20 de novembro de 2017

Capítulo 32

Emergênáal Emergência! — ouvia-se em todo o planeta.
Nave inimiga aterrissou no planeta. Invasores armados na seção 8A. Postos de defesa, postos de defesa.
Os dois ratos fungavam, irritados, cercados dos cacos de seus recipientes de vidro, quebrados no chão.
— Droga — disse o rato Frankie. — Tanta confusão por causa de um quilo de cérebro de terráqueo. — Seus olhos rosados estavam cheios de cólera; seu belo pêlo branco estava eriçado de eletricidade estática.
— A única saída agora — disse Benjy, acocorado e cocando os bigodes pensativamente — é tentar inventar uma pergunta que pareça plausível.
— Vai ser difícil — disse Frankie. — Que tal o que é, o que é, que é amarelo e perigoso?
Benjy pensou por alguns instantes.
— Não, não serve — disse. — Não casa com a resposta. Por alguns segundos, permaneceram em silêncio.
— Está bem — disse Benjy. — Quanto dá seis vezes sete?
— Não, muito literal, muito objetivo — disse Frankie. — Não vai despertar o interesse do público.
Pensaram mais um pouco. Então Frankie disse:
— Que tal Quantos caminhos é preciso caminhar?*
— Arrá! — exclamou Benjy. — Essa parece promissora! — repetiu a frase, saboreando-a. — É, essa é excelente, mesmo! Parece uma coisa muito importante, mas ao mesmo tempo não quer dizer nada de muito específico. Quantos caminhos é preciso caminhar? Quarenta e dois. Excelente, excelente! Com essa a gente enrola todo mundo. Frankie, meu rapaz, estamos feitos!
E dançaram entusiasmados.
Perto deles, no chão, havia alguns homens mal-encarados que tinham sido golpeados na cabeça com pesados troféus de acrílico.
A um quilômetro dali, quatro figuras corriam por um corredor, tentando achar uma saída. Saíram numa sala espaçosa cheia de portas, onde havia um terminal de computador. Olharam ao redor, confusos.
— Pra onde vamos, Zaphod? — perguntou Ford. Eu chutaria por ali — disse Zaphod, correndo entre o terminal e a parede. Antes que os outros saíssem atrás dele, Zaphod parou imediatamente quando uma faísca de Raio-da-Morte estalou alguns centímetros à sua frente, fritando um pedaço da parede.
Ouviu-se uma voz forte ampliada, dizendo.
Pare aí mesmo, Beeblebrox. Você está encurralado.
— Os tiras! — sibilou Zaphod, acocorando-se e virando-se para trás. — Você tem alguma sugestão, Ford?
— Por aqui — propôs Ford, e os quatro se enfiaram numa passagem entre dois painéis do terminal.
No final da passagem havia uma figura com um traje espacial à prova de qualquer projétil, com uma tremenda arma de Raio-da-Morte na mão.


* No original, How many roads must a man walk down, primeiro verso de
Blowin' in the Wind, canção de Bob Dylan. (N.T.)


— Não queremos atirar em você, Beeblebrox! — gritou a figura.
— Ótimo! — gritou Zaphod, e enfiou-se     entre   duas unidades de processamento de dados.
— Os outros foram atrás dele.
— Eles são dois — disse Trillian. — Estamos encurralados. Espremeram-se entre um grande banco de dados e a parede. Prenderam a respiração e esperaram.
De repente, o ar foi riscado por raios; os dois policiais estavam atirando neles ao mesmo tempo.
— Vejam, estão atirando na gente — disse Arthur, todo encolhido. — Eles não disseram que não queriam fazer isso?
— É, foi o que eu entendi também — concordou Ford. Zaphod esticou a cabeça para fora do esconderijo, corajosamente.
— Ei — disse ele —, vocês não disseram que não queriam atirar na gente? E escondeu-se de novo.
Esperaram.
Após um momento, uma voz respondeu:
— Ser policial não é mole!
— Que foi que ele disse? — cochichou Ford, espantado. Disse que ser policial não é mole.
— Bem, mas isso é problema dele, não é?
— A meu ver, é.
— Escutem! — gritou Ford. — Acho que nós já temos bastante problemas sem que vocês fiquem atirando em nós, e assim, se vocês parassem de descarregar as suas frustrações em cima de nós, acho que seria melhor pra todo mundo!
Uma pausa, depois a voz amplificada ecoou novamente:
— Escute aqui, cara, não pense que a gente é que nem esses retardados que só sabem puxar gatilho, com olhar vazio, que nem sabem conversar direito! Nós somos uns caras inteligentes, decentes, e se vocês nos conhecessem melhor até gostariam de nós! Eu não ando por aí dando tiros a torto e a direito e depois saio contando vantagem pelos botecos da Galáxia, como muitos policiais que conheço! Eu saio por aí dando tiros a torto e a direito, só que depois morro de arrependimento e conto tudo pra minha namorada!
— E eu escrevo romances! — disse o outro policial. — Se bem que não consegui publicar ainda nenhum deles. Quer dizer, é bom vocês saberem que hoje estou com um humor terrível!
Os olhos de Ford quase saltaram das órbitas.
— Qual é a desses caras? — perguntou.
— Sei lá — disse Zaphod. — Eu gostava mais deles quando estavam só dando tiros.
— Então, vocês vão sair daí por bem ou vai ter que ser na porrada? — gritou um dos policiais.
— O que você preferir — gritou Ford
Um milissegundo depois, as armas de Raio-da-Morte encheram a sala de relâmpagos, que atingiram em cheio o terminal de computador atrás do qual os três estavam escondidos.
O tiroteio continuou por algum tempo, com uma intensidade insuportável.
Quando parou, seguiram-se alguns segundos de quase silêncio, e os ecos foram morrendo.
— Vocês ainda estão aí? — gritou um dos policiais.
— Estamos — eles gritaram.
— Nós não gostamos nem um pouco de ter que fazer isso — gritou o outro policial.
— Deu pra perceber — gritou Ford.
— Agora, preste atenção no que vou dizer, Beeblebrox, mas preste atenção mesmo!
— Por quê? — gritou Zaphod.
— Porque vou dizer uma coisa muito inteligente, interessante e humana! Bem, ou vocês se entregam agora e deixam a gente dar umas porradinhas em vocês, só um pouquinho, é claro, porque nós somos totalmente contra a violência desnecessária, ou então a gente explode esse planeta todo e talvez mais um ou dois que nós vimos quando viemos pra cá!
— Mas isso é loucura! — exclamou Trillian. — Vocês não podem fazer isso!
— A gente não pode? — gritou o policial. — Não pode? — perguntou ele ao outro.
A gente pode e deve, não tem dúvida — gritou o outro.
— Mas por quê? — perguntou Trillian.
— Porque tem coisas que a gente tem que fazer, mesmo sendo policiais liberais esclarecidos, cheios de sensibilidade e o cacete!
— Esses caras não existem! — murmurou Ford, sacudindo a cabeça. Um dos policiais gritou para o outro:
— E aí, vamos dar mais uns tirinhos neles?
— É uma!
— Outra tempestade elétrica.
O calor e o barulho eram fantásticos. Lentamente, o terminal de computador foi se desintegrando. A parte da frente já tinha se dissolvido quase toda, e riachos espessos de metal derretido se aproximavam do canto em que os quatro estavam escondidos. Eles se encolheram ainda mais e esperaram pelo fim.

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