15 de novembro de 2017

Capítulo 33

— Pensei que você já estivesse de saída. Jake está dormindo diante do America’s Funniest Home Videos. — Greg entra na cozinha descalço e bocejando. — Quer que eu arme a cama? Está meio tarde para arrastar o menino para casa.
— Seria ótimo. — Paul ergue os olhos dos arquivos do laptop aberto à sua frente.
— O que está fazendo? Estudando isso de novo? O veredicto sai mesmo segunda-feira? E... hã... você não acabou de largar o emprego?
— Tem algo que não vi. Eu sei. — Paul corre o dedo pela página, passando para a seguinte com impaciência. — Tenho que conferir as provas.
— Paul. — Greg puxa uma cadeira. — Paul! — fala um pouco mais alto.
— O quê?
— Acabou, irmão. E está tudo bem. Ela já o perdoou. Você fez o seu grande gesto. Acho que devia simplesmente deixar isso de lado agora.
Paul se recosta, arrasta as mãos sobre os olhos.
— Você acha?
— Falando sério? Você está com uma cara meio obsessiva.
Paul toma um gole de café. Está frio.
— Isso vai nos destruir.
— O quê?
— Liv adorava aquele quadro, Greg. E o fato de eu ser o responsável por tirarem o que era dela vai destruí-la. Talvez não agora, talvez nem mesmo em um ou dois anos. Mas isso vai acontecer.
Greg se encosta no fogão.
— Ela podia dizer o mesmo do seu trabalho.
— Estou tranquilo em relação ao trabalho. Já era hora de eu sair daquele lugar.
— E Liv disse que está tranquila com o quadro.
— É. Mas ela está encurralada. — Greg balança a cabeça frustrado, e Paul se debruça nos arquivos. — Eu sei como as coisas podem mudar, Greg; como as coisas que você jura que não vão incomodá-lo no início podem acabar destruindo o que é bom.
— Mas...
— E sei como a perda das coisas de que a gente gosta pode não sair da nossa cabeça. Não quero que Liv me olhe um dia se esforçando para não pensar: Você foi o cara que arruinou a minha vida.
Greg atravessa a cozinha calmamente e liga a chaleira. Faz três xícaras de café, e entrega uma a Paul. Põe a mão no ombro do irmão enquanto se prepara para levar as outras duas para a sala.
— Sei que gosta de consertar as coisas, meu irmão. Mas, sinceramente? Nesse caso você só vai ter que torcer para tudo dar certo.
Paul não o ouve.
— Lista de proprietários — resmunga para si mesmo. — Lista de proprietários atuais das obras de Lefèvre.

* * *

Oito horas depois, Greg acorda e vê o rosto de um garoto pairando sobre ele.
— Estou com fome — diz o menino e esfrega o nariz vigorosamente. — Você disse que aqui tinha sucrilhos, mas não estou encontrando.
— Armário de baixo — diz ele, atordoado. Não há luz entre as cortinas, ele repara vagamente.
— E não tem leite.
— Que horas são?
— Quinze para as sete.
— Puxa. — Greg se esconde embaixo do edredom. — Nem os cachorros acordam tão cedo. Peça ao seu pai para fazer.
— Ele não está aqui.
Greg abre os olhos devagar, fitando as cortinas.
— Como assim, não está aqui?
— Foi embora. Como o saco de dormir ainda está enrolado, acho que dormiu no sofá. Será que a gente pode comprar uns croissants naquela loja lá embaixo? De chocolate?
— Estou me levantando. Estou me levantando. Já me levantei.
Ele se levanta com muito esforço, esfrega a cabeça.
— E o Pirate fez pipi no chão.
— Ah. Ótimo. O sábado começa bem.

* * *

Paul realmente não está lá, mas deixou um bilhete na mesa da cozinha, escrito no verso de uma lista de provas judiciais e colocado em cima de um amontoado de papéis.

Tive que ir. Dá para ficar com Jake? Ligo depois.

— Está tudo bem? — pergunta Jake, estudando o semblante do tio.
A caneca marcou a mesa com um anel de café. Os papéis remanescentes estão espalhados, como se tivessem sofrido uma pequena explosão.
— Está tudo bem, Small Fry — diz Greg, desmanchando o cabelo do menino. Ele dobra o bilhete, guarda-o no bolso e começa a pôr alguma ordem nos papéis e pastas. — Olhe só, voto por fazermos panquecas para o café. Que tal a gente vestir o casaco por cima do pijama e ir na loja da esquina comprar uns ovos?
Quando Jake sai do quarto, Greg pega o celular e digita um SMS.

Se estiver aí trepando nesse instante, você me deve um grande favor.

Aguarda um pouco antes de enfiar o telefone no bolso, mas não há resposta.

* * *

O sábado é, felizmente, movimentado. Liv espera os compradores virem medir a casa, depois os construtores e o arquiteto deles examinarem a obra aparentemente sem fim que precisa ser feita. Ela anda em volta desses estranhos em sua casa, tentando ser prestativa e simpática na medida certa, como compete à vendedora da casa, e sem demonstrar seus verdadeiros sentimentos, que a fariam gritar “VÃO EMBORA!” e fazer gestos infantis para eles. Ela se distrai arrumando malas e limpando, consolando-se com pequenas tarefas domésticas.
Joga fora dois sacos de roupas velhas. Telefona para vários corretores de imóveis para alugar e, quando lhes diz a quantia de que dispõe para gastar, ouve um silêncio longo e desdenhoso.
— Eu já não a vi em algum lugar antes? — diz o arquiteto quando ela pousa o telefone no gancho.
— Não — diz ela depressa. — Acho que não.
Paul não liga.
Naquela tarde, ela vai até a casa do pai.
— Caroline fez o prato mais espetacular para o Natal — anuncia ele. — Você vai amar.
— Ah, ótimo — diz ela.
Eles almoçam salada e um prato mexicano. Caroline cantarola para si mesma enquanto come. O pai de Liv vai fazer um anúncio de seguro de carro.
— Aparentemente tenho que imitar um frango.
Ela tenta focar no que ele está dizendo, mas continua pensando em Paul, repassando o dia anterior na cabeça. No íntimo, está surpresa por ele não ter ligado. Ai, meu Deus. Estou virando uma daquelas namoradas pegajosas. E oficialmente não estamos juntos nem há vinte e quatro horas. Ela tem que rir do “oficialmente”.
Relutando em voltar para a Casa de Vidro, ela fica na casa do pai por muito mais tempo que de costume. Ele parece encantado, bebe demais, pega fotos em preto e branco dela, que encontrou enquanto arrumava uma gaveta. Elas passam algo estranhamente sólido: o lembrete de que havia toda uma vida antes desse processo, antes de Sophie Lefèvre, de uma casa que ela não pode bancar e de um terrível dia definitivo se aproximando no tribunal.
— Que criança linda.
A cara aberta e sorridente no retrato lhe dá vontade de chorar. Seu pai a envolve com o braço.
— Não fique muito nervosa na segunda-feira. Sei que tem sido difícil. Mas estamos muito orgulhosos de você, sabe?
— Por quê? — diz ela assoando o nariz. — Eu falhei, pai. A maioria das pessoas acha que eu nem devia ter tentado.
O pai a puxa para junto dele. Ele cheira a vinho tinto e a uma parte da vida dela que parece um milhão de anos atrás.
— Simplesmente porque você vai tocando o barco, de verdade. Às vezes, minha querida, isso em si é heroico.

* * *

São quase quatro e meia quando ela liga para ele. Passaram-se quase vinte e quatro horas, ela raciocina. E, sem dúvida, as normas que geralmente regem o namoro não se aplicam quando um dos envolvidos abriu mão de metade da vida dele por você. Seu coração bate um pouquinho mais forte quando ela liga: já antecipa o som da voz dele. Imagina-se com ele, mais tarde naquela noite, os dois enroscados no sofá do pequeno apartamento dele, talvez jogando cartas com Jake no tapete. Mas a secretária eletrônica atende depois de três toques. Liv desliga depressa, com uma aflição estranha, depois se amaldiçoa por ser infantil.
Sai para correr, toma um banho, faz um chá para Fran (“O último só tinha dois torrões de açúcar”), senta-se ao lado do telefone e finalmente torna a ligar às seis e meia. Mais uma vez, cai direto na secretária eletrônica. Ela não tem o número do seu telefone fixo. Será que devia simplesmente ir à casa dele? Ele poderia estar na casa de Greg. Mas também não tem o telefone de Greg, ela se dá conta. Andara tão desorientada com os acontecimentos de sexta-feira quando chegaram lá que nem se lembra direito do endereço exato.
Isso é ridículo, diz a si mesma. Ele vai ligar.
Ele não liga.
Às oito e meia, sabendo que não é capaz de enfrentar o resto da noite em casa, levanta-se, veste o casaco e pega as chaves.

* * *

É uma caminhada curta até o bar de Greg, mais curta ainda quando alguém está de tênis e vai quase correndo. Ela empurra a porta e depara com uma parede de barulho. No pequeno palco à esquerda, um homem vestido de mulher canta com a voz rouca numa batida disco, acompanhado de assobios estridentes de um público extasiado. Na outra extremidade, as mesas estão lotadas, os espaços entre elas apinhados de corpos rijos, vestidos com roupas justas.
Ela leva alguns minutos para vê-lo, movimentando-se com agilidade no bar, com um pano de prato pendurado no ombro. Ela consegue passar e chegar até o balcão, meio espremida embaixo da axila de alguém, e grita o nome dele.
Ele custa a ouvi-la. Até que se vira. O sorriso dela congela: a expressão dele é estranhamente fria.
— Bem, esta é uma boa hora para aparecer.
Ela pisca.
— Perdão?
— Quase nove horas? Vocês estão de brincadeira comigo?
— Não sei do que você está falando.
— Fiquei com ele o dia inteiro. Era para Andy sair hoje à noite. Mas ele teve que cancelar para ficar em casa tomando conta de criança. Posso dizer que ele não está contente.
Liv se esforça para ouvi-lo acima do barulho do bar. Greg levanta a mão e se inclina para a frente para anotar o pedido de alguém.
— Quero dizer, você sabe que nós adoramos Paul, certo? — diz ele quando volta. — Morremos de paixão por ele. Mas nos usar como primeira opção de babá...
— Estou procurando por ele — diz ela.
— Ele não está com você?
— Não. E não está atendendo o telefone.
— Eu sei que ele não está atendendo o telefone. Pensei que fosse porque estava com... Ah, isso é uma loucura. Venha aqui dentro. — Ele levanta a tampa do balcão para ela passar espremida e levanta as mãos ao ouvir o clamor das queixas dos clientes que aguardam ser atendidos. — Dois minutos, pessoal. Dois minutos.
No minúsculo corredor da cozinha, o ritmo atravessa as paredes, fazendo os pés de Liv vibrarem.
— Mas aonde ele foi?
— Não sei. — A raiva de Greg evaporou. — Acordamos e encontramos um bilhete hoje de manhã dizendo que ele precisou sair. Só isso. Ele estava meio esquisito ontem à noite depois que você foi embora.
— Como assim, esquisito?
Ele parece evasivo, como se já tivesse falado demais.
— Como assim?
— Estava diferente. Ele leva essas coisas muito a sério. — Ele morde o lábio.
— Que coisas?
Greg parece sem jeito.
— Bem, ele... ele disse que achava que esse quadro ia estragar qualquer chance que vocês tinham de ter uma relação.
Liv olha para ele.
— Você acha que ele...
— Tenho certeza de que ele não teve intenção...
Mas Liv já está abrindo caminho para sair do bar.

* * *

Vazia de tudo. O domingo não termina nunca. Liv está sentada na casa silenciosa, o telefone silencioso, a cabeça a mil, e aguarda o fim do mundo.
Liga para o celular dele mais uma vez, depois desliga bruscamente quando cai na caixa postal.
Ele esfriou.
Claro que não.
Ele parou para pensar em tudo o que está abrindo mão para ficar comigo.
Você precisa confiar nele.
Ela deseja que Mo estivesse ali.
A noite chega, o céu está ameaçador, sufocando a cidade num denso nevoeiro. Ela não consegue assistir à televisão, dorme e acorda o tempo todo, levanta às quatro da manhã completamente tomada por pensamentos confusos.
Às cinco e meia, ela desiste, enche a banheira e fica algum tempo ali deitada, olhando pela claraboia para o céu escuro. Seca o cabelo cuidadosamente e veste uma blusa cinza com uma saia risca de giz que David uma vez dissera adorar nela. Ele achava que o conjunto fazia com que ela se parecesse com uma secretária, como se isso fosse um elogio. Ela acrescenta umas pérolas falsas e a aliança de casamento. Maquia-se com cuidado. Está agradecida por conseguir esconder as olheiras, a pele pálida e cansada.
Ele virá, diz a si mesma. A gente tem que ter fé em alguma coisa.
À sua volta, o mundo acorda devagar. A Casa de Vidro está envolta na bruma, realçando sua sensação de isolamento do restante da cidade. Lá embaixo, o congestionamento do tráfego, visível apenas quando os pontinhos vermelhos das luzes dos freios andam lentamente, como sangue em artérias entupidas. Ela toma um café e come meia torrada. O rádio fala de engarrafamentos em Hammersmith e de um complô para envenenar um político na Ucrânia. Quando termina, ela arruma e seca a cozinha até deixá-la brilhando.
Então, pega um cobertor velho no armário e enrola-o cuidadosamente em volta de A garota que você deixou para trás. Dobra-o como se estivesse embrulhando um presente, mantendo o retrato virado de costas para ela para não ter que ver o rosto de Sophie.

* * *

Fran não está em sua caixa. Está sentada num balde emborcado, olhando para o rio do outro lado da rua, desembaraçando um barbante que dá centenas de voltas num enorme maço de sacolas de supermercado.
Ela olha quando Liv chega com duas canecas, depois olha para o céu. Ele desabou em volta delas em gotas grossas, abafando o som, encerrando o mundo na margem do rio.
— Não está correndo?
— Não.
— Estranho.
— Aparentemente, tudo em mim está estranho.
Liv lhe entrega um café. Fran dá um gole, grunhe de prazer, depois olha para ela.
— Não fique aí em pé, então. Pode se sentar.
Liv olha em volta e se dá conta de que Fran está apontando para um pequeno caixote de leite. Ela o puxa e se senta. Um pombo atravessa a calçada na sua direção. Fran enfia a mão numa sacola de papel amassada e joga uma casca de pão. É estranhamente sossegado ali, ouvindo o Tâmisa lamber delicadamente a praia, o barulho do tráfego ao longe. Liv pensa com ironia no que os jornais diriam se pudessem ver a companheira de café da manhã da viúva socialite. Uma barca surge na bruma e passa silenciosamente, suas luzes desaparecendo no amanhecer cinzento.
— Sua amiga foi embora, então.
— Como você sabe?
— O tempo que passo aqui sentada dá para eu saber de tudo. A gente escuta, entendeu? — Ela bate na cabeça. — Ninguém escuta mais. Todo mundo sabe o que quer ouvir, mas ninguém realmente escuta.
Ela para um instante, como se lembrasse de algo.
— Vi você no jornal.
Liv sopra seu café.
— Acho que Londres inteira já me viu no jornal.
— Está guardado. Na minha caixa. — Ela diz gesticulando. — É ele? — Aponta para o embrulho que Liv segura embaixo do braço.
— É. — Ela toma um gole. — É sim. — Ela espera Fran dar a sua própria versão do crime, listar as razões pelas quais ela nunca deveria ter tentado guardar o quadro, mas a mulher não diz nada. Em vez disso, funga e olha para o rio.
— É por isso que não gosto de ter muita coisa. Quando eu estava no abrigo, as pessoas viviam afanando o que a gente tinha. Não importava onde a gente deixasse. Embaixo da cama, no armário, elas esperavam a gente sair, e aí vinham e pegavam. A tal ponto que a gente não queria sair, de medo de perder as coisas. Imagine só.
— Imaginar o quê?
— O que a gente perde. Só tentando se agarrar a umas poucas coisas.
Liv olha para o rosto marcado e curtido de Fran, de repente coberto de prazer ao pensar na vida de que já não sente falta.
— É uma espécie de loucura — diz Fran.
Liv olha para o rio cinzento, e inesperadamente seus olhos ficam cheios d’água.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)