15 de novembro de 2017

Capítulo 31

Henry a encontra no portão dos fundos do fórum. Ele está falando em meio a uma nuvem de migalhas de pain au chocolat. Tem o rosto rosado, e quase não se entende o que diz.
— Ela não vai dar isso a mais ninguém.
— O quê? Quem não vai dar?
— Ela está na entrada principal. Venha. Venha.
Antes de Liv conseguir perguntar mais alguma coisa, Henry a está empurrando nos fundos do fórum por uma rede de corredores e lances de escadas de pedra, saindo na área de segurança no alto da entrada principal. Marianne Andrews está esperando junto às barreiras, vestida com um casaco roxo e com uma fita xadrez larga na cabeça. Ela vê Liv e dá um suspiro teatral de alívio.
— Nossa, você é uma mulher difícil de localizar — censura, ao estender uma pasta cheirando a mofo. — Já lhe telefonei várias vezes.
— Me desculpe — diz Liv piscando. — Não atendo mais o telefone.
— Está aí dentro. — Marianne aponta para o diário. — Tudo o que você precisa. Abril de 1945.
Liv olha para os cadernos velhos em sua mão. E ergue os olhos incrédula.
— Tudo o que eu preciso?
— O quadro — diz a senhora exasperada. — Pelo amor de Deus, menina. Não é uma receita de ensopado de camarão.
Os acontecimentos se desenrolam com rapidez. Henry corre ao gabinete do juiz e solicita um breve adiamento. Os diários são fotocopiados, sublinhados e seu conteúdo é enviado aos advogados dos Lefèvre. Liv e Henry estão sentados num canto da sala, examinando as páginas marcadas, enquanto Marianne fala sem parar com algum orgulho de como sempre soubera que sua mãe não era uma ladra e como aquele raio do Sr. Jenks podia ir lamber sabão.
Um advogado assistente traz café e sanduíches. Liv está muito tensa para comer. Os sanduíches ainda estão intactos na caixa de papelão. Ela continua olhando para o diário, incapaz de acreditar que o caderno com o canto das páginas viradas tem a resposta para os seus problemas.
— O que acham? — pergunta ela quando Angela Silver e Henry terminam de falar.
— Acho que isso poderia ser uma coisa boa — diz ele.
Seu sorriso não reflete seu tom cauteloso.
— Parece bastante simples — diz Angela. — Se pudermos provar que as duas últimas transferências foram inocentes, e há uma prova inconclusiva da primeira transferência, então estamos, como dizem, de novo no jogo.
— Muito obrigada — diz Liv, não se atrevendo a acreditar no novo rumo dos acontecimentos. — Muito obrigada, Sra. Andrews.
— Ah, eu não poderia estar mais encantada — diz Marianne, acenando um cigarro no ar. Ninguém se deu o trabalho de lhe dizer para não fumar. Ela se inclina para a frente, põe uma mão ossuda no joelho de Liv. — E ele encontrou a minha bolsa preferida.
— O que disse?
O sorriso de Marianne falha. Ela disfarça prendendo de novo um broche.
— Ah, nada. Não prestem atenção em mim.
Liv continua olhando para ela enquanto o leve rubor desaparece.
— Não quer esses sanduíches? — pergunta Marianne rapidamente.
O telefone toca.
— Certo — diz Henry, quando desliga. — Está todo mundo tranquilo? Sra. Andrews? A senhora está pronta para ler algumas dessas provas em juízo?
— Os meus melhores óculos de leitura estão na minha bolsa.
— Certo. — Henry respira fundo. — Então está na hora de entrar.

30 de abril de 1945
Bem, com certeza o dia de hoje não saiu como eu esperava. Quatro dias atrás, o tenente-coronel Danes tinha dito que eu poderia entrar no Konzentrationslager Dachau com eles. Ele não é má pessoa, o Danes. Um pouco nariz em pé, num primeiro momento, com escritores comerciais, como muitos deles são, mas como desembarquei com as Screaming Eagles na Praia de Omaha, e ele já entendeu que não sou uma dona de casa inexperiente que vai pressioná-lo por receitas de biscoitos, já recuou um pouco. A 102ª Aérea agora me chama de membro honorário, diz que quando estou com a braçadeira, simplesmente sou um deles.
Então, o trato foi eu entrar com eles no campo, escrever meu artigo sobre as pessoas lá dentro, talvez entrevistar alguns dos prisioneiros sobre as condições e depois sair. A rádio WRGS queria uma matéria curta também, então eu tinha o gravador preparado.
Bem, lá estava eu, às seis da manhã, de braçadeira e praticamente pronta, e raios me partam se ele não veio bater à minha porta. “Ora, tentente”, brinquei. Eu ainda estava me penteando. “Você nunca me disse que ligava para isso.” É uma piada corrente entre nós. Ele diz que tem uns pares de botas de marchar mais velhas que eu.
“Mudança de planos, Toots”, diz ele. Estava fumando, o que não era típico dele. “Não posso levá-la.”
Fiquei com as mãos paralisadas na cabeça. “Está brincando comigo, não é?” O editor do Register estava esperando essa matéria. Eles me deram duas páginas sem anúncio.
“Louanne, é... isso vai além do que achamos que iríamos encontrar. Recebi ordens de não deixar ninguém passar até amanhã.”
“Ah, vamos lá.”
“Sério.” Ele falou mais baixo. “Você sabe que eu deixaria você entrar comigo. Mas, bem, você não acreditaria no que vimos lá ontem... Passei a noite toda em claro, eu e os rapazes. Há velhas, crianças andando lá dentro, feito... sabe, crianças pequenas...” Ele balançou a cabeça e olhou para o outro lado. É um homem feito, o Danes, e juro que estava quase chorando como uma criança. “Tinha um trem ali em frente, e os corpos eram simplesmente... milhares deles... Isso não é humano. Com certeza.”
Se ele estava tentando me desanimar, o efeito foi o oposto. “Você tem que me botar lá dentro, tenente.”
“Sinto muito. Ordens estritas. Olhe, mais um dia, Louanne. Depois eu lhe dou todo o acesso que você precisar. Você será a única repórter lá dentro, prometo.”
“Sim. E você ainda vai me amar depois. Ah, vamos lá...”
“Louanne, ninguém a não ser o Exército e a Cruz Vermelha entra ou sai hoje. Preciso de todos os homens que eu tenho para ajudar.”
“Ajudar em quê?”
“A levar os nazistas presos. Ajudar os prisioneiros. Impedir os nossos homens de matar aqueles filhos da mãe dos SS pelo que eles viram. O jovem Maslowicz, quando viu o que fizeram com os poloneses, ficou como um louco, chorando, alucinado. Tive que mandar um suboficial pegar a arma dele. Então tenho que ter uma guarda incontestável. E...”, ele engoliu em seco, “temos que descobrir o que fazer com os corpos.”
“Corpos?”
Ele balançou a cabeça. “Sim, corpos. Milhares deles. Fizeram fogueiras. Fogueiras! Você não iria acreditar...” Ele bufou. “Enfim, Toots. É aí que preciso lhe pedir um favor.”
“Você precisa me pedir um favor?”
“Preciso deixar você encarregada do depósito.”
Fiquei olhando para ele.
“Tem um depósito, na periferia de Berchtesgaden. Nós o abrimos ontem à noite e lá dentro está cheio de obras de arte. Os nazistas, Göring, saquearam tanta coisa que não dá para acreditar. Os graúdos calculam que tem um milhão de dólares em obras de arte ali, a maioria roubadas.”
“O que isso tem a ver comigo?”
“Preciso de uma pessoa da minha confiança para vigiar o depósito, só por hoje. Você vai ter uma brigada de incêndio à sua disposição, e dois marines. A cidade está um caos, e preciso garantir que ninguém entre e ninguém saia. Tem um saque de respeito lá dentro, Toots. Não entendo muito de arte, mas é como, sei lá, a Mona Lisa, ou algo assim.”
Sabe que gosto tem a decepção? Como limalha de ferro no café frio. Foi o gosto que senti na boca quando o velho Danes me levou de carro para o depósito.
E isso foi antes de descobrir que Marguerite Higgins tinha entrado nos campos na véspera, com o general de brigada Linden.
Não era um depósito normal, mas um prédio municipal enorme e cinzento, tipo uma escola ou a sede de uma prefeitura. Ele me apontou os dois marines, que bateram continência para mim, e depois a sala perto da porta principal onde eu devia sentar. Tenho que dizer, eu não podia falar não para ele, mas aceitei tudo a contragosto. Era óbvio para mim que a matéria de verdade estava acontecendo em outro lugar. Os rapazes, normalmente animados e cheios de vida, estavam reunidos, fumando e pálidos. Seus superiores falavam em voz baixa, com expressões sérias e chocadas. Eu queria saber o que eles tinham achado ali, por mais horrível que fosse. Precisava estar lá dentro, apurando a matéria. E eu tinha medo: a cada dia que passava ficava mais fácil os graúdos negarem o meu pedido. A cada dia que passava, os meus concorrentes ganhavam uma chance.
“Então, o Krabowski aqui vai lhe providenciar tudo que você precisar, e o Rogerson vai entrar em contato comigo se você tiver qualquer problema. Tudo bem para você?”
“Claro.” Coloquei os pés para cima na mesa e dei um suspiro teatral.
“Fechado. Você faz isso para mim, e eu ponho você lá dentro amanhã, Toots. Prometo.”
“Aposto que você diz isso a todas as garotas”, brinquei. Mas, pela primeira vez, ele nem sorriu.
Fiquei duas horas sentada ali, observando pela janela da sala. Era um dia quente, o sol batendo na pedra das calçadas, mas com algo estranho no ar que parecia fazer cair a temperatura. Havia veículos do Exército passando para cima e para baixo na rua principal, lotados de soldados. Soldados alemães, com as mãos na cabeça, eram obrigados a marchar na direção oposta. Havia rodinhas de mulheres e crianças alemãs imóveis nas esquinas, aparentemente se perguntando o que seria feito delas. (Mais tarde, eu soube que foram convocadas para ajudar a enterrar os mortos.) E o tempo todo, ao longe, as sirenes estridentes das ambulâncias falavam de horrores que não se viam. Horrores que eu estava perdendo.
Não sei por que Danes estava tão preocupado: ninguém parecia olhar duas vezes para esse prédio. Comecei um artigo, amassei o papel, bebi duas xícaras de café e fumei meio maço de cigarro, e meu estado de espírito foi ficando cada vez mais sombrio. Comecei a me perguntar se isso não era um truque só para me manter longe da ação.
“Então vamos lá, Krabowski”, falei finalmente. “Leve-me para conhecer esse pardieiro.”
“Senhora, não sei se a gente...”, começou ele.
“Você ouviu o tentente-coronel, Krabowski. A senhora está no comando hoje. E ela está dizendo para você levá-la para conhecer o prédio.”
Ele me lançou o tipo de olhar que meu cachorro costumava me dar quando achava que ia levar um chute meu você sabe onde. Mas ele trocou uma palavra com Rogerson e lá fomos nós.
A princípio não chamava a atenção. Só salas e salas de sistemas de armazenagem em madeira, um monte de cobertores militares cinzentos pendurados sobre os conteúdos. Mas então cheguei mais perto e puxei um quadro de um dos suportes: uma peça moderna de um cavalo com uma paisagem abstrata no fundo, numa moldura dourada pesada. Suas cores, mesmo com a iluminação fraca da vasta sala, brilhavam como um tesouro. Virei-a nas mãos.
Era um Braque. Fiquei olhando para a tela um instante, depois a repus cuidadosamente no suporte e continuei andando. Comecei a puxar coisas ao acaso: ícones medievais, obras impressionistas, enormes telas renascentistas, com molduras delicadas, em alguns casos apoiadas em armações especialmente construídas. Corri meus dedos sobre um Picasso, espantada com a minha liberdade de tocar fisicamente uma obra de arte que eu só vira antes em revistas ou nas paredes de galerias.
“Meu Deus, Krabowski. Viu isso?”
Ele olhou para a obra.
“Hum... já, minha senhora.”
“Sabe o que é? É um Picasso.”
Ele não reagiu.
“Um Picasso? O famoso artista?”
“Não entendo muito de arte, minha senhora.”
“E acha que sua irmã caçula poderia ter feito coisa melhor, certo?”
Ele me deu um sorriso aliviado.
“É, minha senhora.”
Pus o quadro no lugar e puxei outro. Era um retrato de uma garotinha, as mãos pousadas com garbo nas saias. No verso, dizia: “Kira, 1922.”
“Todas as salas são assim?”
“Há duas salas lá em cima com estátuas, modelos e objetos em vez de quadros. Mas, basicamente, sim. Treze salas de quadros, senhora. Esta é uma das menores.”
“Meu Deus.” Olhei em volta para as fileiras de estantes que iam até o fundo da sala com aquelas pilhas retas arrumadas nas prateleiras, e depois para o retrato em minhas mãos. A garotinha me olhava solenemente. Só então realmente me dei conta de que cada um daqueles quadros tivera um dono. Estivera pendurado na casa de alguém. Fora admirado por alguém. Uma pessoa de verdade posara para ele, ou economizara para comprá-lo, ou o pintara, ou tivera a esperança de deixá-lo para os filhos. Então pensei no que Danes dissera sobre se livrar dos corpos a alguns quilômetros dali. Pensei em seu rosto assombrado e marcado, e estremeci.
Repus o quadro da garotinha cuidadosamente na prateleira e cobri-o com um cobertor. “Vamos, Krabowski, vamos voltar lá para baixo. Você pode me arranjar uma xícara de café decente.”
A manhã deu lugar à hora do almoço e logo chegou a tarde. A temperatura subiu, e o ar em volta do depósito ficou parado. Escrevi um artigo para o Register sobre o depósito e entrevistei Krabowski e Rogerson para um pequeno artigo da Woman’s Home Companion sobre as esperanças dos jovens soldados ao voltar para casa. Então, fui lá fora esticar as pernas e fumar um cigarro. Subi na capota do Jeep do Exército e fiquei ali sentada, a carroceria de aço estava quente embaixo das minhas calças de algodão. O silêncio nas ruas era quase total. Não se ouviam pássaros, nem vozes. Mesmo as sirenes pareciam ter parado. Então, olhando contra o sol, franzi os olhos ao ver uma mulher caminhando na minha direção.
Ela andava com certo esforço, mancando visivelmente, embora não devesse ter mais de sessenta anos. Usava um lenço de cabeça, apesar do dia quente, e trazia um pacote embaixo do braço. Quando me viu, parou e olhou em volta.
Viu minha braçadeira, que eu esquecera de tirar quando a viagem foi cancelada.
“Englische?”
“Americana.”
A mulher fez um gesto de cabeça, como se isso fosse aceitável para ela.
“Hier ist onde os quadros estão guardados, ja?”
Fiquei quieta. Ela não tinha cara de espiã, mas eu não sabia quanto de informação poderia revelar. Tempos estranhos e tudo o mais.
Ela tirou o pacote de debaixo do braço.
“Por favor. Pegue isto.”
Recuei.
Ela me olhou um instante, depois desembrulhou o pacote. Era um quadro, um retrato de uma mulher, pelo que consegui ver rapidamente.
“Por favor. Pegue isto. Coloque aí dentro.”
“Senhora, por que está querendo que eu ponha o seu quadro aí?”
Ela olhou para trás, como se fosse constrangedor para ela estar ali.
“Por favor. Fique com este quadro. Não quero isto na minha casa.”
Peguei o quadro dela. Era uma moça, mais ou menos da minha idade, com um cabelo comprido arruivado. Era lindíssima, mas tinha qualquer coisa que não deixava a gente parar de olhar para ela.
“É seu?”
“Era do meu marido.”
Vi então que ela podia ser uma daquelas avós de rosto de pó de arroz, toda fofa e gentil, mas, quando olhava para o quadro, contraía a boca até seus lábios virarem uma linha fina, como se estivesse cheia de amargura.
“Mas é lindo. Por que quer se desfazer de algo tão bonito?”
“Nunca quis essa mulher dentro da minha casa. Meu marido me obrigou. Durante trinta anos, tive que conviver com o rosto dessa pessoa na minha casa. Quando estava cozinhando, fazendo limpeza, quando estava sentada com meu marido, eu tinha que olhar para ela.”
“É só um quadro”, falei. “A senhora não pode ter ciúmes de um quadro.”
Ela mal me ouviu.
“Ela zombou de mim durante trinta anos. Meu marido e eu um dia fomos felizes, mas ela acabou com ele. E tive que aguentar aquele rosto me perseguindo todos os dias do nosso casamento. Agora que ele morreu, não preciso ter essa garota me olhando. Ela pode finalmente voltar para o lugar dela.”
Vi a senhora enxugar os olhos com as costas da mão.
“Se não quer ficar com o quadro”, ela cuspiu, “então pode tocar fogo nele.”
Peguei-o para mim. O que mais eu poderia ter feito?
Bem, já estou de volta à minha mesa. Danes esteve aqui, branco como um fantasma, prometendo que irei com ele amanhã.
“Tem certeza de que quer ver isso, Toots?”, disse. “Não é bonito. Tenho certeza de que não é cena para os olhos de uma dama.”
“Desde quando você começou a me chamar de dama?”, brinquei, mas ele não estava para brincadeiras. Danes se sentou pesadamente na beira da minha cama e afundou a cabeça nas mãos. E quando olhei para ele, vi aqueles ombros largos começarem a sacudir. Fiquei ali parada, sem saber o que fazer.
Finalmente, peguei um cigarro na bolsa, acendi e entreguei-lhe. Ele aceitou, fazendo um gesto de agradecimento com a mão, e enxugou os olhos, ainda de cabeça baixa.
Fiquei meio nervosa então, e, pode acreditar, nunca fico nervosa.
“Muito... obrigado por hoje. Os rapazes disseram que você fez um ótimo trabalho.”
Não sei por que, não lhe contei sobre o quadro. Acho que devia ter contado, mas o lugar dele não era no raio do depósito, afinal de contas. Não tinha nada a ver com o raio do depósito. Aquela velha alemã estava se lixando para o que acontecesse com o retrato, desde que não estivesse mais olhando para ela.
E sabe de uma coisa? No íntimo, me agrada a ideia de que a gente pode ter um quadro com força suficiente para abalar um casamento. E ela é bem bonita.
Não consigo parar de olhar para ela. Em vista de tudo o mais que parece estar acontecendo por aqui, é bom ter algo belo para olhar.

O tribunal está em silêncio absoluto quando Marianne Andrews fecha o diário à sua frente. Liv se concentrou tanto que se sentiu quase desmaiando. Ela dá uma olhada furtiva no banco e vê Paul, os cotovelos nos joelhos, a cabeça caída para a frente. Ao lado dele, Janey Dickinson está escrevendo freneticamente em seu bloco de notas.
Uma bolsa.
Angela Silver está de pé.
— Então vamos esclarecer isso, Sra. Andrews. O quadro que a senhora conhece como A garota que você deixou para trás não estava, nem nunca esteve, no depósito quando foi dado para sua mãe.
— Não, senhora.
— E só para reiterar, embora o depósito estivesse repleto de obras de arte saqueadas, roubadas, este quadro específico foi dado para sua mãe, e nem mesmo esteve dentro das instalações.
— Sim, senhora. Por uma alemã. Como diz o diário dela.
— Meritíssimo, este diário, escrito com a letra de Louanne Baker, prova categoricamente que este quadro nunca esteve no Collection Point. O quadro foi simplesmente dado de presente por uma mulher que nunca o quisera. Doado. Seja lá por qual motivo, um ciúme sexual bizarro, um ressentimento histórico, nunca saberemos. O ponto relevante aqui é que este quadro, que, como acabamos de ouvir, quase foi destruído, foi um presente.
“Meritíssimo, já ficou muito claro nestas duas últimas semanas que a procedência desse quadro é incerta, como é a de muitos quadros de um século turbulento. O que pode ser provado agora, definitivamente, no entanto, é que as duas últimas transferências do quadro foram impecáveis. David Halston o comprou legalmente para sua mulher em 1997, e ela tem o recibo para comprovar. Louanne Baker, que era a dona anterior, recebeu-o de presente em 1945, e temos sua palavra escrita, a palavra de uma mulher famosa pela honestidade e precisão, para prová-lo. Por isso, defendemos que A garota que você deixou para trás deve permanecer com a proprietária atual. Retirá-lo certamente é zombar da lei.”
Angela Silver se senta. Paul olha para ela. No breve instante em que seus olhos se cruzam, Liv tem certeza de que pode detectar um leve sorriso.

* * *

A sessão é interrompida para o almoço. Marianne está fumando na escadaria dos fundos, com a bolsa azul pendurada no ombro, olhando para a rua cinzenta.
— Não foi maravilhoso? — diz em tom de conspiração quando vê Liv se aproximando.
— A senhora foi brilhante.
— Ah, nossa, tenho que confessar, gostei mesmo. Eles agora vão ter que engolir o que disseram sobre minha mãe. Eu sabia que ela nunca pegaria algo que não fosse dela. — Faz um gesto de cabeça afirmativo, bate a cinza do cigarro. — Sabe, ela era chamada de “A Destemida Srta. Baker”.
Liv se debruça na grade em silêncio. Sobe a gola por causa do frio.
Marianne fuma o resto do cigarro com tragadas longas e ávidas.
— Foi ele, não foi? — diz Liv finalmente, olhando para a frente.
— Ah, querida, prometi não dizer uma palavra. — Marianne se vira para ela e faz uma careta. — Fiquei danada comigo mesma hoje de manhã. Mas claro que foi. O coitado é louco por você.

* * *

Christopher Jenks se levanta.
— Sra. Andrews. Uma pergunta simples. Sua mãe perguntou como esta senhora generosíssima se chamava?
Marianne Andrews pisca.
— Não tenho ideia.
Liv não consegue tirar os olhos de Paul. Você fez isso por mim?, pergunta em silêncio. Estranhamente, o olhar dele já não encontra o dela. Ele está sentado ao lado de Janey Dickinson parecendo constrangido, consultando o relógio e olhando para a porta. Ela não consegue pensar no que dirá para ele.
— É um presente extraordinário para se aceitar sem conhecer de quem o recebe.
— Bem, presente louco, tempos loucos. Acho que era preciso estar lá para ver.
Risadas discretas se propagam pela sala. Marianne Andrews se sacode ligeiramente. Liv detecta ambições teatrais frustradas.
— De fato. Já leu os diários da sua mãe?
— Ah, claro que não — diz ela. — Ali há trinta anos de memórias. A gente... eu... só achei os cadernos ontem à noite. — Seu olhar vai por um instante para o banco. — Mas a gente encontrou a parte importante. A parte em que o quadro é dado para mamãe. Por isso que eu o trouxe aqui. — Ela dá muita ênfase à palavra “dado”, olhando de soslaio para Liv e acenando positivamente com a cabeça para si mesma ao dizer isso.
— Então a senhora ainda não leu o diário de 1948 de Louanne Baker?
Há um breve silêncio. Liv sabe que Henry está pegando seus próprios arquivos.
Jenks estende a mão e o advogado lhe entrega um papel.
— Excelência, peço permissão para incluir o diário de 11 de maio de 1948, a parte intitulada “Mudanças de Casa”?
— O que eles estão fazendo?
A atenção de Liv finalmente é atraída de volta para o processo. Ela se inclina para Henry, que está examinando as folhas.
— Estou procurando — sussurra ele.
— Ali, Louanne Baker fala de sua mudança de casa de Newark, no Condado Essex, para Saddle River.
— Isso mesmo — diz Marianne. — Saddle River. Foi onde eu cresci.
— Sim... Os senhores verão aqui que fornece alguns detalhes da mudança. Menciona tentar encontrar panelas, o pesadelo de estar cercada de caixas por abrir. Acho que todos podem se identificar com isso. Mas, talvez, o que é mais pertinente, ela anda pela casa tentando... — ele faz uma pausa, para ler as palavras ipsis literis... — tentando encontrar o lugar perfeito para pendurar o quadro da Liesl.
Liesl.
Liv observa os jornalistas procurando em suas anotações. Mas percebe nauseada que já sabe o que ele vai falar.
— Porra — sussurra Henry.
A equipe de Sean Flaherty está bem mais adiantada que eles. Devem ter colocado a equipe inteira para ler os diários na hora do almoço.
— Eu agora gostaria de chamar a atenção do meritíssimo juiz para registros mantidos pelo Exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. O Kommandant lotado em St Péronne desde 1916, o homem que levou seus soldados para o Le Coq Rouge, era um homem chamado Friedrich Hencken. — Ele faz uma pausa para deixar a informação ser digerida. — Os registros afirmam que o Kommandant ali lotado na época, o Kommandant que tanto admirava o retrato da mulher de Édouard Lefèvre, era um Friedrich Hencken.
“E agora eu gostaria de mostrar ao tribunal os registros do censo de 1945 da região em torno de Berchtesgaden. O antigo Kommandant Freidrich Hencken e sua mulher, Liesl, se instalaram ali após a aposentadoria dele. A poucas ruas do depósito do Collection Point. Há também o registro de que Liesl mancava visivelmente, em consequência de uma poliomielite contraída na infância.”
A advogada deles está em pé.
— De novo, isto é circunstancial.
— Sr. e Sra. Friedrich Hencken. Meritíssimo, sustentamos que o Kommandant Friedrich Hencken retirou o quadro do Le Coq Rouge em 1917. Ele o levou para sua casa, aparentemente contra a vontade da esposa, que poderia razoavelmente ter feito objeções a uma imagem tão forte de outra mulher. O quadro ficou ali até a morte dele, quando a Sra. Hencken quis se desfazer do retrato e o levou algumas ruas adiante para o lugar que sabia abrigar milhares de obras de arte, um lugar onde ele seria deixado e nunca mais visto.
Angela Silver se senta.
Jenks prossegue, agora com a energia renovada.
— Sra. Andrews. Vamos voltar às memórias de sua mãe daquela época. Poderia ler o parágrafo seguinte, por favor? Esse trecho, que conste nos autos, vem da mesma entrada do diário. Nele, Louanne Baker aparentemente acha o que acredita ser o lugar perfeito para A garota, como ela chama o quadro.
“Assim que eu a coloquei naquela sala da frente, ela pareceu confortável. Ali, ela não pega o sol direto, mas a janela da outra parede, com aquela luz quente, realça as cores dela. Ela parece bem feliz, de alguma forma!”
Marianne lê devagar agora, sem familiaridade com essas palavras da mãe.
Olha para Liv, e seus olhos exprimem um pedido de desculpas, como se já soubesse onde isso ia dar.
“Eu mesma preguei os pregos. Howard sempre lasca um grande pedaço de emboço ao fazer isso, mas, quando eu já ia pendurá-la, algo me fez virar o quadro e dar mais uma olhada no verso. E aí pensei na pobre daquela mulher, com aquele rosto triste e amargurado. E me lembrei de uma coisa que eu tinha esquecido desde a guerra.
“Sempre presumi estar vendo algo que não existia. Mas, ao me entregar o quadro, Liesl por um instante vacilou, como se tivesse mudado de ideia. Então esfregou algo no verso, como se tentasse apagar o que estava escrito. Ficou esfregando, como louca. Esfregou com tanta força que achei que realmente tivesse machucado os dedos.”
O tribunal está em silêncio, ouvindo.
“Bem, acabei de olhar no verso, como olhei na época. E essa foi a única coisa que me fez questionar se a coitada daquela mulher estava em perfeito juízo quando me deu o quadro. Porque, por mais que a gente olhe a parte de trás dele, além do título não há nada ali, só um borrão de giz.
“É errado aceitar algo de quem não está em seu perfeito juízo? Ainda não tenho certeza. Sinceramente, o mundo parecia tão louco naquela época, com o que estava acontecendo nos campos, homens adultos chorando, e eu encarregada de objetos alheios no valor de um bilhão de dólares — que a velha Liesl e aqueles seus dedos em carne viva esfregando nada pareciam na verdade bastante normal.”
— Meritíssimo, nós sugerimos que este trecho, e o fato de Liesl não dar o seu sobrenome, são uma prova muito clara de alguém tentando disfarçar ou até destruir qualquer sinal da procedência do quadro. Bem, ela certamente teve êxito.
Enquanto ele faz uma pausa, um membro da sua equipe atravessa a sala e lhe entrega um papel. Ele o lê e respira fundo. Seus olhos examinam a sala.
— Registros do censo alemão que acabamos de conseguir mostram que Sophie Lefèvre contraiu a gripe espanhola pouco depois de ter chegado aos campos de Ströhen. Ela morreu ali logo depois.
Liv sente um zumbido no ouvido ao escutar as palavras dele. Elas vibram em seu íntimo, como os tremores após um golpe físico.
— Meritíssimo, como já ouvimos neste tribunal, foi feita uma grande injustiça com Sophie. Foi feita uma grande injustiça com seus descendentes. Seu marido, sua dignidade, sua liberdade e, em última instância, sua vida, lhe foram tirados. Roubados. O que ficou, a sua imagem, foi, segundo todas as provas, confiscado da sua família pelo próprio homem que mais mal lhe fez.
“Só há uma forma de reparar esse mal, por mais tarde que seja. O quadro deve ser devolvido à família Lefèvre.”
Ela mal ouve o restante. Paul está sentado com a testa apoiada nas mãos. Ela olha para Janey Dickinson, e, quando seus olhares se cruzam ela se dá conta, um pouco chocada, que, também para alguns dos outros participantes, esse caso não é apenas sobre um quadro.

* * *

Até Henry está abatido quando eles deixam o tribunal. Liv se sente como se todos tivessem sido atropelados por um caminhão.
Sophie morreu nos campos. Doente e sozinha. Sem nunca mais ter visto o marido.
Ela olha para os Lefèvre sorridentes do outro lado do tribunal, querendo se sentir generosa para com eles. Querendo ter a sensação de que um grande erro está prestes a ser reparado. Mas se lembra das palavras de Philippe Bessette, do fato de que a família não permitia sequer que se tocasse no nome dela. Sente-se como se, pela segunda vez, Sophie estivesse prestes a ser entregue ao inimigo.
Sente-se, estranhamente, privada de um ente querido.
— Olhe, quem sabe o que o juiz vai decidir — diz Henry quando a vê no fundo da área de segurança. — Tente não pensar muito nisso durante o fim de semana. Não há mais nada que a gente possa fazer agora.
Ela tenta sorrir para ele.
— Obrigada, Henry — diz. — Telefono para você.
A sensação ali é estranha, no sol de inverno, como se eles tivessem passado muito mais que uma tarde fechados no tribunal. Ela se sente como se viesse direto de 1945. Henry pede um táxi para ela, depois vai embora, despedindo-se com um gesto de cabeça. Ela então o vê, parado no portão da segurança. Ele dá a impressão de estar à sua espera e vai direto ao seu encontro.
— Sinto muito — diz ele, triste.
— Paul, não...
— Eu realmente pensei... Sinto muito por tudo.
Seus olhos encontram os dela, uma última vez, e ele vai andando, sem ver os clientes saindo do pub Seven Stars, os assistentes jurídicos arrastando seus carrinhos de pastas. Ela vê seus ombros curvados, sua cabeça atipicamente caída, e é isso, coroando tudo mais que aconteceu hoje, que finalmente faz-lhe tomar uma decisão.
— Paul! — Ela tem que gritar novamente para ser ouvida acima do barulho do tráfego. — Paul!
Ele se vira.
— Eu sei. — Ele fica parado um instante, aquele homem alto, um pouco abatido, vestido com um bom terno. — Eu sei. Obrigada... por tentar.
Às vezes a vida é uma série de obstáculos, uma questão de colocar um pé na frente do outro. Às vezes, de repente ela se dá conta, é simplesmente uma questão de fé cega.
— Você gostaria de... ir beber algo qualquer hora dessas? — Ela engole em seco. — Ou mesmo agora?
Ele olha para o chão, pensativo. Então olha para ela.
— Você me daria um minuto?
Ele torna a subir a escada do tribunal. Ela vê Janey Dickinson conversando com seu advogado. Paul toca no braço dela, e há uma breve troca de palavras.
Ela está aflita, remoendo a pergunta: O que ele está dizendo a ela agora? Ela se afasta, entrando no táxi, tentando se acalmar. Quando olha pela janela, vê Paul descendo de novo, enrolando um cachecol no pescoço. Janey Dickinson está olhando para o táxi, com as pastas frouxas nos braços.
Paul entra e bate a porta.
— Pedi demissão — diz. Dá um suspiro e pega a mão dela. — Muito bem. Aonde vamos?

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