15 de novembro de 2017

Capítulo 34

Henry está esperando por ela na entrada dos fundos. Há câmeras de televisão, bem como manifestantes na frente do Supremo Tribunal para o último dia. Ele lhe avisara que isso aconteceria. Ela salta de um táxi e, quando ele nota o que ela está trazendo, seu sorriso se transforma num esgar.
— Isso é o que eu estou... Você não tinha que fazer isso! Se a gente perder, demos motivo para eles mandarem a segurança atrás de nós. Nossa, Liv! Você não pode simplesmente carregar uma obra de arte de milhões de libras por aí feito um pedaço de pão.
As mãos de Liv seguram o quadro com força.
— Paul está aí?
— Paul?
Ele a faz andar depressa para o fórum, como um médico leva uma criança doente para um hospital.
— McCafferty.
— McCafferty? Não tenho ideia. — Ele torna a olhar para o embrulho. — Droga, Liv. Você podia ter me avisado.
Ela passa atrás dele pela Segurança e entra com ele no corredor. Ele chama o guarda e faz um gesto indicando o quadro. O guarda faz uma expressão estarrecida, acena com a cabeça e fala algo no rádio. Um reforço da segurança parece estar a caminho. Só quando eles entram realmente no tribunal Henry começa a relaxar. Ele se senta, dá um longo suspiro, esfrega o rosto com as duas mãos. Então vira-se para Liv.
— Ainda não acabou — diz, sorrindo com tristeza para o quadro. — Isso não é um voto de confiança.
Ela não diz nada. Examina o tribunal, que está enchendo rapidamente em volta deles. Acima dela, na galeria pública, os rostos a olham, especulativos e impassíveis, como se ela própria estivesse sendo julgada. Ela tenta não fixar o olhar em ninguém. Vê Marianne vestida em tom de tangerina, os brincos de plástico combinando, e a mulher lhe dá um adeusinho, fazendo um gesto encorajador com os polegares para cima. Um rosto simpático num mar de olhares vazios. Ela vê Janey Dickinson se instalar mais adiante no banco, trocando algumas palavras com Flaherty. O barulho de passos arrastados, conversas educadas, cadeiras sendo puxadas e bolsas sendo largadas no chão enche a sala.
Os repórteres conversam amigavelmente uns com os outros, bebericando café em copos de isopor e dividindo anotações. Alguém empresta uma caneta a outra pessoa. Liv está tentando controlar uma sensação crescente de pânico. São nove e quarenta. Seus olhos estão fixos o tempo todo nas portas, aguardando Paul.
Tenha fé, ela pensa. Ele virá.
Diz a si a mesma coisa às nove e cinquenta, e às nove e cinquenta e dois. E depois, às nove e cinquenta e oito. Pouco antes de dar dez horas, o juiz entra. O tribunal se levanta. Liv se apavora. Ele não vem. Depois de tudo isso, ele não vem. Ai, Deus, não posso fazer isso se ele não estiver aqui. Ela se obriga a respirar fundo e fecha os olhos, tentando se acalmar.
Henry está folheando as pastas.
— Você está bem?
Parece que sua boca está cheia de pó.
— Henry — murmura ela.
— O quê?
— Posso dizer uma coisa? Para o tribunal? É importante.
— Agora? O juiz está prestes a anunciar o veredicto.
— Isso é importante.
— O que você quer dizer?
— Peça a ele. Por favor.
Ele demonstra incredulidade, mas algo no olhar dela o convence. Ele se inclina para a frente, murmurando algo para Angela Silver. Ela olha para Liv às suas costas, franzindo a testa, e, após um curto diálogo, levanta-se e pede licença para falar com o juiz. Christopher Jenks é convidado a se juntar a eles.
Enquanto advogados e juiz debatem em voz baixa, Liv sente as mãos começando a suar. Sua pele formiga. Ela olha em volta para o tribunal lotado. O ar de antagonismo silencioso é quase palpável. Ela segura o quadro com força.
Imagine que você é Sophie, diz a si mesma. Ela teria feito isso.
Finalmente, o juiz fala.
— Aparentemente, a Sra. Olivia Halston gostaria de se dirigir a este tribunal. — Ele olha para ela por cima dos óculos. — Prossiga, Sra. Halston.
Ela se levanta e vai para a frente do tribunal, ainda com o quadro debaixo do braço. Ouve cada passo no chão de madeira, está profundamente consciente de todos os olhos em cima dela. Henry, talvez ainda temeroso pelo quadro, está parado a alguns passos dela.
Ela respira fundo.
— Eu gostaria de dizer algumas palavras sobre A garota que você deixou para trás.
Para um instante, registrando a surpresa nos rostos ao seu redor e prossegue, com a voz sumida, titubeando ligeiramente no silêncio. Parece a voz de outra pessoa.
— Sophie Lefèvre era uma mulher corajosa e honrada. Eu acho... espero que isso tenha ficado claro pelo que já se ouviu aqui em juízo. — Ela se dá conta vagamente da presença de Janey Dickinson, riscando algo em seu caderno, os murmúrios de tédio dos advogados. Cerra os dedos em volta da moldura e se obriga a prosseguir. — Meu falecido marido, David Halston, também era um homem bom. Um homem muito bom. Acho agora que, se ele soubesse que o retrato de Sophie, o quadro que ele adorava, tinha essa... essa história, ele o teria devolvido há muito tempo. Minha contestação desta ação fez com que seu bom nome fosse retirado do prédio que era sua vida e seu sonho, e isso é uma fonte de imenso pesar para mim, porque este prédio, o Goldstein, deveria ter sido o seu memorial.
Ela vê os repórteres olharem, a onda de interesse que se propaga pela bancada deles. Muitos deles debatem, começam a escrever.
— Esta ação... e este quadro... destruíram o que deveria ser o legado dele, assim como destruíram o de Sophie. Os dois foram injustiçados. — Sua voz começa a ficar embargada. Ela olha em volta. — Por isso, eu gostaria que constasse nos autos que a decisão de contestar foi unicamente minha. Eu me enganei. Sinto muito. Só isso. Obrigada.
Ela dá dois passos canhestros para o lado. Vê os repórteres escrevendo furiosamente, um verificando a grafia de Goldstein. Dois advogados na bancada estão conversando em tom premente.
— Boa — diz Henry baixinho, inclinando-se para ela. — Você daria uma boa advogada.
Consegui, diz ela a si mesma em silêncio. David está publicamente associado ao prédio dele agora, o que quer que os Goldstein façam.
O juiz pede silêncio.
— Sra. Halston. Já acabou de antecipar o meu veredicto? — diz com cansaço.
Liv faz que sim com um gesto de cabeça. Sua garganta está seca. Janey está cochichando com seu advogado.
— E é este o quadro em questão?
— Sim. — Ela continua agarrada com ele, como um escudo.
O juiz se vira para o oficial de justiça.
— Alguém pode providenciar a guarda deste quadro? Não estou totalmente convencido de que ele deve continuar aqui. Sra. Halston?
Liv entrega o quadro. Só por um instante, seus dedos parecem relutar em soltá-lo. Como se, no íntimo, ela tivesse decidido ignorar as instruções. Quando finalmente solta o quadro, o meirinho fica ali em pé, paralisado por um instante, como se ela lhe tivesse entregado um objeto radiativo.
Sinto muito, Sophie, diz ela, e, subitamente exposta, a imagem da garota olha para ela.
Liv volta trôpega para seu lugar, o cobertor vazio embolado embaixo do braço, mal ouvindo o tumulto crescente à sua volta. O juiz está conversando com os dois advogados. Várias pessoas se dirigem às portas, repórteres de vespertinos talvez, e, lá em cima, a galeria pública fervilha com o debate. Henry toca em seu braço, murmurando algo sobre ela ter feito uma coisa boa.
Ela se senta, olha para o colo, para a aliança de casamento que fica girando no dedo, e se pergunta como é possível sentir-se tão vazia.
E então escuta.
— Com licença?
A frase é repetida duas vezes antes de ser ouvida no tumulto. Liv ergue os olhos, seguindo o olhar das pessoas em volta, e lá, na porta, está Paul McCafferty.
Ele usa uma camisa azul, a barba por fazer, e tem uma expressão indecifrável. Ele põe uma calçadeira na porta para deixá-la aberta e lentamente empurra uma cadeira de rodas para dentro do tribunal. Olha em volta, à procura dela, e de repente são só os dois ali. Você está bem?, ele pronuncia, e ela faz que sim com a cabeça, soltando a respiração que ela não se dava conta de estar prendendo.
Mais uma vez, ele se faz ouvir acima do barulho.
— Com licença? Meritíssimo?
O martelo bate na mesa como um tiro de arma de fogo. O tribunal fica em silêncio. Janey Dickinson se levanta e se vira para ver o que está acontecendo.
Paul está empurrando uma idosa numa cadeira de rodas pelo corredor central do tribunal. Ela é bastante idosa, encurvada como um cajado de pastor, as mãos pousadas numa pequena bolsa.
Outra mulher, bem-vestida, de azul-marinho, entra rapidamente atrás de Paul, e eles conversam em voz baixa. Ele aponta para o juiz.
— Minha avó tem uma informação importante em relação a este caso — diz a mulher. Ela fala com um forte sotaque francês, e, ao descer o corredor central, olha sem jeito para as pessoas dos dois lados.
O juiz joga as mãos para cima.
— Por que não? — murmura ele de forma audível. — Parece que todo mundo quer dar a sua opinião. Vamos ver se a faxineira vai querer manifestar a visão dela, por que não?
A mulher espera, e ele diz, exasperado:
— Ah, pelo amor de Deus, senhora. Queira aproximar-se.
Eles trocam algumas palavras, o juiz chama os dois advogados, e a conversa se estende.
— O que é isso? — fica dizendo Henry, ao lado de Liv. — Que diabo está acontecendo?
Um silêncio se instala no tribunal.
— Parece que devemos ouvir o que essa mulher tem a dizer — diz o juiz. Ele pega a caneta e folheia suas anotações. — Estou me perguntando se todos aqui vão estar interessados em algo tão trivial quanto um veredicto de verdade.
A cadeira da idosa é virada e posicionada diante do tribunal. Ela começa falando em francês, e sua neta traduz.
— Antes que o futuro do quadro seja decidido, há uma coisa que vocês precisam saber. Esta ação se baseia numa premissa falsa. — Ela faz uma pausa, se abaixando para ouvir as palavras da velha, depois se endireita de novo. — A garota que você deixou para trás nunca foi roubada.
O juiz se inclina um pouco para a frente.
— E como a senhora saberia disso?
Liv levanta o rosto para olhar para Paul. O olhar dele é direto, firme e estranhamente triunfante.
A idosa ergue uma das mãos, como se para dar permissão à neta de se retirar. Pigarreia e fala lenta e claramente, dessa vez em inglês.
— Por que fui eu quem o deu ao Kommandant Hencken. Meu nome é Édith Béthune.

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Boa leitura :)