30 de novembro de 2017

Capítulo 25 - Se assustam e suspiram

Gwyn não entraria no Instituto.
Kit não sabia se era por princípios ou preferência, mas apesar do braço sangrando que encharcava a lateral da armadura, o líder da Caçada Selvagem apenas abalançou a cabeça quando Alec o convidou cordialmente a entrar.
— Sou o líder do Instituto de Londres, embora temporariamente — explicou Alec. — Estou autorizado a convidar quem eu quiser.
— Não posso me demorar — objetou Gwyn. — Há muito a ser feito.
Tinha começado a chover. Alec estava no telhado com Mark, que cumprimentara Livvy e Ty com uma mistura de pavor e alívio. Os gêmeos ainda estavam de pé, perto do irmão, que havia abraçado os ombros de Livvy e segurava a manga de Ty.
Não havia ninguém para receber Kit daquele jeito. Ele estava discretamente isolado, observando. A cavalgada de volta do rio — Gwyn parecia ser capaz de fazer surgirem cavalos do ar tal como um magico fazia moedas aparecerem — tinha sido um borrão; Ty e Livvy cavalgaram com Diana, e Kit acabara na garupa de Gwyn, agarrando-se desesperadamente ao cinto do grandalhão e se esforçando para não cair no Tâmisa.
— Não posso ficar muito tempo perto de todo esse ferro frio — falou Gwyn, e ele parecia realmente meio pálido, na opinião de Kit. — E vocês, Blackthorn, deveriam entrar no Instituto. Estão em segurança entre estas paredes.
— E quanto a Emma e Jules? — perguntou Livvy. — Pode ser que eles estejam por aí, os Cavaleiros poderiam ir atrás deles...
— Magnus saiu para encontrá-los — tranquilizou Alec. — Ele vai se certificar de que os dois estejam bem.
Livvy assentiu seriamente, mas ainda parecia preocupada.
— Podemos precisar da sua ajuda, Diana — falou Alec. — Vamos mandar as crianças para Alicante assim que Magnus retornar.
— Que crianças? — perguntou Diana. O tom de voz dela era suave e bem baixo; agora ela também estava rouca de cansaço. — Só as suas ou...
— Tavvy e Drusilla também — falou Alec. Ele fitou Livvy e Ty; Kit imaginava que ele preferia levar os gêmeos também, mas sabia que os dois nunca concordariam.
— Ah — falou Diana. — Posso sugerir que, em vez de ficar com o Inquisidor em Alicante, vocês fiquem comigo em Flintlock Street? Seria bom se a Tropa não soubesse que estão lá.
— Pensei a mesma coisa — falou Alec. — Melhor ficar fora do radar dos Dearborn e da sua laia, ainda mais pouco antes da reunião do Conselho. — Ele franziu a testa. — E, com sorte, seremos capazes de anular o feitiço de amarração de Mark e Cristina antes da nossa ida. Caso contrário, talvez eles não sejam capazes de...
— Um dos Cavaleiros foi morto — falou Kit.
Todos o encararam. Ele não sabia ao certo por que soltara a informação assim, do nada. O mundo parecia estar girando ao seu redor e coisas estranhas eram importantes.
— Vocês se lembram — disse ele. — Foi por isso que eles fugiram, no fim das contas. Um deles tinha morrido e os demais conseguiram pressentir. Talvez Julian e Emma tenham lutado contra eles e vencido.
— Ninguém consegue matar um Cavaleiro de Mannan — falou Gwyn.
— Emma conseguiria — disse Livvy. — Se Cortana...
Os joelhos de Kit cederam. Foi muito súbito e totalmente inesperado. Num instante, ele estava de pé e, no seguinte, ajoelhado numa poça fria, perguntando-se por que não conseguia se levantar.
— Kit! — gritou Diana. — Alec, ele bateu a cabeça durante a luta... disse que não estava doendo, mas...
Alec se aproximou depressa de Kit. Ele era mais forte do que parecia. Passou os braços em volta do menino, erguendo-o; Kit sentiu uma pontada quente na cabeça assim que se mexeu e um turbilhão cinza misericordioso o envolveu.


Mais tarde, eles estavam deitados na cama, sob a luz do crepúsculo, Emma com a cabeça no peito de Julian. Ele ouvia o coração dele bater através do tecido macio da camiseta.
Eles tinham enrolado o cabelo em toalhas, vestido roupas secas e se aninhado debaixo de uma camada de cobertores. Seus pés estavam entrelaçados; Julian acariciava os cabelos soltos dela, lenta e cuidadosamente.
— Diga-me — começou ele. — Você disse que tinha uma coisa da qual eu precisava saber, e eu te interrompi. — Ele fez uma pausa. — Diga-me agora.
Ela cruzou os braços no peito dele, apoiando o queixo ali. A curva do corpo dele em contato com o dela estava relaxada, mas sua expressão era mais do que curiosa: ela notava uma intensidade nas profundezas dos olhos dele, a necessidade de saber. Para dar um sentido a todas as peças que não faziam sentido agora.
— Eu nunca namorei Mark — disse ela. — Foi tudo mentira. Eu pedia ele para fingir e ele só aceitou porque tinha dito que me devia sua vida. Nunca foi de verdade.
Os dedos dele ficaram imóveis nos cabelos dela. Emma engoliu em seco. Precisava falar tudo logo, sem pensar se Julian a odiaria no final. Caso contrário, nunca seria capaz de terminar.
— Por que vocês fariam algo assim? — perguntou ele cautelosamente. — Por que Mark concordaria em me magoar?
— Ele não sabia que estava magoando você — retrucou Emma. — Ele nunca soube que havia algo entre a gente... não até irmos ao Reino das Fadas. Então ele descobriu e me falou que precisávamos terminar. Foi por isso que acabei com tudo em Londres. Mark não se importou. A gente não sentia nada um pelo outro.
— Então Mark não sabia — disse ele. — Por que você fez isso? — Ele esticou uma das mãos. — Deixa pra lá. Eu sei a resposta: para que eu deixasse de amar você. Para nos separar. Eu sei até por que você escolheu Mark.
— Eu queria que tivesse sido outra pessoa...
— Se fosse outra pessoa, eu não teria odiado você — falou ele sem rodeios. — Ninguém teria sido capaz de me fazer desistir de você. — Ele se apoiou no cotovelo, baixando o olhar para ela. — Ajude-me a compreender — pediu ele. — Você me ama e eu te amo, mas queria destruir tudo, estava tão determinada a ponto de envolver Mark na história, e eu sei que você nunca faria algo assim se não estivesse desesperada. Então o que foi que te deixou desesperada, Emma? Eu sei que é proibido se apaixonar pelo parabatai, mas não passa de uma Lei estúpida...
— Não é uma lei estúpida — interrompeu ela.
Ele piscou. Seus cabelos já estavam secos.
— Não sei que tipo de informação você detém, Emma, mas é hora de me contar — falou baixinho.
Então ela o fez. Sem omitir nenhum detalhe, ela contou o que Malcolm dissera sobre a maldição parabatai, que ele estava demonstrando misericórdia ao matá-la; caso contrário, ela e Julian veriam a morte um do outro. Que os Nephilim odiavam o amor. Jem tinha confirmado isso para ela: o destino terrível dos parabatai que se apaixonavam; a morte e destruição que eles trariam para os seus. Que ela sabia que nenhum deles poderia se tornar mundano ou integrante do Submundo para romper aquele laço: que ser Caçador de Sombras fazia parte da alma e da pessoa que eles eram, que o exílio longe de suas famílias acabaria por destruí-los.
A luz da lareira lançava um brilho dourado escuro no rosto e nos cabelos de Julian, mas Emma conseguia notar como ele estava pálido, mesmo sob a luz indireta, além da serenidade que tinha dominado a expressão dele enquanto ela falava, como se as sombras estivessem ficando mais desagradáveis. Lá fora, chovia sem parar.
Quando ela terminou, ele ficou em silencio por um longo tempo. A boca de Emma estava seca, como se tivesse engolido algodão. Finalmente, ela não conseguiu mais aguentar e se aproximou dele, jogando o travesseiro no chão.
— Jules...
Ele ergueu a mão.
— Por que você não me contou nada disso?
Ela o encarou com ar triste.
— Por causa do que Jem contou. Que descobrir que o que a gente tinha era proibido por um motivo justo só ia fazer piorar as coisas. Pode acreditar, saber o que eu sei não me fez te amar menos.
Os olhos dele tinham ganho um tom tão escuro de azul sob a pouca luz que estavam semelhantes aos de Kit.
— Então você decidiu me fazer te odiar — falou ele.
— Eu tentei — murmurou ela. — Não sabia mais o que fazer.
— Só que eu nunca poderia odiar você — falou ele. — Odiar você seria como odiar a ideia de que coisas boas já aconteceram no mundo. Seria como a morte. Eu pensei que você não em amasse, Emma. Mas nunca te odiei.
— E eu pensei que você não me amasse.
— E isso não fez diferença, fez? Nós ainda nos amávamos. Agora entendo por que você ficou tão perturbada com o que fizemos à Igreja de Porthallow.
Ela fez que sim com a cabeça.
— A maldição deixa você mais forte antes de torná-lo destrutivo.
— Fico contente por você ter me contado. — Ele tocou a bochecha dela, seus cabelos. — Agora sabemos que nada do que podemos fazer vai ser capaz de mudar o que sentimos um pelo outro. Vamos ter que encontrar uma solução.
Havia lágrimas no rosto de Emma, embora ela não se lembrasse de ter começado a chorar.
— Eu pensei que, se você deixasse de me amar, ficaria chateado só por um tempinho. E se eu ficasse triste para sempre, tudo bem. Por que você estaria bem e eu ainda seria sua parabatai. E se um dia você pudesse ser feliz, então eu poderia ser feliz também, por você.
— Você é uma idiota — falou Julian. Ele a abraçou e a embalou, os lábios nos cabelos dela, e murmurou do jeito que fazia quando Tavvy tinha pesadelos, dizendo que ela era corajosa por ter feito o que fez, que eles resolveriam tudo, que dariam um jeito. E embora Emma ainda não conseguisse enxergar uma saída para eles, ela relaxou contra o peito de Julian, permitindo-se sentir o alivio de ter compartilhado o fardo, mesmo que só por um momento. — Mas não posso ficar zangado. Tem uma coisa que também preciso te contar.
Ela se afastou dele.
— O que é?
Ele estava mexendo na pulseira de vidro. Como Julian raramente expressava ansiedade de maneira visível, Emma sentiu seu coração palpitar.
— Julian — insistiu ela —, conte-me.
— Quando íamos para o Reino das Fadas — disse ele em voz baixa —, a puca me falou que, se eu entrasse nas Terras, encontraria alguém que saberia como quebrar o vínculo parabatai.
As batidas do coração de Emma se tornaram pancadas rápidas contra as costelas. Ela se sentou ereta.
— Você está dizendo que sabe como quebrar?
Ele balançou a cabeça.
— A puca disse a verdade; eu encontrei alguém que sabia como quebrá-lo. A Rainha Seelie, para ser preciso. E ela me disse que sabia que podia ser feito, mas não como.
— Isso faz parte do acordo da devolução do livro? — perguntou Emma. — Nós lhe damos o Volume Negro e ela diz como acabar com o vínculo?
Julian fez que sim com a cabeça. Estava olhando para a lareira.
— Você não me contou — disse ela. — Achava que eu não ia me importar?
— Em parte — falou ele. — Se você não quisesse romper a ligação, eu também não iria querer. Melhor ser seu parabatai do que nada.
— Jules... Julian...
— E tem mais — prosseguiu ele.  — Ela me disse que teria um preço.
­Claro, um preço. Sempre tem um preço quando as fadas estão envolvidas.
— Que tipo de preço? — murmurou ela.
— Romper o vínculo significa usar o Volume Negro para cavar as raízes de todas as cerimonias parabatai — falou Julian. — Isso romperia nosso vinculo, sim. Mas também destruiria todas as ligações parabatai do mundo. Todas seriam destruídas. Não haveria mais parabatai.
Emma o encarou, chocada.
— A gente não pode fazer isso. Alec e Jace... Clary e Simon... E tantos outros...
— Você acha que eu não sei disso? Mas eu não podia deixar de te dizer. Você tem o direito de saber.
Emma estava com dificuldade para respirar.
— A Rainha...
Uma pancada forte ecoou pelo cômodo, como se alguém tivesse soltado uma bombinha festiva. Magnus Bane apareceu na cozinha, enrolado num casaco preto longo, com a mão direita faiscando fogo azul e uma expressão irritada.
— Por que, em nome dos nove príncipes do inferno, nenhum de vocês atendeu o telefone? — quis saber.
Emma e Julian ficaram boquiabertos e, depois de um minuto, Magnus também abriu a boca.
— Meu Deus. Vocês estão...?
Ele não concluiu a pergunta. Não precisou.
Emma e Julian saíram da cama apressados. Ambos estavam praticamente vestidos, mas Magnus os encarava como se tivesse dado um flagrante.
— Magnus — falou Julian. Ele não completou a saudação dizendo que não era bem aquilo ou que Magnus tinha entendido tudo errado. Julian não disse nada assim. — O que está acontecendo? Tem alguma coisa errada em casa?
Por um momento, pareceu que Magnus estava sentindo o peso da idade.
Parabatai — falou, suspirando. — Sim, tem algo errado. Precisamos voltar ao Instituto. Peguem suas coisas e se preparem para partir.
Ele se recostou na bancada da cozinha e cruzou os braços. Vestia um sobretudo com um monte de camadas de capas curtas nas costas. Ele estava seco — devia ter viajado via Portal desde o interior do Instituto.
— Tem sangue na sua espada, Emma — falou, olhando para onde Cortana se apoiava na parede.
— Sangue fada — disse Emma. Julian vestia o suéter e passava os dedos pelo cabelo desgrenhado.
— Quando você diz sangue fada — emendou Magnus — se refere aos Cavaleiros, não é?
Emma viu Julian se assustar.
— Eles estavam atrás da gente... como você saberia?
— Eles não estavam só atrás de vocês. O Rei os enviou para encontrar o Volume Negro. E os instruiu a caçar todos vocês... todos os Blackthorn.
— Nos caçar? — quis saber Julian. — Alguém se machucou? — Ele cruzou o cômodo até onde Magnus estava, quase como quisesse agarrar o feiticeiro pela camisa e sacudi-lo. — Alguém da minha família se machucou?
— Julian. — A voz de Magnus era firme. — Está tudo bem. Mas os Cavaleiros aparecerem e atacaram Kit, Ty e Livvy.
— E eles estão bem? — insistiu Emma, ansiosa, calçando as botas.
— Sim... Recebi uma mensagem de fogo de Alec — falou Magnus. — Kit bateu a cabeça, Ty e Livvy, nem um arranhão. Mas tiveram sorte... Gwyn e Diana apareceram.
— Diana e Gwyn? Juntos? — Emma estava confusa.
— Emma matou um dos cavaleiros — falou Julian enquanto pegava o portfólio de Annabel e os diários de Malcolm e botava tudo na bolsa. — Nós escondemos o corpo no penhasco, mas provavelmente não deveríamos ter deixado lá.
Magnus assobiou entre os dentes.
— Ninguém chegou a matar um dos Cavaleiros Mannan até então... bem, pelo menos não em toda a história que eu conheço.
Emma estremeceu, lembrando-se da sensação fria quando a lâmina entrara no corpo de Fal.
— Foi horrível.
— Os outros não foram embora para sempre — disse Magnus. — Eles vão voltar.
Julian fechou a bolsa dele e a de Emma.
— Então precisamos levar as crianças para um lugar seguro, onde os Cavaleiros não sejam capazes de encontrá-las.
— Nesse momento, o Instituto é o local mais seguro fora de Idris — falou Magnus. — Tem barreiras de proteção, e vou instalar outras.
— O chalé também está seguro — disse Emma, erguendo a bolsa sobre o ombro. Tinha o dobro do peso de antes, com o acréscimo dos livros de Malcolm. — Os Cavaleiros não podem se aproximar; eles disseram.
— Engenhoso da parte de Malcolm — disse Magnus. — Mas vocês ficariam presos casos permanecessem aqui e não consigo imaginar que vocês aguentem ficar sem sair destas quatro paredes.
— Não — falou Julian, mas baixinho. Emma notou Magnus inspecionando o interior do chalé, a confusão de xicaras que eles não limparam, os sinais de que Julian cozinhara, o desalinho das cobertas na cama, os vestígios de fogo na lareira. Um lugar construído por e para duas pessoas que se amavam, mas que não podiam se amar, e que abrigara outras duas pessoas nas mesmas condições, duzentos anos depois. — Suponho que não.
Havia solidariedade nos olhos de Magnus quando ele fitou Julian e Emma outra vez.
— Todos os sonhos terminam quando acordamos — falou. — Agora venham, vou nos transportar via Portal para casa.


Dru observava a chuva escorrer pelas janelas do quarto. Lá fora, Londres era um borrão, o brilho dos postes se expandia na chuva e se transformava em dentes de leão amarelos, feitos de luz, empoleirados em postes de metal compridos.
Ela tinha ficado na biblioteca por tempo suficiente para dizer a Mark que estava bem, antes de ele ficar preocupado com Cristina e sair procurando por ela. Quando os dois voltaram, Dru sentiu uma pontada de medo no estômago. Tinha certeza de que Cristina ia contar... contar a todo mundo sobre Jaime, revelar o segredo dela, revelar o segredo dele.
A expressão de Cristina também não era tranquila.
— Posso conversar com você no corredor, Dru? — dissera.
Dru fez que sim com a cabeça e pousou o livro. De qualquer forma, não estava lendo mesmo. Mark tinha ido atrás de Kieran e das crianças, e Dru acompanhou Cristina até o corredor.
— Obrigada — falou Cristina, assim que a porta foi fechada. — Por ajudar Jaime.
Dru pigarreou. O agradecimento parecia um bom sinal. Pelo menos, era um sinal de que Cristina não estava furiosa. Talvez.
Cristina sorriu, e tinha covinhas. No mesmo instante, Dru desejou tê-las também. Será que tinha? Precisava verificar. Embora sorrir para si na frente do espelho parecesse um pouco estranho.
— Não se preocupe, não vou contar a ninguém que ele esteve aqui ou que você o ajudou. Não deve ter sido fácil lidar com ele como você fez.
— Eu não me importei — disse Dru. — Ele me deu atenção.
Os olhos escuros de Cristina se entristeceram.
— Ele costumava me dar atenção também.
— Ele vai ficar bem? — perguntou Dru.
— Acho que sim — falou Cristina. — Ele sempre foi esperto e cuidadoso. — Ela tocou a bochecha de Dru. — Se tiver notícias dele, eu te aviso.
E foi isso. Dru voltara para o quarto, sentindo-se vazia. Sabia que deveria ter ficado na biblioteca, mas precisava ficar onde conseguisse pensar direito.
Ela se sentara na beirada da cama, balançando as pernas apaticamente. Queria que Jaime estivesse ali, para ela ter alguém com quem conversar. Queria conversar sobre o visível cansaço de Magnus, queria falar sobre o estresse de Mark, que ela se preocupava com Emma e Jules. Queria conversar sobre a saudade que sentia de casa, do cheiro do oceano e do deserto.
Chutou com mais força — e seu calcanhar colidiu contra alguma coisa. Ela se abaixou e viu, surpresa, que a bolsa de lona de Jaime ainda estava enfiada debaixo da sua cama. Puxou-a de baixo do colchão, tentando não derrubar seu conteúdo. Já estava aberta.
Ele deve tê-la enfiado ali com pressa quando Cristina entrou, mas por que a deixaria? Isso significava que ele planejava voltar? Ou será que simplesmente largara para trás coisas das quais não precisava?
Ela não queria bisbilhotar ou, pelo menos, foi o que disse a si depois. Não que ela precisasse saber se ele ia voltar. Foi só um acidente.
Dentro da bolsa havia um amontoado de roupas masculinas, um monte de jeans e camisetas, alguns livros, estelas extras, lâminas serafim ainda inativas, um canivete não muito diferente da arma de Cristina, e algumas fotografias. E mais alguma coisa, uma coisa que brilhava tão intensamente que, por um momento, ela pensou ser uma pedra de luz enfeitiçada — só que a iluminação era menos branca. A peça brilhava com uma cor dourada escura e fraca, como a superfície do oceano. Antes que percebesse, sua mão estava naquilo...
Então Dru sentiu como se tivesse levado um tranco e se desequilibrou, como se estivesse sendo sugada para dentro de um Portal. Puxou a mão de volta, mas já não estava tocando nada. Nem estava em seu quarto mais.
Dru estava no subsolo, em um longo corredor cavado na terra. As raízes das árvores cresciam para baixo, como aqueles fitilhos de embrulho de presente. O corredor se esticava de cada lado dela até as sombras que se aprofundavam de um jeito bem diferente das sombras acima do solo.
O coração de Dru estava latejando. Uma terrível sensação de irrealidade a sufocava. Era como se ela tivesse viajado através de um Portal, mas sem ideia de aonde fora, sem nenhum sendo de familiaridade. Mesmo o ar naquele local tinha cheiro de alguma coisa estranha e sombria, um tipo de perfume que ela jamais sentira.
Dru estico a mão automaticamente para pegar as armas no cinto, mas não havia nada ali. Tinha vindo totalmente despreparada, só de jeans e uma camiseta preta com estampa de gatos. Ela sufocou uma risada histérica e se recostou na parede do corredor subterrâneo, evitando a profundeza de sombras.
Luzes apareceram no fim do corredor. Dru ouvia vozes doces e altas ao longe. A conversa era como um chilrear de pássaros. Fadas.
Ela avançou cegamente na outra direção e quase caiu para trás quando a parede cedeu atrás de si e se transformou numa cortina de tecido. Tropeçou, passando pela cortina, e se viu num imenso cômodo de pedra.
As paredes eram quadrados de mármore verde, raiadas com grossas linhas negras. Alguns dos quadrados eram entalhados com desenhos dourados: um falcão, um trono, uma coroa dividida em dois. Havia armas no cômodo, enfileiradas m torno dos tampos de diferentes mesas — espadas e adagas de cobre e bronze, ganchos, lanças e maças de todos os tipos de metal, exceto ferro.
Também havia um garoto no cômodo. Um garoto da idade dela, uns 13 anos, talvez. Ele tinha se virado quando ela entrou e agora a encarava com ar de espanto.
— Como ousa entrar neste quarto? — A voz era contundente e imperiosa.
Ele vestia roupas suntuosas, seda e veludo, e botas de couro pesadas. O cabelo era platinado, da cor da pedra de luz enfeitiçada. O corte era bem curtinho e um aro de metal claro enfeitava sua testa.
— Eu não pretendia entrar. — Dru engoliu em seco. — Eu só queria sair daqui. É tudo o que eu quero — falou ela.
Os olhos verdes do menino arderam.
— Quem é você? — Ele deu um passo para a frente, pegando uma adaga da mesa ao seu lado. — Você é uma Caçadora de Sombras?
Dru empinou o queixo e o encarou também.
— Quem é você? — quis saber. — E por que é tão rude?
Para a surpresa dela, ele sorriu, e houve algo de familiar nisso.
— Eu me chamo Ash — disse ele. — Foi a minha mãe quem mandou você? — Ele parecia esperançoso. — Ela está preocupada comigo?
— Drusilla! — chamou uma voz. — Dru! Dru!
Dru olhou ao redor, confusa: de onde vinha a voz? As paredes do cômodo estavam começando a escurecer, a derreter e se misturar. O garoto com roupas suntuosas e rosto anguloso de fada olhou para ela, confuso, erguendo a adaga enquanto mais buracos começavam a se abrir ao redor de Dru: nas paredes, no piso. Ela gritou quando o chão cedeu, e caiu na escuridão.
Um turbilhão a capturou outra vez, o quase-Portal frio giratório, e então ela desabou na realidade do piso de seu quarto. Estava sozinha. Ela arfou e engasgou, tentado ficar de joelhos. Seu coração parecia que ia rasgar e abrir caminho pelo peito.
Sua mente girava — o pavor de estar no subsolo, o terror de não saber se um dia voltaria para casa, o pânico por estar num lugar estranho — e ainda assim as imagens escapavam dela, como se ela estivesse tentando segurar água ou vento. Onde é que eu estive? O que foi que aconteceu?
Ela se ergueu, ficado de joelhos, enjoada e nauseada. Piscou para afastar a tontura — havia olhos verdes em sua visão, olhos verdes — e viu que a bolsa de Jaime se fora. Sua janela estava aberta, o soalho, úmido debaixo da janela. Ele deve ter entrado e saído enquanto ela... não estava lá. Mas onde ela estivera? Não conseguia se lembrar.
— Dru! — falou a voz outra vez. A voz de Mark. E outra batia impaciente à porta. — Dru, você me ouviu? Emma e Jules voltaram.


— Muito bem — falou Diana, verificando as ataduras no braço de Gwyn pela última vez. — Eu queria poder te dar uma iratze, mas...
Ela se calou, sentindo-se ridícula. Ela é quem tinha insistido em ir para seus aposentos em Alicante para que pudesse enfaixar a ferida, e desde então Gwyn tinha ficado quieto.
Ele dera um tapa no flanco do cavalo depois que eles subiram na janela dela, fazendo-o voar para o céu.
Enquanto ele examinava o cômodo, os olhos bicolores assimilando todos os traços de sua vida — as canecas usadas de café, o pijama jogado num canto, a mesa manchada de tinta —, Diana se perguntava se havia tomado a decisão certa ao trazê-lo para cá. Durante tantos anos, deixara que tão poucas pessoas adentrassem seu espaço pessoal, mostrando apenas o que desejava mostrar, controlando cuidadosamente acesso ao seu eu interior. Ela jamais imaginara que o primeiro home que teria acesso ao seu quarto em Idris seria uma fada bela e curiosa, mas quando ele se encolheu violentamente ao sentar na cama, ela percebeu que havia tomado a decisão certa.
Diana trincara os dentes em solidariedade quando ele começou a tirar a armadura semelhante a casca de árvore. Seu pai sempre tivera o hábito de guardar ataduras extras no banheiro; mas quando ela voltou do banheiro com a gaze na mão, encontrou Gwyn sem camisa e carrancudo sobre o lençol amarrotado, os cabelos castanhos da mesma cor que as paredes de madeira. Sua pele era muitas tonalidades mais pálida, lisa e rija sobre ossos, que eram só um pouquinho estranhos.
— Eu não preciso que façam isso — disse ele. — Sempre enfaixei minhas próprias feridas.
Diana não respondeu, simplesmente começou a fazer um curativo. Sentada atrás dele, ela se deu conta de aquilo era o máximo que ela já havia se aproximado fisicamente de Gwyn. Ela achou que a pele dele fosse ter a textura da casca de uma árvore, assim como sua armadura, mas não: parecia couro, do tipo mais macio, usado para fazer as bainhas das lâminas delicadas.
— Todo temos feridas que, às vezes, saram mais depressa se cuidadas por outra pessoa — falou ela, colocando de lado a caixa de ataduras.
— E quanto às suas feridas? — perguntou ele.
— Eu não me machuquei. — Ela ficou de pé, como se quisesse provar que estava bem, caminhando e respirando. Parte disso também era para colocar certa distância entre eles. Ela sentira o coração falhando de um jeito pouco confiável.
— Você sabe que não foi o que eu quis dizer — falou ele. — Vejo como você cuida das crianças. Por que não se oferece simplesmente para dirigir o Instituto de Los Angeles? Você seria uma líder melhor do que Arthur Blackthorn jamais foi.
Diana engoliu, apesar da boca seca.
— Isso tem importância?
— Tem importância se eu quero conhecê-la — falou ele. — Eu a beijaria, mas você se afasta de mim; eu conheceria seu coração, mas você o esconde nas sombras. É porque você não me deseja nem gosta de mim? Porque, nesse caso, eu não voltarei a perturbá-la.
O tom de voz dele não tinha qualquer intenção de fazê-la sentir-se culpada, era só uma descrição do fato mesmo.
Se ele tivesse argumentado de maneira mais emocional, talvez ela nem respondesse. Mas tal como foi, ela se flagrou cruzando o cômodo e pegando um livro da prateleira perto da cama.
— Se acha que estou escondendo alguma coisa, então suponho que você esteja certo — falou. — Mas duvido que seja o que você pensa. — Ela empinou o queixo, pensando em sua homônima, a deusa guerreira, que jamais precisava pedir desculpas. — Eu não fiz nada de errado. Não me envergonho; não tenho motivos para isso. Mas a Clave... — Ela suspirou. — Tome. Pegue isto.
Gwyn pegou o livro dela, a expressão solene.
— É um livro sobre leis — comentou ele.
Ela assentiu.
— As leis da investidura. Ela detalha as cerimônias pelas quais os Caçadores de Sombras assumem novas funções: o juramento de Cônsul, Inquisidor ou de diretor de um Instituto. — Diana se inclinou perto dele, abrindo o livro até uma página muito consultada. — Aqui. Quando você faz o juramento como diretor de um Instituto, você deve segurar a espada Mortal e responder às perguntas do Inquisidor. As perguntas são lei. Elas nunca mudam.
Gwyn assentiu.
— Qual das perguntas você não quer responder?
— Finja que você é o Inquisidor — falou Diana, como se ele nada tivesse dito. — Faça as perguntas, e vou responder como se estivesse segurando a Espada, com respostas sinceras.
Gwyn assentiu. Seus olhos estavam escuros de curiosidade e algo mais quando começou a ler em voz alta.
— Você é uma Caçadora de Sombras?
— Sim.
— Você nasceu Caçadora de Sombras ou Ascendeu?
— Eu nasci Caçadora de Sombras.
— Qual é o sobrenome de sua família?
— Wrayburn.
— E que nome lhe foi dado no nascimento? — perguntou Gwyn.
— David — respondeu Diana. — David Laurence Wrayburn.
Gwyn pareceu confuso.
— Eu não compreendo.
— Eu sou mulher — falou Diana. — Sempre fui. Sempre soube que era uma menina, independentemente do que os Irmãos do Silêncio disseram aos meus pais, independentemente da contradição do meu corpo. Minha irmã, Aria, também sabia. Ela disse que soube desde o primeiro momento em que falei minhas primeiras palavras. Mas meus pais... — Ela se calou. — Não é que eles fossem maus, mas não conheciam as opções. Disseram-me que eu deveria viver como eu mesma em casa, mas que em público eu deveria ser David. Ser o menino que eu sabia que não era. Ficar fora do radar da Clave.
“Eu sabia que seria viver uma mentira. Ainda assim, era um segredo que nós quatro guardávamos. No entanto, todos os anos meu desespero esmagador só fazia crescer. Eu me afastei das interações com outros Caçadores de Sombras da minha idade. A todo momento, dormindo ou acordada, eu me sentia ansiosa e desconfortável. Tinha medo de nunca ser feliz. Então completei 18 anos. Minha irmã tinha 19. Fomos juntas para a Tailândia, para o Instituto de Bangkok. Foi lá que conheci Catarina Loss.
— Catarina Loss — falou Gwyn. — Ela sabe. Que você é... que você... — Ele franziu a testa. — Perdoe-me. Não sei como dizer isso. Que seus pais lhe deram o nome de David?
— Ela sabe — falou Diana. — Não sabia na época. Na Tailândia, eu vivia como a mulher que sou. Eu me vestia do jeito que sou. Aria me apresentava como sua irmã. Eu estava feliz. Pela primeira vez, me sentia livre, e escolhi um nome que abraçava essa liberdade. A loja de armas do meu pai sempre se chamara a Flecha de Diana, por causa da deusa da caça, que era orgulhosa e livre. Eu escolhi para mim o nome de Diana. Eu sou Diana. — Ela respirou fundo, trêmula. — E então minha irmã e eu saímos para explorar uma ilha onde havia rumores sobre demônios Thotsakan. No fim das contas, não eram demônios, mas mortos-vivos, fantasmas famintos. Dezenas deles. Nós os enfrentamos, porém saímos machucadas. Catarina nos resgatou. Ela me resgatou. Quando acordei numa casinha não muito longe, Catarina tomava conta de nós. Eu sabia que ela vira meus ferimentos... que vira o meu corpo. Eu tinha conhecimento de que ela sabia...
— Diana — falou Gwyn com sua voz grave, e esticou uma das mãos. Mas Diana balançou a cabeça.
— Não — falou. — Ou não vou conseguir terminar. — Seus olhos ardiam com as lágrimas contidas. — Eu puxei as roupas em trapos para esconder meu corpo. Gritei pela minha irmã. Mas ela estava morta, tinha morrido enquanto Catarina cuidava dela. Então desmoronei completamente. Eu tinha perdido tudo. Minha vida estava destruída. Foi o que pensei. — Uma lágrima desceu pelo rosto dela. — Catarina cuidou de mim até eu recuperar a saúde e a sanidade. Fiquei naquele chalé com ela durante semanas. E ela foi conversando comigo. Ela ofereceu suas palavras, coisa que eu nunca tivera, como um presente. Foi a primeira vez que ouvi a palavra “transgênero”. Aí comecei a chorar. Eu nunca tinha entendido até então o quanto você pode privar uma pessoa ao não lhe dar as palavras as quais ela necessita para se descrever. Como você pode saber se há outros como você quando nunca teve um termo para se referir a si? Eu sei que deve ter havido outros Caçadores de Sombras transgênero, que eles devem ter existido no passado e que ainda existem agora. Mas não tenho como procurá-los e seria perigoso sair perguntando por aí. — Um lampejo de raiva contra a injustiça antiga tornou sua voz mais contundente. — Então Catarina me falou sobre a transição. Eu poderia viver como eu mesma, do jeito que precisava que fosse e ser reconhecida como quem eu sou. Eu sabia que era o que eu desejava.
“Fui com Catarina para Bangkok. Não como David, e sim como Diana. E não fui como Caçadora de Sombras. Morei com Catarina num pequeno apartamento. Contei aos meus pais sobre a morte de Aria e que agora eu era Diana: eles responderam dizendo que tinham comunicado ao Conselho que fora David quem morrera em batalha. E aí disseram que me amavam e compreendiam, mas que eu devia viver no mundo mundano agora, pois vinha consultando médicos mundanos e isso era contra a Lei.
“Era tarde demais para impedi-los. A Clave tinha sido comunicada que David havia morrido na ilha, combatendo mortos-vivos. Eles deram a David a morte da minha irmã, uma morte com honras. Eu queria que não tivessem mentido, mas se precisavam vestir branco pelo menino morto, mesmo que ele jamais tivesse existido, eu não poderia lhes negar isso.
“Catarina trabalhara como enfermeira durante anos. Ela conhecia a medicina mundana e me levou até uma clínica em Bangkok. Conheci outros iguais a mim lá. Eu não estava mais sozinha. Fiquei lá por três anos e não planejava voltar a ser Caçadora de Sombras. O que eu estava ganhando era precioso demais. Não podia me arriscar a ser descoberta, a ver meus segredos revelados, a ser chamada pelo nome de um homem, e a ver a pessoa que eu era ser renegada.
“Com o passar dos anos, Catarina me guiou através do procedimento médico mundano que me daria o corpo em cuja pele eu me sentia à vontade. Ela escondeu dos médicos os resultados incomuns dos meus exames, para que eles não ficassem confusos com meu sangue de Caçador de Sombras.”
— Medicina mundana — repetiu Gwyn. — É proibido um Caçador de Sombras buscar tratamento médico mundano, não é? Por que Catarina simplesmente não usou magia para ajudar você?
Diana balançou a cabeça.
— Eu não ia querer isso — disse ela. — Um feitiço sempre pode ser desfeito por outro feitiço. Não quero que minha verdade seja algo que possa ser dissolvido por um feitiço casual ou ao passar pelo portão mágico errado. Meu corpo é meu corpo... o corpo no qual cresci até me tornar mulher, como todas as mulheres crescem em seus corpos.
Gwyn assentiu, embora Diana não soubesse dizer se ele realmente compreendia.
— Então é esse o seu medo — foi tudo o que ele disse.
— Não temo por mim — falou Diana. — Temo pelas crianças. Enquanto eu for a tutora delas, sinto que posso protegê-las de algum modo. Se a Clave soubesse o que fiz, que fui atrás de médicos mundanos, eu acabaria na prisão sob a Cidade do Silêncio. Ou nas Basilias, se fossem misericordiosos.
— E seus pais? — A expressão de Gwyn era indecifrável. Diana queria que ele lhe desse algum tipo de sinal. Será que estava zangado? Será que ele ia zombar dela? A tranquilidade dele estava lhe causando palpitações. — Eles vieram atrás de você? Você deve ter sentido falta deles.
— Eu tinha medo de expô-los à Clave. — A voz de Diana falhou. — Sempre que falavam numa visita clandestina a Bangkok, eu os desencorajava. E então chegou a notícia de que eles tinham morrido, assassinados num ataque de demoníaco. Catarina foi quem me contou. Eu chorei a noite toda. Não podia contar aos amigos mundanos sobre a morte dos meus pais; eles não entenderiam o fato de eu não poder voltar para casa para o funeral.
“Então veio a notícia da Guerra Mortal. E aí eu percebi que ainda era uma Caçadora de Sombras. Não poderia deixar Idris em perigo sem lutar. Voltei para Alicante e disse ao Conselho que eu era a filha de Aaron e Lissa Wrayburn. Porque afinal era verdade. Eles sabiam que eram um menino e uma menina, e que o menino havia morrido. Eu me apresentei como Diana. No caos da guerra, ninguém me questionou.
“Eu surgi na batalha como Diana. Lutei como eu mesma, com uma espada na mão e fogo angelical nas veias. E eu soube então que nunca poderia voltar a ser mundana. Entre meus amigos mundanos, eu precisava esconder a existência dos Caçadores de Sombras. Entre os Caçadores de Sombras, eu precisava ocultar que já havia feito uso da medicina mundana. Eu sabia que, de um modo ou de outro, teria que esconder uma parte de mim. Escolhi ser uma Caçadora de Sombras.”
— Quem mais sabia de tudo isso? Além de Catarina?
— Malcolm sabia. Eu tenho que tomar um remédio para manter o equilíbrio dos hormônios no meu corpo. Normalmente, consigo as doses com Catarina, mas houve uma época em que ela não teve como fazê-lo e Malcolm ajudou. Depois disso, ele soube. Nunca mencionou diretamente, mas eu sempre tive consciência de que ele sabia. Que podia me machucar.
— Que ele podia machucá-la — murmurou Gwyn. A expressão dele era um completa máscara. Diana ouvia o próprio coração latejando nos ouvidos. Era como ela tivesse vindo até Gwyn com o coração nas mãos, cru e sangrando, e agora só estivesse esperando que ele pegasse as facas.
— Por toda a vida eu tentei encontrar meu lugar no mundo, e ainda procuro por ele — disse Diana. — Por isso tenho escondido coisas das pessoas que amo. E escondi isso de você. Mas nunca menti sobre minha verdade.
O que Gwyn fez em seguida surpreendeu Diana. Ele se levantou da cama, deu um passo para a frente e se ajoelhou diante dela. Fez isso graciosamente, do modo como um escudeiro se ajoelharia diante de um cavalheiro ou um cavalheiro faria diante de sua dama. Havia algo de antigo na essência do gesto, alguma coisa que remetia ao coração e à essência do Povo das Fadas.
— É como imaginei — disse ele. — Quando eu a vi sob as estrelas do Instituto, e vi o fogo em seus olhos, eu soube que você era a mulher mais corajosa a colocar os pés nesta terra. Só lamento que uma alma tão corajosa já tenha sido magoada pela ignorância e medo alheios.
— Gwyn...
— Posso abraçá-la? — perguntou ele.
Ela fez que sim com a cabeça. Não conseguia falar. E se ajoelhou diante do líder da Caçada Selvagem, permitindo que ele a tomasse nos braços largos, que acariciasse seus cabelos e murmurasse o nome dela naquela voz que ainda soava como o ribombar do trovão — mas que agora era um trovão ouvido dentro de uma casa fechada e calorosa, onde todos estavam em segurança.


Tavvy foi o primeiro a perceber o retorno de Emma e Julian quando eles voltaram através do Portal para a biblioteca do Instituto com Magnus. Ele ficara sentado no chão, desmontando sistematicamente alguns brinquedos antigos com a ajuda de Max. No momento em que Julian sentiu o chão sólido sob seus pés, Tavvy ficou de pé de um salto e correu para ele, colidindo com um trem que saíra dos trilhos.
Jules! — exclamou ele, e Julian girou o irmão nos braços e o apertou num abraço ao mesmo tempo que Tavvy se agarrou a ele, balbuciando sobre o que vira, ouvira e fizera nos últimos dias. E aí Julian bagunçou os cabelos dele num cafuné e sentiu a tensão que ele nem sequer percebera estar carregando se esvair.
Na hora Cristina estava sentada com Rafe, conversando com ele baixinho em espanhol. Mark estava à mesa da biblioteca com Alec e (para surpresa de Julian) com Kieran, com montes de livros abertos diante deles.
Cristina se levantou num pulo e correu para abraçar Emma. Livvy entrou correndo no cômodo, Ty veio logo atrás dela, mais silencioso, e Julian pôs Tavvy no chão — que permaneceu ao lado de seu irmão mais velho, agarrado à perna dele — enquanto cumprimentava o restante da família numa confusão de abraços e exclamações.
Emma abraçava os gêmeos, uma visão que enviou um dardo de dor familiar pelas costelas de Julian. O medo da separação, de afastar aquilo que tinha sido feito para ficar junto: o sonho de sua família, Emma como sua parceira, as crianças sob a responsabilidade deles.
A mão de alguém tocou o ombro dele, arrancando-o da fantasia. Era Mark, que o encarou com inquietação.
— Jules?
Claro. Mark não tinha percebido que Julian sabia a verdade sobre ele e Emma. Ele parecia preocupado, esperançoso, como um cachorrinho que vinha pedir comida, mas que temia ser escorraçado da mesa.
Eu fui tão ruim assim?, Julian se perguntou, com a culpa atravessando-o. Mark sequer soubera ou sequer imaginara que Julian amasse Emma. E ficara horrorizado ao descobrir. Mark e Emma se amavam, mas não era amor romântico, que de fato era o desejado por Julian. O coração dele se encheu de ternura por ambos, por tudo do qual eles haviam aberto mão para protegê-lo, por estarem dispostos a serem odiados por ambos se fosse preciso.
Ele puxou Mark para um canto do cômodo. O burburinho das saudações prosseguia ao redor quando Julian abaixou a voz.
— Eu sei o que vocês fizeram — disse ele. — Sei que você nunca namorou Emma de verdade. Agradeço por isso. Sei que foi por minha causa.
Mark parecia surpreso.
— Foi ideia de Emma — falou.
— Ah, acredite, eu sei. — Julian pôs a mão no ombro do irmão. — E você fez um bom trabalho com as crianças. Magnus me contou. Obrigado.
O rosto de Mark se iluminou, o que fez o coração de Julian doer mais ainda.
— Eu não... quero dizer, eles se meteram numa tremenda encrenca...
— Você os amou e os manteve vivos — falou Julian. — Algumas vezes, isso é o melhor que se pode fazer.
Julian puxou o irmão num abraço apertado. Mark fez um som abafado de surpresa antes de seus braços envolverem Julian, quase deixando-o sem fôlego. Julian sentia o coração do irmão martelando contra o dele, como se o mesmo alívio e alegria estivessem pulsando através do sangue compartilhado.
Depois de um instante, eles se separaram.
— Então você e Emma...? — começou Mark, meio hesitante. Mas antes que Julian pudesse responder, Livvy se jogara para cima deles, conseguindo de algum modo abraçar Julian e Mark ao mesmo tempo, e a conversa acabou em risadas.
Ty se aproximou mais timidamente, sorrindo e tocando Julian no ombro, e depois na mão, como se quisesse ter certeza de que ele realmente estava lá. A expressão tátil às vezes significava tanto para Ty quanto sua capacidade de absorção visual.
Mark estava dizendo a Emma que Dru ainda estava no quarto, mas que em breve ela viria. Magnus tinha ido atrás de Alec, e os dois conversavam em voz baixa perto da lareira. Apenas Kieran ficou onde estava, tão silencioso e imóvel à mesa que poderia muito bem ter se passado por uma planta decorativa. Ao vê-lo, porém, uma lembrança lampejou na mente de Julian, que olhou ao redor procurando pelos cabelos louras e pela expressão sarcástica.
— Onde está Kit?
Uma onda de explicações simultâneas se seguiu: a história dos cavaleiros na beira do rio, o modo como Gwyn e Diana os salvaram, o machucado de Kit. Emma descreveu os quatro Cavaleiros que eles encontraram na Cornualha, mas foi Julian quem contou em detalhes o modo como Emma eliminara um deles, o que gerou uma boa quantidade de exclamações.
— Eu nunca ouvi falar de alguém que tivesse matado um Cavaleiro — falou Cristina, correndo até a mesa para pegar um livro. — Mas alguém deve ter feito isso.
— Não. — Era Kieran, com voz baixa e firme. Havia alguma coisa no timbre que fez Julian se lembrar da voz do Rei Unseelie. — Nunca mataram. Só houve sete, o filhos de Mannan, e eles já existem quase desde o começo dos tempos. Deve ter alguma coisa muito especial em você, Emma Carstairs.
Emma corou.
— Não tem.
Kieran ainda estava fitando Emma com curiosidade. Ele vestia jeans e um suéter cor de creme. Para uma fada, ele parecia assustadoramente humano, até você olhar realmente seu rosto e notar sua estrutura óssea esquisita.
— Como foi matar uma coisa tão antiga?
Emma hesitou.
— Foi como... você já segurou gelo por tanto tempo que o frio machucou sua pele?
Depois de uma pausa, Kieran assentiu.
— É uma dor mortal.
— Foi assim.
— Então estamos em segurança aqui. — disse Julian para Magnus, em parte para evitar mais perguntas sobre o Cavaleiro morto. — No Instituto.
— Aqui os Cavaleiros não têm como nos alcançar. Há barreiras para afastá-los — disse Magnus.
— Mas Gwyn conseguiu pousar no telhado — falou Emma. — Então o Povo das Fadas pode não estar completamente bloqueado...
— Gwyn é da Caçada Selvagem. Eles são diferentes. — Magnus se abaixou para pegar Max, que dava risadinhas e puxava o cachecol dele. — Além disso, eu dobrei as barreiras em torno do Instituto desde esta tarde.
— Onde está Diana? — perguntou Julian.
— Ela voltou para Idris. Disse que tem que manter Jia e o Conselho felizes e calmos, e esperando que a reunião aconteça sem dificuldades.
— Mas nós não temos o Volume Negro — disse Julian.
— Bem, ainda temos um dia e meio para encontrar Annabel — falou Emma.
— Sem sair dos limites destas paredes consagradas? — falou Mark. Ele estava sentado no braço de uma das poltronas. — Nós meio que estamos encurralados.
— Não sei se os Cavaleiros sabem que eu e Alec estamos aqui — falou Magnus. — Ou talvez nós possamos recorrer a Gwyn.
— O perigo parece bem grave — disse Emma. — Nós não íamos nos sentir bem, pedindo esse tipo de ajuda.
— Bem, vou voltar para Idris com as crianças... certamente posso ver o que fazer de lá. — Alec se lançou numa poltrona perto de Rafe e bagunçou o cabelo escuro do menino.
Talvez Alec pudesse entrar na mansão Blackthorn, pensou Julian. Ele estava exausto, com os nervos à flor da pele depois de um dos melhores e piores dias de sua vida. Mas a mansão provavelmente era o local na Terra que Annabel mais amava. Sua mente começou a assinalar as possibilidades.
— Annabel se importava com a mansão Balckthorn — falou. — Não a Casa dos Blackthorn, aqui em Londres... nessa época ainda não pertencia à família. A de Idris. Ela a adorava.
— Então você acha que ela poderia estar lá? — falou Magnus.
— Não — retrucou Julian. — Ela odeia a Clave, odeia os Caçadores de Sombras. Está com medo demais para ir até Idris. Eu só estava pensando que, se ela estivesse em perigo, se estivesse ameaçada, talvez revelasse onde está se escondendo.
Dava para ver que Emma se perguntava por que ele não mencionava que tinha visto Annabel na Cornualha; ele se fazia a mesma pergunta, mas seus instintos lhe diziam para guardar segredo por mais um tempo.
— Você está sugerindo que queimemos a mansão? — perguntou Ty, com as sobrancelhas quase chegando na linha do couro cabeludo.
— Estranhamente, você não seria a primeira pessoa a ter essa ideia — resmungou Magnus.
— Ty, não fale com tanta empolgação — disse Livvy.
— Piromania me interessa — respondeu o menino.
— Acho que você tem que queimar uma boa quantidade de prédios antes de poder se considerar um maníaco por fogo de verdade — falou Emma. — Acho que, antes disso, você é só um entusiasta.
— Acho que causar um grande incêndio em Idris vai atrair uma atenção que nós não queremos — falou Mark.
Eu acho que não temos muitas opções — disse Julian.
— E eu acho que a gente devia comer — falou Livvy apressadamente, dando tapinhas na barriga. — Estou faminta.
Nós podemos discutir o que sabemos, sobretudo, em relação a Annabel e ao Volume Negro — falou Ty. — Podemos reunir nossas informações.
Magnus deu uma olhadela breve para Alec.
— Depois de comermos, precisamos mandar as crianças para Idris. Diana está esperando do outro lado para nos ajudar a manter o Portal aberto, e não quero que ela espere demais.
Era um gentileza da parte dele, pensou Julian, falar como se mandar as crianças para Alicante fosse um favor que Magnus estivesse fazendo a Diana e não uma precaução para protegê-las. Tavvy saiu saltitando, juntamente a Rafe e a Max, até a sala de jantar, e Julian sentiu uma pontada, percebendo o quanto seu irmão caçula tinha sentido falta de ter amigos da idade dele, mesmo que não tivesse se dado conta disso.
— Jules? — Ele baixou o olhar e viu que Dru caminhava ao seu lado. O rosto dela estava pálido sob a luz enfeitiçada no corredor.
— Sim? — Ele resistiu à vontade de afagar as bochechas dela ou de puxar suas trança. Ela havia deixado de gostar disso aos dez anos.
— Eu não quero ir para Alicante — falou. — Quero ficar aqui com você.
— Dru...
Ela aprumou os ombros.
— Na Guerra Maligna, você era mais jovem do que eu — falou. — Tenho 13 anos. Você pode mandar os bebês para onde for seguro, mas não eu. Sou uma Blackthorn, assim como você.
— E Tavvy também.
— Ele tem sete anos. — Dru suspirou, trêmula. — Você me faz sentir como se eu não fizesse parte desta família.
Julian parou no mesmo instante. Dru parou com ele e ambos ficaram observando enquanto os outros seguiam para a sala de jantar. Julian ouvia Bridget dando bronca em todos; aparentemente, ela estivera aguardando todos para jantar havia horas, embora nunca tivesse lhe ocorrido ir atrás deles e chamá-los.
— Dru — falou. — Você realmente quer ficar?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Quero muito.
— Então não precisa dizer mais nada. Pode ficar com a gente.
Ela se jogou nos braços dele. Dru não era do tipo que gostava de abraçar, e por um momento Julian ficou surpreso demais para se mexer; então pôs os braços em volta da irmã e a apertou contra o fluxo de lembranças. Dru bebê, dormindo em seus braços, dando os primeiros passos, rindo quando Emma a segurava acima da água na praia, mal molhando os dedos dos pés.
— Você é o coração desta família, bebê — falou ele com aquele tom de voz que só os irmãos e irmãs já tinham ouvido. — Eu te juro. Você é o nosso coração.


De algum modo Bridget conseguira arranjar frango frio, pão, queijo, vegetais e torta de banana e caramelo. Kieran ficou beliscado os vegetais enquanto o restante do grupo conversava e relatava o que sabia.
Emma se sentou ao lado de Julian. De vez em quando, os ombros deles esbarravam ou as mãos colidiam na hora em que iam pegar alguma coisa. Cada toque enviava uma onda de faíscas pelos dois, como uma pequena explosão de fogos de artifício.
Ty, com os cotovelos sobre a mesa, assumira a conversa, explicando como ele, Kit e Livvy tinham encontrado o cristal de alétheia e as lembranças contidas nele.
— Duzentos anos atrás, Malcolm e Annabel invadiram o Instituto da Cornualha — explicou ele, e suas mãos graciosas cortavam o ar enquanto ele falava. Alguma coisa parecia diferente em Ty, pensou Julian, mas como o menino podia ter mudado tanto nos poucos dias em que ele estivera ausente? — Eles roubaram o Volume Negro, mas foram pegos.
— Nós sabemos por que eles o queriam? — perguntou Cristina. — Não vejo como necromancia poderia ter ajudado os dois.
— Eles planejavam trocá-lo com outra pessoa, ao que parece — falou Emma. — O livro não era para eles. Em troca, alguém prometera conceder proteção contra a Clave.
— Era uma época em que relacionamento entre uma Caçadora de Sombras e um integrante do Submundo poderia significar sentença de morte para ambos — falou Magnus. — Proteção teria sido uma oferta bastante atraente.
— Eles não foram tão longe assim — falou Ty. — Foram pegos e jogados na prisão na Cidade do Silêncio, e o Volume Negro foi tirado deles e devolvido ao Instituto da Cornualha. E então uma coisa estranha aconteceu. — Ele franziu a testa. Ty não gostava de não entender as coisas — Malcolm desapareceu e deixou Annabel ser interrogada e torturada.
— Ele não teria feito isso por vontade própria — falou Julian. — Ele a amava.
— As pessoas podem trair, mesmo aquelas que amam — falou Mark.
— Não, Julian tem razão — falou Emma. — Eu odeio Malcolm mais do que odeio qualquer outra pessoa, mas ele nunca teria abandonado Annabel. Ela era a vida dele.
— E ainda assim foi o que aconteceu — disse Ty.
— Eles torturaram Annabel para obter informações até ela praticamente enlouquecer — disse Livvy. — Então eles a libertaram para voltar à família. E quando a mataram, disseram a todos que ela se tornara Irmã de Ferro. Mas isso não é verdade.
Julian sentiu um bolo na garganta. Pensou nos desenhos de Annabel, na leveza deles, na esperança, no amor pela mansão Blackthorn em Idris e por Malcolm.
— Avancem quase cem anos — disse Emma. — Malcolm vai até o Rei Unseelie. Ele descobriu que Annabel não se tornara Irmã de Ferro, que ela fora assassinada. Ele está disposto a uma vingança sangrenta. — Ela fez uma pausa, passando os dedos nos cabelos, ainda embaraçados pelo vento e pela chuva da Cornualha. — O Rei Unseelie explica como ressuscitar Annabel, mas tem uma pegadinha... Malcolm precisa do Volume Negro para isso e agora não está com ele. Está no Instituto da Cornualha. Ele invadiu uma vez e não ousa fazer isso de novo. Então fica ali até os Backthorn que dirigem o Instituto se mudarem para Los Angeles e o levarem junto.
Os olhos de Ty se iluminaram.
— Certo. E Malcolm vê sua oportunidade quando Sebastian Morgenstern ataca, e aí pega o livro. Ele começa a ressuscitar Annabel e finalmente consegue.
— Só que ela está furiosa com ele e o mata — disse Emma.
— Quanta ingratidão — falou Kieran.
— Ingratidão? — repetiu Emma. — Ele era um assassino. Ela estava certíssima em matá-lo.
— Ele pode ter sido um assassino — falou Kieran —, mas parece que se tornou um por causa dela. Ele matou para dar vida a ela.
— Talvez ela não quisesse vida — falou Alec, dando de ombros. — Ele nunca perguntou o que ela queria, perguntou?
Como se sentisse a atmosfera tensa à mesa, Max começou a choramingar. Com um suspiro, Alec o pegou e levou para fora do cômodo.
— Tenho certeza de que é útil saber tudo isso — falou Magnus. — Mas por acaso isso nos aproxima do Volume Negro?
— Talvez se tivéssemos mais tempo e os Cavaleiros não estivessem atrás de nós — falou Julian.
— Acho — falou Kieran lentamente, com o olhar vago — que foi meu pai.
Aparentemente era o dia de pronunciamentos surpreendentes. Todos o fitaram outra vez. Para surpresa de Julian, foi Cristina quem falou:
— Como assim, foi o seu pai?
— Acho que era ele quem queria o livro tantos anos atrás, quando Malcolm o roubou pela primeira vez — falou Kieran — Ele é a ameaça que conecta tudo isso. Ele queria o livro antes e quer agora.
— Mas por que você acha que ele o queria antes? — falou Julian. Ele manteve a voz baixa e gentil, e Emma compreendera como a voz conduzindo-a-testemunha.
— Por causa de uma coisa que Adaon disse. — Kieran baixou os olhos para as próprias mãos. — Ele falou que meu pai queria o livro desde que o Primeiro Herdeiro foi roubado. É uma antiga história das Fadas, o roubo do primogênito do meu pai. Aconteceu há mais de duzentos anos.
Cristina parecia chocada.
— Eu não percebi que era isso que ele queria dizer.
— O Primeiro Herdeiro. — Os olhos de Magnus não pareciam focar em nada. — Eu ouvi a história ou ouvi falar dela. O primogênito não foi apenas sequestrado, foi assassinado.
— É o que dizem — falou Kieran. — Talvez meu pai quisesse usar necromancia para ressuscitar a criança. Eu não poderia falar das motivações dele, mas pode ser que ele tenha oferecido proteção a Fade e Annabel nas Terras Unseelie. Nenhum Caçador de Sombras poderia tocar neles caso estivessem a salvo no Reino das Fadas.
Emma deixou o garfo cair, fazendo barulho.
— O príncipe de cabelo pretencioso está certo.
Kieran piscou.
— Do que foi que você me chamou?
— Só estou provocando — falou Emma, com um aceno. — E eu falei que você estava certo. Aproveite, porque duvido que volte a dizer isso.
Magnus assentiu.
— O Rei é um dos poucos seres nesta Terra que poderia ter sequestrado Malcolm das prisões da Cidade do Silêncio. Vai ver não queria que o outro revelasse seu vínculo ao Conselho.
— Mas por que ele não levou Annabel também? — perguntou Livvy com o garfo cheio de torta a meio caminho da boca.
— Talvez porque Malcolm o tivesse decepcionado ao ser pego — falou Mark. — Talvez ele quisesse punir os dois.
— Mas Annabel podia ter dito a eles — falou Livvy. — Ela podia ter dito que Malcolm estava trabalhando para o Rei.
— Não se ela não soubesse — disse Emma. — Não havia nada nos diários de Malcolm que mencionasse para quem ele estava roubando o livro, e aposto que ele também não contou para Annabel.
— Eles a torturaram — falou Ty —, e ainda assim ela não soube dizer quem era simplesmente porque não fazia ideia. Deve ter sido verdade.
— Isso explica por que Malcolm foi até o Rei Unseelie quando descobriu que Annabel não era uma Irmã de Ferro, que tinham mentido para ele — falou Julian. — Porque ele o conhecia.
— Então antes o Rei queria o livro para necromancia — falou Cristina. — Agora ele quer para poder destruir os Caçadores de Sombras?
— Nem toda necromancia ressuscita os mortos. — Magnus fitava a taça de vinho perto do prato como se houvesse algum tipo de segredo escondido em suas profundezas. — Um momento — falou, e pegou Rafe da cadeira ao lado dele, virando-se para Tavvy. — Você quer vir com a gente? E brincar com Alexander e Max?
Depois de uma olhadela para Julian, Tavvy fez que sim a cabeça. O grupo deixou o cômodo, e Magnus fez um gesto de que voltaria logo.
— Isso é só uma reunião — falou Emma. — Primeiro, nós temos que fazer o Conselho acreditar que a Corte Unseelie é uma ameaça iminente. Neste momento, eles não conseguem distinguir as fadas boas das más, nem estão interessados em tentar.
— E é aí que entra o testemunho de Kieran — falou Mark. — E há algumas evidências: a praga que Diana disse que viu na Floresta Brocelind e o relatório dos Caçadores de Sombras, que afirmaram ter lutado contra um bando de fadas, mas que suas armas não funcionaram.
— Não é muita coisa — falou Livvy. — Sobretudo, se considerarmos Zara e aquele bando nojento de fanáticos. Eles vão tentar tomar o poder nessa reunião. Vão tentar tomar o Instituto. E não poderiam se importar menos com uma vaga ameaça das fadas.
— Posso fazer a Clave temer o meu pai — falou Kieran. — Mas todos nós somos necessários para fazê-los entender que, se eles não querem uma nova era das trevas, devem abandonar seus sonhos de prolongar a Paz Fria.
— Sem registros de feiticeiros — falou Ty. — Sem botar licantropes em acampamentos.
— Os integrantes do Submundo que têm cadeira no Conselho sabem sobre a Tropa — falou Magnus, voltando sem as crianças. — Se, na verdade, a questão de quem dirige o Instituto de Los Angeles se reduzir ao voto, eles terão que trazer Maia e Lily, além de mim. Nós temos o direito de votar. — Ele se jogou na cadeira à cabeceira da mesa.
— Ainda são apenas três votos, mesmo se vocês votarem contra a Tropa — falou Julian.
— É um negócio arriscado — concordou Magnus. — De acordo com Diana, Jia não quer Zara dirigindo o Instituto de Los Angeles tanto quanto nós. Vai ser difícil desacreditá-la. Por causa da mentira sobre ter matado Malcolm, ela é bem popular agora.
Emma resmungou baixinho. Cristina afagou a mão dela.
— Enquanto isso, o que temos é a promessa de que a Rainha lutará conosco contra uma ameaça na qual provavelmente o Conselho não vai acreditar, e, mesmo assim, só se ela pegar um livro que atualmente nós não temos e que nem teríamos permissão de entregar a ela caso o tivéssemos. — falou Magnus.
— Nossa barganha com a Rainha Seelie é nosso problema — falou Julian. — Neste momento, podemos dizer que ela se mostrou disposta a cooperar nas circunstâncias corretas. Kieran está autorizado a jurar que ela vai ajudar. Ele não precisa entrar em detalhes.
— Irmão, você pensa como uma fada — observou Mark num tom que fez Julian se perguntar se isso era bom ou não.
— Talvez o Rei queira ressuscitar um exército de mortos — falou Dru, esperançosa. — Quero dizer, é um livro de necromancia.
Magnus suspirou, batendo uma unha contra sua taça pensativamente.
— Necromancia tem a ver com fazer magia que usa a energia da morte para fortalecê-la. Toda magia precisa de combustível. A energia da morte é um combustível incrivelmente poderoso. Também é incrivelmente destrutivo. A destruição da terra que você viu no Reino das Fadas, a praga em Brocelind, são as cicatrizes deixadas por uma magia terrível. A pergunta permanece... qual é o objetivo derradeiro?
— Você quer dizer que ele precisa de mais energia para espalhar esses feitiços — falou Julian. — Os feitiços nos quais Malcolm ajudou, que anulam a magia dos Caçadores de Sombras.
— Eu quero dizer que, por natureza, sua magia é angelical — falou Magnus. — Vem da luz, da energia e da vida. O oposto disso é o Sheol, o inferno ou como vocês queiram chamá-lo. A ausência de luz e vida. De qualquer tipo de esperança. — Ele tossiu. — Quando o Conselho votou pela Paz Fria, estava votando por uma Época de Ouro, quando os Caçadores de Sombras caminhavam pelo mundo como deuses, e integrantes do Submundo e mundanos se curvavam diante deles. — Todos o encararam. Este era um Magnus Bane que as pessoas raramente viam, pensou Julian. Um Magnus que se lembrava das trevas, de tudo que vira ao longo dos séculos: morte e perda; o mesmo Magnus que Julian vira no Salão dos Acordos, quando tinha 12 anos, implorando em vão ao Conselho que não aprovasse a Paz Fria, sabendo que o fariam. — O Rei quer a mesma coisa. Unir dois reinos que sempre foram separados, mas que em sua mente já foram um terra só. Nós temos que impedir o Rei, mas de um modo que ele somente esteja fazendo o que a Tropa faria. E que, temos que torcer, a Clave não faria.
— Você quer dizer que isso é vingança? — perguntou Julian.
Magnus deu de ombros.
— É o redemoinho — retrucou. — Vamos torcer para conseguirmos pará-lo.

Um comentário:

  1. uau...DIANA você chocou total!😬🚹🚺eu não fazia ideia !🚻isso foi uma revelação- 😀😊

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Boa leitura :)