15 de novembro de 2017

Capítulo 35

1917

Fui descarregada algum tempo depois do amanhecer. Não sei quanto tempo passamos na estrada: a febre me atacara e meus dias e meus sonhos se confundiam de modo que eu já não sabia direito se ainda estava viva, ou, como um espectro, eu transitava de uma realidade a outra. Quando fechava os olhos, via minha irmã levantando as persianas da janela do bar, virando para mim com um sorriso, o sol iluminando seu cabelo. Via Mimi rindo. Via Édouard, seu rosto, suas mãos, ouvia sua voz em meu ouvido, macia e íntima. Eu esticava o braço para tocar nele, mas ele sumia e eu acordava no chão do caminhão, os olhos no nível das botas de um soldado, a cabeça latejando de dor quando passávamos nos buracos da estrada.
Via Liliane.
Seu corpo estava estirado na estrada de Hannover, no lugar em que eles a haviam jogado, xingando, como se ela fosse um saco de areia. Desde essa hora, eu estava toda salpicada de sangue e coisas piores lançadas dela. Eu tinha as roupas manchadas disso. Sentia esse gosto na boca. Os resíduos haviam coagulado no chão de onde eu já não tinha energia para me levantar. Eu já não sentia os piolhos que me comiam. Estava entorpecida. Não me sentia mais viva que o cadáver de Liliane.
O soldado na minha frente ia sentado o mais longe possível de mim, furioso por estar com o uniforme sujo, pela bronca que recebera do superior por ter tido a arma roubada por Liliane. Tinha o rosto virado para a aba de lona que deixava o ar de fora entrar. Eu via o seu olhar: transmitia nojo. Eu já não era um ser humano para ele. Tentei me lembrar de quando eu tinha sido mais que uma coisa, quando até numa cidade cheia de alemães eu tinha dignidade, inspirava algum respeito, mas era difícil. Meu mundo todo agora parecia ser aquele caminhão. Aquele chão frio de aço. Aquela manga de lã, manchada de vermelho.
O caminhão foi roncando e sacolejando noite afora, fazendo breves paradas. Eu perdia e recobrava a consciência, despertada apenas pela dor ou a violência da febre. Aspirava o ar frio, fumaça de cigarro, ouvia os homens falarem na cabine à frente e me perguntava se algum dia eu tornaria a ouvir uma voz francesa.
Então, de manhãzinha, ele parou de chofre. Abri os olhos, sem conseguir me mexer, e escutei o jovem soldado saltar. Ouvi o gemido que deu ao se esticar, o clique de um isqueiro, vozes alemãs conversando. Ouvi o ruído vigoroso e indelicado de homens se aliviando, pássaros cantando e folhas farfalhando.
Eu sabia que morreria ali, e, na verdade, já nem ligava.
Meu corpo inteiro doía, minha pele formigava de febre, eu sentia dor nas articulações, a cabeça pesada. A aba de lona foi levantada e a traseira, aberta.
Um guarda ordenou que eu saltasse. Mal conseguia me mexer, mas ele me puxou pelo braço, como se puxaria uma criança rebelde. Meu corpo estava tão leve que eu quase voei do caminhão.
Um denso nevoeiro envolvia a manhã, e, através da névoa, dava para ver uma cerca de arame farpado, os vastos portões. Em cima, estava escrito: “STRÖHEN”. Eu sabia o que era.
Outro guarda me fez sinal para ficar onde eu estava e dirigiu-se a uma guarita. Houve uma discussão lá dentro, e um deles inclinou-se para fora e olhou para mim. Além dos portões, eu via fileira após fileira de longos galpões de fábrica. Era um lugar desolado e monótono, com um ar de sofrimento, e quase se sentia a inutilidade no ar. Em cada canto, havia uma torre de vigia com um mirante, para evitar fugas. Essa preocupação não tinha razão de ser.
Conhece a sensação de resignação com o próprio destino? É quase de gratidão. A pessoa não vai mais sofrer, ter medo, desejar que algo aconteça. É a morte da esperança que vem como o maior alívio. Em breve, eu poderia estar abraçada com Édouard. Nós estaríamos juntos em outra vida, porque eu tinha certeza de que, se Deus era bom, Ele não seria cruel a ponto de nos privar desse consolo.
Percebi vagamente uma discussão intensa na guarita. Um homem saiu e pediu meus documentos. Estava tão fraca que só na terceira tentativa consegui pegá-los no bolso. Ele fez sinal para eu mostrar o meu cartão de identificação.
Como eu estava infestada de piolhos, ele não queria me tocar.
Anotou algo em sua lista e rosnou em alemão para o guarda que me segurava. Eles conversaram rapidamente. As palavras me chegavam cortadas, e eu já não tinha certeza se eram eles falando mais baixo ou minha mente me traindo. Eu agora estava afável e obediente como um cordeiro. Um objeto, pronto para ir aonde me mandassem. Eu não queria mais pensar. Não desejava mais imaginar que novos horrores vinham pela frente. A febre zumbia na minha cabeça, meus olhos ardiam. Eu estava muito cansada. Ouvia a voz de Liliane e sabia vagamente que, enquanto vivesse, eu ainda devia ter medo: Você não tem ideia do que eles farão conosco. Mas, de alguma forma, eu não podia estimular meu medo. Se o guarda não estivesse a meu lado, segurando meu braço, eu poderia simplesmente ter caído no chão.
Os portões foram abertos para deixar um veículo sair e então fechados de novo. Eu viajava no tempo. Fechei os olhos e me vi de repente sentada num café em Paris, a cabeça inclinada para trás, sentindo o sol no rosto. Meu marido estava sentado a meu lado, sua gargalhada estrondosa me enchendo os ouvidos, sua mão enorme procurando a minha sobre a mesa.
Ah, Édouard, eu chorava em silêncio, tremendo na friagem do amanhecer. Rezo para que tenha escapado desse sofrimento. Rezo para que tenha sido fácil para você.
Tornei a ser puxada para a frente. Alguém gritou comigo. Tropecei nas saias, de alguma forma ainda agarrada à minha bolsa. Os portões tornaram a ser abertos, e fui jogada bruscamente no campo. Quando cheguei à segunda guarita, o guarda me parou de novo.
Apenas me coloque no galpão. Deixe eu me deitar.
Eu estava muito cansada. Via a mão de Liliane, a forma precisa, premeditada com que ela encostara a arma na cabeça dela. Seus olhos fixos nos meus nos últimos segundos de sua vida. Eram buracos negros infinitos, janelas para um abismo. Ela não sente nada agora, eu disse a mim mesma, e alguma parte de mim que ainda funcionava reconhecia que o que eu sentia era inveja.
Enquanto eu tornava a guardar o cartão de identificação no bolso, minha mão encostou nos dentes do caco de vidro, e senti um indício de reconhecimento.
Eu podia levar aquela ponta à minha garganta. Sabia qual era a veia, exatamente o quanto de pressão aplicar. Lembrei-me de como o porco havia se contraído em St Péronne, um golpe rápido e seus olhos tinham se fechado no que pareceu um êxtase silencioso. Fiquei ali parada e deixei a ideia se consolidar na minha cabeça. Eu podia fazer isso antes de eles sequer perceberem o que eu fizera. Eu podia me libertar.
Você não tem ideia do que eles farão conosco.
Meus dedos se fecharam. Então ouvi aquilo.
Sophie.
Aí vi que a libertação estava chegando. Larguei o caco. Então era isso. A doce voz do meu marido me conduzindo para casa. Quase cheguei a sorrir, tamanho era o meu alívio. Cambaleei um pouco ao deixar aquilo ressoar em mim.
Sophie.
Tentei focar, e de repente o mundo parou, tudo em silêncio ao meu redor. Os alemães estavam mudos, os motores pararam, as próprias árvores pararam de sussurrar. E vi que o prisioneiro vinha mancando na minha direção, sua silhueta estranha, seus ombros pele e osso, mas seu passo determinado, como se um ímã o estivesse puxando para mim. E comecei a tremer convulsamente, como se meu corpo soubesse antes de mim.
— Édouard?
Minha voz saiu como um grasnido. Eu não estava acreditando. Não ousava acreditar.
— Édouard?
E ele estava arrastando os passos, quase correndo agora, o guarda apertando o passo atrás dele. E fiquei paralisada, ainda temendo que aquilo fosse uma brincadeira terrível, que eu acordaria e me veria de novo na traseira do caminhão, com uma bota ao lado da minha cabeça. Por favor, Deus, você não pode ser tão cruel.
E ele parou, a alguns passos de mim. Muito magro, o rosto abatido, o lindo cabelo raspado, cicatrizes no rosto. Mas, meu Deus, o rosto dele. O rosto dele.
Meu Édouard. Era demais. Voltei-me para o céu, a bolsa me caiu da mão, e desabei no chão. Senti, então, os braços dele me envolvendo.
— Sophie. Minha Sophie. O que fizeram com você?

* * *

Édith Béthune se recosta na cadeira de rodas no tribunal em silêncio. Um meirinho traz água para ela, e ela agradece com um aceno de cabeça. Até os repórteres pararam de escrever: estão ali sentados, as canetas paradas, boquiabertos.
— Não sabíamos nada do que tinha acontecido com ela. Eu achava que ela havia morrido. Uma nova rede de informações surgiu vários meses depois que minha mãe foi levada embora, e recebemos a notícia de que ela fazia parte de um grupo de pessoas que haviam morrido nos campos. Hélène passou um mês chorando depois de ouvir a notícia.
“Então, um dia, eu vinha descendo de manhãzinha, pronta para começar os preparativos do dia — eu ajudava Hélène na cozinha —, e vi uma carta, passada por debaixo da porta do Le Coq Rouge. Eu já ia pegá-la, mas Hélène estava atrás de mim e pegou-a primeiro.
“‘Você não viu isso’, disse ela, e fiquei chocada, porque ela nunca fora tão brusca comigo antes. Tinha ficado completamente branca. ‘Está me ouvindo? Você não viu isso, Édith. Não é para contar a ninguém. Nem mesmo a Aurélien. Especialmente a ele.’
“Fiz que sim com um gesto de cabeça, mas não me mexi. Eu queria saber o que havia na carta. Ela encostou no balcão, com o rosto iluminado pela luz da manhã, e suas mãos tremiam tanto que eu não sabia como ela conseguia ler as palavras. Então, ela se encurvou, tapando a boca com a mão, e começou a soluçar baixinho. ‘Ah, obrigada, Deus, ah, obrigada, Deus.’
“Eles estavam na Suíça. Tinham documentos de identidade falsos, dados a título de ‘serviços ao estado alemão’, e foram levados para uma floresta perto da fronteira suíça. Sophie estava tão doente que Édouard teve que carregá-la nos vinte e quatro quilômetros finais até o ponto de controle. O guarda que os levou de carro informou-lhes que não deviam entrar em contato com ninguém na França, do contrário correriam o risco de revelar quem os havia ajudado. A carta estava assinada ‘Marie Leville’.”
Ela olhou ao redor do tribunal.
— Eles continuaram na Suíça. Sabíamos que ela nunca poderia voltar a St Péronne, tão forte era o sentimento em relação à ocupação alemã. Se ela aparecesse fariam perguntas. E, claro, a essa altura eu entendera quem os havia ajudado a fugir.
— Quem foi, senhora?
Ela contrai os lábios, como se mesmo agora lhe custasse dizer isso.
— O Kommandant Friedrich Hencken.
— Perdoe-me — diz o juiz. — Essa é uma história extraordinária. Mas não entendo como tem relação com a perda do quadro.
Édith Béthune se recompõe.
— Hélène não me mostrou a carta, mas eu sabia que aquilo a preocupava. Ela ficava nervosa quando Aurélien estava por perto, embora ele passasse pouquíssimo tempo no Le Coq Rouge depois da partida de Sophie. Era como se não suportasse ficar ali. Mas então, dois dias depois, quando ele já havia saído, e as crianças dormiam no quarto ao lado, ela me chamou. “Édith, preciso que você faça uma coisa para mim.”
“Ela estava sentada no chão, e o retrato de Sophie estava apoiado numa das mãos. Olhava para a carta em sua mão, como se conferindo algo, balançou ligeiramente a cabeça, e depois, com giz, escreveu várias palavras no verso. Inclinou o corpo para trás, como se confirmando ter escrito corretamente. ‘Herr Kommandant está caçando no bosque hoje à tarde. Preciso que leve isso para ele.’
“‘Nunca’, respondi. Eu odiava aquele homem com todas as forças. Ele fora o responsável pela perda da minha mãe.
“‘Faça o que estou mandando. Preciso que leve isso para Herr Kommandant.’
“‘Não’. Eu não tinha mais medo dele. Ele já me fizera o pior. Mas eu não queria passar um segundo na companhia dele.
“Hélène olhava para mim, e acho que via quão séria eu estava. Puxou-me para ela, e nunca a vi com uma expressão mais decidida. ‘Édith, o Kommandant tem que ter esse quadro. Você e eu podemos querer que ele morra, mas precisamos respeitar...’, ela hesitou, ‘os desejos de Sophie.’
“‘Leve você.’
“‘Não posso. Se eu levar, a cidade vai falar, e não podemos arriscar que meu nome seja destruído como foi o da minha irmã. Além do mais, Aurélien vai perceber que algo está acontecendo. E ele não deve saber a verdade. Ninguém deve saber, pela segurança dela e pela nossa. Você leva?’
“Não tive escolha. Naquela tarde, quando Hélène me deu o sinal, peguei o quadro e fui com ele debaixo do braço pelo beco, atravessei o terreno baldio e cheguei à floresta. O quadro era pesado e a moldura entrava debaixo do meu braço. Ele estava lá com outro oficial. Ver os dois com as pistolas nas mãos me deixou com as pernas bambas de medo. Quando me viu, ele mandou o outro homem embora. Andei devagar no meio das árvores, os pés frios no chão gelado da floresta. Ele parecia meio aflito quando cheguei, e me lembro de ter pensado: ótimo, espero deixá-lo aflito para sempre.
“‘Deseja falar comigo?’, disse ele.
“Eu não queria entregar o quadro. Não queria que ele tivesse uma única coisa. Ele já tomara as duas coisas mais preciosas da minha vida. Eu odiava aquele homem. E acho que foi quando tive a ideia. ‘Tia Hélène diz que devo lhe dar isto.’
“Ele pegou o quadro e desembrulhou-o. Olhou para ele, desconfiado, e depois virou-o de costas. Quando viu o que estava escrito, aconteceu algo estranho com seu rosto. Ele amoleceu, só por um instante, e seus olhos azul-claros pareceram úmidos, como se ele fosse chorar de alegria.
“‘Danke’, disse ele baixinho. ‘Dankeschön.’
“Ele virou o quadro para contemplar o rosto de Sophie, depois tornou a virá-lo, lendo as palavras para si mesmo. ‘Danke’, disse baixinho, para ela ou para mim, não tive certeza.
“Eu não suportava ver a felicidade dele, seu absoluto alívio quando ele arruinara qualquer chance de felicidade para mim. Eu odiava aquele homem mais do que qualquer pessoa. Ele destruíra tudo. E ouvi a minha voz, clara como um sino no ar parado. ‘Sophie morreu’, eu disse. ‘Morreu depois que recebemos as instruções dela para lhe dar o quadro. Ela morreu de gripe espanhola nos campos.’
“Ele realmente estremeceu com o choque. ‘O quê?’
“Não sei de onde isso veio. Falei com desembaraço, sem medo do que poderia acontecer. ‘Ela morreu. Porque foi levada embora. Justo depois de ter lhe mandando essa mensagem.’
“‘Tem certeza?’ A voz dele ficou embargada. ‘Quero dizer, talvez haja relatórios...’
“‘Absoluta. Acho que eu não devia ter lhe contado. É segredo.’
“Fiquei ali parada, com o coração de pedra, e observei-o olhando o quadro, parecendo realmente envelhecido com o sofrimento, tornando-se fisicamente flácido diante de mim.
“‘Espero que goste do quadro’, eu disse e depois voltei devagar pela floresta para o Le Coq Rouge. Não acredito que algum dia sentiria medo de qualquer outra coisa.
“Herr Kommandant ficou ainda nove meses em nossa aldeia. Mas nunca mais pôs os pés no Le Coq Rouge. Senti isso como uma vitória.”
O tribunal está em silêncio. Os repórteres olham para Édith Béthune. É como se a história tivesse de repente ganhado vida ali, naquela pequena câmara.
A voz do juiz, desta vez, é delicada.
— Senhora. Poderia nos contar o que estava escrito atrás do quadro? Parece ser um ponto bastante relevante. Pode se lembrar com clareza?
Édith Béthune olha em volta para os bancos lotados.
— Ah, sim. Eu me lembro com muita clareza. Lembro porque não consegui entender o que significava. Dizia, escrito a giz: “Pour Herr Kommandant, qui comprendra: pas pris, mais donné.” Ela faz uma pausa. “Para Herr Kommandant, que entenderá: não tomado, mas sim doado.”

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Boa leitura :)