20 de novembro de 2017

Capítulo 30

— Pois é isso — disse Slartibartfast, fazendo uma tentativa puramente pro forma de arrumar a bagunça extraordinária de seu gabinete. Pegou um papel que estava no alto de uma pilha de objetos, mas, como não sabia onde guardá-lo, recolocou-o no alto da mesma pilha, que imediatamente desabou. — Pensador Profundo projetou a Terra, nós a construímos e você viveu nela.
E os vogons vieram e a destruíram cinco minutos antes de terminar o processamento do programa — disse Arthur, não sem um toque de rancor.
— É — disse o velho, olhando ao redor sem saber por onde começar. — Dez milhões de anos de planejamento e trabalho, tudo por água abaixo. Dez milhões de anos, terráqueo... Você concebe uma coisa dessas? Toda uma civilização galáctica pode evoluir a partir de um verme, cinco vezes seguidas, em dez milhões de anos. Tudo por água abaixo. — Fez uma pausa. — Pois é, coisas da burocracia — acrescentou.
— Sabe — disse Arthur, pensativo —, isso explica um monte de coisas. Toda a minha vida eu sempre tive uma impressão estranha, inexplicável, de que estava acontecendo alguma coisa no mundo, uma coisa importante, até mesmo sinistra, e ninguém me dizia o que era.
— Não — disse o velho —, isso é só uma paranoia perfeitamente normal.
— Todo mundo no Universo tem isso.
— Todo mundo? — repetiu Arthur. — Bem, se todo mundo tem isso, então talvez isso queira dizer alguma coisa. Quem sabe em algum lugar fora do Universo que conhecemos...
— Talvez. E daí? — disse Slartibartfast, antes que Arthur ficasse muito excitado com a ideia. — Talvez eu esteja velho e cansado, mas acho que a probabilidade de descobrir o que realmente está acontecendo é tão absurdamente remota que a única coisa a fazer é deixar isso pra lá e simplesmente arranjar alguma coisa pra fazer. Veja o meu caso: eu trabalho em litorais. Ganhei um prêmio pela Noruega. — Começou a remexer no meio de uma pilha de cacarecos, tirou dela um grande bloco de acrílico contendo um modelo da Noruega e mais o nome dele.
— O que adiantou ganhar isso? Que eu saiba, nada. Passei a vida inteira fazendo fiordes. De repente, durante algum tempo, eles entraram em moda e eu ganhei um grande prêmio.
Revirou o bloco de acrílico na mão e, dando de ombros, jogou-o para o lado, descuidadamente, mas não tão descuidadamente que não desse um jeito de fazer com que o troféu caísse sobre alguma coisa macia.
— Nesta Terra substituta que estamos construindo me encarregaram da África, e é claro que estou carregando nos fiordes, porque eu gosto, e sou um sujeito antiquado a ponto de achar que os fiordes dão um belo toque barroco num continente. E agora estão me dizendo que isso não condiz com o caráter equatorial do lugar. Equatorial! — soltou uma risada sarcástica. — Que importância tem isso? A ciência conseguiu algumas coisas fantásticas, não vou negar, mas acho mais importante estar feliz do que estar certo.
— E o senhor está feliz?
— Não. Aí é que está o problema, é claro.
— Que pena — disse Arthur, com sentimento. — Estava me parecendo um estilo de vida e tanto.
Uma luzinha branca se acendeu na parede.
— Vamos — disse Slartibartfast —, você vai conhecer os ratos.
A sua chegada a esse planeta causou muito rebuliço. Parece que alguém já fez o cálculo, e é o terceiro evento mais improvável na história do Universo.
— Quais são os dois primeiros?
— Ah, provavelmente apenas coincidências — disse Slartibartfast, dando de ombros. Abriu a porta e esperou que Arthur o seguisse.
Arthur olhou ao redor mais uma vez e depois para suas próprias roupas, as mesmas roupas suadas e sujas com as quais havia se deitado na lama na manhã de quinta-feira.
— Estou tendo sérios problemas com meu estilo de vida — murmurou Arthur.
— O quê? — perguntou o velho.
— Ah; nada. Eu estava só brincando.

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