15 de novembro de 2017

Capítulo 3

— Você devia ter dito não.
Madame Durant cutucou meu ombro com um dedo ossudo. Sobressaltei-me.
Ela usava uma touca branca com babados e tinha uma capa de crochê azul desbotada presa com alfinetes em volta dos ombros. Quem se queixava de falta de notícias, agora que não nos permitiam ler jornais, obviamente nunca havia cruzado o caminho da minha vizinha.
— O quê?
— Sobre alimentar os alemães. Você devia ter dito não.
Era uma manhã gelada, e eu enrolara o cachecol até o meu rosto. Abaixei-o para responder-lhe.
— Eu devia ter dito não? E a senhora vai dizer não quando eles decidirem ocupar a sua casa, vai, Madame?
— Você e sua irmã são mais jovens que eu. Têm força para enfrentá-los.
— Infelizmente, me faltam as armas de fogo de um batalhão. O que sugere que eu faça? Que entrincheire a minha família em casa? Atire xícaras e panelas neles?
Ela continuou a me censurar enquanto eu abria a porta para ela. A padaria já não tinha cheiro de padaria. O ambiente ainda era aquecido, mas o aroma de baguetes e croissants havia muito desaparecera. Esse pequeno detalhe me entristecia toda vez que eu punha os pés lá dentro.
— Juro que não sei a que ponto este país está chegando. Se seu pai pudesse ter visto alemães no hotel dele...
Madame Louvier estava visivelmente bem informada. Ela balançou a cabeça num gesto de desaprovação enquanto eu me aproximava do balcão.
— Ele teria feito exatamente o mesmo.
Monseiur Armand, o padeiro, fez com que elas se calassem.
— A senhora não pode criticar Madame Lefèvre! Somos todos fantoches deles agora. Madame Durant, a senhora me critica por fazer o pão deles?
— Eu só acho que é falta de patriotismo obedecer a essas ordens.
— Fácil falar quando não é a senhora que está na frente de uma bala.
— Então, tem mais deles vindo para cá? Mais deles invadindo as nossas lojas, comendo a nossa comida, roubando os nossos animais? Juro que não sei como vamos sobreviver a esse inverno.
— Como sempre sobrevivemos, Madame Durant. Com estoicismo e bom humor, rezando para que Nosso Senhor, se não os nossos bravos rapazes, dê um soberbo pé no traseiro dos boches. — Monsieur Armand piscou para mim. — Agora, senhoras, o que desejam? Temos pão preto de uma semana, pão preto de cinco dias e pão preto de idade indeterminada, garantidamente sem caruncho.
— Há dias em que eu consideraria um caruncho um hors d’oeuvre benvindo — disse Madame Louvier com lamento.
— Então vou guardar um vidro de geleia cheio deles para a senhora, minha cara Madame. Pode acreditar, muito frequentemente recebemos doses generosas na nossa farinha. Bolo de caruncho, torta de caruncho, profiteroles de caruncho: graças à generosidade alemã, podemos oferecer tudo isso.
Rimos. Era impossível não rir. Monsieur Armand conseguia provocar um sorriso mesmo no mais angustiante dos dias.
Madame Louvier pegou o pão dela e o colocou na cesta com nojo. Monsieur Armand não se ofendeu: via aquela expressão cem vezes por dia. O pão era preto, quadrado e pegajoso. Exalava um cheiro de mofo, como se estivesse estragando desde o instante em que saíra do forno. Era tão duro que as mulheres mais velhas tinham que pedir ajuda aos jovens simplesmente para cortá-lo.
— Vocês souberam — disse ela, apertando o casaco em volta do corpo — que rebatizaram todas as ruas em Le Nouvion?
— Rebatizaram as ruas?
— Substituíram os nomes franceses por alemães. Monsieur Dinan ouviu do filho dele. Sabe como chamam a Avenue de la Gare?
Todos fizemos que não com a cabeça. Madame Louvier fechou os olhos um instante, como se para ter certeza de ter se lembrado direito.
— Bahnohofstrasse — disse afinal.
— Banhof o quê?
— Dá para acreditar?
— Eles não vão rebatizar a minha loja — pigarreou Monsieur Armand. — Vou rebatizar os traseiros deles. Brot isso e Brot aquilo. Isto é uma boulangerie. Na rue des Bastides. Sempre foi, sempre será. Banhof que nada. Ridículo.
— Mas isso é terrível! — Madame Durant estava apavorada. — Eu não falo uma palavra de alemão!
Todos olhamos para ela.
— Bom, como vou saber andar na minha própria cidade se não consigo dizer o nome das ruas?
Estávamos tão entretidos rindo que, por um momento, não notamos a porta se abrir. Nesse momento, a loja ficou bruscamente em silêncio. Virei-me e vi Liliane Béthune entrar, de cabeça erguida, mas sem olhar ninguém nos olhos.
Tinha o rosto mais cheio do que a maioria das pessoas, e a pele clara estava empoada e corada de ruge. Ela deu um bonjour geral e pôs a mão dentro da bolsa.
— Dois pães, por favor.
Ela recendia a perfume caro e tinha o cabelo cacheado. Numa cidade onde a maioria das mulheres estava muito esgotada ou sem recursos suficientes para se cuidar mais que o mínimo, ela se destacava como uma joia reluzente. Mas foi seu casaco que me chamou a atenção. Eu não conseguia parar de olhar para ele. Era preto, feito do mais fino astracã de cordeiro e grosso como um tapete de pele. Tinha o brilho macio de algo novo e caro, e a gola lhe subia em volta do rosto como se seu pescoço comprido estivesse emergindo de melado negro. Vi as mulheres mais velhas registrarem o agasalho, com expressões sérias enquanto o olhavam de alto a baixo.
— Um para você, um para o seu alemão? — resmungou Madame Durant.
— Eu disse dois pães, por favor. — Ela se virou para Madame Durant. — Um para mim. Um para minha filha.
Uma única vez, Monsieur Armand não riu. Pôs as mãos embaixo do balcão, sem tirar os olhos da mulher, e com os punhos gordos jogou os dois pães no tampo.
Não os embrulhou.
Liliane estendeu uma nota, mas ele não a pegou. Aguardou os poucos segundos que ela levou para colocá-la no balcão, e então pegou-a com cuidado, como se aquele dinheiro pudesse contaminá-lo. Pegou duas moedas de troco no caixa e jogou-as no balcão, ignorando a mão estendida da mulher.
Ela olhou para ele, e depois para o balcão onde estavam as moedas.
— Pode ficar com elas — disse. E, com um olhar furioso para nós, agarrou os pães e saiu varrida da loja.
— Como ela tem coragem...
O que mais deixava Madame Durant feliz era se escandalizar com o comportamento de alguém. Para alegria dela, Liliane Béthune lhe dera muitas oportunidades de exercitar a fúria naqueles últimos meses.
— Acho que ela tem que comer, como todo mundo — refleti.
— Toda noite ela vai à fazenda Fourrier. Toda noite. A gente vê quando ela atravessa a cidade andando depressa como um ladrão.
— Ela tem dois casacos novos — disse Madame Louvier. — O outro é verde. Um casaco de lã verde novinho em folha. De Paris.
— E sapatos. De pelica. Claro que ela não ousa usá-los de dia. Sabe que seria linchada.
— Essa aí não vai ser linchada. Não com os alemães de olho nela.
— No entanto, quando eles forem embora, vai ser outra história, hein?
— Eu não queria estar na pele dela, com ou sem couro.
— Odeio vê-la andando feito um pavão por aí, esfregando sua boa sorte na cara de todo mundo. Quem ela acha que é?
Monsieur Armand observou a jovem atravessando a praça. De repente, ele sorriu.
— Eu não me preocuparia, senhoras. Nem tudo sai do jeito que ela quer.
Olhamos para ele.
— Vocês conseguem guardar um segredo?
Não sei por que ele se dava o trabalho de perguntar. Aquelas duas velhas mal conseguiam passar dez segundos caladas.
— O quê?
— Vamos nos limitar a dizer que alguns de nós garantimos que a Srta. Extravagante receba um tratamento especial que ela não estava esperando.
— Não entendi.
— Os pães dela têm vida própria embaixo do balcão. Contêm uns ingredientes especiais. Ingredientes que juro a vocês que não entram em nenhum dos meus outros pães.
Os olhos das velhas se arregalaram. Não ousei perguntar o que o padeiro queria dizer, mas o brilho em seus olhos sugeria várias possibilidades, e em nenhuma delas eu queria apostar.
— Non!
— Monsieur Armand!
Elas estavam escandalizadas, mas começaram a rir.
Então me senti mal. Eu não gostava de Liliane Béthune, nem do que ela estava fazendo, mas aquilo me repugnou.
— Eu... eu tenho que ir embora. Hélène precisa...
Peguei o meu pão. Ainda com as risadas delas ecoando nos ouvidos, voltei correndo para a relativa segurança do hotel.

* * *

A comida veio na sexta-feira seguinte. Primeiro, os ovos, duas dúzias, entregues por um jovem cabo alemão, que os trouxe cobertos com um pano branco, como se estivesse entregando um contrabando. Depois, pão, branco e fresco, em três cestas. Eu deixara um pouco de gostar de pão desde aquele dia na boulangerie, mas segurar pães frescos, crocantes e quentinhos me deixou quase embriagada de desejo. Eu mandara Aurélien subir, de tanto medo de que ele não conseguisse resistir à tentação de comer um pedaço.
Em seguida, seis galinhas, ainda com as penas, e um caixote com repolho, cebolas, cenouras e alho silvestre. Depois disso, vieram vidros de tomate em conserva, arroz e maçãs. Leite, café, três nacos gordos de manteiga, farinha, açúcar. Garrafas e garrafas de vinho do sul. Eu e Hélène recebemos todas as entregas em silêncio. Os alemães nos entregavam formulários, em que todas as remessas haviam sido cuidadosamente anotadas. Não seria fácil roubar: um formulário exigia que anotássemos as quantidades exatas usadas para cada receita. Pediram também para que colocássemos quaisquer sobras num balde que seria recolhido para alimentar os animais domésticos. Quando vi isso, me deu vontade de cuspir.
— Isto é para hoje à noite? — perguntei ao último cabo.
Ele deu de ombros. Apontei para o relógio.
— Hoje? — Apontei para a comida. — Kuchen?
— Ja — disse ele, balançando cabeça com veemência. — Sie kommen. Acht Uhr.
— Oito horas — disse Hélène, atrás de mim. — Eles querem comer às oito horas.
Nosso próprio jantar fora uma fatia de pão preto com uma camada fina de geleia acompanhado por beterrabas cozidas. Ter que assar frangos, encher a nossa cozinha com os aromas de alho e tomate, de torta de maçã, parecia uma forma de tortura. Naquela primeira noite, tive medo até de lamber os dedos, embora vê-los sujos de molho de tomate ou melados de torta de maçã fosse muito tentador. Por várias vezes, enquanto eu abria a massa, ou descascava as maçãs, quase desmaiei de desejo. Tivemos que expulsar Mimi, Aurélien e o pequeno Jean para o andar de cima, de onde, de vez em quando, vinham uivos de protesto.
Eu não queria preparar uma refeição fina para os alemães. Mas temia não fazê-lo. A certa altura, eu disse a mim mesma, ao tirar os frangos assados do forno e regá-los com o molho da assadeira, que talvez eu pudesse gostar de ver essa comida. Talvez eu pudesse me deliciar com a oportunidade de contemplar, de cheirar aquilo outra vez. Mas, naquela noite, eu não conseguiria. Quando a campainha da porta tocou, avisando-nos da chegada dos oficiais, minha barriga doía e eu suava de fome. Nunca na vida senti um ódio tão grande dos alemães.
— Madame.
O Kommandant foi o primeiro a entrar. Tirou o quepe respingado de chuva e fez um gesto para que os oficiais fizessem o mesmo.
Enxuguei as mãos no avental, sem saber como reagir.
— Herr Kommandant. — Meu rosto não tinha expressão.
O ambiente estava aquecido: os alemães haviam enviado três cestos de lenha para podermos acender a lareira. Os homens tiravam os cachecóis e os chapéus, farejando o ar, já sorrindo com expectativa. O aroma do frango, assado num molho de alho e tomate, impregnara todo o ambiente.
— Acho que queremos comer já — disse o Kommandant, olhando para a cozinha.
— Como quiserem — falei. — Vou servir o vinho.
Aurélien abrira várias garrafas na cozinha. Chegou carrancudo, com duas nas mãos. A tortura que essa noite nos infligira perturbara especialmente a ele.
Eu temia, dada a surra recente, sua juventude e sua natureza impulsiva, que ele se metesse em apuros. Peguei as garrafas das mãos dele.
— Vá dizer a Hélène que ela tem que servir o jantar.
— Mas...
— Vá! — ralhei com ele.
Fui para trás do balcão servir o vinho. Não olhei para nenhum dos homens enquanto colocava os copos nas mesas, apesar de sentir os olhos deles em mim.
Sim, me olhem, eu lhes dizia em silêncio. Mais uma francesa esquelética que vocês subjugam pela fome. Espero que minha aparência estrague o apetite de vocês.
Minha irmã levou os primeiros pratos, recebidos com murmúrios de satisfação. Em minutos, os homens estavam comendo, batendo com os talheres na louça, exclamando no idioma deles. Eu ia para cima e para baixo com pratos cheios, tentando não aspirar os deliciosos aromas, tentando não olhar para a carne untuosa ao lado dos legumes brilhantes.
Por fim, todos foram servidos. Eu e Hélène estávamos de pé juntas atrás do balcão, quando o Kommandant fez um demorado brinde em alemão. Não sei dizer o que senti ao ouvir aquelas vozes em nossa casa; vendo-os comer a comida que tínhamos preparado com tanto cuidado, rir e beber descontraidamente.
Estou fortalecendo esses homens, pensei com tristeza, enquanto o meu amado Édouard talvez esteja fraco de inanição. E esse pensamento, talvez somado à minha fome e ao meu esgotamento, me deu um breve desespero. Um pequeno soluço me escapou da garganta. Hélène pegou a minha mão e a apertou.
— Vá para a cozinha — murmurou.
— Eu...
— Vá para a cozinha. Vou para lá depois que tiver reabastecido os copos deles.
Ao menos dessa vez, fiz o que minha irmã mandou.

* * *

Eles passaram uma hora comendo. Eu e ela estávamos sentadas em silêncio na cozinha, perdidas no esgotamento e na confusão de nossos pensamentos. Cada vez que ouvíamos as risadas aumentarem ou uma exclamação calorosa, erguíamos os olhos. Era muito difícil saber o que significavam quaisquer daquelas manifestações.
— Mesdames. — O Kommandant apareceu à porta da cozinha. Nós nos levantamos depressa. — A refeição estava excelente. Espero que possam manter esse padrão.
Olhei para o chão.
— Madame Lefèvre.
Com relutância, ergui os olhos.
— A senhora está pálida. Está doente?
— Estamos muito bem. — Engoli em seco.
Eu sentia os olhos dele me queimando. Ao meu lado, Hélène torcia os dedos, vermelhos da água quente a que não eram habituados.
— Madame, a senhora e a sua irmã já comeram?
Pensei que fosse um teste. Pensei que ele estivesse verificando se tínhamos seguido à risca aqueles formulários infernais. Pensei que ele poderia pesar as sobras, para garantir que não tínhamos enfiado sorrateiramente na boca um pedaço de casca de maçã.
— Não tocamos num grão de arroz, Herr Kommandant.
Quase cuspi isso na cara dele. A fome faz isso com a gente.
Ele piscou.
— Então devem comer. Não podem cozinhar bem se não comerem. O que sobrou?
Eu não conseguia me mexer. Hélène apontou para a assadeira no fogão.
Havia quatro quartos de frango ali, mantidos quentes para o caso de os homens quererem repetir.
— Então, sentem-se. Comam.
Eu não conseguia acreditar que aquilo não fosse uma armadilha.
— Isto é uma ordem — disse ele. Estava quase sorrindo, mas eu não achei graça. — Mesmo. Comam.
— Seria... seria possível dar alguma coisa para as crianças comerem? Faz muito tempo que não comem carne.
Ele franziu um pouco o cenho, como se não tivesse entendido. Eu o odiei.
Odiei o som da minha voz, implorando uns restos de comida a um alemão. Ah, Édouard, pensei em silêncio. Se você pudesse me ouvir agora.
— Comam e deem de comer a seus filhos — disse ele sucintamente.
Depois deu meia-volta e saiu da cozinha.
Ficamos ali sentadas em silêncio, as palavras dele ecoando em nossos ouvidos. Então Hélène segurou as saias e subiu a escada correndo, de dois em dois degraus. Eu não a via andar tão depressa havia meses.
Segundos depois, ela tornou a aparecer, com Jean nos braços ainda de pijama, Aurélien e Mimi à frente.
— É verdade? — disse Aurélien.
Olhava boquiaberto para o frango.
Só consegui fazer que sim com a cabeça.
Atacamos aquela ave infeliz. Eu gostaria de poder lhe dizer que eu e minha irmã fomos duas damas, tirando a carne dos ossos delicadamente, como os parisienses, e parando para conversar e limpar a boca entre um bocado e outro.
Mas fomos umas selvagens. Arrancávamos nacos de carne, pegávamos punhados de arroz, comíamos de boca aberta, catando como loucas os pedaços que caíam na mesa. Eu já não me importava se isso era uma brincadeira do Kommandant. Nunca tinha comido nada tão bom quanto aquele frango. O alho e os tomates me encheram a boca com um prazer que há muito havia esquecido, as narinas com aromas que eu poderia passar a vida inalando. Emitíamos pequenos ruídos de deleite ao comer, primais e desinibidos, cada qual encerrado em seu próprio mundo de satisfação. O bebê Jean ria e cobria a cara de molho. Mimi comia a pele do frango, chupando a gordura dos dedos com um deleite barulhento. Eu e Hélène comíamos sem falar, sempre nos certificando de que os pequenos estivessem comendo bem.
Quando não havia sobrado mais nada, quando já tínhamos chupado todos os ossos, limpado o último grão de arroz das travessas, ficamos sentados nos entreolhando. Do bar, ouvíamos a conversa dos alemães ficando mais barulhenta, à medida que eles bebiam o vinho, e explosões de gargalhadas esporádicas. Limpei a boca com as mãos.
— Não podemos contar a ninguém — disse eu, lavando-as. Eu me sentia como um bêbado que subitamente tivesse ficado sóbrio. — Isso talvez nunca mais aconteça. E precisamos agir como se nunca tivesse acontecido. Se alguém descobrir que comemos a comida dos alemães, seremos considerados traidores.
Olhávamos para Mimi e Aurélien, tentando transmitir a eles a importância do que dizíamos. Aurélien assentiu com a cabeça. Mimi também. Acho que eles teriam concordado em falar alemão para sempre naquele momento. Hélène pegou um pano de prato, umedeceu-o e se pôs a limpar os vestígios da refeição nos rostos dos dois menores.
— Aurélien — disse ela —, leve os dois para cama. Vamos tirar a mesa.
Ele não estava contaminado pelas minhas apreensões. Sorria. Tinha os ombros magros de adolescente relaxados pela primeira vez em meses, e, quando pegou Jean, juro que, se pudesse, teria assobiado.
— Ninguém — alertei-o.
— Eu sei — disse ele, no tom de um garoto de quatorze anos que sabe tudo.
O pequeno Jean já estava caído com as pálpebras sonolentas no ombro dele, exausto com a primeira refeição completa em meses. Eles saíram da cozinha e subiram. Ouvir suas risadas ao chegarem lá em cima me deixou com o coração apertado.

* * *

Passava das onze da noite quando os alemães foram embora. Estávamos sob toque de recolher havia quase um ano. Eu e Hélène adquirimos o hábito de nos deitarmos se, ao anoitecer, não tivéssemos velas ou lampiões. O bar fechava às seis, desde a ocupação, e fazia meses que não ficávamos acordadas até tão tarde.
Estávamos exaustas. Nossas barrigas gorgolejavam com o choque da comida substanciosa depois de meses de quase inanição. Vi minha irmã desabar enquanto esfregava as assadeiras. Eu não estava tão cansada assim, e a lembrança do frango me iluminava o cérebro: era como se nervos mortos havia muito tivessem sido reanimados. Eu ainda podia sentir o gosto, o cheiro. Ardia em minha mente como a chama de um pequeno tesouro.
Pouco antes de a cozinha estar de novo limpa, mandei Hélène subir. Ela afastou o cabelo do rosto. Minha irmã fora lindíssima. Quando vi como a guerra a envelhecera, pensei em meu próprio rosto, e me perguntei o que meu marido acharia de mim.
— Não gosto de deixar você sozinha com eles — disse ela.
Fiz que não com a cabeça. Eu não estava com medo; o clima era pacífico. É difícil provocar homens que acabaram de comer bem. Eles haviam bebido, mas as garrafas serviam talvez três copos para cada um; não o suficiente para levá-los a se comportar mal. Meu pai nos dera muito pouco, Deus sabia, mas nos ensinara quando ter medo. Eu era capaz de observar um estranho e saber pela contração de sua mandíbula, por um leve franzir de olhos, o exato momento em que a tensão interna levaria a um rompante de violência. Além do mais, eu desconfiava de que o Kommandant não toleraria tal atitude.
Fiquei na cozinha, arrumando o local, até o barulho das cadeiras sendo afastadas da mesa me alertar para o fato de que eles estavam indo embora. Fui até o bar.
— Pode fechar a casa agora — disse o Kommandant. Tentei não demonstrar irritação. — Meus homens querem lhe transmitir seus agradecimentos pela excelente refeição.
Olhei para eles. Fiz um pequeno gesto de cabeça. Não queria que me considerassem agradecida pelos elogios alemães.
Ele não pareceu esperar uma resposta. Pôs o quepe, e eu peguei no bolso recibos da comida e entreguei-as a ele. Ele olhou para elas e as jogou de volta na minha mão, com certa impaciência.
— Eu não trato dessas coisas. Dê-as aos homens que entregarem a comida amanhã.
— Désolée — eu disse, mas estava farta de saber disso.
Alguma parte maldosa de mim quisera rebaixá-lo, ainda que por um instante apenas, a uma posição subalterna.
Fiquei ali enquanto os oficiais pegavam os casacos e os chapéus, alguns deles colocando as cadeiras no lugar, com um vestígio de cavalheirismo, outros descuidados, como se estivessem no direito de tratar qualquer lugar como se fosse a própria casa. Então era isso, pensei. Deveríamos passar o resto da guerra cozinhando para alemães.
Eu me perguntei por um instante se devíamos ter cozinhado mal, ter tido menos trabalho. Mas Maman sempre incutira em nós que cozinhar mal era um pecado. E por mais imorais que tenhamos sido, por mais traiçoeiras, eu sabia que todos nós nos lembraríamos da noite do frango assado. Pensar que talvez houvesse mais me deixou meio tonta.
Foi então que me dei conta de que ele estava olhando para o quadro.
Fui invadida por um medo súbito, lembrando-me das palavras de minha irmã. O quadro parecia subversivo, sim, suas cores muito vivas no pequeno bar sem vida, a garota obstinada e confiante. Ela parecia, eu via agora, quase como se estivesse zombando deles.
Ele continuou olhando o quadro. Atrás dele, seus homens haviam começado a se retirar, falando alto e em tom grosseiro, as vozes ecoando na praça vazia. Eu estremecia um pouco cada vez que a porta abria.
— Parece você.
Fiquei surpresa por ele conseguir ver. Eu não queria concordar. O fato de ele ser capaz de me ver na garota implicava uma espécie de intimidade. Engoli em seco. Apertei as mãos com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
— Sim. Bem, foi há muito tempo.
— Parece um pouco... Matisse.
Fiquei tão admirada com o comentário que falei sem pensar.
— Édouard foi aluno dele, na Académie Matisse, em Paris.
— Conheço a escola. Já viu um artista chamado Hans Purrmann? — Devo ter tido um sobressalto. Vi seu olhar mover-se na minha direção. — Sou um grande admirador do trabalho dele.
Hans Purrmann. A Académie Matisse. Ouvir essas palavras da boca de um Kommandant alemão me deixou quase tonta.
Eu queria que ele fosse embora. Não queria que mencionasse aqueles nomes. Aquelas lembranças eram minhas, pequenos presentes a que eu podia recorrer para me reconfortar nos dias em que me sentia esmagada pela realidade.
Eu não queria os meus dias mais felizes poluídos pelas observações superficiais de um alemão.
— Herr Kommandant, preciso tirar as mesas. Se me der licença.
Comecei a empilhar pratos, recolher copos. Mas ele não se mexeu. Senti seus olhos pousados no quadro como se pousassem em mim.
— Há muito tempo não converso sobre arte com ninguém. — Era como se estivesse falando com o quadro. Finalmente, pôs as mãos às costas e se virou para mim. — Nós a veremos amanhã.
Não consegui olhar para ele quando passou.
— Herr Kommandant — eu disse, segurando os pratos.
— Boa noite, Madame.
Quando finalmente consegui subir, Hélène dormia de bruços em cima da colcha, ainda vestida com as roupas com que cozinhara. Afrouxei seu corpete, tirei os sapatos e cobri-a. Então me deitei, com os pensamentos zumbindo e girando rumo ao amanhecer.

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