30 de novembro de 2017

Capítulo 29 - Última Thule

O sol brilhava em Alicante.
Na primeira vez em que Emma fora a Idris, tinha sido em pleno inverno, frio como a morte, e havia morte por todos os lados: seus pais tinham acabado de ser assassinados e a Guerra Maligna tinha arrasado a cidade. Eles não puderam enterrar os corpos dos Caçadores de Sombras mortos nas ruas com rapidez suficiente, e os cadáveres foram sendo empilhados no Salão como brinquedos jogados fora.
— Emma. — Julian caminhava pelo longo corredor do Gard, cheio de portas, cada uma levando ao escritório de uma autoridade diferente. Alternando-se entre as portas, havia janelas que deixavam passar a luz forte do fim do verão, e tapeçarias que representavam eventos marcantes na história dos Caçadores de Sombras. A maioria tinha pequenas etiquetas de tecido no topo, contendo sua descrição: A BATALHA DO DIQUE, A ÚLTIMA BATALHA DE VALENTIM, O COMPROMISSO DE PARIS, O LEVANTE. — Você se lembra...?
Ela se lembrava. Eles tinham ficado de pé neste exato local, cinco anos antes, ouvindo Lucian Graymark e Jia Penhallow discutindo o exílio de Mark e Helen, antes de Emma irromper e começar a berrar com eles. Fora uma das poucas vezes em que ela vira Julian perder o controle. Ainda ouvia a voz dele em sua mente, mesmo agora. Você prometeu que a Clave jamais abandonaria Mark enquanto ele estivesse vivo, você prometeu!
— Como se eu pudesse esquecer — falou ela. — Foi aqui que dissemos à Consulesa que queríamos ser parabatai.
Julian tocou a mão de Emma. Foi apenas um roçar de dedos; ambos sabiam que alguém poderia aparecer a qualquer momento.
A viagem a Alicante tinha sido difícil; Magnus conseguira criar o Portal, embora isso parecesse ter tirado o restante de sua energia de um modo que deixara Emma apavorada. Quando o redemoinho familiar de luzes se formara, o feiticeiro estava de joelhos, e foi preciso se apoiar em Mark e Julian para se erguer.
Ainda assim, ele dispensara todas as preocupações e informara que eles precisavam passar rapidamente pelo Portal. Idris possuía barreiras de proteção e a viagem via Portal era uma questão complexa, pois alguém tinha que estar do outro lado para recebê-los. Agora era duplamente complexa porque Kieran estava com eles e, embora Jia tivesse dispensado temporariamente as proteções antifadas no Gard, a janela para uma viagem segura era um tanto curta.
E ainda por cima o Portal deixara Annabel em pânico.
Ela nunca tinha visto um antes e, apesar de tudo o que havia passado, apesar da terrível magia que vira Malcolm infligir, a visão do redemoinho de caos no interior da abertura a fez gritar.
No fim, depois que todos os Caçadores de Sombras entraram no Portal, ela foi com Magnus, apertando o Volume Negro nas mãos, o rosto escondido no ombro do feiticeiro.
Só para chegar do outro lado e se vir confrontando uma multidão de membros do Conselho e a Consulesa em pessoa. Jia empalidecera ao ver Annabel e falou com voz admirada:
— É ela mesmo?
Magnus encarara a Consulesa por um momento.
— Sim — respondeu com firmeza. — É. É ela.
Ouviu-se um balbucio de perguntas. Emma não podia culpar os membros do Conselho. Umas poucas perguntas foram feitas a Julian quando ele saíra da biblioteca, dizendo a Magnus e Emma que o aguardavam, que Annabel iria com eles para Idris.
Enquanto ele delineava seu plano, Emma dera uma olhada na expressão de Magnus. O feiticeiro vinha fitando Julian com uma mistura de espanto, respeito e algo semelhante a um leve horror.
Mas provavelmente era mera surpresa. Afinal, Magnus parecera suficientemente otimista e de imediato começara a enviar uma mensagem de fogo à Jia, avisando-a sobre o que esperar.
Emma tinha puxado Julian para o lado enquanto partículas azuis saíam dos dedos do feiticeiro.
— E quanto ao livro? — sussurrara. — E quanto à Rainha?
Os olhos de Julian brilharam.
— Se isso funcionar, Annabel nos dará o Volume Negro — retrucara ele também aos sussurros, fitando a porta da biblioteca como se Annabel, atrás dela, fosse a resposta a todas as suas orações. — E se não funcionar... Eu tenho um plano para isso também.
No entanto, Emma não tivera a chance de perguntar qual era o plano; Annabel saiu da biblioteca, assustada e tímida. E parecia ainda mais assustada agora que o tumulto irrompia a sua volta; Kieran atraiu um pouco da atenção ao se apresentar como representante da Rainha Seelie, enviado para falar em nome da Corte Seelie ao Conselho dos Caçadores de Sombras. Ele era esperado, mas conversas agitadas pipocaram mesmo assim.
— Ergam novamente as barreiras — falou a Consulesa, inclinando a cabeça para Kieran. Sua expressão era educada, mas a mensagem era clara: embora Kieran estivesse ali para ajudar, todas as fadas de puro sangue continuariam a ser tratadas com extrema desconfiança pela Clave.
Mark e Cristina foram para o lado de Kieran, de modo protetor, enquanto Magnus conversava baixinho com a Consulesa. Após um momento, ela assentiu, e apontou para Emma e Julian.
— Se vocês querem conversar com Robert, vão em frente — falou ela. — Mas sejam breves... a reunião é daqui a pouco.
Quando se dirigiu aos escritórios do Gard junto a Julian, Emma não se surpreendeu ao ver que Livvy, Ty, Kit e Dru ladeavam Annabel de modo protetor. Ty, sobretudo, erguia o queixo, as mãos em punhos. Emma se perguntou se ele se sentia responsável por Annabel por causa da carta que a trouxera até eles, ou se ele sentia algum tipo de afinidade com todos aqueles que eram vistos pela Clave como “fora da normalidade”.
Uma porta se abriu.
— Vocês podem entra agora — falou um guarda. Era Manuel Villalobos, usando o uniforme de Centurião. O sobressalto de surpresa ao vê-los foi rapidamente disfarçado por um sorriso afetado. — Que prazer inesperado — falou ele.
— Não viemos vê-lo — falou Julian. — Embora seja bom saber que você está abrindo portas para o Inquisidor atualmente. Ele está?
— Deixe-os entrar, Centurião — chamou Robert, e foi toda a permissão da qual Emma precisava para empurrar Manuel e seguir pelo corredor. Julian a acompanhou.
O pequeno corredor terminava no escritório do Inquisidor. Ele estava sentado à mesa, praticamente o mesmo desde a última vez que Emma o vira no Instituto de Los Angeles. Um homem grande, que só agora começava a exibir as marcas da idade — os ombros estavam um pouco curvados, os cabelos escuros densamente entrelaçados pelo cinza —, Robert Ligthwood era uma figura imponente atrás da imensa mesa de mogno.
O cômodo praticamente não tinha mobília, além da mesa e de duas cadeiras. Havia uma lareira apagada, e acima da cornija pendia uma das séries de tapeçarias exibidas no corredor lá fora. Esta se chamava A BATALHA DE BURREN. Vultos vestidos de vermelho com vultos de preto — Caçadores de Sombras e Crepusculares — e, acima da luta, podia-se ver um arqueiro de cabelos escuros, de pé num rochedo inclinado, segurando um arco e flecha. Para qualquer um que o conhecesse, estava bem nítido que era Alec Ligthwood.
Emma se perguntava que pensamentos cruzavam a mente de Robert Ligthwood ao sentar todos os dias em seu escritório e olhar para o retrato do filho, um herói de uma batalha agora famosa. Orgulho, sem dúvida, mas também devia haver algum tipo de admiração pelo fato de que ele criara essa pessoa — essas pessoas, na verdade, pois Isabelle Ligthwood também se destacava no departamento do heroísmo — que se tornara tão feroz e incrível por si só.
Um dia Julian teria esse orgulho, pensou ela, de Livvy, Ty, Tavvy e Dru. Mas os pais dela jamais tiveram uma chance de sentir isso. Emma nunca tivera uma oportunidade de deixá-los orgulhosos. Ela sentiu a onda familiar de amargura e ressentimento, pressionando o peito.
Robert fez um gesto para que eles se sentassem.
— Ouvi dizer que vocês queriam falar comigo. Espero que isso não signifique algum tipo de distração.
— Distração do quê? — perguntou Emma, ajeitando-se na cadeira pouco confortável e antiquada.
— Do que quer que vocês estejam tramando. — Ele se recostou. — Então, o que é?
O coração de Emma pareceu disparar. Será que isso era uma boa ideia ou uma ideia terrível? Era como se tudo nela a estivesse blindando contra esse momento, contra a ideia de que ela e Julian teriam que espalhar seus sentimentos sob os pés da Clave para que fossem pisoteados.
Ela observou Julian quando ele se inclinou para a frente e começou a contar. Ele parecia absolutamente calmo ao falar da amizade inicial entre eles, da afeição de um pelo outro, da decisão de ser parabatai, resultante da Guerra Maligna e da perda de seus pais. Ele fazia soar como uma decisão racional — como se não fosse culpa de alguém; quem poderia tê-los culpado, algum deles? A Guerra Maligna atingira a todos com perdas. Ninguém poderia ser culpado por negligenciar os detalhes. Por confundir seus sentimentos.
Os olhos de Robert Ligthwood começaram a se arregalar. Ele ouvia em silêncio enquanto Julian falava dos sentimentos crescentes de um pelo outro. De como eles tinham se dado conta do que sentiam separadamente, de que lutaram em silêncio, confessaram suas emoções e aí finalmente decidiram buscar ajuda do Inquisidor e até o exército da Lei.
— Nós sabemos que infligimos a Lei — concluiu Julian —, mas não foi intencional nem estava sob o nosso controle. Tudo o que queremos é a sua ajuda.
Robert Ligthwood ficou de pé. Emma via as torres de vidro pela janela, reluzindo como estandartes ardentes. Ela mal podia acreditar que naquela mesma manhã eles tinham combatido os Cavaleiros no pátio do Instituto de Londres.
— Ninguém nunca havia me perguntado se poderia ser exilado até agora — falou ele, finalmente.
— Mas você mesmo se exilou certa vez — retrucou Julian.
 — Sim — concordou Robert. — Com minha mulher, Maryse, e Alec, quando ele era bebê. E por uma boa razão. O exílio é solitário. E para alguém tão jovem quanto Emma... — Ele os encarou. — Alguém mais sabe sobre vocês?
— Não. — A voz de Julian era calma e firme. Emma sabia que ele estava tentando proteger aqueles que supusessem ou acabassem sabendo sobre a relação... Mas aquilo a enervava de qualquer forma, o modo como ele conseguia soar tão absolutamente sincero quando estava mentindo.
— E você tem certeza? Não é só uma paixonite ou apenas... Sentimentos parabatai podem ser bem intensos. — Robert pareceu constrangido ao juntar as mãos atrás das costas. — É fácil confundi-los.
— Nós temos certeza absoluta do que é — falou Julian.
 — A medida habitual seria a separação, não o exílio. — Robert olhou de um para o outro como se ainda não conseguisse acreditar no que estava diante dele. — Mas vocês não querem isso. Dá para ver. Vocês não teriam vindo até mim se achassem que eu poderia oferecer apenas as medidas tradicionais: separação, retirada das Marcas.
— Não podemos arriscar violar a Lei, bem como sofrer as punições que isso implica. — A voz de Julian ainda estava tranquila, mas Emma notava os nós dos dedos dele muito brancos de tanto apertar os braços da cadeira. — Minha família precisa de mim. Meus irmãos e irmãs ainda são pequenos e não têm os pais. Eu os criei e não posso abandoná-los. Isso está fora de cogitação. Mas Emma e eu não podemos confiar em nós mesmos para mantermos distância um do outro.
— Então vocês querem ser separados pela Clave — falou Robert. — Vocês querem exílio, mas não querem esperar para serem descobertos. Vocês vieram a mim para escolher qual de vocês vai embora e por quanto tempo, e qual a punição da Clave, dirigida por mim, será decidida.
— Sim — retrucou Julian.
— E embora não esteja dizendo isso, acho que vocês desejam o que o exílio fará por vocês — disse Robert. — Ele vai enfraquecer o vínculo. Talvez vocês achem que assim será mais fácil deixar de amar um ao outro.
Nem Emma nem Julian falaram. Ele estava incomodamente perto da verdade. Julian não tinha expressão; Emma tentava domar a sua para combinar com a dele. Robert tamborilava as pontas dos dedos.
— Nós só queremos poder ser parabatai normais — falou Julian, finalmente, mas Emma podia captar as palavras implícitas sob as audíveis: Nós nunca vamos desistir um do outro, nunca.
— É um pedido e tanto. — Emma fez um esforço para ouvir raiva, reprovação ou desconfiança na voz do Inquisidor, mas o tom dele era neutro. Isso a assustou.
— Você teve um parabatai — falou ela, em desespero. — Não teve?
— Michael Wayland. — O tom de Robert era glacial. — Ele faleceu.
— Eu sinto muito. — Emma tinha conhecimento do fato, mas sua solidariedade era sincera. Ela conseguia imaginar poucas coisas mais terríveis do que a morte de Julian.
— Aposto que ele iria gostar que você nos ajudasse — falou Julian. Emma não fazia ideia se ele falava por conhecer Michael Wayland ou apenas por intuição, aquela capacidade muito peculiar de interpretar a expressão dos olhos alheios, de captar a verdade no modo como franziam a testa ou sorriam.
— Michael teria... sim — murmurou Robert. — Ele teria. Pelo Anjo. O exílio será um fardo pesado para Emma. Posso tentar limitar as condições da punição, mas você ainda perderá um pouco de seus poderes Nephilim. Você precisará de permissão para entrar em Alicante. Não poderá usar algumas Marcas. Lâminas serafim não acenderão para você.
— Eu tenho Cortana — falou Emma. — É tudo de que preciso.
Havia tristeza no sorriso de Robert.
— Se houver uma guerra, você não poderá lutar. Foi por isso que meu exílio foi suspenso. Porque Valentim retornou e a Guerra Mortal começou.
A expressão de Julian era tão rígida que suas bochechas pareciam se erguer como lâminas de faca.
— Não aceitaremos o exílio a menos que Emma possa manter alguns dos poderes Nephilim para ficar em segurança — falou. — Se ela se machucar por causa desse exílio...
— O exílio é ideia sua — falou Robert. — Vocês têm certeza de que serão capazes de se desapaixonar?
— Sim. — mentiu Julian. — A separação seria o primeiro passo, de qualquer forma, não seria? Nós só estamos pedindo uma pequena segurança extra.
— Eu já ouvi coisas... — falou Robert. — A Lei contra a paixão entre parabatai existe por uma razão. Não sei qual, mas creio que é importante. Seu eu achasse que vocês sabiam do que se trata... — Ele balançou a cabeça. — Mas vocês devem saber. Eu poderia falar com os Irmãos do Silencio...
Não, pensou Emma. Eles já tinham se arriscado muito, mas se Robert soubesse da maldição, estariam em maus lençóis.
— Magnus disse que você nos ajudaria — falou ela, baixinho. — Disse que nós poderíamos confiar em você e que você compreenderia e manteria segredo.
Robert ergueu o olhar para a tapeçaria que pendia sobre a cornija. Para Alec. Ele tocou o anel Lightwood em seu dedo; um gesto provavelmente inconsciente.
— Eu confio em Magnus. E devo muita coisa a ele — falou.
Seu olhar estava distante. Emma não sabia ao certo se ele estava pensando no passado ou refletindo sobre o futuro; ela e Julian ficaram sentados rigidamente enquanto ele pensava. Finalmente, falou:
— Muito bem. Deem-me uns dias... Vocês dois permanecerão em Alicante enquanto resolvo a questão da cerimônia de exílio, e devem ficar em casas separadas. Preciso ver a boa-fé de evitar um a outro. Ficou claro?
Emma engoliu em seco. A cerimônia de exílio. Ela torcia para que Jem pudesse estar lá: eram os Irmãos do Silêncio que presidiam as cerimônias, e muito embora Jem não fosse mais um deles, ele estivera em sua cerimônia de ­parabatai com Julian. Se ele pudesse estar presente, ela se sentiria um pouco menos solitária.
Emma podia ver na expressão de Julian: ele parecia sentir o mesmo que ela, como se alívio e medo estivessem em guerra dentro dele.
— Obrigado — falou ele.
— Obrigada, Inquisidor — ecoou ela, e Robert pareceu surpreso. Ela desconfiava que ninguém jamais lhe agradecera uma sentença de exílio.

* * *

Cristina nunca tinha estado no Salão do Conselho do Gard antes. Era um cômodo em formado de ferradura, com fileiras de bancos indo até um estrado levemente elevado; um segundo andar no balcão incluía mais bancos e assentos, erguidos bem acima dos outros. Acima do estrado, pendia um imenso relógio dourado, lindo, com delicados arabescos e uma frase em latim repetida ao longo da beirada, ULTIMA THULE. Atrás do estrado havia uma incrível parede de janelas, exibindo uma vista de Alicante abaixo. Ela se ergueu um pouquinho, na ponta dos pés, para ver as ruas sinuosas, os talhos azuis dos canais, as torres demoníacas erguendo-se como agulhas transparentes contra o céu.
O Salão estava começando a encher. Annabel e Kieran tinham sido levados para uma sala de espera, junto com Magnus. Os outros puderam entrar mais cedo e ocuparam duas fileiras de bancos na frente. Ty, Kit e Livvy estavam sentados, conversando. Dru sentou-se quieta e sozinha, parecendo perdida nos pensamentos. Cristina estava indo na direção dela quando sentiu um tapinha leve no ombro.
Era Mark. Ele se vestira cuidadosamente para a visita ao Conselho, e ela sentiu uma pontada ao olhar para ele — ele estava tão belo nas roupas antiquadas e engomadas, como uma fotografia antiga maravilhosamente colorida. O colete e o casaco escuro lhe caíam bem, e ele tinha penteado os cabelos louros para que cobrissem as pontas das orelhas.
Ele até se barbeara e ganhara com isso um pequeno corte no queixo, o que era ridículo porque Mark não tinha pelos faciais, por assim dizer. Ele olhava para Cristina como um garotinho querendo causar uma boa impressão no primeiro dia de aula. O coração dela se solidarizou com ele — Mark se importava demais com a boa opinião de um grupo de pessoas que tinha concordado em abandoná-lo à Caçada Selvagem, apesar dos apelos de sua família, simplesmente por sem quem era.
— Você acha que Kieran vai ficar bem? — perguntou Mark. — Um enviado da Corte deveria ser tratado com mais honra. Em vez disso, praticamente correram para erguer outra vez as barreiras depois que chegamos.
— Ele vai ficar bem — tranquilizou Cristina. Kieran e Mark, pensou ela, eram mais fortes do que os outros poderiam acreditar, talvez porque eles tivessem ficado tão vulneráveis na Caçada. — Embora eu não consiga imaginar que Annabel seja de muita conversa. Pelo menos, Magnus está com eles.
Mark deu um sorriso tenso quando um murmúrio baixinho percorreu o cômodo. Os Centuriões tinham chegado, paramentados. Usavam os uniformes em vermelho, cinza e prata, com os broches prateados à vista. Cada um trazia um bastão de adamas sólido. Cristina reconheceu alguns de Los Angeles, como Samantha, amiga de Zara, com o rosto fino e irritante, e Rayan, olhando ao redor com expressão preocupada.
Zara liderava a procissão, com a cabeça erguida; a boca era um talho de vermelho intenso. Os lábios se curvaram, com nojo, ao passar por Mark e Cristina. Mas por que Diego não estava ao lado dela? Será que não tinha vindo com eles? Mas não, ele estava lá, quase no fim da fila, pálido e cansado, mas definitivamente presente.
Ele parou na frente de Mark e Cristina enquanto os outros Centuriões passavam.
— Recebi seu recado — falou para Cristina, em voz baixa. — Se é o que você quer...
— Que recado? — perguntou Mark. — O que está acontecendo?
Zara apareceu ao lado de Diego.
— Uma reunião — falou. — Que bonitinho. — Ela sorriu para Cristina. — Tenho certeza de que todos ficarão satisfeitos em saber que tudo está indo muito bem em Los Angeles depois que vocês foram embora.
— Muito impressionante da sua parte ter matado Malcolm — falou Mark. Seus olhos reluziam, fixos. — Parece que resultou num grande progresso. Merecido, tenho certeza.
— Obrigada. — Zara deu uma risadinha baixa e pôs a mão no braço de Diego. — Oh — falou, com um entusiasmo marcadamente artificial. — Veja!
Outros Caçadores de Sombras entraram no recinto. Uma mistura de idades, jovens e velhos. Alguns vestiam uniformes de Centuriões. A maioria usava uniforme ou roupas comuns. O que era incomum era o fato de que traziam placas e cartazes. REGISTREM TODOS OS FEITICEIROS. O SUBMUNDO DEVE SER CONTROLADO. VIVA A PAZ FRIA. APROVEM O REGISTRO. Entre eles, via-se um homem de cabelos castanhos, impassível, com um tipo de rosto insípido, o tipo de rosto do qual você jamais conseguiria se lembrar de fato. Ele piscou para Zara.
— Meu pai — falou ela orgulhosamente. — O Registro foi ideia dele.
— Que cartazes interessantes — falou Mark.
— É maravilhoso ver as pessoas expressando sua visão política — falou Zara. — Claro que a Paz Fria realmente criou uma geração de revolucionários.
— É raro uma revolução pedir menos e não mais direitos para as pessoas — retrucou Cristina.
Por um momento, a máscara de Zara caiu e Cristina enxergou através da educação fingida, a voz e a postura de garotinha ofegante. Havia algo frio por trás daquilo tudo, algo desprovido de calor, empatia ou afeição.
— Pessoas. Quais pessoas? — perguntou ela.
Diego segurou o braço da menina.
— Zara. Vamos no sentar.
Mark e Cristina observaram em silêncio.


— Espero que Julian esteja certo — falou Livvy, fitando o estrado vazio.
— Normalmente ele está — retrucou Ty. — Não sobre tudo, mas sobre esse tipo de coisa.
Kit se acomodou entre os gêmeos, o que significava que os dois conversavam por cima dele. Ele não sabia ao certo como terminara naquela posição. Não que ele se importasse ou mesmo notasse no momento. Estava chocado e praticamente calado — uma coisa que nunca tinha acontecido — diante de onde se encontrava: Alicante, o coração da terra natal dos Caçadores de Sombras, fitando as lendárias torres demoníacas.
Ele se apaixonara por Idris à primeira vista. Não esperava isso de modo algum.
Era como entrar num conto de fadas. E não do tipo ao qual ele se acostumara no Mercado das Sombras, onde as fadas eram outro tipo de monstro. E sim do tipo que ele vira na TV e nos livros quando era pequeno, um mundo de castelos magníficos e florestas luxuriantes.
Livvy piscou para Kit.
— Você está com aquela expressão.
— Que expressão?
— Você ficou impressionado com Idris, Sr. Nada Me Impressiona.
Kit não ia fazer uma coisa dessas.
— Eu gosto do relógio — falou ele, apontando.
— Tem uma lenda sobre o relógio. — Ela meneou as sobrancelhas para ele. — Por um segundo, quando ele bate as horas, os portões do Paraíso se abrem. — Livvy suspirou, uma rara melancolia cruzando seu rosto.  — Até onde sei, o Paraíso é apenas o Instituto sendo nosso outra vez. E todos indo para casa.
Isso surpreendeu Kit; ele andara pensando sobre a viagem a Idris como o fim da aventura caótica deles. Eles voltariam a Los Angeles e ele começaria a treinar. Mas Livvy tinha razão: as coisas não estavam garantidas. Ele olhou para Zara e seu círculo imediato, erguendo seus cartazes feios.
— Ainda tem o Volume Negro também — falou Ty. Ele estava todo formal, com o cabelo arrumado de um jeito que não costumava usar; Kit estava acostumado a vê-lo com roupas casuais, casaco de capuz e jeans, e belo; o Ty que parecia mais velho o deixava meio constrangido. — A Rainha ainda o quer.
— Annabel vai dá-lo a Jules. Acredito na capacidade dele de encantar qualquer um para conseguir qualquer coisa — falou Livvy. — Ou enganar qualquer um. Mas sim, eu queria que eles não tivessem realmente que se encontrar com a Rainha depois disso. Não gosto dela.
— Acho que tem um ditado sobre isso — falou Kit. — Alguma coisa sobre pontes e atravessá-las quando você chegar lá.
Ty ficara rígido, como um cão de caça que avistou uma raposa.
Livvy.
Ela acompanhou o olhar dele, e Kit fez a mesma coisa. Aproximando-se deles em meio à multidão, vinha Diana, com um sorriso aberto e a tatuagem de carpa brilhando em uma das bochechas escuras.
Com ela, viam-se duas jovens de vinte e poucos anos. Uma se parecia muito com Jia Penhallow; ela também tinha cabelos escuros e um queixo decidido. A outra se parecia incrivelmente com Mark Blackthorn, até os cabelos louros e cacheados e as orelhas pontudas. As duas estavam embrulhadas em roupas quentes, que não condiziam com a época, como se tivessem vindo de um clima frio.
Kit se deu conta de quem eram um momento antes de o rosto de Livvy se iluminar como o sol.
— Helen! — gritou ela, e correu para os braços da irmã.


O relógio no Salão do Conselho bateu através do Gard, indicando que todos os Nephilim deveriam comparecer à reunião.
Robert Lightwood insistira em conduzir Julian de seu escritório até o cômodo onde Magnus, Kieran e Annabel estavam à espera. Infelizmente para Emma, isso significava que ela deveria ter Manuel como seu acompanhante até o Salão do Conselho.
Emma desejara poder ter um momentinho a sós com Julian, mas isso não ia acontecer. Eles trocaram um olhar decepcionado antes de se separarem.
— Ansiosa para a reunião? — perguntou Manuel. Suas mãos estavam nos bolsos. O cabelo louro escuro engenhosamente bagunçado. Emma ficou surpresa por ele não estar assobiando.
— Ninguém fica ansioso para reuniões — falou Emma. — Elas são um mal necessário.
— Oh, eu não diria ninguém — falou Manuel. — Zara adora reuniões.
— Ela parece ser a favor de todas as formas de tortura — murmurou Emma.
Manuel deu meia-volta, caminhando de costas pelo corredor. Eles estavam em uma das maiores passagens construídas após o incêndio do Gard na Guerra Maligna.
— Você já pensou em fazer parte dos Centuriões?
Emma balançou a cabeça.
— Eles não deixam você ter um parabatai.
— Eu sempre imaginei que era meio que uma questão de compaixão, você e Julian Blackthorn — falou Manuel. — Quero dizer, olhe só para você. Você é gata, habilidosa, é uma Carstairs. Já Julian... ele passa o tempo todo com crianças pequenas. É um velho de 17 anos.
Emma se perguntou o que aconteceria se ela atirasse Manuel pela janela. Provavelmente atrasaria a reunião.
— Só estou dizendo. Mesmo que você não queira ir para Scholomance, a Tropa poderia ter utilidade para alguém como você. Nós somos o futuro. Você verá. — Os olhos dele brilharam. Por um momento, não estavam se divertindo nem brincando. Era o brilho do fanatismo real e fez Emma se sentir vazia por dentro.
Eles tinham alcançado as portas do Salão do Conselho. Ninguém estava à vista; Emma esticou a perna e puxou os pés de Manuel. Ele caiu num borrão e bateu no chão; no mesmo instante, se ergueu nos cotovelos, furioso. Ela duvidou que o tivesse machucado, exceto talvez no que dizia respeito à dignidade dele — e essa fora mesmo a intenção.
— Obrigada pela oferta — falou ela —, mas se me juntar à Tropa significa ter que passar minha vida presa numa montanha com um bando de fascistas, vou preferir viver no passado.
Emma o ouviu sibilar alguma coisa não muito bonita em espanhol enquanto passava por cima dele e entrava no Salão. Aí fez uma nota mental de perguntar a tradução à Cristina quando tivesse a oportunidade.


— Você não precisa ficar aqui, Julian — falou Jia com firmeza.
Eles estavam num cômodo imenso com uma janela que dava para a Floresta Brocelind. Era um salão surpreendentemente enfeitado; Julian sempre pensara no Gard como um lugar com pedras escuras e madeira pesada. Este cômodo tinha papel de parede de brocado e mobília dourada estofada com veludo. Annabel sentou-se numa cadeira antiquada, parecendo pouco à vontade. Magnus estava recostado na parede e parecia entediado. Parecia exausto também — suas olheiras estavam quase negras. E Kieran estava de pé, junto à janela, com a atenção fixa no céu e nas árvores.
— Eu gostaria que ele ficasse comigo — falou Annabel. — Ele é a razão de eu ter vindo.
— Todos nós agradecemos o fato de você estar aqui, Annabel — falou Jia. — E levamos em conta suas experiências ruins com a Clave. — Ela falava com voz calma. Julian se perguntou se Jia manteria a voz tão calma se tivesse visto Annabel ressuscitar dos mortos, coberta de sangue, e apunhalar Malcolm no coração.
Kierans e desviou da janela.
— Nós conhecemos Julian Blackthorn — falou ele para Jia, e soava muito mais humano a Julian do que quando se encontraram pela primeira vez, como se o sotaque do Reino das Fadas estivesse desaparecendo. — Nós não conhecemos você.
— Você se refere a você e Annabel? — perguntou Jia.
Kieran fez um gesto expressivo de fada, que pareceu incluir todo o cômodo.
— Estou aqui como mensageiro da Rainha — continuou ele. — Annabel Blackthorn está aqui por suas próprias razões. E Magnus está aqui porque lida com todos vocês por causa de Alec. Mas não pense que isso torna uma boa ideia você sair dando ordens por aí.
— Annabel é uma Caçadora de Sombras — começou Robert.
— E eu sou um príncipe do Reino das Fadas — falou Kieran. — Filho do Rei, príncipe da Corte Gelada, guardião do Frio Caminho, Caçador Selvagem e Espada da Hoste. Não me aborreçam.
Magnus pigarreou.
— Ele tem razão.
— Quanto a Alec? — falou Robert, erguendo uma sobrancelha.
— Falando de maneira mais generalizada — falo Magnus. — Kieran é um integrante do Submundo. Annabel teve um destino pior do que a morte nas mãos da Clave porque se importava com o Submundo. Lá fora, no Salão do Conselho, está a Tropa. Hoje é dia de eles tomarem poder. Evitar que eles façam isso é mais importante do que estipular regras onde Julian deveria ou não ficar.
Jia olhou para Magnus por um instante.
— E você? — perguntou ela, surpreendentemente gentil. — Você é um integrante do Submundo, Bane.
Magnus deu de ombros lentamente, cansado.
— Ah. Eu, eu sou... — falou ele.
O copo que segurava caiu de sua mão, bateu no chão e quebrou, e um instante depois Magnus desabou junto. Ele pareceu se dobrar como papel, e sua cabeça bateu na pedra com uma pancada feia.
Julian correu para ele, mas Robert já o segurava pelo braço.
— Vá até o Salão do Conselho — falou. Jia estava ajoelhada ao lado do feiticeiro, com a mão em seu ombro. — Traga Alec.
Ele soltou Julian, que saiu correndo.

* * *

Emma se esforçou para ir até o Salão do Conselho, num estado de horror entorpecido. Qualquer prazer que ela já tivera por dar um pontapé na bunda do Manuel tinha se desvanecido. O cômodo inteiro parecia um redemoinho de gritos feios e cartazes agitados: TORNEM A CLAVE PURA, CONTENÇÃO DE LICANTROPES É A RESPOSTA e CONTROLEM O SUBMUNDO.
Ela passou, empurrando uma aglomeração de pessoas, com Zara no centro, e ouviu alguém dizer: “Dá para acreditar que você teve que matar aquele monstro do Malcolm Fade sozinha, depois que a Clave falhou!?” Ouviu-se um coro de concordância. “Mostra o que acontece quando se deixa os feiticeiros fazerem o que querem”, falou outra pessoa. “Eles são muito poderosos. Não tem sentido prático.”
Emma não conhecia a maioria dos rostos no recinto. Imaginava que talvez devesse conhecer uma quantidade maior deles, mas os Blackthorn tinham uma vida isolada e raramente saíam do Instituto de Los Angeles.
Entre o grupo de rostos desconhecidos, ela avistou Diana, alta e régia como sempre, caminhando entre a multidão. Apressando-se atrás dela viam-se dois vultos familiares, Aline e Helen, ambas com bochechas rosadas, enroladas em imensos casacos e xales. Deviam ter acabado de chegar da Ilha Wrangel.
Agora Emma conseguia enxergar os outros Blackthorn: Livvy, Ty e Dru estavam se levantando e correndo para Helen, que se abaixou de braços abertos e os envolveu com força.
Helen estava ajeitando o cabelo de Dru para trás e abraçava os gêmeos, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Mark também estava lá, indo na direção da irmã, e Emma observou, com um sorriso, quando eles se jogaram num abraço. De certo modo, doía — ela nunca teria isso com seus pais, nunca os abraçaria ou apertaria as mãos deles outra vez —, mas era um tipo bom de dor. Mark ergueu a irmã do chão, e Aline observou, sorridente, os dois se abraçarem.
— Manuel Villalobos está mancando — observou Cristina. Ela havia se aproximado de Emma e passara os braços em volta dela, apoiando o queixo no ombro da amiga. — Foi você?
— Talvez — murmurou Emma. E ouviu Cristina dar uma risadinha. — Ele estava tentando me convencer a me juntar à Tropa.
Ela se virou e apertou a mão da amiga.
— Nós vamos tirá-los de lá. Eles não vão vencer, certo? — Ela olhou para o pingente de Cristina. — Diga que o Anjo está do nosso lado.
Cristina balançou a cabeça.
— Estou preocupada — falou ela. — Preocupada por Mark, por Helen... e por Kieran.
— Kieran é uma testemunha-chave para a Clave. A Tropa não pode tocar nele.
— Ele é um príncipe do Reino das Fadas. Tudo que eles odeiam. E eu acho que não tinha entendido o quanto eles o odeiam até chegarmos aqui. Não vão querer que Kieran fale e, com certeza, não vão querer que o Conselho lhe dê ouvidos.
— Por isso nós estamos aqui, para fazê-los ouvir — começou Emma, mas Cristina olhava para algo atrás dela, com uma expressão de surpresa. Emma se virou e viu Diego, milagrosamente longe de Zara, chamando Cristina até uma fileira de assentos vazios.
— Eu tenho que ir e conversar com ele — falou a menina. Aí apertou o ombro de Emma, parecendo esperançosa de repente. Emma desejou-lhe boa sorte e Cristina desapareceu na multidão, deixando a outra procurando por Julian.
Emma não viu seu parabatai em parte alguma. Mas viu um grupo tenso de Caçadores de Sombras, Mark entre eles, e o súbito lampejo prateado de armas. Samantha Larkspear tinha sacada uma lâmina de aparência terrível. Emma foi na direção das vozes elevadas, já esticando a mão para pegar o punho de Cortana.


Mark amava todos os irmãos e irmãs, nenhum mais do que outros. Ainda assim, Helen era especial. Ela era como ele — metade fada, atraída para suas tentações. Helen até dizia conseguir lembrar da mãe, Nerissa, embora Mark não lembrasse.
Ele pôs a irmã no chão, bagunçando os cabelos claros dela. O rosto dela... ela parecia diferente, mais velha... Não devido a rugas ao redor dos olhos ou à pele áspera, apenas num certo arranjo de traços. Ele se perguntou se ela teria dado nomes às estrelas como ele costumava fazer: Julian, Tiberius, Lívia, Drusilla, Octavian. E ela teria acrescentado mais uma, coisa que ele jamais fizera: Mark.
— Eu gostaria de falar com você sobre Nene, a irmã de nossa mãe — falou.
Havia um eco da formalidade das fadas na voz dela quando respondeu:
— Diana me falou que você a encontrou no Reino das Fadas. Eu sabia dela, mas não onde poderia ser encontrada. Nós deveríamos conversar a respeito dela e outras questões urgentes. — Ela ergueu o olhar e suspirou, tocando a bochecha dele. — Como, por exemplo... Quando foi que você ficou tão alto?
— Acho que aconteceu enquanto estive na Caçada. Devo me desculpar?
— Absolutamente. Eu estava preocupada... — Ela deu um passo para trás e o fitou zombeteiramente. — Acho que devo a Kieran, Filho do Rei, um agradecimento por ter cuidado de você.
— Assim como eu devo a Aline, por cuidar de você.
Ao ouvir isso, Helen sorriu.
— Ela é a luz dos meus dias. — A menina olhou para o relógio grande acima do estrado. — Temos pouco tempo agora, Mark. Se tudo sair como esperamos, teremos uma eternidade para ficarmos juntos. Mas de um jeito ou de outro, Aline e eu permaneceremos esta noite em Alicante, e, pelo que Jia falou, você também. Isso nos dará uma oportunidade de conversar.
— Isso depende de como for hoje à noite, não é? — Uma voz aguda os interrompeu. Era Samantha Larkspear. Mark lembrou vagamente que Samantha tinha um irmão muito parecido com ela.
A menina usava uniforme de Centurião e trazia um cartaz que dizia: FADA BOA É FADA MORTA. Havia uma mancha do que parecia tinta preta na parte de baixo do cartaz.
— Incisivo — falou Mark. Mas Helen empalidecera de choque ao ler tais palavras.
— Depois da votação desta tarde, se for permitido à escória como vocês permanecer em Alicante, eu ficaria muito surpresa — falou Samantha. — Aproveitem enquanto podem.
— Você está falando com a mulher da filha da Consulesa — disse Aline, as narinas inflando. — Preste atenção ao que fala, Samantha Larkspear.
Samantha fez um barulho estranho, sibilando e engolindo, e esticou a mão para o cinto de armas, fazendo brilhar uma adaga com um punho largo de soco inglês. Mark pôde ver o irmão dela, igualmente pálido e com cabelos escuros, avançando até eles através da multidão. Helen pôs a mão na lâmina serafim do cinto. Agindo instintivamente, Mark esticou a mão para o próprio quadril, tenso diante da violência.


Kit ergueu o olhar quando sentiu a mão de Julian em seu ombro.
Ele tinha afundado na cadeira, passando a maior parte do tempo admirando Alicante pela grande janela de vidro atrás da coisa de madeira que parecia um palco, na frente do cômodo. Ele deliberadamente evitara olhar para Livvy e Ty quando cumprimentaram a irmã. Algo naquele grupo sólido dos Blackthorn se abraçando e exclamando um para o outro o lembrava exatamente do quanto ele não era um deles, de um modo que ele não tinha sido lembrando desde Los Angeles.
— Sua irmã está aqui — falou para Julian. E apontou. — Helen.
Julian olhou para os irmãos rapidamente, Kit tinha a sensação de que ele já sabia. Ele parecia tenso e faiscando pelas extremidades, como fio desencapado.
— Eu preciso que você faça uma coisa — falou. — Alec está guardando as portas do lado direito do Salão. Vá atrás dele o leve até Magnus. Diga-lhe que Magnus está nos aposentos de hóspede da Consulesa; ele vai saber onde ficam.
Kit impulsionou as pernas para fora da cadeira diante de Julian.
— Por quê?
— Apenas confie em mim. — Julian se aprumou. — Finja que foi ideia sua, como se você precisasse que Alec mostrasse alguma coisa ou ajudasse a encontrar alguém. Não quero despertar a curiosidade de ninguém.


— Você não está mesmo pensado em brigar no meio do Salão do Conselho, está? — perguntou Emma. — Quero dizer, considerando que isso seria ilegal e tudo o mais. — Ela estalou a língua nos dentes. — Não é uma boa ideia, Samantha. Guarde esta adaga.
O pequeno grupo — Helen, Aline, Mark e Samantha — se virou para olhar para Emma como se ela tivesse aparecido num passe de mágica. Todos estiveram irritados demais para notar sua aproximação.
O relógio dourado acima deles começou a badalar imperativamente. A multidão começou a se afastar; os Caçadores de Sombras buscavam lugares vazios nas fileiras de frente para o estrado. Dane Larkspear, que se aproximava da irmã, tinha parado no meio de uma passagem; Emma ficou surpresa ao ver que Manuel estava bloqueando o caminho dele.
Talvez Manuel também não achasse que um Centurião brigando no chão do Salão do Conselho seria uma grande ideia. Zara estava olhando na direção deles também, a boca vermelha era uma linha irritada.
— Não imponha sua autoridade para cima de mim, Aline Penhallow — falou Samantha, mas guardou a adaga outra vez na bainha. — Não quando você está casada com esta... esta coisa.
— Você desenhou isso? — interrompeu Emma, apontando para o borrão no cartaz de Samantha. — Era para ser uma fada morta?
Com certeza era. O desenho tinha braços, pernas e asas de libélula ou coisa assim.
— Impressionante — falou Emma. — Você tem talento, Samantha. Talento de verdade.
Samantha parecia surpresa.
— Você acha?
— Meu Deus, não — falou Emma. — Agora vá se sentar. Zara está acenando para você.
Samantha hesitou e então se virou, afastando-se. Emma segurou a mão de Helen e começou a caminhar para o longo banco onde os Blackthorn estavam. O coração dela estava martelando. Não que Samantha fosse perigosa, mas se eles tivessem começado alguma coisa e os outros amigos de Zara se juntassem, poderia ter rendido uma briga de verdade.
Aline e Mark estavam um em cada lado dos bancos. Helen segurava o braço de Emma.
— Eu me lembro disso — falou ela em voz baixa. As pontas dos dedos roçaram a cicatriz que Cortana tinha feito uns anos atrás, quando Emma apertara a lâmina junto ao corpo depois da morte dos pais.
Fora Helen quem estivera ali quando Emma acordara em um mundo onde seus pais não mais existiriam, embora tivesse sido Julian quem colocara a espada nos braços dela.
Mas agora Cortana estava em suas costas. Agora era a chance de eles consertarem os erros do passado — os erros cometidos pela Clave contra Helen, Mark e aqueles como eles, os erros que a Clave cometera contra os Carstairs a ignorar suas mortes. Isso fazia com que saber do exílio próximo doesse ainda mais, a ideia de que ela não estaria com os Blackthorn quando eles estivessem finalmente reunidos.
Elas aceleraram o passo ao se aproximar dos outros Blackthorn, e lá estava Julian, de pé, entre os irmãos. Seus olhos encontraram os de Emma. Ela podia ver, mesmo com a distância entre eles, que os olhos dele tinham ficado quase negros.
Ela sabia, sem nem precisar perguntar: tinha algo muito errado.


Era difícil acompanhar Alec Lightwood. Ele era mais velho do que Kit, tinha pernas mais compridas e começara a correr no momento que Kit lhe dissera que Magnus precisava dele.
Kit não tinha certeza se a mentira de que ele queria que Alec lhe mostrasse o Gard iria resistir caso alguém os parasse. Mas ninguém fez isso; as badaladas altas ainda soavam, e todos se apressavam em direção ao Salão do Conselho.
Quando eles irromperam nos aposentos de pé-direito alto da Consulesa, encontraram Magnus deitado em um longo sofá. Kieran e Annabel estavam na extremidade oposta do cômodo, observando como gatos que tinham acabado de conhecer um novo ambiente.
Jia e Robert estavam de pé junto ao sofá; Alec correu até ele e seu pai se afastou e pôs uma mão em seu ombro.
Alec parou, o corpo inteiro tenso.
— Solte-me — falou.
— Ele está bem — retrucou Robert. — Irmão Enoch esteve aqui. Sua magia está esgotada, e ele, enfraquecido, mas...
— Eu sei o que há de errado com ele — falou Alec, passando pelo Inquisidor. Robert observou o filho se ajoelhar ao lado do longo sofá. Ele tirou o cabelo de Magnus da testa e o feiticeiro se mexeu e murmurou. — Há algum tempo ele não está bem — falou Alec, meio que para si apenas. — Sua magia tem se esgotado muito rápido. Eu falei para ele ir até o Labirinto Espiral, mas não houve tempo.
Kit ficou observando. Já tinha ouvido falar de Magnus mesmo antes de conhecê-lo, claro; Magnus era famoso no Submundo. E quando ele finalmente conheceu Magnus, o feiticeiro era tão cheio de energia cinética, um redemoinho de sagacidade sarcástica e fogo azul. Não lhe ocorrera que Magnus poderia estar doente ou cansado.
— Não tem jeito de fazer com que ele melhore? — perguntou Annabel. Ela vibrava com a tensão, as mãos agitadas junto às laterais do corpo. Ele notou, pela primeira vez, que ela não tinha um dos dedos da mão direita. Ele não tinha olhado para ela com atenção antes. Ela lhe dava calafrios. — Eu... eu preciso dele.
De maneira admirável, Alec não perdeu a paciência.
— Ele tem que descansar — falou ele. — Nós podemos adiar a reunião...
— Alec, não podemos — falou Jia delicadamente. — É óbvio que Magnus deveria descansar. Annabel, vamos cuidar de você. Eu juro.
— Não. — Annabel se encolheu contra a parede. — Eu quero Magnus comigo. Ou Julian. Chamem Julian.
— O que está acontecendo? — Kit reconheceu a voz antes mesmo de ver Zara à entrada. Seu batom parecia um talho rijo de sangue contra a pele clara. Ela olhava para Magnus, o canto da boca curvado num sorriso afetado. — Consulesa — falou, e fez uma mesura para Jia. — Todos estão reunidos. Será que eu deveria dizer que a reunião vai atrasar?
— Não, Srta. Dearborn — falou Jia, alisando as vestes bordadas. — Obrigada, mas não precisamos que você lide com isso por nós. A reunião vai acontecer conforme planejado.
— Dearborn — repetiu Annabel. O olhar dela estava fixo em Zara. Seus olhos não demonstravam emoção, e brilhavam como os de uma serpente. — Você é uma Dearborn.
Zara olhou meramente confusa, como se estivesse se perguntando quem Annabel poderia ser.
— Zara é uma defensora importante da restrição dos direitos dos integrantes do Submundo — falou Jia em tom neutro.
— Nós estamos interessados na segurança — retrucou Zara, evidentemente irritada. — É isso.
— É melhor nós irmos — falou Robert Lightwood. Ele ainda olhava para Alec, mas Alec não estava olhando para ele, estava sentado ao lado de Magnus, a mão na bochecha do feiticeiro. — Alec, se precisar de mim, mande alguém me chamar.
— Mandarei Kit — falou Alec, sem olhar.
— Voltarei para buscá-lo — disse Robert para Kieran, que permanecera em silêncio perto da janela, quase uma sombra entre as sombras do cômodo.
Kieran assentiu.
Robert apertou o ombro de Alec brevemente. Jia esticou a mão para Annabel que, após encarar Zara por um momento, acompanhou a Consulesa e o Inquisidor para fora do cômodo.
— Ele está doente? — perguntou Zara, olhando para Magnus com um interesse distante. — Não achei que feiticeiros adoecessem. Não seria engraçado se ele morresse antes de você? Quero dizer, considerando-se que ele é imortal, você deve ter achado que seria o contrário.
Alec ergueu a cabeça lentamente.
O quê?
— Bom, quer dizer, Magnus é imortal e você, sabe, não é — explicou ela.
— Ele é imortal? — A voz de Alec soou mais fria do que Kit jamais ouvira. — Eu queria que você tivesse me dito isso antes. Eu deveria ter voltado no tempo e encontrado um belo marido mortal para envelhecer comigo.
— Bem, isso seria melhor, não é? — falou Zara. — Então vocês poderiam envelhecer e morrer na mesma época.
— Na mesma época? — repetiu Alec. Ele mal se mexeu ou levantou a voz, mas sua raiva parecia encher o cômodo. A própria Zara começou a ficar desconfortável. — Como você sugeriria que a gente organizasse isso? Pulando de um penhasco juntos quando um de nós começasse a se sentir doente?
— Talvez. — Zara parecia amuada. — Você há de convir que sua situação é uma tragédia.
Alec ficou de pé e nesse momento era o famoso Alec Lightwood do qual Kit tanto ouvira falar, o herói das batalhas passadas, o arqueiro com mira mortal.
— É isso que eu quero e foi o que escolhi — falou. — Como você ousa me dizer que é uma tragédia? Magnus nunca fingiu, nunca tentou me enganar para que eu achasse que seria fácil, mas escolher Magnus foi uma das coisas mais fáceis que já fiz na vida. Todos temos um tempo de vida, Zara, e nenhum de nós sabe se será longo ou breve. Com certeza, até você sabe disso. Acredito que tenha sido sua intenção ser rude e cruel, mas duvido muito que você também quisesse parecer idiota.
Ela corou.
— Mas se você morrer de velhice e ele viver para sempre...
— Então ele estará junto com Max, e nós dois ficaremos felizes por isso — falou Alec. — E eu serei uma pessoa com uma sorte imensa porque haverá alguém que sempre se lembrará de mim. Que sempre vai me amar. Magnus não vai ficar de luto para sempre, mas até o fim dos tempos, ele vai se lembrar de mim e me amar.
— O que te dá tanta certeza disso? — perguntou Zara, com uma ponta de incerteza na voz.
— Porque ele é três mil vezes o ser humano que você nunca vai ser — respondeu Alec. — Agora saia daqui antes que eu ponha a vida dele em risco ao acordá-lo para que ele transforme você em lixo. Uma coisa que combinaria com a sua personalidade.
— Oh! — falou Zara. — Que grosseria!
Kit pensou que era mais do que grosseria. Pensou que Alec realmente achava aquilo. E meio que torcia para Zara testá-lo. Em vez disso, ela foi até a porta e parou ali, olhado para trás com desprezo.
— Ora, Alec — continuou ela. — A verdade é que Caçadores de Sombras e integrantes do Submundo não devem ficar juntos. Você e Bane são uma desgraça. Mas você não consegue ficar satisfeito com o fato da Clave ter permitido a você perverter sua linhagem angelical. Não. Você tem que forçar isso para cima da gente.
— Sério? — falou Kieran, que Kit quase esquecera que estava lá — Vocês todos têm que dormir com Magnus Bane? Que excitante para vocês.
— Cale a boca, bosta de fada — falou Zara. — Você vai ver. Escolheu o lado errado, você, esses Blackthorn, Jace Herondale e aquela vaca ruiva, Clary. — Ela ofegava, o rosto corado. — Vou me divertir vendo todos vocês afundarem — falou e saiu, rebolando.
— Ela falou mesmo “perverter sua linhagem angelical”? — perguntou Alec, parecendo estupefato.
— Bosta de fada — ponderou Kieran. — Como diria Mark, isso é novidade.
— Inacreditável. — Alec se sentou outra vez ao lado do sofá, puxando os joelhos para perto do corpo.
— Nada do que ela disse me surpreendeu — falou Kieran. — É assim que eles são. Foi assim que a Paz Fria os fez. Temendo o novo e o diferente, e cheios de ódio glacial. Zara Dearborn pode parecer ridícula, mas não cometa o erro de subestimá-la e de subestimar a Tropa. — Ele voltou a olhar para a janela. — Ódio como esse pode destruir o mundo.


— Esse é um pedido muito estranho — falou Diego.
— É você quem está num relacionamento de mentira — falou Cristina. — Tenho certeza de que já te pediram coisas mais estranhas.
Diego riu, mas não com muito humor. Eles estavam sentados a uma fileira dos Blackthorn no Salão do Conselho. O relógio tinha parado de bater anunciando o começo da reunião e o recinto estava cheio, embora o estrado ainda estivesse vazio.
— Fico feliz que Jaime tenha lhe contado — falou ele. — Por puro egoísmo. Eu poderia jurar que você me odiava, mas não que me desprezasse.
Cristina suspirou.
— Não sei se alguma vez eu realmente te desprezei — falou.
— Eu devia ter contado mais coisas — disse ele. — Queria manter você a salvo, e neguei a mim mesmo que a Tropa e seus planos eram problema seu. Só tarde demais eu soube que tinham projetos para o Instituto de Los Angeles. E errei em relação a Manuel, como qualquer um. Confiei nele.
— Eu sei — falou Cristina. — Não culpo você de nada. Eu... Durante muito tempo, fomos Cristina-e-Diego. Um casal, juntos. E quando acabou, me senti pela metade. Quando você voltou, pensei que poderíamos ser como antes, e eu tentei, mas...
— Você não me ama mais daquele jeito — completou ele.
Ela parou por um instante.
— Não. Não amo. Não daquele jeito. Era como tentar voltar a um lugar na sua infância do qual você lembrava como perfeito. Sempre vai ter mudado porque você mudou.
O pomo-de-adão de Diego se movimentou quando ele engoliu.
— Não posso te culpar. Agora também não gosto muito de mim.
— Talvez isso pudesse te ajudar a gostar um pouco mais de você mesmo. Seria uma grande gentileza, Diego.
Ele balançou a cabeça
— Confio em você. Imagino que tenha pena de uma fada perdida.
— Não é pena — falou Cristina. Ela olhou para trás; Zara tinha deixado o cômodo alguns instantes antes e não tinha voltado ainda. Mas Samantha olhava para ela com cara feia, aparentemente acreditando que Cristina estava tentando roubar o noivo de Zara. — Eles me assustam. E o matarão depois que ele testemunhar.
— A Tropa é assustadora — falou Diego. — Mas a Tropa não são os Centuriões nem todo Centurião é como Zara. Rayan, Divya, Gen são boas pessoas. Como a Clave, é uma organização que tem um câncer em seu coração. Uma parte do corpo está doente e a outra, sadia. Nossa missão é descobrir um meio de matar a doença sem destruir o corpo.
As portas do Salão do Conselho se abriram. A Consulesa, Jia Penhallow, entrou, com as vestes escuras salpicadas de prateado de agitando ao redor.
O cômodo, que antes estivera cheio de conversa animada, afundou em murmúrios. Cristina se recostou quando a Consulesa começou a subir os degraus até o estrado.


— Obrigada a todos por virem em tão pouco tempo, Nephilim. — A Consulesa estava diante de um pequeno púlpito de madeira, com a base decorada com a insígnia do símbolo com as 4 letras. Agora em seus cabelos havia um cinza do qual Emma não se recordava, e rugas nos cantinhos dos olhos. Não devia  ser fácil ser a Consulesa numa época de guerra silenciosa. — A maioria de vocês sabe sobre Malcolm Fade. Ele foi um de nossos aliados mais próximos, ou foi o que pensamos. Ele nos traiu há algumas semanas, e mesmo agora ainda estamos descobrindo os terríveis e sangrentos crimes que ele cometeu.
Para Emma, o burburinho que se seguiu se assemelhou à precipitação da maré. Ela queria que Julian estivesse ao seu lado para que ela pudesse esbarrar no ombro dele ou apertar sua mão, mas — conscientes da instrução do Inquisidor —, eles tinham se sentado em extremidades opostas do longo banco depois que ele lhe contara que Magnus tinha sofrido um colapso.
— Eu prometi a Annabel que Magnus ficaria com ela — dissera ele baixinho, sem querer que os Blackthorn mais jovens ouvissem e entrassem em pânico. — Eu lhe dei a minha palavra.
— Você não poderia ter imaginado. Pobre Magnus. Não havia meio de saber que ele estava doente.
Mas ela se lembrou de si mesma, dizendo: Não prometa nada que não possamos cumprir. E sentiu um calafrio percorrer seu corpo.
— Talvez vocês não saibam que há uma história maior para a traição de Fade — prosseguiu Jia. — Em 1812, ele se apaixonou por uma Caçadora de Sombras, Annabel Blackthorn. A família dela reprovou a ideia de casamento com um feiticeiro. No fim, ela foi assassinada... por outro Nephilim. Malcolm ouvira dizer que ela se tornara Irmã de Ferro.
— Por que eles não o mataram também? — gritou alguém da multidão.
— Ele era um feiticeiro poderoso, um bem valioso — retrucou Jia. — No fim, ficou decidido que eles o deixariam em paz. Mas quando ele descobriu o que realmente aconteceu a Annabel, perdeu a cabeça. E então ele passou o último século buscando vingar-se dos Caçadores de Sombras.
— Milady. — Era Zara, empertigada e muito cerimoniosa; tinha acabado de passar pelas portas do Salão e estava parada na passagem. — A senhora nos conta essa história como se quisesse que sentíssemos compaixão pela caçadora e pelo feiticeiro. Mas Malcolm Fade era um monstro. Um assassino. A paixão dele por uma menina não pode servir de pretexto para o que fez.
— Creio que há diferença entre um pretexto e uma explicação — falou Jia.
— Então por que estamos ouvindo essa explicação? O feiticeiro está morto. Espero que não seja uma tentativa de extrair reparações do Conselho. Ninguém associado a esse monstro merece qualquer recompensa por sua morte.
O olhar de Jia era como o fio de uma lâmina.
— Entendo que você tenha estado muito ativa ultimamente nos negócios do Conselho, Zara — falou. — Mas isso não significa que possa interromper a Consulesa. Vá se sentar.
Após um instante, Zara se sentou, a expressão irritada. Aline fez um gesto de comemoração dando um soquinho discreto no ar.
— Muito bem, mãe — murmurou.
No entanto, alguém já se levantara para assumir o lugar de Zara. Seu pai.
— Consulesa — falou ele —, não somos ignorantes; disseram que esta reunião envolveria um testemunho importante que teria impacto para a Clave. Não é hora de apresentar a testemunha? Se, de fato, ela existe?
— Ah, ela existe, sim — falou Jia. — É Annabel Blackthorn.
Agora o murmúrio que se espalhava pelo recinto era como uma onda se quebrando. Um instante depois, Robert Lightwood apareceu, com uma expressão sombria. Atrás dele, vinham dois guardas e, entre os dois, caminhava Annabel.
A menina parecia muito pequenina no estrado, ao lado do Inquisidor. O Volume Negro pendia de uma tira em suas costas, o que a fazia parecer ainda mais jovem, como uma garotinha a caminho da escola.
Um sibilo invadiu o recinto. Morta-viva, ouviu Emma. Impura. Annabel se encolheu contra Robert.
— Isso é um ultraje — balbuciou o pai de Zara. — Será que todos não sofremos o suficiente com a sujeira corrosiva dos Crepusculares? Você ainda tem que trazer esta coisa até nós?
Julian ficou de pé num salto.
— Os Crepusculares não são mortos-vivos — falou, virando o rosto para o Salão. — Eles foram Transformados pelo Cálice Infernal. Annabel é exatamente quem era em vida. Ela foi torturada por Malcolm, mantida num estado semivivo durante anos. E ela quer nos ajudar.
— Julian Blackthorn — zombou Dearborn. — Minha filha me contou sobre você. Seu tio era louco, toda a sua família é louca, somente um louco acharia isso uma boa ideia...
— Não fale assim com ele. Ele é meu parente — falou Annabel, e sua voz soou nítida e forte.
— Blackthorn — falou Dearborn. — Parece que todos são loucos, mortos ou as duas coisas!
Se ele tinha esperado ouvir uma risada, não foi o que obteve. O salão permaneceu silencioso.
— Sente-se — falou a Consulesa friamente a Dearborn. — Parece que sua família tem um problema com o modo como os Nephilim devem se comportar. Se você me interromper de novo, será retirado do Salão.
Dearborn se sentou, mas os olhos brilhavam com raiva. Ele não era o único. Emma examinou o recinto rapidamente e viu grupos de olhares odiosos dirigidos ao estrado. Ela engoliu seu nervosismo; Julian abrira caminho até a passagem e estava de pé, virado para a parte da frente do salão.
— Annabel — falou, com voz baixa e encorajadora. — Conte-lhes sobre o Rei.
— O Rei Unseelie — falou Annabel suavemente. — O Senhor das Sombras. Ele tinha um pacto com Malcolm. É importante que todos vocês saibam disso porque mesmo agora ele planeja destruir todos os Caçadores de Sombras.
— Mas o Povo das Fadas é fraco! — Um homem numa gandora bordada se ergueu, com os olhos escuros brilhando de preocupação. Cristina murmurou no ouvido de Emma que o sujeito era diretor do Instituto de Marrakech. — Anos de Paz Fria os enfraqueceram. O Rei não pode ter esperança de se opor a nós.
— Não em um conflito de exércitos iguais — falou Annabel em sua voz baixa. — Mas o Rei usou o poder do Volume Negro e aprendeu como destruir o poder dos Nephilim. Como anular as Marcas, as lâminas serafim e pedras de luz enfeitiçadas. Vocês lutariam contra as forças deles com poder semelhante ao dos mundanos...
— Isso não pode ser verdade! — Era um homem magro, de cabelos escuros, que Emma se lembrava de ter visto numa discussão anterior sobre a Paz Fria há muito ocorrida. Lazlo Balogh, direto do Instituto de Budapeste. — Ela está mentindo.
— Ela não tem motivo pra mentir! — Agora Diana estava de pé também, com os membros aprumados, numa postura de combate. — Lazlo, dentre todas as pessoas...
— Srta. Wrayburn. — A expressão do húngaro endureceu. — Creio que todos nós sabemos que você deveria se afastar desta discussão.
Diana congelou.
— Você confraterniza com fada — emendou ele, fazendo barulho ao abrir e fechar a boca para falar. — Você tem sido observada.
— Oh, pelo Anjo, Lazlo — falou a Consulesa. — Diana não tem nada a ver com isso, seu único azar é discordar de você!
— Lazlo tem razão — falou Horace Dearborn. — Os Blackthorn são simpatizantes das fadas e traidores da Lei...
— Mas não somos mentirosos — falou Julian, e sua voz era aço rematado por gelo.
Dearborn mordeu a isca.
— E o que isso quer dizer?
— Sua filha não matou Malcolm Fade — falou Julian. — Foi Annabel.
Zara se levantou com um pulo, feito uma marionete que teve as cordas puxadas.
— Isso é mentira — guinchou ela.
— Não é mentira — falou Annabel. — Malcolm me ressuscitou dos mortos. Ele usou sangue de Arthur Blackthorn para fazer isso. E por essa razão, e por ter me torturado e me abandonado, eu o matei.
Agora o salão explodia. Gritos ecoavam nas paredes. Samantha e Dane Larkspear se puseram de pé, agitando os punhos. Horace Dearborn urrava que Annabel era uma mentirosa, que todos os Blackthorn eram.
— Chega! — gritou Jia. — Silêncio!
La Spada Mortale. — Uma mulher baixinha, de pele morena, se ergueu de um assento perto dos fundos. Ela usava um vestido simples, mas seu colar grosso reluzia com a pedraria. Seus cabelos eram de um cinza escuro e iam praticamente até os quadris, e sua voz trazia autoridade suficiente para cortar o barulho no recinto.
— O que você disse, Chiara? — quis saber Jia. Emma conhecia o nome: Chiara Malatesta, diretora do Instituto de Roma, na Itália.
— A Espada Mortal — falou Chiara. — Se há alguma dúvida se esta pessoa... se é que se pode chamar assim... está dizendo a verdade, faça-a segurar Maellartach. Assim podemos acabar com as discussões inúteis a respeito da veracidade de suas declarações.
— Não. — Os olhos de Annabel percorreram o cômodo, em pânico. — A Espada não...
— Vejam, ela está mentindo — falou Dane Larkspear. — Ela teme que a Espada revele a verdade!
— Ela teme a Espada porque foi torturada pelo Conselho! — falou Julian. Ele se dirigiu ao estrado, mas dois guardas do Conselho o agarraram e o mantiveram no lugar. Emma começou a se levantar, mas Helen a empurrou com firmeza de volta no banco.
— Ainda não — murmurou. — Isso só vai piorar as coisas... Ela precisa ao menos tentar...
Mas o coração de Emma estava disparado. Julian ainda estava sendo impedido de se aproximar do estrado. Todas as terminações nervosas no corpo dela guincharam quando Robert Lightwood se afastou e retornou, trazendo uma coisa comprida, pontuda e prateada. Uma coisa que reluzia feito água negra. Ela viu... ela sentiu... Julian inspirou fundo; ele tinha segurado a Espada Mortal antes e conhecia a dor que ela causava.
— Não façam isso! — falou ele, mas sua voz foi sufocada pelo volume de outras vozes, o clamor no recinto quando vários Caçadores de Sombras ficaram de pé, esticando-se para entrever o que se passava.
— Ela é uma criatura morta-viva nojenta! — gritou Zara. — Deveria ser morta de uma vez, não ficar diante do Conselho!
Annabel empalideceu. Emma sentiu a tensão de Julian, sabia o que ele estava pensando: se Magnus estivesse aqui, poderia explicar; Annabel não era uma morta-viva. Ela fora trazida à vida outra vez. Era uma Caçadora de Sombras viva. Magnus era um integrante do Submundo no qual a Clave confiava, um dos poucos. Nada disso aconteceria se ele estivesse conseguido participar da reunião.
Magnus, pensou Emma, oh, Magnus, espero que você esteja bem. Queria que você estivesse com a gente.
— A Espada vai determinar se Annabel pode testemunhar — falou Jia, com voz firme, que reverberou até o fundo do cômodo. — É a Lei. Fiquem em seus lugares e deixem a Espada Mortal trabalhar.
A multidão silenciou. Os Instrumentos Mortais eram o poder mais elevado que os Caçadores de Sombras conheciam, além do próprio Anjo. Até mesmo Zara se calou.
— Leve o tempo que precisar — falou Robert para Annabel. A compaixão no rosto dele surpreendeu Emma. Ela se lembrava de vê-lo forçando a lâmina nas mãos de Julian, e Julian tinha apenas doze anos à época. Ela ficara zangada com Robert por um longo tempo depois disso, embora Julian mesmo parecesse não guardar ressentimentos.
Annabel arfava como um coelho assustado. Ela olhava para Julian, que assentia de modo encorajador, e então esticou as mãos lentamente.
Quando ela pegou a Espada, um tremor passou por seu corpo, como se ela tivesse tocado uma cerca elétrica. O rosto ficou tenso, mas ela ergueu a espada, ilesa. Jia soltou o ar com visível alívio. A Espada tinha provado: Annabel era uma Caçadora de Sombras. O salão permaneceu em silêncio, enquanto todos observavam.
A Consulesa e o Inquisidor deram um passo para trás, dando espaço a Annabel. Ela estava de pé, no centro do estrado, uma figura solitária com um vestido do tamanho errado.
— Qual é o seu nome? — perguntou Robert, com o tom de voz enganosamente suave.
— Annabel Callisto Blackthorn — falou com a respiração ofegante.
— E com quem você está nesse estrado?
Os olhos azuis-esverdeados dispararam desesperadamente entre eles.
— Eu não conheço vocês — murmurou ela. — Vocês são a Consulesa e o Inquisidor... mas não os que eu conhecia. Você é nitidamente um Lightwood, mas... — Ela balançou a cabeça antes de seu rosto se iluminar. — Robert — falou. — Julian o chamou de Robert.
Samantha Larkspear riu, debochada, e alguns outros, que portavam cartazes, se juntaram a ela.
— Não sobrou muito cérebro para dar uma evidência decente!
Silêncio! — rugiu Jia. — Srta. Blackthorn, você sabia... você foi amante de Malcolm Fade, Alto Feiticeiro de Los Angeles?
— Ele era apenas um feiticeiro quando o conheci, sem cargo. — A voz de Annabel tremeu. — Por favor. Pergunte-me se eu o matei. Não posso suportar muito mais do que isso.
— O que nós discutimos aqui não é escolha sua. — Jia não parecia aborrecida, mas Annabel visivelmente se encolheu.
— Isso é um erro — murmurou Livvy para Emma. — Eles só precisam perguntar sobre Malcolm e acabar logo com isso. Não podem transformar num interrogatório.
— Vai ficar tudo bem — falou Emma. — Vai, sim.
Mas o coração dela estava disparado. Os outros Blackthorns observavam com visível tensão. Do outro lado, Emma via Helen apertando os braços da cadeira. Aline esfregava o ombro da esposa.
— Pergunte — falou Julian. — Apenas pergunte, Jia.
— Julian. Chega — falou Jia, mas se virou para Annabel, os olhos escuros com expectativa. — Annabel Callisto Blackthorn, você matou Malcolm Fade?
— Sim. — O ódio se cristalizou na voz de Annabel. — Eu o cortei. Eu o observei sangrar até morrer. Zara Dearborn não fez nada. Ela está mentindo para todos vocês.
Um suspiro percorreu o salão. Por um momento, Julian relaxou e os guardas que o seguravam afrouxaram o aperto. Zara, com o rosto vermelho, abriu espaço na multidão.
Graças ao Anjo, pensou Emma. Agora eles terão que ouvir.
Annabel encarou o recinto, com a Espada na mão, e, por um momento, Emma entendeu por que Malcolm se apaixonara. Ela parecia orgulhosa, satisfeita, bela.
Alguma coisa passou pela cabeça dela e se espatifou no atril. Uma garrafa, Emma imaginou — e os caquinhos se espalharam. Ouviu-se um suspiro, depois uma risadinha, e então outros objetos começaram a voar — a multidão parecia arremessando o que estivesse nas mãos.
Não a multidão toda, percebeu Emma. Era a Tropa e seus apoiadores. Não eram muitos — mas era o suficiente. E se ódio era maior do que todo o recinto.
Os olhares de Emma e Julian se encontraram; ela viu o desespero nele. Eles esperavam um desfecho melhor. Mesmo depois de tudo que passaram, por alguma razão, esperavam um desfecho melhor.
Era verdade que muitos Caçadores de Sombras agora estavam de pé, gritando para que a Tropa parasse. Mas Annabel se encolhera, de joelhos, a cabeça baixa e as mãos ainda segurando a Espada. Ela não tinha erguido as mãos para se proteger dos objetos voavam para ela — estes se espatifavam no chão, no atríl e na janela; garrafas e sacos, moedas e pedras, e até relógios e pulseiras.
— Parem! — gritou Julian, e a raiva fria com que ele berrou foi suficiente para chocar e silenciar pelo menos alguns. — Pelo anjo, esta é a verdade. Ela está dizendo a verdade! Sobre Malcolm, sobre o Rei Unseelie...
— Como vamos saber? — sibilou Dearborn. — Quem disse que a Espada Mortal funciona nesta... nesta coisa? Ela está putrefata...
— Ela é um monstro — gritou Zara. — É uma conspiração para tentar nos arrastar para uma guerra contra a Corte Unseelie! Os Blackthorn não se importam com nada além de suas mentiras e de seus irmãos fada imundos!
— Julian. — Annabel arfou, com a Espada Mortal tão apertada em suas mãos que o sangue começou a aparecer em sua pele onde ela segurava a lâmina. — Julian, me ajude... Magnus... onde está Magnus...
Julian lutou contra o aperto dos guardas. Robert apressou-se, com as mãos grandes esticadas.
— Chega — falou. — Venha comigo, Annabel...
— Deixe-me em paz! — com um grito rouco, Annabel se encolheu para longe dele, erguendo a lâmina. Emma se lembrou súbita e friamente de duas coisas:
A Espada Mortal não era apenas um instrumento de justiça. Era uma arma.
E Annabel era uma Caçadora de Sombras, com uma arma nas mãos.
Como se não pudesse acreditar no que estava acontecendo, Robert deu outro passo na direção de Annabel, esticando a mão para ela, como se ele pudesse acalmá-la, convencê-la. Ele abriu a boca para falar e ela ergueu a espada entre eles.
A arma rasgou as vestes de Robert Lightwood e abriu se peito.

* * *

Kit se sentia como alguém que tinha entrado por engano no quarto de outra família em um hospital e não tivesse mais como sair. Alec estava ao lado de Magnus e ocasionalmente tocava seu ombro e dizia alguma coisa em voz baixa. Kieran fitava a janela, como se pudesse se transportar através do vidro.
— Você quer... quer dizer, alguém deveria contar às crianças? Max e Rafe? — perguntou ele finalmente.
Alec ficou de pé e cruzou o cômodo, onde um jarro de água encontrava-se sobre uma mesinha lateral. Ele se serviu de um copo.
— Agora não — falou ele. — Eles estão a salvo na cidade com a minha mãe. Não precisam... Magnus não precisa... — Ele tomou a água. — Eu tinha esperança de que ele melhorasse e não tivéssemos que contar nada a eles.
— Você disse que sabia que havia algo errado com ele — falou Kit. — É... perigoso?
— Eu não sei — falou Alec. — Mas sei de uma coisa. Não é só ele. Tem outros feiticeiros também. Tessa e Jem têm procurado uma causa ou cura, mas ela também está doente...
Ele se calou. Podia-se ouvir um rugido abafado, um som semelhante a ondas se erguendo, prestes a quebrar. Alec empalideceu.
— Já ouvi esse som antes — falou. — Alguma coisa está acontecendo. No Salão.
Kieran se afastou do parapeito com um gesto úmido, fluido.
— É a morte.
— Pode não ser — falou Kit, apurando a atenção.
— Sinto o cheiro de sangue — falou Kieran. — Ouço gritos. — Ele subiu no parapeito e puxou uma das cortinas. Pegou a barra da cortina, que tinha um capitel com ponta afiada e pulou para o soalho, brandindo-a como se fosse uma lança. Seus olhos preto e prata brilharam. — Não estaremos desarmados quando eles vierem.
— Vocês devem ficar aqui. Os dois. Vou descobrir o que está acontecendo — falou Alec. — Meu pai...
A porta se abriu de repente. Kieran lançou a barra de cortina. Diego, que tinha acabado de aparecer à entrada, se abaixou quando a barra voou, acertando a parede, onde ficou presa.
¿Que chingados? — falou Diego, parecendo confuso. — Que diabos foi isso?
— Ele acha que você está aqui para nos matar — falou Kit. — É verdade?
Diego revirou os olhos.
— As coisas deram errado no Salão — falou.
— Alguém se machucou? — perguntou Alec.
Diego hesitou.
— Seu pai... — começou ele.
Alec pousou o copo e cruzou o cômodo até Magnus. Ele se abaixou e o beijou na testa e na bochecha. Magnus não se mexeu, simplesmente continuou a dormir pacificamente, os olhos felinos fechados.
Kit o invejou.
— Fiquem aqui — falou Alec para Kit e Kieran. Então se virou e saiu do quarto.
Diego olhou para ele sombriamente. Kit estava um pouco enjoado. Tinha a sensação de que, o que quer que tivesse acontecido ao pai de Alec, era grave.
Kieran arrancou a barra da cortina da parede e apontou para Diego.
— Você já deu seu recado — falou. — Agora vá. Eu protegerei o menino e o feiticeiro.
Diego balançou a cabeça.
— Estou aqui para pegar você. — Ele apontou para o próprio Kieran. — Para levá-lo até a Scholomance.
— Não vou a lugar algum com você — retrucou Kieran. — Você não tem moralidade. Trouxe desonra a Lady Cristina.
— Você não tem ideia do que aconteceu entre mim e Cristina — emendou Diego, com voz gélida. Kit notou que Diego Perfeito parecia um pouco menos perfeito agora. Suas olheiras eram profundas e tinham um tom violeta, e a pele morena estava pálida. O cansaço e a tensão enrijeciam seus traços delicados.
— Diga o que quiser das fadas — falou Kieran. — Não temos desprezo maior do que aquele nutrido por quem trai um coração que lhe foi dado.
— Foi Cristina quem me pediu para vir aqui e levar você à Scholomance — falou ele. — Se você se recusar, você é quem vai desonrar os desejos dela.
Kieran o encarou, com a testa franzida.
— Você está mentindo.
— Não estou — falou Diego. — Ela temia por sua segurança. O ódio da Tropa está fora de controle e o salão virou um caos. Você ficará a salvo se vier comigo, mas não posso prometer mais nada.
— Como eu estaria seguro na Scholomance, com Zara Dearborn e seus amigos?
— Ela não estará lá — falou Diego. — Ela, Samantha e Manuel planejam ficar aqui, em Idris, no coração do poder. Poder é tudo o que eles sempre desejaram. A Scholomance é um local de estudo pacífico. — Ele estendeu a mão. — Venha comigo. Por Cristina.
Kit ficou olhando para a mão de Diego, prendendo a respiração. Foi um momento muito estranho. Agora ele aprendera o suficiente sobre os Caçadores de Sombras para entender o que significava o fato de Diego ser um Centurião, e quais leis ele estava violando ao se oferecer para levar Kieran a Scholomance. E ele conhecia o suficiente do orgulho do Povo das Fadas para saber o que Kieran estava aceitando em concordar.
Ouviu-se outro estrondo do lado de fora.
— Se você ficar aqui — falou Kit cautelosamente — e a Tropa atacar, Mark e Cristina vão querer proteger você. E eles poderiam se machucar ao fazer isso.
Kieran pousou a barra da cortina no chão, olhando para Kit.
— Diga a Mark aonde eu fui — falou a fada. — E agradeça a Cristina.
Kit assentiu. Diego inclinou a cabeça antes de dar um passo para a frente e segurar Kieran de um jeito estranho pelo braço. Com a outra mão, ele apertou o broche Primi Ordines em seu uniforme.
Antes que Kit pudesse falar, Diego e Kieran desapareceram, um redemoinho de luz brilhante riscando o ar onde eles haviam estado.

* * *

Os guardas avançaram quando Jia se esticou para segurar o corpo de Robert, que desmoronava. O rosto da Consulesa era a máscara do horror, e ela tombou de joelhos, pegando em seguida a estela e talhando um iratze no braço mole do Inquisidor.
O sangue dele se espalhava ao redor de ambos, uma poça escarlate que se movia lentamente.
Annabel. — A voz de Julian foi simplesmente um profundo murmúrio de choque. Emma praticamente conseguia enxergar o abismo de culpa e censura que se abria aos pés dele. Ele começou a lutar freneticamente contra as mãos dos guardas que o seguravam. — Soltem-me, soltem-me...
— Para trás! — gritou Jia. — Todos vocês, para trás! — Ela estava ajoelhada ao lado de Robert, as mãos encharcadas com o sangue dele conforme tentava talhar o símbolo de cura em sua pele.
Dois outros guardas subiram os degraus e pararam, inseguros, ao ouvir as palavras dela. Annabel, com o vestido azul manchado de sangue, segurava a Espada diante de si como uma barreira. O sangue do Inquisidor já estava penetrando na lâmina, como se ela fosse uma rocha porosa absorvendo água.
Julian se libertou de seus captores e pulou para o estrado ensanguentado. Emma ficou de pé num salto, e Cristina agarrou a parte de trás de sua camisa, mas em vão: ela já estava subindo pelo encosto estreito do banco.
Graças ao Anjo por todas as horas que ela perdera treinando no caibro da sala de treinamento, pensou Emma, e correu, pulando da extremidade do banco para a passagem. Vozes gritaram por causa dela e para ela, um estrondo semelhante a ondas; ela as ignorou. Lentamente, Julian se pôs de pé e encarou Annabel.
— Afaste-se! — gritou ela, balançando a Espada Mortal. A arma parecia brilhar, pulsar até, nas mãos de Annabel, ou seria pura imaginação de Emma? — Fique longe de mim!
— Annabel, pare — pediu Julian calmamente, com as mãos erguidas para mostrar que estavam vazias... Vazias, como? Emma bufou; onde estava a espada, onde estavam as armas dele? Os olhos dele estavam arregalados e sinceros. — Isso só vai piorar as coisas.
Annabel dava soluços roucos.
— Mentiroso. Afaste-se, afaste-se de mim.
— Eu nunca menti para você...
— Você disse que eles me dariam a mansão Blackthorn! Você falou que Magnus ia me proteger! Mas olhe! — Ela abriu bem o braço e fez um gesto indicando o recinto. — Para eles, eu sou putrefata... sou desprezada, uma criminosa...
— Você ainda pode voltar. — A voz de Julian estava admiravelmente firme. — Baixe a Espada.
Por um momento, Annabel pareceu hesitar. Emma estava aos pés dos degraus do estrado; ela viu Annabel afrouxar o aperto no punho da Espada Mortal...
Jia se pôs de pé. Suas vestes estavam úmidas com o sangue de Robert, a estela frouxa em sua mão.
— Ele está morto — falou.
Foi como girar uma chave numa jaula para libertar seus ocupantes: os guardas avançaram pelos degraus e pularam na direção de Annabel, com as armas desembainhadas. Ela girou com rapidez inumana, atingindo-os, e a Espada rasgou o peito de ambos. Ouviram-se gritos quando eles desmoronaram e Emma subiu os degraus correndo, desembainhando Cortana antes de saltar na frente de Julian.
De onde estava, ela via todo o Salão do Conselho. Estava o caos. Algumas pessoas fugiam pelas portas. Os Blackthorn e Cristina estavam de pé, esforçando-se para chegar ao estrado, embora uma fileira de guardas tivesse aparecido para controlá-los. Enquanto Emma observava, Livvy passou por baixo do braço de um dos guardas e começou a abrir caminho até eles. Um espadão reluzia em sua mão.
Emma olhou outra vez para Annabel. De perto, era evidente que alguma coisa estalara nela. A menina não tinha expressão, seus olhos estavam mortos e desconexos. O olhar de Annabel pousou além de Emma. Alec irrompera pelas portas e agora encarava o estrado — seu rosto era uma máscara de dor e choque.
Emma desviou o olhar dele quando Annabel pulou para cima de Julian feito um gato, sua espada cortando o ar diante dela. Em vez de erguer Cortana para barrar o golpe, Emma se jogou para o lado, derrubando Julian no soalho encerado do estrado.
Por um momento, ele estava colado a ela; os dois estavam juntos, corpo a corpo, e ela sentiu a força de seu parabatai fluindo através dela. A Espada Mortal desceu outra vez e eles pularam e se afastaram, redobrados em sua força quando a lâmina talhou a madeira a seus pés.
O salão estava tomado pelos gritos. Emma pensou ter ouvido Alec chamar por Robert: Papai, por favor, papai. Ela pensou na tapeçaria que Robert tinha em seu escritório. Pensou em Isabelle. E girou com Cortana na mão, e a lateral da lâmina bateu em Maellartach.
As espadas estremeceram. Annabel recuou a arma e, de repente, seus olhos eram quase selvagens. Alguém gritava por Julian. Era Livvy, escalando a lateral do estrado.
Livvy! — gritou Julian. — Livvy, sai daqui...
Annabel girou outra vez, e Emma ergueu Cortana, interrompendo o golpe e aproximando-a, batendo sua espada contra a de Annabel com toda força do corpo, juntando as lâminas com um retinido ensurdecedor.
E a espada Mortal se partiu.
Rachou ao longo da lâmina e sua ponta praticamente se separou do restante. Annabel guinchou e cambaleou para trás, fluído negro jorrando da espada quebrada como seiva de uma árvore derrubada.
Emma desmoronou sobre os joelhos. Era como se a mão que segurava Cortana tivesse sido atingida por um raio. Seu pulso retinia e um zumbido soou por todos os seus ossos, fazendo o corpo tremer. Ela agarrou o punho da espada com a mão direita, entrando em pânico, desesperada para não deixá-la cair.
Emma! — Julian segurava o próprio braço rigidamente, notou Emma, pois ele também se ferira.
O zumbido estava diminuindo. Emma tentou ficar de pé, mas cambaleou; mordeu o lábio com frustação. Como seu corpo ousava traí-la.
— Estou bem... bem...
Livvy arquejou ao ver a Espada Mortal destruída. Ela havia alcançado o topo do estrado; Julian esticou a mão e Livvy jogou seu espadão para ele. Ele a pegou com firmeza e se virou para encarar Annabel, que fitava a arma quebrada na mão. A Consulesa também vira o que acontecera e seguia na direção deles.
— Acabou, Annabel — falou Julian. Ele não parecia triunfante, parecia exausto. — Acabou.
Annabel grunhiu baixinho pela garganta e avançou. Julian ergueu sua arma, mas Annabel passou por ele, os cabelos negros voando. Seus pés deixaram o chão e, por um momento, ela ficou verdadeiramente bela, uma Caçadora de Sombras em toda a sua glória florescente, pouco antes de aterrissar com leveza no soalho de madeira da beirada do estrado e enfiar a lâmina quebrada no coração de Livvy.
Livvy arregalou os olhos. Sua boca formou um O, como se ela estivesse admirada ao descobrir algo pequeno e surpreendente, como um ratinho na bancada da cozinha. Um vaso de flores derrubado, um relógio de pulso quebrado. Nada grande. Nada terrível.
Annabel deu um passo para trás, ofegante. Agora não estava tão bela mais. O vestido, o braço, estavam encharcados de vermelho e negro.
Livvy ergueu a mão e, admirada, tocou o cabo que se projetava de seu peito. Suas bochechas ficaram vermelhas.
— Ty? — murmurou ela. — Ty, eu...
Seus joelhos enfraqueceram sob o peso dela e Livvy bateu as costas com força no chão. A lâmina parecia um inseto feio e imenso agarrado ao seu peito, um mosquito de metal sugando o sangue que escorria da ferida, vermelho, misturado ao negro da espada, espalhando-se no chão.
Na passagem do Salão do Conselho, Ty ergueu o olhar, e seu rosto adquiriu a cor das cinzas. Emma não fazia ideia se ele podia vê-los através do enxame de gente — se podia ver a irmã e o que acontecera — mas as mãos dele voaram para o peito, pressionando o coração. Ele caiu de joelhos, silenciosamente, assim como Livvy tinha feito, e desmoronou.
Julian emitiu um ruído que Emma não saberia descrever, não era um som humano como um uivo ou um grito. Era como se algo tivesse sido arrancado de dentro dele, como se algo brutal tivesse rasgado seu peito. Ele deixou cair o espadão que Livvy se arriscara para levar até ele, caiu de joelhos e rastejou em direção à irmã, puxando-a para seu colo.
— Livvy, Livvy, minha Livvy — murmurou ele, aninhando-a, afastando febrilmente os cabelos manchados de vermelho do rosto da menina. Havia tanto sangue. Ele ficou coberto em segundos; o sangue encharcara as roupas de Livvy e ensopara até os sapatos. — Livia. — Suas mãos tremiam; ele pegou uma estela e pôs no braço da irmã.
O símbolo de cura desapareceu tão rapidamente quando ele o desenhou.
Emma sentiu como se alguém tivesse dado um soco em seu estômago. Havia ferimentos que estavam além do poder de uma iratze. As Marcas de Cura só desapareciam da pele quando havia veneno oculto — ou quando uma pessoa já estava morta.
— Livia. — A voz de Julian se ergueu, falhando e se despedaçando em si mesma como uma onda quebrando bem longe no mar. — Livvy, meu bebê, por favor, meu amor, abra os olhos, é Jules, estou aqui com você, estarei aqui sempre com você, por favor, por favor...
A escuridão explodiu no fundo dos olhos de Emma. A dor em seu braço se fora; ela não sentia nada além de ódio. Ódio que apagava o restante do mundo, exceto a visão de Annabel encolhendo-se contra o atril, fitando Julian, que embalava o corpo morto da irmã. O que ela fizera.
Emma girou e foi até Annabel. Não havia outro lugar aonde a garota pudesse ir. Os guardas tinham formado um círculo ao redor do estrado. O restante do cômodo era uma massa furiosa e confusa.
Emma torcia para Ty estar inconsciente. Torcia para ele não estar vendo nada daquilo. Em algum momento ele acordaria, e o horror para o qual o gêmeo de Livvy despertaria foi o que a impeliu.
Annabel cambaleou para trás. Seu pé escorregou e ela caiu no chão. Aí ergueu a cabeça quando Emma assomou para cima dela. Seu rosto era puro medo.
Emma ouviu a voz de Arthur em sua mente. Piedade é melhor do que vingança. Mas a voz dele foi mais baixa do que o murmúrio de Julian ou os soluços de Dru.
Ela baixou Cortana, fatiando o ar com a lâmina — mas assim que a arma rasgou o ar, uma fumaça escura irrompeu da janela atrás de Annabel. Tinha a força de uma explosão, uma onda violenta que jogou Emma para trás. Quando ela fez um esforço para ficar de joelhos, viu um vulto se movendo no interior da fumaça; o brilho do ouro, o clarão de um símbolo marcado em sua mente: uma coroa, partida ao meio.
A fumaça desapareceu, e Annabel se foi com ela.
Emma curvou o corpo sobre Cortana, abraçando a lâmina contra si, e sua alma se corroeu de desespero. Ao redor, ela ouvia vozes se elevando no recinto, gritos e grunhidos. Via Mark recurvado sobre Ty, que desmoronara no chão. Os ombros de Mark tremiam. Helen tentava abrir espaço na multidão para se aproximar dos dois. Dru estava no chão, soluçando com o rosto entre as mãos. Alec se deixara cair contra as portas do Salão, fitando a destruição.
E ali, adiante dela, estava Julian, com os olhos e ouvidos fechados para qualquer coisa que não fosse Livvy, o corpinho aninhado no dele. Ela parecia um floco de cinzas ou de neve frágil, alguma coisa inconstante que fora soprada para os braços dele acidentalmente: a pétala de uma flor fada, a pluma branca da asa de um anjo. O sonho de uma garotinha, a lembrança de uma irmã esticando os bracinhos: Julian, Julian, me pega no colo.
Mas a alma, o espírito que a tornava Livvy, não estava lá mais: era algo que se fora para um lugar distante e intocável, mesmo enquanto Julian corria as mãos pelos cabelos dela repetidas vezes e implorava para que ela acordasse e olhasse para ele só mais uma vez.
Lá no alto do Salão do Conselho, o relógio dourado começou a badalar as horas.

26 comentários:

  1. Eu me sinto tão mal. Pq tia cassie? Pq? Alguem me mata,por favor.

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  2. Aí meu deus! !!!!!quando que sai o próximo livro? ??

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  3. É :/ Eu já sabia que tia Cassie ia matar alguém T____T Mas não esperava que fosse um dos irmãos... Se bem que ela matou o Max .__." É :/

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  4. Quando a Cassandra quer, ela consegue dilacerar nossa alma... 😭😭😭😭😭😭😭😭

    Foi uma merda atrás da outra nesse final...Magnus...Robert...a Emma partindo a espada mortal...livvy 😭...Tudo que eu pensei foi "velho, esse livro tem que acabar logo pq se não, não vai parar de dar merda"...

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  5. Pelo anjo!
    Não tenho palavras para expressar o que estou sentindo com esse fim...
    😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭

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  6. pelo anjo! estou chocada! porque? ah não!
    Tem olhos nas minhas lagrimas
    Ass:Leticia Oliver

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  7. eu disse! eu disse que essa autora sempre quer matar alguém 😢

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  8. Eu. Fico triste mas nao pela morte da Livia mas pelo ty ty.. Como será q ele vai ficar😳😭😭😭

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  9. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!! Como assim? Não pode acabar assim e pensar que agora vai ser só em 2019

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  10. Tipo eu acho que isso foi um crítica a Trump e aos discursos de ódio em geral "fada boa fada morta" adorei a crítica

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  11. Meu Deus, duas mortes em um só capítulo... Eu não tô sabendo lidar, eu só consigo chorar. Tadinha da Livvy :(

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  12. Não sei quando chorei mais, na morte da Liv ou no Alec defendendo o Magnus

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  13. Gente o foi isso, to passada 😢😢

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  14. Se coração realmente é ferido; o meu estar sangrando... 💔😢😭😓😢😭

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  15. Voltei pra ver os coments... ainda to em choque... 😢😢😢 Tia Cassy foi cruel demais... triste demais 😢😢😢😢

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  16. Não acredito!!! Coração partido!! 😭😭😭💔💔

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  17. Para mim, chorar é algo muito, muito raro e difícil de acontecer. Mas devo admitir... Esse final arrancou meu coração e o destruiu. Nem percebi quando as lágrimas começaram a escorer. Sei apenas que terminei de ler há uns vinte minutos e continuo encarando a página do celular, esperando alguém brotar para gritar "BRINCADEIRA, TÁ TODO MUNDO BEM" ou pra uma explicação surgir para demonstrar como eu entendi tudo errado.
    Só que, bem, parece que não vai rolar.
    Vimos eventos que vão mudar o futuro do mundo shadowhunter (eu entendo e espero). Pensei e analisei, logicamente, e compreendo que a decisão tem um sentido narrativo.
    Ainda assim... Me conectei com essa série de uma maneira mais profunda do que todos os outros livros de Instrumentos Mortais. Desde que li o primeiro volume até o lançamento do segundo, reli A Dama da Meia Noite pelo menos cinco vezes. Me apaixonei e me apeguei à família Blackthorn de um modo muito especial. Minhas cenas favoritas em todo o universo de Cassandra Clare envolvia justamente os momentos protagonizados por eles (principalmente os mais normais e comuns. Eu leria com facilidade e felicidade a descrição diária do cotidiano desses personagens, de verdade). Ao longo do tempo, adquiri uma obsessão maior que a do Julian em manter todos eles em segurança. Com o passar dos livros, eu sinceramente não ligava muito se o mundo ao redor explodisse, eu queria proteger a família Blackthorn, com todos os seus afiliados (como Emma e Cristina, claro <3).
    Então? Uma morte brutal, desnecessária e chocante como essa me dilacera por dentro. Mais do que pelo capítulo em si, estou chorando por nunca mais poder ver a minha família preferida de todos os tempos completa... e isso me deixa realmente triste.

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  18. O sentimento em mim agora é só um: tristeza
    Não entendo o motivo para a autora ter que matar alguém e entendo menos ainda o motivo pra ser a lyvy
    Foi um acontecimento que eu sinceramente não esperava ainda porque agora vai existir mais um motivo para desacreditarem deles com o que a Anabel fez ela surtou mas o que ela fez reduziu a chance deles a quase zero
    Enfim só tenho mais uma coisa a dizer
    VAI DÁ MEEERRRDDDAAAAAA!!!!!!!!!!!
    ASS: Kath

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  19. Gentee pelo anjo, n creio!
    N consigo digerir td q aconteceu, tia cass acabou cmg, como vai ser agr, tadinho de ty, livvy n acredito, magnus, tessa, e a espada mds, robert, alec, como vai ficar o exilio de emma agr?
    Odiando a zara, ela se atreveu a ofender jace e clary!!

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  20. Ai que raiva da Annabel,doida pra Emma cortar a cabeça fora dela com a Cortana ai chega o rei pro resgate,chorando muito pela Livvy aqui..Achava que depois dessa bagunça toda ela ia conseguir finalmente ser parabatai do Ty.E agora com com o inquisidor morto como vai ficar a questão do exilio da Emma com o Julian?Ferrou tudo mesmo!!!

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  21. Ainda estou em choque!!!pq vc fez isso Cassandra!?!?💔💔💔

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  22. Sem palavras só lágrimas😵😭😭😭😭😭

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Boa leitura :)