30 de novembro de 2017

Capítulo 27 - Apenas por anjos doentes

— Emma. — Julian bateu à porta. Pelo menos, tinha certeza de que era a porta de Emma. Ele nunca tinha entrado no quarto dela no Instituto de Londres. — Emma, você está acordada? Sei que está tarde.
Ele a ouviu dizer que podia entrar, com voz abafada através da porta grossa de madeira. Dentro, o quarto era bem parecido com o dele, pequeno, com pesados blocos de mobília de aparência vitoriana. A cama era sólida, com dossel e cortinas de seda.
   Emma estava deitada sobre as cobertas, vestindo uma camiseta desbotada e calça de pijama. Ela rolou de lado e sorriu para ele.
   Uma sensação esmagadora de amor o atingiu como um soco no peito. O cabelo dela estava preso para o alto de um jeito bagunçado, e ela estava deitada sobre um cobertor amarrotado, com um prato de bolos ao lado. Julian teve que parar no meio do quarto por um momento e recuperar o fôlego.
Ela acenou animadamente para ele com uma torta.
— Banana com caramelo — disse ela. — Quer um pouco?
Ele poderia ter cruzado o cômodo em alguns passos. Poderia ter abraçado Emma, rodopiado e tomado seu corpo. Poderia ter dito a ela o quanto a amava. Se eles fossem qualquer outro casal, seria fácil assim.
Mas para eles nada jamais seria fácil.
Ela o fitava, confusa.
— Está tudo bem?
Ele assentiu, um pouco surpreso com os próprios sentimentos. Normalmente conseguia se controlar melhor. Talvez fosse a conversa que tivera com Magnus. Talvez isso lhe tivesse dado esperança.
Mas se havia uma coisa que a vida tinha ensinado a Julian, era que não existia nada mais perigoso do que a esperança.
Julian — falou ela, pousando a torta e espanando as migalhas dos dedos. — Você poderia, por favor, dizer alguma coisa?
Ele pigarreou.
— Precisamos conversar.
Ela gemeu e caiu pesadamente contra os travesseiros.
— Ai, isso não.
Julian se sentou junto ao pé da cama enquanto Emma limpava as cobertas, pondo de lado a comida e algumas coisas que estivera olhando: ele viu uma fotografia antiga de uma menina segurando uma arma que parecia Cortana, e outra de quatro meninos com roupas eduardianas ao lado de um rio.
Quando ela terminou, esfregou outra vez as mãos e virou o rosto sério para ele.
— Quando vamos ter que nos separar? — perguntou ela. Sua voz tremia um pouco. — Assim que a reunião em Alicante acabar? O que vamos dizer às crianças?
— Eu conversei com Magnus — disse Julian. — Ele falou que nós deveríamos ir atrás do Inquisidor.
Emma arquejou de incredulidade.
— O Inquisidor? Tipo, o líder do Conselho que faz as Leis?
— Eu tenho certeza de que Magnus sabe quem é o Inquisidor — falou Julian. — É o pai de Alec.
— Ele sugeriu isso como um tipo de ameaça? Tipo, ou nós nos apresentamos para Robert Lightwood ou ele faz isso por nós? Mas Magnus não faria isso... não consigo vê-lo fazendo algo assim. Ele é leal demais.
— Não é isso — falou Julian. — Magnus quer nos ajudar. Ele se lembra de outros parabatai como nós e... ele comentou que nenhum parabatai jamais pediu ajuda à Clave.
— Porque é a Lei da Clave...!
— Mas isso não é problema — falou Julian. — Nós podemos lidar com a Lei. É a maldição, a razão aliás pela qual a Lei existe... mesmo que a Clave não saiba dela. Mas nós sabemos.
Emma simplesmente ficou olhando para ele.
— Todos os outros parabatai temiam a Lei mais do que a maldição — falou Julian. — Ou eles se separaram, deixaram a Clave, ou esconderam o que estava acontecendo até serem pegos ou até a maldição matá-los. Magnus disse que nós seríamos os primeiros, e que isso serviria para alguma coisa com Robert. E ele comentou outra coisa também. Robert foi exilado porque esteve no Círculo anos atrás. O exílio suspendeu temporariamente sua ligação com seu parabatai. Magnus disse que Alec contou sobre isso... que o vínculo foi interrompido de tal forma que Robert sequer percebeu que seu parabatai estava morto.
— Exílio? — A voz de Emma tremeu. — Exílio significa a Clave mandar você embora... você não tem escolha...
— Mas é o Inquisidor que escolhe os termos do exílio — falou Julian. — Robert foi quem decidiu que Aline poderia ficar com Helen quando ela foi exilada; a Clave foi contra.
— Se um de nós tem que ser exilado, serei eu — falou Emma. — Ficarei com Cristina no México. Você é indispensável para as crianças. Eu não.
Sua voz era firme, mas os olhos reluziam com lágrimas. Julian sentiu a mesma onda de amor desesperado que sentira antes, ameaçando dominá-lo, e a sufocou.
— Eu também odeio a ideia de nos separarmos — falou Julian, passando a mão pelo cobertor; a textura áspera era reconfortante contra os dedos. — O modo como eu te amo é fundamental para mim, Emma. É quem eu sou. Não importa o quanto a gente esteja longe um do outro.
O brilho nos olhos dela se tornou líquido. Uma lágrima escorreu pela bochecha. Ela nem se mexeu para limpá-la.
— Então...?
— O exílio vai enfraquecer o vínculo — disse ele, tentando manter a voz firme. Ainda havia uma parte dele que odiava a ideia de não ser o parabatai de Emma, apesar de tudo, e que também odiava a ideia do exílio. — Magnus tem certeza disso. O exílio fará algo que a separação não pode fazer, Emma, porque o exílio é encantamento profundo dos Caçadores de Sombras. A cerimônia de exílio diminui parte de suas habilidades de Nephilim, sua magia, e ter um parabatai é parte dessa magia. Significa que a maldição será adiada. Significa que podemos ter tempo... e que eu posso ficar com as crianças. Caso contrário, eu teria que deixá-las. A maldição não machuca só a gente, Emma, ela machuca as pessoas ao nosso redor. Não posso ficar perto das crianças achando que poderia representar algum tipo de ameaça para elas.
Ela assentiu lentamente.
— Se isso nos dá tempo, então o quê?
— Magnus prometeu usar tudo o que tem para descobrir como quebrar o vínculo ou acabar com a maldição. Uma coisa ou outra.
Emma ergueu a mão para esfregar a bochecha molhada, e ele viu a longa cicatriz no antebraço dela. A qual estivera ali desde que ele a entregara Cortana em um quarto em Alicante, cinco anos atrás. Como nós deixamos nossas marcas um no outro, ele pensou.
— Eu odeio isso — murmurou ela. — Odeio a ideia de ficar longe de você e das crianças.
Ele queria segurar a mão dela, mas se controlou. Se Julian se permitisse tocar nela, poderia fraquejar e desmoronar, e ele precisava se manter forte, racional e esperançoso. Fora ele quem dera ouvidos a Magnus, ele quem concordara com isso. Dependia dele.
— Eu também odeio isso — falou. — Se houvesse um jeito de eu ser exilado, eu faria isso, Emma. Ouça, nós só concordaremos se as condições forem favoráveis, se o período de exílio for curto, se você puder morar com Cristina, se o Inquisidor prometer que nenhuma desonra será acrescida ao sobrenome de sua família.
— Magnus acredita realmente que Robert Lightwood estará assim tão disposto a nos ajudar? A basicamente nos deixar ditar as condições de nosso exílio?
— Ele realmente acredita nisso — retrucou Julian. — Não disse o porquê exatamente... talvez porque antigamente Robert tenha sido exilado, ou porque seu parabatai morreu.
— Mas Robert não sabe sobre a maldição.
— E não precisa saber — disse Julian. — O simples fato de estar apaixonado já infringe a Lei antes mesmo de a maldição ser desencadeada. E a Lei diz que nós temos que ser separados ou ter nossas Marcas arrancadas. Isso não é bom para a Clave. Eles precisam de Caçadores de Sombras, certamente tão bons quanto você. Sem dúvida, ele vai querer uma solução que mantenha você como Nephilim. E, além disso... nós temos uma vantagem.
— Qual vantagem?
Julian respirou fundo.
— Nós sabemos como cortar o vínculo. Estamos agindo como se não soubéssemos, mas nós sabemos.
Emma enrijeceu.
— Porque nós não podemos sequer cogitar a ideia — disse ela. — Não é algo que pudéssemos fazer um dia.
— Ainda assim, existe — disse Julian. — Nós ainda a conhecemos.
Ela esticou a mão e agarrou a frente da camiseta de Julian. O aperto era incrivelmente forte.
— Julian — falou Emma. — Seria um pecado imperdoável usar qualquer que fosse a magia mencionada pela Rainha Seelie. Nós não apenas estaríamos magoando Jace e Alec, Clary e Simon. Mas também todas as pessoas que não conhecemos... destruindo a única coisa que é tão fundamental para eles quanto você me amar e eu te amar...
Eles não são a gente — falou Julian. — Isso não envolve apenas a mim e a você, envolve as crianças. A minha família. A nossa família.
— Jules. — O desânimo em seus olhos era evidente. — Eu sempre soube que você faria qualquer coisa pelas crianças. Nós sempre dissemos que faríamos. Mas quando falamos qualquer coisa, ainda nos referimos ao fato de que há coisas que não faríamos. Você não sabe disso?
Julian.
Você me assusta.
— Sim, eu sei disso — falou ele, e ela relaxou um pouco. Seus olhos estavam arregalados. Ele queria beijá-la ainda mais do que antes, em parte, porque ela era Emma, e isso significava que era boa, sincera e ponderada.
Irônico, na verdade.
— É só uma ameaça — emendou ele. — Vantagem. Não faríamos isso, mas Robert não precisa saber.
Emma soltou a camiseta dele.
— É uma ameaça grande demais — falou ela. — Destruir os parabatai tal qual conhecemos poderia rasgar o tecido inteiro dos Nephilim.
— Nós não vamos destruir nada. — Ele tomou o rosto dela nas mãos. A pele era macia contra suas palmas. — Nós vamos consertar tudo isso. Vamos ficar juntos. O exílio vai nos dar o tempo de que precisamos para descobrir como romper o vínculo. Se pode ser feito do modo da Rainha Seelie, pode ser feito de outro modo. A maldição é como um monstro em nosso encalço. Isso vai nos dar espaço para respirar.
Ela beijou a palma dele.
— Você fala com tanta certeza.
— Eu tenho certeza — retrucou ele. — Emma, tenho certeza absoluta.
Sem aguentar nem mais um minuto, ele a puxou para seu colo. Emma deixou o peso cair contra o corpo dele, o rosto aninhado na curva do pescoço. Ela passeou os dedos pela gola da camiseta, justamente onde a pele tocava o algodão.
— Você sabe por que eu tenho certeza? — murmurou ele, beijando a têmpora de Emma, a bochecha, que tinha gosto de sal. — Porque quando este universo nasceu, quando explodiu em sua existência em fogo e glória, tudo que estava fadado a existir foi criado. Nossas almas são feitas desse fogo e dessa glória, dos átomos dela, dos fragmentos das estrelas. As almas de todo mundo são, mas eu acredito que as nossas, a sua e a minha, foram feitas a partir da poeira da mesma estrela. Por isso, nós sempre fomos atraídos um para o outro, feito ímãs, durante toda a vida. Todas as nossas partes são feitas de uma coisa só. — Ele a abraçou com mais força. — Emma, seu nome significa universo, sabe? — disse ele. — Isso não prova que estou certo?
Ela soluçou e deu uma risadinha, aí ergueu o rosto e o beijou com vontade. O corpo dele sobressaltou-se, como se tivesse tocado uma cerca eletrificada. A mente dele ficou vazia, apenas o som da respiração dos dois ao ouvido, o toque dela em seus ombros, o sabor dela em seus lábios.
Ele não conseguiu resistir; ainda abraçados, ele rolou de lado e a levou consigo de tal modo que eles se deitaram atravessados sobre a colcha. As mãos dele se enfiaram debaixo da camisa gigantesca dela, passando pela cintura, os polegares trilhando pelas curvas dos quadris. Eles ainda estavam se beijando. Julian se sentia exposto, aberto; todas as terminações nervosas jorrando desejo. Ele lambeu o açúcar dos lábios dela e Emma gemeu.
Tudo em relação a isso ser proibido estava errado, pensou ele. Ninguém formava um par melhor do que ele e Emma. Ele quase sentia como se a conexão deles estivesse cauterizada em suas Marcas parabatai, atraindo-os um para o outro, amplificando cada sensação. Só de ele entrelaçar os dedos nas mechas dos cabelos dela, seus ossos pareciam se transformar num líquido fervente. Quando ela se arqueou contra ele, Julian pensou que talvez fosse mesmo morrer.
Então ela se afastou, respirando fundo, de modo entrecortado. Emma tremia.
— Julian... não podemos.
Ele girou e se afastou dela. Era como ter um membro arrancado. As mãos dele afundaram no cobertor, apertando forte o suficiente para doer.
— Emma — falou ele. Isso foi tudo que ele conseguiu dizer.
— Eu quero — falou ela, apoiando-se em um dos cotovelos. Seu cabelo era uma bagunça loura emaranhada e sua expressão era séria. — Você tem que saber que eu quero. Mas enquanto ainda formos parabatai, não podemos.
— Isso não vai me fazer te amar mais ou de modo diferente — falou ele, com voz rouca. — Eu te amo de qualquer jeito. Te amo mesmo que a gente nunca se toque.
— Eu sei. Mas é como provocar o destino. — Ela esticou a mão para acariciar o rosto e o peito dele. — Seu coração está batendo tão rápido.
— Sempre bate — falou ele — quando é você. — Ele a beijou, um beijo que aceitava que hoje não haveria mais do que beijos. — Só você. Ninguém além de você.
Era verdade. Ele nunca desejara ninguém antes de Emma, e ninguém depois dela. Quando ele era mais novo, houve vezes em que isso o intrigou, ele era um adolescente, deveria estar cheio de anseios, desejos e vontades precoces, não deveria? Mas ele nunca quis ninguém, nunca fantasiou, sonhou ou desejou, de forma alguma.
E então houve um dia na praia, em que Emma dera uma risada perto dele e soltara a presilha de seus cabelos, as mechas fluindo em seus dedos e contra suas costas como luz do sol líquida.
O corpo inteiro de Julian reagira. Ele se lembrava disso mesmo agora, a dor violenta, como se alguma coisa mortal o tivesse atacado. Aquilo o fez entender por que os gregos acreditavam que o amor era uma flecha que transpassava seu corpo e deixava um rastro ardente de desejo.
Em francês, amor à primeira vista era coup de foudre. O raio. O fogo em suas veias, o poder destruidor de um milhão de volts. No caso de Julian, não fora amor à primeira vista: ele sempre a amara. Mas só naquele momento se dera conta disso.
E depois, ele desejou. Ah, como ele desejou. E ansiou pela época em que pensava estar perdendo alguma coisa ao não desejar, porque o desejo era como mil vozes cruéis que murmuravam que ele era um tolo. Foi apenas seis meses depois da cerimônia parabatai, e este fora o maior erro que ele cometera, e totalmente irrevogável. E depois disso, sempre que ele via Emma, era como uma faca em seu peito, mas uma faca cuja dor ele acolhia. Uma lâmina cujo punho ele segurava junto ao próprio coração, e nada nem ninguém poderia ter tirado isso dele.
— Durma — falou ele. Ele a acomodou em seus braços, e ela se aninhou contra ele, fechando os olhos. Sua Emma, seu universo, sua lâmina.


— Sabe — falou Diana —, é exatamente o que pensamos que fosse.
A lua negra e prateada brilhava sobre a Floresta Brocelind quando Jia Penhallow saiu do círculo de árvores cinzentas e grama queimada com a praga. Ao fazer isso, a lâmina serafim em sua mão ardeu com a luz, como se um interruptor tivesse sido ligado.
Ela voltou para dentro do círculo. A lâmina serafim escureceu.
— Eu mandei fotos para Kieran — comentou Diana, olhando para o rosto soturno da Consulesa. — Eles... Kieran disse ter visto o mesmo tipo de círculos de praga nas Terras Unseelie. — A maior parte do que Kieran tinha visto recentemente nas Terras Unseelie fora o interior de uma cela.
Jia estremeceu.
— É terrível ficar de pé neste círculo — falou ela. — É como se o solo fosse feito de gelo, e desespero estivesse no ar.
— Esses círculos — emendou Diana — estão nos locais que Helen e Aline disseram que estavam escuros no mapa, não é?
Jia não precisou olhar e fez que sim com a cabeça.
— Eu não queria envolver minha filha nisso.
— Se ela e Helen puderem estar presentes durante a reunião do Conselho, podem se apresentar como candidatas para o Instituto.
Jia não falou nada.
— É o que Helen quer desesperadamente — falou Diana. — O que as duas querem. O melhor lugar para estar nem sempre é o mais seguro. Ninguém fica satisfeito numa prisão.
Jia pigarreou.
— O tempo que levaria para o Conselho aprovar a solicitação... Portais para a Ilha Wrangel são estritamente regulados... a reunião teria acabado...
— Deixe isso comigo — falou Diana. — Na verdade, quanto menos você souber, melhor.
Diana não conseguia acreditar que acabara de dizer quanto menos você souber, melhor para a Consulesa. Concluindo que era improvável dizer uma frase melhor de despedida, ela se virou e se afastou da clareira.


Dru sonhou com túneis subterrâneos divididos por raízes semelhantes aos nós dos dedos inchados de um gigante. E sonhou com um quarto cheio de armas reluzentes e um menino de olhos verdes.
Ela acordou e viu a luz fraca da aurora iluminando a cornija, onde uma adaga de caça dourada, gravada com rosas, prendia um bilhete à madeira.

Para Drusilla, obrigado por toda a ajuda. Jaime


Em algum momento da noite, Kit acordou, a iratze ardendo suavemente em seu braço. A enfermaria estava acesa com uma luz amarela e quente, e, para além da janela, ele via os telhados de Londres, sólidos e vitorianos sob a lua minguante.
E ouvia a música. Rolando para o lado, Kit viu Ty dormindo na cama ao seu lado, com os fones de ouvido, o som fraco de uma sinfonia vindo deles.
Uma lembrança roçou a beira da consciência de Kit. Ele, muito pequeno, com gripe, febril à noite, e alguém dormia ao seu lado na cama. Seu pai. Deve ter sido. Quem mais poderia ser além do pai?, mas a certeza o abandonou.
Não. Ele não ia pensar nisso. Tinha sido uma parte de sua infância; agora ele era um menino que tinha amigos que dormiriam ao seu lado se ele ficasse doente. Não importava quanto isso iria durar, ele iria agradecer por isso.


As portas altas do Santuário eram feitas de ferro e entalhadas com um símbolo que Cristina conhecia desde seu nascimento, as quatro letras interligadas de Clave, Conselho, Pacto e Cônsul.
As portas se abriram silenciosamente para um cômodo amplo. Ela aprumou a coluna quando entrou, lembrando-se do Santuário no Instituto da Cidade do México. Quando era criança, ela brincara ali algumas vezes, desfrutando da imensidão do espaço, do silêncio, dos azulejos lisos e frios. Todo Instituto tinha um Santuário.
— Kieran? — murmurou ela, avançando. — Kieran, você está aqui?
O Santuário de Londres tornava os Santuários da Cidade do México e de Los Angeles diminutos, tanto pelo tamanho quanto pela imponência. Como um imenso baú do tesouro em mármore e pedra, cada superfície parecia brilhar. Não havia janelas, para a proteção dos convidados vampiros: a luz vinha de algumas tochas de luz enfeitiçada. No centro do cômodo, erguia-se uma fonte; nela, encontrava-se um anjo, de pedra. Seus olhos eram buracos abertos dos quais rios de água jorravam feito lágrimas e caíam na bacia abaixo. Palavras estavam inscritas ao redor da base: A FONTE PURO PURA DEFLUIT AQUA.
Uma fonte pura dá água pura.
Tapeçarias prateadas pendiam das paredes, embora seus desenhos tivessem desbotado com o passar do tempo. Entre duas pilastras imensas, um círculo de cadeiras altas, de espaldar reto, estava tombado para os lados, como se alguém as tivesse derrubado num ataque de fúria. Havia almofadas espalhadas pelo soalho.
Sem fazer barulho, Kieran saiu de trás da fonte. Seu queixo estava empinado desafiadoramente, os cabelos no tom negro mais escuro que Cristina já vira. Mesmo o clarão das tochas de luz enfeitiçada parecia afundar neles e desaparecer sem refletir em suas mechas.
— Como foi que você conseguiu abrir as portas? — perguntou Cristina, olhando para trás, para os calços de ferro. Quando se virou outra vez, Kieran tinha erguido as mãos com as palmas abertas: elas estavam cheias de marcas escuras vermelhas como se ele tivesse segurado atiçadores muito quentes.
O ferro queima.
— Isso lhe agrada? — falou Kieran. Ele ofegava. — Aqui estou eu, em sua prisão de ferro Nephilim.
— Claro que não me agrada. — Ela franziu a testa para ele. Não podia deixar de ouvir a voz baixa em seu interior que perguntava por que ele viera. Ela não fora capaz de se controlar... continuava pensando em Kieran sozinho, traído e perdido. Talvez fosse o laço entre eles, ao qual ele se referia quando estivera no quarto dela. Mas ela sentira a presença e a infelicidade dele como um murmúrio no fundo de sua mente, até resolver sair para procurá-lo.
— O que você é para Mark? — quis saber ele.
— Kieran — disse ela. — Sente-se. Vamos nos sentar e conversar.
Ele a encarou, tenso e cauteloso. Como um animal na floresta, pronto para fugir caso ela se mexesse.
Cristina se sentou lentamente sobre as almofadas espalhadas. Aí alisou a saia, dobrando as pernas debaixo do corpo.
— Por favor — disse ela, esticando a mão e indicando a almofada à sua frente, como se o convidasse para o chá. Ele se acomodou nela como um gato se ajeitando, os pelos eriçados pela tensão. — A resposta é: eu não sei. Não sei o que sou para Mark ou o que ele é para mim — falou.
— Como pode ser assim? — falou Kieran. — Nós sentimos o que sentimos. — Ele baixou o olhar para as mãos. Eram mãos de fada, com juntas compridas, cheias de cicatrizes com muitos cortes pequenos. — Na caçada — disse ele —, era real. Nós nos amávamos. Dormíamos lado a lado, respirávamos o ar um do outro e nunca nos separávamos. Sempre foi real. Nunca foi falso. — Ele olhou para Cristina com ar desafiador.
— Eu nunca achei isso. Sempre soube que era real. — retrucou ela. — Eu vi como Mark olhava para você. — Ela entrelaçou as mãos para que não tremessem. — Você conhece o Diego?
— Aquele bonitão idiota — falou Kieran.
— Ele não é idiota, não que isso importe — emendou Cristina apressadamente. — Quando eu era jovem, eu o amei muito, e ele me amou. Houve uma época em que nós estávamos sempre juntos, como você e Mark. Depois, ele me traiu.
— Mark falou disso. No Reino das Fadas, ele teria sido morto por tal desrespeito a uma dama de sua posição.
Cristina não tinha muita certeza do que Kieran considerava sua “posição”.
— Bem, o resultado disso foi que passei a achar que o que nós possuíamos nunca fora real. Doeu mais pensar nisso do que pensar que ele simplesmente deixara de me amar... pois eu tinha deixado de amá-lo desse jeito também. Nós crescemos e esquecemos o que tivemos. Mas isso é uma coisa natural e acontece com frequência. É muito mais doloroso acreditar que seu amor sempre foi uma mentira.
— E no que mais eu devo acreditar? — quis saber Kieran. — Quando Mark está disposto a mentir para mim por causa da Clave que ele despreza...
— Ele não fez isso pela Clave — disse Cristina. — Você andou ouvindo alguma coisa que os Blackthorn disseram? Isso é pela família dele. A irmã dele está no exílio porque é parte fada... Isso tudo é para trazê-la de volta.
A expressão de Kieran estava sombria. Ela sabia que família pouco significa para ele, abstratamente falando, era difícil culpá-lo por isso. Mas os Blackthorn, em todo seu realismo concreto, seu amor completo, confuso e sincero uns pelos outros... será que ele via isso?
— Então você não acredita mais que seu amor pelo garoto Rosales teria sido uma mentira? — perguntou ele.
— Não foi uma mentira — disse ela. — Diego tem os motivos dele para fazer o que está fazendo agora. E quando faço um retrospecto, é com prazer pela felicidade que tivemos. As coisas ruins não podem importar mais do que as boas, Kieran.
— Mark me disse — falou ele — que quando vocês foram ao Reino das Fadas, a puca que guarda o portão prometeu a cada um que vocês encontrariam algo desejado ali. O que foi que você desejou?
— A puca me disse que me seria dada uma chance de botar um fim na Paz Fria — falou Cristina. — Foi por isso que concordei quando ficou decidido que cooperaríamos com a Rainha.
Kieran a encarou e balançou a cabeça. Por um momento, ela pensou que ele a considerava tola, e sentiu um aperto no coração. Ele esticou a mão para tocar o rosto dela. Os dedos deslizavam leves como plumas, com a suavidade do cálice de uma flor.
— Quando jurei fidelidade a você na Corte da Rainha — falou ele —, foi para chatear e deixar Mark com raiva. Mas agora acho que tomei uma decisão mais sábia do que poderia ter imaginado.
— Você sabe que nunca vou obrigá-lo a manter aquele juramento, Kieran.
— Sim. E é por isso que digo que você não é nada como pensei que seria — falou ele. — Eu vivi nesse mundinho da Caçada Selvagem e das Cortes das Fadas, mas você me faz sentir que o mundo é maior e cheio de possibilidades. — Ele baixou a mão. — Eu nunca conheci alguém tão generoso em seu coração.
Era como se o rosto de Cristina estivesse em brasas.
— Mark também é todas essas coisas — falou ela. — Quando Gwyn veio nos contar que você estava em perigo no Reino das Fadas, Mark foi ao seu resgate imediatamente sem se importar com o preço disso.
— Foi gentileza sua me dizer isso — falou ele. — Você sempre foi gentil.
— Por que está dizendo isso?
— Porque você poderia ter tirado Mark de mim, mas não o fez.
— Não — retrucou Cristina. — É como você disse a Adaon; você não iria querer o amor de Mark se ele não viesse espontaneamente. Nem eu. Eu não faria pressão nem o influenciaria. Se você acha que eu iria querer, e que ia funcionar se eu quisesse... então você não me conhece de modo algum. Nem conhece Mark. Não como ele realmente é.
Os lábios de Kieran se entreabriram. Ele não se manifestou, no entanto, porque as portas do Santuário de abriram e Mark havia entrado.
Ele estava todo vestido de preto, e parecia exausto. O anel vermelho em torno de seu pulso atraiu o olhar de Cristina; involuntariamente, ela tocou o próprio pulso, a pele que estava cicatrizando.
— Eu a segui até aqui — falou ele para Cristina. — Ainda sobrou feitiço de amarração suficiente para me permitir fazer isso. Imaginei que você estaria aqui com Kieran.
Kieran nada disse. Ele parecia um príncipe fada num quadro.
— Milorde Kieran — disse Mark formalmente — podemos conversar?


Agora os dois pareciam um quadro, ambos ajoelhados, os cabelos de Cristina escondendo seu rosto. Kieran, diante dela, era um estudo em contrastes de preto e branco. Por um momento Mark permaneceu de pé à entrada do Santuário, simplesmente observando-os, e a sensação era de que seu coração estava se comprimindo dentro do peito.
Ele realmente tinha uma quedinha por cabelos escuros, pensou.
Nesse momento, ele ouviu Cristina dizer seu nome e percebeu que estava escutando atrás da porta. Entrar no Santuário era como entrar num lugar frio, hostil: havia ferro por toda parte. Kieran deve ter sentido também, embora sua expressão não desse sinal disso. Não dava sinal, em absoluto, de que ele estivesse sentindo qualquer coisa.
— Milorde Kieran — falou Mark —, podemos conversar?
Cristina ficou de pé.
— É melhor eu ir.
— Não precisa. — Kieran se inclinara para descansar entre as almofadas espalhadas. Fadas não mentiam com suas palavras, mas mentiam com o rosto e as vozes, com os gestos. Nesse momento, alguém que olhasse para Kieran imaginaria que ele nada sentia além de tédio e aversão.
Mas ele não fora embora. Ele ainda estava no Instituto. Mark se apegava a isso.
— Eu tenho que ir — falou Cristina. — Mark e eu não devemos ficar perto um do outro até o feitiço de amarração se esgotar por completo.
Mas quando Cristina seguiu para a porta, Mark se aproximou dela. As mãos de ambos roçaram uma na outra. Será que ele a achara bonita quando a conhecera? Ele se lembrava de ter acordado ao som de sua voz, de vê-la sentada no chão de seu quarto com a faca na mão. Como ele ficara grato por ela ser alguém que ele nunca conhecera antes da Caçada, alguém que não teria expectativas em relação a ele.
Ela o olhou uma vez e se foi. Agora Mark estava a sós com Kieran.
— Por que você está aqui? — quis saber Kieran. — Por que se rebaixar diante de alguém que você odeia?
— Eu não odeio você. Nada disso foi porque eu odeio você ou porque queria magoar você. Eu estava zangado com você... claro que estava. Você não consegue entender o porquê?
Kieran não encontrou o olhar de Mark.
— É por isso que Emma não gosta de mim — falou. — Nem Julian.
— Iarlath açoitou os dois. As chicotadas que ele deu em Emma teriam matado um humano mundano.
— Eu me lembro — falou Kieran tristemente —, e ainda assim parece distante. — Ele engoliu em seco. — Eu sabia que estava perdendo você. Eu tinha medo. Havia mais coisas também. Iarlath insinuara que você não estaria a salvo no mundo dos Caçadores de Sombras. Que eles planejavam atraí-lo somente para executá-lo com alguma acusação fraudulenta. Eu fui tolo em acreditar. Agora sei disso.
— Oh — falou Mark. O conhecimento se desdobrou nele, a percepção misturada ao alívio. — Você achou que estivesse salvando a minha vida.
Kieran assentiu.
— Mas não faz diferença. O que eu fiz foi errado.
— Você terá que pedir desculpas pessoalmente a Emma e a Julian — falou Mark. — Mas de minha parte, Kieran, você está perdoado. Você voltou quando não precisava fazer isso... você nos ajudou a salvar Tavvy...
— Quando busquei refúgio aqui, estava cego pela raiva — falou Kieran. — Só conseguia pensar que você tinha mentido para mim. Eu pensei que você tivesse ido à Corte para me salvar porque... — Sua voz falhou. — Porque você me amava. Não suporto pensar em minha própria estupidez.
— Eu te amo — falou Mark. — Mas não é um tipo de amor fácil ou sereno, Kier.
— Não como o que você sente por Cristina.
— Não, não como o que sinto por Cristina — falou Mark.
Os ombros de Kieran caíram um pouco.
— Fico feliz por você admitir — disse ele. — Acho que não poderia tolerar uma mentira agora. Quando eu te amei pela primeira vez, eu sabia que amava algo que podia mentir. E falei para mim mesmo que isso não teria importância. Mas faz mais diferença do que eu imaginava.
Mark diminuiu a distância entre eles. Não tinha certeza se Kieran se afastaria dele, mas o outro não se mexeu. Mark se aproximou até restarem apenas centímetros entre os dois, até Kieran arregalar os olhos, e então Mark se ajoelhou, o mármore frio em sua pele.
Era um gesto que ele já havia visto, na Caçada e em festas. Uma fada se ajoelhava para outra. Sem submissão, mas um pedido de desculpas. Me perdoe. Os olhos de Kieran eram como dois grandes pratos.
— Isso importa — falou Mark. — Eu queria não poder mentir, desse modo você acreditaria em mim: todos esses dias eu não deixei de demonstrar minha afeição porque estava zangado com você, ou enojado. Eu desejava você da mesma forma que desejava na Caçada. Mas eu não podia estar com você, tocar você, com tudo isso obscurecido por mentiras. Não teria parecido verdadeiro nem sincero. E eu nem mesmo ficaria com a sensação de estar sendo escolhido por você porque, para escolher verdadeiramente, nós temos que ter conhecimento verdadeiro.
— Mark. — Kieran suspirou.
— Eu não te amo como amo Cristina. Eu te amo como eu você — falou Mark e abaixou a cabeça. — Eu queria que você pudesse ver meu coração. Então você entenderia.
Ouviu-se um farfalhar. Kieran tinha caído de joelhos também, na mesma altura de Mark.
— Você teria me dito isso? — perguntou ele. — Depois que eu testemunhasse?
— Sim. Eu não poderia suportar isso de outra forma.
Kieran semicerrou os olhos. Mark podia ver as olheiras em preto e prata sob as pálpebras dele, decoradas com cílios escuros. Seu cabelo tinha clareado quase para uma cor de estanho.
— Eu acredito em você. — Ele abriu as pálpebras, fitando diretamente os olhos de Mark. — Você sabe por que confio em você?
Mark balançou a cabeça. Dava para ouvir a água caindo na fonte atrás deles, lembrando-o de mil rios que eles navegaram juntos, mil torrentes ao lado das quais eles dormiram.
— Por causa de Cristina — falou Kieran. — Ela nunca teria concordado com um plano desonroso. Entendo que vocês estavam tentando ajudar sua família, sua irmã. Entendo por que estavam desesperados. E acredito que você não teria me iludido por mais tempo do que o necessário. — De repente, alguma coisa atrás de seus olhos pareceu muito familiar. — Eu vou testemunhar — falou.
Mark começou:
— Kieran, você não...
Kieran segurou o rosto de Mark. Seu toque era delicado.
— Não estou fazendo isso por você — falou ele. — Isso será o que farei por Emma e pelos outros. Então aquela dívida será paga. Você e eu, nossas dívidas já estão pagas. — Ele se inclinou e roçou os lábios nos de Mark, que queria buscar o beijo, o calor, a familiaridade. Ele sentiu a mão de Kieran em seu peito, sobre a flecha de elfo que pendia ali, abaixo da clavícula. — Nós estaremos quites.
Não — murmurou Mark.
Mas Kieran já estava de pé, o calor de suas mãos se fora da pele de Mark. Seus olhos estavam escuros, o corpo inteiro tenso. Mark ficou de pé num pulo para exigir que Kieran explicasse o que quisera dizer com quites — e então no mesmo momento um barulho terrível cortou o ar.
Era um barulho que vinha de fora do Instituto, embora de não muito longe. Nem um pouco longe. Uma lembrança lampejou na mente de Mark, de observar, montado em seu cavalo, uma floresta destruída por um raio. O fogo lampejava debaixo dele, a pancada de galhos e troncos semelhante a gritos em sua mente.
Kieran inspirou abruptamente. Seus olhos tinham ficado distantes e sem foco.
— Eles chegaram — falou. — Estão próximos.


Uma pancada tirou Emma de seu sono e dos braços de Julian. Uma pancada que não era bem uma pancada; de início, ela pensou que soara como dois carros batendo na estrada, o guinchar dos freios e a explosão e vidro. Parecia vir de lá de fora; ela se ergueu de um pulo e disparou pelo quarto até a janela.
Havia cinco deles no pátio, reluzindo em bronze sob o sol da manhã, tanto os cavalos quanto os cavaleiros. Os corcéis pareciam metálicos, seus olhos cobertos com seda cor de bronze, os cascos reluzindo com um brilho forte. As fadas montadas neles eram tão reluzentes e belas quanto, suas armaduras sem junções visíveis, de tal modo que parecia bronze líquido. Seus rostos tinham máscaras, seus cabelos eram longos e metálicos. De alguma forma, aqui no coração de Londres, eles pareciam mais assustadoras do que da primeira vez que Emma as vira.
Julian estava acordado agora, sentado na beira da cama, pegando o cinto de armas que estava pendurado na parede, acima do criado mudo.
— Eles vieram — disse ela. — São os Cavaleiros.


Todos correram para a biblioteca, exceto Kit e Bridget, conforme fora instruído por Magnus. Cristina, Ty, Livvy e Magnus já estavam lá quando Emma entrou num rompante, empurrando Cortana.
Julian estava alguns passos atrás dela. Eles tinham concordado que era melhor não parecer que haviam dormido juntos.
Todos estavam de pé diante das janelas, e as cortinas tinham sido abertas para oferecer uma visão livre do pátio e da frente do Instituto. Magnus se inclinava contra a vidraça, o braço estendido, a mão espalmada no painel, a expressão sinistra. Ele tinha olheiras e parecia preocupantemente exausto e emaciado.
Mark e Kieran entraram quando Emma encaixou a espada nas costas e se apressou para as janelas. Julian se esgueirou ao lado dela e fitou através do vidro.
Os cinco Cavaleiros não tinham se movido do pátio. Permaneceram onde estavam, feito estátuas. Seus cavalos não tinham rédeas nem arreios, nada para segurá-los. Estavam todos com as espadas desembainhadas, esticadas à frente como uma fileira de dentes reluzentes.
Kieran passou por Mark, cruzando o cômodo até a janela e, depois de um instante, Mark o seguiu. Eles formaram uma fila: os Caçadores de Sombras, o feiticeiro e o príncipe fada, todos fitando sombriamente o pátio. Kieran estava silencioso e parecia enjoado, os cabelos brancos, da cor de ossos.
— Eles não podem entrar no Instituto — falou Ty.
— Não — falou Magnus. — As barreiras os mantêm longe.
— De qualquer forma, nós deveríamos ir embora assim que pudermos — falou Kieran. — Não confio nos Cavaleiros. Eles vão dar um jeito de entrar.
— Nós temos que entrar em contato com Alicante — falou Livvy. — Fazê-los abrir o lado deles do Portal para sairmos daqui.
— Não podemos fazer isso sem revelar que os Cavaleiros estão aqui... e o motivo de estarem — falou Julian. — Mas... ainda podemos ir para outro lugar via Portal, mesmo se não formos diretamente para Idris. — Ele olhou de lado para Magnus.
— A questão é: não posso criar o meu lado do Portal agora — falou Magnus, com algum esforço. — Precisamos aguardar umas poucas horas. Eu exauri minha energia... não esperava ter que curar Kit ou mandar Alec e as crianças embora.
Fez-se um silêncio medonho. Nunca ocorrera a nenhum deles que havia coisas que Magnus não era capaz de fazer. Que ele tinha fraquezas, como todo mundo.
— Tem um Portal na cripta — falou Ty. — Mas só vai até o Instituto da Cornualha.
Ninguém perguntou como ele sabia disso.
— Mas aquele Instituto está abandonado — falou Julian. — Provavelmente, as proteções são mais fortes aqui.
— Estaríamos simplesmente trocando de Instituto para Instituto — falou Magnus. — Ainda estaríamos presos e com proteções mais fracas. E, acreditem, eles seriam capazes de nos seguir. Nunca houve caçadores mais grandiosos do que os Cavaleiros de Mannan.
— E quanto a Catarina Loss? — falou Livvy. — Ela nos tirou do Instituto de Los Angeles.
Magnus respirou fundo, trêmulo.
— As mesmas barreiras que afastam os Cavaleiros também evitam que alguém tente fazer um Portal do lado de fora.
— E quanto à Rainha Seelie? — perguntou Emma. — Talvez ela estivesse disposta a nos ajudar a combater os Cavaleiros?
— A Rainha não está do nosso lado — falou Julian. — Ela só está do lado dela.
Fez-se um longo silêncio, interrompido por Magnus.
— Eu tenho que reconhecer. Nunca pensei que Jace e Clary seriam superados em suas escolhas insanas e autodestrutivas, mas vocês todos são páreo duro.
— Eu realmente não tenho nada a ver com isso — observou Kieran rigidamente.
— Acho que você descobrirá que muitas decisões ruins o trouxeram até aqui, meu amigo — disse Magnus. — Muito bem, tem algumas coisas que posso fazer para tentar aumentar minha energia. Vocês... todos vocês... esperem aqui. E não façam nada idiota.
Ele saiu do cômodo, caminhando com as pernas compridas, cobertas com tecido preto, e xingando baixinho.
— Ele está ficando cada vez mais parecido com Gandalf — falou Emma, observando-o sair. — Quero dizer, um Gandalf mais jovem e gostoso, mas eu fico esperando ele começar a coçar a longa barba branca e resmungar sombriamente.
— Pelo menos, ele está disposto a nos ajudar — disse Julian. Seu olhar se aguçou. Um Cavaleiro passava pelos portões. O sexto cavaleiro, com uma estrutura um pouco menor, um jorro de cabelos cor de bronze. Ethna, pensou Emma. A irmã.
Então seus pensamentos se dissolveram num zumbido de choque. Um pequeno vulto estava apoiado nas costas do cavalo de bronze, à frente dela. Uma garotinha humana, de cabelos pretos curtos. Ela balançava fracamente na mão da mulher fada, mas estava piscando, o rosto contorcido de terror. Não devia ter mais do que quatro anos — usava legging com uma estampa alegre de abelhas e tênis rosa-choque.
Na outra mão, Ethna segurava uma adaga, cuja ponta encostava na nuca da garotinha.
Julian ficara rígido como mármore, com o rosto branco. Vozes se ergueram em torno de Emma no cômodo, mas eram só ruído. Ela não conseguia distinguir as palavras. Olhava para a garotinha, e em sua mente via Dru, Tavvy, e até Livvy e Ty; todos eles já tinham sido pequenos e indefesos assim.
E Ethna era forte. Tudo que ela precisava fazer era empurrar a adaga, e então decapitaria a criança.
— Afastem-se da janela — falou Julian. — Pessoal, afastem-se da janela. Se eles não acharem que estamos vendo, é menos provável que machuquem a garotinha.
A mão dele estava no braço de Emma. Ela cambaleou, recuando junto aos outros. Podia ouvir Mark protestando. Eles deviam descer, ele estava dizendo. Lutar contra os Cavaleiros.
— Nós não podemos — falou Julian, angustiado. — Seremos massacrados.
— Eu matei um deles antes — falou Emma. — Eu...
— Mas eles tinham baixado a guarda. — A voz de Julian a alcançou parcialmente distorcida pelo choque. — Eles não esperavam... não achavam que fosse possível... desta vez eles estão preparados...
— Ele tem razão — falou Kieran. — Às vezes, o coração mais cruel fala a maior verdade.
— O que quer dizer? — Mark corou, a mão direita apertando o próprio pulso; Emma percebeu remotamente que a marca de feitiço de amarração tinha sumido da pele dele e da de Cristina também.
— Os filhos de Mannan nunca tinham sido derrotados — falou Kieran. — Emma foi a primeira a matar um deles. Eles pegaram a criança para nos atrair para fora porque sabem que nos terão em seu poder quando fizermos isso.
— Eles vão matá-la — disse Emma. — É um bebê.
— Emma... — Julian esticou a mão para sua parabatai. Emma podia ler o rosto dele. Julian faria qualquer coisa, arriscaria qualquer coisa, por sua família. Não havia nada nem ninguém que ele não sacrificaria.
Por isso, tinha que ser ela.
Ela correu. Ouviu Julian gritando seu nome, mas logo ela estava do lado de fora da biblioteca; bateu a porta atrás de si e disparou pelo corredor. Ela já estava de uniforme e já tinha Cortana; desceu os degraus correndo, passou pela entrada e irrompeu pelas portas principais do Instituto.
Aí viu o borrão de bronze que eram os Cavaleiros, antes de se virar e puxar as portas para que se fechassem, tirando a estela do bolso. Entalhou um símbolo de Fechamento nelas assim que ouviu as pancadas surdas de corpos acertando o outro lado, vozes gritando para que ela não fosse imprudente, que abrisse as portas, que abrisse, Emma...
Ela guardou a estela no bolso, ergueu Cortana e desceu os degraus.

5 comentários:

  1. Vai dar merda... mas não consigo deixar admirar a Emma

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  2. A Emma é mais suicida que o Jace...

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  3. Enfatizando o que o Magnus disse...

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  4. angel 10/12/2017 ela e tao louca ou mais que o jace tai uma mulher destemida cada vez gosto mais dela

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  5. Emma levando a galera a loucura...

    Eu to achando esse livro meio enrolado, a Cassie vai nos fazer sofrer muito até o fim dele, dar um fim daqueles de arrasar ccorações- no sentido ruim - e nos fazer esperar mais (de) um ano até o próximo... 😱
    Eu sei, sempre sofro por antecipação.

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Boa leitura :)