20 de novembro de 2017

Capítulo 29

— Zaphod! Acorde!
— Mmmmmaaaaaãããããhn?
— Vamos, acorde logo.
— Deixe que eu continue fazendo o que sei fazer, está bem? — murmurou Zaphod; sua voz morreu aos poucos e ele adormeceu de novo.
— Quer levar um chute? — perguntou Ford.
— Isso vai lhe dar muito prazer? — retrucou Zaphod, com a voz cheia de sono.
— Não.
— De mim também não. Então pra que me chutar? Pare de me perturbar.
E Zaphod encolheu-se todo novamente.
— Ele ingeriu uma dose dupla de gás — disse Trillian, olhando para Zaphod. — Duas traqueias.
— E parem de falar — disse Zaphod. — Já não é fácil dormir aqui. Que diabo deu nesse chão? Está tão duro, gelado.
— É ouro — disse Ford.
Com um movimento espantoso de bailarino, Zaphod pôs-se de pé e começou a olhar para todos os lados, até o horizonte; era tudo ouro, o chão era uma camada perfeitamente lisa e sólida de ouro. Brilhava como... é impossível achar uma comparação razoável, porque nada no Universo brilha exatamente como um planeta de ouro maciço.
— Quem botou isso tudo aqui? — exclamou Zaphod, de olhos esbugalhados.
— Não fique excitado — disse Ford. — Isso é só um catálogo.
— O quê?
— Um catálogo — disse Trillian — Uma ilusão.
— Como é que vocês podem dizer uma coisa dessas? — exclamou Zaphod, caindo de quatro e olhando para o chão. Cutucou-o com o dedo. Era muito pesado e ligeiramente macio — era possível riscá-lo com a unha. Era muito amarelo e muito brilhante, e, quando ele bafejava sobre a superfície, ela embaçava e depois desembaçava daquela maneira peculiar que é característica das superfícies de ouro maciço.
— Eu e Trillian acordamos uns minutos atrás — disse Ford.
— Gritamos até que alguém veio, e continuamos a gritar até que eles se encheram e trancaram a gente aqui no catálogo de planetas, pra gente se distrair até que eles estejam preparados pra lidar conosco. Isso aqui é só uma gravação em Sensorama.
Zaphod olhou-o com raiva.
— Ora, merda — exclamou ele —, você me acorda no meio do meu sonho agradável pra me mostrar o sonho de outra pessoa. — Sentou-se, emburrado. — E aqueles vales ali, que é aquilo? — perguntou.
— É só o selo de qualidade — disse Ford. — Já fomos lá ver.
— Não acordamos você antes — disse Trillian. — O último planeta era só peixe até a altura das canelas.
— Peixe?
— Tem gosto pra tudo.
— E antes dos peixes — disse Ford — foi platina. Meio chato. Mas esse aqui achamos que você ia gostar de ver.
Mares de luz dourada resplandeciam em todas as direções, para onde quer que olhassem.
— Muito bonito — disse Zaphod com petulância.
No céu apareceu um enorme número de catálogo. Ele piscou e mudou, e, quando os três olharam ao redor, viram que a paisagem mudara também.
Em uníssono, os três exclamaram:
— Argh!
O mar era roxo. A praia em que estavam era de pedrinhas amarelas e verdes — provavelmente pedras terrivelmente preciosas. Ao longe, as montanhas ostentavam picos vermelhos; pareciam macias e ondulantes. A pouca distância de onde estavam havia uma mesa de praia de prata maciça, com uma sombrinha alva ornada com borlas de prata.
No céu apareceram os seguintes dizeres em letras garrafais substituindo o número do catálogo: Qualquer que seja seu gosto, Magrathea tem o que você deseja. Não nos orgulhamos disso.
E então 500 mulheres nuas em pêlo caíram do céu de pára-quedas.
Imediatamente o cenário desapareceu, sendo substituído por um pasto cheio de vacas.
— Ah, meus cérebros! — exclamou Zaphod.
— Quer falar sobre isso? — perguntou Ford.
— Está bem — disse Zaphod, e os três sentaram-se e ignoraram os cenários que surgiam e desapareciam a seu redor.
— O que eu acho é o seguinte — disse Zaphod. — Seja lá o que for que aconteceu coma minha mente, fui eu que fiz. E fiz de um jeito tal que os testes governamentais a que me submeteram quando me candidatei não pudessem descobrir nada. E que nem mesmo eu soubesse o que fiz. Tremenda loucura, não é?
Os outros dois concordaram com a cabeça.
— Então me pergunto: o que seria tão secreto que não posso deixar que ninguém saiba, nem mesmo o governo galáctico, nem mesmo eu? E a resposta é: não sei. É óbvio. Mas juntei uma coisa e outra, e dá pra eu fazer uma ideia. Quando foi que resolvi me candidatar à presidência? Logo depois da morte do presidente Yooden Vranx. Você se lembra de Yooden, Ford?
— Lembro — disse Ford. — Aquele cara que nós conhecemos quando éramos garotos, o comandante de Arcturus. Ele era um barato. Nos deu umas castanhas quando você arrombou o megacargueiro dele. Disse que você era o garoto mais incrível que ele já tinha visto.
— Que história é essa? — perguntou Trillian.
— Uma história antiga — disse Ford —, do nosso tempo de garotos, lá em Betelgeuse. Os megacargueiros de Arcturus eram encarregados da maior parte do comércio entre o Centro Galáctico e as regiões periféricas. Os vendedores da astronáutica mercante de Betelgeuse encontravam os mercados e os arcturianos os abasteciam. Havia muita pirataria no espaço antes das guerras de Dordellis, quando os piratas foram dizimados, e os megacargueiros eram equipados com os escudos de defesa mais fantásticos de toda a Galáxia. Eram realmente umas naves enormes. Quando entravam em órbita ao redor de um planeta, elas eclipsavam o Sol.
“Um dia, o jovem Zaphod resolveu saquear uma delas. Num patinete de três propulsores a jato, feito para navegar na estratosfera, coisa de garoto, mesmo. Ele era totalmente pirado. Fui junto porque havia apostado uma boa nota que ele não ia conseguir, e não queria que ele voltasse com provas falsas de que tinha conseguido. Pois sabe o que aconteceu? Entramos no patinete dele, que já era algo totalmente diferente de tanto que ele o tinha incrementado, cobrimos uma distância de três parsecs em poucas semanas, arrombamos um megacargueiro, até hoje não sei como, fomos até a ponte de comando brandindo pistolas de brinquedo e exigimos castanhas. Maluquice maior nunca
Perdi um ano de mesadas. Tudo pra ganhar o quê? Castanhas.
— O capitão era um cara realmente incrível, o tal de Yooden Vranx — disse — Zaphod. Ele nos deu comida, bebida, coisas dos lugares mais exóticos da Galáxia, muita castanha, claro, e a gente se divertiu paca. Depois ele teleportou a gente. Direto pra ala de segurança máxima da prisão estadual de Betelgeuse. Um cara incrível. Acabou presidente da Galáxia.
Zaphod parou de falar.
O cenário ao redor deles estava no momento imerso na escuridão. Névoas escuras elevavam-se, sombras imensas moviam-se indistintas. O ar era ocasionalmente riscado por ruídos de seres ilusórios assassinando outros seres ilusórios. Pelo visto, havia quem gostasse daquilo o bastante para ter valor comercial.
— Ford — disse Zaphod, em voz baixa.
 — Sim?
— Pouco antes de morrer, Yooden me procurou.
— É mesmo? Você nunca me contou.
— Não.
— O que foi que ele disse? Por que ele procurou você?
Me falou sobre a nave Coração de Ouro. Ele é que me deu a ideia de roubá-la.
— Ele?
— É — disse Zaphod —, e a única oportunidade pra isso seria a cerimônia de lançamento.
Ford arregalou os olhos para ele por um instante, depois caiu na gargalhada.
— Você está me dizendo que virou presidente da Galáxia só pra roubar essa nave? — perguntou ele.
— Justamente — disse Zaphod, com o tipo de sorriso que, na maioria das pessoas, teria o efeito de fazer com que elas fossem trancafiadas em celas acolchoadas.
— Mas por quê? — perguntou Ford. — Por que é tão importante pra você ter essa nave?
— Sei lá — disse Zaphod. — Acho que se eu soubesse conscientemente por que isso é tão importante e pra que eu precisava dela, isso teria aparecido nos testes governamentais e eu jamais teria passado. Acho que Yooden me disse um monte de coisas que ainda estão trancadas no meu cérebro.
Então por causa da conversa com Yooden você bagunçou o seu próprio cérebro?
— Ele levava qualquer um no papo.
— É, rapaz, mas você tem que se cuidar, sabe?
Zaphod deu de ombros.
— Mas será que você não faz a menor ideia do porquê disso tudo? — insistiu Ford.
Zaphod pensou bastante na pergunta e uma dúvida pareceu esboçar-se em sua mente.
— Não — disse por fim. — Acho que não estou revelando nenhum dos meus segredos a mim mesmo. Seja como for — acrescentou, após pensar mais um pouco — eu até entendo. Eu é que não sou maluco de confiar em mim.
Um minuto depois, o último planeta do catálogo desapareceu e o mundo concreto reapareceu a seu redor.
Estavam sentados numa sala de espera luxuosa, cheia de mesas de vidro e prêmios recebidos em concursos de design.
Um magratheano alto estava em pé diante dos três.
Os ratos querem ver vocês agora.

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Boa leitura :)