15 de novembro de 2017

Capítulo 2

Até a hora do almoço, a história do leitãozinho já era do conhecimento de quase toda St Péronne. O bar do Le Coq Rouge teve um fluxo constante de clientes, embora pouco tivéssemos a oferecer além de café de chicória. Os suprimentos de cerveja chegavam esporadicamente, e só tínhamos algumas garrafas de vinho caríssimas. Foi espantoso como tanta gente apareceu lá só para nos dar bom-dia.
— E você deu uma bronca nele? Mandou ele embora?
O velho René, rindo por trás do bigode, segurava o encosto da cadeira e enxugava as lágrimas. Pedira para ouvir a história quatro vezes, e Aurélien contara cada versão mais floreada que a outra, até estar enfrentando o Kommandant com um sabre, enquanto eu gritava “Der Kaiser ist Scheiss!”.
Troquei um sorrisinho com Hélène, que varria o chão do café. Eu não me importava. Ultimamente, não tinha havido muitos motivos de comemoração em nossa cidade.
— Devemos ter cuidado — disse Hélène quando René saiu, depois de saudar-nos tirando o chapéu. Nós vimos quando ele passou pelo correio se escangalhando de rir outra vez e parou para enxugar os olhos. — Essa história está indo muito longe.
— Ninguém vai dizer nada. Todo mundo odeia os boches. — Dei de ombros. — Além do mais, todos querem um pedaço de carne de porco. O pessoal não vai nos delatar antes que a comida chegue.
O porco fora levado discretamente de madrugada para a casa ao lado. Uns meses antes, Aurélien, ao cortar barris de cerveja velhos para fazer lenha, descobrira que a única coisa que separava a adega labiríntica da adega dos vizinhos, os Fourbets, era uma parede de meios tijolos. Havíamos cuidadosamente removido vários dos tijolos, com a cooperação dos Fourbets, e esta tornara-se a nossa rota de fuga de último recurso. Quando os Fourbets deram guarida a um jovem inglês, e os alemães chegaram de surpresa à sua porta ao anoitecer, Madame Fourbet alegara não entender as ordens do oficial, dando ao rapaz o tempo justo de fugir para o nosso lado pela adega. Os soldados desmontaram a casa inteira, até deram uma olhada na adega, mas, com a luz fraca, nenhum deles notou as falhas suspeitas nas juntas de cimento da parede.
Essa era a história de nossas vidas: insurreições menores, vitórias miúdas, uma breve chance de ridicularizar nossos opressores, barquinhos de esperança em um mar de incertezas, privação e medo.
— Você conheceu o novo Kommandant, então?
O prefeito estava sentado a uma das mesas perto da janela. Quando eu lhe trouxe um café, ele fez um gesto para que eu me sentasse. Mais do que a de qualquer um, eu pensava sempre, a vida dele se tornara intolerável desde a ocupação: ele vivia num estado de negociação permanente com os alemães para garantir à cidade suas necessidades básicas, e, de vez em quando, eles o tomavam como refém para obrigar os cidadãos recalcitrantes a cumprir ordens.
— Não foi uma apresentação formal — respondi, colocando a xícara diante dele.
Ele se aproximou mais de mim, falando baixo.
— Herr Becker foi mandado de volta para a Alemanha a fim de dirigir um dos campos de prisioneiros. Aparentemente, havia inconsistências na contabilidade dele.
— Isso não é surpresa. Ele é o único homem na França Ocupada cujo peso dobrou em dois anos.
Eu estava brincando, mas os meus sentimentos com relação à partida dele eram divididos. Por um lado, Becker fora rude, suas punições eram exageradas, fruto da insegurança e do temor de que seus homens não o achassem suficientemente forte. Mas ele tinha sido bem burro — cego a muitos atos de resistência da cidade — para cultivar alguma relação que ajudasse sua causa.
— Então, o que acha?
— Do novo Kommandant? Não sei. Ele poderia ter sido pior, eu acho. Não desmontou a casa, como Becker poderia ter feito, só para mostrar força. Mas... — franzi o nariz — ele é inteligente. Precisamos ser mais cuidadosos.
— Como sempre, Madame Lefèvre, suas ideias combinam com as minhas.
Ele sorriu para mim, mas não com os olhos. Lembrei-me do tempo em que o prefeito era um homem alegre e falante, famoso pela camaradagem: em qualquer reunião da cidade, a voz mais estrondosa era a dele.
— Alguma coisa chegando esta semana?
— Acho que vai chegar um pouco de bacon. E café. Pouca manteiga. Espero ter as rações exatas ainda hoje.
Olhamos pela janela. O velho René chegara à igreja. Parou para falar com o padre. Não era difícil adivinhar o que conversavam. Quando o padre começou a rir, e René se dobrou pela quarta vez, não pude deixar de achar graça.
— Alguma notícia do seu marido?
Tornei a virar para o prefeito.
— Nenhuma desde agosto, quando recebi um cartão-postal. Ele estava perto de Amiens. Não dizia muito.
Penso em você dia e noite, dizia o postal, na bela letra dele, cheia de voltas. Você é a minha estrela guia neste mundo de loucura. Eu passara duas noites em claro, preocupada, depois de receber o cartão, até Hélène ressaltar que “este mundo de loucura” poderia se aplicar igualmente a um mundo em que a pessoa vivia à base de um pão preto tão duro que precisava de uma foice para ser cortado e criava porcos num forno.
— A última que recebi do meu filho mais velho chegou há quase três meses. Estavam avançando em direção a Cambrai. Animados, ele disse.
— Espero que continuem animados. Como vai Louisa?
— Não tão mal, obrigado.
A filha caçula dele nascera com uma paralisia; não se desenvolvia, só podia comer determinados alimentos e, aos onze anos, vivia doente. Mantê-la bem era uma preocupação da nossa cidadezinha. Sempre que havia leite ou qualquer legume seco disponível, uma pequena reserva chegava à casa do prefeito.
— Quando ela estiver forte de novo, diga que Mimi perguntou por ela. Hélène está fazendo uma boneca para ela idêntica à da Mimi. Ela pediu para elas serem irmãs gêmeas.
O prefeito deu tapinhas na mão dela.
— Vocês são muito boas. Agradeço a Deus por terem voltado para cá quando podiam ter ficado na segurança de Paris.
— Ora. Nada garante que daqui a pouco os boches não desçam marchando a Champs-Élysées. E, além do mais, eu não poderia deixar Hélène sozinha aqui.
— Ela não sobreviveria a isso sem você. Você se transformou numa moça extraordinária. Paris lhe fez bem.
— Meu marido me faz bem.
— Então, que Deus o salve. Que Deus salve a todos nós.
O prefeito sorriu, pôs o chapéu e se levantou para sair.

* * *

St Péronne, onde a família Bessette havia tocado o Le Coq Rouge por várias gerações, estivera entre as primeiras cidades a cair nas mãos dos alemães, no outono de 1914. Eu e Hélène, com nossos pais falecidos havia muito e nossos maridos no front, havíamos decidido manter o hotel funcionando. Não éramos as únicas a assumir trabalhos masculinos: as lojas, as fazendas vizinhas e a escola eram quase totalmente dirigidas por mulheres, auxiliadas por velhos e meninos.
Em 1915, quase não havia sobrado homens na cidade.
O negócio foi bem nos primeiros meses, com soldados franceses passando lá e os britânicos não muito atrás. A comida ainda era abundante, música e celebração acompanhavam a marcha das tropas, e quase todos nós ainda acreditávamos que a guerra acabaria em uma questão de meses, na pior das hipóteses. Havia poucas pistas dos horrores que ocorriam a cento e sessenta quilômetros dali: dávamos comida aos refugiados belgas que passavam, com seus pertences balançando em carroças; alguns ainda de chinelos e com as roupas que usavam quando abandonaram suas casas. De vez em quando, se o vento soprava do leste, podíamos ouvir os distantes estouros dos canhões. Mas embora soubéssemos que a guerra estava perto, poucos achavam que St Péronne, nossa orgulhosa cidadezinha, pudesse se unir às que haviam caído sob o domínio alemão.
A prova de quão errados estávamos veio acompanhada do barulho de tiros numa manhã calma e fria de outono, quando Madame Fougère e Madame Dérin tinham saído para seu passeio diário das seis e quarenta e cinco até a boulangerie e foram alvejadas mortalmente ao atravessarem a praça.
Abri as cortinas ao ouvir o barulho e custei a entender o que via: os corpos daquelas duas mulheres, viúvas e amigas durante quase todos os seus setenta e tantos anos, estirados no chão, com os lenços tortos na cabeça, as cestas vazias emborcadas a seus pés. Uma poça vermelha viscosa se espalhava em volta delas num círculo quase perfeito, como se viesse de uma entidade.
Os oficiais alemães afirmaram depois que atiradores haviam disparado contra eles e que eles agiram em retaliação. (Aparentemente, diziam o mesmo em todas as cidades que ocupavam.) Se tivessem tido a intenção de provocar uma insurreição na cidade, não poderiam ter feito melhor do que matar aquelas velhinhas. Mas o ultraje não parou ali. Eles botaram fogo em celeiros e derrubaram a estátua do prefeito Leclerc. Vinte e quatro horas depois marchavam em formação pela rua principal; seus capacetes Pickelhaube brilhavam ao sol de inverno enquanto assistíamos estarrecidos, em silêncio, em frente às nossas casas e lojas. Eles ordenaram que os poucos homens que restavam fossem para a rua a fim de serem contados.
Os lojistas e os donos de barracas simplesmente fecharam os estabelecimentos e se recusaram a servi-los. Quase todos nós tínhamos comida estocada. Sabíamos que poderíamos sobreviver. Acho que acreditávamos que eles poderiam desistir diante de tal intransigência e seguir para outra aldeia. Mas então o Kommandant Becker decretou que qualquer lojista que deixasse de abrir a loja durante as horas de trabalho normais seria fuzilado. Um a um, a boulangerie, a boucherie, as barracas de feira e até o Le Coq Rouge reabriram.
Relutantemente, nossa cidadezinha voltou a uma rotina taciturna e rebelde.
Dezoito meses depois, pouco sobrara para comprar. St Péronne estava isolada das cidades vizinhas, privada de notícias e dependente do envio irregular de auxílio, suplementada por provisões do mercado negro, que eram caras, quando disponíveis. Às vezes era difícil acreditar que a França Livre sabia o que estávamos sofrendo. Os alemães eram os únicos que comiam bem. Seus cavalos (nossos cavalos) eram lustrosos e gordos, e comiam o trigo amassado que deveria ter sido usado para fazer o nosso pão. Eles saquearam nossas adegas e levaram a comida produzida por nossas fazendas.
E não era só a comida. Toda semana alguém ouvia a temida batida à porta, e uma nova lista de itens era requisitada: colheres de chá, cortinas, pratos, panelas, cobertores. De vez em quando, um oficial inspecionava primeiro, anotava o que era desejável e voltava com uma lista especificando exatamente o quê. Eles redigiam notas promissórias, que supostamente poderiam ser trocadas por dinheiro. Ninguém em St Péronne conheceu uma única pessoa que de fato tivesse sido paga.

* * *

— O que está fazendo?
— Estou mudando isso de lugar.
Peguei o retrato e o transferi para um canto sossegado, mais distante dos olhares dos visitantes.
— Quem é? — perguntou Aurélien enquanto eu ajeitava o quadro na parede depois de pendurá-lo.
— Sou eu! — Virei-me para ele. — Não dá para reconhecer?
— Ah.
Ele apertou os olhos. Não estava tentando me insultar: a garota no retrato era muito diferente da mulher magra, severa, de pele cinzenta, que me olhava diariamente do espelho com olhos preocupados e cansados. Eu tentava não olhar para ela com muita frequência.
— Édouard que pintou?
— Sim. Quando nos casamos.
— Nunca vi os quadros dele. Não é o que eu esperava.
— Como assim?
— Bem, é estranho. As cores são estranhas. Ele pôs verde e azul na sua pele. As pessoas não têm pele verde e azul! E, olha, está uma bagunça. Ele não fica dentro das linhas.
— Aurélien, venha cá. — Fui para a janela. — Olhe para o meu rosto. O que você vê?
— Uma gárgula.
Dei-lhe um tapa na cabeça.
— Não. Olhe, olhe bem. Para as cores da minha pele.
— Você só está pálida.
— Olhe mais. Embaixo dos meus olhos, nas rugas do meu pescoço. Não me diga o que espera ver. Olhe de verdade. E depois me diga que cores realmente vê.
Meu irmão observou o meu pescoço. Seu olhar passeou lentamente pelo meu rosto.
— Vejo azul — disse ele —, embaixo dos seus olhos. Azul e roxo. E, sim, verde, descendo pelo pescoço. E laranja. Alors, pode chamar o médico! O seu rosto tem mil cores diferentes. Você é uma palhaça!
— Somos todos palhaços — disse eu. — Édouard apenas vê isso com mais clareza do que outras pessoas.
Aurélien subiu correndo para se examinar no espelho e se atormentar em relação aos azuis e roxos que sem dúvida encontraria. Não que precisasse de muita justificativa, naquela época. Estava apaixonado por pelo menos duas garotas e passava muito tempo barbeando a pele macia e juvenil com a navalha cega de nosso pai, na tentativa vã de apressar o processo de amadurecimento.
— É lindo — disse Hélène, recuando para olhar o quadro. — Mas...
— Mas o quê?
— É um risco tê-lo pendurado. Quando passaram por Lille, os alemães queimaram obras de arte que consideraram subversivas. O quadro de Édouard é... muito diferente. Como ter certeza de que não vão destruí-lo?
Hélène se preocupava. Preocupava-se com os quadros de Édouard e com o temperamento do nosso irmão; com as cartas e as anotações no diário que eu fazia em pedaços de papel e enfiava em buracos nas vigas.
— Quero o quadro aqui, onde eu possa vê-lo. Não se preocupe. O resto está seguro em Paris.
Ela não pareceu convencida.
— Quero cor, Hélène. Quero vida. Não quero olhar para Napoleão nem para os quadros idiotas de cachorros lúgubres do papai. E não vou deixar que eles — apontei com a cabeça para a rua onde soldados alemães de licença fumavam ao lado do chafariz da cidade — decidam para o que eu posso olhar dentro da minha própria casa.
Hélène balançou a cabeça de um lado para outro como se eu fosse uma tola e ela tivesse que consentir. E depois foi servir Madame Louvier e Madame Durant, que, apesar de terem comentado várias vezes que o meu café de chicória tinha gosto de esgoto, haviam chegado para ouvir a história do leitãozinho.

* * *

Eu e Hélène dormimos na mesma cama naquela noite, ao lado de Mimi e Jean.
Às vezes, fazia tanto frio, mesmo em outubro, que temíamos encontrá-los congelados em suas roupas de dormir, então ficávamos todos bem juntos. Era tarde, mas eu sabia que minha irmã estava acordada. O luar entrava pela fresta das cortinas, e eu via perfeitamente os olhos dela, arregalados, fixos num ponto distante. Calculei que ela estivesse se perguntando onde estava o marido naquele instante, se ele estava agasalhado, acantonado em algum lugar parecido com nossa casa, ou congelando numa trincheira, olhando para a mesma lua.
Ao longe, uma explosão abafada revelava uma batalha distante.
— Sophie?
— Sim?
Falávamos o mais baixo possível.
— Às vezes você se pergunta como vai ser... se eles não voltarem?
Fiquei em silêncio no escuro.
— Não — menti. — Porque sei que eles vão voltar. E não quero que os alemães captem nem mais um minuto de medo em mim.
— Eu me pergunto — disse ela. — De vez em quando me esqueço do rosto dele. Olho a fotografia e não consigo me lembrar de nada.
— É porque você olha muito para ela. Às vezes, acho que gastamos as fotografias olhando para elas.
— Mas não consigo me lembrar de nada, do cheiro, da voz dele. Não consigo me lembrar de como é estar ao lado dele. É como se ele nunca tivesse existido. E aí penso: e se for isso mesmo? E se ele não voltar nunca? E se for para a gente passar o resto da vida assim, tendo todos os movimentos determinados por homens que nos odeiam? Não sei... Não sei se consigo...
Apoiei-me em um cotovelo e estiquei o braço por cima de Mimi e Jean para pegar a mão da minha irmã.
— Consegue, sim — falei. — Claro que consegue. Jean-Michel voltará para casa e a sua vida será boa. A França será livre e a vida será como era antes. Melhor até.
Ela ficou ali calada. Eu agora tiritava embaixo das cobertas, mas não ousava me mexer. Minha irmã me assustava quando falava assim. Era como se na sua cabeça houvesse um mundo de terrores e combatê-lo fosse para ela duas vezes mais difícil que para o restante de nós.
Sua voz estava baixa, trêmula, como se ela estivesse segurando as lágrimas.
— Sabe, depois que me casei com Jean-Michel, eu era muito feliz. Era livre pela primeira vez na vida.
Eu sabia o que ela queria dizer: nosso pai fora rápido com o cinto e firme com os punhos. A cidade tinha-o como o mais benevolente dos patrões, um pilar da comunidade, o bom e velho François Bessette, sempre pronto para contar uma piada e tomar um gole. Mas nós conhecíamos a ferocidade do temperamento dele. Nossa única tristeza era nossa mãe ter ido antes dele e não ter podido aproveitar uns anos fora da sua sombra.
— A sensação é de que... trocamos de agressor. Às vezes acho que passarei a vida inteira curvada à vontade de outra pessoa. Você, Sophie, eu a vejo rindo, determinada, muito corajosa, pendurando quadros, gritando com os alemães, e não entendo de onde vem isso. Não consigo me lembrar de como era viver sem medo.
Ficamos caladas. Eu ouvia meu coração batendo. Ela achava que eu era destemida. Mas nada me amedrontava mais do que os medos da minha irmã. Havia uma nova fragilidade nela naqueles últimos meses, uma nova tensão em volta dos seus olhos. Apertei a mão dela. Ela não retribuiu.
Entre nós duas, Mimi se mexeu, jogando um braço para cima da cabeça. Hélène largou a minha mão, e eu via apenas sua silhueta quando ela virou para o lado e enfiou com delicadeza o braço da filha de novo para baixo das cobertas.
Estranhamente tranquilizada com esse gesto, tornei a me deitar, puxando as cobertas até o queixo para parar de tremer.
— Carne de porco — disse eu, no silêncio.
— O quê?
— Imagine só. Um porco assado, com sal e azeite na pele, cozida até ficar bem tostadinha. Pense nas dobras tenras de banha quente, na carne rosada e macia desmanchando entre os dedos, talvez com uma compôte de maçã. É isso que vamos comer em semanas, Hélène. Imagine que gostosura vai ser.
— Carne de porco?
— É. Carne de porco. Quando me sinto fraquejar, penso naquele porco com aquela barrigona gorda. Penso nas orelhinhas crocantes e nos pernis úmidos dele.
Quase ouvi o sorriso dela.
— Sophie, você está maluca.
— Mas pense nisso, Hélène. Não vai ser bom? Você consegue imaginar a cara da Mimi, com banha de porco escorrendo pelo queixo? Que sensação isso vai causar na barriguinha dela? Pode imaginar com que prazer ela vai tentar tirar os pedacinhos do meio dos dentes?
Ela riu, a contragosto.
— Não sei se ela se lembra do gosto da carne de porco.
— Não precisa de muito para lembrar — falei. — Da mesma forma que não precisa de muito para fazer você se lembrar de Jean-Michel. Um dia desses, ele vai entrar em casa, e você vai jogar os braços em volta dele, e o cheiro, a sensação do abraço dele a envolvendo pela cintura serão tão familiares para você quanto o seu próprio corpo.
Quase deu para ouvir os pensamentos dela fugindo. Eu a convencera.
Pequenas vitórias.
— Sophie — disse ela, após um instante. — Você sente falta de sexo?
— Todo santo dia — respondi. — Duas vezes mais do que penso naquele porco.
Houve um breve silêncio, e começamos a dar risadinhas. Então, não sei por quê, estávamos gargalhando tanto que tivemos que tapar a boca para não acordar as crianças.

* * *

Eu sabia que o Kommandant voltaria. Ele acabou aparecendo quatro dias depois. Chovia forte, um dilúvio, e nossos poucos clientes, sentados diante de xícaras vazias, olhavam sem enxergar através das janelas embaçadas. No salão, o velho René e Monsieur Pellier jogavam dominó; o cachorro de Monsieur Pellier — o homem tinha que pagar uma tarifa aos alemães pelo privilégio de ter o animal — estava entre os pés deles. Muita gente se sentava ali diariamente, para não precisar ficar sozinha com o próprio medo.
Eu estava justamente admirando o cabelo de Madame Arnault, que minha irmã acabara de prender, quando as portas de vidro se abriram e ele entrou no bar, ladeado por dois oficiais. O ambiente, antes caloroso, pleno de conversa e camaradagem, de repente ficou em silêncio. Saí de trás do balcão e enxuguei as mãos no avental.
Os alemães não visitavam nosso bar, salvo para fazer requisições. Eles frequentavam o Bar Blanc, no alto da cidade, que era maior e possivelmente mais amistoso. Sempre deixamos claro que não éramos um espaço agradável para as forças de ocupação. Eu me perguntava o que eles iriam levar de nós naquele momento. Se perdêssemos mais pratos e xícaras, teríamos que pedir emprestado aos clientes.
— Madame Lefèvre.
Fiz um gesto de cabeça para ele. Eu podia sentir os meus clientes me olhando.
— Foi decidido que a senhora fornecerá refeições para alguns oficiais. Não há espaço suficiente no Bar Blanc para nossos recém-chegados comerem com conforto.
Eu o via com clareza pela primeira vez. Ele era mais velho do que eu pensara, tinha uns quarenta e tantos anos talvez, embora com soldados fosse difícil dizer. Todos aparentavam ter mais idade.
— Receio que isso seja impossível, Herr Kommandant — eu disse. — Não servimos refeições neste hotel há mais de um ano e meio. Mal temos provisões suficientes para alimentar nossa pequena família. Não podemos fornecer refeições no padrão que seus homens exigirão.
— Estou ciente disso. Haverá suprimentos suficientes entregues a partir do início da semana que vem. Espero que a senhora produza refeições adequadas a oficiais. Entendo que este hotel já foi um estabelecimento refinado. Tenho certeza de que isso está dentro da sua capacidade.
Ouvi minha irmã inspirar atrás de mim e sabia que ela se sentia como eu. O medo visceral de ter alemães em nosso pequeno hotel foi temperado pelo pensamento que havia meses prevalecia sobre todos os outros: comida. Haveria sobras, ossos com que fazer caldo. Haveria aromas culinários, porções roubadas, rações extras, fatias de carne e queijo para serem secretamente subtraídas.
Mas ainda assim...
— Não sei se o nosso bar será adequado para vocês, Kommandant. Estamos privados de confortos aqui.
— Eu é que decidirei onde meus homens estarão confortáveis. Gostaria de ver suas acomodações também. Talvez aloje alguns homens aqui.
Ouvi o velho René resmungar:
— Sacre bleu, valha-me Deus!
— Esteja à vontade para examinar as acomodações, Herr Kommandant. Mas descobrirá que os seus antecessores nos deixaram muito pouco. As camas, os cobertores, as cortinas, até o encanamento de cobre que alimentava as pias, já são propriedade alemã.
Eu sabia que corria o risco de irritá-lo. Eu deixara claro, num bar lotado, que o Kommandant desconhecia os atos dos próprios homens, que o seu conhecimento, no que tangia à nossa cidade, era falho. Mas era vital que meus concidadãos me vissem como obstinada e teimosa. Ter alemães em nosso bar tornaria Hélène e a mim alvo de fofocas, de boatos maldosos. Era importante que nos vissem fazer tudo que pudéssemos para detê-los.
— Volto a dizer, Madame; eu avaliarei se as acomodações são adequadas. Queira me levar para conhecê-las.
Ele fez sinal para que seus homens permanecessem no bar. Haveria um silêncio absoluto ali até depois que tivessem partido.
Endireitei os ombros e fui devagar para o corredor, esticando o braço para pegar as chaves na passagem. Senti os olhos do salão inteiro sobre mim quando saí, com as minhas saias farfalhando, os passos pesados do alemão atrás de mim.
Destranquei a porta do corredor principal (eu deixava tudo trancado: acontecia de ladrões franceses roubarem o que os alemães ainda não haviam tomado).
Aquela parte do prédio cheirava a mofo e umidade. Eu não ia ali havia meses. Subimos a escada em silêncio. Eu estava agradecida por ele se manter vários passos atrás de mim. Parei no alto, aguardando que ele chegasse ao corredor, depois destranquei o primeiro quarto.
Houve uma época em que eu chorava só de ver o nosso hotel assim. O Quarto Vermelho já fora o orgulho do Le Coq Rouge. O quarto onde eu e minha irmã havíamos passado nossas noites de núpcias, o quarto onde o prefeito hospedava os visitantes ilustres. O aposento abrigara uma vasta cama de quatro colunas, guarnecida por tapeçarias vermelho-sangue, e sua janela generosa dava para nossos jardins principais. O tapete era da Itália, a mobília, de um château na Gasconha, a colcha, de uma seda encarnada da China. Já tivera um lustre dourado e uma enorme lareira de mármore, onde o fogo era aceso todas as manhãs por uma camareira e permanecia acesso até a noite.
Abri a porta, recuando para o alemão poder entrar. O quarto estava vazio, salvo por uma cadeira perneta no canto. As tábuas do piso haviam sido despojadas do carpete e estavam pálidas, cobertas por uma camada grossa de poeira. A cama tinha ido embora havia muito tempo, com as cortinas, entre as primeiras coisas roubadas quando os alemães tomaram a nossa cidade. A lareira de mármore fora arrancada da parede. Por que razão, eu não sei. Não acredito que ela pudesse ser usada em outro lugar. Acho que Becker simplesmente quisera nos desmoralizar, ao retirar todas as coisas belas.
Ele entrou no quarto.
— Cuidado onde pisa — adverti.
Ele olhou para o chão e viu o canto do quarto onde tinham tentado  arrancar as tábuas do piso para fazer lenha na primavera anterior. A casa era muito bem construída, o assoalho, muito bem pregado, e eles desistiram depois de só terem conseguido arrancar três tábuas compridas ao cabo de várias horas de trabalho. O buraco, um O enorme de objeção, expunha os caibros do térreo.
O Kommandant ficou parado um minuto, fitando o chão. Levantou a cabeça e olhou em volta. Eu nunca estivera sozinha num quarto com um alemão e estava com o coração aos pulos. Dava para sentir um vestígio de cheiro de cigarro nele e ver os respingos de chuva em seu uniforme. Olhei sua nuca e segurei as chaves entre os dedos, pronta para golpeá-lo com o punho armado se ele me atacasse de repente. Eu não seria a primeira mulher que precisara lutar pela honra.
Mas ele se virou e perguntou:
— Estão todos tão ruins?
— Não — respondi. — Os outros estão piores.
Ele me olhou tão demoradamente que quase corei. Mas eu me recusava a deixar aquele homem me intimidar. Olhei de volta, para seu cabelo grisalho cortado à escovinha, seus olhos azuis translúcidos, estudando-me por baixo daquele quepe. Meu queixo continuava empinado, minha expressão, impassível.
Finalmente, ele se virou, passou à minha frente, desceu as escadas e entrou no corredor escuro. Parou bruscamente, olhou para o meu retrato e piscou duas vezes, como se só então tivesse registrado que eu o mudara de lugar.
— Mandarei uma pessoa informá-la de quando esperar a primeira entrega de comida — disse ele.
Passou resoluto pela porta e voltou para o bar.

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