15 de novembro de 2017

Capítulo 30

— Então achamos que poderíamos ir ao cinema hoje à tarde. E hoje de manhã Jake vai me ajudar a passear com os cachorros.
Greg dirige mal, ora apertando ora soltando o acelerador, aparentemente no ritmo da música, fazendo com que Paul seja projetado para a frente a intervalos irregulares desde a Fleet Street.
— Posso levar meu Nintendo?
— Não, não pode levar seu Nintendo, menino da tela. Você vai dar de cara numa árvore, como da última vez.
— Estou treinando passar por cima delas, como o Super Mario.
— Boa tentativa, espertinho.
— A que horas você volta, pai?
— Hum?
No banco do carona, Paul está examinando os jornais. Há quatro matérias sobre os acontecimentos da véspera no tribunal. As manchetes sugerem uma vitória iminente para a TARP e os Lefèvre. Ele não se lembra da última vez que se sentiu menos eufórico com um veredicto vitorioso.
— Pai?
— Droga. O noticiário.
Ele olha o relógio, se inclina para a frente, mexe no dial.
“Sobreviventes de campos de concentração alemães pediram que o governo agilize a aprovação de leis que ajudem na devolução de obras de arte saqueadas durante a guerra...”
“Sete sobreviventes morreram só este ano enquanto aguardavam processos de devolução de bens de suas famílias, segundo fontes legais, uma situação que já foi descrita como ‘uma tragédia’.”
“O pedido chega quando a ação penal de um quadro que teria sido saqueado durante a Primeira Guerra Mundial tramita no Supremo Tribunal.”
Paul se inclina mais ainda.
— Como aumento o volume? — Onde eles estão conseguindo isso?
— Você devia tentar o Pac-man. Isso sim era um jogo de computador.
— O quê?
— Pai? A que horas?
— Espere aí, Jake. Preciso escutar isso.
“...Halston, que afirma que seu falecido marido comprou o quadro de boa-fé. O polêmico caso ilustra as dificuldades de um sistema jurídico que vem enfrentando um número crescente de ações de devolução complexas na última década. O caso Lefèvre chama atenção do mundo inteiro, com grupos de sobreviventes...”
— Nossa. Pobre Liv. — Greg balança a cabeça.
— O quê?
— Eu não queria estar na pele dela.
— O que você quer dizer com isso?
— Bem, tudo isso nos jornais, no rádio... a coisa está endurecendo bastante.
— Faz parte do jogo.
Greg lhe lança o olhar que dirige aos clientes que pedem para comprar fiado.
— É complicado.
— É? Pensei que você tivesse dito que essas coisas são sempre preto no branco.
— Quer me deixar em paz, Greg? Ou quem sabe devo dar uma passada depois no seu bar para ensiná-lo a tocar o negócio. Ver como as coisas estão indo.
Greg e Jake se entreolham levantando as sobrancelhas. É surpreendentemente irritante.
Paul se vira para trás.
— Jake, ligo para você quando sairmos do tribunal, certo? Vamos ao cinema ou fazer alguma outra coisa hoje à noite.
— Mas vamos fazer isso de tarde. Greg acabou de contar para você.
— Supremo Tribunal chegando à direita. Quer que eu dê um balão? — Greg faz sinal para a esquerda e freia de modo tão radical que todos são lançados à frente. Um táxi dá uma guinada e passa por eles reclamando aos berros. — Não sei se posso parar aqui. Se eu for multado, você paga, está bem? Ei, não é ela?
— Quem?
Jake se debruça.
Paul olha para a multidão em frente ao Supremo Tribunal do outro lado da rua. A área aberta da frente dos degraus está repleta de gente. A aglomeração aumentou nos últimos dias, mas mesmo em meio à bruma ele detecta algo diferente nas pessoas hoje: uma agressividade, uma expressão mal disfarçada de antipatia no rosto de cada uma.
— Ihhh — diz Greg, e Paul acompanha a direção do olhar dele.
Do outro lado da rua, Liv está se aproximando da entrada do fórum, agarrada à bolsa, cabisbaixa, como se estivesse concentrada. Ergue os olhos, e, quando entende a atmosfera à sua frente, seu rosto fica apreensivo. Alguém grita seu nome. Halston. A multidão leva um segundo para registrar, e ela aperta o passo, tenta passar depressa, mas repetem seu nome, um murmúrio grave, que cresce, vira uma acusação.
Henry, apenas visível do outro lado da entrada, anda ligeiro pela calçada em direção a ela, já entendendo o que acontecia. Liv titubeia, e ele avança depressa, mas a multidão a engole, como um organismo gigante.
— Nossa.
— O que...
Paul larga as pastas, salta do carro e atravessa a rua correndo. Mergulha no mar de gente e vai empurrando todo mundo para chegar no meio do bolo. É uma voragem de mãos e faixas, uma gritaria ensurdecedora. Uma faixa com a palavra ROUBO cai à sua frente. Ele vê o flash de uma câmera, entrevê o cabelo de Liv, agarra seu braço e ouve-a gritar apavorada. A multidão avança e quase o derruba. Ele vê Henry do outro lado de Liv, força a passagem até chegar a ele, xingando um homem que agarra seu paletó. Policiais uniformizados com túnicas fosforescentes aparecem, afastando os manifestantes.
— Dispersar. RECUAR. RECUAR.
Ele está ofegante, leva uma pancada forte nos rins, e então estão livres, correndo escada acima, um de cada lado de Liv, amparada como uma boneca.
Após uma troca de mensagens cheias de interferências, policiais corpulentos os fazem passar pelas barreiras de segurança e chegar à tranquilidade do outro lado. A multidão, contrariada, protesta esbravejando do lado de fora, e o barulho ecoa nas paredes.
Liv está branca como papel. Ela está muda, imóvel, com a mão no rosto; sua bochecha está arranhada e o rabo de cavalo, meio desfeito.
— Nossa. Onde vocês estavam? — Henry endireita o paletó irritado, gritando para os agentes. — Cadê a Segurança? Vocês deviam ter previsto isso!
O agente está balançando a cabeça, fazendo que sim distraidamente para ele, com uma das mãos levantada, a outra segurando o rádio diante da boca, dando instruções.
— Isso é simplesmente inaceitável!
— Você está bem? — Paul larga Liv. Ela faz que sim com um gesto de cabeça e dá um passo para trás às cegas, como se só agora tivesse percebido sua presença. Tem as mãos trêmulas.
— Obrigado, Sr. McCafferty — diz Henry, ajustando o colarinho. — Obrigado por se meter no bolo. Foi... — Sua voz some.
— Será que podemos arranjar uma água para Liv? Um lugar para se sentar?
— Ai, meu Deus — diz Liv baixinho, olhando para a manga. — Cuspiram em mim.
— Aqui. Tire o casaco. Tire logo.
Paul lhe tira o casaco dos ombros. Ela de repente parece menor, os ombros caídos, como se sentindo o peso do ódio lá fora.
Henry pega o casaco da mão dele.
— Não se preocupe com isso, Liv. Vou mandar alguém do escritório limpar. E vamos fazer com que você possa sair pela entrada dos fundos.
— Sim, madame. Nós faremos a senhora sair pelos fundos depois — diz o policial.
— Como uma criminosa — conclui ela, apática.
— Não deixarei isso acontecer de novo com você — diz Paul, adiantando-se para ela. — Mesmo. Sinto... sinto muito.
Ela olha para ele, franze os olhos e dá um passo para trás.
— O que foi?
— Por que eu confiaria em você?
Antes que ele consiga responder, Henry segura-a pelo cotovelo e ela desaparece no corredor, escoltada até o tribunal por seus advogados, de alguma forma muito pequena naquele blazer escuro, sem ver que continua com o rabo de cavalo meio desfeito.

* * *

Paul atravessa a rua devagar, endireitando os ombros dentro do paletó. Greg está em pé junto do carro, segurando suas pastas dispersas e sua maleta de couro.
Começou a chover.
— Você está bem?
Ele faz que sim com um gesto de cabeça.
— E ela?
— Hã... — Paul olha para o tribunal, esfrega a cabeça. — Mais ou menos. Olhe. Tenho que entrar. A gente se vê mais tarde.
Greg olha para ele, depois para a multidão, que agora está tranquila; muita gente conversando como se nada tivesse acontecido dez minutos antes. Sua expressão é atipicamente fria.
— E aí — diz ao entrar no carro —, essa sua posição de defensor do lado bom, como é que está para você?
Greg não olha para o irmão ao sair com o carro. Com o rosto pálido e impassível colado no vidro traseiro, Jake contempla o pai até o carro sumir de vista.

* * *

Janey acompanha-o quando ele sobe os degraus do fórum. Seu cabelo está cuidadosamente preso, e ela usa um batom vermelho-vivo.
— Comovente — diz.
Ele finge não ter ouvido.
Sean Flaherty joga suas pastas num banco e se prepara para passar pela Segurança.
— Isso está ficando meio fora de controle. Nunca vi nada igual.
— É — diz Paul, esfregando a mandíbula. — É quase como... Ah, sei lá. Como se essa merda incendiária toda com que alimentam a mídia esteja surtindo efeito.
Ele se vira para Janey.
— O que isso significa?
— Significa que quem quer que esteja informando os jornalistas e dando corda em grupos de interesse, obviamente está cagando para quanto isso vai ficar desagradável.
— Ao passo você é puro cavalheirismo. — Janey olha para ele com firmeza.
— Janey, você tem algo a ver com aquela manifestação?
A pausa demora só uma fração de segundo a mais.
— Não seja ridículo.
— Minha nossa!
Os olhos de Sean correm de um lado para o outro, como se ele estivesse só agora registrando que uma conversa distinta está acontecendo bem ali na sua frente. Pede licença, murmurando algo sobre dar instruções ao advogado do tribunal. E ficam só Paul e Janey no comprido corredor de pedra.
Ele corre a mão pelo cabelo, olha para o tribunal.
— Não estou gostando disso. Não estou gostando nada disso.
— Faz parte do trabalho. E você nunca ligou antes.
Ela olha para o relógio, depois pela janela. Não se vê o hotel The Strand dali, mas ainda se ouve o coro dos manifestantes, abafado pelos prédios. Ela tem os braços cruzados.
— Enfim, acho que você não pode exatamente bancar o inocente.
— O que quer dizer?
— Quer me contar o que está acontecendo? Com você e a Sra. Halston?
— Não está acontecendo nada.
— Não insulte minha inteligência.
— Tudo bem. Nada que seja da sua conta.
— Se estiver tendo um caso com o alvo da nossa ação, acho que é muito da minha conta.
— Não estou tendo um caso com ela.
Janey chega mais perto dele.
— Não fode, Paul. Você se aproximou dos Lefèvre pelas minhas costas, tentando negociar um acordo.
— Sim. Eu ia falar sobre...
— Vi aquela exibiçãozinha lá fora. E você tenta fazer um acordo para ela, dias antes da decisão?
— Tudo bem. — Paul tira o paletó e se senta pesadamente num banco. — Tudo bem.
Ela espera.
— Tive um caso rápido com ela antes de saber quem ela era. Terminou quando descobri que estávamos em lados opostos. Mais nada.
Janey estuda algo na abóboda do teto. Quando torna a falar, é num tom descontraído.
— Está planejando sair com ela de novo? Depois que isso tudo terminar?
— Isso não é da conta de ninguém.
— Claro que é. Preciso saber que você anda trabalhando tanto quanto pode para mim. Que esse processo não ficou comprometido.
A voz dele explode no espaço vazio.
— Estamos ganhando, não? O que mais você quer?
Os últimos membros da equipe estão entrando no tribunal. O rosto de Sean surge, contornando a pesada porta de carvalho, e manda-os entrar sem emitir o som das palavras.
Paul respira fundo. Fala com voz conciliadora.
— Olhe, assuntos pessoais à parte, acho que o certo seria fazer um acordo. Ainda estaríamos...
Janey pega suas pastas.
— Não vamos fazer acordo.
— Mas...
— Por que cargas-d’água faríamos? Estamos prestes a ganhar o caso mais importante que essa firma já pegou.
— Estamos destruindo a vida de uma pessoa.
— Ela destruiu a vida dela no dia em que resolveu brigar conosco.
— Estamos tomando o que ela acha ser dela. Claro que ela ia brigar conosco. Vamos, Janey, isso é justiça.
— Isso não é justiça. Nada é justiça. Não seja ridículo. — Ela assoa o nariz. Quando vira para ele, seus olhos brilham. — Esta ação está marcada para mais dois dias no tribunal. Se não acontecer nada desfavorável, Sophie Lefèvre voltará depois disso para o lugar dela.
— E você tem muita certeza de onde é.
— Tenho, sim. Como você deveria ter. E, agora, sugiro entrarmos antes que os Lefèvre se perguntem o que ainda estamos fazendo aqui fora.
Ele entra no tribunal, a cabeça zumbindo, ignorando o olhar crítico do meirinho. Senta-se e respira fundo algumas vezes, tentando clarear as ideias.
Janey está distraída, conversando com Sean. Quando seus batimentos cardíacos voltam ao normal, ele se lembra de um detetive aposentado com quem costumava conversar quando chegou a Londres, um homem cuja feição risonha espelhava sua visão irônica dos costumes do mundo. “Só o que conta é a verdade, McCafferty”, dizia ele, quando a cerveja ainda não tinha transformado a conversa em tagarelice. “Sem ela, só manipulamos as ideias tolas das pessoas.”
Ele retira o bloco de anotações do paletó e escreve algo, depois dobra o papel cuidadosamente ao meio. Olha para os lados, depois toca nas costas do homem à sua frente.
— Pode dar isso para aquele advogado, por favor?
Ele observa o papel branco passar de mão em mão até o advogado assistente, depois para Henry, que olha o papel e o passa para Liv.
Ela abre o bilhete com uma expressão desconfiada. E, então, ele vê que ela fica petrificada ao digerir o que está escrito.

VOU CONSERTAR ISSO.

Ela vira e o procura com os olhos. Quando o encontra, levanta ligeiramente o queixo. Por que devo confiar em você?
O tempo parece parar. Ela desvia o olhar.
— Diga a Janey que tive que ir embora. Reunião urgente — diz ele a Sean.
Paul se levanta e vai abrindo passagem para sair.

* * *

Depois, ele não sabe ao certo o que o leva ali. O apartamento, num prédio atrás da Marylebone Road, é revestido de papel de parede salmão ao qual espirais peroladas acrescentam um leve brilho sedoso. As cortinas são cor-de-rosa. Os sofás, rosa-escuros. Pelas paredes, há prateleiras sobre as quais bichinhos de porcelana disputam espaço com brilhos e cartões de Natal. Muitos são rosa. E ali, em pé à sua frente, de calça e cardigã, está Marianne Andrews. De verde limão dos pés a cabeça.
— O senhor é da turma do Sr. Flaherty.
Ela se abaixa um pouco, por ser grande demais para o vão da porta. Tem o que a mãe de Paul chamaria de “ossos grandes”: eles simplesmente se projetam das suas juntas como os de um camelo.
— Me desculpe chegar assim à sua casa. Eu queria conversar com a senhora. Sobre o processo.
Ela dá a impressão de que vai mandá-lo embora, mas depois levanta a mão.
— Ah, pode entrar. Mas vou logo avisando: estou uma fera com o jeito com que vocês todos falaram da mamãe, como se ela fosse uma espécie de criminosa. Os jornais não ficam atrás. Esses dias tenho recebido ligações de amigos lá da minha cidade que viram a matéria e estão tentando insinuar que ela fez algo terrível. Estava acabando agora mesmo de falar com Myra, minha amiga desde a época da escola, e tive que dizer a ela que mamãe fez mais coisas úteis em seis meses do que o marido daquela desgraçada sentado com aquela bunda gorda durante trinta anos no Bank of America.
— Tenho certeza.
— Ah, aposto que tem, querido. — Faz sinal para ele entrar. Ela tem um andar pesado, arrastado. — Mamãe era uma social progressista. Ela escreveu sobre a situação de trabalhadores, crianças separadas de seus pais. Ficou horrorizada com a guerra. Ela seria tão incapaz de roubar algo quanto de ter convidado Goering para sair. Bem, acho que o senhor vai querer beber alguma coisa.
Paul aceita uma Coca diet e se instala em um dos sofás baixos. Pela janela da sala superaquecida, chega o ruído da hora do rush ao longe. Um gato grande que ele inicialmente confundira com uma almofada se desenrosca e pula em seu colo, onde esfrega as coxas num êxtase silencioso.
Marianne Andrews se senta e acende um cigarro. Respira de um jeito teatral.
— Esse sotaque é do Brooklyn?
— Nova Jersey.
— Hum. — Ela lhe pergunta seu endereço antigo, acena com a cabeça como se para afirmar sua familiaridade com o lugar. — Está aqui há muito tempo?
— Sete anos.
— Estou há seis. Vim com o meu melhor marido, Donald. Ele faleceu em julho passado. — Então, falando com uma voz ligeiramente mais suave, diz: — Bem, enfim, como posso ajudá-lo? Não sei se tenho muito mais do que falei em juízo.
— Não sei. Acho que só estou me perguntando se há algo, qualquer coisa, que talvez não tenhamos visto.
— Não. Como eu disse ao Sr. Flaherty, não tenho ideia de onde veio o quadro. Para ser franca, quando mamãe se lembrava do seu tempo de repórter, ela preferia falar da época em que ficou trancada no banheiro de um avião com JFK. E, sabe, papai e eu não estávamos muito interessados. Pode acreditar, quem ouve as histórias de um velho repórter, já ouviu todas.
Paul corre os olhos pelo apartamento. Quando volta a Marianne, vê seus olhos ainda pousados nele. Ela o examina com cuidado, solta um anel de fumaça no ar.
— Sr. McCafferty. Seus clientes virão atrás de mim exigindo uma compensação se o tribunal decidir que o quadro foi roubado?
— Não. Eles só querem o quadro.
Marianne Andrews balança a cabeça.
— Aposto que virão. — Ela descruza as pernas, fazendo uma careta por sentir desconforto com o movimento. — Acho que esse processo todo fede. Não gosto do jeito que o nome da minha mãe está sendo arrastado na lama. Ou o do Sr. Halston. Ele adorava aquele quadro.
Paul olha para o gato.
— É bem possível que o Sr. Halston tivesse uma boa ideia do valor real do quadro.
— Com todo o respeito, Sr. McCafferty, o senhor não estava lá. Se está tentando insinuar que devo me sentir passada para trás, está falando com a mulher errada.
— A senhora não liga mesmo para o valor do quadro?
— Desconfio de que o senhor e eu tenhamos definições diferentes da palavra “valor”.
O gato o encara com um olhar voraz e ligeiramente hostil.
Marianne Andrews apaga o cigarro.
— E eu fico doente por causa da pobre Olivia Halston.
Ele hesita e depois diz baixinho.
— É. Eu também.
Ela levanta uma sobrancelha.
Ele suspira.
— Esse processo é... complicado.
— Não tão complicado para levar a pobre moça à falência?
— Só estou fazendo o meu trabalho, Sra. Andrews.
— Sim. Acho que mamãe ouviu essa frase mil vezes também.
Isso é dito com delicadeza, mas o faz corar.
Ela olha para ele, por um minuto, depois solta de repente um grande hah!, enxotando o gato, que pula do colo dele.
— Ah, pelo amor de Deus. Quer algo um pouco mais forte? Porque estou precisando de uma bebida de verdade. Tenho certeza de que já está na hora de abrir o bar. — Ela se levanta e vai até um armário de bebidas. — Bourbon?
— Aceito.
Ele lhe conta então, com o bourbon na mão, o sotaque de sua terra natal nos ouvidos, as palavras saindo espasmodicamente, como se elas não esperassem quebrar o silêncio. A história dele começa com uma bolsa roubada e termina com uma despedida muito brusca em frente a um tribunal. Partes novas vêm à tona, sem que ele tenha consciência. Sua felicidade inesperada perto dela, sua culpa, aquele mau humor permanente que parece ter crescido em volta dele, como uma casca. Ele não sabe por que devia desabafar com essa mulher. E não sabe por que espera que ela, logo ela, entenda.
Mas Marianne Andrews ouve enquanto suas feições generosas fazem trejeitos solidários.
— Bem, o senhor se meteu numa enrascada daquelas, Sr. McCafferty.
— É. Eu sei.
Ela acende outro cigarro, ralha com o gato, que mia lamentoso pedindo comida.
— Querido, não tenho nenhuma resposta para lhe dar. Ou o senhor vai pegar o quadro e deixá-la desolada ou ela vai deixá-lo desolado porque perdeu seu emprego.
— Ou a gente esquece tudo.
— E os dois ficam desolados.
As palavras dela expõem a situação. Eles ficam em silêncio. Na rua, o ar está abafado com o barulho do tráfego quase parado.
Paul bebe seu drink, pensativo.
— Sra. Andrews, sua mãe guardou os cadernos dela? As anotações das reportagens?
Marianne ergue os olhos.
— Eu os trouxe de Barcelona, sim, mas infelizmente que tive que jogar um monte fora. Tudo comido por traça. Uma das cabeças encolhidas também. Os prejuízos de um breve casamento na Flórida. Embora... — Ela se levanta, usando os braços compridos para tomar impulso. — O senhor me fez pensar numa coisa. Talvez eu ainda tenha um maço das anotações dela no armário do hall.
— Anotações?
— Diários. Seja lá o que for. Ah, tive a ideia maluca de que alguém podia querer escrever a biografia dela um dia. Ela fez muitas coisas interessantes. Talvez um dos meus netos. Tenho quase certeza de que tem uma caixa com recortes e algumas anotações dela no armário. Deixe eu pegar a chave e vamos dar uma olhada.

* * *

Paul acompanha Marianne Andrews até o corredor. Respirando com dificuldade, ela desce dois lances de escada até onde a escadaria já não é acarpetada, e há várias bicicletas ao longo das paredes.
— Como nossos apartamentos são bem pequenos — diz Marianne Andrews, enquanto espera Paul abrir uma pesada porta corta fogo — alguns moradores alugam armários extras do zelador. São como ouro em pó. Meu vizinho Sr. Chua me ofereceu quatro mil libras para assumir o arrendamento só deste último ano. Quatro mil! Eu disse a ele que ele teria que pagar mais que o triplo.
Eles chegam a uma porta azul alta. Ela examina o chaveiro, falando sozinha até encontrar a que quer.
— Aqui — diz ela, acendendo a luz.
Dentro do armário, a lâmpada fraca revela um comprido compartimento escuro. De um lado há prateleiras reguláveis ao longo da parede, e o chão está cheio de caixas de papelão, pilhas de livros, uma lâmpada velha. Cheira a jornais velhos e vidros de cera de abelha.
— Eu devia realmente me desfazer disso tudo. — Marianne suspira, franzindo o nariz. — Mas, de algum jeito, sempre tem algo mais interessante para fazer.
— Quer que eu pegue algo?
Marianne se encolhe.
— Sabe de uma coisa, querido? Você se importaria se eu deixasse você aqui vasculhando isso tudo? A poeira piora a minha asma. Não há nada de valor. Você fica aqui e dá um grito se encontrar algo. Ah, e se achar uma bolsa verde-azulada com um fecho dourado, pode levar lá para cima. Eu adoraria saber onde ela foi parar.
Paul fica uma hora no armário apertado, passando caixas para o corredor mal iluminado quando desconfia que possam ser úteis, empilhando-as junto à parede. Há jornais de 1941, com as páginas amareladas e os cantos comidos. O cubículo sem janela parece uma Tardis. Seu conteúdo vai se amontoando no corredor à medida que ele se esvazia – malas cheias de mapas velhos, um globo, caixas de chapéu, casacos de pele comidos de traça, mais uma cabeça encolhida curtida fazendo uma careta para ele com seus quatro dentes enormes. Ele amontoa tudo encostado na parede, cobrindo a cabeça com uma capa de almofada de tapeçaria. A poeira recobre suas mãos, se instala nos vincos do seu rosto. Há revistas com saias até os tornozelos no estilo New Look, fotografias da coroação da rainha Elizabeth II, fitas de gravador de rolo. Ele retira esses objetos de dentro do armário, colocando-os no chão ao seu lado. Suas roupas estão cinzas de tanto pó, os olhos ardendo. Paul encontra alguns cadernos com datas convenientemente indicadas nas capas: 1968, nov. 1969, 1971. Lê sobre a situação dos bombeiros em greve em Nova Jersey, os julgamentos do presidente. De vez em quando há anotações feitas nas margens: “Dean! Baile sexta-feira 19h” ou “Dizer a Mike que Frankie ligou”. Não há nada relevante da época da guerra, nem do quadro.
Ele examina metodicamente cada caixa, verificando entre as folhas de cada livro, olhando o conteúdo de cada pasta. Abre todas as caixas e caixotes, esvazia-os e depois repõe tudo devidamente no lugar. Um aparelho de som velho, duas caixas de livros velhos, uma caixa de chapéu cheia de suvenires. Dá onze horas, meio-dia, meio-dia e meia. Ele olha o relógio, percebendo que não há esperança.
Paul se endireita, limpando as mãos na calça, louco para fugir do espaço abafado e atravancado. De repente deseja a brancura nua da casa de Liv, suas linhas limpas, sua ventilação.
Ele esvaziou tudo. Onde quer que a verdade esteja não é nesse armário abarrotado ao norte da estrada A40. Então, quase no fundo, ele vê a alça ressecada de uma pasta velha de couro, rachada em duas partes, parecendo um pedaço de carne seca.
Coloca a mão embaixo da prateleira e puxa a alça.
Espirra duas vezes, enxuga os olhos, depois levanta a aba. Lá dentro há seis cadernos de exercício de capa dura em formato A4. Ele abre um e vê a intrincada caligrafia inglesa antiga na primeira página. Procura a data. 1941.
Abre outro: 1944. Apressa-se a examiná-los, largando um por um na pressa de encontrar aquele... e lá está ele, o penúltimo: 1945.
Ele sai tropeçando para o corredor, onde é mais claro, e folheia o caderno embaixo da lâmpada fria.

30 de abril de 1945
Bem, com certeza o dia de hoje não saiu como eu esperava. Quatro dias atrás, o tenente-coronel Danes tinha dito que eu poderia entrar no Konzentrationslager Dachau...

Paul continua lendo mais algumas linhas e esbraveja duas vezes, com uma veemência crescente. Fica em pé imóvel, a importância do que tem nas mãos ficando mais significativa a cada segundo. Ele continua folheando as páginas e torna a esbravejar.
Sua cabeça está a mil. Ele poderia enfurnar esses cadernos de volta no fundo do armário, voltar para Marianne Andrews agora mesmo, dizer-lhe que não encontrou nada. Poderia dar Sophie Lefèvre aos seus donos legítimos.
Ou...
Vê Liv, cabisbaixa, maltratada pela opinião pública, as palavras duras de estranhos, a falência iminente. Ele a vê endireitando os ombros, o rabo de cavalo torto, ao entrar em mais um dia de tribunal.
Vê seu sorriso demorado de prazer na primeira vez que se beijaram.
Se fizer isso, não pode voltar atrás.
Paul McCafferty larga o caderno e a pasta ao lado do paletó e começa a empilhar as caixas dentro do armário.

* * *

Marianne aparece à porta quando ele repõe a última caixa, suado e empoeirado depois de todo o esforço. Ela está fumando um cigarro na ponta de uma comprida piteira, como uma melindrosa dos anos 1920.
— Nossa, eu estava começando a me perguntar o que tinha acontecido com você.
Ele se endireita, enxuga a testa.
— Encontrei isto.
Levanta a bolsa verde-azulada.
— Encontrou? Ah, você é um amor! — Ela bate palmas, pega a bolsa da mão dele e alisa-a amorosamente. — Eu estava com muito medo de ter deixado essa bolsa em algum lugar. Sou muito desorganizada. Obrigada. Muito obrigada. Só Deus sabe como a encontrou no meio dessa confusão.
— Achei outra coisa também.
Ela olha para ele.
— Se importa se eu pegar isso emprestado? — Ele levanta a pasta com os diários dentro.
— Isso é o que estou pensando? O que eles dizem?
— Dizem... — ele recupera o fôlego — que o quadro foi mesmo dado de presente para sua mãe.
— Eu disse a vocês! — exclama Marianne Andrews. — Eu disse que minha mãe não era uma ladra! Falei isso o tempo todo.
Há um longo silêncio.
— E o senhor vai entregar os diários à Sra. Halston — diz ela devagar.
— Não sei se isso seria prudente. Esse diário vai efetivamente nos fazer perder a ação.
A expressão dela se anuvia.
— O que está dizendo? Que não vai dar os cadernos a ela?
— É exatamente o que estou dizendo.
Ele pega uma caneta no bolso.
— Mas, se eu os deixar aqui, nada impede que a senhora dê, certo? — Ele escreve um número e entrega para ela. — Este é o celular dela.
Eles ficam um minuto se entreolhando. Ela sorri, como se algo tivesse sido confirmado.
— Farei isso, Sr. McCafferty.
— Sra. Andrews?
— Marianne. Pelo amor de Deus.
— Marianne. Melhor esse assunto ficar entre nós. Acho que não cairia bem em certos círculos.
Ela balança a cabeça positivamente com firmeza.
— Você nunca esteve aqui, rapaz. — Aparentemente uma ideia lhe ocorre. — Você nem quer que eu conte à Sra. Halston? Que foi você que...
Ele balança a cabeça e guarda a caneta no bolso.
— Acho que a ação já era. Vê-la ganhar será suficiente. — Ele se abaixa e lhe dá dois beijos no rosto. — O importante é abril de 1945. O diário com a ponta dobrada.
— Abril de 1945.
Ele está quase tonto com a enormidade do que fez. A TARP, os Lefèvre, vão agora perder a ação. Têm que perder, com base no que ele viu. Continua sendo traição se a gente faz isso pelas razões corretas? Ele precisa de uma bebida. Precisa de ar puro. Qualquer coisa. Será que eu enlouqueci aqui? Tudo o que ele consegue ver é o rosto de Liv, seu alívio. Quer ver aquele sorriso se esboçando de novo, largo e demorado, surpreendendo-se.
Ele pega o paletó e entrega as chaves do armário. Marianne toca em seu braço, detendo-o.
— Sabe, vou lhe contar uma coisa sobre ter sido casada cinco vezes. Ou ter tido cinco maridos e continuar amiga dos ex que ainda vivem. — Ela faz uma contagem nos dedos nodosos. — São três.
Ele espera.
— Isso ensina tudinho sobre o amor.
Paul começa a sorrir, mas ela ainda não terminou. A força com que segura seu braço é surpreendente.
— O que isso ensina à gente, Sr. McCafferty, é que na vida há coisas muito mais importantes do que vencer.

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