15 de novembro de 2017

Capítulo 28

— Então aqui é a cozinha. Como podem ver, há três lados com uma vista espetacular sobre o rio e a cidade propriamente dita. À direita, dá para ver a Tower Bridge, lá embaixo está a London Eye, e, em dias ensolarados, pode-se apertar um botão aqui, não é isso, Sra. Halston?, e simplesmente abrir o teto.
Liv observa enquanto o casal olha para cima. O homem, um empresário na faixa dos cinquenta, usa o tipo de óculos que anuncia seu perfil de designer.
Com olhar blasé desde que chegou, possivelmente presume que qualquer leve expressão de entusiasmo possa prejudicá-lo se ele decidir fazer uma oferta.
Mas nem ele consegue esconder sua surpresa diante do teto de vidro retrátil.
Com um leve zumbido, o teto se abre e eles olham para o céu azul. Um ventinho de inverno entra suavemente na cozinha, levantando as folhas da pilha de papéis na mesa.
— Não pensem que vamos deixar o teto aberto por muito tempo, hein!
O jovem corretor, que já mostrou o apartamento três vezes naquela manhã e ainda não se cansou do mecanismo, treme de modo teatral, depois observa sem esconder a satisfação o teto se fechar primorosamente. A mulher, miúda e japonesa, com uma echarpe no pescoço amarrada de um jeito intrincado, cutuca o marido e murmura algo em seu ouvido. Ele faz um movimento positivo com a cabeça e torna a olhar para cima.
— E o teto, como quase toda a casa, é feito de um vidro especial, que conserva calor tanto quanto uma parede com isolamento médio. É realmente mais sustentável que uma casa com terraço normal.
Esses dois não parecem ter pisado jamais numa casa com terraço normal. A japonesa anda pela cozinha, abrindo e fechando gavetas e armários, estudando os interiores com a atenção de um cirurgião prestes a mergulhar numa ferida aberta.
Liv, calada e imóvel ao lado da geladeira, descobre que está mordendo o interior da bochecha. Já sabia que isso não seria fácil, mas não se dera conta de que ficaria tão constrangida, tão culpada por causa dessas pessoas andando pela casa, examinando seus pertences com olhos insensíveis e possessivos. Ela os observa tocando nas superfícies de vidro, correndo os dedos pelas prateleiras, falando baixinho sobre pendurar quadros e “suavizar um pouco o ambiente”, e quer botá-los porta afora.
— Todos os eletrodomésticos são de primeira linha e estão incluídos na venda — diz o corretor, abrindo a porta da geladeira dela.
— O forno, em particular, quase não tem uso — acrescenta uma voz da porta. Mo está usando uma sombra roxa cintilante e veste uma parka por cima da túnica do Comfort Lodge Care Home.
O corretor fica meio aturdido.
— Sou a assistente pessoal da Sra. Halston — diz ela. — Vão ter que nos dar licença. Está quase na hora da medicação dela.
O corretor sorri sem jeito e conduz o casal apressadamente para o hall. Mo puxa Liv de lado.
— Vamos tomar um café — diz.
— Preciso ficar aqui.
— Não precisa, não. Isso é masoquismo. Vamos. Pegue seu casaco.

* * *

É a primeira vez que Liv vê Mo em dias. Sente um alívio inesperado com a presença dela. Percebe que desejou muito a leve impressão de normalidade que agora chega com uma gótica de um metro e meio, de sombra roxa e túnica. Sua vida ficou estranha e deslocada, presa a um tribunal com aqueles dois advogados em duelo, aquelas sugestões e refutações, guerras e Kommandants saqueadores.
Sua antiga vida e sua rotina foi substituída por uma espécie de prisão domiciliar, com um novo mundo girando em torno do chafariz do segundo andar da Alta Corte, os implacáveis assentos, o hábito esquisito do juiz de coçar o nariz antes de falar e a imagem do seu quadro no cavalete. Paul. A milhões de quilômetros no banco dos autores da ação.
— Você está realmente tranquila em relação à venda? — Mo faz um gesto de cabeça em direção à casa.
Liv abre a boca para falar, depois decide que, se começar a discorrer sobre como se sente realmente, não vai parar nunca. Estará ali falando como uma matraca até o Natal que vem. Quer contar a Mo que todos os dias os jornais publicam matérias falando nela e já não significa mais nada ver seu nome ali. As palavras roubo, justiça e crime aparecem com frequência. Ela quer dizer a Mo que já não sai mais para correr: um homem tinha se postado em frente ao prédio só para cuspir nela. Quer lhe contar que o médico lhe receitou pílulas para dormir que ela tem medo de tomar. Na consulta, quando explicou a ele a sua situação, não sabe se também não viu no rosto dele uma expressão de desaprovação.
— Estou bem — diz.
Mo franze os olhos.
— Verdade. É só tijolo e cimento, afinal. Bem, vidro e concreto.
— Eu já tive um apartamento — diz Mo, ainda mexendo o café. — No dia que vendi, me sentei no chão e chorei como um bebê.
A caneca de Liv ainda não chegou à boca.
— Eu era casada. Não deu certo.
Mo dá de ombros. E começa a falar do tempo.
Há algo diferente em Mo. Não é que esteja propriamente evasiva, mas há uma espécie de barreira invisível, uma parede de vidro entre elas. Talvez seja minha culpa, pensa Liv. Tenho andado tão preocupada com dinheiro e o processo que quase não pergunto nada sobre a vida de Mo.
— Sabe, eu estava pensando no Natal — começa ela, após uma pausa. — Eu me perguntava se Ranic gostaria de passar a noite da véspera aqui. Puro egoísmo meu, realmente. — Ela sorri. — Achei que vocês dois poderiam me ajudar com a comida. Sabe, nunca fiz uma ceia de Natal antes, e papai e Caroline cozinham bastante bem, de modo que não quero fazer feio.
Ela se ouve balbuciando. Só estou precisando ter algo muito bom para fazer, ela quer dizer. Só quero rir sem ter que pensar que músculos usar.
Mo baixa o olhar para sua mão. Vê um número de telefone borrado em esferográfica azul em seu polegar esquerdo.
— Sim. Quanto a isso...
— Sei o que você disse sobre ter muita gente na casa dele. Então, se ele quiser passar a noite de Natal aqui, está perfeito. Vai ser um pesadelo tentar pegar táxi para voltar para casa. — Ela dá um sorriso forçado. — Acho que vai ser divertido. Acho... Acho que todos estamos precisando nos divertir um pouco.
— Liv, ele não vem.
— O quê?
— Ele não vem.
Mo contrai os lábios.
— Não estou entendendo.
Quando Mo fala, as palavras saem com cuidado, como se ela estivesse considerando as ramificações de cada uma.
— Ranic é bósnio. Os pais dele perderam tudo nos Bálcãs. O seu processo, essa merda... é real para ele. Ele... ele não quer vir comemorar na sua casa. Sinto muito.
Liv fica olhando para ela, depois bufa e empurra o açucareiro na mesa.
— Sim. Certo. Esquece, Mo. Já moro com você há muito tempo.
— O quê?
— Sua boba. Bem, você não vai me pegar dessa vez.
Mas Mo não ri. Nem olha nos olhos da amiga. Enquanto Liv espera, Mo acrescenta:
— Tudo bem, bom, se vamos fazer isso... — Ela para e respira. — Não estou dizendo que concordo com Ranic, mas meio que acho que você devia devolver o quadro.
— O quê?
— Olhe, não quero nem saber a quem o quadro pertence, mas você vai perder, Liv. Todo mundo consegue ver isso, mesmo que você não consiga.
Liv olha para ela.
— Eu leio os jornais. A prova é gritante contra você. Se continuar brigando, vai perder tudo. E por quê? Por umas manchas de óleo numa tela?
— Não dá para eu simplesmente entregar a garota.
— Por quê?
— Essa gente não liga para Sophie. Só pensa no dinheiro.
— Caramba, Liv, é um quadro.
— Não é só um quadro! Ela foi traída por todos que a cercavam. Não teve ninguém no fim! E ela... ela é tudo que me sobrou.
Mo olha para ela com firmeza.
— É mesmo? Então eu gostaria de ter um monte do seu nada.
Elas se fitam e desviam o olhar. Liv sente o sangue subir-lhe à cabeça.
Mo respira fundo e inclina-se para a frente.
— Entendo que você esteja tendo problemas de confiança por causa de tudo que passou com Paul, mas você precisa se afastar um pouco disso tudo. E sinceramente? Não tem mais ninguém por aqui que vai dizer isso para você.
— Bem, obrigada. Vou me lembrar disso da próxima vez. Vou abrir o maço matinal de correspondência rancorosa ou mostrar minha casa para mais um estranho.
O olhar que as duas trocam é inesperadamente frio. Instala-se o silêncio entre elas. A boca de Mo se contrai, segurando um dique de palavras rompido.
— Certo — diz afinal. — Bem, vou ter que falar, já que a situação não poderia ficar mais constrangedora. Vou sair daqui. — Ela se abaixa e fica mexendo no sapato, então sua voz sai, abafada, de perto do tampo da mesa. — Vou morar com Ranic. Não é o processo. Como você disse, morar aqui nunca foi um plano de longo prazo.
— É isso que você quer?
— Acho que é melhor.
Liv está colada na cadeira. Dois homens se sentam na mesa ao lado, sem interromper a conversa. Um deles compreende o que se passa: olha de soslaio e depois disfarça.
— Estou, sabe, agradecida por... por você ter me deixado ficar tanto tempo.
Liv pisca com força e desvia o olhar. Seu estômago dói. A conversa na mesa ao lado morre, dando lugar a um silêncio constrangido.
Mo dá um último gole no café e empurra a xícara.
— Bem. Acho que é isso aí, então.
— Certo.
— Saio amanhã se não tiver problema. Hoje trabalho até tarde.
— Ótimo. — Ela tenta manter o tom normal. — Isso foi... esclarecedor.
Não tinha a intenção de fazer a frase soar tão sarcástica quanto soou.
Mo aguarda só um instante a mais antes de se levantar, pegar o casaco e pendurar a mochila no ombro.
— Só uma coisa, Liv. E sei que nem conheci ele nem nada. Mas você falou muito nele. É o seguinte. Fico me perguntando: o que David teria feito?
O nome dele causa uma pequena explosão no silêncio.
— Falando sério. Se o seu David ainda estivesse vivo, e esse caso todo tivesse estourado, então, tudo isso sobre a história do quadro, de onde ele poderia vir, o que a garota e a família dela poderiam ter sofrido: o que acha que ele teria feito?
Deixando esse pensamento suspenso no ar, Mo dá meia-volta e se retira do café.

* * *

Sven liga quando Liv sai do café. A voz dele está tensa.
— Dá para passar no escritório?
— Não é uma boa hora, Sven.
Ela esfrega os olhos, olha para a Casa de Vidro. Suas mãos ainda tremem.
— É importante.
Ele desliga o telefone sem lhe dar tempo de dizer mais nada.
Liv dá meia-volta e se dirige para o escritório. Agora, só anda de cabeça baixa, com um chapéu enterrado na cabeça, evitando os olhares alheios. Por duas vezes, teve que discretamente enxugar lágrimas dos cantos dos olhos.
Só restam duas pessoas no escritório da Solberg Halston quando ela chega: Nisha, uma jovem com o cabelo até os ombros, num corte geométrico, e um homem cujo nome ela não se lembra. Como eles parecem preocupados, Liv atravessa o saguão iluminado a caminho da sala de Sven sem cumprimentá-los.
A porta está aberta, e depois que ela entra Sven se levanta para fechá-la. Ele lhe beija no rosto, mas não lhe oferece café.
— Como está indo o processo?
— Mais ou menos — diz ela, irritada com a urgência com que ele a chamou. O comentário final de Mo ainda ecoa em sua cabeça: o que David teria feito?
Então ela nota como Sven está pálido, levemente abatido e fitando fixamente o bloco à sua frente.
— Está tudo bem? — pergunta ela.
Ela tem um momento de pânico. Por favor, diga que Kristen está bem, que as crianças estão todas bem.
— Liv, estou com um problema.
Ela se senta, com a bolsa no joelho.
— Os irmãos Goldstein caíram fora.
— O quê?
— Eles rescindiram o contrato. Por causa do seu processo. Simon Goldstein me telefonou hoje de manhã. Eles andam acompanhando os jornais. Ele diz... que a família dele perdeu tudo para os nazistas, e que ele e o irmão não podem ser associados a alguém que aceita isso.
O mundo para em volta deles. Ela olha para ele.
— Mas... mas ele não pode fazer uma coisa dessas. Eu não... eu não faço parte da empresa.
— Você ainda é diretora honorária, Liv, e o nome do David está muito envolvido no seu processo de defesa. Simon está ativando uma cláusula em letras miúdas. Ao brigar nesse processo contra todas as provas razoáveis, você aparentemente está desacreditando o nome da empresa. Eu disse a ele que isso era uma tremenda insensatez, e ele diz que podemos contestar, mas ele tem bolsos muito fundos. Textualmente: “Você pode me processar, Sven, mas vou ganhar.” Vão pedir a outra equipe para terminar o trabalho.
Ela está estarrecida. O prédio Goldstein fora a apoteose da vida profissional de David: a obra que iria celebrá-lo.
Ela olha para o perfil de Sven, totalmente imóvel. O homem parece ter sido talhado em pedra.
— Ele e o irmão... parecem ter uma opinião muito firme sobre a questão da restituição.
— Mas... mas isso não é justo. Ainda nem sabemos de toda a verdade sobre o quadro.
— A questão não é essa.
— Mas nós...
— Liv, passei o dia todo em cima disso. A única forma de eles concordarem a continuar com a nossa empresa é se... — ele respira fundo — o nome Halston não estiver mais associado a ela. Isso significaria você renunciar ao seu cargo de diretora honorária. E uma mudança de nome para a companhia.
Ela repete mentalmente as palavras em silêncio antes de falar, tentando entendê-las.
— Você quer que o nome de David seja apagado da empresa.
— Sim.
Ela baixa os olhos.
— Me desculpe. Sei que isso é um choque, mas para nós também foi.
Um pensamento lhe ocorre.
— E o que aconteceria com meu trabalho com as crianças?
Ele balança a cabeça de um lado para o outro.
— Sinto muito.
É como se o coração dela tivesse congelado. Há um longo silêncio, e, quando ela fala, o faz devagar, a voz artificialmente alta na sala silenciosa.
— Então vocês decidiram que, pelo fato de eu não querer simplesmente entregar o nosso quadro, o quadro que David comprou legalmente anos atrás, nós devemos ser de certa forma desonestos. E então quer apagar o nosso nome da obra de caridade e do negócio dele. Você quer apagar o nome de David do prédio que ele criou.
— Essa é uma forma muito melodramática de ver a situação. — Pela primeira vez, Sven parece sem jeito. — Liv, esta é uma situação dificílima. Mas, se eu concordar com o seu caso, todo mundo nesta empresa pode perder o emprego. Você sabe quanto estamos envolvidos no prédio Goldstein. A Solberg Halston não pode sobreviver se eles caírem fora agora.
Ele se debruça na mesa.
— Clientes bilionários não caem do céu. E tenho que pensar em nosso pessoal.
Do lado de fora da sala, alguém está se despedindo. Ouve-se uma gargalhada rápida. Ali dentro, o silêncio é sufocante.
— Então, se eu entregasse a garota, eles manteriam o nome de David no prédio?
— Isso é algo que ainda não discuti. Possivelmente.
— Possivelmente. — Liv digere isso. — E se eu me negar?
Sven tamborila com a caneta na mesa.
— Dissolveremos a empresa e montaremos uma nova.
— E os Goldstein aceitariam isso.
— É possível, sim.
— Então não importa muito o que eu disser. Esta é basicamente uma visita de cortesia.
— Sinto muito, Liv. Esta é uma situação impossível. Estou numa situação difícil.
Liv fica ali sentada mais um instante. Então, sem uma palavra, levanta-se e retira-se da sala de Sven.

* * *

É uma da manhã. Liv olha para o teto, ouve Mo andando pelo quarto de hóspedes, fechando a mochila e largando-a pesada junto a porta. Ouve a descarga do banheiro, os passos leves no chão, depois um silêncio que lhe faz crer que Mo dormiu. Ela está ali deitada pensando se atravessa o corredor, tenta persuadir Mo a não ir embora, mas as palavras que se embaralham em sua cabeça se recusam a cair em qualquer espécie de ordem útil. Ela pensa num prédio semiacabado a vários quilômetros dali, cujo arquiteto terá o nome enterrado tão fundo quanto as fundações da construção.
Ela pega o celular ao lado da cama. Fica olhando para a pequena tela à meia-luz.
Não há novas mensagens.
A solidão bate nela com uma força quase física. As paredes ao seu redor parecem imateriais, não oferecem proteção contra o mundo hostil para além delas. Esta casa não é transparente e pura como David desejara: seus espaços vazios são frios e insensíveis, suas linhas limpas estão emaranhadas de história, suas superfícies de vidro toldadas pelas entranhas intrincadas das vidas.
Ela tenta sufocar as ondas de um leve pânico. Pensa nos papéis de Sophie, numa prisioneira embarcada num trem de carga. Se os apresentar em juízo, ela sabe, talvez consiga ficar com o quadro.
E, se eu fizer isso, pensa ela, constará para sempre que Sophie foi uma mulher que dormiu com um alemão, traindo seu país e seu marido. E eu não serei melhor do que os aldeões que a deixaram na mão.
Uma vez feito, não pode ser desfeito.

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