30 de novembro de 2017

Capítulo 28 - Triste alma

— É ela! — gritou Ethna, com a voz encorpada e doce. Ela puxou a criança para mais perto de si e ergueu a lâmina em sua mão. — Esta é a assassina de Fal.
— Era um combate — falou Emma. — Ele teria me matado. — Ela olhou para os outros Cavaleiros, enfileirados e virados para ela; uma fila de estátuas sinistras. — Eu imaginava que guerreiros saberiam a diferença.
— Você deveria morrer como seus pais — sibilou um dos outros Cavaleiros. Delan — Torturada e retalhada com facas, como eles foram.
O coração de Emma acelerou no peito. O temor pela garotinha ainda estava lá, mas a raiva estava começando a se misturar a ele.
— Soltem a menina — falou. — Soltem-na e podem lutar comigo. Vinguem-se em mim, se quiserem.
Emma podia ouvir as batidas na porta atrás de si. Em pouco tempo elas seriam abertas; ela não tinha ilusão de que o símbolo de fechamento os trancaria para sempre. Suas Marcas agora tinham um poder surpreendente, por causa de Julian — mas ele seria um rival em sua capacidade.
Emma ergueu Cortana, o sol da manhã deslizando sobre a lâmina feito manteiga derretida.
— Eu matei seu irmão com esta espada — disse ela. — Você quer vingança? Solte a garotinha e eu lutarei contra você. Ameace-a por mais um minuto e voltarei para dentro do Instituto. — Seus olhos passearam de Cavaleiro para outro. Ela pensou nos pais, nos corpos deles, nus e abandonados na praia para as gaivotas bicarem. — Nós despojamos o corpo de Fal — mentiu. — Tiramos sua armadura, quebramos sua espada e o abandonamos para os ratos e os corvos...
Ethna soltou um guincho alto e empurrou a garotinha para longe. A menina caiu no chão — Emma arfou — mas se equilibrou e correu, soluçando, para a estrada. Apenas uma vez ela olhou para trás, a boquinha muito aberta no rosto manchado de lágrimas enquanto disparava pelo portão e desaparecia.
O alívio invadiu Emma. A menina estava salva.
E então Ethna avançou, os cascos de seu cavalo silenciosos na pedra do pátio. Ela era como uma lança no ar, silenciosa e mortal; Emma dobrou os joelhos e saltou, usando a altura dos degraus e a força da queda para dar ímpeto no balanço da espada.
As lâminas retiniram em pleno ar. O choque fez tremer os ombros de Emma. O braço de Ethna se abriu; Emma caiu agachada e impulsionou a espada de novo, mas a mulher fada já havia se jogado das costas do cavalo. Agora ela estava de pé e ria; os outros Cavaleiros tinham desmontado também. Seus cavalos desapareceram, como se tivessem sido absorvidos pelo ar enquanto os Filhos de Mannan se lançavam contra Emma, com as armas erguidas.
Emma se levantou, e Cortana descreveu um amplo arco acima de sua cabeça, acertando cada espada em separado — a cena remeteu a dedos deslizando sobre as teclas de um piano, tocando uma nota por vez.
Mas foi por pouco. A última espada, de Dedlan, pegou o ombro de Emma. Ela sentiu o uniforme rasgar e a pele arder. Outra cicatriz para somar ao mapa delas.
Emma girou, e Ethna estava bem atrás dela. A guerreira segurava duas espadas curtas, bronze reluzindo, e golpeou Emma com uma e depois com a outra. Emma pulou para trás, quase em cima da hora. Se não estivesse usando o uniforme, ela sabia, estaria morta, com as vísceras espalhadas na laje. Ela sentiu o casaco rasgar e, mesmo no frio da batalha, uma ponta quente de medo desceu por sua espinha.
Isso era impossível. Ninguém poderia enfrentar os seis Cavaleiros. Ela fora louca de tentar, mas então pensou nos pezinhos com tênis cor-de-rosa e não se arrependeu. Nem mesmo quando se virou e se deparou com três Cavaleiros bloqueando seu caminho de volta para o Instituto.
A porta do Instituto tinha parado de balançar. Que bom, pensou Emma. Os outros deveriam ficar em segurança lá dentro; era a coisa mais prudente a se fazer, a coisa inteligente.
— Seus amigos abandonaram você — zombou um dos Cavaleiros, bloqueando o caminho dela. Seu cabelo de bronze era curto e cacheado, e lhe dava a aparência de um kouros grego. Ele era adorável. Emma o odiava com todas as forças. — Renda-se agora e nós lhe daremos uma morte rápida.
— Eu poderia me dar uma morte rápida, se quisesse isso — falou Emma, com a espada em riste para manter as outras três fadas afastadas. — Surpreenda-me.
Ethna a encarava com expressão severa. Os outros Cavaleiros — ao menos, Airmed reconhecia Emma — murmuravam; ela captou as últimas palavras de uma frase: “... é a espada, como eu falei.”
— Marcas não podem nos machucar — disse Airmed — nem lâminas serafim.
Emma mergulhou para Ethna. A mulher fada rodopiou, cruzando as lâminas num golpe rápido como um açoite.
Emma deu um salto. Era um movimento que ela havia praticado repetidas vezes com Julian na sala de treinamento, usando uma barra que eles elevavam um pouquinho todos os dias. As lâminas passaram sob os pés dela e, no fundinho de sua mente, ela viu Julian, com os braços erguidos para segurá-la.
Julian. Ela pousou do outro lado de Ethna, girou e enfiou sua arma nas costas da fada.
Ou tentou, pelo menos. Ethna se virou, e a lâmina rasgou a armadura de bronze, abrindo um talho na lateral. Ela guinchou e cambaleou para trás, e Emma puxou Cortana para soltá-la, o sangue respingando da lâmina sobre a laje.
Emma ergueu a espada.
— Esta é Cortana — arfou, com o peito subindo e descendo. — Do mesmo aço e da mesma forja que Joyeuse e Durendal. Não há nada que Cortana não possa cortar.
— Uma arma de Wayland, o Ferreiro — gritou o Cavaleiro com os cachos de bronze e, para surpresa de Emma, havia medo em sua voz.
— Silêncio, Karn — gritou um dos outros. — Ainda assim, é só uma arma. Mate-a.
O belo rosto de Karn se contraiu. Ele ergueu a arma, um imenso machado de batalha, e correu para Emma; ela ergueu Cortana...
E a porta da frente do Instituto se abriu com força, expelindo Caçadores de Sombras.
Julian. Emma o viu primeiro, um borrão de uniforme, espada e cabelos escuros. Em seguida, Mark, Cristina. Kieran, Ty, Livvy. E Kit, que provavelmente viera da enfermaria, pois parecia ter vestido o uniforme por cima do pijama. Pelo menos ele calçava botas.
Eles fizeram os Cavaleiros recuarem nos degraus; primeiro, Julian e Mark, com as espadas reluzindo nas mãos. Nenhum deles trazia lâminas serafim, Emma viu — eles tinham pegado somente armas com lâminas simples, sem marcas, próprias para matar integrantes do Submundo. Kieran também trazia uma, cujo pomo e punho brilhavam com ouro e prata em vez de aço.
Um dos Cavaleiros soltou um rugido de raiva ao ver o príncipe fada.
— Traidor! — rosnou.
Kieran fez uma pequena mesura.
— Eochaid — falou, como se o saudasse. — E Etarlam. — Ele piscou para o sexto Cavaleiro, que fizera uma expressão de desagrado. — É bom vê-los.
Eochaid partiu para cima dele. Kieran abaixou-se, meio agachado, girando a espada com uma leveza e prática que surpreenderam Emma.
O tinir de suas lâminas parecia indicar o início de uma batalha muito maior. Julian e Mark tinham obrigado os Cavaleiros a sair dos degraus no momento da surpresa de sua aparição. Agora os outros caíram sobre eles, caçando-os e atacando-os com as armas. Mark, que trazia uma espada reta de fio duplo, foi atrás de Dedlan; os gêmeos atacaram Airmed, enquanto Cristina, mais do que furiosa, avançou para Etarlam.
Julian avançou em meio ao borrão do combate, golpeando para as laterais e abrindo caminho até Emma. De repente, seus olhos se arregalaram: Atrás de você!
Ela girou. Era Ethna, com o rosto deformado numa máscara de ódio. Suas armas faziam um movimento de tesoura; Emma ergueu Cortana bem na hora, e as lâminas duplas de Ethna se fecharam sobre ela com força selvagem.
E se partiram.
A mulher fada arfou, surpresa. Um segundo depois, ela cambaleava para trás, com as mãos no ar. Julian desviou seu curso e pulou atrás dela, mas outra arma estava tomando forma em sua mão; desta vez, uma espada curta, semelhante à shamshir persa.
A espada de Julian bateu na de Ethna. Emma sentiu a colisão entre as armas bifurcando-se nela como um raio. De repente, tudo estava acontecendo muito rápido: Julian girava graciosamente, afastando-se da lâmina, mas sua ponta o encontrou no alto do braço. Emma sentiu a dor do golpe, a dor de seu parabatai, assim como ela sentira a espada dele atingindo a de Ethna. Ela se lançou para os dois, mas Eochaid se ergueu à sua frente, e a ponta da espada dele se precipitou para o rosto dela, um borrão prateado cortando o ar.
Ela caiu de lado, longe. Eochaid uivou, um som zangado e brutal, e girou, afastando-se dela e atacando selvagemente o vulto que viera por trás dele, cuja arma lhe cortara o ombro. O sangue manchava a armadura de bronze do guerreiro.
Era Kieran. Seu cabelo, um emaranhado de mechas brancas e pretas, grudadas com sangue na têmpora. As roupas estavam manchadas de vermelho, o lábio cortado. Ele encarou Emma, com a respiração pesada.
Eochaid pulou em cima dele, e os dois começaram a lutar selvagemente. O mundo pareceu um tumulto de lâminas tinindo: Emma ouviu um grito e viu Cristina lutando para chegar até Kit, que fora derrubado por Delan. Os Cavaleiros tinham se aglomerado nos degraus para bloquear as portas do Instituto. Julian mantinha Ethna afastada; os gêmeos lutavam com as costas coladas, tentando golpear e abrir caminho pelos degraus junto a Mark.
Emma começou a acotovelar cegamente até Kit, uma frieza em seu coração. Os Cavaleiros eram ferozes demais, fortes demais. Eles não se cansariam.
Delan estava de pé acima de Kit, com a lâmina alta no ar. Kit se arrastava para trás com os cotovelos. Ema espada brilhou na frente de Emma; ela a derrubou com Cortana e ouviu alguém xingar. Delan fitava Kit atentamente, como se o rosto do menino guardasse algum mistério.
— Quem é você, menino? — quis saber o Cavaleiro, com a lâmina imóvel.
Kit limpou o sangue do rosto. Havia uma adaga perto dele nas lajes, mas fora do alcance de sua mão.
— Christopher Herondale — falou ele, os olhos brilhando arrogantemente. Ela era um Caçador de Sombras, pensou Emma, de verdade; nunca imploraria pela própria vida.
Delan bufou.
— Qui omnia nomini debes — falou, e fez menção de golpear com a espada justamente quando Emma se abaixou e rolou para debaixo da lâmina, com Cortana brilhando e cortando o pulso de Delan.
O guerreiro fada gritou, um uivo que ecoou com ira e dor. O ar estava tomado por uma névoa de sangue. A mão de Delan bateu no chão, pegando a arma, segurando a espada; um segundo depois, Kit estava de pé, pegando a arma, com os olhos ardentes. Emma estava ao lado dele e, juntos, eles começaram a encurralar Delan; o sangue salpicando as lajes enquanto ele se retirava.
Mas o guerreiro estava rindo.
— Matem-me se pensam que podem — zombou. — Mas olhem em volta. Vocês já perderam.
Kit tinha a lâmina erguida e apontada diretamente para a garganta de Delan.
— Olhe você — falou ele com voz firme — eu vou acertar.
Emma olhou em volta. Airmed tinha imprensado Ty e Livvy contra uma parede. Ethna tinha a arma na garganta de Julian. Etarlam forçara Cristina de joelhos. Mark a encarava, horrorizado, mas não podia se mexer; Eochaid estava com a espada apontada contra as costas dele, justamente onde poderia partir a coluna.
Karn estava de pé no topo da escadaria, com a espada desembainhada e um sorriso no rosto adorável e cruel.
Emma engoliu em seco. Kit xingava baixinho para ninguém ouvir. Karn falou e seus dentes brilharam, brancos, com o sorriso:
— Entreguem o Volume Negro. Nós deixaremos vocês irem embora.
Kieran ficou imóvel, olhando de Mark para Cristina.
— Não lhe deem ouvidos! — gritou. — Os Cavaleiros são magia selvagem... eles podem mentir.
— Nós não estamos com o livro — falou Julian com voz firme. — Nunca estivemos. Nada mudou.
Ele parecia calmo, mas Emma enxergava por baixo de sua superfície, atrás dos olhos. Ela ouvia o ribombar do coração de Julian. Ele olhava para ela, para Mark, Ty e Livvy e estava mortalmente apavorado.
— Você está pedindo algo que não podemos fazer — continuou Julian. — Mas talvez a gente possa negociar. Podemos prometer a vocês que levaremos o livro assim que o encontrarmos...
— Suas promessas não significam nada — rosnou Ethna. — Vamos matá-los agora e mandar um recado à Rainha, que os truques dela não serão tolerados!
Karn deu risada.
— Sábias palavras, irmã — falou ele. — Preparem suas lâminas...
A mão de Emma apertou Cortana. Sua mente girava — ela não podia matar todos eles, não podia evitar o que iam fazer, mas, pelo Anjo, ela ia levar alguns consigo...
Os portões do pátio se abriram. Não estavam trancados, mas agora foram abertos com tal força que, apesar do peso, saíram voando e bateram nos muros de pedra, chacoalhando como correntes partidas.
Além do portão, havia nevoeiro — denso e incongruente com um dia tão ensolarado. O cenário violento no pátio permanecia em suspenso, preso pelo choque, quando o nevoeiro clareou e uma mulher entrou no terreno.
Ela era magra e de altura mediana, seus cabelos eram castanho-escuros e desciam até a cintura. Usava uma combinação rasgada por cima de uma saia comprida, que não tinha um bom caimento, e botas curtas. A pele nua dos braços e ombros proclamava que se tratava de uma Caçadora de Sombras, com cicatrizes de Caçadora de Sombras. A Marca da Visão decorava a mão direita dela.
Ela não trazia armas. Em vez disso, abraçava um livro — um volume antigo, encadernado em couro, riscado e gasto. Um pedaço de papel dobrado estava dobrado entre duas páginas, como um marcador. Ela ergueu a cabeça e olhou firmemente diante de si, para a cena no pátio; sua expressão não era de surpresa, como se não estivesse esperando por outra coisa.
O coração de Emma começou a latejar. Já tinha visto aquela mulher, embora fosse uma noite escura na Cornualha. Ela a conhecia.
— Eu sou Annabel Blackthorn — falou a mulher num tom nítido e constante, com um leve sotaque. — O Volume Negro é meu.
Eochaid xingou. Ele tinha um rosto cruel, com ossos finos, semelhante a uma águia.
— Vocês mentiram para nós — rosnou ele para Emma e os outros. — Disseram que não faziam ideia de onde o livro estava.
— Não faziam mesmo — falou Annabel, ainda com o mesmo autocontrole. — Malcolm Fade estava em poder dele, e eu o tirei de seu cadáver. Mas ele é meu e sempre foi meu. Pertencia à biblioteca na qual cresci. O livro sempre foi propriedade dos Blackthorn.
— No entanto — falou Ethna, embora estivesse olhando para Annabel com um respeito duvidoso, um que só era devido aos mortos-vivos, desconfiava Emma — você o dará a nós ou vai encarar a ira do Rei Unseelie.
— O Rei Unseelie — murmurou Annabel. Seu rosto era plácido de um modo que dava arrepios em Emma. Certamente ninguém poderia ficar plácido nesta situação, ao menos não alguém que não fosse louco? — Dê-lhe lembranças. Diga que eu sei o nome dele.
Delan empalideceu.
— Sabe o quê? — Saber o verdadeiro nome de uma fada conferia a qualquer um que o soubesse poder sobre o dono do nome. Emma não conseguia imaginar o que significava para o Rei ter seu nome revelado.
— O nome dele — falou Annabel. — Malcolm foi muito próximo dele durante muitos anos. Ele aprendeu o nome do monarca. Eu também sei. Se vocês não saírem agora e retornarem ao Rei com meu recado, direi o nome a todos do Conselho. Direi a todos os integrantes do Submundo. O Rei não é amado. Ele vai achar os resultados muito insatisfatórios.
— Ela mente — falou Airmed, os olhos fendidos de gavião.
— Arrisque-se com o Rei então — falou ela. — Deixe-o descobrir quem são os responsáveis pela divulgação de seu nome.
— Seria mais fácil silenciar você — falou Etarlam.
Annabel não se mexeu quando ele avançou para ela, erguendo a mão livre, como se quisesse acertá-la no rosto. Ele investiu, e ela segurou o pulso dele, com a mesma leveza de uma debutante segurando o braço de seu parceiro durante uma dança.
E então ela o arremessou. Ele cruzou o pátio e bateu numa parede, a armadura fazendo um estrondo. Emma arfou.
— Etar! — Gritou Ethna. Ela correu para o irmão, abandonando Jules... e congelou. A espada curva estava se erguendo da mão dela. Ela esticou o braço para pegá-la, mas a arma flutuava acima de sua cabeça. Mais gritos vieram dos outros Cavaleiros: suas espadas estavam sendo retiradas de suas mãos, flutuando acima de suas cabeças. Ethna encarou Annabel com raiva. — Sua idiota!
— Não foi ela — ouviu-se uma voz à entrada. Era Magnus Bane, que se apoiava pesadamente no ombro de Dru. A menina parecia sustentá-lo de alguma forma. Fogo azul faiscava da mão livre do feiticeiro. — Magnus Bane, Alto Feiticeiro do Brooklyn, ao seu dispor.
Os Cavaleiros trocaram olhares. Emma sabia que eles poderiam criar armas facilmente, mas qual seria a vantagem disso, se Magnus simplesmente as tiraria de suas mãos? Seus olhos se estreitaram, os lábios sorriram.
— Isso ainda não acabou — falou Karn, e ao mesmo tempo olhou para o outro lado do pátio, diretamente para Emma. Isso ainda não acabou entre nós.
Em seguida, ele desapareceu, e os Cavaleiros restantes o seguiram. Em um instante, estavam lá; no outro, tinham ido embora, deixando de existir como estrelas sumindo do céu. As espadas bateram no chão com o retinido alto de metal contra pedra.
— Olha só! — murmurou Kit. — Espadas grátis.
Magnus soltou um grunhido e cambaleou para trás; Dru o segurou, com preocupação nos olhos arregalados.
— Entrem agora. Todos vocês.
Eles fizeram um esforço para obedecer, quem saíra ileso parou para ajudar os feridos, embora nenhum dos ferimentos fosse grave. Emma encontrou Julian sem nem precisar olhar para ele — seus sentidos parabatai ainda zumbiam, a consciência interior do corpo dela sabendo que Jules havia se cortado e precisaria de cura. Ela passou o braço da cintura dele da maneira mais delicada possível, e ele se encolheu. Seus olhares se encontraram e ela soube que ele pressentia seu machucado, o corte no alto do ombro.
Ela queria abraçá-lo, limpar o sangue do rosto, beijar suas pálpebras cerradas. Mas sabia o que isso ia parecer. Ela se conteve, com um controle que doía ainda mais que o ferimento.
Julian apertou as mãos dela e se afastou, relutante.
— Eu tenho que ir atrás de Annabel — disse ele em voz baixa.
Emma se assustou. Ela quase tinha se esquecido de Annabel, que ainda estava ali, no meio do pátio, com o Volume Negro abraçado ao peito. Os outros estavam parados em volta dela, sem saber o que fazer — era evidente que, depois de terem passado tanto tempo procurando por Annabel, ninguém imaginara que ela iria até eles.
Julian também parou antes de alcançá-la, hesitando, decidindo como quebrar o silêncio. Perto dele, Ty estava de pé entre Livvy e Kit, e todos fitavam Annabel como se ela fosse uma aparição e realmente não estivesse lá.
— Annabel. — Era Magnus. Ele cambaleara, descendo os degraus até o último; agora a mão estava leve sobre o ombro de Dru, embora houvesse olheiras de cansaço abaixo debaixo de seus olhos. Ele parecia triste, aquele tipo de tristeza infinita que nascia abaixo de uma época, de uma vida, que Emma sequer poderia nem imaginar. — Oh, Annabel. Por que você veio até aqui?
Annabel retirou o pedaço de papel dobrado de dentro do Volume Negro.
— Eu recebi uma carta — falou, com uma voz tão suave que mal se ouvia. — De Tiberius Blackthorn.
Só Kit não pareceu surpreso. Ele pôs a mão no braço de Ty enquanto o outro menino examinava o chão furiosamente.
— Havia alguma coisa nela — falou Annabel. — Eu tinha pensado que a mão do mundo se virara contra mim, mas, ao ler a carta, imaginei que houvesse uma chance de não ser assim. — Ela empinou o queixo no gesto característico e desafiador dos Blackthorn, que sempre partia o coração de Emma. — Eu vim falar com Julian Blackthorn sobre o Volume Negro dos Mortos.


— Tem uma pessoa morta-viva em nossa biblioteca — falou Livvy. Ela estava sentada numa das camas compridas da enfermaria. Todos tinham se reunido lá; todos, menos Magnus, que se fechara na biblioteca com Annabel. Eles recebiam Marcas, medicamentos e eram limpos. Havia uma pequena pilha crescente de panos ensanguentados sobre o balcão.
Ty estava na mesma cama que Livvy, com as costas apoiadas na cabeceira. Como sempre depois de uma batalha, notara Emma, ele se recolhia um pouco, como se precisasse se recuperar do barulho e do choque. Ty torcia alguma coisa entre os dedos em movimentos rítmicos regulares, embora Emma não pudesse ver o que era.
— Não é a nossa biblioteca — falou ele. — É de Evelyn.
— Ainda assim, é estranho — retrucou Livvy. Nem ela nem Ty se machucaram no combate, mas Kit se ferira e ela estava terminando uma iratze nas costas dele. — Pronto — disse, dando um tapinha em seu ombro, e ele vestiu a camiseta, retraindo-se.
— Ela não é uma morta-viva, não exatamente — disse Julian. Emma lhe dera uma iratze, mas parte dela sentira medo de desenhar símbolos dele, então ela parara e, em vez disso, enfaixara o ferimento. Ele tinha um longo corte que ia até o braço, e, mesmo depois de ter vestido a camisa, as ataduras eram visíveis através do tecido. — Ela não é um zumbi, nem um fantasma.
Um dos copos de água sobre a mesinha de cabeceira caiu com uma pancada.
— Jessamine não gostou disso — falou Kit.
Cristina riu. Ela também não estava machucada, mas segurava o pingente no pescoço enquanto observava Mark cuidar dos ferimentos de Kieran. Caçadores se curavam rápido, Emma sabia, mas também se machucavam facilmente, ao que parecia. Um mapa preto-azulado se espalhava pelas costas e ombros dele, e uma maça do rosto estava escurecendo. Segurando um pano que Cristina tinha umedecido para ele, Mark limpava o sangue delicadamente.
A flecha de elfo brilhou no pescoço de Mark. Emma não sabia exatamente o que estava acontecendo entre Mark, Kieran e Cristina — Cristina fora excepcionalmente relutante em explicar — mas sabia que Kieran tinha entendido a verdade sobre a relação dele e de Mark. Ainda assim, Kieran não pedira a flecha de elfo de volta, então já era alguma coisa.
Ela percebeu, com um pequeno sobressalto de surpresa, que torcia para as coisas se ajeitarem entre eles. Torcia que não fosse deslealdade para com Cristina. Mas não sentia raiva de Kieran mais — ele podia ter cometido um erro, mas já pagara por ele muitas vezes desde então.
— Onde estava Jessamine mais cedo? — perguntou Julian. — Ela não devia proteger o Instituto?
Outro copo quebrado.
— Ela disse que não pode sair do Instituto, que só pode proteger seu interior — Kit fez uma pausa. — Não sei se deveria repetir o restante do que ela disse. — Depois de um momento, ele sorriu. — Obrigado, Jessamine.
— O que foi que ela disse? — perguntou Livvy, pegando a estela.
— Que sou um verdadeiro Herondale — falou Kit. Ele franziu a testa. — O que o cara metálico disse para mim quando falei meu nome? Ele falou em idioma das fadas?
— Curiosamente, era latim — disse Julian. — Um insulto. Uma coisa que Marco Antônio disse a César, “você, menino, que tudo deve a um nome”. Ele estava dizendo que o outro nunca teria sido alguma coisa se não tivesse sido César.
Kit pareceu irritado.
— Eu sou um Herondale há umas três semanas — falou. — E nem sei ao certo o que consegui com isso.
— Não preste muita atenção ao que as fadas dizem — retrucou Kieran. — Elas vão irritar você do jeito que puderem.
— E isso inclui você? — perguntou Cristina, com um sorriso.
— Claro — respondeu Kieran, sorrindo também, mas bem de leve.
A amizade deles era a mais esquisita que Emma já vira, pensou ela.
— Estamos nos desviando do assunto — falou Livvy. — Annabel Blackthorn está em nossa biblioteca. Isso é estranho, não é? Alguém mais acha estranho?
— Por que isso é mais estranho do que vampiros? — perguntou Ty, visivelmente perplexo. — Ou licantropes?
— Bem, claro que você não pensaria isso — falou Kit. — Foi você quem falou para ela vir.
— Sim, sobre isso — começou Julian. — Há alguma razão em especial para você não ter contado a nenhum de nós...
Ty foi salvo do castigo do irmão quando a porta da enfermaria foi aberta. Era Magnus. Emma não gostou nada da aparência dele: ele parecia sinistramente pálido, com olheiras, movimentos rígidos, como se estivesse cheio de hematomas. Sua boca era uma linha comprimida.
— Julian — chamou ele. — Se você puder me acompanhar.
— Para quê? — perguntou Emma.
— Eu tentei conversar com Annabel — falou Magnus. — Pensei que ela poderia estar disposta a se abrir com alguém que não fosse um Caçador de Sombras, se tivesse a opção, mas ela é teimosa. É educada, mas diz que só falará com Julian.
— Ela não se lembra de você? — perguntou Julian, levantando-se.
— Ela se lembra de mim — falou Magnus. — Mas como amigo de Malcolm. E ela não é a maior fã dele atualmente.
Ingrata, Emma se lembrou do que Kieran dissera. Mas ele estava em silêncio agora, abotoando outra vez a camisa rasgada, os olhos machucados baixos.
— Por que ela não quer falar com Ty? — perguntou Livvy. — Foi ele quem mandou a mensagem.
Magnus deu de ombros como se dissesse Eu não sei.
— Muito bem, já volto — falou Julian. — Estamos indo para Idris assim que for possível; pessoal, peguem qualquer coisa que possam precisar levar com vocês.
— A reunião do Conselho é hoje à tarde — falou Magnus. — Terei força para criar um Portal daqui a algumas horas. Esta noite vamos dormir em Alicante.
Ele parecia aliviado com isso. O feiticeiro e Julian foram para o corredor. Emma pretendia ficar para trás, mas não conseguiu — saiu correndo atrás dele antes que a porta se fechasse.
— Jules — falou ela. Ele já estava seguindo pelo corredor com Magnus; ao ouvir a voz dela, ambos se viraram.
Ela não poderia ter feiro isso na enfermaria, mas era só Magnus, e ele já sabia. Ela foi até Julian e passou os braços em volta dele.
— Toma cuidado — falou. — Ela já nos mandou para uma armadilha naquela igreja. Isso poderia ser uma armadilha também.
— Eu estarei lá, bem à porta da biblioteca — falou Magnus, desanimado. — Estarei pronto para intervir. Mas, Julian, em nenhuma circunstância, você deve tentar tomar o Volume Negro dela, mesmo que ela não o esteja segurando. Está preso a Annabel com uma magia muito poderosa.
Julian fez que sim com a cabeça, e Magnus desapareceu pelo corredor, deixando-os a sós. Por longos momentos, eles ficaram abraçados em silêncio, deixando a ansiedade se dissipar: o temor pelo outro no combate, o medo pelas crianças, a preocupação com o que iria acontecer em Alicante. Julian estava quente e sólido nos braços dela, com a mão traçando uma linha suave em suas costas. Ele tinha cheiro de cravo, como sempre, além de antisséptico e bandagens. Emma sentiu o queixo dele cutucar seu cabelo enquanto os dedos desenhavam pelas costas da camiseta.
N-Ã-O-S-E-P-R-E-O-C-U-P-E.
— Claro que estou preocupada — falou Emma. — Você viu o que ela fez com Etarlam. Você acha que pode convencê-la a simplesmente lhe dar o livro?
— Eu não sei — falou Julian. — Saberei quando conversar com ela.
— Annabel tem mentido tanto — retrucou Emma. — Não prometa nada que não possamos cumprir.
Ele beijou a testa dela. Seus lábios roçando na pele dela, sua voz tão baixinha que ninguém que não o conhecesse tão bem quanto Emma compreenderia.
— Vou fazer o que tiver que fazer — falou.
Ela sabia que ele falava a sério. Não havia nada mais a dizer; ela ficou observando-o, com olhos preocupados, seguir pelo corredor, em direção à biblioteca.

* * *

Kit estava em seu quarto arrumando os escassos pertences quando Livvy entrou. Ela havia se arrumado para a viagem a Idris, uma saia comprida e preta e uma blusa branca de gola arredondada. Seu cabelo estava solto.
Ela olhou para Ty, sentado na cama de Kit. Eles estavam conversando sobre Idris e o que Ty se lembrava do lugar. “Não é como qualquer lugar”, dissera ele, “mas quando você chega lá, vai se sentir como se já tivesse estado lá.”
— Ty-ty — chamou Livvy. — Bridget falou que você pode pegar um dos livros antigos de Sherlock Holmes da biblioteca e ficar com ele.
O rosto de Ty se iluminou.
— Qual deles?
— O que você quiser. Você escolhe. Só se apresse; vamos assim que pudermos, foi o que Magnus disse.
Ty correu para a porta, pareceu lembrar de Kit e girou outra vez.
— podemos conversar mais tarde — falou, e disparou pelo corredor.
— Só um livro! Um! — gritou Livvy atrás dele com uma risada. — Ai! — Ela esticou a mão para mexer em alguma coisa em sua nuca, e franziu o rosto, irritada. — Meu colar ficou preso no cabelo...
Kit esticou a mão para soltar a fina corrente de ouro. Um medalhão pendia dela, beijando a curvatura da garganta. Ao se aproximar, ele sentiu cheiro de flor de laranjeira.
Os rostos deles estavam muito perto um do outro, e a curva pálida da boca de Livvy, próxima à dele. Os lábios dela eram rosa-claros. A confusão se agitou em Kit.
Mas foi Livvy quem balançou a cabeça.
— Não devíamos, Kit. Sem beijos. Quero dizer, nós só fizemos isso uma vez, de qualquer forma. Mas não acho que seja assim que a gente deva ficar.
O colar se soltou. Kit recuou as mãos rapidamente, confuso.
— Por quê? — perguntou ele. — Eu fiz alguma coisa errada?
— Nem um pouco. — Ela olhou para ele por um momento, com olhos sábios e pensativos; havia uma felicidade branda em Livvy que atraía Kit, mas não romanticamente. Ela estava certa, ele sabia. — Está tudo bem. Ty até disse que acha nós devíamos ser parabatai, depois que tudo se resolver. — O rosto dela se iluminou. — Espero que você vá à cerimônia. E você sempre será meu amigo, certo?
— Claro — falou ele, e somente depois parou para pensar que ela havia falado meu amigo e não nosso amigo, dela e de Ty. Neste momento, ele estava apenas aliviado por não estar magoado ou chateado com a decisão dela. Em vez disso, sentia uma expectativa agradável de passar pela reunião do Conselho e ir para casa, de volta a Los Angeles, onde poderia começar seu treinamento com a ajuda dos gêmeos nas partes difíceis. — Sempre amigos.


  
Julian sentiu uma pontada de apreensão no estômago ao entrar na biblioteca. Parte dele meio que esperava que Annabel tivesse desaparecido ou que estivesse flutuando ao redor das pilhas de livros como um fantasma de cabelos compridos num filme de terror. Certa vez, ele tinha visto um filme no qual o fantasma de uma garota rastejava para fora de um poço, com o rosto pálido escondido atrás de uma bagunça de cabelos escuros e úmidos. A lembrança lhe dava calafrios mesmo agora.
A biblioteca estava bem iluminada por fileiras de luminárias verdes. Annabel estava sentada à mesa mais comprida, com o Volume Negro diante dela, as mãos entrelaçadas no colo. Os cabelos eram compridos e escuros, e escondiam parte do rosto, mas não estavam úmidos e não havia nada evidentemente estranho. Ela parecia... comum.
Ele se sentou diante dela. Magnus devia ter trazido alguma coisa para ela vestir do depósito: ela usava um vestido simples azul, um pouco curto nas mangas. Jules imaginava que Annabel tivesse mais ou menos 19 anos quando morreu, vinte, talvez.
— Foi um truque e tanto aquele que você fez — falou ele — com o bilhete na igreja. E o demônio.
— Eu não imaginava que você fosse queimar a igreja. — O sotaque acentuado estava no fundo de sua voz, a estranheza de um modo de falar há muito antiquado. — Você me surpreendeu.
— E você me surpreendeu, vindo aqui — falou Julian. — E dizendo que só falaria comigo. Você nem mesmo gosta de mim, eu acho.
— Eu vim por causa disto. — Ela retirou o papel dobrado do livro e o estendeu a ele. Seus dedos eram compridos, as juntas estranhamente disformes. Ele se deu conta de que, mais uma vez, estava procurando evidências de que os dedos dela tinham sido quebrados, mais de uma vez, e que os ossos acabaram cicatrizando fora do lugar. Os restos visíveis de tortura. Ele se sentiu um pouco enjoado ao pegar a carta e abrir.

Para: Annabel Blackthorn
Annabel,
Talvez você não me conheça, mas nós somos parentes. Meu nome é Tiberius Blackthorn.
Minha família e eu estamos procurando pelo Volume Negro dos Mortos. Nós sabemos que você está com ele, porque meu irmão Julian viu você tirá-lo de Malcolm Fade.
Não estou culpando você. Malcolm Fade não é nosso amigo.
Ele tentou machucar nossa família, até destruir, se pudesse. Ele é um monstro. Mas a questão é que nós precisamos do livro agora. Precisamos dele para salvar a nossa família. Nós somos uma boa família. Você ia gostar, se nos conhecesse. Tem eu — eu vou ser detetive. Tem Livvy, minha irmã gêmea, que sabe lutar com espada, Drusilla, que adora coisas assustadoras, e Tavvy, que adora que leiam histórias para ele. Tem Mark, que é parte fada. Ele é um cozinheiro excelente. Tem Helen, que foi exilada para guardar as barreiras de proteção, mas não porque tenha feito algo errado. E tem Emma, que não é uma Blackthorn, mas é como se fosse nossa irmã postiça.
E tem Jules. Talvez você goste mais dele. É ele que toma conta de todos nós. Ele é a razão de estarmos todos bem e ainda juntos. Não acho que ele saiba que a gente sabe, mas a gente sabe. Às vezes, ele pode nos dizer o que fazer ou para não ouvir, mas ele faria qualquer coisa por nós. As pessoas dizem que não temos sorte porque não temos pais. Mas acho que elas é que não têm sorte por não terem um irmão como o meu.

Julian teve que parar de ler. A pressão no fundo de seus olhos crescera a uma intensidade arrasadora. Ele queria abaixar a cabeça sobre a mesa e começar a derramar lágrimas pouco viris e dignas — pelo menino que ele tinha sido aos 12 anos de idade, medroso e apavorado, cuidando dos irmãos e irmãs menores e pensando: Eles são meus agora.
Por eles, por sua fé neles, pela expectativa de que o amor dele fosse se provar incondicional, de que ele não precisava ouvir que também era amado porque claro que era. Ty pensou nisso e provavelmente pensou que era óbvio. Mas ele mesmo jamais imaginara.
Ele se obrigou a ficar em silêncio e a manter o rosto inexpressivo. Pousou a carta na mesa para que o tremor da mão se tornasse menos visível. Faltava pouco para acabar.

Não pense que estou pedindo para você fazer um favor sem receber nada em troca. Julian pode ajudar você. Ele pode ajudar qualquer pessoa. Não é possível que você queira ficar correndo e se escondendo. Eu sei o que aconteceu a você, o que a Clave e o Conselho fizeram. As coisas agora são diferentes. Deixe a gente explicar. Deixe a gente mostrar que você não tem que ser exilada, nem ficar sozinha. Você não tem que nos o livro. Nós só queremos ajuda.
Estamos no Instituto de Londres. Sempre que você quiser vir, será bem-vinda.
Atenciosamente,
Tiberius Nero Blackthorn

— Como ele sabe o que aconteceu comigo? — Annabel não parecia aborrecida, apenas curiosa. — O que o Inquisidor e os outros fizeram comigo?
Julian ficou de pé e cruzou o cômodo até a estante onde o cristal de alétheia estava pousado. Ele o trouxe de volta e o entregou a ela.
— Ty encontrou isto em Blackthorn Hall — explicou — aqui estão as lembranças de alguns dos seus... julgamentos... na câmara do Conselho.
Annabel ergueu o cristal até o nível dos olhos. Julian nunca vira a expressão de alguém olhando para um cristal de alétheia. Os olhos dela se arregalaram, indo de um lado a outro enquanto observava a cena diante dela. As bochechas coraram, os lábios tremeram. A mão dela começou a estremecer incontrolavelmente e ela jogou o cristal para longe; ele bateu na mesa, fazendo um entalhe na madeira, sem quebrar.
— Oh, Deus, não há misericórdia? — falou ela com voz baixa. — Será que nunca haverá misericórdia ou esquecimento?
— Não enquanto houver injustiça. — O coração de Julian batia com força, mas ele sabia que não dava sinais de sua agitação. — Sempre vai doer enquanto eles não pagarem pelo que fizeram a você.
Ela ergueu os olhos para o menino.
— O que é que você quer dizer?
— Venha comigo para Idris — falou Julian. — Testemunhe diante do Conselho. E vou fazer o possível para que você tenha justiça.
Ela ficou pálida e oscilou levemente. Julian esticou a mão para ela e parou; talvez ela não quisesse ser tocada.
E parte dele também não queria tocá-la. Ele a vira quando ela era um esqueleto, unificada por uma frágil teia de tendões e pele amarelada. Ela parecia real, sólida e viva agora, mas ele não conseguia evitar a sensação de que sua mão atravessaria a pele e chegaria aos ossos esfarelados embaixo.
Ele retirou a mão.
— Você não pode me oferecer justiça — falou. — Você não pode me oferecer nada que eu queira.
Julian sentiu tudo esfriar, mas não conseguia negar a agitação faiscando por suas terminações nervosas. De repente, ele viu o plano diante de si, a estratégia, e a agitação anulou até mesmo a frieza do fio da navalha sobre o qual ele caminhava.
— Eu nunca disse a ninguém que você estava na Cornualha — falou. — Mesmo depois da igreja. Eu guardei seu segredo. Pode confiar em mim.
Ela o encarou com olhos arregalados. É por isso que ele fizera aquilo, pensou Julian. Tinha guardado a informação para si como uma possível vantagem, mesmo quando não soubera ao certo se um dia haveria um momento no qual ele pudesse fazer uso dela. A voz de Emma sussurrou em sua mente.
Julian, você me assusta um pouco.
— Eu quero mostrar uma coisa a você — falou Julian, retirando do casaco um papel enrolado. Ele o entregou a Annabel, do outro lado da mesa.
Era um desenho que ele fizera de Emma, em Chapel Cliff, o mar quebrando aos pés dela. Ele tinha gostado do modo como havia capturado a expressão melancólica no rosto dela, o mar denso como tinta lá embaixo, o sol fraco, cinza e dourado, em seus cabelos.
— Emma Carstairs, minha parabatai — falou Julian.
Annabel ergueu os olhos sérios.
— Malcolm falava dela. Dizia que era teimosa. Ele falava de todos vocês. Malcolm tinha medo de você.
Julian estava espantado.
— Por quê?
— Ele dia o mesmo que Tiberius. Dizia que você faria qualquer coisa por sua família.
Você tem um coração cruel. Julian afastou as palavras que Kieran lhe dissera. Ele não podia se distrair. Era importante demais.
— O que mais você pode dizer deste desenho? — falou ele.
— Que você a ama — falou Annabel. — Com toda a sua alma.
Não havia nenhum tipo de desconfiança no olhar dela; parabatai deviam amar uns aos outros. Julian poderia ver o prêmio, a solução. O testemunho de Kieran era uma peça do quebra-cabeça. Isso os ajudaria. Mas a Tropa rejeitaria qualquer aliança com as fadas. Annabel era a chave para destruir a Tropa e garantir a segurança dos Blackthorn. Julian podia ver a imagem de sua família a salvo, com Aline e Helen de volta, diante dele como uma cidade cintilante sobre uma colina. Ele esguia até ela, sem pensar em mais nada.
— Eu vi seus desenhos e pinturas — disse ele. — A partir deles, dava para dizer o que você amava.
— Malcolm? — perguntou ela, com as sobrancelhas erguidas. — Mas isso foi há muito tempo.
— Não Malcolm. A mansão Blackthorn. Em Idris. Onde você morava quando era criança. Todos os seus desenhos dela estão vivos. Como se você pudesse vê-la em sua mente. Tocá-la. Estar lá em seu coração.
Ela pôs o desenho sobre a mesa. Ficou em silêncio.
— Você pode ter isso de volta — disse ele. — A casa, tudo. Eu sei por que você fugiu. Você achava que, se a Clave pegasse você, eles a castigariam e machucariam outra vez. Mas prometo que isso não vai acontecer. Eles não são perfeitos, estão longe disso, mas são uma nova Clave e um novo Conselho. Há integrantes do Submundo no nosso Conselho.
Os olhos dela se arregalaram.
— Magnus disse isso, mas eu não acreditei.
— É verdade. E o casamento entre um integrante do Submundo e um Caçador de Sombras não é mais ilegal. Se nós a levarmos diante da Clave, eles não apenas não machucarão você, vão reintegrá-la. Você será uma Caçadora de Sombras outra vez. Você poderia morar na mansão Blackthorn. Nós a daríamos para você.
— Por quê? — Ela ficou de pé e começou a passear. — Por que fariam tudo isso por mim? Pelo livro? Porque eu não vou dá-lo a você.
— Porque você precisa ficar diante do Conselho e dizer que matou Malcolm — falou ele. Ela havia deixado o Volume Negro sobre a mesa, à frente dele. E ainda caminhava sem olhar para ele. Lembrando-se da advertência de Magnus (em nenhuma circunstância, você deve tentar tomar o Volume Negro dela, mesmo que ela não o esteja segurando), Julian o abriu cautelosamente, deu uma olhada em uma página com letras pequenas e ilegíveis. Uma ideia começou a crescer em sua mente, como uma flor cautelosa. Ele enfiou a mão no bolso.
— Que eu matei Malcolm? — ela girou e o encarou. Ele tinha sacado o celular do bolso, mas desconfiava que aquilo nada significasse para ela, provavelmente ela já havia visto mundanos andando com telefones celulares, mas jamais pensaria neles como uma câmera. Na verdade, uma câmera nada significaria para ela.
— Sim — falou. — Pode acreditar, você será recebida como heroína.
Ela recomeçara a andar. Os ombros de Julian doíam. A posição na qual ele estava, as mãos ocupadas e inclinado para frente, era estranha. Mas se isso funcionasse, compensaria a dor.
— Tem uma pessoa que está mentindo — disse ele. — Levando o crédito pela morte de Malcolm. Ela está fazendo isso para poder controlar um Instituto. O nosso Instituto. — Ele respirou fundo. — O nome dela é Zara Dearborn.
O nome eletrificou Annabel, conforme ele suspeitava que faria.
— Dearborn — sussurrou ela.
— O Inquisidor que torturou você — falou Julian. — Os descendentes dele não são melhores. Todos eles estão lá agora, levando seus cartazes, intimidando os seres do Submundo, intimidando quem e coloca contra a Clave. Eles trariam uma escuridão terrível sobre nós. Mas você pode provar que são mentirosos. Desacreditá-los.
— Sem dúvida, você poderia contar-lhes a verdade...
— Não sem revelar como eu sei. Eu vi você matando Malcolm no cristal de vidência da Rainha Seelie. Estou contanto isso porque estou desesperado; se você ouviu Malcolm falando da Paz Fria, deve saber que o contato com as fadas é proibido. O que eu fiz seria considerado traição. Eu aceitaria o castigo por isso, mas...
— Seus irmãos e irmãs não suportariam — completou ela por ele. Annabel se virou justamente quando ele se afastava do livro. Os olhos dela se pareciam mais com os de Livvy ou os de Dru? Eram verde-azulados e infinitos. — Eu vejo que as coisas não mudaram muito. A Lei é dura e ainda é a Lei.
Julian notava o ódio na voz dela, e sabia que agora ela estava sob seu controle.
— Mas a Lei pode ser contornada. — Ele se inclinou sobre a mesa. — Nós podemos enganá-los. E intimidá-los. Forçá-los a encarar suas mentiras. Os Dearborn vão pagar. Estarão todos lá: a Consulesa, o Inquisidor, todos que herdaram o poder que foi deturpado quando eles machucaram você.
Os olhos dela brilharam.
— Você vai fazê-los reconhecer isso? O que fizeram?
— Sim.
— E em troca...?
— O seu testemunho — respondeu ele. — Isso é tudo.
— Você quer que eu o acompanhe até Idris? Que fique diante da Clave e do Conselho, e do Inquisidor, como fiz antes?
Julian assentiu.
— E se eles me chamarem de louca, se declararam que estou mentindo ou sob pressão de Malcolm, você vai me defender? Vai insistir que estou sã?
— Magnus estará com você a cada etapa do caminho — falou Julian. — Ele pode ficar ao seu lado no estrado. Pode protegê-la. Ele é o representante dos feiticeiros no Conselho, e você sabe o quanto ele é poderoso. Você pode confiar nele, mesmo que não confie em mim.
Não era uma resposta de verdade, mas ela a aceitou. Julian sabia que ela aceitaria.
— Eu confio em você — falou, admirada. Então se aproximou e pegou o Volume Negro, abraçando-o contra o peito. — Por causa da carta do seu irmão. Era sincera. Eu não tinha imaginado um Blackthorn honesto antes. Mas senti a verdade no modo como ele te ama. Você deve ser digno de tal amor e confiança, para tê-lo inspirado em alguém tão verdadeiro. — Os olhos dela estavam fixos nele. — Eu sei o que você quer. Do que precisa. E ainda assim, agora que vim até você, você não o pediu sequer uma vez. Isso deve significar alguma coisa. Embora tenha falhado em meu julgamento, agora eu entendo. Você estava agindo pela sua família. — Ele a notou engolindo em seco, os músculos se movimentando no pescoço fino, cheio de cicatrizes. — Você jura que se eu lhe der o Volume Negro, vai mantê-lo escondido do Senhor das Sombras? Vai usá-lo apenas para ajudar sua família?
— Juro pelo Anjo — falou Julian. Ele conhecia o poder de um juramento pelo Anjo, e Annabel também saberia. Mas ele falava apenas a verdade, afinal de contas.
Seu coração martelava com pancadas rápidas e poderosas. Ele estava ofuscado pela luz do que poderia imaginar, do que a Rainha poderia fazer para eles se ele entregasse o Volume Negro a ela: Hele, Helen poderia voltar para casa, e Aline, e a Paz Fria poderia acabar.
E a Rainha sabe. Ela sabe...
Ele controlou o pensamento, podia ouvir a voz de Emma, um murmúrio no fundo de sua mente. Um aviso. Mas Emma era boa em seu coração: sincera, objetiva, péssima mentirosa. Ela não compreendia a brutalidade da necessidade. A incondicionalidade do que ele faria por sua família. Não havia fim para sua profundidade e extensão. Era total.
— Muito bem — falou Annabel. Sua voz era forte, enérgica. Ele podia ouvir os penhascos inquebrantáveis da Cornualha no sotaque dela. — Eu vou com você até a Cidade de Vidro e falarei perante o Conselho. E, se eu tiver meu reconhecimento, então o Volume Negro será seu.

4 comentários:

  1. o final do cap vai ficar assim?

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  2. Esse Julian consegue QUALQUER coisa

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  3. mano tiu que raiva!todo mundo sabe que não se pode confiar na rainha das fadas!

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Boa leitura :)