20 de novembro de 2017

Capítulo 27

O gabinete de Slartibartfast era uma bagunça completa, semelhante a uma biblioteca pública após uma explosão. O velho fechou a cara assim que entraram.
— Que azar! — disse ele. — Explodiu um diodo de um dos computadores dos sistemas de suporte de vida. Quando tentamos reavivar nossa equipe de limpeza, descobrimos que estão todos mortos há quase 30 mil anos. Eu queria saber quem é que vai remover os cadáveres. Escute, sente ali enquanto eu ligo o aparelho, está bem?
Indicou uma cadeira que parecia feita com a caixa torácica de um estegossauro.
— Ela foi feita com a caixa torácica de um estegossauro — explicou o velho, puxando uns fios debaixo de pilhas de papel e instrumentos. — Pronto. Segure as pontas — disse, entregando duas pontas de fio desencapado a Arthur.
No momento em que ele as pegou, um pássaro veio voando e passou através dele.
Arthur estava pairando em pleno ar, e totalmente invisível para si próprio. Lá embaixo via uma bela praça arborizada; para todos os lados havia prédios de concreto branco, construções bem espaçosas, porém um tanto velhas; muitos dos prédios tinham rachaduras e manchas causadas pela chuva. Mas naquele dia em particular fazia sol, uma brisa agradável balançava os galhos das árvores, e Arthur tinha a curiosa sensação de que todos os prédios estavam zumbindo discretamente, talvez porque a praça e as ruas que nela desembocavam estavam cheias de pessoas alegres e animadas. Em algum lugar uma banda de música tocava; flâmulas coloridas balançavam na brisa; havia um ar de festa na cidade.
Arthur sentia-se extraordinariamente solitário lá no alto, sem ter nem mesmo um corpo para chamar de seu, mas, antes que ele tivesse tempo de pensar em sua situação, uma voz ressoou na praça, pedindo a atenção de todos.
Em pé sobre uma plataforma enfeitada em frente do prédio mais importante da praça, um homem se dirigia à multidão através de um megafone.
— Ó vós que aguardais à sombra de Pensador Profundo! — gritou ele. — Honrados descendentes de Vroomfondel e Majikthise, os maiores e mais interessantes sábios do Universo... É findo o Tempo de Espera!
Um coro de vivas elevou-se da multidão. Bandeiras, flâmulas e assobios cruzaram os ares. As ruas mais estreitas pareciam centopeias emborcadas, agitando suas perninhas desesperadamente.
— Há sete milhões e quinhentos mil anos que nossa espécie espera por este Grande Dia de Iluminação! — gritou o homem. — O Dia da Resposta!
Hurras entusiásticas brotaram da multidão.
— Nunca mais acordaremos de manhã perguntando a nós mesmos: Quem sou eu? Qual meu objetivo na vida? Em uma escala cósmica, faz alguma diferença se hoje eu resolver não me levantar e não ir ao trabalho?. Pois hoje saberemos, de uma vez por todas, a resposta clara e simples a todas estas incômodas perguntas relacionadas à Vida, ao Universo e a Tudo o Mais!
Enquanto a multidão aplaudia mais uma vez, Arthur viu-se planando no ar em direção a uma das grandes e imponentes janelas do primeiro andar do prédio atrás da plataforma.
Arthur foi dominado pelo pânico durante um instante, quando se viu voando para dentro da janela, mas um segundo depois deu-se conta de que havia atravessado a vidraça sem sentir nada.
Ninguém na sala achou nada de estranho quando ele chegou, o que aliás era perfeitamente compreensível, já que, na verdade, Arthur não estava lá. Ele começou a entender que toda aquela experiência que ele estava tendo não passava de uma projeção, algo que punha no chinelo o filme de 70 milímetros com seis canais de som.
A sala era tal como Slartibartfast a havia descrito. Durante sete milhões e quinhentos mil anos ela fora bem-cuidada, sendo limpa regularmente a cada 100 anos, mais ou menos. A mesa de ultramogno estava gasta nas beiras, o carpete estava um pouco desbotado, mas o grande terminal de computador embutido no tampo de couro da mesa estava tão reluzente quanto se tivesse sido construído na véspera.
Dois homens sobriamente vestidos, sentados diante do terminal, aguardavam.
— Está chegando a hora — disse um deles, e Arthur surpreendeu-se ao ver uma palavra materializar-se ao lado do pescoço do homem. A palavra era LOONQUAWL; ela piscou umas duas vezes e depois desapareceu. Antes que Arthur tivesse tempo de assimilar o escorrido, o outro homem falou, e a palavra PHOUCHG apareceu ao lado de seu pescoço.
— Há 75 gerações, nossos ancestrais deram início a este programa — disse o segundo homem —, e após todo esse tempo nós seremos os primeiros a ouvir o computador falar.
— Uma perspectiva tremenda, Phouchg — concordou o primeiro homem, e Arthur de repente entendeu que estava assistindo a uma gravação com letreiros.
— Seremos nós que ouviremos a resposta à grande questão da Vida...! — disse Phouchg.
— O Universo...! — disse Loonquawl.
— E Tudo o Mais...!
— Psss! — exclamou Loonquawl com um gesto sutil. — Acho que Pensador Profundo está se preparando para falar?
Houve uma pausa cheia de expectativa, quando as luzes do painel lentamente foram se acendendo. As luzes piscaram, como se a título de experiência, e logo assumiram um ritmo funcional. O canal de comunicação começou a emitir um zumbido suave.
— Bom dia — disse Pensador Profundo por fim.
— Ah... Bom dia, ó Pensador Profundo — disse Loonquawl, nervoso. — Você tem... ah, quero dizer...
— Uma resposta para vocês? — interrompeu Pensador Profundo, majestoso. — Tenho, sim.
— Os dois homens tremeram de expectativa. Sua espera não fora em vão.
— Então há mesmo uma resposta? — exclamou Phouchg.
— Há mesmo uma resposta — confirmou Pensador Profundo.
— A resposta final? À grande Questão da Vida, do Universo e Tudo o
— Mais?
— Sim.
—Os dois homens haviam sido treinados para esse momento. Toda a sua vida fora uma longa preparação para ele: haviam sido escolhidos no momento em que nasceram para testemunhar a resposta, mas mesmo assim sentiam-se alvoroçados e ofegantes como crianças excitadas.
— E você está pronto pra nos dar a resposta? — perguntou Loonquawl.
— Estou.
— Agora?
— Agora — disse Pensador Profundo. Os dois umedeceram os lábios secos.
— Se bem que eu acho que vocês não vão gostar — disse o computador.
— Não faz mal — exclamou Phouchg. — Precisamos conhecer a resposta!
— Agora!
— Agora? — perguntou Pensador Profundo.
— É, agora!...
— Está bem — disse o computador, e calou-se. Os dois homens remexiam-se, inquietos. A tensão era insuportável.
— Olhem, vocês não vão gostar mesmo — comentou Pensador Profundo.
— Diga logo!
— Está bem — disse o computador. — A Resposta à Grande Questão...
— Sim...!
— Da Vida, o Universo e Tudo o Mais... — disse Pensador Profundo.
— Sim!
— É... — disse Pensador Profundo, e fez uma pausa.
— Sim...!
— É...
— Sim...!!!...?
— Quarenta dois — disse Pensador Profundo, com uma majestade e uma tranquilidade infinitas.

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