20 de novembro de 2017

Capítulo 2

Eis o que diz a Enciclopédia Galáctica a respeito do álcool: é um líquido volátil e incolor formado pela fermentação dos açúcares. Acrescenta ainda que o álcool tem o efeito de inebriar certas formas de vida baseadas em carbono.
O Guia do Mochileiro das Galáxias também menciona o álcool. Diz que o melhor drinque que existe é a Dinamite Pangaláctica. Afirma que o efeito de beber uma Dinamite Pangaláctica é como ter seu cérebro esmagado por uma fatia de limão colocada em volta de uma grande barra de ouro. O Guia do Mochileiro também lhe dirá quais os planetas em que se preparam as melhores Dinamites Pangalácticas, quanto irá custar uma dose e quais as ONGs existentes para ajudar você a se recuperar posteriormente.
O Guia do Mochileiro ensina até mesmo como preparar a bebida por conta própria. Eis o que diz o livro:

Pegue uma garrafa de Aguardente Janx.
Misture-a com uma dose de água dos mares de Santragino V-ah, essa água dos mares de Santragino1., diz. Ah, os peixes de Santragino1.
Deixe que três cubos de Megagim Arturiano sejam dissolvidos na mistura (se não foi congelado da maneira correta, perde-se a benzina).
Deixe que quatro litros de gás dos pântanos de Falia borbulhem através da mistura em memória de todos aqueles mochileiros bem-aventurados que morreram de prazer nos pântanos de Falia.
Vaca flutuar, no verso de uma colher de prata, uma dose de extrato de Hipermenta Qualactina, plena da fragrância inebriante das sombrias Zonas Qualactinas, sutil, doce e mística.
Acrescente um dente de tigre solar algoliano. Veja-o dissolver-se, espalhando os fogos dos sóis algolianos no âmago do drinque.
Jogue uma pitadinha de Zânfuor. Acrescente uma azeitona.

Agora é só beber... mas... com muito cuidado...
O Guia do Mochileiro das Galáxias vende bem mais que a Enciclopédia Galáctica.
— Seis chopes duplos — disse Ford Prefect ao barman do Horse and Groom. — E depressa, porque o fim do mundo está próximo.
 O barman do Horse and Groom não merecia ser tratado desse jeito, era um senhor de respeito. Ajeitou os óculos e encarou Ford Prefect. Ford ignorou-o e virou-se para a janela, de modo que o barman encarou Arthur, que deu de ombros, como quem também não entendeu, e não disse nada.
Então, o barman disse:
— Ah, é? Um belo dia para o mundo acabar. E começou a tirar os chopes. Tentou outra vez., E então, o senhor vai assistir ao jogo hoje à tarde?
Ford virou-se para ele.
— Não, não tem sentido — disse, e virou-se para a janela novamente.
— Quer dizer que o senhor acha que nem adianta? — insistiu o barman. — O

Arsenal não tem a menor chance?
— Não, não — disse Ford. — É só que o mundo vai acabar.
— Ah, é mesmo, o senhor já disse — respondeu o barman, olhando agora para Arthur por cima dos óculos. — Seria uma boa saída para o Arsenal, escapar da derrota por causa do fim do mundo.
— Ford olhou de novo para o velho, realmente surpreso.
— Na verdade, não — disse, franzindo a testa. O barman respirou fundo. — Aí estão, seis chopes.
Arthur sorriu para ele, sem graça, e deu de ombros outra vez. Virou-se para trás e dirigiu um sorriso sem graça ao resto do bar, caso alguém mais tivesse ouvido a conversa.
Ninguém tinha ouvido nada, e ninguém entendeu por que Arthur estava sorrindo para eles daquele jeito.
Um homem sentado ao lado de Ford no balcão olhou para os dois homens, depois para os seis chopes, fez um rápido cálculo de cabeça, chegou a um resultado que lhe agradou e sorriu de forma boba e esperançosa para os dois.
— Nem pensar — disse Ford —, são nossos. — Dirigiu ao homem um olhar que faria um tigre solar algoliano continuar fazendo o que estivesse fazendo.
Ford jogou uma nota de cinco libras no balcão, dizendo:
Pode ficar com o troco.
— O que, cinco libras? Muito obrigado, meu senhor.
— Você tem dez minutos pra gastar isso.
O barman decidiu que era melhor ir fazer outra coisa.
— Ford — disse Arthur —, você pode por favor me explicar que história é essa?
— Beba — disse Ford. — Ainda faltam três chopes.
— Você quer que eu beba três canecos de chope na hora do almoço?
O homem do lado de Ford sorriu e concordou com a cabeça, satisfeito.
Ford ignorou-o e disse:
— O tempo é uma ilusão. A hora do almoço é uma ilusão maior ainda.
— Muito profundo — disse Arthur. — Essa você devia mandar pra Seleções. Eles têm uma página pra gente como você.
— Beba.
— Por que três canecos de chope de repente?
— É um relaxante muscular, você vai precisar.
— Relaxante muscular?
— Relaxante muscular.
Arthur olhou para dentro do caneco.
— Será que eu fiz alguma coisa de errado hoje — disse ele — ou será que o mundo sempre foi assim, só que eu estava encucado demais para perceber?
— Está bem — disse Ford. — Vou tentar explicar. Há quanto tempo a gente se conhece?
— Há quanto tempo? — Arthur pensou um pouco. — Deixe ver, uns cinco anos, talvez seis. A maior parte desse tempo pareceu fazer algum sentido na época.
— Está bem — disse Ford. — Qual seria a sua reação se eu lhe dissesse que não sou de Guildford e sim de um pequeno planeta perto de Betelgeuse?
Arthur deu de ombros, com indiferença.
— Sei lá — disse, bebendo um gole. — Por quê? Você acha que é capaz de dizer uma coisa dessas?
Ford desistiu. Realmente, não valia a pena se preocupar com aquilo naquele momento, com o fim do mundo tão próximo e tudo o mais. Limitou-se a dizer:
— Beba. — E acrescentou, como quem dá uma informação como outra qualquer — O fim do mundo está próximo.
Arthur sorriu sem graça para o resto do bar, outra vez. O resto do bar fez cara feia para ele. Um homem lhe fez sinal para que parasse de sorrir para eles e cuidasse de sua própria vida. “Hoje deve ser quinta-feira”, pensou Arthur, debruçando-se sobre o chope. “Nunca consegui entender qual é a das quintas-feiras.”

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