20 de novembro de 2017

Capítulo 25

Como é sabido, a vida apresenta uma série de problemas, dos quais os mais importantes são, entre outros, Por que as pessoas nascem? Por que elas morrem? Por que elas passam uma parte tão grande do tempo entre o nascimento e a morte usando relógios digitais?.
Há muitos e muitos milhões de anos, uma espécie de seres pandimensionais hiperinteligentes (cuja manifestação física no universo pandimensional deles não é muito diferente da nossa) ficaram tão de saco cheio dessas discussões incessantes a respeito do significado da vida, as quais costumavam interromper seu passatempo favorito, o ultracríquete broquiano (um jogo curioso, no qual, entre outras coisas, os jogadores de repente batiam uns nos outros sem nenhum motivo aparente e depois fugiam correndo), que decidiram sentar e resolver esses problemas de uma vez por todas.
Para tal, construíram um estupendo supercomputador tão extraordinariamente inteligente que, mesmo antes de seus bancos de dados serem ligados, ele já deduzira, a partir do princípio Penso, logo existo, a existência do pudim de arroz e do imposto de renda, antes que tivessem tempo de desligá-lo.
Era do tamanho de uma cidade pequena.
Seu terminal principal foi instalado num escritório especialmente projetado para esse fim, sobre uma mesa imensa de ultra mogno, com tampo forrado de finíssimo couro ultra vermelho. O carpete escuro era discretamente suntuoso; havia plantas exóticas e gravuras de muito bom gosto que representavam os principais programadores do computador com suas respectivas famílias, e janelas imponentes que davam para uma praça toda arborizada.
No dia da Grande Ligação do Computador, dois programadores de roupas sóbrias, carregando pastas, entraram e foram discretamente levados até a sala do terminal. Sabiam que nesse dia agiam como representantes de sua espécie em seu momento mais solene, mas estavam perfeitamente calmos. Sentaram-se à mesa com certa deferência, abriram suas pastas e delas tiraram cadernos encadernados em couro.
Chamavam-se Lunkwill e Fook.
Por alguns momentos, permaneceram num silêncio respeitoso. Depois, após trocar um olhar com Fook, Lunkwill inclinou-se para a frente e tocou num pequeno painel negro.
Um sutilíssimo zumbido indicou que o enorme computador estava agora em funcionamento. Após uma pausa, ele falou, com uma voz cheia, ressoante e grave:
— Qual é a grande tarefa que eu, Pensador Profundo, o segundo maior computador do Universo do Tempo e Espaço, fui criado para assumir?
Lunkwill e Fook entreolharam-se, surpresos.
— Sua tarefa, ó computador... — ia dizendo Fook.
— Não, espere um minuto, isso não está certo — interrompeu Lunkwill, preocupado. — Nós projetamos esse computador de modo que ele fosse o maior de todos, e não vamos aceitar essa história de “segundo maior”. Pensador Profundo — disse ele, dirigindo-se ao computador —, então, você não é, tal como foi feito para ser, o maior e mais poderoso computador de todos os tempos?
— Eu disse que era o segundo maior — respondeu Pensador Profundo —, e é o que sou.
Os dois programadores trocaram outro olhar preocupado. Lunkwill pigarreou.
— Deve haver algum engano — disse ele. — Você não é maior que o Pantagrucérebro Colossal de Maximegalon, que é capaz de contar todos os átomos de uma estrela em um milissegundo?
— O Pantagrucérebro Colossal? — disse Pensador Profundo, sem tentar disfarçar seu desprezo. — Aquele ábaco? Falemos de outra coisa.
— E você não é um calculador mais hábil — disse Fook, nervoso — que o Pensador Estelar Googleplex da Sétima Galáxia de Luz e Engenho, capaz de calcular a trajetória de cada grão de poeira em uma tempestade de areia de cinco semanas em Beta de Dangrabad?
— Uma tempestade de areia de cinco semanas? — exclamou Pensador Profundo, arrogante. — Eu, que já considerei os vetores dos átomos do próprio big-bang? Não me venham com essas proezas de calculadora de bolso.
Por um momento, os dois programadores não souberam o que dizer.
Então Lunkwill falou de novo:
— Mas não é verdade que você é um adversário mais temível que o Grande Estronca-Nêutrons Omini-Cognato Hiperlóbico de Ciceronicus 12, o Mágico e Infatigável?
— O Grande Estronca-Nêutrons Omni-Cognato Hiperlóbico — disse Pensador Profundo, caprichando nos erres — é capaz, de argumentar com uma megamula de Areturus até ela cair morta de exaustão, mas só eu seria capaz de convencê-la a levantar-se e andar depois.
— Então — perguntou Fook —, qual é o problema?
— Não há problema — disse Pensador Profundo, num tom de voz extraordinariamente ressonante. — Sou simplesmente o segundo maior computador no Universo do Espaço e Tempo.
— Mas, o segundo? — insistiu Lunkwill. — Por que você fala a toda hora que é o segundo? Será que você está pensando no Ruminador Titânico Perspieutrônico Multicorticoide? Ou no Meditamático? Ou no...
Luzinhas arrogantes piscaram no terminal.
— Não gasto um bit pensando nesses retardados cibernéticos! Só falo do computador que há de vir depois de mim!
Fook estava perdendo a paciência. Pôs de lado o caderno e murmurou:
— Acho esse seu messianismo totalmente fora de propósito
— Você nada sabe do futuro — disse Pensador Profundo —, enquanto eu, com meus circuitos abundantes, navego nos deltas infinitos da probabilidade futura, e vejo que um dia surgirá um computador cujos parâmetros operacionais não sou digno de calcular, mas que será meu destino um dia projetar.
Fook suspirou fundo e olhou para Lunkwill.
— Podemos fazer logo a pergunta? Lunkwill fez sinal para que ele esperasse.
— De que computador você está falando? — perguntou Lunkwill.
— Não falarei mais dele no presente — respondeu Pensador Profundo. — Podem perguntar-me qualquer outra coisa que eu funcionarei. Falem.
Os dois deram de ombros. Fook endireitou-se na cadeira.
— Ó Pensador Profundo, a tarefa que lhe cabe assumir é a seguinte: queremos que nos diga... — fez uma pausa e concluiu: — ...a Resposta!
— A Resposta? — repetiu Pensador Profundo. — Resposta a que pergunta?
— A Vida! — exclamou Fook.
— O Universo! — disse Lunkwill.
— E tudo o mais! — exclamaram em uníssono. Pensador Profundo fez uma pausa para refletir.
— Essa é fogo — disse, finalmente.
— Mas você pode nos dizer? Outra pausa significativa.
— Posso, sim — respondeu Pensador Profundo.
— Então há uma resposta? — perguntou Fook, ofegante.
— Uma resposta simples? — perguntou Lunkwill.
— Sim — respondeu Pensador Profundo. — A Vida, o Universo e Tudo o Mais. Há uma resposta. Mas vou ter que pensar nela.
O momento solene foi interrompido por uma comoção súbita: a porta abriu-se de repente e entraram dois homens irritados, trajando as vestes e cinturões de fazenda azul desbotada e grosseira que os identificava como membros da Universidade de Cruxwan, empurrando para o lado os empregados que tentavam impedir sua entrada.
— Exigimos o direito de entrar! — gritou o mais jovem dos dois, enfiando um cotovelo no pescoço de uma jovem e bonita secretária.
— Ora! — gritou o mais velho. — Vocês não podem nos manter do lado de fora! — Empurrou um jovem programador para fora da sala.
— Exigimos o direito de vocês não terem o direito de impedir que entremos! — gritou o mais jovem, embora já estivesse dentro da sala e ninguém o estivesse empurrando para fora.
— Quem são vocês? — perguntou Lunkwill, irritado, levantando-se. — O que vocês querem?
— Sou Majikthise! — proclamou o mais velho.
— E exijo que eu seja Vroomíondel! — gritou o mais jovem. Majikthise virou-se para Vroomfondel.
— Tudo bem — explicou, zangado. — Isso você não tem que exigir!
— Está bem! — berrou Vroomfondel, esmurrando uma mesa.
— Eu sou Vroomfondel, e isto não é uma exigência, e sim um fato concreto1.
— O que exigimos são fatos concretos!
— Nada disso! — exclamou Majikthise, mais irritado ainda.
— É justamente isso que não exigimos!
— Sem parar para respirar, Vroomfondel gritou:
Não exigimos fatos concretos! O que exigimos é uma ausência total de fatos concretos. Exijo que eu possa ser ou não ser Vroomfondel!
— Mas, afinal, quem são vocês? — gritou Fook, indignado.
— Somos — disse Majikthise — filósofos.
— Se bem que podemos não ser — disse Vroomfondel, dedo em riste na cara dos programadores.
— Ah, somos, sim, definitivamente! — insistiu Majikthise. — Somos representantes do Sindicato Reunido de Filósofos, Sábios, Luminares e Outras Pessoas Pensantes, e queremos que essa máquina seja desligada agora mesmo 1
— Qual é o problema? — perguntou Lunkwill.
— Eu lhe digo já, já qual é o problema, meu chapa! — respondeu Majikthise.
— O problema é a demarcação!
— Exigimos — gritou Vroomfondel — que o problema possa ser ou não ser a demarcação!
— Essas máquinas têm mais é que fazer contas — disse Majikthise —, enquanto nós cuidamos das verdades eternas. Quer saber a sua situação perante a lei? Pela lei, a Busca da Verdade Ultima é uma prerrogativa inalienável dos pensadores. Se uma porcaria de uma máquina resolve procurar e acha a porcaria da Verdade, como é que fica o nosso emprego? O que adianta a gente passar a noite em claro discutindo se Deus existe ou não pra no dia seguinte essa máquina dizer qual é o número do telefone dele?
— Isso mesmo! — gritou Vroomfondel. — Exigimos áreas de dúvida e incerteza rigidamente delimitadas!
De repente, uma voz tonitruante ressoou no recinto.
— Por acaso eu poderia fazer uma observação? — perguntou Pensador Profundo.
— A gente entra em greve! — gritou Vroomfondel.
— Isso mesmo! — apelou Majikthise. — É o que vocês vão arranjar, uma greve nacional de filósofos!
O nível de zumbido de repente aumentou, quando diversos alto-falantes auxiliares, instalados em caixas de som envemizadas e trabalhadas, entraram em funcionamento para dar um pouco mais de potência à voz de Pensador Profundo, que prosseguiu:
— Eu só queria dizer que meus circuitos agora estão irrevogavelmente dedicados à tarefa de calcular a resposta à Questão Fundamental da Vida, do Universo e Tudo o Mais. — Fez uma pausa, para certificar-se de que agora todos estavam prestando atenção nele, e então acrescentou, em voz mais baixa: — Só que o programa vai levar um certo tempo pra ser processado.
Fook olhou para o relógio, impaciente.
— Quanto tempo?
— Sete milhões e quinhentos mil anos — respondeu o computador. Lunkwill e Fook entreolharam-se.
— Sete milhões e quinhentos mil anos...1. — exclamaram em uníssono.
— Exato — disse Pensador Profundo. — Eu disse que ia ter que pensar, não disse? E ocorre-me que um programa como esse certamente há de gerar uma publicidade imensa para toda a área de filosofia. Todo mundo vai elaborar uma teoria a respeito da resposta que vou dar no final. E ninguém poderá explorar melhor essa situação nos meios de comunicação do que vocês. Enquanto vocês continuarem a discordar violentamente um do outro e a atacar-se mutuamente na imprensa e a contratar bons agentes, vocês garantem sombra e água fresca pro resto da vida. É ou não é?
Os dois filósofos olhavam boquiabertos para o terminal.
— Ora, porra — disse Majikthise —, isso é que é pensar de verdade, o resto é conversa fiada. Me diga uma coisa, Vroom-fondel, como é que a gente nunca tem uma ideia dessas?
— Sei lá — sussurrou Vroomfondel, reverente. — Acho que é porque nossos cérebros são treinados demais, Majikthise.
E, assim, os dois se viraram e saíram da sala, prontos a viver num padrão de vida muito superior aos seus sonhos mais loucos.

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Boa leitura :)