ela deu de ombros.
— Talvez.
Jace, perdendo a paciência, se lançou da viga mais alta. Ele saltou graciosamente pelo ar antes de aterrissar agachado sem fazer barulho. Ele se esticou e deu uma piscadela para Kit.
Emma escondeu um sorriso. Ela era totalmente apaixonada por Jace aos doze anos. Mais tarde, isso se transformou em querer ser Jace – o melhor que havia: melhor lutador, melhor sobrevivente, melhor Caçador de Sombras. Ela ainda não tinha chegado lá, mas ainda não tinha parado de tentar.
Kit pareceu impressionado, apesar de tudo, mas depois franziu o rosto outra vez. Ele parecia muito pequeno perto de Jace. Tinha mais ou menos a mesma altura de Ty, apesar de não estar tão em forma. A força potencial de Caçador de Sombras estava lá, contudo, na forma de seus braços e ombros. Emma o vira lutar quando esteve em perigo. Ela sabia do que ele era capaz.
— Você vai conseguir fazer isso — falou Jace, apontando para a viga, e depois para Kit. — Assim que quiser.
Emma reconheceu o olhar de Kit. Eu talvez nunca queira.
— Qual é mesmo o lema Nephilim?
— Somos pó e sombras — disse Ty, sem levantar o olhar do livro que lia.
— Alguns de nós somos pós muito bonitos — acrescentou Jace, quando a porta abriu e Clary botou a cabeça para dentro.
— Venham para a biblioteca — anunciou. — O tentáculo está começando a se dissolver.
— Você me enlouquece quando fala sacanagem para mim — disse Jace, vestindo o casaco do uniforme.
Adultos — disse Kit, com um pouco de nojo, e saiu da sala. Para divertimento de Emma, Ty e Livvy se levantaram instantaneamente e o seguiram. Emma ficou imaginando o que exatamente teria despertado o interesse deles em Kit, será que era só por ele ter a mesma idade? Jace, ela imaginava, creditaria ao famoso carisma Herondale, apesar de que, pelo que ela sabia, os Herondale da geração anterior a ele tinham muito pouco.
A biblioteca estava meio caótica. O tentáculo estava começando a dissolver, formando uma poça grudenta de meleca verde e rosa que fazia Emma pensar em balas de goma derretidas. Conforme Diana havia observado, isso significava que o tempo restante para identificar o demônio diminuía rapidamente. Como Magnus não atendia o telefone e ninguém queria envolver a Clave, o que restava era a boa e velha pesquisa nos livros. Todos receberam uma pilha de tomos grossos sobre criaturas marinhas e se dispersaram para várias partes da biblioteca para examinar pinturas, desenhos, esboços e ocasionalmente fotos.
Em algum momento durante as horas que se passavam, Jace decidiu que precisavam de comida chinesa. Aparentemente frango kung pao e yakissoba com molho de feijão-preto eram um pré-requisito toda vez que a equipe do Instituto de Nova York se reunia para pesquisar. Ele puxou Clary até um escritório vazio para abrirem um Portal – coisa que nenhum Caçador de Sombras além dela conseguia fazer – prometendo a eles a melhor comida chinesa de Manhattan.
— Consegui! — anunciou Cristina, cerca de vinte minutos após a porta se fechar atrás de Jace e Clary.
Ela levantou uma cópia enorme da Carta Marina. O restante deles se agrupou em torno da mesa principal enquanto Diana confirmava que o tentáculo pertencia à espécie marítima de demônio Makara, que, segundo os desenhos entre os mapas da Carta Marina, parecia parte polvo, parte lesma com uma enorme cabeça de abelha.
— O perturbador não é que seja um demônio marinho — disse Diana, franzindo o rosto. — É que restos de demônios Makara só sobrevivem em terra por um ou dois dias.
Jace abriu as portas da biblioteca. Ele e Clary estavam carregados de caixas verdes e brancas que diziam jade wolf.
— Uma ajudinha aqui?
A equipe de pesquisa se separou brevemente para ajeitar a comida nas mesas longas da biblioteca. Tinha yakissoba, o prometido frango kung pao, mapo tofu, zhajiangmian, arroz primavera, e deliciosos bolinhos chineses que pareciam bala quente.
Todos pegaram um prato de plástico, até mesmo Tavvy, que estava organizando soldadinhos de brinquedo atrás de uma estante. Diego e Cristina compartilhavam uma cadeira e Jace e Clary, no chão, dividindo yakissoba. As crianças Blackthorn estavam amontoadas sobre o frango, exceto Mark, que tentava descobrir como usar os palitinhos. Emma supôs que aquilo não existia no Reino das Fadas. Julian estava sentado à mesa em frente a Livvy e Ty, franzindo o rosto para o tentáculo quase dissolvido. Surpreendentemente, aquilo não parecia afetar seu apetite.
— Vocês são amigos do grande Magnus Bane, não são? — perguntou Diego a Clary e Jace, após alguns minutos de todo mundo mastigando.
— O grande Magnus Bane? — Jace engasgou com o arroz primavera.
Church estava acomodado aos seus pés, alerta a qualquer sinal de frango caindo no chão.
— Somos amigos dele, sim — respondeu Clary, com a boca se curvando no canto. — Por quê?
Jace estava ficando roxo. Clary lhe deu um tapinha nas costas. Church caiu no sono, com as patas balançando no ar.
— Eu gostaria de entrevistá-lo — respondeu Diego. — Acho que ele renderia um bom assunto para um texto sobre o Labirinto Espiral.
— Ele está muito ocupado agora, com Max e Rafael — disse Clary. — Quero dizer, você poderia perguntar...
— Quem é Rafael? — perguntou Livvy.
— O segundo filho deles — respondeu Jace. — Acabaram de adotar um garotinho argentino. Um Caçador de Sombras que perdeu os pais na Guerra Maligna.
— Em Buenos Aires! — Emma exclamou, voltando-se para Julian. — Quando encontramos Magnus na casa de Malcolm, ele disse que Alec estava em Buenos Aires e que ele iria encontrá-lo. Devia ser isso que estavam fazendo.
Julian apenas fez que sim com a cabeça, mas não levantou o olhar para reconhecer a lembrança compartilhada. Ela não deveria esperar que ele o fizesse, Emma lembrou a si mesma. Julian não voltaria a ser como ela se lembrava por um bom tempo, se é que voltaria. Ela se sentiu enrubescendo, apesar de ninguém ter parecido notar, exceto Cristina, que lhe deu um olhar cheio de preocupação. Diego estava com os braços em volta dela, mas suas mãos longas estavam apoiadas no colo. Ela acenou de leve para Emma, mais com os dedos do que com a mão.
— Talvez devêssemos voltar a discutir a questão que temos em mãos — sugeriu Diana. — Se Makara só resiste por um ou dois dias na terra...
— Então esse demônio esteve na casa de Malcolm muito recentemente — disse Livvy. — Tipo muito depois que ele morreu.
— O que é estranho — falou Julian, olhando para o livro. — É um demônio do fundo de mar, muito mortal e bem grande. É de se pensar que alguém teria notado. Além disso, ele não podia querer nada de uma casa em ruínas.
— Quem sabe quais são os desejos de um demônio marinho? — falou Mark.
— Presumindo que ele não estivesse em busca da coleção de meiões de tentáculos de Malcolm — falou Julian —, temos que imaginar que provavelmente foi invocado. Demônios Makara não aparecem simplesmente na terra. Eles ficam no fundo do oceano e, às vezes, puxam navios para baixo.
— Outro feiticeiro, então? — sugeriu Jace. — Alguém com quem Malcolm estava trabalhando?
— Catarina não acha que Malcolm tenha trabalhado com mais ninguém — disse Diana. — Ele era amigo de Magnus, mas fora isso, era solitário... por motivos óbvios, agora.
— Se ele estava trabalhando com outro feiticeiro, provavelmente não teria anunciado o fato, no entanto — disse Diego.
— Certamente parece que Malcolm estava determinado a aprontar do túmulo se alguma coisa acontecesse a ele — concluiu Diana.
— Bem, o tentáculo não foi a única coisa que encontramos — disse Cristina. — Mark, mostre a eles a luva.
Emma já tinha visto, na volta da casa de Malcolm, mas ela se inclinou para a frente junto com todo mundo enquanto Mark a pegava do bolso do casaco e botava na mesa.
— O símbolo do Rei Unseelie — falou ele. — Uma luva dessas é rara. Kieran tinha uma quando chegou à Caçada. Eu conseguia identificar seus irmãos, às vezes, em festas, pelas capas e luvas ou manoplas como essa.
— Então é estranho que Malcolm tenha uma — observou Livvy.
Emma não viu Ty ao lado dela; será que ele tinha ido para as pilhas de livros?
— Nenhum príncipe fada se separaria disso por vontade própria — explicou Mark. — Exceto por uma marca ou favor especial, ou para selar uma promessa.
Diana franziu o rosto.
— Sabemos que Malcolm estava trabalhando com Iarlath.
— Mas ele não era príncipe. Sequer era nobre — disse Mark. — Isso indicaria que Malcolm tinha alguma espécie de barganha com o próprio Rei da Corte Unseelie.
— Sabemos que ele foi se encontrar com o Rei Unseelie há muitos anos — falou Emma. — Foi o Rei que deu a ele a rima que ele deveria usar para reerguer Annabel. “Primeiro o fogo, e depois a tempestade...”
— “No fim, é sangue Blackthorn” — concluiu Julian por ela.
E quase aconteceu. Para ressuscitar Annabel, Malcolm precisava do sacrifício e do sangue de um Blackthorn. Ele tinha sequestrado Tavvy, e quase o matou. Só de lembrar, Emma tremia.
— Mas esse não era o símbolo do Rei há tanto tempo — falou Mark. — Isso data do início da Paz Fria. O tempo trabalha diferente no Reino das Fadas, mas... — Ele balançou a cabeça, como se quisesse dizer não tão diferente assim. — Eu temo.
Jace e Clary trocaram um olhar. Eles estavam indo ao Reino das Fadas, não estavam, para procurar uma arma? Emma se inclinou para a frente, com a intenção de perguntar a eles o que sabiam, mas antes que pudesse dizer as palavras, a campainha do Instituto tocou, ecoando pela casa. Todos se olharam, surpresos. Mas foi Tavvy que falou primeiro, olhando do canto onde estava brincando.
— Quem está aqui?


Se tinha uma coisa que Kit fazia bem, era sair de lugares sem ser notado. Ele vinha fazendo isso ao longo de toda a vida, enquanto seu pai fazia reuniões na sala com feiticeiros impacientes ou lobisomens inquietos. Então não foi difícil sair da biblioteca quando todos conversavam e comiam comida chinesa. Clary estava imitando uma pessoa chamada Inquisidor, e todos riam. Kit ficou imaginando se ocorria a eles que era estranho endossar uma posição governamental que soava como se fosse sobre tortura.
Ele já tinha estado na cozinha algumas vezes antes. Era um dos seus cômodos preferidos na casa – aconchegante, com suas paredes azuis e pia grande. A geladeira também não era mal estocada. Ele supôs que Caçadores de Sombras sentissem fome com regularidade, considerando o quanto malhavam. Ficou imaginando se também teria que treinar tanto tempo assim, caso se tornasse um Caçador de Sombras. Ficou imaginando se ganharia músculos e abdômen definido, essas coisas, como Julian e Jace. No momento, ele estava mais para magrelo, como Mark. Levantou a camisa e por um instante olhou para a barriga lisa e sem definição. Ele não tinha mesmo um abdômen. Deixou a camisa descer e pegou um Tupperware de biscoitos da geladeira. Talvez pudesse frustrar os Caçadores de Sombras se recusando a malhar e passando o tempo sentado, comendo carboidratos.
Eu os desafio, Caçadores de Sombras, pensou, abrindo a tampa do pote e colocando um biscoito na boca. Zombo de vocês comendo açúcar.
Ele deixou a porta da geladeira fechar, e quase gritou. Reflexivamente engoliu o biscoito e encarou. Ty Blackthorn estava no meio da cozinha, com os fones pendurados no pescoço, as mãos enfiadas nos bolsos.
— São muito bons — falou —, mas prefiro os de caramelo.
Pensamentos sobre a rebeldia com biscoitos voaram para fora da cabeça de Kit. Apesar de dormir no quarto em frente ao seu, Ty quase nunca tinha falado com ele antes. O máximo que provavelmente disse na vida foi uma vez quando estava ameaçando Kit com uma faca na casa dos Rook, e Kit não considerava aquilo interação social.
Kit pousou o Tupperware na bancada. Ele estava novamente ciente da sensação de que Ty o estava estudando, talvez fazendo uma lista de prós e contras, ou coisa do tipo. Se Ty fosse outra pessoa, Kit teria tentado capturar seu olhar, mas sabia que o outro garoto não olharia diretamente para ele. Era um pouco tranquilizante não ter que se preocupar com isso.
— Você tem sangue na mão — disse Ty. — Notei mais cedo.
— Ah. Sim. — Kit olhou para as juntas cortadas. — Machuquei a mão no Mercado das Sombras.
— Como? — perguntou Ty, se apoiando na beira da bancada.
— Soquei uma placa — retrucou Kit. — Eu estava zangado.
As sobrancelhas de Ty se ergueram. Ele tinha sobrancelhas interessantes, ligeiramente pontudas no alto, como Vs invertidos, e muito escuras.
— Você se sentiu melhor?
— Não — admitiu Kit.
— Eu posso resolver isso — falou Ty, pegando um dos lápis mágicos dos Caçadores de Sombras do bolso da calça.
Estelas, eram chamadas. Ele estendeu a mão. Kit supôs que pudesse ter recusado a oferta, como o fez quando Julian sugeriu curá-lo no carro. Mas aceitou. Estendeu o braço, confiante, com o pulso virado para cima, de modo que as veias azuis ficassem expostas ao menino que tinha colocado uma faca na sua garganta há não muito tempo.
Os dedos de Ty eram frios e cuidadosos enquanto pegava o braço de Kit para deixá-lo firme. Ele tinha dedos longos – todos os Caçadores de Sombras tinham, Kit tinha notado. Talvez tivesse alguma coisa a ver com a necessidade de lidar com uma variedade de armas. Kit estava ocupado demais pensando, de modo que só se encolheu um pouquinho quando a estela se moveu pelo seu antebraço, deixando uma sensação de calor, como se sua pele tivesse passado sobre uma chama de vela.
A cabeça de Ty estava abaixada. Seus cabelos negros caídos sobre o rosto. Ele puxou a estela de volta quando terminou, soltando Kit.
— Olhe para a sua mão — falou.
Kit virou a mão e assistiu aos cortes nos nós dos dedos se fecharem, as partes vermelhas voltando a ser pele macia. Olhou para a marca preta que se espalhava pelo antebraço. Ficou imaginando quando começaria a desbotar. Aquilo o perturbou, uma prova incontestável de que era tudo verdade. Ele realmente era um Caçador de Sombras.
— Bem legal — admitiu. — Vocês conseguem curar literalmente qualquer coisa? Tipo diabete e câncer?
— Algumas doenças. Nem sempre câncer. Minha mãe morreu disso. — Ty guardou a estela. — E a sua mãe? Ela também era Caçadora de Sombras?
— Acho que não — disse Kit.
Seu pai tinha dito algumas vezes que a mãe era uma dançarina de Las Vegas que tinha fugido depois que ele nasceu, mas nas últimas duas semanas lhe ocorreu que o pai talvez não tenha sido totalmente honesto em relação a isso. Ele certamente não tinha sido honesto em relação a nada.
— Ela morreu — acrescentou, não por achar que esse fosse o caso mais provável, mas por ter percebido que não queria falar sobre o assunto.
— Então nós dois temos mães mortas — disse Ty. — Você acha que vai querer ficar aqui? E se tornar um Caçador de Sombras?
Kit abriu a boca para responder – e parou, quando um ruído baixo e doce, que parecia de um sino, ecoou pela casa.
— O que é isso?
Ty levantou a cabeça. Kit viu como um flash a cor dos seus olhos: cinza de verdade, aquele cinza que era quase prateado. Antes que pudesse responder, a porta da cozinha se abriu. Era Livvy, com uma lata de refrigerante na mão esquerda. Ela não pareceu surpresa em ver Kit e Ty; passando entre eles, pulou sobre a mesa, cruzando as pernas longas.
— Os Centuriões estão aqui — falou. — Estão todos correndo feito galinhas sem cabeça. Diana foi recebê-los, Julian parece querer matar alguém...
— E você quer saber se eu quero ir espiar com você — disse Ty. — Certo?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Eu sugeriria algum lugar onde não seremos vistos, porque se Diana nos pegar, vamos ter que fazer as camas e dobrar as toalhas para os Centuriões pelas próximas duas horas.
Isso pareceu decidir as coisas; Ty assentiu e foi para a porta da cozinha. Livvy saltou da mesa e o seguiu. Ela parou com a mão na porta, olhando por cima do ombro para Kit.
— Você vem?
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Tem certeza de que quer que eu vá? — Não tinha ocorrido a ele se convidar; os gêmeos pareciam uma unidade tão perfeita, como se não precisassem de mais ninguém além deles mesmos.
Ela sorriu. Ele retribuiu o sorriso, hesitante; estava bastante acostumado a meninas, até mesmo a meninas bonitas, mas alguma coisa em Livvy o deixava nervoso.
— Claro — falou. — Só um alerta: comentários grosseiros e maldosos sobre as pessoas que espionamos são um requisito. Exceto pelos integrantes da nossa família, é claro.
— Se fizer Livvy rir, você ganha o dobro dos pontos — acrescentou Ty do corredor.
— Bem, nesse caso... — Kit foi atrás deles.
O que foi que Jace tinha dito, afinal? Os Herondale não resistiam a um desafio.


Cristina olhou espantada para o grupo de mais ou menos vinte Centuriões cruzando a imensa entrada do Instituto. Ela tinha tido pouco tempo para se preparar para a ideia de conhecer os amigos de Scholomance de Diego, e certamente não tinha planejado fazer isso com um uniforme de combate empoeirado e o cabelo preso em tranças. Enfim.
Ela esticou as costas. O trabalho de Caçador de Sombras costumava ser sujo; certamente não esperariam vê-la em condições impecáveis. Mas, ela percebeu ao olhar em volta, eles certamente estavam. Seus uniformes eram como uniformes normais, mas com casacos estilo militar por cima, brilhantes com botões metálicos e faixas com um desenho de bastões de centurião. As costas de cada casaco traziam o símbolo do nome da família do Centurião: um menino de cabelo cor de areia tinha um lobo nas costas, uma menina de pele escura exibia um círculo de estrelas. Os meninos usavam cabelos curtos; as meninas usavam tranças ou rabos de cavalo. Pareciam limpos, eficientes, e um pouco assustadores.
Diana estava conversando com dois Centuriões perto da porta do Santuário: um menino de pele escura com um emblema Primi Ordines e o menino com o casaco de lobo. Eles se viraram para acenar para Diego enquanto o rapaz descia as escadas, seguido por Cristina e os outros.
— Não posso acreditar que já estão aqui — murmurou Emma.
— Sejam graciosos — pediu Diana com a voz baixa, olhando para todos.
Para ela era fácil falar, Cristina pensou. Ela não estava coberta de poeira. Diana pegou Emma pelo pulso, puxou Julian com a outra mão, e marchou para se misturarem aos Centuriões, empurrando Julian para perto de uma menina indiana bonita com um piercing de ouro no nariz, e deixando Emma na frente de um casal de cabelos escuros, claramente gêmeos, que a olharam com sobrancelhas arqueadas. Vê-los fez Cristina pensar em Livvy e Ty, no entanto, e ela olhou em volta para ver se eles estavam espiando do segundo andar como normalmente faziam. Se estivessem, ela não conseguia vê-los; eles provavelmente tinham se escondido, e ela não os culpava.
Bagagens foram arrastadas pelo chão: alguém teria que levar os Centuriões aos quartos, recebê-los, descobrir como alimentá-los...
— Não me dei conta — disse Mark.
— Não se deu conta do quê? — perguntou Diego; ele tinha voltado a cumprimentar os dois meninos que estavam conversando com Diana antes.
Os meninos atravessaram a sala em direção a eles.
— O quão parecidos com soldados são os Centuriões — respondeu Mark. — Suponho que os tivesse imaginando como estudantes.
— Nós somos estudantes — respondeu Diego, afiado. — Mesmo depois que nos formamos, continuamos acadêmicos. — Os outros dois Centuriões chegaram antes que Mark pudesse falar qualquer outra coisa; Diego deu um tapinha nas costas de ambos e se virou para apresentá-los. — Manuel, Rayan. Estes são Cristina e Mark.
Gracias — disse o menino de cabelo claro; era castanho-claro, marcado e manchado pelo sol. Ele tinha um sorriso tranquilo e lateral. — Un placer conocerte.
Cristina se espantou.
— Você fala espanhol?
— Es mi lengua materna. — Manuel riu. — Nasci em Madri e cresci no Instituto de lá.
Ele tinha o que Cristina achou ser um sotaque espanhol – a suavização do som de c, o jeito como gracias soava como grathiath quando agradeceu a ela. Era charmoso.
Do outro lado do recinto, ela viu Dru, segurando Tavvy pela mão – eles tinham pedido a ela para ficar na biblioteca cuidando dele, mas ela queria ver os Centuriões – ir até Emma e sussurrar alguma coisa ao seu ouvido.
Cristina sorriu para Manuel.
— Quase fiz meu intercâmbio em Madri.
— Mas as praias daqui são melhores. — Ele deu uma piscadela.
Com o canto do olho, Cristina viu Emma ir até Julian e cutucá-lo desconfortavelmente no ombro. Ela disse alguma coisa para ele que o fez fazer sinal positivo com a cabeça e segui-la para fora da sala. Onde estavam indo? Ela estava louca para segui-los, para não ficar aqui conversando com os amigos de Diego, mesmo que eles fossem legais.
— Eu quis o desafio de ter que falar inglês o tempo todo — começou Cristina, e viu a expressão de Manuel mudar, depois Rayan a pegou pela manga e tirou-a do caminho quando alguém foi até Diego e o pegou pelo braço.
Era uma menina branca, pálida e com as bochechas redondas, com cabelos castanhos espessos presos em um coque firme. Ela colidiu contra o peito dele, e Diego adquiriu uma coloração meio aguada, como se todo o sangue tivesse drenado de seu rosto.
— Zara?
— Surpresa! — A garota o beijou na bochecha.
Cristina estava começando a ficar um pouco tonta. Talvez tivesse tomado muito sol na casa de Malcolm. Mas, na verdade, não tinha sido tanto sol assim.
— Não achei que você fosse vir — disse Diego. Ele ainda parecia verdadeiramente chocado. Rayan e Manuel estavam começando a aparentar desconforto. — Você disse... você disse que estaria na Hungria...
— Ah, isso. — Zara descartou a Hungria com um aceno. — No fim das contas, era uma coisa totalmente ridícula. Um bando de Nephilim alegando que suas estelas e lâminas serafim estavam com defeito; na verdade, foi só incompetência. Tanta coisa mais importante por aqui! — Ela deu o braço para Diego e se virou para Cristina e Mark, sorrindo alegremente. Estava com a mão apoiada no cotovelo de Diego, mas o sorriso no seu rosto tinha ficado tenso quando Cristina e Mark a encararam em silêncio; Diego parecia cada vez mais prestes a vomitar. — Sou Zara Dearborn — disse, afinal, revirando os olhos. — Tenho certeza de que ouviram falar de mim. Sou a noiva de Diego.

18 comentários:

  1. nossaaa!!!!

    a bomba explodiu🚧🚒⚠⌚💣💣

    SALVE-SE QUEM PUDER!!!!😱😱

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  2. Diego se fud** kkkkk morrendo de rir a qui é torcendo pro Mark ficar com a Cristina

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  3. Pq eu tô rindo? Coitada da Cris </3

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  4. Essa garota será a majestade bovina do livro vcs vão ver.

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  5. MDS, o que foi isso??????? Diego, não acredito, no final vc não era tão perfeito assim né😒

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  6. Sabia que esse Diego não era perfeito kkk

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  7. NOIVAAA?????? Querida Clarissa você quer me fazer ter um infarto?? 😱😱😱 como assim noiva???

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  8. nao gosto nenhum pouco desse diego perfeito e desssa ai que acabou de chugar
    Ass:J CARSTAIRS

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  9. 😱😱 mDs dalhe Tinamark
    Laura Herondale

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  10. Putz, sabia que Diego Perfeito era podre mesmo! Deixa a Cristina ficar com o Mark. Sem Kieran por favor, não gosto nada do Mark com ele.
    Sabe o que eu fiquei pensanso desde de Lady Midnight; e se a Livvy e o Ty se apaixonarem pelo Kit? Que tenso seria.

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  11. o melior livro que eu ja li aqui nos istadus zunidos

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Boa leitura :)