20 de novembro de 2017

Capítulo 24

Silenciosamente, o aeromóvel cruzava a fria escuridão, a única luzinha acesa nas trevas profundas da noite de Magrathea. O veículo voava depressa. O companheiro de Arthur parecia absorto em seus próprios pensamentos, e nas duas vezes que Arthur tentou puxar conversa com ele o velho limitou-se a perguntar-lhe se estava tudo bem com ele, e a coisa ficou por aí mesmo.
Arthur tentou calcular a velocidade com que estavam se deslocando, mas a escuridão lá fora era absoluta, não havendo, assim, qualquer ponto de referência. A sensação de estarem se movendo era tão suave que era quase possível acreditar que estavam parados.
Então apareceu ao longe um pontinho de luz, que em poucos segundos já havia crescido tanto que Arthur concluiu que o ponto estava se aproximando deles a uma velocidade colossal. Tentou discernir que espécie de nave seria. Olhava, mas não conseguia perceber nenhuma forma definida; de repente soltou uma interjeição de pavor quando o aeromóvel perdeu altura num movimento súbito, parecendo estar prestes a chocar-se de frente com o outro veículo. A velocidade relativa dos dois parecia inacreditável, e antes que Arthur tivesse tempo de respirar tudo já havia terminado. Quando deu por si, Arthur viu que estavam cercados de uma luminosidade prateada incompreensível. Virou-se para trás de repente e viu um pequeno ponto preto diminuindo rapidamente na distância, e levou alguns segundos para entender o que havia acontecido.
Haviam entrado num túnel subterrâneo. A velocidade relativa colossal fora simplesmente a velocidade do aeromóvel em relação a um buraco no chão, a boca do túnel. A luminosidade prateada era a parede circular do túnel que eles agora estavam percorrendo, a algumas centenas de quilômetros por hora.
Apavorado, Arthur fechou os olhos.
Depois de um intervalo de tempo que ele sequer tentou avaliar, sentiu que estavam perdendo um pouco de velocidade, e algum tempo depois percebeu que estavam gradualmente parando.
Reabriu os olhos. Ainda estavam dentro do túnel prateado, atravessando um verdadeiro labirinto de túneis convergentes. Quando por fim estacionaram, estavam numa pequena câmara de paredes curvas de aço. Diversos outros túneis também terminavam aí e na extremidade oposta Arthur viu um círculo grande de luz fraca e irritante. Era irritante porque proporcionava uma espécie de ilusão de ótica: não havia como focalizar os olhos nela, e era impossível calcular a que distância estava. Arthur imaginou (erradamente) que fosse luz ultravioleta.
Slartibartfast virou-se e encarou Arthur com seus olhos velhos e solenes.
— Terráqueo — disse ele —, estamos agora no coração de Magrathea.
— Como descobriu que eu sou terráqueo?
— Estas coisas vão ficar claras para você — disse o velho, delicadamente. — Pelo menos — acrescentou, com um toque de dúvida na voz — vão ficar mais claras do que agora. — E prosseguiu: — Devo lhe avisar que a câmara pela qual vamos passar agora não existe literalmente dentro de nosso planeta. É um pouco... grande demais. Vamos entrar numa ampla extensão de hiperespaço. A experiência talvez seja perturbadora para você.
Arthur fez uns ruídos nervosos.
Slartibartfast apertou um botão e acrescentou, num tom não muito tranquilizador:
— Eu, pelo menos, fico de perna bamba. Segure-se bem firme.
O aeromóvel disparou em direção ao círculo de luz, e de repente Arthur teve uma ideia mais ou menos clara do que é o infinito.
Na verdade, não era o infinito. O infinito é uma coisa chata, nos dois sentidos da palavra. Quem olha para o céu à noite está olhando para o infinito; a distância é incompreensível, e portanto sem significado. A câmara na qual o aeromóvel entrou estava longe de ser infinita; era apenas muito, muito, mas muito grande, tão grande que dava a impressão de ser o infinito melhor do que o próprio infinito.
Os sentidos de Arthur balançavam-se e rodavam enquanto o aeromóvel, naquela velocidade imensa que ele já pudera estimar, subia lentamente no espaço aberto, e a passagem por onde eles haviam entrado transformava-se num pontinho invisível na parede reluzente da qual eles se afastavam.
A parede.
A parede desafiava a imaginação, ela a seduzia e derrotava. Era tão assustadoramente imensa e lisa que seus limites, no alto, embaixo e nos lados, estavam além do alcance da vista. Ela proporcionava uma vertigem capaz de matar uma pessoa de choque.
A parede parecia perfeitamente plana. Seria necessário o mais delicado medidor para constatar que, à medida que ela subia, aparentemente rumo ao infinito, e descia, e se espalhava para os dois lados, ela também se curvava. Fechava-se sobre si própria a uma distância de 13 segundos-luz dali. Em outras palavras: a parede era o interior de uma esfera oca, com cerca de cinco milhões de quilômetros de diâmetro, inundada por uma luz inimaginável.
— Bem-vindo — disse Slartibartfast, quando o cisco infinitesimal que era o aeromóvel, viajando agora a uma velocidade três vezes superior à velocidade da luz, avançava imperceptivelmente naquele espaço estonteante. — Bem-vindo à nossa fábrica.
Arthur olhou ao redor, com uma mistura de deslumbramento e horror. Dispostos à sua frente, a distâncias que ele não podia calcular, nem mesmo imaginar, havia uma série de curiosas suspensões, delicadas redes de metal e luz penduradas sobre sombrias formas esféricas que pairavam no espaço.
— É aqui — disse Slartibartfast — que fazemos a maioria dos nossos planetas.
— Quer dizer — disse Arthur, articulando as palavras com dificuldade — que vocês vão reabrir a fábrica agora?
— Não, não, que é isso! — exclamou o velho. — Não, a Galáxia ainda está longe de ter dinheiro o suficiente para manter nosso negócio. Não, fomos despertados apenas para realizar um único serviço, para clientes muito... especiais, de outra dimensão. Talvez isto lhe interesse... ali, ao longe, à nossa frente.
Arthur olhou na direção em que o velho apontava, até que conseguiu distinguir a estrutura que ele indicava. Era, de fato, a única delas que tinha alguns sinais de atividade, embora isto fosse mais uma impressão subliminar do que uma coisa concreta.
Porém nesse instante um facho de luz descreveu um arco através da estrutura, pondo em relevo as formas que havia na superfície da esfera negra nela contida. Formas que Arthur conhecia, formas irregulares que lhe eram tão familiares como as formas das palavras, parte do mobiliário de sua mente. Por alguns segundos, Arthur ficou abestalhado, sem palavras, enquanto as imagens dançavam em sua mente, tentando encontrar um ponto em que pudessem estacionar e fazer sentido.
Uma parte de seu cérebro lhe dizia que ele sabia muito bem o que era que estava vendo, o que representavam aquelas formas, enquanto uma outra parte, muito sensatamente, recusava-se a admitir aquela ideia e não assumia a responsabilidade por levar adiante aquele raciocínio.
O facho de luz iluminou o globo outra vez, e agora não havia mais lugar para dúvida.
— A Terra... — sussurrou Arthur.
— Bem, a Terra II, para ser exato — disse Slartibartfast, sorridente. — Estamos fazendo uma cópia, com base nos esquemas originais.
Houve uma pausa.
— O senhor quer dizer — foi dizendo Arthur lentamente, controladamente — que foram vocês que fizeram... a Terra original?
— Isso mesmo — disse Slartibartfast. — Você já esteve num lugar chamado... acho que era Noruega?
— Não — disse Arthur. — Nunca.
— Que pena — disse Slartibartfast. — Fui eu que fiz. Ganhou um prêmio, sabe? Beleza de litoral, todo trabalhado. Fiquei muito aborrecido quando soube que tinha sido destruída.
— O senhor ficou aborrecido!
—Fiquei. Cinco minutos depois, eu não teria me incomodado. Um equívoco fenomenal.
— Hein? — exclamou Arthur.
— Os ratos ficaram furiosos.
— Os ratos ficaram furiosos?
— É, ora — disse o velho.
— Está bem, mas não só os ratos como, imagino eu, os cachorros, os gatos, ornitorrincos, mas...
— Ah, mas não foram eles que pagaram por ela, não é?
— Escute — disse Arthur —, não seria mais prático pro senhor se eu entregasse os pontos e pirasse logo de uma vez?
Durante algum tempo, o aeromóvel voou num silêncio constrangedor.
Depois o velho, paciente, tentou explicar.
— Terráqueo, o planeta em que você vivia foi encomendado, pago e governado pelos ratos. Ele foi destruído cinco minutos antes de terminar de servir aos propósitos para o qual foi construído, e agora vamos ter que fazer outro.
Só uma palavra fora registrada no cérebro de Arthur.
— Ratos?
— É, terráqueo.
Escute, por acaso estamos falando sobre aquelas criaturinhas peludas que se amarram em queijo e que faziam as mulheres subir nas mesas e ficar gritando naquelas comédias enlatadas dos anos 1960?
Slartibartfast tossiu um pouco, polidamente.
— Terráqueo, às vezes é difícil compreender a sua fala. Lembre-se que há cinco milhões de anos estou dormindo dentro de Magrathea, e portanto não sei muita coisa sobre essas comédias enlatadas dos anos 1960. Essas criaturas chamadas ratos não são exatamente o que parecem ser. Não passam de protusões em nossa dimensão de seres pandimensionais imensos e hiperinteligentes. Toda essa história de queijo e guinchos é só fachada. — O velho fez uma pausa, uma careta simpática, e prosseguiu. — Eles estavam fazendo experiências com vocês.
Arthur pensou nisso por um segundo, e então seu rosto se desanuviou.
— Ah, não — disse ele. — Agora entendi a origem desse mal-entendido. — Não, o que acontecia é que nós é que fazíamos experiências com eles. Os ratos eram muito utilizados em pesquisas do comportamento. Pavlov, essas coisas. O que acontecia era que os ratos participavam de tudo quanto era experiência, aprendiam a tocar campainhas, corriam em labirintos, de modo que toda a natureza do processo de aprendizagem pudesse ser examinada. Com base nas observações do comportamento deles, a gente aprendia um monte de coisas a respeito do nosso comportamento...
 A voz de Arthur foi morrendo aos poucos.
— Que sutileza! — disse Slartibartfast. — É realmente admirável.
— Como assim?
— Para disfarçar melhor suas verdadeiras naturezas e orientar melhor o pensamento de vocês. De repente corriam para o lado errado de um labirinto, comiam o pedaço errado de queijo, inesperadamente morriam de mixomatose... a coisa sendo bem calculada, o efeito cumulativo é imenso. — Fez uma pausa para acentuar o efeito de suas palavras. — Sabe, terráqueo, eles são mesmo seres pandimensionais particularmente hiperinteligentes. O seu planeta e a sua espécie formaram a matriz de um computador orgânico que processou um programa de pesquisa de dez milhões de anos... Eu lhe conto toda a história. Vai levar algum tempo.
— Tempo — respondeu Arthur, com voz débil. — No momento não é um dos meus problemas.

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