20 de novembro de 2017

Capítulo 31

Como todos sabem, palavras ditas impensadamente podem custar muitas vidas, mas nem todos sabem como esse problema é sério.
Por exemplo, no exato momento em que Arthur disse “estou tendo sérios problemas com meu estilo de vida”, abriu-se um buraco aleatório na textura do contínuo espaço-tempo que transportou as palavras de Arthur para um passado muito remoto, para uma distância espacial quase infinita, até uma galáxia distante onde estranhos seres belicosos estavam prestes a dar início a uma terrível batalha interestelar.
Os dois líderes adversários estavam se encontrando pela última vez.
Fez-se um silêncio terrível na mesa de reuniões quando o comandante dos vl'hurgs, com seu resplandecente short de batalha negro cravejado de pedras preciosas, encarou o líder dos g'gugvuntts, de cócoras à sua frente, numa nuvem de vapor verde e odorífico, e, cercado de um milhão de cruzadores estelares aerodinâmicos e armados até os dentes, preparados para desencadear a morte elétrica assim que ele desse a ordem, desafiou a vil criatura a retirar o que ela tinha dito a respeito da mãe dele.
A criatura remexeu-se em sua nuvem de vapor escaldante e pestilento e, neste exato momento, ouviram-se as palavras Estou tendo sérios problemas com meu estilo de vida na sala de reuniões.
Infelizmente, na língua dos vl'hurgs isto era o pior insulto possível, e não havia reação possível senão desencadear uma terrível guerra, que durou séculos.
Naturalmente, quando, alguns milênios depois, quando a galáxia em questão havia sido devastada, descobriu-se que tudo não passara de um lamentável mal-entendido; e assim as duas frotas inimigas resolveram acertar as poucas diferenças que ainda tinham e unir-se para atacar a nossa Galáxia, já identificada, com absoluta certeza, como fonte do comentário ofensivo.
Durante milhares de anos, as naves majestosas atravessaram os imensos espaços vazios intergalácticos, finalmente parando no primeiro planeta que encontraram, que era, por acaso, a Terra; e lá, devido a um erro colossal de escala, toda a frota foi acidentalmente engolida por um cachorrinho.
Aqueles que estudam o complexo inter-relacionamento entre causas e efeitos na história do Universo dizem que esse tipo de coisa acontece o tempo todo, mas nós não podemos fazer nada.
— A vida é assim mesmo — dizem eles.
Após uma curta viagem de aeromóvel, Arthur e o velho magratheano chegaram a uma porta. Saltaram do veículo e entraram numa sala de espera cheia de mesas de vidro e troféus de acrílico. Quase imediatamente, uma luz começou a piscar acima da porta no lado oposto do recinto.
— Arthur! Você está bem! — exclamou a voz.
— Estou mesmo? — perguntou Arthur, um tanto assustado. — Que bom.
A luz era pouca, e demorou algum tempo para que ele reconhecesse Ford, Trillian e Zaphod, sentados em volta de uma mesa em que se via uma bela refeição: pratos exóticos, doces estranhos e frutas bizarras. Os três estavam tirando a barriga da miséria.
— O que aconteceu com vocês? — perguntou Arthur.
— Bem — disse Zaphod, atacando um músculo grelhado —, os nossos anfitriões nos desacordaram com um gás, depois bagunçaram totalmente todos os nossos sentidos, agiram de várias formas estranhas e agora, pra compensar, estão nos oferecendo um senhor jantar. Tome — disse, estendendo um pedaço de carne malcheirosa que estava numa tigela —, prove essa costeleta de rinoceronte de Vegan. Pra quem gosta, é uma iguaria.
— Anfitriões? — exclamou Arthur. — Que anfitriões? Não estou vendo nenhum...
— Uma vozinha então falou:
— Seja bem-vindo, terráqueo.
Arthur olhou para a mesa e soltou uma interjeição de asco.
— Argh! Tem ratos na mesa!
Houve um silêncio constrangedor; todos dirigiram olhares significativos a Arthur.
Ele olhava para os dois ratos brancos que estavam dentro de objetos semelhantes a copos de uísque. Percebeu o silêncio e olhou para as caras de seus companheiros.
— Ah!. — exclamou, entendendo tudo de repente. — Desculpe, é que eu não estava preparado pra...
— Permita-me apresentar-lhe Benjy — disse Trillian.
— Prazer — disse um dos ratos, tocando com os bigodes o que devia ser um painel sensível ao tato no interior do recipiente de vidro, o qual avançou um pouco.
— E esse aqui é Frankie.
— Muito prazer — disse o outro rato, e seu recipiente também avançou.
Arthur estava boquiaberto.
— Mas esses não são...?
— São eles — disse Trillian. — São mesmo os ratos que eu trouxe da Terra.
Ela encarou Arthur, e ele julgou perceber era seu olhar uma sutil expressão de resignação.
— Me passa essa tigela de megamula arcturiana gratinada, sim? — pediu ela.
Slartibartfast pigarreou discretamente.
— Ah, com licença... — disse ele.
— Sim, obrigado, Slartibartfast — disse Benjy, seco. — Você pode retirar-se.
— O quê? Bem... ah, está bem — disse o velho, um pouco desconcertado. — Vou trabalhar nos meus fiordes.
— A propósito, isso não é mais necessário — disse Frankie. — Creio que não vamos mais precisar da nova Terra. — Revirou os olhinhos rosados. — Porque encontramos um nativo do planeta que estava lá segundos antes de sua destruição.
— O quê? — exclamou Slartibartfast, atônito. — Não pode ser! Tenho mil geleiras prontas pra avançar sobre a África!
— Bem, talvez você possa tirar umas férias pra esquiar antes de desmontá-las — disse Frankie, irônico.
— Esquiar? — exclamou o velho. — Essas geleiras são verdadeiras obras de arte! Contornos elegantes, picos altíssimos de gelo, desfiladeiros majestosos! Esquiar numa obra-prima dessas seria um sacrilégio!
— Obrigado, Slartibartfast — disse Benjy com firmeza. — Assunto encerrado.
— Sim, senhor — disse o velho, com frieza. — Muito obrigado. Bem, adeus, terráqueo — disse para Arthur. — Espero que dê um jeito no seu estilo de vida.
Com um leve aceno para os outros, o velho virou-se e saiu do recinto, cabisbaixo.
Arthur ficou a vê-lo sair, sem saber o que dizer.
— Bem — disse Benjy —, vamos ao que interessa. Ford e Zaphod fizeram tintim com seus copos.
— Ao que interessa! — disseram.
— Como assim? — perguntou Benjy. Ford olhou ao redor.
— Desculpe, pensei que estivesse propondo um brinde — disse ele.
Os ratos remexeram-se com impaciência dentro de seus recipientes de vidro. Então aquietaram-se, e Benjy avançou para falar com Arthur.
— Criatura da Terra — disse —, a situação é a seguinte: como você sabe, há dez milhões de anos que administramos o seu planeta para descobrir essa maldita Questão Fundamental.
— Por quê? — indagou Arthur.
— Não, essa aí já descartamos — disse Frankie, interrompendo
— Porque não bate com a resposta. Por quê? Quarenta e dois... Como você vê, não faz sentido.
— Não é isso — explicou Arthur. — Eu perguntei por que vocês querem saber isso.
— Ah — exclamou Frankie. — Bem, pra ser absolutamente franco, só por força do hábito, creio eu. E acho que a questão é mais ou menos essa: já estamos de saco cheio dessa história toda, e a ideia de ter que começar do zero outra vez por causa daqueles panacas dos vogons realmente é demais, sacou? Foi por mero acaso que Benjy e eu terminamos a tarefa específica de que estávamos encarregados e saímos do planeta pra tirar umas feriazinhas, e conseguimos dar um jeito de voltar a Magrathea graças aos seus amigos.
— Magrathea é um dos portões que dá acesso à nossa dimensão — explicou Benjy.
— E recentemente — prosseguiu o outro roedor — recebemos uma proposta irrecusável de participar de uma mesa-redonda na quinta dimensão e dar umas palestras lá na nossa terra, e estamos inclinados a aceitar.
— Eu aceitava, se me convidassem; você não aceitava, Ford? — perguntou Zaphod.
— Ah; claro, na mesma hora — disse Ford.
Arthur olhava para eles, sem saber aonde aquilo ia dar.
— Só que a gente não pode ir de mãos abanando — disse Frankie. — Ou seja: temos que descobrir a Questão Fundamental, de algum modo.
Zaphod debruçou-se, chegando mais perto de Arthur.
— Imagine só — disse ele — se eles estão lá no estúdio, muito tranquilos, dizendo que sabem qual é a Resposta à Questão da Vida, o Universo e Tudo o Mais, e depois têm que admitir que a Resposta é 42. O programa vai acabar ali mesmo. Não dá pra espichar o programa, entendeu?
— A gente tem que ter alguma coisa que soe bem — disse Benjy.
— Uma coisa que soe bem — exclamou Arthur. — Uma Questão Fundamental que soe bem? Formulada por dois ratos?
Os ratos irritaram-se.
— Olhe — disse Frankie —, essa história de idealismo, de dignidade da pesquisa pura, da busca pela verdade em todas as suas formas, está tudo muito bem, mas chega uma hora que você começa a desconfiar que, se existe uma verdade realmente verdadeira, é o fato de que toda a infinidade multidimensional do Universo é, com certeza quase absoluta, governada por loucos varridos. E entre gastar mais dez milhões de anos pra descobrir isso ou então faturar em cima do que já temos, eu fico tranquilamente cora a segunda opção.
— Mas... — começou Arthur, desanimado.
— Você vai entender, terráqueo — disse Zaphod. — Você é um produto de última geração daquela matriz de computador, certo?, e você estava lá na Terra até o instante em que o planeta foi exterminado, não é?
— Bem...
— Assim, o seu cérebro estava organicamente integrado à penúltima configuração do programa do computador — disse Ford, e admirou a clareza de sua própria explicação.
— Certo? — perguntou Zaphod.
— É — disse Arthur, hesitante. Ele jamais havia se sentido organicamente integrado a coisa nenhuma. Sempre achara que este era um de seus problemas.
— Em outras palavras — disse Benjy, fazendo com que seu curioso veículo se aproximasse de Arthur —, é bem provável que a estrutura da pergunta esteja codificada na estrutura de sua mente, e por isso queremos comprá-la de você.
— O que, a pergunta? — indagou Arthur.
— É — responderam Ford e Trillian.
— Por uma nota preta — disse Zaphod.
— Não, não — explicou Frankie —, o que a gente quer comprar é o seu cérebro.
— O quê?
— Mas que falta vai fazer? — perguntou Benjy.
— Eu entendi você dizer que sabiam ler o cérebro dele eletronicamente — protestou Ford.
  — É claro que sabemos — disse Frankie —, só que primeiro a gente tem que retirá-lo do lugar. Tem que ser preparado.
— Tratado — disse Benjy. Cortado em pedaços.
— Obrigado — gritou Arthur, inclinando a cadeira para trás para afastar-se da mesa, horrorizado.
— Se você achar isso importante — disse Benjy, razoável —, a gente coloca outro no lugar.
— É, um cérebro eletrônico — disse Frankie —, bastaria um bem simples.
— Bem simples! — gemeu Arthur.
— É — disse Zaphod, com um sorriso maldoso —, era só programá-lo para dizer O quê?, Não entendi Cadê o chá?. Ninguém ia notar a diferença.
— O quê? — exclamou Arthur, afastando-se ainda mais.
—Está vendo? — disse Zaphod, e urrou de dor por causa de algo que Trillian fez naquele momento.
— Pois eu notaria a diferença — disse Arthur.
— Não — disse Frankie —, porque você seria programado pra não notar. Ford saiu em direção à porta.
— Vocês me desculpem, meus caros ratos, mas pelo visto nada feito.
— Creio que essa posição é inaceitável — disseram os ratos em coro; suas vozinhas finas perderam todo e qualquer toque de cordialidade. Com um zumbido agudo, os dois recipientes de vidro levantaram-se da mesa e partiram em direção a Arthur, que ficou encurralado num canto do recinto, absolutamente incapaz de fazer alguma coisa, ou mesmo de pensar em alguma coisa.
Trillian agarrou-o pelo braço, em desespero, e tentou arrastá-lo em direção à porta, que Ford e Zaphod estavam tentando abrir, mas Arthur era um peso morto. Parecia hipnotizado pelos roedores voadores que se aproximavam dele.
Trillian gritou, mas ele continuou abestalhado.
Com um último safanão, Ford e Zaphod conseguiram abrir a porta. Lá fora havia uma pequena multidão de homens mal-encarados, que, aparentemente, era o pessoal que fazia os serviços sujos em Magrathea. Não apenas eram mal-encarados, mas também traziam equipamentos cirúrgicos bem assustadores. Os homens atacaram.
Assim, a cabeça de Arthur ia ser aberta, Trillian não conseguia ajudá-lo, e Ford e Zaphod iam ser atacados por um bando de brutamontes bem mais fortes e armados do que eles.
Portanto, foi bem a calhar que, naquele exato momento, todos os alarmes do planeta tenham soado ao mesmo tempo, fazendo uma barulheira infernal.

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