20 de novembro de 2017

Capítulo 3

Nessa quinta-feira em particular, alguma coisa deslocava-se silenciosamente através da ionosfera, muitos quilômetros acima da superfície do planeta; aliás, muitas “algumas coisas”, dezenas de coisas achatadas, grandes e amarelas, cada uma do tamanho de um quarteirão de prédios, silenciosas como pássaros. Voavam serenas, banhando-se nos raios eletromagnéticos emitidos pela estrela Sol, sem pressa, agrupando-se, preparando-se.
O planeta lá embaixo ignorava sua presença quase completamente, o que era justamente o que elas queriam. Aquelas coisas amarelas passaram por Goonhilly despercebidas; sobrevoaram Cabo Canaveral sem que os radares acusassem nada; Woomera e Jodrell Bank ignoraram sua passagem, uma pena, já que era exatamente esse tipo de coisa que estavam procurando há muitos anos.
A única coisa que acusou sua presença foi um aparelhinho preto chamado sensormático subeta, que ficou piscando discretamente na escuridão da mochila de couro que Ford Prefect sempre levava consigo. O conteúdo da mochila de Ford era bastante interessante: se algum físico terráqueo olhasse dentro dela, seus olhos saltariam para fora das órbitas. Era para esconder essas coisas que Ford sempre jogava por cima de tudo, na mochila, um ou dois roteiros amassados de peças de teatro, dizendo que estava estudando um papel para uma peça. Além do sensormático subeta e dos roteiros, Ford levava um polegar eletrônico, um bastão curto e grosso, preto, liso e fosco, com interruptores e ponteiros numa das extremidades — e um aparelho que parecia uma calculadora eletrônica das grandes. Este último possuía cerca de 100 pequenos botões planos e uma tela quadrada de dez centímetros, na qual podia ser exibida instantaneamente qualquer uma dentre um milhão de “páginas”. Parecia um aparelho absurdamente complicado, e esse era um dos motivos pelos quais a capa plástica do dispositivo trazia a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO em letras grandes e amigáveis. O outro motivo era o fato de que este aparelho era na verdade o mais extraordinário livro jamais publicado pelas grandes editoras da Ursa Menor, O Guia do Mochileiro das Galáxias. O livro era publicado sob a forma de um microcomponente eletrônico subméson porque, se fosse impresso de forma convencional, um mochileiro interestelar iria precisar de diversos prédios desconfortavelmente grandes para acomodar sua biblioteca. No fundo da mochila de Ford Prefect havia algumas esferográficas, um bloco de anotações e uma toalha de banho grande, comprada na Marks and Spencer.

O Guia do Mochileiro das Galáxias faz algumas afirmações a respeito das toalhas.
Segundo ele, a toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você — estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.
Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc, etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.
Daí a expressão que entrou na gíria dos mochileiros, exemplificada na seguinte frase: “Vem cá, você sancha esse cara dupal, o Ford Prefect? Taí um mingo que sabe onde guarda a toalha.” (Sancha: conhecer, estar ciente de, encontrar, ter relações sexuais com; dupal: cara muito incrível; mingo: cara realmente muito incrível.)

Bem enroladinho na toalha, dentro da mochila de Ford Prefect, o sensormático subeta começou a piscar mais depressa. Quilômetros acima da superfície do planeta, as enormes algumas coisas amarelas começaram a se espalhar. No observatório de Jodrell Bank, alguém resolveu que era hora de tomar um chá.
— Você tem uma toalha aí? — Ford perguntou a Arthur de repente. Arthur, lutando com seu terceiro caneco de chope, olhou ao redor.
— Uma toalha? Bem, não... por que, era para eu ter? — Arthur havia desistido de sentir-se surpreso; pelo visto, não adiantava nada.
Ford estalou a língua, irritado.
— Beba — insistiu. Naquele momento, o ruído surdo de alguma coisa se espatifando, vindo da rua, misturou-se ao murmúrio de vozes dentro do bar, à música da jukebox e aos soluços do homem ao lado de Ford, para quem ele acabara pagando um uísque.
Arthur engasgou-se com a cerveja e pôs-se de pé num salto.
— O que foi isso? — gritou.
— Não se preocupe — disse Ford. — Eles ainda não começaram.
— Ainda bem — disse Arthur, relaxando.
— Deve ser só a sua casa sendo demolida — disse Ford, virando seu último chope.
— O quê? — berrou Arthur. De repente quebrou-se o encantamento que
Ford lançara sobre ele. Arthur olhou ao redor, desesperado, e correu até a janela.
 — Meu Deus, é isso mesmo! Estão derrubando a minha casa. Que diabo eu estou fazendo aqui neste bar, Ford?
— A essa altura do campeonato, não tem muita importância — disse Ford. — Deixe que eles se divirtam.
— Isso lá é diversão? — gritou Arthur. — Diversão!
Ele olhou de novo pela janela e constatou que ambos estavam falando sobre a mesma coisa.
— Diversão, o cacete! — berrou Arthur, e saiu correndo do bar furioso, brandindo uma caneca de chope quase vazia. Naquele dia, Arthur definitivamente não fez amigos no bar.
— Parem, seus vândalos! Destruidores de lares! — gritava Arthur. — Seus visigodos malucos, parem com isso!
Ford teria de ir atrás dele. Virou-se depressa para o barman e pediu-lhe quatro pacotes de amendoins.
— Tome aí — disse o barman, colocando os pacotes no balcão. — São 28 pence, por favor.
Ford foi generoso: deu ao homem mais uma nota de cinco libras e disse que ficasse com o troco. O barman olhou para a nota e depois para Ford. De repente estremeceu: teve momentaneamente uma sensação que não compreendeu, porque nenhum terráqueo jamais a experimentara antes. Em momentos de grande tensão, todas as formas de vida existentes emitem um pequeno sinal subliminar. Este sinal simplesmente comunica uma noção exata e quase patética do quanto a criatura em questão está longe de seu local de nascimento. Na Terra, nunca se pode estar a mais de 26 mil quilômetros do local de nascimento, uma distância não muito grande, na verdade, e portanto esses sinais são demasiadamente fracos para serem percebidos. Ford Prefect estava naquele momento sob grande tensão, e nascera a 600 anos-luz dali, perto de Betelgeuse.
O barman ficou desnorteado por um momento, atingido pela sensação chocante e incompreensível de distância. Ele não sabia o que significava aquilo, mas olhou para Ford Prefect com mais respeito, quase com reverência.
— O senhor está falando sério? — perguntou ele, sussurrando baixinho, o que —teve o efeito de fazer com que todos se calassem no bar. — O senhor acha que o mundo vai mesmo acabar?
— Vai — disse Ford.
— Mas hoje?
Ford havia se recuperado. Sentia-se mais irreverente do que nunca.
— É — disse, alegre —, daqui a menos de dois minutos, na minha opinião.
O barman não conseguia acreditar na conversa que estava tendo, mas também não conseguia acreditar na sensação que acabara de experimentar.
— Podemos fazer algo a respeito?
— Não, nada — respondeu Ford, enfiando os amendoins no bolso. Alguém de repente soltou uma gargalhada no bar silencioso, rindo da burrice de todos.
O homem ao lado de Ford já estava meio alto. Com esforço, focalizou os olhos em Ford.
— Eu pensava — disse ele — que quando o mundo acabasse todo mundo tinha que deitar no chão ou enfiar a cabeça num saco de papel, ou coisa parecida.
— Se você quiser, pode — disse Ford.
— Foi o que disseram pra gente no exército — disse o homem, e seus olhos começaram sua longa jornada de volta para o copo de uísque.
— Isso vai ajudar? — perguntou o barman.
— Não — disse Ford, com um sorriso simpático. — Com licença, tenho que ir embora — deu adeus e saiu.
O bar ainda permaneceu em silêncio por um instante, e depois o homem da gargalhada estrepitosa atacou de novo, deixando todos sem graça. A garota que ele arrastara até o bar meia hora antes já o detestava cordialmente a essa altura e provavelmente ficaria muito satisfeita se soubesse que, dentro de uns
90 segundos, ele iria se evaporar em um sopro de hidrogênio, ozônio e monóxido de carbono. Porém, quando chegasse a hora, ela também estaria ocupada demais se evaporando para se preocupar com isso.
O barman pigarreou. Quando se deu conta, estava dizendo o seguinte:
— Últimos pedidos, por favor.
As enormes máquinas amarelas começaram a descer e a acelerar. Ford sabia que elas estavam vindo. Não era assim que ele queria voltar para o seu planeta.
Correndo pela alameda, Arthur já estava quase chegando em casa. Não percebeu como havia esfriado de repente, não percebeu o vento, não percebeu a chuva torrencial e irracional que começara a cair de repente. Só viu os tratores passando por cima dos destroços do que fora sua casa.
— Seus bárbaros! — gritou. — Vou processar o conselho municipal e arrancar deles até o último centavo! Vocês vão ser enforcados, arrastados e esquartejados1. E chicoteados! E cozidos em óleo fervente... até... até... até vocês não aguentarem mais.
Ford ainda estava correndo atrás dele, muito depressa. Muito, muito depressa.
— E depois tudo de novo! — gritou Arthur. — E quando terminar vou pegar todos os pedacinhos e pisar em cima deles!
Arthur não percebeu que os homens estavam correndo dos tratores, e também não percebeu que o Sr. Prosser olhava para o céu desesperado. O que o Sr. Prosser havia percebido era que as coisas amarelas enormes estavam atravessando as nuvens, ruidosamente. Coisas amarelas impossivelmente enormes.
— E vou continuar pulando neles — gritou Arthur, ainda correndo — até eu ficar cheio de bolhas, ou até eu pensar numa coisa ainda mais desagradável pra fazer, aí...
Arthur tropeçou e caiu para a frente, rolou e terminou deitado de costas no chão. Finalmente percebeu que estava acontecendo alguma coisa. Apontou para o céu.
— Que diabo é isso? — gritou
Fosse o que fosse, a coisa atravessou o céu com toda a sua monstruosidade amarela, rasgou o céu com um estrondo estonteante e sumiu na distância, deixando atrás de si um vácuo que se fechou com um bang! alto o suficiente para empurrar os ouvidos para dentro do cérebro.
Outra coisa amarela veio em seguida e fez exatamente a mesma coisa, só que ainda mais alto.
É difícil dizer exatamente o que as pessoas na superfície do planeta estavam fazendo agora, porque na verdade elas próprias não sabiam direito o que estavam fazendo. Nada fazia sentido, correr para dentro de casa, correr para fora de casa, gritar surdamente no meio da barulheira. Por todo o mundo, as ruas das cidades explodiam de gente, carros se enfiavam uns nos outros quando o barulho desabava sobre eles e depois se afastava, como um gigantesco maremoto sobre serras e vales, desertos e oceanos, parecendo achatar tudo aquilo que atingia.
Apenas um homem permanecia parado, olhando para o céu, com uma tristeza imensa nos olhos e protetores de borracha nos ouvidos. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo, e já o sabia desde que seu sensormático subeta começara a piscar no meio da noite ao lado de seu travesseiro, fazendo-o acordar assustado. Era por isso que ele vinha esperando esses anos todos, mas quando decifrou os sinais, sozinho em seu pequeno quarto escuro, sentiu um frio no coração. De todas as raças existentes na Galáxia que podiam vir fazer uma visitinha ao planeta Terra, pensou ele, por que tinham que ser justamente os vogons?
Fosse como fosse, ele sabia o que tinha de fazer. Quando a nave vogon sobrevoou o lugar onde ele estava, Ford abriu sua mochila. Jogou fora um exemplar de José e a Extraordinária Túnica de Sonhos Tecnicolor e um exemplar de Godspell: ele não ia precisar daquilo no lugar para onde ia. Tudo estava pronto, tudo estava preparado.
Ele sabia onde estava sua toalha.
Um silêncio súbito tomou conta da Terra, talvez pior ainda que o barulho. Por algum tempo, não aconteceu nada.
As grandes espaçonaves pairavam imóveis no céu, sobre todas as nações da Terra. Pairavam imóveis, imensas, pesadas, completamente paradas no céu, uma blasfêmia contra a natureza. Muitas pessoas entraram em estado de choque quando suas mentes tentaram entender o que estavam vendo. As naves pairavam imóveis no céu da mesma forma como os tijolos não o fazem.
E continuava não acontecendo nada.
Então ouviu-se um leve assobio, um súbito assobio espaçoso de fundo sonoro ao ar livre. Todos os aparelhos de som do mundo, todos os rádios, todas as televisões, todos os gravadores, todos os alto-falantes, de agudos, graves ou de frequências médias, em todo o mundo, silenciosamente se ligaram.
Todas as latinhas, todas as latas de lixo, todas as janelas, todos os carros, todas as taças de vinho, todas as chapas de metal enferrujado, tudo foi ativado, funcionando como uma caixa de ressonância acusticamente perfeita.
Antes de ser destruída, a Terra assistiria a uma demonstração da perfeição absoluta em matéria de reprodução sonora, o maior sistema de som jamais construído. Mas não se ouviu um concerto, nenhuma música, nenhuma fanfarra, e sim uma simples mensagem.
Povo da Terra, atenção, por favor  disse uma voz, e foi maravilhoso. Som quadrafônico perfeito, com níveis de distorção tão baixos que o mais corajoso dos homens não conseguiria conter uma lágrima. — Aqui fala Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galáctico — prosseguiu a voz. — Como todos vocês certamente já sabem, os planos para o desenvolvimento das regiões periféricas da Galáxia exigem a construção de uma via expressa hiperespacial que passa pelo seu sistema estelar e infelizmente o seu planeta é um dos que terão de ser demolidos. O processo levará pouco menos de dois minutos terrestres. Obrigado.
O sistema de som voltou ao silêncio.
Um terror cego se apoderou de toda a população da Terra. O terror transmitia-se lentamente através das multidões, como se fossem limalhas de ferro sobre uma chapa de madeira e houvesse um ímã deslocando-se embaixo da madeira. Instaurou-se novamente o pânico, uma vontade desesperada de fugir, só que não havia para onde.
Observando o que estava acontecendo, os vogons ligaram o sistema de som outra vez. Disse a voz:
— Esta surpresa é injustificável. Todos os planos do projeto, bem como a ordem de demolição, estão em exposição no seu departamento local de planejamento, em Alfa do Centauro, há 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos vocês tiveram muito tempo para apresentar qualquer reclamação formal, e agora é tarde demais para criar caso.
O sistema de som foi desligado novamente e seu eco foi morrendo por todo o planeta. As naves imensas começaram a virar lentamente no céu, com facilidade. Na parte de baixo de cada nave abriu-se uma escotilha, um quadrado negro vazio.
A esta altura, alguém tinha conseguido ligar um transmissor de rádio, localizar uma frequência e enviar uma mensagem às naves vogons, falando em nome do planeta. Ninguém jamais ouviu o que foi dito, apenas a resposta. O imenso sistema de som voltou a transmitir. A voz estava irritada:
— Como assim, nunca estiveram em Alfa do Centauro? Ora bolas, humanidade, fica só a quatro anos-luz daqui! Desculpem, mas se vocês não se dão ao trabalho de se interessar pelas questões locais, o problema é de vocês. — Após uma pausa, disse: — Energizar os raios demolidores.
Das escotilhas saíram fachos de luz.
— Diabo de planeta apático  disse a voz. — Não dá nem pra ter pena.  E o sistema de som foi desligado.
Houve um silêncio terrível. Houve um ruído terrível. Houve um silêncio terrível.
A Frota de Construção Vogon desapareceu no negro espaço estrelado.

2 comentários:

  1. Que vacilo humanidade.

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  2. Sádico maravilhado pelo sadismo sádico do livro27 de novembro de 2017 20:02

    Todo mundo morreu, e acabou!

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Boa leitura :)