15 de novembro de 2017

Capítulo 32

A expressão de Greg não trai nada quando ele atende a porta.
— Olá, Srta. Liv — diz ele, como se o fato de ela aparecer ali fosse totalmente esperado. Ele recua para o corredor enquanto Paul tira o casaco dos ombros dela, assobiando para os cachorros que vêm correndo saudá-la se calarem.
— Já estraguei o risoto, mas Jake diz que não tem importância, pois não gosta de cogumelo, afinal. Então estamos pensando talvez numa pizza.
— Grande ideia. E por minha conta — diz Paul. — Pode ser a última que a gente come por algum tempo.
Eles tinham se dado as mãos num silêncio atônito na metade da Fleet Street.
— Fiz você perder o seu emprego — disse ela. — E seu grande bônus. E sua chance de comprar um apartamento maior para seu filho.
Ele ficou olhando para a frente.
— Você não me fez perder nada. Eu me demiti.
Greg levanta uma sobrancelha.
— Uma garrafa de vinho tinto está aberta na cozinha desde quatro e meia. Isso não tem absolutamente nada a ver com meu compromisso de tomar conta do meu sobrinho por hoje. Tem, Jake?
— Greg diz que sempre é hora de vinho nessa casa — grita uma voz de menino da outra sala.
— Dedo-duro — responde Greg. E então diz a Liv: — Ah, não. Não posso deixar você beber. Olhe o que aconteceu da última vez que bebeu na nossa companhia. Transformou meu sensato irmão mais velho num adolescente trágico e sonhador.
— Liv, é melhor você ir se adaptando. A ideia de Greg de decoração é basicamente Demais Não Basta. Minimalismo não é com ele.
— Eu estampo a minha personalidade na minha casinha, e, não, ela não é uma tábula rasa.
— É lindo — diz ela, referindo-se às paredes coloridas, às estampas ousadas e às fotografias miúdas que a cercam.
Sente-se estranhamente à vontade naquele pequeno chalé, com sua música em alto volume, quantidades incalculáveis de objetos em cada estante e espremidos em cada espaço de parede, e uma criança estirada num tapete na frente da televisão.
— Ei! — diz Paul, entrando na sala, onde o menino rola como um cachorrinho, ficando de barriga para cima.
— Pai! — Ele olha para ela, e ela resiste ao impulso de largar a mão de Paul quando vê o menino registrando o contato. — Você é a moça de hoje de manhã? — diz ele após um minuto.
— Espero que sim. A menos que tivesse outra.
— Acho que não — diz Jake. — Pensei que eles fossem esmagar você.
— É, eu também.
Ele a observa por um instante.
— Meu pai botou perfume da última vez que viu você.
— Loção pós-barba — diz Paul e se abaixa para lhe dar um beijo. — Dedo-duro.
Então esse é o Mini Paul, ela pensa, e a ideia é agradável.
— Esta é Liv. Liv, este é Jake.
Ela levanta a mão.
— Como não conheço muita gente da sua idade, provavelmente vou dizer coisas caretíssimas, mas é muito bom conhecer você.
— Tudo bem. Já estou acostumado.
Greg aparece e lhe entrega uma taça de vinho tinto. Os olhos dele correm de Paul para Liv.
— Então, o que isso quer dizer? Está havendo uma entente cordiale entre nossas facções em guerra? Vocês agora são... colaboradores secretos?
Liv pestaneja diante da escolha de palavras dele. Vira-se para olhar para Paul.
“Não me importo com o trabalho”, dissera ele baixinho, envolvendo a mão dela. “Só sei que quando não estou com você, fico chato e irritado com tudo.”
— Não — diz ela e vê que está sorrindo. — Ele se limitou a perceber que estava do lado errado.

* * *

Quando Andy, o namorado de Greg, chega à casa da Elwin Street, são cinco pessoas espremidas no pequeno espaço, mas ela nunca parece apertada. Liv, sentada em torno de uma pequena torre de fatias de pizza, pensa na fria Casa de Vidro em cima do armazém, que de repente parece tão associada à ação penal, à sua própria infelicidade, que ela não quer voltar para lá.
Não quer olhar para Sophie, sabendo o que está prestes a acontecer. Está sentada entre esses quase desconhecidos, jogando jogos, ou rindo das suas piadas, e percebe que sua sensação constante de surpresa decorre da descoberta de que, apesar de tudo, ela está feliz; feliz como não se lembra de estar há anos.
E ali está Paul. Paul, que parece fisicamente desgastado pelos acontecimentos do dia, como se ele, não ela, tivesse perdido tudo. Sempre que ele se vira para olhar para ela, algo se realinha, como se o seu corpo tivesse que entrar em sintonia com a possibilidade de voltar a ser feliz.
Você está bem?, pergunta ele com o olhar.
Sim, diz ela, e é sincera.
— Então, o que vai acontecer na segunda-feira? — pergunta Greg enquanto estão à mesa. Andara lhes mostrando amostras de tecido para um novo esquema de cores no bar. A mesa está cheia de migalhas e copos de vinho meio vazios. — Você tem que entregar o quadro? É certo que vai perder?
Liv olha para Paul.
— Acho que sim — diz ela. — Só tenho que me acostumar com a ideia de... deixar a garota ir embora. — Sente um nó na garganta e sorri, esforçando-se para desfazê-lo.
Greg lhe estende a mão.
— Ah, querida, me desculpe. Não quis perturbar você.
Ela encolhe os ombros.
— Estou bem. Mesmo. Ela não é mais minha. Eu devia ter entendido isso há mais tempo. Acho que eu não queria ver o que estava na minha cara.
— Pelo menos você ainda tem a sua casa — diz Greg. — Paul me disse que ela é incrível. — Ele capta o olhar de alerta de Paul. — O que foi? Ela não deve saber que a gente andou falando dela? O que nós somos? Alunos do quinto ano?
Paul parece envergonhado por um instante.
— Ah — diz ela. — Mais ou menos. Não, eu não tenho.
— Por quê?
— Está à venda.
Paul fica imóvel.
— Tenho que vendê-la para pagar as custas legais.
— Você vai receber o suficiente para comprar em outro lugar, certo?
— Ainda não sei.
— Mas aquela casa...
— ...Já estava toda hipotecada. E está precisando de obra. Não faço nada desde que David morreu. Aparentemente, vidro importado com qualidades térmicas não é eterno, embora David pensasse assim.
A mandíbula de Paul se cerra. Ele empurra a cadeira para trás bruscamente e sai da mesa.
Liv olha para Greg e Andy, depois para a porta.
— Jardim, provavelmente — diz Greg, levantando uma sobrancelha. — É do tamanho de um lenço de bolso. Você não vai perdê-lo. — Então, quando ela se levanta, ele murmura: — É uma doce sensação ver você derrubar meu irmão mais velho. Eu queria ter suas habilidades quando tinha quatorze anos.

* * *

Ele está parado no pequeno pátio, entulhado de potes de barro com plantas malcuidadas, castigadas pelas geadas de inverno. Está de costas para ela, com as mãos enfiadas nos bolsos. Parece arrasado.
— Então você perdeu tudo. Por minha causa.
— Como você disse, se não fosse você, seria outra pessoa.
— O que eu estava pensando? O que eu estava pensando, porra?
— Você só estava fazendo seu trabalho.
Ele leva a mão ao rosto.
— Sabe de uma coisa? Você realmente não precisa levantar o meu astral.
— Estou bem. De verdade.
— Como pode? Eu não estaria. Estaria furioso como... Ah, minha nossa. — A frustração explode na voz dele.
Ela espera, depois pega-o pela mão, puxa-o para uma pequena mesa. O frio do assento de ferro atravessa suas roupas, e ela chega a cadeira para a frente, coloca os joelhos entre os dele, até ter certeza de que ele está ouvindo.
— Paul.
O semblante dele está rígido.
— Paul. Olhe para mim. Você precisa entender isso. A pior coisa que podia ter acontecido comigo já aconteceu.
Ele ergue os olhos.
Ela engole em seco, sabendo que essas são as palavras que entalam, que podem simplesmente se recusar a sair.
— Quatro anos atrás, David e eu fomos deitar como se fosse uma noite qualquer. Escovamos os dentes, ficamos lendo nossos livros, conversamos sobre um restaurante a que pretendíamos ir... e, quando acordei no dia seguinte, ele estava ali ao meu lado, frio. Azul. Ele foi sem eu sentir. Nem consegui dizer...
Há um breve silêncio.
— Dá para imaginar que você estava dormindo enquanto a pessoa que você mais ama morria ao seu lado? Sabendo que talvez houvesse algo que você pudesse fazer para ajudá-la? Para salvá-la? Sem saber se ela estava olhando para você, pedindo em silêncio para...
As palavras não vêm, sua voz fica embargada, uma torrente conhecida ameaça engolfá-la. Ele estende as mãos devagar, segura as dela até ela conseguir falar de novo.
— Achei que o mundo tivesse realmente acabado. Achei que nunca mais poderia acontecer nada de bom. Pensei que qualquer coisa poderia acontecer se eu não estivesse vigilante. Eu não comia. Não saía. Não queria ver ninguém. Mas sobrevivi, Paul. Para minha surpresa, consegui superar. E a vida... bem, aos poucos vou conseguindo viver de novo.
Ela chega mais perto dele.
— Então isso... o quadro, a casa... Percebi quando ouvi o que aconteceu com Sophie. São só coisas materiais. Eles poderiam levar tudo, francamente. Tudo o que importa são as pessoas. — Ela olha para as mãos dele, e sua voz fica embargada. — Só o que importa mesmo é quem a gente ama.
Ele não fala, mas encosta a cabeça na dela. Os dois ficam sentados ali no jardim gelado, absorvendo o ar da noite, escutando o ruído abafado das risadas do filho dele lá dentro. Na rua, ela ouve a acústica do início da noite na cidade, barulho de panelas em cozinhas distantes, televisores sendo ligados, uma porta de carro batendo, um cão latindo para alguém. A vida em sua totalidade caótica e vital.
— Vou recompensá-la — diz ele baixinho.
— Você já fez isso.
— Não. Vou fazer.
Há lágrimas no rosto dela. Ela não sabe como chegaram ali. Os olhos azuis dele de repente estão calmos. Ele pega o rosto dela nas mãos e a beija, enxuga suas lágrimas com beijos, os lábios macios em sua pele, prometendo um futuro.
Ele a beija até ambos estarem sorrindo e ela não sentir mais os pés.
— Tenho que ir para casa. Os compradores vêm amanhã — diz, soltando-se dele com relutância.
Do outro lado da cidade, a Casa de Vidro está deserta. A ideia de voltar para lá ainda é desagradável. Ela no fundo espera que ele proteste.
— Quer... quer vir comigo? Jake poderia dormir no quarto de hóspedes. Eu poderia abrir e fechar o teto para ele. Isso talvez contasse alguns pontos a meu favor.
Ele olha para o outro lado.
— Não posso — diz espontaneamente. E acrescenta: — Quero dizer, eu adoraria. Mas é...
— Vou ver você no fim de semana?
— Eu estou com o Jake, mas... claro. Vamos planejar algo.
Ele parece estranhamente distraído. Ela vê a dúvida que anuvia sua expressão. Será que conseguiremos perdoar o que custamos um para o outro?, pensa, por um instante, e sente um arrepio que nada tem a ver com o frio.
— Levo você em casa — diz ele.
E o momento passa.

* * *

A casa está em silêncio quando ela entra. Ela tranca a porta, larga as chaves e vai para a cozinha, seus passos ecoando no piso de pedra. Custa a acreditar que saiu ainda naquela manhã: parece que se passou uma vida.
Ela aperta o botão da secretária eletrônica. Uma mensagem presunçosa do corretor de imóveis, anunciando que os compradores vão mandar o arquiteto deles no dia seguinte. O corretor espera que ela esteja bem.
Um articulista de uma obscura revista de arte quer uma entrevista sobre o caso Lefèvre.
O gerente do banco. Tranquilamente alheio ao frenesi da mídia. Por favor, será que ela pode ligar tão logo lhe seja conveniente para discutir sua situação? Esta é a terceira vez que ele tenta entrar em contato com ela, acrescenta.
Uma ligação de seu pai, mandando muitos beijos. Caroline diz para mandar eles todos à puta que pariu.
Liv consegue ouvir um baixo tocando em outra casa, as portas de entrada batendo e as risadas que constituem a acústica de uma noite normal de sexta-feira fora de casa. É um lembrete de que em outro lugar o mundo continua girando, apesar de tudo; que existe vida além deste estranho hiato.
A noite se estende. Ela liga a televisão, mas como não há nada que queira assistir, ela vai tomar banho e lavar a cabeça. Separa as roupas para o dia seguinte e come uns biscoitos com queijo.
Mas suas emoções não se acalmam: tilintam como uma arara cheia de cabides de casaco vazios. Ela está exausta, mas fica andando para cima e para baixo, sem conseguir sossegar. Continua sentindo o gosto de Paul nos lábios, as palavras dele em seus ouvidos. Cogita em lhe telefonar, por um instante, mas, quando pega o telefone, seus dedos ficam parados nos botões. O que diria, afinal? Eu só queria ouvir sua voz.
Vai até o quarto de hóspedes, que está impecável, vazio, como se ninguém jamais tivesse morado ali. Fica lá dentro, tocando as superfícies da cadeira e da cômoda. Já não se sente reconfortada pelo silêncio nem pelo vazio. Imagina Mo, espremida com Ranic numa casa superlotada e barulhenta, como a que ela acabou de deixar.
Finalmente, prepara uma caneca de chá e vai para o seu quarto. Senta no meio da cama, se recosta nos travesseiros e observa Sophie naquela moldura dourada.
No íntimo, me agrada a ideia de que a gente pode ter um quadro com força suficiente para abalar um casamento.
Bem, Sophie, ela pensa, você abalou muito mais que isso. Ela olha para o quadro que ama há quase dez anos e finalmente se permite pensar no dia em que ela e David o compraram, no jeito que levantaram a garota para o alto naquele sol da Espanha, suas cores realçadas naquela luminosidade, refletindo o futuro que acreditavam ter juntos. Lembra-se deles pendurando a tela neste quarto quando voltaram de viagem, do jeito que olhara para A garota, perguntando-se o que David via nela que espelhava a imagem e sentindo-se de certa forma mais bonita pelo que ele vira.
Você se parece com ela quando...
Ela se lembra do dia em que, nas primeiras semanas após a morte dele, ela levantara apaticamente a cabeça do travesseiro molhado e Sophie parecera estar olhando para ela. Isso também é suportável, dissera sua expressão. Talvez você não saiba agora. Mas você vai sobreviver.
Só que Sophie não sobrevivera.
Liv sente um nó na garganta.
— Sinto muito pelo que lhe aconteceu — diz ela no quarto silencioso. — Desejo que pudesse ter sido diferente.
Subitamente, sentindo uma tristeza avassaladora, ela se levanta, vai até o quadro e o vira para a parede, para não conseguir mais vê-lo. Talvez seja bom estar saindo desta casa: o espaço vazio na parede seria um lembrete constante do seu fracasso. Já parece simbolizar de uma maneira estranha como a própria Sophie foi efetivamente apagada.
E quando está prestes a soltar o quadro, ela para de repente.
O estúdio, naquelas últimas semanas, ficou um caos, montes de papel se esparramando por todos os lados. Ela anda por ali com uma determinação nova, organizando os papéis em maços e as pastas, presos com elástico. Não sabe o que vai fazer com eles, depois que terminar de arrumar. Finalmente, procura a pasta vermelha que Philippe Bessette lhe deu. Folheia as páginas delicadas até encontrar as duas que está procurando.
Confere-as, depois as leva para a cozinha. Acende uma vela e queima uma de cada vez na chama bruxuleante, até não haver mais nada senão cinzas.
— Pronto, Sophie — diz. — Pelo menos, você pode ficar me devendo essa.
E agora, ela pensa, por David.

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Boa leitura :)