20 de novembro de 2017

Capítulo 34


O aeromóvel, a uma velocidade acima de RI 7, percorreu os túneis forrados de aço e levou-os de volta à aterradora superfície do planeta, onde mais uma vez raiava uma melancólica madrugada. Uma luz cinzenta e fantasmagórica congelava-se sobre a superfície do planeta.
R é uma unidade de velocidade definida como uma velocidade razoável para se viajar, compatível com a saúde física e mental dos viajantes e garantindo um atraso não maior do que cinco minutos, mais ou menos. É, por conseguinte, uma grandeza quase infinitamente variável, que depende das circunstâncias, já que os dois primeiros fatores variam não apenas em função da velocidade absoluta do veículo, mas também em função da consciência do terceiro fator. A menos que seja abordada tranquilidade, essa equação pode resultar em estresse, úlceras e até mesmo morte.
RI7 não é uma velocidade definida, mas é sem dúvida excessivamente alta.
O aeromóvel saiu do túnel a mais de RI7, largou seus passageiros ao lado
da nave Coração de Ouro, que se destacava daquele chão congelado como se fosse um osso ressecado, e mais que depressa voltou para as bandas de onde eles tinham vindo, para cuidar de sua própria vida.
Trêmulos, os quatro encararam a nave. Ao lado dela estava pousada uma outra.
Era uma nave policial de Kappa de Blagulon. Parecia um tubarão inchado, verde-ardósia, coberto de letras negras dos mais variados tamanhos, todas igualmente antipáticas. A inscrição informava a todos os interessados de onde era aquela nave, qual a seção da polícia que a utilizava e onde deviam ser feitas as conexões de força.
De algum modo, parecia anormalmente escura e silenciosa, mesmo sabendo-se que sua tripulação de dois membros estava naquele momento morta por asfixia numa câmara enfumaçada muitos quilômetros abaixo da superfície. É uma dessas coisas curiosas, que não há como explicar nem definir, mas o fato é que dá para sentir quando uma nave está completamente morta.
Ford sentia isso, e achava tudo muito misterioso — a nave e seus dois tripulantes pareciam ter morrido espontaneamente. De acordo com sua experiência, o Universo simplesmente não funciona assim.
Os outros três também sentiam isso, mas sentiam ainda mais o frio desgraçado que estava fazendo, e correram para dentro da nave Coração de Ouro, com um forte ataque de ausência de curiosidade.
Ford ficou lá fora e resolveu examinar a nave de Blagulon. Enquanto caminhava, quase tropeçou numa figura inerte, deitada de bruços na poeira fria.
— Marvin! — exclamou ele. — O que você está fazendo?
— Não fique achando que você tem obrigação de se importar comigo, por favor — disse Marvin, com uma voz monótona e abafada.
— Mas como é que você está, sua lata velha? — perguntou Ford.
— Deprimidíssimo.
— O que houve?
— Eu nem sabia que tinha havido alguma coisa — disse Marvin.
— Por que — indagou Ford, acocorando-se ao lado do robô, tremendo de frio— você está deitado de bruços na poeira?
— Pra quem está com o astral lá embaixo, é um prato cheio. —disse Marvin. — Não finja que você está com vontade de falar comigo.
— Eu sei que você me odeia.
— De jeito nenhum.
— Odeia, sim, você e todo mundo. Faz parte da estrutura do Universo. É só eu falar com uma pessoa que na mesma hora ela me odeia. Até os robôs me odeiam. É só você me ignorar que eu provavelmente vou desaparecer do mapa.
O robô levantou-se e ficou olhando para o outro lado, irredutível
— Aquela nave me odiava — disse, apontando para a nave policial.
— Aquela nave? — perguntou Ford, subitamente animado.
— O que aconteceu com ela? Você está sabendo?
— Ela passou a me detestar porque falei com ela.
— Você falou com ela? Como assim?
— Muito simples. Eu estava muito entediado e deprimido, e aí me liguei na entrada externa do computador. Conversei por muito tempo com o computador e expliquei a ele a minha concepção do Universo — disse Marvin.
— E o que aconteceu? — insistiu Ford.
— Ele se suicidou — disse Marvin, e foi caminhando em direção à nave Coração de ouro.

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