15 de novembro de 2017

Capítulo 36

Liv ouve o barulho se elevar, como uma nuvem de pássaros, à sua volta. Vê os jornalistas se aglomerando em torno da velha senhora, agitando as canetas como antenas, o juiz falando urgentemente com os advogados, batendo o martelo em vão. Olha para a galeria pública, para os rostos animados, e ouve a estranha salva de palmas que poderia ser para a idosa ou para a verdade: não sabe bem.
Paul está tentando abrir passagem no meio da multidão. Quando a alcança, puxa-a para si, encosta a cabeça na sua e lhe fala ao pé do ouvido:
— Ela é sua, Liv — diz, e sua voz está rouca de alívio. — Ela é sua.
— Ela sobreviveu — diz Liv, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Eles se encontraram.
Dos braços dele, ela olha o caos em volta e já não tem mais medo da multidão. As pessoas estão sorrindo, como se tivessem gostado do resultado, como se ela já não fosse o inimigo. Ela vê os irmãos Lefèvre se levantarem para ir embora, soturnos como carregadores de caixão, e fica aliviada pelo fato de Sophie não estar voltando para a França com eles. Vê Janey, recolhendo suas coisas devagar, o semblante congelado, como se não conseguisse acreditar no que acabara de acontecer.
— Que tal? — Henry bate no ombro dela, todo sorridente. — Que tal? Não tem ninguém sequer escutando o veredicto do velho Berger.
— Vamos — diz Paul, envolvendo Liv com o braço numa atitude protetora. — Vamos tirar você daqui.
O meirinho se aproxima, tentando passar no meio do mar de gente. Coloca-se na frente dela, barrando o seu caminho, um pouco ofegante depois do esforço daquele curto deslocamento.
— Aqui, senhora — diz e lhe entrega o quadro. — Acho que isto é seu.
Os dedos de Liv se cerram em volta da moldura dourada. Ela olha para Sophie, com aquele cabelo vibrante no tribunal mal iluminado, o sorriso inescrutável como sempre.
— Acho que seria melhor sairmos pelos fundos — acrescenta o homem e aparece um segurança ao seu lado, impelindo-os para a porta, já falando no walkie-talkie.
Paul faz menção de se adiantar, mas ela segura seu braço, impedindo-o.
— Não — diz. Ela respira fundo e endireita os ombros, para parecer só um pouquinho mais alta. — Dessa vez, não. Vamos sair pela frente.

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Boa leitura :)