29 de novembro de 2017

Capítulo 3 - Onde os fantasmas habitam

O trânsito horroroso significou que Julian e Kit levaram uma hora de Malibu a antiga Pasadena. Quando acharam vaga para o carro, Julian estava com uma dor de cabeça brutal, e Kit mal ter falado com ele desde que deixaram o Instituto não ajudou em nada.
Mesmo tanto tempo após o pôr do sol, o céu a oeste estava marcado por pinceladas vermelhas e pretas. O vento soprava do leste, o que significava que mesmo no meio da cidade, você podia sentir o cheiro do deserto: areia e arenito, cactos e coiotes, o aroma queimado de sálvia.
Kit saltou do carro no instante em que Julian desligou o motor, como se não suportasse passar mais um minuto ao lado dele. Quando tinham passado pela saída que ia para a velha casa dos Rook, Kit perguntou se poderiam ir até lá para ele buscar algumas roupas.
Julian negou, disse que não era seguro, principalmente à noite. O garoto olhou para ele como se Julian o tivesse apunhalado pelas costas. Julian estava acostumado a insistências, cara amarrada e reclamações de que alguém o odiava. Ele tinha quatro irmãos mais novos. Mas havia uma arte especial no olhar de Kit. Ele realmente falou sério. Agora, enquanto Julian trancava o carro atrás deles, Kit bufou.
— Você parece um Caçador de Sombras.
Julian olhou para si mesmo. Jeans, botas, um blazer vintage, que tinha sido presente de Emma. Como feitiços de disfarce não eram muito úteis no mercado, ele teve que recorrer a puxar a manga para esconder o símbolo de Clarividência e a levantar o colarinho para esconder as pontas de Marcas, que de outra forma apareceriam por baixo da camisa.
— O quê? — indagou ele. — Não dá para ver nenhuma Marca.
— Não precisa — disse Kit, com voz entediada. — Você parece um policial. Todos vocês sempre se parecem com policiais.
A dor de cabeça de Julian piorou.
— E o que você sugere?
— Deixe que eu vá sozinho — disse Kit. — Eles me conhecem, confiam em mim. Vão responder minhas perguntas e me vender o que eu quiser. — Ele estendeu a mão. — Vou precisar de dinheiro, é claro.
Julian o encarou, incrédulo.
— Você não acreditou de fato que isso fosse funcionar, acreditou?
Kit deu de ombros e recolheu a mão.
— Poderia ter funcionado.
Julian começou a andar para o beco que levava à entrada do Mercado das Sombras. Ele só tinha estado lá uma vez, há anos, mas se lembrava bem.
Mercados das Sombras tinham surgido após a Paz Fria, uma forma dos integrantes do Submundo fazerem negócios longe dos holofotes das novas Leis.
— Então, deixe-me adivinhar. Seu plano era tirar dinheiro de mim, fingir que ia para o Mercado das Sombras, e entrar em um ônibus para fora da cidade?
— Na verdade, meu plano era tirar dinheiro de você, fingir que ia pro Mercado das Sombras, e entrar no Metrolink — respondeu Kit. — Há trens que saem da cidade agora. Um desenvolvimento e tanto, eu sei. Você deveria tentar acompanhar essas coisas.
Julian ficou imaginando rapidamente o que Jace faria se ele estrangulasse Kit. Ele cogitou pensar alto, mas eles já tinham chegado ao fim do beco, onde um leve brilho no ar era visível. Ele pegou Kit pelo braço, fazendo os dois atravessarem ao mesmo tempo.
Eles emergiram do outro lado, no coração do Mercado. Luz brilhava ao redor deles, ofuscando as estrelas no céu. Até a lua parecia uma casca pálida. Julian ainda estava agarrando o braço de Kit, mas Kit não dava sinal de que ia correr. Ele olhava em volta com uma nostalgia que o fazia parecer jovem – às vezes, Julian tinha dificuldade de lembrar que o outro tinha a idade de Ty. Seus olhos azuis – claros e da cor do céu, sem o tom verde que caracterizava os olhos dos Blackthorn – percorriam o Mercado, assimilando-o. Filas de barracas eram iluminadas por tochas, cujo fogo brilhava em dourado, azul e verde. Treliças de flores mais ricas e com aromas mais doces do que botões de oleandro branco ou flores de jacarandá desciam pelas laterais das barracas. Belos meninos e meninas fadas dançavam ao som da música de cordas e gaitas. Por todos os lados, vozes clamavam para eles: venham comprar, venham comprar. Havia armas em exibição, joias, e frascos de poções e pós.
— Por aqui — indicou Kit, soltando-se do aperto de Julian.
Julian foi atrás. Podia sentir os olhos neles, e ficou imaginando se seriam porque Kit tinha razão: ele parecia um policial, ou, pelo menos, a versão sobrenatural deles. Ele era um Caçador de Sombras, sempre foi um Caçador de Sombras. Não tinha como esconder a sua natureza.
Chegaram a uma das bordas do Mercado, onde a luz era mais fraca, e era possível ver as linhas brancas pintadas no asfalto debaixo deles, que revelavam que, durante o dia, esse local era um estacionamento. Kit foi para a barraca mais próxima, onde uma fada estava sentada na frente de uma placa que anunciava previsão do futuro e poções do amor. Ela olhou com um sorriso alegre enquanto ele se aproximava.
— Kit! — exclamou. Ela estava com um trapo de vestido branco que ressaltava sua pele azul-clara, e as orelhas pontudas apareciam através do cabelo cor de lavanda. Correntes finas de ouro e prata se penduravam em volta do seu pescoço e pendiam dos seus pulsos. Ela olhou para Julian. — O que é que ele está fazendo aqui?
— O Nephilim é legal, Hyacinth — disse Kit. — Eu garanto. Ele só quer comprar uma coisa.
— Não é o que todos querem? — murmurou ela e lançou um olhar astuto a Julian. — Você é bem bonito — falou. — Seus olhos são quase da minha cor.
Julian se aproximou da barraca. Era em momentos como esse que ele gostaria de ter talento para flerte. Não tinha. Nunca na vida sentiu o menor desejo por menina alguma que não fosse Emma, então tratava-se de algo que ele nunca tinha aprendido a fazer.
— Estou procurando uma poção para curar loucura em um Caçador de Sombras — disse ele. — Ou, pelo menos, parar os sintomas por um tempo.
— Que tipo de loucura?
— Ele foi torturado nas Cortes — falou Julian bruscamente. — A mente dele foi quebrada por alucinações e poções que o obrigaram a tomar.
— Um Caçador de Sombras com loucura causada por fadas? Minha nossa — falou ela, e havia ceticismo em seu tom.
Julian começou a explicar sobre o tio Arthur, sem usar o nome dele: sua situação e sua condição. O fato de que seus períodos de lucidez iam e vinham, e, às vezes, suas variações de humor o deixavam sombrio e cruel. Que ele só reconhecia a própria familia em parte do tempo. Ele descreveu a poção que Malcolm fazia para Arthur, quando confiavam em Malcolm e achavam que ele fosse um amigo. Não que ele tenha citado o nome de Malcolm.
A mulher fada balançou a cabeça quando ele terminou de falar.
— Você deveria perguntar a um feiticeiro — falou. — Eles lidam com Caçadores de Sombras. Eu não. Não tenho a menor vontade de contrariar as Cortes ou a Clave.
— Ninguém precisa saber — disse Julian. — Eu pago bem.
— Criança — havia um tom de pena em sua voz — você acha que pode manter segredos de todo o Submundo? Você acha que o Mercado não está em rebuliço com as notícias sobre a queda do Guardião e a morte de Johnny Rook? O fato de não termos mais um Alto Feiticeiro? O desaparecimento de Anselm Nightshade, apesar de ele ser um homem terrível... — Ela balançou a cabeça. — Você nunca deveria ter vindo até aqui — advertiu. — Não é seguro para nenhum de vocês.
Kit pareceu espantado.
— Você está falando dele — disse ele, indicando Julian com um aceno de cabeça. — Não é seguro para ele.
— Nem pra você, garotinho — disse uma voz grave atrás de Julian e Kit.
Os dois se viraram. Um homem baixo estava na frente deles. Era pálido, a pele tinha um tom uniforme e adoentado. Vestia um terno cinza de três peças, de lã, que devia estar fervendo naquele clima quente. Seus cabelos e barba eram escuros e cuidadosamente aparados.
— Barnabas — disse Kit, piscando os olhos.
Julian notou Hyacinth se encolhendo levemente na barraca. Uma pequena multidão tinha se juntado atrás de Barnabas. O homem baixo deu um passo para a frente.
— Barnabas Hale — falou, estendendo a mão.
Assim que seus dedos se fecharam sobre os de Julian, este sentiu seus músculos enrijecerem. Só a afinidade de Ty por cobras e lagartos, e o fato de que, mais de uma vez, ele já os tirara do Instituto e os jogara no gramado dos fundos impediu Julian de puxar a mão.
A pele de Barnabas não era exatamente descorada. Era uma malha de escamas esbranquiçadas sobrepostas. Seus olhos eram amarelos, e olhavam, entretidos, para Julian, como se esperassem que ele fosse recolher a mão. As escamas contra a pele do rapaz eram como pedras lisas e frias; não eram gosmentas, mas pareciam ter que ser. Julian manteve o aperto de mão por vários minutos antes de abaixar o braço.
— Você é um feiticeiro — disse.
— Nunca falei que era outra coisa — disse Barnabas. — E você é um Caçador de Sombras.
Julian suspirou e puxou a manga de volta para o lugar.
— Suponho que não haja muita utilidade em tentar disfarçar.
— Nenhuma — disse Barnabas. — A maioria de nós consegue reconhecer um Nephilim só de olhar, e, além disso, o jovem Sr. Rook tem sido o assunto da cidade. — Ele voltou seus olhos de pupila comprida para Kit. — Sinto muito sobre seu pai.
Kit recebeu o comentário com um leve aceno de cabeça.
— Barnabas é o dono do Mercado das Sombras. Pelo menos, é dono do terreno onde fica o Mercado, e ele recebe aluguel das barracas.
— Isso é verdade — disse Barnabas. — Então entenderão que falo sério quando peço que os dois se retirem.
— Não estamos causando transtorno — disse Julian. — Viemos aqui para fazer negócios.
— Nephilim não fazem negócios no Mercado das Sombras — disse Barnabas.
— Acho que descobrirá que fazem sim — disse Julian. — Um amigo meu comprou algumas flechas aqui há pouco tempo. Elas estavam envenenadas. Alguma ideia sobre isso?
Barnabas apontou um dedo curto para ele.
— É disso que estou falando — observou. — Mesmo que queiram, vocês não conseguem desligar esse pensamento de que podem fazer perguntas e estabelecer regras.
— Eles fazem as regras — disse Kit.
— Kit — falou Julian com o canto da boca. — Você não está ajudando.
— Um amigo meu desapareceu outro dia — disse Barnabas. — Malcolm Fade. Alguma ideia sobre isso?
Ouviu-se um murmúrio baixinho na multidão atrás dele. Julian abriu e fechou as mãos na lateral do corpo. Se ele estivesse sozinho, não teria se preocupado – poderia ter se retirado com facilidade e voltado para o carro. Mas com Kit para proteger, seria mais difícil.
— Viu só? — disse Barnabas. — Para cada segredo que você acha que sabe, nós sabemos outro. Eu sei o que aconteceu com Malcolm.
— Você sabe o que ele fez? — perguntou Julian, controlando cuidadosamente a voz. Malcolm era um assassino, um assassino em massa. Ele tinha matado integrantes do Submundo, assim como mundanos. Certamente os Blackthorn não podiam ser culpados por sua morte. — Você sabe por que aconteceu?
— Vejo apenas mais um integrante do Submundo, morto pelas mãos dos Nephilim. E Anselm Nightshade também, aprisionado por um simples uso de mágica. O que mais? — Ele cuspiu no chão aos seus pés. — Pode ter havido um tempo em que tolerei Caçadores de Sombras no Mercado. Estava disposto a receber o dinheiro deles. Mas esse tempo acabou. — O olhar do feiticeiro desviou para Kit. — Vá — ordenou ele. — E leve seu amigo Nephilim junto.
— Ele não é meu amigo — disse Kit. — E eu não sou como ele, sou como você...
Barnabas balançava a cabeça. Hyacinth observava, as mãos azuis sob o queixo, os olhos arregalados.
— Um período sombrio se aproxima para os Caça-dores de Sombras — disse Barnabas. — Um período terrível. O poder deles será esmagado, sua vontade jogada na lama, e seu sangue correrá como água pelos rios do mundo.
— Basta — falou Julian irritado. — Pare de tentar assustá-lo.
— Vocês vão pagar pela Paz Fria — disse o feiticeiro. — A escuridão está vindo, e você fará muito bem, Christopher Herondale, em ficar longe dos Institutos e dos Caçadores de Sombras. Esconda-se como seu pai fez e o pai dele também. Só assim você ficará a salvo.
— Como você sabe quem eu sou? — quis saber Kit. — Como sabe meu verdadeiro nome?
Foi a primeira vez que Julian o ouviu admitir que Herondale era seu verdadeiro nome.
— Todo mundo sabe — disse Barnabas. — É só o que se fala no Mercado há dias. Não viu todo mundo encarando quando você entrou?
Então não estavam olhando para Julian. Ou, pelo menos, não só para Julian. Não era muito reconfortante, no entanto, Jules pensou, não quando Kit estava com aquela expressão no rosto.
— Achei que eu pudesse voltar aqui — disse Kit. — Assumir a barraca do meu pai. Trabalhar no Mercado.
Uma língua forquilhada apareceu por entre os lábios de Barnabas.
— Nascido um Caçador de Sombras, sempre um Caçador de Sombras — recitou ele. — Você não pode lavar a mancha do seu sangue. Estou lhe dizendo pela última vez, menino: saia do Mercado. E não volte mais.
Kit recuou, olhando em volta – vendo, como que pela primeira vez, os rostos virados para ele, a maioria vazios e não amistosos, muitos, curiosos.
— Kit... — começou Julian, estendendo a mão.
Mas Kit já tinha corrido. Julian levou apenas alguns instantes para alcançá-lo – o menino não estava realmente tentando fugir; ele só estava atravessando as multidões a esmo, sem destino, e tinha parado na frente de uma barraca enorme que parecia estar sendo destruída.
Não passavam de tábuas entrelaçadas agora. Parecia que alguém a tinha destruído com as próprias mãos. Pedaços quebrados de madeira se espalhavam sobre o topo preto. Uma placa dependurava-se torta do topo da barraca, impressa com as palavras PARTE SOBRENATURAL? VOCÊ NÃO É O ÚNICO. OS SEGUIDORES DO GUARDIÃO QUEREM QUE VOCÊ SE INSCREVA NA LOTERIA DO FAVOR! DEIXE QUE A SORTE ENTRE EM SUA VIDA!
— O Guardião! — disse Kit. — Era Malcolm Fade?
Julian fez que sim com a cabeça.
— Foi ele que fez meu pai se envolver com toda aquela história dos Seguidores e do Teatro da Meia-Noite — disse Kit, seu tom quase pensativo. — Ele morreu por culpa de Malcolm.
Julian não falou nada. Johnny Rook não valia muita coisa, mas era pai de Kit. Todo mundo só tem um pai. E Kit não estava errado. Kit então se moveu, acertando o punho com a máxima força possível na placa. Ela caiu no chão com um barulho. Um minuto antes que Kit retirasse a mão, franzindo o rosto, Julian viu um lampejo do Caçador de Sombras que havia nele. Se Malcolm já não estivesse morto, Julian acreditava sinceramente que Kit o teria matado.
Uma pequena multidão os havia seguido da barraca de Hyacinth, encarando. Julian colocou a mão nas costas de Kit, e o menino não fez nada para tentar afastá-lo.
— Vamos — falou.


Emma tomou banho cuidadosamente – a parte ruim de ter cabelos compridos quando se é Caçadora de Sombras é nunca saber se depois de uma luta você vai ter icor neles. Uma vez a nuca dela ficou verde por uma semana.
Quando ela entrou no quarto, vestindo calça de moletom e uma camiseta e secando o cabelo com uma toalha verde, viu Mark encolhido ao pé da cama, lendo Alice no País das Maravilhas. Mark vestia uma calça de pijama que Emma tinha comprado por três dólares de um vendedor no acostamento da Rodovia da Costa do Pacífico. Ele gostava da peça por ser estranhamente parecida com o tecido leve e macio das calças que eles usavam no Reino das Fadas. E se a estampa de trevos verdes com as palavras BOA SORTE o incomodava, ele não demonstrava.
O garoto se sentou quando Emma entrou, passando a mão pelo cabelo, e sorriu para ela. Mark tinha um sorriso capaz de partir seu coração. Parecia dominar todo o seu rosto e iluminar seus olhos, faiscando azul e dourado por dentro.
— Uma noite estranha, em verdade — disse ele.
— Não me venha com “em verdade”. — Ela se sentou na cama ao lado dele. Ele não dormia na cama, mas não parecia se importar de usar o colchão como uma espécie de sofá gigante. Pousou o livro e se apoiou contra o encosto do pé da cama. — Você sabe as regras sobre “em verdade” no meu quarto. E também o uso dos termos “não obstante”, “bem dia” e “ai de mim”.
— E quanto a “macacos me mordam”?
— O castigo por “macacos me mordam” é severo — falou Emma. — Você vai ter que correr nu para o mar na frente dos Centuriões.
Mark pareceu confuso.
— E depois?
Ela suspirou.
— Desculpe, esquecei. A maioria de nós tem problemas com ficar pelado na frente de estranhos. Pode acreditar.
— Sério? Você nunca nadou nua no mar?
— Essa pergunta é um pouco diferente, mas não, nunca fiz isso. — Ela foi para o lado dele.
— Deveríamos fazer isso um dia — falou ele. — Todos nós.
— Não consigo imaginar o Diego Perfeito arrancando as roupas e pulando na água na nossa frente. Talvez só na frente de Cristina. Talvez.
Mark saltou da cama para a pilha de cobertores que ela tinha arrumado para ele no chão.
— Duvido. Aposto que ele nada todo vestido. Do contrário, teria que tirar o broche de Centurião.
Ela riu e Mark deu um sorriso em resposta, apesar de parecer cansado. Ela entendia. Não eram as atividades normais de Caçadores de Sombras que a estavam cansando. Era a mentira. Talvez fizesse sentido que ela e Mark só conseguissem relaxar à noite um com o outro, considerando que só assim não tinham que mentir. Foram os únicos momentos em que ela tinha relaxado desde que Jem lhe contou sobre a maldição parabatai, sobre como parabatai que se apaixonavam ficavam loucos e se destruíam e a todos que amavam. Ela soube imediatamente que não podia permitir que isso acontecesse. Não com Julian nem com a família dele, que ela também amava.
Ela não podia deixar de amá-lo. Era impossível. Então ela tinha que fazer Jules deixar de amá-la. O próprio Julian tinha lhe dado a ideia, poucos dias antes. Palavras, sussurradas para ela em um raro momento de vulnerabilidade. Ele tinha ciúme de Mark. Ciúme por Mark conseguir falar com ela, flertar com ela facilmente, enquanto ele sempre tinha que esconder o que sentia.
Mark estava apoiado no pé da cama, ao lado dela agora, com os olhos semicerrados. Luas de cor sob suas pálpebras, os cílios um tom mais escuro que o cabelo. Ela se lembrava de ter pedido que ele fosse até o quarto dela. Preciso que finja que estamos namorando. Que estamos nos apaixonando. Ele estendera a mão para ela, e ela vira a tempestade em seus olhos. A ferocidade que a fazia se lembrar que o Reino das Fadas era mais do que grama verde e festas. Que era uma crueldade selvagem e dura, lágrimas e sangue, raios que cortavam o céu noturno como uma faca. Por que mentir?, ele lhe perguntara. Por um instante, ela havia imaginado que ele tivesse perguntado por que você quer contar essa mentira?, mas não foi isso. Ele estava perguntando por que mentir quando podemos transformar em verdade essa coisa entre nós?
Ela ficara na frente dele, com muita dor, da cabeça aos pés, em todos os lugares de onde arrancou Julian de si, como se tivesse arrancado um membro. Diziam que homens se juntavam à Caçada Selvagem quando sofriam alguma grande perda, preferindo uivar sua dor aos céus a sofrer em silêncio em suas vidas comuns. Ela se lembrava de ter voado pelo céu com Mark, os braços dele em torno de sua cintura: ela tinha deixado o vento levar seus gritos de empolgação, deleitando-se com a liberdade do céu onde não havia dor, nem preocupação, apenas esquecimento. E cá estava Mark, lindo como o céu noturno, oferecendo a ela essa mesma liberdade com o braço estendido.
E se eu pudesse amar Mark?, pensou. E se eu pudesse transformar essa mentira em verdade? Então não haveria mentira. Se ela pudesse amá-lo, o perigo acabaria. Julian estaria seguro.
Ela concordou. E estendeu a mão para Mark. Ela se permitiu lembrar daquela noite no quarto, do olhar nos olhos dele quando ele perguntou para ela: Por que mentir? Ela se lembrou da mão quente, dos dedos de Mark circulando seus pulsos. Como eles quase tropeçaram na pressa de se aproximarem um do outro, colidindo quase sem jeito, como se estivessem dançando e tivessem errado um passo. Ela tinha. agarrado Mark pelos ombros e se esticado para beijá-lo.
Ele era rijo por causa da Caçada, mas não era musculoso como Julian, os ossos de sua clavícula e ombros eram pontudos sob as mãos dela. Mas ele tinha a pele macia onde ela passou a mão pela gola da camisa, tocando o topo da espinha. E a boca dele era quente na dela. Ele tinha um gosto agridoce, e estava quente, como se tivesse febre. Ela foi instintivamente para perto dele; não tinha percebido que estava tremendo, mas estava.
A boca de Mark se abriu sobre a dela; ele explorou os lábios de Emma, enviando-lhe ondas lentas de calor pelo corpo. E a beijou no canto da boca, roçando os lábios por sua mandíbula e pela bochecha. E recuou.
— Em — falou, parecendo confuso. — Você está com gosto de sal.
Ela tirou a mão direita da nuca dele. Tocou o próprio rosto. Estava molhado. Ela tinha chorado.
Ele franziu o rosto.
— Não entendo. Você quer que o mundo acredite que somos um casal, mas está chorando como se eu tivesse te machucado. Machuquei? Julian nunca vai me perdoar.
A menção ao nome de Julian quase a desfez. Ela afundou ao pé da cama, agarrando os joelhos.
— Julian tem tanto com que lidar — falou ela. — Não posso deixar que ele se preocupe comigo. Com meu relacionamento com Cameron.
Silenciosamente ela pediu desculpas a Cameron Ashdown, que realmente não tinha feito nada de errado.
— Não é um bom relacionamento — continuou ela. — Não é saudável. Mas toda vez que termina, eu acabo caindo nele outra vez. Preciso romper esse padrão. E preciso que Julian não fique ansioso com isso. Já tem muita coisa acontecendo: a Clave vai investigar a morte de Malcolm, nosso envolvimento com a Corte...
— Calma — falou Mark, sentando ao lado dela. — Eu entendo.
Ele esticou a mão e puxou o cobertor da cama. Emma o observou, surpresa, enquanto ele cobria os dois, prendendo a coberta em volta dos ombros deles. Ela então pensou na Caçada Selvagem, em como ele devia ser com Kieran, se aconchegando em abrigos, ambos se embrulhando nas próprias capas para se proteger do frio. Ele traçou a linha da mandíbula dela com os dedos, mas foi um gesto de amizade. O calor do beijo tinha acabado. E Emma estava satisfeita com isso. Parecia errado sentir aquilo, mesmo que apenas a sombra daquilo, com qualquer pessoa que não fosse Julian.
— Aqueles que não são fadas encontram conforto na mentira — disse ele. — Não posso julgar. Não farei isso com você, Emma. Não vou abandoná-la.
Ela se apoiou no ombro dele. O alívio a fez se sentir leve.
— Mas você tem que contar para Cristina — emendou. — Ela é sua melhor amiga; você não pode esconder tanto dela.
Emma assentiu. Ela sempre planejara contar para Cristina. Cristina era a única que sabia sobre seus sentimentos por Julian, e ela jamais acreditaria que Emma, de repente, tinha se apaixonado por Mark. Ela teria que saber por uma questão prática, e Emma estava feliz com isso.
— Eu confio plenamente nela — falou. — Agora me conte sobre a Caçada Selvagem.
Ele começou a falar, tecendo a história de uma vida vivida nas nuvens e nos lugares desertos e perdidos do mundo. Cidades ocas no fundo de desfiladeiros de cobre. A casca de Oradour-sur-Glane, onde ele e Kieran dormiram em um palheiro semiqueimado. A areia e o cheiro do mar em Chipre, em uma cidade de férias vazia, onde árvores cresciam através dos chãos de grandes hotéis abandonados.
Lentamente Emma pegou no sono, e Mark a segurou e sussurrou histórias. Para surpresa dela, ele voltara na noite seguinte – ajudaria a fazer a relação deles parecer convincente, ele dissera, mas ela tinha visto nos olhos dele que ele gostara de sua companhia, assim como ela gostara da dele.
E então passaram todas as noites juntos desde então, deitados nas cobertas empilhadas no chão, contando histórias; Emma falou sobre a Guerra Maligna, e sobre como, às vezes, ela se sentia perdida agora que não estava mais procurando pela pessoa que tinha matado seus pais, e Mark falava sobre os irmãos e irmãs, sobre como ele e Ty discutiram, e ele teve medo de ter feito o irmão mais novo se sentir como se não pudesse contar com ele, como se ele pudesse ir embora a qualquer instante.
— Diga que você pode ir embora, mas que sempre voltará para ele — falou Emma. — Diga que sente muito se algum dia o fez se sentir diferente.
Ele apenas fez que sim com a cabeça. Ele não contou a ela se seguiu seu conselho, mas ela seguira o dele e contara tudo para Cristina. Fora um alívio enorme, e ela tinha chorado nos braços de Cristina durante horas. Até obteve a permissão de Julian para contar a Cristina uma versão resumida da situação com Arthur – o suficiente para deixar claro o quão necessário Julian era no Instituto, com sua família.
Ela pedira autorização a Julian para compartilhar a informação; uma conversa extremamente desconfortável, mas ele quase parecera aliviado por mais alguém saber. Ela queria perguntar a ele se em breve ele contaria ao restante da família a verdade sobre Arthur. Mas não podia. Muros se ergueram em volta de Jules, e pareciam tão impenetráveis quanto os espinhos em torno do castelo da Bela Adormecida. Ela ficou imaginando se Mark teria percebido, se algum dos outros teria percebido ou se só ela conseguia ver.
Agora ela se virou para olhar para Mark. Ele estava dormindo no chão, a bochecha apoiada na mão. Ela saiu da cama, se ajeitando entre cobertores e travesseiros, e se deitou ao lado dele. Mark dormia melhor quando estava com ela – ele tinha dito isso, e ela acreditava. Ele vinha se alimentando melhor, estava ganhando músculos rapidamente, as cicatrizes estavam desbotando, as cores tinham voltado à sua bochecha. Emma estava feliz com isso. Podia se sentir como se estivesse morrendo por dentro todos os dias, mas isso era problema dela – ela lidaria com ele. Ninguém lhe devia ajuda, e, de certa forma, ela recebia bem a dor. Significava que Julian não estava sofrendo sozinho, ainda que ele próprio acreditasse nisso. E se ela pudesse ajudar Mark, então, já era alguma coisa. Ela o amava, do jeito que deveria amar Julian: o tio Arthur chamaria de philia, o amor entre amigos. E mesmo sem nunca poder contar a Julian sobre como ela e Mark estavam se ajudando, pelo menos, isso era algo que ela sentia que podia fazer por ele: fazer seu irmão feliz.
Mesmo que ele nunca soubesse.
Uma batida na porta a arrancou de seu devaneio. Ela se levantou; o quarto estava escuro, mas ela conseguiu identificar cabelos ruivos luminosos e o rosto curioso de Clary olhando pela beirada da porta.
— Emma? Você está acordada? Está no chão?
Emma olhou para Mark. Ele dormia feito pedra, embrulhado em cobertas, fora do alcance visual de Clary. Ela levantou dois dedos para Clary, que fez que sim com a cabeça e fechou a porta; em dois minutos Emma estava no corredor, fechando o zíper de um moletom.
— Tem algum lugar onde possamos conversar? — perguntou Clary.
Ela ainda era tão pequena, Emma pensou, às vezes, era difícil acreditar que tinha vinte e poucos anos. Seus cabelos estavam presos em tranças, e isso fazia com que parecesse ainda mais nova.
— No telhado — decidiu Emma. — Eu mostro.
Ela levou Clary pelos degraus, pela escada de madeira e pelo alçapão, e depois para a extensão escura do telhado. Ela mesma não ia lá desde a noite em que subira com Mark. Parecia que fazia anos, apesar de ela saber que tinha sido há apenas algumas semanas. O calor do dia tinha deixado o telhado de ardósia preta grudento e quente. Mas a noite estava fresca – as noites do deserto sempre o eram, a temperatura caía como uma pedra assim que o sol se punha – e a brisa do oceano balançou os cabelos úmidos de Emma.
Ela cruzou o telhado, com Clary logo atrás, para o seu canto favorito: uma vista clara do mar abaixo, a rodovia dobrando para a colina abaixo do Instituto, montanhas se erguendo atrás de picos sombreados.
Emma se sentou na beirada, com os joelhos levantados, permitindo que o ar desértico acariciasse sua pele e o cabelo. A luz do luar prateava suas cicatrizes, principalmente a grossa na parte interna do antebraço direito. Ela fora feita em Idris, quando acordara gritando e chamando os pais, e Julian, sabendo do que ela precisava, colocou Cortana em seus braços.
Clary se ajeitou facilmente ao lado de Emma, com a cabeça inclinada, como se estivesse escutando o leve rugido do mar, que ia e vinha suavemente.
— Bem, em termos de vista, vocês definitivamente ganham do Instituto de Nova York. Tudo que vejo do telhado lá é o Brooklyn. — Ela olhou para Emma. — Jem Carstairs e Tessa Gray mandaram lembranças.
— Foram eles que contaram sobre Kit? — perguntou Emma.
Jem era um parente muito distante, muito velho de Emma: apesar de ter aparência de vinte e cinco anos, ele estava mais para cento e vinte e cinco. Tessa era sua esposa, uma feiticeira poderosa. Eles tinham descoberto a existência de Kit e de seu pai, bem a tempo de Johnny Rook ser destruído por demônios.
Clary fez que sim com a cabeça.
— Eles estão em uma missão; não contaram nem para mim o que procuram.
— Achei que estivessem procurando o Volume Negro?
— Pode ser. Sei que iam primeiro para o Labirinto Espiral. — Clary se reclinou, apoiada nas mãos. — Sei que Jem gostaria de estar perto de você. Alguém com quem você pudesse conversar. Eu disse a ele que você sempre poderia conversar comigo, mas desde a noite após a morte de Malcolm que você não liga...
— Ele não morreu. Eu o matei — interrompeu Emma. Ela tinha que ficar lembrando a si própria constantemente que tinha matado Malcolm, enfiado Cortana em suas entranhas, porque parecia muito improvável. E doía, do jeito que esbarrar subitamente em arame farpado doía: uma dor surpreendente que vinha do nada. Apesar de ele ter merecido, doía. — Eu não deveria me sentir mal, certo? — falou Emma. — Ele era uma pessoa terrível e eu tive que fazer.
— Sim, e sim — respondeu Clary. — Mas isso nem sempre conserta as coisas. — Ela esticou a mão e colocou o dedo sob o queixo da menina, virando o rosto para ela. — Olha, se alguém entende disso, sou eu. Eu matei Sebastian. Meu irmão. Pus uma faca nele. — Por um instante Clary pareceu muito mais nova do que, de fato, era; por um instante, pareceu ter a idade de Emma. — Ainda penso nisso, sonho com isso. Ele tinha coisas boas: poucas, um pedacinho mínimo, mas isso me assombra. O potencial mínimo que eu destruí.
— Ele era um monstro — falou Emma, horrorizada. — Um assassino, pior do que Valentim, pior do que qualquer pessoa. Você tinha que matá-lo. Se não tivesse feito, ele literalmente teria destruído o mundo.
— Eu sei. — Clary abaixou a mão. — Nunca houve nada como chance de redenção para Sebastian. Mas isso não impede os sonhos, impede? Nos meus sonhos, às vezes, ainda vejo o irmão que eu poderia ter tido, em algum outro mundo. O de olhos verdes. E você talvez veja o amigo que achava que tinha em Malcolm. Quando as pessoas morrem, o sonho do que elas poderiam ter sido morre com elas. Mesmo que as mãos que encerram esses sonhos sejam as nossas.
— Achei que eu fosse ficar feliz — disse Emma. — Por todos esses anos, tudo que sempre quis foi vingança. Vingança contra quem matou meus pais. Agora sei o que aconteceu com eles, e matei Malcolm. Mas o que sinto é... vazio.
— Eu senti a mesma coisa depois da Guerra Maligna — falou Clary. — Passei tanto tempo fugindo e lutando, desesperada. E depois as coisas ficaram normais. Eu não acreditava. A gente se acostuma a viver de um jeito, mesmo que seja um jeito ruim ou difícil. Quando isso acaba, fica um vazio a ser preenchido. Está na nossa natureza tentar preenchê-lo com ansiedades e medos. Pode levar tempo para conseguir preenchê-lo com coisas boas.
Por um instante, Emma enxergou o passado através da expressão de Clary, lembrando-se da garota que corria atrás dela para uma sala pequena no Gard, que se recusava a deixá-la sozinha sofrendo, que tinha lhe dito que heróis nem sempre são os que vencem. Que, às vezes, são os que perdem. Mas que continuam lutando, continuam voltando. Não desistem.
É isso que faz deles heróis.
As palavras que conduziram Emma por alguns dos piores momentos da sua vida.
— Clary — disse ela. — Posso perguntar uma coisa?
— Claro. Qualquer coisa.
— Nightshade. O vampiro, você sabe...
Clary pareceu surpresa.
— O vampiro líder de Los Angeles? O que vocês descobriram usando magia negra?
— Era verdade, certo? Ele realmente estava usando magia ilegal?
Clary assentiu.
— Sim, claro. Tudo no restaurante dele foi testado. Certamente estava. Ele não estaria preso agora, se não estivesse! — Ela colocou a mão sobre a de Emma com leveza. — Sei que a Clave é péssima, às vezes — falou. — Mas há muitas pessoas lá que tentam ser justas. Anselm realmente era um cara ruim.
Emma fez que sim com a cabeça, sem falar nada. Não era de Anselm que estava duvidando, afinal. Era Julian. A boca de Clary se curvou em um sorriso.
— Muito bem, chega de assuntos chatos — sugeriu. — Conte alguma coisa boa. Você não me fala sobre a sua vida amorosa há séculos. Ainda está namorando aquele Cameron Ashdown?
Emma balançou a cabeça.
— Eu... estou namorando Mark.
— Mark? — Clary parecia ter recebido um lagarto de duas cabeças. — Mark Blackthorn?
— Não, outro Mark. Sim, Mark Blackthorn. — Um tom de defesa surgiu na voz de Emma. — Por que não?
— Eu só... nunca imaginaria vocês dois juntos. — Clary parecia verdadeiramente espantada.
— Bem, com quem você me imaginava? Com Cameron?
— Não, com ele não. — Clary dobrou as pernas para o peito e apoiou o queixo nos joelhos. — É essa a questão — falou. — Eu... quero dizer, a pessoa com quem te imagino não faz o menor sentido. — Ela encontrou o olhar confuso de Emma ao abaixar os olhos. — Acho que não era nada. Se está feliz com Mark, fico feliz por você.
— Clary, o que você não está me contando?
Fez-se um longo silêncio. Clary olhou para a água escura. Finalmente falou:
— Jace me pediu em casamento.
— Ah! — Emma já tinha começado a abrir os braços para abraçar Clary quando viu sua expressão. Ela congelou. — Qual é o problema?
— Eu disse não.
— Você disse não? — Emma abaixou os braços. — Mas vocês estão aqui... juntos... não estão mais...?
Clary se levantou. Ficou na beirada do telhado, fitando o mar.
— Ainda estamos juntos — disse ela. — Eu falei que precisava de mais tempo para pensar. Tenho certeza de que ele acha que estou maluca, ou... bem, não sei o que ele pensa.
— Precisa? — perguntou Emma. — De mais tempo?
— Para decidir se quero casar com Jace? Não. — A voz de Clary estava tensa com uma emoção que Emma não conseguia decifrar. — Não. Eu sei a resposta. Claro que quero. Nunca vai haver mais ninguém para mim. É um simples fato.
Alguma coisa na naturalidade da voz de Clary fez Emma estremecer. Nunca vai haver mais ninguém para mim. Havia um reconhecimento naquele calafrio, e um pouco de medo.
— Então por que você disse isso?
— Eu costumava ter sonhos — respondeu Clary. Ela estava olhando para a trilha que a lua deixava na água escura, como um rasgo branco dividindo uma tela preta. — Quando eu tinha a sua idade. Sonhos com coisas que iam acontecer, sonhos com anjos e profecias. Depois que a Guerra Maligna acabou, eles pararam. Achei que nunca mais fossem voltar, mas, nos últimos seis meses, eles voltaram.
Emma se sentiu um pouco perdida.
— Sonhos?
— Não são mais tão claros quanto costumavam ser. Mas tem uma sensação... uma certeza de que algo terrível está por vir. Como uma parede de escuridão e sangue. Uma sombra que se espalha pelo mundo e mancha tudo. — Ela engoliu em seco. — Mas tem mais. Não é tanto uma imagem de alguma coisa acontecendo, mas a certeza.
Emma se levantou. Queria colocar a mão no ombro de Clary, mas alguma coisa a conteve. Esta não era Clary, a menina que a tinha confortado quando seus pais morreram. Esta era a Clary que tinha ido ao reino demoníaco de Edom e matado Sebastian Morgenstern. Clary que tinha encarado Raziel.
— Uma certeza de quê?
— De que eu vou morrer — respondeu Clary. — E não falta muito. Em breve.
— Isso é por causa da sua missão? Acha que vai acontecer alguma coisa com você?
— Não... não, nada assim — disse Clary. — É difícil explicar. É uma certeza de que vai acontecer, mas não exatamente quando ou como.
— Todo mundo tem medo de morrer — disse Emma.
— Nem todo mundo tem — falou Clary —, e eu não tenho, mas tenho medo de deixar Jace. Tenho medo do que isso faria com ele. E acho que sendo casada é pior. O casamento muda as coisas. É uma promessa de ficar com alguém. Mas eu não poderia prometer ficar por muito tempo. — Ela olhou para baixo. — Sei que soa ridículo. Mas sei o que sei.
Fez-se um longo silêncio. O som do oceano corria sob a quietude entre elas e o som do vento no deserto.
— Você contou para ele? — perguntou Emma.
— Não contei a ninguém além de você. — Clary virou e olhou ansiosa para Emma. — Estou pedindo um favor. Um favor enorme. — Ela respirou fundo. — Se eu morrer, quero que você diga a eles... a Jace e aos outros, que eu sabia. Eu sabia que ia morrer e não tinha medo. E diga a Jace que foi por isso que eu disse não.
— Eu... mas por que eu?
— Não existe mais ninguém a quem eu possa contar isso sem que a pessoa tenha um ataque ou pense que eu estou tendo um colapso e preciso de terapia... bem, no caso de Simon é isso que ele diria. — Os olhos de Clary ficaram suspeitamente claros quando ela falou o nome do seu parabatai. — E eu confio em você, Emma.
— Pode deixar — respondeu Emma. — E claro que pode confiar em mim, não vou contar para ninguém, mas...
— Não estava falando que confio em você para guardar segredo — disse Clary. — Embora eu confie. Nos meus sonhos, eu a vejo com Cortana na mão. — Ela se esticou, praticamente na ponta do pé, e beijou a testa de Emma. Foi quase um gesto maternal. — Confio que você sempre continuará lutando, Emma. Confio que nunca vá desistir.


Só quando voltaram para o carro foi que Kit notou que as juntas de seus dedos estavam sangrando. Ele não sentiu dor quando socou a placa, mas estava sentindo agora. Julian, prestes a ligar o carro, hesitou.
— Posso curá-lo — disse ele. — Com um iratze.
— Um o quê?
— Uma Marca de cura — disse Julian. — É uma das mais fracas. Então faz sentido que seja sua primeira.
Milhares de comentários sarcásticos passaram pela cabeça de Kit, mas ele estava cansado demais para dizê-los em voz alta.
— Não me cutuque com nenhuma das suas varinhas mágicas esquisitas — falou. — Só quero ir embora — ele quase completou com para casa, mas se conteve — daqui.
Enquanto seguiam de carro, Kit foi em silêncio, olhando pela janela. A rodovia estava quase vazia, e se esticava à frente deles, cinza e deserta. Placas para Crenshaw e Fairfax passaram brilhando. Esta não era a bela Los Angeles de montanhas e praias, grama verde e mansões. Esta era a Los Angeles de asfalto quebrado, árvores morrendo e céu manchado de poluição. Sempre foi o lar de Kit, mas ele agora se sentia desligado ao olhar. Como se os Caçadores de Sombras já os estivessem afastando de tudo que ele conhecia, levando-o para sua estranha órbita.
— E o que acontece comigo? — perguntou de súbito, rompendo o silêncio.
— Quê? — Julian franziu o rosto para o trânsito no espelho retrovisor.
Kit pôde ver seus olhos, o azul-esverdeado deles. Era uma cor quase impressionante, e todos os Blackthorn pareciam tê-la – bem, Mark tinha uma – exceto Ty.
— Então Jace é minha família de fato — falou Kit. — Mas não posso morar com ele, porque ele e a namorada gata vão partir em uma espécie de missão secreta.
— Suponho que vocês, Herondale, tenham um tipo — murmurou Julian.
— Quê?
— O nome dela é Clary. Mas, em resumo, sim. Ele não pode levá-lo agora, então você fica conosco. Não é um problema. Caçadores de Sombras recebem Caçadores de Sombras. É o que fazemos.
— Você realmente acha uma boa ideia? — disse Kit. — Quero dizer, sua casa é bem ferrada, com o tio agorafóbico e seu irmão estranho.
As mãos de Julian apertaram o volante, mas a única coisa que ele disse foi:
— Ty não é estranho.
— Eu estava falando de Mark — disse Kit. Fez-se uma pausa estranha. — Ty não é estranho — acrescentou Kit. — Ele só é autista.
A pausa se estendeu um pouco mais. Kit ficou imaginando se tinha ofendido Julian de algum jeito.
— Não é um problema grave — falou, afinal. — Quando eu estudava em escola mundana eu conheci algumas crianças que estavam no espectro. Ty tem algumas coisas em comum com eles.
— Que espectro?
Kit o olhou surpreso.
— Você realmente não sabe do que estou falando?
Julian balançou a cabeça.
— Você pode não ter notado, mas não nos envolvemos muito com cultura mundana.
— Não é cultura mundana. É... — Neurobiologia. Ciência. Medicina. — Vocês não têm raios X? Antibióticos?
— Não — disse Julian. — Para pequenas coisas, como dores de cabeça, símbolos de cura funcionam. Para coisas maiores, os Irmãos do Silêncio são nossos médicos. Medicina mundana é estritamente proibida. Mas se existe alguma coisa que você ache que eu deva saber sobre Ty...
Kit queria detestar Julian, às vezes. Realmente queria. Julian parecia adorar regras; ele era inabalável, irritantemente calmo, e tão desprovido de emoções quanto todos sempre disseram que os Caçadores de Sombras eram. Exceto que não era, de verdade. O amor, que se percebia em sua voz, quando ele dizia o nome do irmão deixava isso claro.
De repente, Kit sentiu um aperto pelo corpo. Falar com Jace tinha acalmado parte da ansiedade que ele vinha sentindo desde a morte do pai. Jace fez parecer que tudo seria fácil. Como se ainda estivessem em um mundo onde você podia dar oportunidades às coisas e ver como elas se encaminhariam. Agora, olhando para a rodovia cinza à frente dele, estava imaginando como poderia achar que viveria em um mundo onde tudo que ele sabia era considerado conhecimento errado, onde cada um de seus valores – tais como eram, tendo crescido com um pai que tinha o apelido de Rook, o Trapaceiro – era o inverso. Onde se associar às pessoas às quais seu sangue lhe dizia que ele pertencia significava que as pessoas com as quais ele cresceu o detestariam.
— Esquece — falou. — Não quis dizer nada em relação a Ty. Só coisas mundanas sem importância.
— Sinto muito, Kit — disse Julian. Eles já tinham chegado na autoestrada da costa. A água se estendia ao longe, a lua, alta e redonda, projetava uma trilha branca perfeita no centro do mar. — Pelo que aconteceu no Mercado.
— Eles agora me odeiam — disse Kit. — Todos que eu conhecia.
— Não — negou Julian. — Eles têm medo de você. Existe uma diferença.
Talvez existisse, Kit pensou. Mas nesse momento, ele não tinha certeza se isso importava.

12 comentários:

  1. 😱se a clary morrer...vai ser mal safadeza dessa autora! sério! depois do que ela me fez passar por will...eu não aguento! imagina como jace vai ficar...💔

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  2. SE A CASSANDRA CLARE MATAR A CLARY EU PARO DE LER ESSA MERDA E NOSSA NUNCA MAIS

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  3. Ty que gracinha é autista *.*

    Já pensou Ty e Kit Namorando?

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    1. Meu sonho de princesa mas acho mais provável eles se tornarem parabatai

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  4. COMO ASSIM A CLARY PODE MORRER? SE ELA MORRER ACABOU TUDO! NÃO VAI TER GRAÇA LER ESSA ELA!

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  5. Se a Clary morrer vai dar uma boa ênfase para a história.
    Algumas personagens tem que morrer pra ficar mais interessante o arco dramático.
    PS: MINHA OPINIÃO. 😉

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    1. Eu concordo com você, além do mais, este livro não é sobre a Clary, ela não é a principal estão pode se sacrificar para dar continuidade ao trabalha perfeito da Cassandra.

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  6. Nunca fui com a cara da clary, mas c matar ela sério vou denunciar casandra clare por alguma coisa...

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  7. angel 04 de novembro 2017 . eu acredito que a cassandra tenha algum plano essa mulher genial

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  8. Como assim a Clary morrer? Esse tem sido minha série favorita desde os meus 16 anos. Eu vou ter um colapso mental literário se ela morrer. Não é assim. Ela é o tipo de personagem que não morre. Gente, não aguento mais mortes aa últimas três séries que eu li meus personagens favoritos morreram..
    Ah meu Deus já to sofrendo agora!!

    To achando que a dona Cassie Clare tá detonando nossas bases nesse livro... Acho que veio pra matar - literalmente- nossas mentes...

    Fuck mind. :(

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Boa leitura :)