15 de novembro de 2017

Capítulo 27

— Então, quando seu quadro desapareceu?
— Em 1941. Talvez 1942. É difícil, porque todos os envolvidos estão, como sabe, mortos. — A loura ri sem achar graça.
— Sim, é o que você disse. E pode me dar uma descrição completa?
A mulher empurra uma pasta na mesa.
— Isso é tudo que temos. A maioria dos fatos está na carta que lhe enviei em novembro.
Paul folheia a pasta, tentando recordar os detalhes.
— Então a senhora localizou o quadro numa galeria em Amsterdã. E fez um primeiro contato...
Miriam bate à porta e entra, trazendo café. Ele aguarda enquanto ela distribui as duas xícaras, acena com a cabeça à guisa de desculpas e recua, como se tivesse feito algo que não devia. Ele agradece, e ela se retira logo.
— Sim, escrevi uma carta para eles. Quanto acha que vale o quadro?
— Como?
— Quanto acha que vale o quadro?
Paul ergue os olhos das anotações. A mulher está recostada na cadeira. Tem um rosto bonito, pele clara, sem revelar ainda os primeiros sinais da idade. Mas também, ele nota, inexpressiva, como se estivesse acostumada a esconder seus sentimentos. Ou talvez seja Botox. Ele olha furtivamente para seu cabelo farto, sabendo que Liv poderia detectar na mesma hora se era completamente natural.
— Porque um Kandinsky deve render por muito dinheiro, certo? É o que meu marido diz.
Paul escolhe as palavras com cuidado.
— Bem, sim, contanto que se possa provar que a obra é sua. Mas isso tudo é para mais tarde. Será que podemos voltar à questão da propriedade? Tem alguma prova de como o quadro foi obtido?
— Bem, meu avô era amigo de Kandinsky.
— Certo. — Ele dá um gole no café. — Tem alguma prova documental?
A expressão dela não diz nada.
— Fotografias? Cartas? Referências à amizade dos dois?
— Ah, não. Mas minha avó falava sempre nisso.
— Ela ainda vive?
— Não. Eu disse isso na carta.
— Me desculpe. Como era o nome do seu avô?
— Anton Perovsky.
Ela soletra o sobrenome, apontando para as anotações dele ao fazê-lo.
— Há algum parente vivo que possa saber sobre isso?
— Não.
— Sabe se a obra já entrou em alguma exposição?
— Não.
Ele soubera que seria um erro começar a fazer publicidade, pois isso levaria a casos esquisitos como esse. Mas Janey insistira.
— Precisamos ser proativos — dissera ela, usando jargão de marketing. — Precisamos estabilizar nosso market share, consolidar nossa reputação. Precisamos ter uma ampla presença no mercado, como um terno de má qualidade.
Ela compilou uma lista de todas as outras companhias de localização e recuperação de bens e sugeriu que enviassem Miriam às concorrentes como uma falsa cliente, para ver os métodos delas. Ficou absolutamente impassível quando ele a chamou de louca.
— A senhora fez alguma pesquisa básica sobre essa história? No Google? Em livros de arte?
— Não. Presumi que era para isso que eu lhe pagaria. O senhor é o melhor do ramo, não? Encontrou esse quadro de Lefèvre. — Ela cruza as pernas, olha o relógio. — Quanto tempo acha que esses processos levam?
— Bem, esta é uma pergunta que leva a outra. Alguns podemos resolver bem depressa se tivermos a história e a origem documentadas. Outros, podemos levar anos. Tenho certeza de que já ouviu dizer que a ação penal em si pode ser bastante cara. Não é algo em que eu lhe recomendaria embarcar levianamente.
— E o senhor trabalha com base em comissão?
— Varia, mas cobramos uma pequena percentagem do acordo final, sim. E temos um pequeno departamento jurídico interno.
Ele folheia a pasta. Não há nada lá dentro além de algumas imagens do quadro e uma declaração juramentada de Anton Perovsky afirmando que Kandinsky lhe dera o quadro em 1938. Eles foram retirados de casa em 1941 e nunca mais tornaram a ver a tela. Há uma carta do governo alemão reconhecendo o pleito. Há uma carta do Rijksmuseum em Amsterdã negando cortesmente que o quadro esteja em sua posse. Trata-se de uma estrutura muito fraca para sustentar uma ação penal.
Ele está tentando calcular se há algum mérito na ação quando ela torna a falar.
— Estive na firma nova. Brigg and Sawston’s? Eles disseram que cobrariam um por cento menos que o senhor.
A mão de Paul fica imóvel no documento.
— Como?
— Comissão. Disseram que cobrariam um por cento a menos que o senhor para recuperar o quadro.
Paul aguarda um instante antes de falar.
— Sra. Harcourt, nós operamos uma empresa respeitável. Se quiser que usemos nossos anos de competência, experiência e contatos para localizar e recuperar a obra de arte de estimação da sua família, eu certamente levarei isso em conta e lhe darei meu melhor conselho quanto a essa possibilidade. Mas não vou ficar aqui barganhando com a senhora.
— Bem, é muito dinheiro. Se esse Kandinsky vale milhões, o nosso interesse é conseguir o melhor acordo possível.
Paul sente a mandíbula travando.
— Considerando que a senhora nem sabia que tinha uma ligação com este quadro dezoito meses atrás, acho que, se o recuperarmos, é provável que faça um ótimo negócio.
— Esta é sua maneira de dizer que não consideraria cobrar honorários mais... competitivos?
Ela olha para ele sem piscar. Seu rosto fica imóvel, mas suas pernas estão cruzadas com elegância, uma sandália de salto balançando do pé. Uma mulher acostumada a conseguir o que quer, e fazê-lo sem envolver qualquer sentimento ou emoção.
Paul pousa a caneta. Fecha a pasta e a empurra para ela.
— Sra. Harcourt. Foi um prazer conhecê-la. Mas acho que nosso assunto está encerrado.
Há uma pausa. Ela pisca.
— O que disse?
— Acho que não temos mais nada a dizer.

* * *

Janey está atravessando a sala, segurando uma caixa de chocolates natalina quando para diante da confusão.
— O senhor é o homem mais grosseiro que já conheci — sibila a Sra. Harcourt para ele.
Ela segura a bolsa cara embaixo do braço esquerdo, e ele lhe entrega a pasta de cartas ao acompanhá-la até a porta.
— Duvido muito.
— Se acha que isso é jeito de dirigir uma empresa, o senhor é mais tolo do que imaginei.
— Então ainda bem que não está confiando a mim a procura épica pelo quadro do qual visivelmente tanto gosta — diz ele num tom monocórdio.
Ele abre a porta, e, envolta numa nuvem de perfume caro, a Sra. Harcourt sai, gritando algo incompreensível quando chega à escada.
— Que diabo foi isso? — pergunta Janey, quando ele passa por ela pisando firme ao voltar para sua sala.
— Não pergunte. Simplesmente não pergunte, está bem? — diz ele.
Ele bate a porta ao passar e senta-se à sua mesa. Quando finalmente levanta a cabeça das mãos, a primeira coisa que vê é o retrato de A garota que você deixou para trás.

* * *

Ele digita o número dela parado na esquina da Goodge Street, em frente à estação do metrô. Subiu a Marylebone Road toda pensando no que dizer, e, quando ela atende, não consegue dizer nada.
— Liv?
A leve pausa antes que ela responda lhe diz que ela sabe quem é.
— O que você quer, Paul? — Seu tom é entrecortado, desconfiado. — Porque se for sobre Sophie...
— Não. Não tem nada a ver com... eu só... — Ele põe a mão na cabeça, olha em volta para a rua movimentada. — Eu só queria saber... se você está bem.
Outra longa pausa.
— Bem, ainda estou aqui.
— Eu estava pensando... quem sabe quando isso tudo acabar, que a gente... podia se encontrar...
Ele ouve a própria voz, morna e fraca, diferente dele. Suas palavras, ele percebe de repente, são inadequadas, não estão à altura da confusão que ele desencadeou na vida dela. O que ela fez para merecer isso, afinal?
Então, a resposta dela, quando finalmente chega, não é realmente uma surpresa.
— Eu... eu agora não consigo pensar muito para além da próxima sessão do julgamento. Isso é simplesmente... muito complicado.
Há outro silêncio. Um ônibus passa roncando, guinchando e acelerando com uma fúria impotente, abafando os demais sons, e ele comprime o telefone na orelha. Fecha os olhos. Ela não tenta preencher o silêncio.
— E então... vai viajar no Natal?
— Não.
Porque essa ação já comeu todo o meu dinheiro, ele ouve sua resposta silenciosa. Porque você fez isso comigo.
— Nem eu. Bem, vou para o Greg. Mas é...
— Como você disse antes, Paul, a gente nem devia estar se falando.
— Certo. Bem, fico feliz que você esteja bem. Acho que é só isso que eu queria dizer.
— Estou bem.
Dessa vez o silêncio é terrível.
— Então tchau.
— Tchau, Paul.
Ela desliga.
Paul fica parado no entroncamento da Tottenham Court Road, com o celular desligado na mão, ouvindo ao longe as canções de Natal; depois enfia o aparelho no bolso e volta devagar para o escritório.

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