15 de novembro de 2017

Capítulo 25

Duas horas depois, Liv está sentada no táxi, nervosa, vendo Henry devorar um café e um pão doce.
— Tive que levar as crianças para a escola — diz ele, espalhando migalhas pelas pernas. — Nunca tenho tempo de tomar café.
Ela está com um blazer cinza-escuro, deixando entrever o azul vivo da blusa por baixo. Usa essas roupas como uma armadura. Quer dizer algo, mas sua mandíbula parece estar amarrada com arame. Já não tem nervos: é um nervo exposto. Se encostassem nela, ela poderia dar choque.
— É garantido que justo quando a gente senta com uma caneca de café, um deles entra pedindo torrada, mingau ou outra coisa qualquer.
Ela assente calada. Continua ouvindo a voz de Paul. Essas obras de arte foram todas roubadas.
— Acho que passei um ano comendo qualquer coisa que eu pudesse pegar na cozinha quando saísse. Acabei ficando fã de panqueca crua, na verdade.
Há gente diante do tribunal. Uma aglomeração se forma na frente da escadaria principal. A princípio, ela pensa que devem ser turistas, mas Henry pega seu braço quando ela salta do táxi.
— Caramba. Fique de cabeça baixa — diz ele.
— Por quê?
Quando ela põe o pé na calçada, pipocam os flashes. Ofuscada, ela fica paralisada por um instante. Então, o braço de Henry a impele para a frente e eles enfrentam o empurra-empurra dos homens que gritam o nome dela. Alguém coloca um papel em sua mão livre e ela ouve a voz de Henry, com um leve tom de pânico, quando o grupo parece cercá-la. Ela está rodeada por uma confusão de paletós, e o reflexo escuro e insondável de lentes enormes.
— Para trás, todo mundo, por favor. Para trás.
Ela vê o reflexo do metal no uniforme de um policial, fecha os olhos, sente que a empurram para o lado, a mão de Henry apertando seu braço.
Chegam ao fórum silencioso, passam pela Segurança, e já do lado de dentro, ela pisca para ele aturdida.
— Que diabo foi isso? — diz ela, ofegante.
Henry ajeita o cabelo e se vira para olhar pelas portas.
— A imprensa. Acho que parece que o processo chamou muita atenção.
Ela endireita o blazer, depois olha em volta, justo a tempo de ver Paul passando pela Segurança. Ele está usando uma camisa azul-clara e calças escuras e parece absolutamente sereno. Ninguém o incomodou. Quando seus olhos se cruzam, ela lhe lança um olhar contrariado. Ele diminui levemente o passo, mas sua expressão não se altera. Olha para trás e segue em direção ao Tribunal Dois com os documentos embaixo do braço.
Só então vê o pedaço de papel em sua mão. Ela o abre com cuidado.

A posse daquilo que os alemães confiscaram é CRIME. Acabe com o sofrimento do povo judeu. Devolva o que é deles por direito. Faça justiça antes que seja TARDE DEMAIS.

— O que é isso? — Henry espia por cima do ombro dela.
— Por que me deram isso? Os autores da ação nem são judeus! — exclama ela.
— Eu lhe avisei que o saque em tempos de guerra é um tema incendiário. Acho que se pode encontrar todo tipo de grupos de interesse metidos nisso, tenham ou não sido afetados diretamente.
— Mas isso é um absurdo. Não roubamos o raio do quadro. Ele é nosso há mais de dez anos!
— Vamos, Liv. Vamos para o Tribunal Dois. Vou mandar alguém pegar um copo d’água para você.

* * *

A área de imprensa está lotada. Ela vê os repórteres, acotovelados, murmurando e fazendo piadas, folheando os jornais do dia antes da chegada do juiz. Um bando de predadores, relaxados, mas atentos, aguardando a presa. Ela observa as arquibancadas tentando reconhecer algum rosto da confusão na entrada. Quer se levantar e gritar para eles. Isso é um jogo para vocês, não é? Só vai servir de embrulho para peixe amanhã. Seu coração está acelerado.
O juiz, diz Henry, acomodando-se em sua cadeira, tem experiência em tais processos e é rigorosamente justo. Mas é vago quando ela lhe pergunta quantas vezes deu ganho de causa aos donos atuais de uma obra.
Cada lado está sobrecarregado com grossas pastas de documentos, listas de testemunhas especialistas, declarações sobre obscuros pontos legais da lei francesa. Henry, de brincadeira, já disse que Liv agora sabe tanto sobre litígio especializado que talvez depois ele lhe ofereça um emprego.
— Posso precisar — diz ela sombria.
— Todos de pé.
— Lá vamos nós.
Henry toca no braço dela e lhe dá um sorriso tranquilizador.
Os Lefèvre, dois homens idosos, já estão sentados no banco com Sean Flaherty, observando em silêncio enquanto seu advogado, Christopher Jenks, resume sua ação. Ela olha para eles, estudando suas expressões severas, o jeito com que cruzam os braços no peito, como se predispostos à contrariedade.
Maurice e André Lefèvre são os beneficiários das obras e do espólio de Édouard Lefèvre, explica ele ao tribunal. Seu interesse, diz, reside em salvaguardar sua obra e proteger seu legado para o futuro.
— E rechear os bolsos — resmunga ela.
Henry balança a cabeça de modo negativo.
Jenks anda de um lado a outro do tribunal, só de vez em quando consultando as anotações, suas considerações dirigidas ao juiz. Como a popularidade de Lefèvre cresceu nos últimos anos, seus descendentes fizeram um levantamento das obras remanescentes, que revelou referências a um retrato intitulado A garota que você deixou para trás, que no passado pertencera à mulher do artista, Sophie Lefèvre.
Uma fotografia e alguns diários revelaram o fato de que o retrato estava exposto à vista de todos no hotel conhecido como Le Coq Rouge, em St Péronne, uma cidade ocupada pelos alemães na Primeira Guerra Mundial.
Há registros de que o Kommandant encarregado da cidade, um tal Friedrich Hencken, admirou o quadro em diversas ocasiões. O Le Coq Rouge foi requisitado pelos alemães para seu uso próprio. Sophie Lefèvre fora explícita em sua resistência à ocupação alemã. Sophie Lefèvre foi presa e afastada de St Péronne no início de 1917. Na mesma época, o quadro desapareceu.
Estes fatos, afirma Jenks, são bastante sugestivos de coerção, de uma aquisição “imoral” de uma obra admirada. Mas esta, diz ele enfaticamente, não é a única indicação de que o quadro foi obtido ilegalmente. Provas recém-obtidas registram sua aparição durante a Segunda Guerra, em Berchtesgaden, Alemanha, num depósito conhecido como Collection Point, usado para obras de arte roubadas ou saqueadas que haviam ficado em posse dos alemães. Ele diz as palavras “obras de arte roubadas e saqueadas” duas vezes, como se para enfatizar o seu argumento. Aqui, diz Jenks, o quadro passou misteriosamente para a posse de uma jornalista americana, Louanne Baker, que passou um dia no Collection Point e escreveu sobre ele para um jornal americano. Suas reportagens da época mencionam que ela recebeu um “presente” ou um “memento” do acontecimento. Ela guardou o quadro em casa, fato confirmado por sua família, até ele ser vendido dez anos atrás para David Halston, que, por sua vez, deu-o de presente de casamento à sua mulher.
Isso não é novidade para Liv, que já teve acesso integral a todas as provas. Mas ela ouve a história de seu quadro lida em voz alta no tribunal e acha difícil associar seu retrato, o pequeno quadro que está pendurado serenamente na parede de seu quarto, a tal trauma, a tais acontecimentos globalmente significativos.
Ela olha para os bancos da imprensa. Os repórteres parecem extasiados, tal como o juiz. Ela pensa, distraidamente, que se todo o seu futuro não dependesse disso, ela provavelmente também estaria extasiada. No banco, Paul está inclinado para trás, com os braços cruzados, numa atitude combativa.
Liv deixa o olhar vaguear, e ele olha em cheio para ela. Ela cora ligeiramente e vira o rosto. Pergunta a si mesma se ele estará ali todos os dias e se é possível matar um homem num tribunal lotado.
Christopher Jenks está em pé diante deles.
— Meritíssimo, é uma grande lástima a Sra. Halston ter sido atraída involuntariamente para uma série de malfeitos históricos, mas malfeitos eles são. Sustentamos que este quadro foi roubado duas vezes: uma vez da casa de Sophie Lefèvre, e outra, durante a Segunda Guerra Mundial, de seus descendentes, pela alienação do Collection Point como doação indevida, durante um período tão caótico na Europa que a falha permaneceu sem registro, e, até agora, sem ser descoberta.
“Mas a lei, tanto pela Convenção de Genebra quanto pela atual legislação sobre restituições, diz que tais erros devem ser corrigidos. Sustentamos que este quadro tem de ser restituído aos seus legítimos proprietários, a família Lefèvre. Obrigado.”
O rosto de Henry, ao lado dela, é inexpressivo.
Liv olha para o canto da sala, onde, sobre um pequeno cavalete, há uma imagem impressa de A garota que você deixou para trás em tamanho natural. Flaherty pedira que o quadro fosse colocado sob custódia enquanto seu destino era decidido, mas Henry dissera que ela não tinha obrigação de aceitar isso.
Mesmo assim, é aflitivo ver A garota ali, deslocada, o olhar de certa maneira parecendo zombar do processo à sua frente. Em casa, Liv se vê entrando no quarto só para olhá-la, e com mais atenção ainda em função da possibilidade de nunca mais tornar a vê-la.
A tarde se estende. O ar no tribunal alterna-se entre abafado e mais leve, de acordo com o aquecimento central. Christopher Jenks desmonta a tentativa deles de extinguir a ação penal pela prescrição com a eficiência jurídica de um cirurgião entediado dissecando um sapo. De vez em quando, ela ouve frases como “transferência de título” e “procedência incompleta”. O juiz tosse e examina suas anotações. Paul sussurra para a diretora de sua empresa. Sempre que ele faz isso, ela sorri, mostrando dentes miúdos brancos e perfeitos.
Agora Christopher começa a ler:
— 15 de janeiro de 1917.
“Hoje levaram Sophie Lefèvre. Uma cena nunca vista. Ela estava cuidando dos assuntos dela no porão do Le Coq Rouge quando dois alemães atravessaram a praça, entraram e a arrastaram escada acima e porta afora, como se ela fosse uma criminosa. Sua irmã implorou e gritou, tal como a filha órfã de Liliane Béthune, todo um grupo de pessoas manifestou o seu protesto, mas eles simplesmente enxotaram todo mundo como moscas. Duas idosas foram realmente derrubadas no chão, na comoção. Juro, mon Dieu, se houver recompensas justas em nossa outra vida, os alemães vão pagar caro.
“Levaram a garota num caminhão de gado. O prefeito tentou impedir, mas ele é uma pessoa fraca, hoje debilitado pela morte da filha, e muito propenso a ser capacho dos boches. Eles não o levam a sério. Quando o veículo finalmente desapareceu, ele entrou no bar do Le Coq Rouge e anunciou com grande solenidade que elevaria ao máximo possível o nível do hotel. Nenhum de nós lhe deu ouvidos. A pobre irmã dela, Hélène, chorou, com a cabeça no balcão, seu irmão Aurélien fugiu, como um cão escaldado, e a criança que Sophie achara por bem acolher — filha de Liliane Béthune — ficou parada no canto, pálida como um fantasma.
“‘Ei, Hélène vai cuidar de você’, eu lhe disse. Abaixei-me e coloquei uma moeda em sua mão, mas ela olhou para aquilo como se não soubesse o que era. Quando me fitou, tinha os olhos esbugalhados. ‘Você não deve ter medo, menina. Hélène é boa. Ela vai cuidar de você.’
“Sei que houve uma comoção com o irmão de Sophie antes que ela fosse embora, mas meus ouvidos não são bons e, com o barulho e a confusão, perdi o principal. Mesmo assim, acho que ela foi usada pelos alemães. Eu sabia que, quando eles resolveram se apossar do Le Coq Rouge, a garota estava perdida, mas ela nunca quis me ouvir. Deve tê-los ofendido de alguma maneira. Sempre foi a mais impetuosa. Não posso condená-la por isso: desconfio que se os alemães estivessem na minha casa eu os ofenderia também.
“Sim, tive as minhas diferenças com Sophie Lefèvre, mas esta noite estou com o coração pesado. Vê-la empurrada para aquele caminhão de gado como se já fosse uma carcaça, imaginar seu futuro... Estes são dias negros. Pensar que eu tinha que estar viva para ver essas cenas. Certas noites é difícil não achar que nossa pequena cidade virou um lugar de loucura.”
Em sua voz grave e sonora, Christopher Jenks termina a leitura. O tribunal está mudo, só se ouve o ruído do estenógrafo no silêncio. No teto, um ventilador zumbe preguiçosamente, sem dar conta de deslocar o ar.
— “Eu sabia que, quando eles resolveram se apossar do Le Coq Rouge, a garota estava perdida.” Senhoras e senhores, acho que esta entrada do diário nos diz de maneira bastante conclusiva que qualquer relação que Sophie Lefèvre tivesse com os alemães em St Péronne não era uma relação especialmente feliz.
Ele passeia pelo tribunal como alguém tomando ar em frente a uma praia, estudando displicentemente as páginas fotocopiadas.
— Mas esta não é a única referência. Essa mesma moradora da localidade, Vivienne Louvier, demonstrou ser uma extraordinária cronista da vida na pequena cidade. E se voltarmos vários meses antes, ela escreve o seguinte: “Os alemães estão fazendo as refeições no Le Coq Rouge. Fazem as irmãs Bessette prepararem para eles uma comida tão boa que o cheiro chega até a praça e quase enlouquece a gente de desejo. Falei para Sophie Bessette — ou Lefèvre, como ela se chama agora — que o pai dela não toleraria isso, mas ela diz que não há nada que eu possa fazer.
Ele levanta a cabeça.
— “Nada que eu possa fazer.” Os alemães invadiram o hotel da mulher do artista, forçaram-na a cozinhar para eles. Ela tem o inimigo realmente em sua casa, e é absolutamente impotente. Tudo convincente. Mas esta não é a única prova. Uma pesquisa no arquivo Lefèvre revelou uma carta escrita por Sophie Lefèvre ao marido. Aparentemente, a carta nunca chegou às mãos dele, mas acho que isso se demonstrará ser irrelevante.
Ele ergue o papel, esforçando-se para enxergar na luz.
— Herr Kommandant não é tão tolo quanto Beckenbauer, mas me irrita mais. Ele olha para o retrato que você fez de mim e tenho vontade de dizer a ele que não tem esse direito. Esse quadro, mais que todos os outros, pertence a você e a mim. Sabe a coisa mais engraçada, Édouard? Ele admira mesmo a sua obra. Ele tem conhecimento, conhece a escola de Matisse, de Weber e Purrmann. Como foi estranho me ver defendendo a sua pincelada superior para um Kommandant alemão!
“Mas eu me recuso a tirar o quadro da parede, não importa o que Hélène diga. Ele me lembra você, e a época em que fomos felizes juntos. Me lembra que a humanidade é capaz de amor e beleza assim como de destruição.
“Rezo pelo seu regresso rápido e em segurança, meu querido.
“Sua para sempre, Sophie.
“‘Este quadro, mais que todos os outros, pertence a você e a mim.’”
Jenks deixa a frase pairar no ar.
— Então, esta carta encontrada muito depois da morte dela, nos mostra o que o retrato representa para a mulher do artista. Diz também de forma bastante conclusiva que um Kommandant alemão estava de olho nele. Não só isso, mas que tinha uma boa ideia do mercado como um todo. Ele era, se quiserem, um aficionado. — Ele pronuncia a palavra enfatizando cada sílaba, como se fosse a primeira vez que a usasse. — E o saque da Primeira Guerra Mundial pareceria prenunciar o da Segunda. Temos aqui oficiais alemães cultos, que sabem o que querem, que conhecem as obras que podem ter valor e que as assinalam...
— Protesto — Angela Silver, advogada de Liv, está de pé. — Há uma enorme diferença entre a pessoa admirar um quadro e conhecer o artista, e de fato confiscá-la. O meu nobre colega não forneceu nenhuma prova de que o Kommandant se apossou do quadro, simplesmente de que o admirava e que fazia as refeições no hotel onde Madame Lefèvre morava. Tudo isso é circunstancial.
— Aceito — murmura o juiz.
Christopher Jenks seca a testa.
— Só estou tentando pintar um quadro, se quiserem, da vida dentro da cidade de St Péronne em 1916. É impossível compreender como alguém poderia se apoderar oficialmente de um quadro sem entender o contexto da época, e como os alemães tinham carte blanche para requisitar, ou tomar o que gostavam, de qualquer casa que escolhessem.
— Protesto — Angela Silver estuda as anotações. — Irrelevante. Não há prova sugerindo que este quadro tenha sido confiscado.
— Aceito. Atenha-se à questão, Sr. Jenks.
— Só estou tentando, novamente... pintar um quadro, meritíssimo.
— Deixe o quadro para Lefèvre se preferir, Sr. Jenks.
Um burburinho de risadas contidas percorre a sala.
— Minha intenção é demonstrar que houve muitos itens requisitados pelas tropas alemãs que não foram registrados, assim como não foram “pagos”, como prometido pelos líderes alemães da época. Menciono o clima geral de tal comportamento porque sustentamos que A garota que você deixou para trás é um desses itens.
“‘Ele olha para o retrato que você fez de mim e tenho vontade de dizer a ele que ele não tem esse direito.’ Bem, defendemos, Meritíssimo, que o Kommandant Friedrich Hencken achou que, de fato, tinha todo o direito. E que este quadro permaneceu em posse dos alemães por mais trinta anos.”
Paul olha para Liv. Ela desvia o olhar.
Concentra-se na imagem de Sophie Lefèvre. Tolos, ela parece dizer, com seu olhar impenetrável parecendo enxergar todas as pessoas ali.
Sim, pensa Liv. Somos, sim.

* * *

Eles interrompem a sessão às três e meia. Angela Silver está comendo um sanduíche em seu gabinete. Sua peruca está em cima de uma mesa ao seu lado, e há uma caneca de chá sobre sua escrivaninha. Henry está sentado à sua frente.
Eles lhe dizem que o primeiro dia transcorreu como haviam esperado. Mas sente-se o cheiro da tensão pairando no ambiente, como o de sal a quilômetros da costa. Liv folheia sua pilha de traduções fotocopiadas enquanto Henry se vira para Angela.
— Liv, você não disse que, quando falou com o sobrinho de Sophie, ele mencionou algo no sentido de ela ter caído em desgraça? Eu me perguntei se valeria a pena seguir essa linha.
— Não entendi — diz ela.
Ambos a olham com um ar de expectativa.
Silver engole o que tem na boca antes de falar.
— Bem, se ela caiu em desgraça, isso não sugere que o relacionamento dela com o Kommandant poderia ser consensual? A questão é que se conseguirmos provar que era, se conseguirmos sugerir que ela estava tendo um caso extraconjugal com um soldado alemão, podemos afirmar também que o retrato poderia ter sido um presente. Não seria impossível uma pessoa envolvida em um caso amoroso dar ao amante um retrato seu.
— Mas Sophie não o daria — diz Liv.
— Não temos como saber — diz Henry. — Você me contou que, depois que ela desapareceu, a família nunca mais falou nela. Sem dúvida, se ela fosse inocente, eles haveriam de querer lembrá-la. Em vez disso, parece que o nome dela está envolvido em algo vergonhoso.
— Acho que ela não poderia ter tido uma relação consensual com o Kommandant. Olhem este postal.
Liv torna a abrir sua pasta.
— “Você é a minha estrela guia nesse mundo de loucura.” Este postal é de três meses antes dessa suposta “colaboração” dela. Não parece coisa de marido e mulher que não se amam, parece?
— Isso é certamente um marido que ama a mulher, sim — diz Henry. — Mas não temos ideia se este amor era recíproco. Ela poderia estar loucamente apaixonada por um soldado alemão na época. Poderia estar se sentindo só ou confusa. Só o fato de amar o marido não quer dizer que ela não fosse capaz de se apaixonar por alguém quando ele estivesse longe.
Liv afasta o cabelo do rosto.
— Que horror — diz. — Isso é como denegrir o nome dela.
— O nome dela já está denegrido. A família não tem uma palavra decente a dizer sobre ela.
— Não quero usar as palavras do sobrinho contra ela — diz Liv. — Ele é o único que parece gostar dela. Só não... não me convenci de que temos a história completa.
— A história completa é irrelevante. — Angela Silver amassa a embalagem do sanduíche e atira-a com precisão na lixeira. — Olhe, Sra. Halston, se puder provar que ela e o Kommandant tiveram um caso, isso vai aumentar muito as suas chances de conservar o quadro. Enquanto o outro lado conseguir sugerir que o quadro foi roubado, ou obtido por coerção, o seu lado fica mais fraco. — Ela limpa as mãos e recoloca a peruca na cabeça. — Isso é jogo duro. E pode apostar que a outra parte está jogando assim. Em última instância, trata-se do seguinte: até que ponto quer conservar esse quadro?
Liv fica sentada à mesa, seu próprio sanduíche intacto enquanto os dois advogados se levantam para sair. Ela olha para as anotações à sua frente. Não pode sujar a memória de Sophie. Mas não pode deixar o quadro ir embora. O que é mais importante, não pode deixar Paul vencer.
— Vou dar mais uma olhada — diz.

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Boa leitura :)