30 de novembro de 2017

Capítulo 26 - Que caminha em sombra

Emma estava sentada na cama de Cristina, escovando os cabelos da amiga. Estava começando a entender por que sua mãe gostava tanto de escovar seus cabelos quando ela era uma garotinha: havia algo de estranhamente tranquilizador nos cachos sedosos e escuros escorregando entre seus dedos, no movimento repetitivo da escova.
Acalmava a dor em sua cabeça, em seu peito. Uma dor que não parecia só dela, mas de Julian também. Ela sabia o quanto ele odiava dizer adeus a Tavvy, mesmo se fosse para o bem do menino, e agora sentia um vazio dentro de si no que dizia respeito à separação de Julian do irmãozinho caçula.
Estar com Cristina ajudava. Emma contara tudo o que acontecera na Cornualha enquanto fitava, preocupada, o pulso da amiga e esfregava um creme mundano, chamado Savlon, nas marcas de amarração. Cristina sentiu dor e reclamou que ardia, e entregou a escova de cabelo a Emma, dizendo-lhe para fazer alguma coisa realmente útil.
— Então alguma coisa ajuda com a amarração? — perguntou Emma. — Tipo, se Mark viesse para cá e se deitasse em cima de você, a dor desapareceria?
— Sim — falou Cristina, com a voz um pouco abafada.
— Bem, é muita falta de consideração da parte dele não fazer isso, se você quer saber.
Cristina deu um pequeno gemido que soou como “Kieran”.
— Certo, Mark tem que fingir que ainda se importa com Kieran. Acho que ficar em cima de você não ajudaria muito.
— Ele se importa com Kieran — falou Cristina. — É só que... Acho que ele se importa comigo também. — Ela se virou um pouco para olhar para Emma. Seus olhos estavam arregalados, sombrios e preocupados. — Eu dancei com ele. Com Mark. E nós nos beijamos.
— Isso é bom! Isso é bom, certo?
— Foi, mas então Kieran apareceu...
— O quê?
— Mas ele não estava zangado, apenas disse a Mark que ele deveria dançar melhor, e dançou comigo. Foi como dançar com o fogo.
— Uau, estranho e sexy — falou Emma. — Talvez isso seja mais estranho e sexy do que eu consigo lidar.
— Não é estranho!
— É, sim — insistiu Emma. — Você está caminhando para o poliamor, e com fadas. Ou algum tipo de guerra.
— Emma!
— Poliamor sexy com fadas — falou Emma animadamente. — Eu posso dizer que te conheci antes disso.
Cristina gemeu.
— Ótimo. E quanto a você e Julian? Vocês têm um plano depois do que aconteceu na Cornualha?
Emma suspirou e largou a escova. Era um objeto lindo ao estilo vitoriano, com corpo em prata. Ela se perguntou se estivera no cômodo quando Cristina chegara ali ou se ela o encontrara em outra parte do Instituto. O quarto de Cristina em Londres já tinha sinais de sua personalidade: os quadros estavam limpos e endireitados, ela havia encontrado uma colcha colorida para sua cama em algum lugar do prédio e o canivete pendia num gancho junto à lareira.
Emma começou a trançar o cabelo de Cristina, enrolando as grossas mechas entre os dedos.
— Nós não temos um plano — falou. — É sempre a mesma coisa. Nós estamos juntos e nos sentimos invencíveis. E então começamos a nos dar conta de que ainda são as mesmas opções e que todas são ruins.
Cristina parecia perturbada.
— São sempre as mesmas opções, não é? Nos separarmos ou não sermos mais Caçadores de Sombras.
Emma tinha terminado a trança. Ela apoiou o queixo no ombro de Cristina, pensando no que Julian tinha descoberto com a Rainha Seelie. A terrível possibilidade de acabar com todos os laços entre os parabatai. Mas era uma coisa terrível demais para sequer se verbalizar.
— Eu costumava pensar que a distância física de Julian ajudaria — disse ela. — Mas agora não acho que ajudaria. Nada ajudou. Acho que não importa aonde eu vá ou por quanto tempo, eu sempre iria me sentir assim.
— Alguns amores são fortes, como cordas. Eles amarram você — falou Cristina. — A Bíblia diz que o amor é mais forte do que a morte. Eu acredito nisso.
Emma virou-se para olhar com atenção no rosto da amiga.
— Cristina — falou —, tem alguma outra coisa acontecendo, não tem? Alguma coisa com Diego ou Jaime?
Cristina baixou o olhar.
— Não posso dizer.
— Deixe-me ajudar — falou Emma. — Você é sempre tão forte para com todo mundo. Deixe-me ser forte por você.
Ouviu-se uma batida à porta. As duas ergueram o olhar em surpresa. Mark, pensou Emma. Havia alguma coisa na expressão de Cristina. Devia ser Mark.
Mas era Kieran.
Emma congelou devido à surpresa. Embora ela tivesse se acostumado um pouco a ter Kieran por perto, ele ainda fazia os pelinhos dos braços dela se eriçarem de tensão. Não que ela o culpasse, em particular, pelo que ela sofreu nas mãos de Iarlath. Mas vê-lo ainda trazia tudo de volta: o sol quente, o som do chicote, o cheiro cuproso do sangue.
Era verdade que ele parecia bem diferente agora. Os cabelos pretos estavam um pouco mais selvagens, mais desarrumados, mas, fora isso, ele carregava uma estrutura incongruentemente humana vestindo aquela calça jeans. Os cabelos desalinhados escondiam as orelhas pontudas, embora os olhos negros e prateados ainda fossem surpreendentes.
Ele fez uma pequena mesura, cortês.
— Miladies.
Cristina pareceu confusa. Era evidente que ela também não esperava a visita.
— Eu vim falar com Cristina, se ela permitir — emendou Kieran.
— Vá em frente — disse Emma. — Fale.
— Acho que ele quer falar comigo a sós — disse Cristina, num sussurro.
— Sim — falou Kieran. — É o que peço.
Cristina olhou para Emma.
— Vejo você de manhã então?
Humpf, pensou Emma. Vinha sentindo falta de Cristina e agora uma fada insolente a estava expulsando do quarto de sua amiga. Kieran mal lhe dispensara uma olhadela quando ela levantara e seguira para a porta.
Ao passar por ele, Emma parou, o ombro quase tocando o dele.
— Se você fizer alguma coisa para magoá-la ou chateá-la — disse ela, numa voz tão baixa que duvidava que Cristina pudesse ouvir —, vou arrancar suas orelhas e transformar em chaveirinhos. Entendeu?
Kieran a encarou com aqueles olhos de céu noturno, indecifráveis como nuvens.
— Não — falou ele.
— Deixe-me soletrar para você — retrucou Ema abruptamente. — Eu a amo. Não mexa com ela.
Kieran enfiou as mãos longas e delicadas nos bolsos. Ele parecia pouco natural em suas roupas modernas. Era como ver Alexandre, o Grande de jaqueta e calça de couro.
— É fácil amá-la.
Emma o encarou com surpresa. Não era isso que ela estivera esperando que ele respondesse. É fácil amá-la. Nene agira como se o conceito fosse bizarro. Mas, no fim das contas, o que o Povo das Fadas sabia sobre o amor?


— Você gostaria de se sentar? — perguntou Cristina. Então ela se perguntou se estava se transformando em sua mãe, que sempre dizia que a primeira coisa a se fazer era oferecer um assento ao convidado. Mesmo se for um assassino?, perguntara-se Cristina. Sim, mesmo um assassino, insistira sua mãe. Se você não queria oferecer uma cadeira ao assassino, não deveria tê-lo convidado, em primeiro lugar.
— Não — falou Kieran.
Ele se movimentava pelo quarto, as mãos nos bolsos e uma linguagem corporal inquieta. Não era tão diferente de Mark, pensou Cristina. Ambos se movimentavam como se tivessem energia retida sob a pele. Ela se perguntava como seria conter tanto movimento e ainda assim ser obrigado a permanecer imóvel.
— Milady — falou ele. — Por causa do que lhe jurei na Corte Seelie, há uma ligação entre nós. Acho que você sentiu sua força.
Cristina fez que sim com a cabeça. Não era o mesmo vínculo encantado que ela possuía com Mark. Mas de qualquer forma, estava lá, uma energia reluzente quando eles dançavam, quando conversavam.
— Acho que essa força pode nos ajudar a fazer algo juntos que eu não poderia fazer sozinho. — Kieran se aproximou da cama, tirando a mão do bolso. Alguma coisa reluziu em sua palma, Ele a esticou para Cristina, e ela viu a bolota que Mark tinha usado antes para chamar Gwyn. Tinha uma leve reentrância, mas estava inteira, como se tivesse sido fechada outra vez.
— Você quer chamar Gwyn de novo? — Cristina balançou a cabeça. Seus cabelos se soltaram totalmente da trança frouxa, caindo sobre as costas. Ela viu Kieran fitar a bolota.
— Não. Ele não vai interferir novamente.
— Você quer chamar outra pessoa do Reino das Fadas. Seu irmão?
— Como eu pensei. — Ele inclinou a cabeça levemente. — Você adivinha exatamente as minhas intenções.
— E você consegue fazer isso? A bolota não chama apenas Gwyn?
— A magia é bastante simples. Lembre-se, você não tem o sangue que pode lançar feitiços, mas eu tenho. Ela deveria trazer uma Projeção do meu irmão até nós. Vou perguntar a ele sobre os planos do meu pai. Também vou perguntar se ele pode impedir os Cavaleiros.
Cristina admirou-se.
— Será que alguém pode parar os Cavaleiros?
— Eles são servos da Corte e estão sob seu comando.
— Por que você está me contando tudo isso? — perguntou ela.
— Porque para chamar meu irmão, devo chegar ao Reino das Fadas com a mente — explicou Kieran. — E seria mais seguro, caso eu quisesse manter minha mente intacta, ter uma conexão aqui com o mundo. Alguma coisa... alguém... para me manter ancorado enquanto busco meu irmão.
Cristina se levantou da cama. De pé, ela era apenas um pouco mais baixa do que Kieran. Seus olhos estavam no mesmo nível da boca do príncipe fada.
— Por que eu? Por que não Mark?
— Eu já pedi o suficiente de Mark — retrucou ele.
— Talvez — disse ela —, mas mesmo que isso seja verdade, não creio que seja toda a verdade.
— Alguns de nós têm sorte suficiente de conhecer toda a verdade sobre qualquer coisa. — Ela sabia que Kieran era jovem, mas notou um lampejo de algo antigo em seus olhos quando ele falou: — Você poderia pôr a mão na minha?
Ela lhe deu a mão cujo pulso trazia a marca vermelha da amarração com Mark. De alguma forma, elas pareceram se encaixar. Os dedos dele se fecharam ao redor dos dela, frios e secos, leves como o toque de uma folha.
Com a outra mão, Kieran jogou a bolota dourada contra a parede ao lado da cornija da lareira.
Por um momento, fez-se silêncio. Cristina podia ouvir a respiração entrecortada dele. Parecia estranho para uma fada — tudo que faziam estava tão distante da emoção humana comum, que era esquisito ver Kieran arfando.
Mas então ela se lembrou de quando os braços dele a envolveram da pancada irregular de seu coração. Eles eram carne e sangue, afinal, não eram? Ossos e músculos, assim corno Caçadores de Sombras eram. E a chama do sangue angelical também ardia neles...
A escuridão se espalhou pela parede como uma mancha. Cristina respirou fundo, e a mão de Kieran apertou a dela. A escuridão se deslocou e se agitou, tremulou e voltou a ganhar forma. A luz dançou dentro dela, e Cristina notou o céu noturno multicolorido do Reino das Padas. E, no interior da sombra, uma sombra mais escura. Um homem, enrolado numa capa escura. Quando a escuridão clareou, Cristina notou o sorriso dele antes de qualquer outra coisa, e seu coração quase parou.
Era um sorriso formado pela metade do rosto de um esqueleto; de um lado, belo; do outro, mortal. A capa que o envolvia era negra e trazia a insígnia de uma coroa partida. Ele se ergueu, ereto e largo, e deu seu sorriso de lado para Kieran.
Eles não tinham convocado Adaon. Era o Rei Unseelie.


— Não. NÃO! — chorou Tavvy, o rosto enterrado no ombro de Julian. Ele tinha recebido a notícia de que ia para Idris com Alec, Max e Rafe de um jeito pior do que Mark esperara. Será que todas as crianças choravam desse jeito, como se tudo no mundo estivesse destruído e seus corações estivessem partidos, mesmo as noticias de uma breve separação?
Não que Mark culpasse Tavvy, claro. Era apenas que ele sentia como se seu próprio coração estivesse sendo despedaçado dentro do peito ao ver Julian andar para cima e para baixo no cômodo, com o irmãozinho nos braços enquanto Tavvy soluçava e batia nas costas dele.
— Tavs — falou Julian com voz suave, a voz que Mark mal conseguia associar ao garoto que derrotara o Rei Unseelie dentro da própria corte botando uma faca na garganta de um príncipe. — Só vai ser por um dia, no máximo, dois. Você vai ver os canais em Alicante, o Gard...
— Você fica sempre indo embora — disse Tavvy, engasgado, contra a  frente da camisa do irmão. — Você não pode ir embora outra vez.
Julian suspirou. Aí abaixou o queixo e roçou a bochecha nos cachos indisciplinados do irmão. Por cima da cabeça do irmão, seus olhos encontraram os de Mark. Não havia culpa neles, nem autopiedade; só uma terrível tristeza.
Ainda assim Mark sentia como se a culpa estivesse esmagando suas costelas. Se ao menos eram palavras vãs, dissera Kieran, quando Mark especulara se os dois teriam se encontrado um dia se ele nunca tivesse se juntado à Caçada. Mas ele não conseguia deter o fluxo de se ao menos agora: se ao menos ele tivesse sido capaz de ficar com sua família, se ao menos Julian não tivesse precisado ser mãe, pai e irmão de todos os irmãos pequenos, se ao menos Tavvy não tivesse crescido à sombra da morte e da perda. Talvez então, cada separação não parecesse a última.
— Não é sua culpa — falou Magnus, que tinha aparecido silenciosamente ao lado de Mark. — Você não pode evitar o passado. Nós crescemos com as perdas, todos nós, a não ser aqueles que têm muita sorte.
— Não posso evitar de desejar que meu irmão tivesse sido um daqueles com muita sorte — falou Mark — Você entende.
Magnus olhou para Jules e Tavvy, O garotinho tinha chorado muito e estava agarrado ao irmão mais velho, com o rosto amassado contra o ombro de Julian. Os ombros pequenos estavam caídos, exaustos.
— Qual dos irmãos?
— Os dois — falou Mark.
Magnus esticou a mão e, com dedos curiosos, tocou a ponta de flecha reluzente enrolada no pescoço de Mark.
— Eu conheço este material — disse ele. — Esta ponta de flecha já esteve na arma de um soldado da Guarda do Rei da Corte Unseelie.
Mark a tocou — fresca, fria, lisa sob seus dedos. Inflexível, como o próprio Kieran.
— Kieran me deu.
— É preciosa — falou Magnus. Ele se virou quando Alec o chamou, aí deixou o pingente cair novamente contra o peito de Mark.
Alec estava de pé, com Max nos braços e Rafe ao lado, juntamente a urna bolsinha com suas coisas. Mark se deu conta de que Alec tinha mais ou menos a idade que Mark teria se ao menos nunca tivesse sido sequestrado pela Caçada. Ele se perguntava se teria sido tão maduro quanto Alec parecia, tão controlado, tão capaz de cuidar de outras pessoas assim como de si.
Magnus beijou Alec e bagunçou o cabelo dele com carinho infinito. Ele se abaixou, beijou Max também, e Rafe, e se esticou para começar a criar um portal. A luz faiscou entre seus dedos e o ar diante dele pareceu brilhar.
Tavvy tinha afundado num montinho de desesperança contra o peito de Julian. Jules o apertava, os músculos dos braços tensos, e murmurava palavras tranquilizadoras. Mark queria ir até eles, mas não parecia conseguir mexer os pés. Mesmo em sua infelicidade, eles pareciam uma unidade perfeita que não precisava de mais ninguém.
O pensamento melancólico desapareceu um minuto depois, quando a dor lancinou o braço de Mark. Ele agarrou o pulso, os dedos encontrando a dor agonizante, o sangue escorregadio. Tem alguma coisa errada, pensou ele, e depois: Cristina.
Ele correu. O Portal estava crescendo e brilhava no centro do cômodo; através da porta semiformada, Mark viu o esboço das torres demoníacas enquanto disparava para o corredor.
Alguma sensação em seu sangue lhe dizia que ele estava se aproximando de Cristina durante a corrida, mas, para sua surpresa, a dor no pulso não diminuía. Pulsava cada vez mais forte, como a luz de aviso de um farol.
A porta do quarto dela estava fechada. Ele a arrombou com o ombro sem se dar ao trabalho de testar a maçaneta. A porta se abriu e Mark caiu, metade do corpo para dentro.
Ele engasgou e os olhos arderam. O quarto cheirava a queimado — alguma coisa orgânica, feita de folhas mortas ou frutas poderes.
Estava escuro. Seus olhos se adaptaram rapidamente e ele distinguiu Cristina e Kieran de pé perto da cama. Cristina apertava o canivete. Uma sombra imensa pairava acima deles — não, não era uma sombra, percebeu Mark ao se aproximar. Era uma Projeção.
Uma Projeção do Rei da Corte Unseelie. Ambos os lados do rosto dele pareciam brilhar com um humor pouco natural — o lado belo e real, e o esqueleto asqueroso, sem carne.
— Você pensou em evocar seu irmão — zombou o Rei, com o olhar em Kieran. — E pensou que eu não sentiria você no Reino das Fadas, procurando um dos seus? Você é um tolo, Kieran, e sempre foi.
— O que você fez com Adaon? — O rosto de Kieran estava pálido. — Ele não sabia de nada. Não fazia ideia do que eu planejava.
— Não se preocupe com os outros — falou o Rei. — Preocupe-se com sua vida, Kieran Filho do Rei.
— Já tenho sido Kieran Caçador por muito tempo — falou Kieran.
O rosto do Rei ficou sombrio.
— Você deveria ser Kieran Traidor — falou. — Kieran Mentiroso. Kieran Matador dos Seus. Todos são nomes melhores para você.
— Ele agiu em legítima defesa — falou Cristina abruptamente. — Se não tivesse matado Erec, teria acabado morto. E ele agiu para me proteger.
O Rei lançou um breve olhar de desprezo a Cristina.
— E isso em si é um ato de traição, menina tola — falou. — Colocar as vidas dos Caçadores de Sombras acima das vidas do próprio povo... o que poderia ser pior?
— Vender o próprio filho à Caçada Selvagem por medo de que as pessoas gostassem mais dele do que de você — falou Mark — Isso é pior.
Cristina e Kieran olharam para ele, espantados; era evidente que não ouviram quando ele entrara. O Rei, porém, não demonstrou surpresa alguma.
 — Mark Blackthorn — falou. — Mesmo em sua escolha de amantes, meu filho gravita para os inimigos de seu povo. O que isto diz sobre ele?
— Que ele conhece melhor do que você quem é o povo dele? — perguntou Mark. Muito deliberadamente, ele virou as costas para o Rei. Na Corte, teria sido uma ofensa digna de enforcamento. — Temos que nos livrar dele — falou, em voz baixa, para Kieran e Cristina. — Devo chamar Magnus?
— Ele é só uma projeção — falou Kieran. Seu rosto estava emaciado. — Ele não pode nos machucar. Nem pode ficar aqui para sempre. É um esforço para ele, acho.
— Não vire as costas para mim! — rugiu o Rei. — Acha que não sei quais são seus planos, Kieran? Acha que não sei que você planeja se impor e me trair perante o Conselho Nephilim?
Kieran desviou o rosto, como se não pudesse suportar olhar para o pai.
— Então pare de fazer o que sei que você está fazendo — falou, a voz trêmula. — Negocie com os Nephilim. Não entre em guerra contra eles.
— Não há negociação com mentirosos — grunhiu o Rei. — Já fizeram isso, e farão outra vez. Eles vão mentir e derramar o sangue de nosso povo. E assim que tiverem acabado com você, acha mesmo que o deixarão viver? Que vão tratá-lo como um deles?
— Eles me trataram melhor do que meu próprio pai. — Kieran empinou o queixo.
— Trataram? — Os olhos do Rei estavam obscuros e vazios. — Eu tirei algumas lembranças de você, Kieran, quando você veio à minha Corte. Devo devolvê-las?
Kieran pareceu confuso.
— Que uso você poderia ter para minhas lembranças?
— Alguns de nós conhecem seus inimigos — falou o Rei.
— Kieran — chamou Mark. A expressão nos olhos do Rei fez o medo se revirar no fundo do estômago de Mark. — Não dê ouvidos. Ele só quer te magoar.
— É o que você quer? — exigiu saber o Rei, virando-se para Mark. Apenas o fato de que Mark conseguia enxergar através dele, podia ver o esboço da cama de Cristina, de seu guarda-roupa, através da estrutura transparente do corpo dele, é que o impedia de correr até o atiçador e atacar o Rei. Se ao menos...
Se ao menos o Rei tivesse sido algum tipo de pai, se ao menos não tivesse jogado o filho para a Caçada como um osso a um bando de lobos famintos, se ao menos ele não tivesse ficado complacentemente sentado enquanto Erec torturava Kieran...
Mas será que Kieran seria muito diferente? Será que teria menos medo de perder amor, estaria menos determinado a esperar por ele a todo custo, mesmo que isso significasse prender Mark na Caçada com ele?
Os lábios do Rei se curvaram, como se ele lesse os pensamentos de Mark.
— Quando olhei nas lembranças de meu filho — falou —, eu vi você, Blackthorn. Filho de Lady Nerissa. — Seu sorriso era maligno. — Sua mãe morreu de tristeza quando seu pai a abandonou. Os pensamentos do meu filho eram metade sobre você, metade sobre perder você. Mark, Mark, Mark. Eu me pergunto o que haveria de tão poderoso em sua linhagem a ponto de encantar as pessoas e fazê-las de bobas?
Uma ruguinha surgira entre as sobrancelhas de Kieran. Perder você.
Kieran não se lembrava de ter perdido Mark. O medo frio no estômago de Mark se espalhara por suas veias.
— Quem não sabe amar não compreende — falou Cristina, virando-se para Kieran. — Nós vamos proteger você. Não vamos permitir que ele lhe faça mal por testemunhar no Conselho.
— Mentiras — falou o Rei. — Bem-intencionadas, talvez, mas ainda assim, mentiras. Se você testemunhar, Kieran, não haverá lugar nesta Terra ou no Reino das Fadas que manterá você a salvo de mim e de meus guerreiros. Vou caçá-lo para sempre, e quando encontrá-lo, você desejará ter morrido pelo que fez a Iarlath, a Erec. Não há tormento que você possa imaginar que eu não vá infligir a você.
Kieran engoliu em seco, mas sua voz se manteve firme.
— Dor é apenas dor.
— Ah — falou o pai —, há todo tipo de dor, meu pequeno moreno.
Ele não se mexeu nem fez o gesto típico dos feiticeiros quando lançavam magias, mas Mark sentiu que a atmosfera pesava no cômodo, como se a pressão do ar tivesse aumentado. Kieran arfou e cambaleou como se tivesse sido baleado. Ele alcançou a cama, agarrando seu pé para evitar escorregar no chão. O cabelo caiu sobre os olhos, mudando de azul para preto e branco.
— Mark? — Ele ergueu o rosto lentamente. — Eu me lembro. Eu me lembro.
— Kieran — sussurrou Mark.
— Eu disse a Gwyn que você tinha violado uma lei do Reino das Fadas — falou Kieran. — Pensei que eles apenas trariam você de volta à Caçada.
— Em vez disso, puniram minha família — falou Mark Ele sabia que Kieran não tinha intenção de que aquilo acontecesse, não previra aquilo. Mas ainda doía dizer essas palavras.
— Por isso você não estava usando sua flecha de elfo. — Os olhos de Kieran se fixaram num ponto abaixo do queixo de Mark. — Você não me queria. Você me mandou embora. Você me odiava e deve me odiar agora.
— Eu não odiava você — falou Mark. — Kier...
— Ouça o que ele diz — murmurou o Rei. — Ouça suas mentiras.
— Então por quê? — falou Kieran. Ele se afastou de Mark, só um passinho para trás. — Por que você mentiu para mim?
— Pense nisso, criança — falou o Rei. Era como se ele estivesse se divertindo. — O que eles querem de você?
Kieran respirou fundo.
— Testemunho — falou ele. — Que eu testemunhe diante do Conselho. Você... você planejou isso, Mark? Essa mentira? Todos no Instituto sabem? Sim, devem saber. Eles devem saber. — Seus cabelos ficaram negros como petróleo. — E a Rainha também sabe, imagino. Ela planejou me fazer de bobo com você?
A agonia em seu rosto era excessiva; Mark não tolerava olhar para aquilo, para Kieran. Foi Cristina quem falou com ele:
— Kieran, não — interveio ela. — Não foi assim...
— E você sabia? — Kieran lançou um olhar para ela que dificilmente parecia menos traído do que olhar dirigido a Mark. — Você também sabia?
O Rei deu uma risada. Então a raiva invadiu Mark, uma fúria cega, e ele pegou o atiçador da lareira. O Rei continuou rindo enquanto o menino ia até ele, erguia o atiçador e dava um impulso...
O objeto bateu contra a bolota dourada, que se encontrava na grade diante da lareira, transformando-se em pó. A risada do Rei se calou abruptamente; ele dirigiu um olhar de puro ódio a Mark e desapareceu.
— Por que você fez isso? — quis saber Kieran. — Estava com medo das outras coisas que ele poderia me contar?
Mark jogou o atiçador contra a grade com uma pancada alta.
— Ele lhe devolveu suas lembranças, não foi? Então você sabe de tudo.
— Tudo, não — falou Kieran, e sua voz falhou e se calou; Mark pensou nele pendurado pelas algemas de espinhos na Corte Unseelie, e em como o mesmo desespero transparecia nos olhos dele agora. — Eu não sei como você planejou isso, quando você decidiu que mentiria para mim para conseguir o que queria. Não sei o quanto ficou enojado toda vez que precisava tocar em mim, fingir me querer. Não sei quando você planejava me contar a verdade. Depois que eu testemunhasse? Você planejou zombar e rir de mim perante todo o Conselho ou esperar até que estivéssemos a sós? Você contou a todos que tipo de monstro eu sou, egoísta e sem coração...
— Você não é um monstro, Kieran — interrompeu Mark. — Não há nada de errado com seu coração.
Havia apenas mágoa nos olhos de Kieran quando ele encarou Mark através do pequeno espaço que os separava.
— Isso não pode ser verdade — disse ele — porque você era meu coração.
— Pare. — Era Cristina, sua voz baixa e preocupada, porém firme. — Deixe Mark explicar...
— Estou cheio das explicações humanas — falou Kieran, saindo do quarto e batendo a porta.


O último pedaço do Portal reluzente desapareceu. Julian e Magnus estavam de pé, quase ombro a ombro, observando Alec e as crianças até elas desaparecerem.
Com um suspiro, Magnus jogou a ponta do cachecol sobre o ombro e cruzou o cômodo para encher uma taça com o vinho do decantador, que repousava obedientemente sobre uma mesa perto da janela. Era quase noite, o céu acima de Londres tinha a cor das pétalas de amor perfeito.
— Quer um pouco? — perguntou para Julian, tampando outra vez o decantador.
— Provavelmente eu deveria ficar sóbrio.
— À vontade. — Magnus pegou a taça de vinho e a examinou, a luz que brilhava através dela tornava o líquido vermelho rubi.
— Por que você está nos ajudando tanto? — perguntou Julian. — Quero dizer, sei que somos uma família adorável, mas ninguém é tão adorável assim.
— Não — concordou Magnus, com um esboço de sorriso. — Ninguém é.
— Então?
Magnus tomou um gole e deu de ombros.
— Jace e Clary me pediram — disse ele — Jace é o parabatai de Alec, e eu sempre tive um sentimento paternal em relação a Clary. São meus amigos. E há pouca coisa que eu não faça pelos meus amigos.
— É só isso mesmo?
— Talvez você me lembre alguém.
— Eu? — Julian estava surpreso. As pessoas raramente diziam isso dele. — Quem é que faço você lembrar?
Magnus balançou a cabeça sem responder.
— Há muitos anos — falou —, tive um sonho recorrente sobre uma cidade inundada em sangue. Torres feitas de ossos e sangue correndo pelas ruas feito água. Pensei depois que era sobre a Guerra Maligna e, de fato, o sonho desapareceu nos anos seguintes à guerra. — Ele esvaziou a taça e a apoiou. — Mas ultimamente, tenho voltado a sonhar. Não consigo evitar pensar que algo está próximo.
— Você os avisou — disse Julian. — O Conselho. No dia em que decidiram exilar Helen e abandonar Mark. No dia em que decidiram pela Paz Fria. Você disse quais seriam as consequências. — Ele se recostou na parede. — Eu só tinha 12 anos, mas me lembro disso. Você falou: “O Povo das Fadas há muito odeia os Nephilim por sua severidade, e vocês vão receber em troca algo além de ódio.” Mas eles não ouviram, não é?
— O Conselho queria represália — disse Magnus. — Não viram que represália engendra mais represália. “Pois quem semeia vento colherá tempestade.”
— Isso é da Bíblia — disse Julian. Ele não tinha crescido convivendo com tio Arthur se não tivesse aprendido mais citações clássicas do que jamais conseguiria usar. — Mas então há uma diferença entre represália e vingança — emendou ele. — Entre punir os culpados e punir aleatoriamente. — “Justamente nós livramos a terra dos inimigos humanos, que carregam o inferno como modelo em suas almas”.
— Suponho que se possa encontrar uma citação para justificar qualquer coisa — falou Magnus. — Olha... eu não fofoco para a Clave, por mais que os feiticeiros do Mercado das Sombras possam pensar o contrário. Mas conheci parabatai, dezenas deles, como eles devem ser, e você e Emma são diferentes. Não consigo imaginar que, se não fosse pelo caos da Guerra Maligna, eles ao menos teriam permitido a vocês continuar com isso.
— E agora, por causa de uma cerimônia que supostamente deveria nos unir para sempre, temos que descobrir como nos separar — falou Julian amargamente.  — Nós dois sabemos disso. Mas com os Cavaleiros por aí...
— Sim — falou Magnus. — Vocês são obrigados a ficar juntos por enquanto.
Julian soltou o ar entre dentes.
— Só confirme uma coisa para mim — falou. — Não tem um feitiço para acabar com amor, tem?
— Tem alguns encantamentos temporários — respondeu Magnus. — Eles não duram para sempre. O amor verdadeiro e as complexidades do coração e da mente humanas ainda estão além de grande parte da magia. Talvez um anjo ou um Demônio Maior...
— Então Raziel poderia fazer — disse Julian.
— Eu não contaria com isso — falou Magnus. — Você realmente pesquisou sobre isso? Feitiços para acabar com o amor?
Julian fez que sim com a cabeça.
— Você é impiedoso — falou Magnus. — Até com você mesmo.
— Eu pensei que Emma não me amasse mais — falou Julian. — E ela pensou a mesma coisa sobre mim. Agora nós sabemos a verdade. Não é simplesmente que seja proibido pela Clave. É amaldiçoado.
Magnus se encolheu.
— Eu me perguntei se você sabia disso.
Julian sentiu o frio tomar conta dele. Então não havia chance de ser um erro de Jem. Não que ele realmente achasse que pudesse ser.
— Jem contou para Emma. Mas ele não falou exatamente como funcionava. O que aconteceria.
Houve um leve tremor na mão de Magnus quando ele esfregou os olhos.
— Dê uma olhada na história de Silas Pangborn e Eloísa Ravenscar. Há outras também, embora os Irmãos do Silêncio façam o possível para evitar estardalhaço. — Os olhos felinos estavam injetados. — Primeiro, você enlouquece — falou ele. — Torna-se irreconhecível como ser humano. Depois, se torna um monstro, não é mais capaz de distinguir amigo de inimigo. Quando sua família correr para salvá-lo, você arrancará seus corações do peito.
Parecia que Julian ia vomitar.
— Isso... eu nunca machucaria minha família.
— Você não vai saber quem são eles — disse Magnus. — Não vai distinguir amor e ódio. E vai destruir o que estiver ao redor, não porque quer, não mais do que uma onda batendo quer destruir as rochas sobre as quais quebra. Você fará isso porque não vai saber não fazer. — Ele olhou para Julian com uma solidariedade remota. — Não importa se suas intenções são ruins ou boas. Não importa que o amor seja uma força positiva. A magia não toma nota das pequenas preocupações humanas.
— Eu sei — falou Julian. — Mas o que podemos fazer? Não posso me tornar mundano ou integrante do Submundo e abandonar minha família. Isso mataria a mim e a eles. E não ser mais uma Caçadora de Sombras seria como suicídio para Emma.
— Há o exílio — falou Magnus. Seu olhar era insondável. — Vocês ainda seriam Caçadores de Sombras, mas perderiam um pouco de sua magia. É isso que o exílio significa. É a punição. E como a magia parabatai é uma das mais preciosas e mais arraigadas no que vocês são, o exílio mata seu poder. Todas as coisas que a maldição intensifica: o poder que os símbolos dão a vocês, a capacidade de sentir o que o outro está sentindo ou saber se está machucado; o exílio retira essas coisas. Se eu compreendo magia, e acho que compreendo, então isso significa que o exílio diminuiria incomensuravelmente a velocidade da maldição.
— E exílio também significaria me separar das crianças — falou Julian, em desespero. — Talvez eu nunca voltasse a vê-las. Eu poderia muito bem me tornar mundano. Pelo menos, eu poderia tentar me esgueirar por aí e talvez vê-los de longe. — A amargura corroía sua voz. — As condições do exílio são determinadas pelo Inquisidor e pela Clave. Ficaria totalmente fora do nosso controle.
— Não necessariamente — falou Magnus.
Julian o encarou fixamente.
— Acho melhor você me dizer exatamente do que está falando.
— Que você só tem uma opção. E que não vai gostar dela. — Magnus fez uma pausa, como se esperasse que Julian se recusasse a ouvir, mas este não disse uma palavra. — Muito bem — falou Magnus. — Quando você for a Alicante, conte tudo ao Inquisidor.


— Kit...
Uma coisa fria tocou sua têmpora, empurrando o cabelo para trás. Sombras cercavam Kit, sombras nas quais ele enxergava rostos conhecidos e desconhecidos: o rosto de uma mulher de cabelos claros, a boca formando a letra de uma canção; o rosto de seu pai, o semblante irritado de Barnabas Hale, Ty olhando para ele através de cílios tão grossos e negros quanto a fuligem que cobria as ruas de Londres num romance de Dickens.
— Kit.
O toque frio se tornou um tapa. Suas pálpebras se abriram lentamente e ele reconheceu o teto da enfermaria do Instituto de Londres. Reconheceu a estranha mancha em formato de árvore na parede de gesso, a vista dos telhados para além da janela, o ventilador girando suas pás preguiçosas acima de sua cabeça.
E, pairando acima, um par de ansiosos olhos azul-esverdeados. Livvy, com os cabelos castanhos compridos em cachos embaraçados. Ela suspirou aliviada, enquanto franzia a testa.
— Desculpe — falou. — Magnus disse para sacudir você de tantas em tantas horas, para garantir que sua concussão não ficasse pior.
— Concussão? — Kit se lembrou do telhado, da chuva, de Gwyn e Diana, do céu cheio de nuvens deslizando e se afastando dele quando ele caiu — Como é que eu arrumei uma concussão? Eu estava bem.
— Aparentemente, isso acontece — disse ela. — Pessoas batem a cabeça e só percebem que é sério quando desmaiam.
— Ty? — falou ele, e começou a se sentar, o que foi um erro. O crânio doía como se alguém tivesse batido nele com um cassetete. Trechos e fragmentos de lembranças lampejaram no fundo dos seus olhos: as fadas nas armaduras de bronze apavorantes. A plataforma de concreto perto do rio. A certeza de que eles iam morrer.
— Pronto. — Ela pôs a mão no pescoço dele para apoiá-lo. A borda de alguma coisa fria tocou em seus dentes. — Beba isto.
Kit engoliu. A escuridão diminuiu e a dor foi embora com ela. Ele ouviu o canto outra vez, na parte mais profunda de tudo que ele esquecera. A história em que eu te amo, ela não tem fim.
Quando abriu os olhos de novo, a vela perto da cama tinha derretido. Porém, havia luz no quarto — Ty estava sentado ao lado da cama, uma pedra de luz enfeitiçada na mão, encarando as pás giratórias do ventilador.
Kit tossiu e se sentou direito. Desta vez, doeu um pouco menos. Sua garganta parecia lixa.
— Água — pediu.
Ty desviou o olhar das pás do ventilador. Kit percebera antes que Ty gostava de olhar para elas, como se o movimento gracioso o agradasse. O menino encontrou a jarra d'água e um copo, e o entregou.
— Você quer mais água? — perguntou, depois que a sede de Kit esvaziara a jarra. Ele tinha trocado de roupa desde a última vez em que Kit o vira. Mais das coisas antiquadas do depósito. Camisa de listras finas, calça preta. Parecia que ele fazia parte de algum anúncio publicitário antigo.
Kit balançou a cabeça e apertou o copo com força. Uma estranha sensação de irrealidade o dominara — aqui estava ele, Kit Rook, em um Instituto, com uma pancada na cabeça dada por fadas imensas por ele ter defendido os Nephilim.
Seu pai teria se envergonhado. Mas Kit não sentia nada além da noção de que fizera a coisa certa. A sensação de que o pedaço que sempre faltara em sua vida, que o deixara inquieto e ansioso, tinha sido devolvido a ele por obra do acaso e do destino.
— Por que você fez aquilo? — perguntou Ty.
Kit se ergueu, apoiando-se nos braços.
— Por que eu fiz o quê?
— Na hora em que eu saí da loja de magia, e você e Livvy estavam discutindo. — O olhar cinzento de Ty pousou num ponto próximo à clavícula de Kit. — Vocês estavam falando de mim, não estavam?
— Como você sabia que nós estávamos discutindo? — perguntou Kit. — Você escutou?
Ty balançou a cabeça.
— Eu conheço Livvy — disse. — Sei quando ela está zangada. Sei tudo que ela faz. Ela é minha gêmea. Eu não sei de nada disso quando com outra pessoa, mas sei quando é com ela. — Ele deu de ombros. — A discussão era a meu respeito, não era?
Kit assentiu.
 — Todo mundo sempre tenta me proteger — falou Ty. — Julian tenta me proteger de tudo. Livvy tenta evitar que eu me decepcione. Ela não quer que eu saiba que você pode ir embora, mas eu sempre soube disso. Jules e Livvy têm dificuldade em imaginar que eu cresci. Que talvez eu entenda que algumas coisas são temporárias.
— Você se refere a mim — falou Kit. — Que eu sou temporário.
— Ir embora ou ficar é sua escolha — disse Ty. — Em Limehouse, pensei que talvez fosse ir embora.
— Mas e quanto a você? — falou Kit — Eu pensei que você fosse para a Scholomance. E eu nunca poderia ir para lá. Nem tenho treinamento básico.
Kit pousou o copo d'água. No mesmo instante, Ty o pegou e começou a girá-lo nas mãos. Era feito de vidro leitoso, áspero do lado de fora, e ele parecia gostar da textura.
Ty estava em silêncio e, nesse silêncio, Kit pensou nos fones de ouvido do garoto, a música em seus ouvidos, nas palavras sussurradas, no jeito como ele tocava as coisas com total concentração: pedras lisas, vidro áspero, seda, couro e linho com textura. Havia pessoas no mundo, ele sabia, que achavam que seres humanos como Ty faziam essas coisas sem motivo — porque eram inexplicáveis. Malucas.
Kit sentiu uma onda de raiva atravessá-lo. Como elas conseguiam entender que tudo o que Ty fazia tinha uma razão? Se uma sirene de ambulância retumbava nos ouvidos, você os cobria. Se alguma coisa acertava você, você se dobrava para se proteger da dor.
Mas nem todos sentiam e ouviam da mesma maneira. Ty ouvia tudo duas vezes mais alto e rápido que todo mundo. Os fones de ouvido e a música, Kit sentia, eram amortecedores: eles abafavam não apenas outros sons, mas também sentimentos que, de outra forma, seriam intensos demais. Eles o protegiam da dor.
Ele não conseguia deixar de se perguntar como seria viver tão intensamente, sentir as coisas tanto assim, ter o mundo piscando em cores e barulhos fortes demais. Quando cada som e sentimento era elevado à enésima potência, só fazia sentido se acalmar concentrando toda a energia em algo pequeno, que você podia dominar: uma quantidade imensa de limpadores de canos para desemaranhar, a superfície áspera de um vidro entre seus dedos.
 — Não quero dizer a você para não ir para a Scholomance, se é isso mesmo o que você quer — falou Kit. — Mas eu só diria que nem sempre tem a ver com pessoas tentando te proteger ou sabendo o que é melhor para você, ou pensando que sabem. Às vezes, elas simplesmente sabem que sentiriam sua falta.
 — Livvy sentiria minha falta...
 — Sua família inteira sentiria — disse Kit. — Eu sentiria sua falta.
Era um pouco como pular de um penhasco, muito mais assustador do que qualquer vigarice que Kit já tivesse cometido para o pai, qualquer integrante do Submundo ou demônio que ele já tivesse encontrado. Ty ergueu o olhar, surpreso, esquecendo o copo nas mãos. Ele estava corando. Era muito visível contra sua pele clara.
— Você sentiria?
— Sim — falou Kit —, mas, como eu disse, não quero impedir você de ir se realmente quiser...
— Eu não quero — falou Ty. — Mudei de ideia — Ele pousou o copo. — Não foi por sua causa. É porque a Scholomance parece estar cheia de babacas.
Kit explodiu numa gargalhada. Ty ficou ainda mais espantado do que quando Kit dissera que sentiria falta dele. Mas, depois de um segundo, ele também começou a rir. Os dois estavam rindo, Kit dobrado sobre os cobertores, quando Magnus entrou no quarto. O feiticeiro olhou para os dois e balançou a cabeça.
— Que bagunça — falou, e foi até a bancada onde ficavam os funis e tubos de vidro arrumados. Ele deu um olhar satisfeito aos dois. — Não que alguém aqui provavelmente se importe, mas o antídoto para o feitiço de amarração está pronto. Não devemos ter dificuldade em partir para Idris amanhã.


Cristina sentia como se um tornado tivesse soprado em seu quarto. Ela pousou o canivete na cornija e se virou para Mark.
Ele estava reclinado na parede, os olhos arregalados sem focar em nada. Ela se lembrava de um livro antigo que tinha lido quando era criança. Nele, havia um garoto com olhos de cores diferentes, um cavaleiro nas Cruzadas. Um olho para Deus, dizia o livro, e outro para o diabo.
Um garoto que fora dividido, parte bom e parte mau. Assim como Mark fora dividido entre fadas e Nephilim. Ela via a batalha correndo nele agora, embora toda a sua raiva fosse para si mesmo.
— Mark — começou ela. — Não é...
— Não diga que não é minha culpa — falou ele inexpressivamente. — Eu não poderia suportar, Cristina.
— Não é apenas sua culpa — disse ela. — Todos nós sabíamos. É tudo nossa culpa. Não foi a coisa certa a fazer, mas nós tínhamos poucas opções. E Kieran te tratou mal.
— Ainda assim, eu não deveria ter mentido para ele.
Uma rachadura escura e irregular no gesso da parede de Cristina, saliente através da tinta, era o único sinal do que tinha acontecido. Isto, e a bolota dourada esmagada na lareira.
— Só estou dizendo que, se você pode perdoá-lo, também deveria ser capaz de se perdoar — falou ela.
— Você pode vir aqui? — falou Mark com uma voz meio abafada.
Ele estava de olhos fechados e cerrava e abria os punhos. Ela quase tropeçou para chegar até ele do outro lado do cômodo. Ele pareceu sentir a aproximação dela; sem abrir os olhos, esticou a mão e a agarrou com um aperto de quebrar os ossos.
Cristina baixou o olhar. Ele agarrava a mão dela com tanta força que deveria ter machucado, mas tudo que ela viu foram as marcas ao redor dos pulsos deles. Com os dois assim bem pertinho, elas desapareciam quase totalmente.
Ela sentiu outra vez o mesmo que sentira naquela noite no salão de baile, como se o feitiço de amarração tivesse amplificado a proximidade dele para outra coisa, uma coisa que arrastava sua mente de volta àquela colina no Reino das Fadas, a lembrança de ser amarrada a Mark.
A boca de Mark encontrou a dela. Ela o ouviu gemer: ele a beijava com força e desesperadamente; era como se fogo se derramasse pelo corpo de Cristina, transformando sua luz em cinzas.
Ainda assim, ela não conseguia esquecer Kieran beijando Mark na frente dela, enérgica e deliberadamente. Parecia que agora ela não conseguia pensar em Mark sem pensar em Kieran também. Não conseguia encarar os olhos azul e dourado sem enxergar preto e prata.
— Mark — falou ela colada aos lábios dele. As mãos dele estavam nas dela, agitando seu sangue ao ponto de um calor suave. — Esse não é o jeito certo de se forçar a esquecer.
Ele se afastou dela.
— Eu quero abraçar você — falou. — Quero muito. — Ele a soltou lentamente, como se o movimento um esforço. — Mas não seria justo. Nem com você, nem com Kieran, nem comigo. Não agora.
Cristina tocou as costas da mão dele.
— Você tem que ir atrás de Kieran e acertar as coisas entre vocês. Ele é uma parte importante demais de você, Mark.
— Você ouviu o que o Rei disse. — Mark deixou a cabeça cair contra a parede. — Ele vai matar Kieran por testemunhar. Vai caçá-lo para sempre. Isso é culpa nossa.
— Ele concordou com isso...
— Sem saber a verdade! Ele concordou porque pensava que me amava e que eu o amava...
— E isso não é verdade? — perguntou Cristina. — E mesmo que não fosse, ele simplesmente não esqueceu que vocês brigaram. Ele esqueceu o que ele fez. Esqueceu o que ele te deve. Esqueceu a própria culpa. E isso faz parte do motivo pelo qual ele está tão zangado. Não com você, mas com ele mesmo.
A mão de Mark apertou a dela.
— Agora nós devemos um ao outro, Kieran e eu — falou ele. — Eu o coloquei em perigo. O Rei Unseelie sabe que ele planeja testemunhar. Ele jurou caçar Kieran. Cristina, o que nós vamos fazer?
— Tentar mantê-lo em segurança — falou ela. — Testemunhando ou não, o Rei não vai perdoá-lo. Precisamos encontrar um lugar onde Kieran ficará protegido. — Ela empinou o queixo assim que teve uma ideia. — Eu sei exatamente onde. Mark, nós temos que...
Eles ouviram uma batida à porta. Afastaram-se um do outro assim que a porta foi aberta; ambos esperavam que fosse Kieran, e a decepção de Mark ficou evidente quando Magnus apareceu.
O feiticeiro trazia dois frascos gravados de metal e ergueu uma sobrancelha ao ver a expressão do menino fada.
— Eu não sei quem vocês esperavam que fosse, e lamento não ser essa pessoa — falou secamente. — Mas o antídoto está pronto.
Cristina tinha imaginado que uma sensação de alívio tomaria conta dela. Em vez disso, ela não sentiu nada. Tocou a mão esquerda até o pulso machucado e olhou para Mark, que fitava o chão.
— Não tenham pressa em me agradecer ou coisa assim — falou Magnus, dando um frasco a cada um. — Expressões profusas de gratidão só me deixam constrangido, embora presentes em dinheiro sempre sejam bem-vindos.
— Obrigada, Magnus — falou Cristina, corando. Ela destampou o frasco: um odor amargo e obscuro subiu dele, como o cheiro de pulque, uma bebida da qual Cristina nunca gostara.
Magnus estendeu uma das mãos.
— Só bebam quando estiverem em cômodos separados — falou ele. — Na verdade, vocês deveriam passar, pelo menos, as próximas horas longe um do outro para que o feitiço possa agir corretamente. Todos os efeitos devem ter passado até amanhã.
— Obrigado — falou Mark, dirigindo-se à porta. Ele parou e olhou para Cristina. — Eu concordo com você — disse ele. — Sobre Kieran. Se tiver alguma coisa que você possa fazer para garantir a segurança dele... faça.
Aí saiu sem fazer barulho, com passos suaves como os de um gato. Magnus olhou para a parede rachada, e então para Cristina.
— Devo saber de alguma coisa? — perguntou ele.
Cristina suspirou.
— Uma mensagem de fogo pode ultrapassar as barreiras de proteção que você criou?
Magnus fitou a parede outra vez, balançou a cabeça e falou:
— Melhor você me dar a mensagem. Eu a enviarei.
Ela hesitou.
— Eu não vou lê-la — emendou o feiticeiro, irritado. — Juro.
Cristina pousou o frasco, pegou papel, caneta e a estela, e rabiscou uma mensagem com uma assinatura de símbolo, antes de dobrá-la e entregar a Magnus, que assobiou baixinho ao ver o nome do destinatário no topo.
— Você tem certeza?
Ela assentiu com uma resolução que não sentia.
— Absoluta.

5 comentários:

  1. vcs podem me achar meio doida por pensar isso (ou não porque isso também é normal) mais...eu estou com uma leve suspeita que diego e cristina vão ficar juntos! assim como kieran e mark.

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  2. Primeiro: atiçador me lembra a Dessa
    Segundo: mta dó do Kieran, queria que ele ficasse com o Mark
    Ana Santos

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  3. angel 10/12/2012 espero que o amor fale mais alto e eles possam ficar juntos ,mark e kieran ,cristina e diego

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  4. Apesar do Kieran ter passado muito coisa e mudado e tals, eu ainda não consigo shippar ele com o Mark. O problema talvez não seja o Kieran, e sim a Cristina, que eu não consigo pensar en outra pessoa além do Mark
    . Só se os três ficasseme juntos 👍😋

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  5. Não me levem a mal. Mas eu não shipo Ty e kit. Nada de preconceito mas o laço parabattai seria mais legal. Gosto mt deles. Acho q são meus personagens favoritos.
    Ass Laura Herondale

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Boa leitura :)