15 de novembro de 2017

Capítulo 24

O trem segue numa grande animação. Um grupo de mulheres no fundo do Vagão Quatorze estoura na gargalhada. Um casal de meia-idade nos assentos em frente, talvez indo para casa após alguma viagem para celebrar o Natal, está coberto de enfeites extravagantes. Os bagageiros estão lotados de compras, o ar, impregnado de aromas de comidas da estação — queijos maduros, vinho, chocolate caro. Mas para Mo e Liv, a viagem de volta à Inglaterra é desanimada. Elas viajam praticamente em silêncio. Mo ainda está de ressaca, e aparentemente tenta remediar a situação com mais garrafinhas de vinho vendidas a preços exorbitantes. Liv lê e relê suas anotações, traduzindo palavra por palavra com seu pequeno dicionário inglês-francês equilibrado em sua mesa-bandeja.
A situação difícil de Sophie Lefèvre lançou uma longa sombra na viagem. O destino da garota que Liv sempre considerara triunfante não lhe sai da cabeça. Será que ela realmente foi uma colaboracionista? O que foi feito dela?
Um atendente empurra um carrinho pelo corredor, oferecendo mais bebidas e doces. Ela está tão absorta na vida de Sophie que mal ergue os olhos. O mundo de maridos ausentes, de desejo, de quase inanição e de medo dos alemães subitamente lhe parece mais real do que este. Ela sente o cheiro de fumaça da lenha do Le Coq Rouge, ouve os passos no chão. Cada vez que fecha os olhos, seu quadro se transforma na expressão apavorada de Sophie Lefèvre, arrastada pelos soldados para um caminhão à sua espera, renegada pela família que ela amava.
As páginas são marrons, frágeis e absorvem a umidade da ponta de seus dedos. Há as primeiras cartas de Édouard para Sophie, quando ele entra para o Régiment d’Infanterie e ela se muda para St Péronne para ficar com a irmã.
Édouard sente tanta falta dela, escreveu ele, que algumas noites quase não consegue respirar. Ele lhe conta que a faz aparecer em seu pensamento, pinta retratos dela no ar frio. Em suas cartas, Sophie inveja a própria imagem, reza pelo marido, censura-o. Chama-o de poilu. A imagem dos dois despertada pelas palavras de Sophie é tão forte, tão íntima que, mesmo lutando com sua tradução do francês, Liv se sente quase sem ar. Corre os dedos pelas letras desbotadas, maravilhada com o fato de a garota do retrato ser responsável por aquelas palavras. Sophie Lefèvre não é mais uma imagem em uma moldura dourada lascada: tornou-se uma pessoa, um ser vivo, tridimensional, que respira. Uma mulher que fala sobre roupa suja, escassez de comida, o corte do uniforme do marido, seus medos e frustrações. Ela se dá conta, mais uma vez, que não pode deixar o retrato de Sophie ir embora.
Liv passa os olhos em duas folhas. Aqui o texto é mais denso, e interrompido por uma fotografia formal, em sépia, de Édouard Lefèvre, o olhar meio distante.


Outubro de 1914
A Gare du Nord fervilhava, um mar de soldados e mulheres chorosas, o abafamento de fumaça e vapor e as vozes angustiadas das despedidas. Eu sabia que Édouard não havia de querer que eu chorasse. Além do mais, seria apenas uma curta separação. Todos os jornais diziam isso.
“Quero saber tudo que você está fazendo”, eu disse. “Faça muitos esboços para mim. E coma direito. E não faça nenhuma burrice, como se embebedar, brigar e ser preso. Quero você em casa o mais depressa possível.”
Ele me fez prometer que Hélène e eu seríamos cuidadosas.
“Se tiver notícia de que a linha inimiga está se aproximando de você, prometa-me que vai voltar imediatamente para Paris.” Quando fiz que sim com a cabeça, ele disse: “Não me faça essa cara de esfinge, Sophie. Prometa que vai pensar primeiro em você. Não vou conseguir lutar se achar que você poderia estar em perigo.”
“Você sabe que eu sou forte.”
Ele virou-se para olhar o relógio atrás dele. Em algum lugar ao longe, um trem deu um apito pungente. Fumaça, um fedor de óleo queimado subiu à nossa volta, ocultando as multidões na plataforma. Estiquei o braço para arrumar seu quepe de sarja azul. Depois recuei para olhar para ele. Que homem é o meu marido! Um gigante no meio dos homens. Ombros muito largos dentro daquele uniforme, meia cabeça mais alto que qualquer um ali. Ele tem uma enorme presença física. Vê-lo me enche de orgulho. Eu não podia acreditar que ele estivesse partindo.
Édouard finalizara uma pequena pintura a guache que fizera de mim na semana anterior. Agora batia no bolso do peito. “Vou levar você comigo.”
Pus a mão no coração.
“E eu levarei você comigo.” No íntimo, eu estava com inveja de não ter uma imagem dele.
Olhei em volta. As portas dos vagões abriam e fechavam, mãos procuravam mãos, entrelaçando-se pela última vez.
“Não vou ficar vendo você partir, Édouard. Vou fechar os olhos e guardar a sua imagem como você está na minha frente.”
Ele balançou a cabeça. Tinha entendido.
“Antes de você ir”, disse ele de repente. Então me puxou e me beijou na boca, me apertando com força com aqueles braços grandes. Abracei-o, com os olhos bem fechados, e aspirei seu cheiro, absorvendo-o, como se pudesse fazer essa sensação durar por toda a sua ausência. Era como se só então eu tivesse me convencido de que ele estava partindo. Meu marido estava indo embora. E então, quando isso ficou demais, afastei-me, controlando rigidamente meu semblante.
Fiquei de olhos fechados e agarrei sua mão, sem querer ver o que quer que seu rosto expressasse, e depois me virei depressa, de costas bem eretas, fui andando pelo meio da multidão, afastando-me dele.
Não sei por que não quis vê-lo realmente embarcar no trem. Arrependo-me disso todos os dias.
Foi só quando cheguei em casa que pus a mão no bolso. Encontrei um papel que ele deve ter colocado ali enquanto me abraçava: uma pequena caricatura de nós dois, ele como um enorme urso de uniforme, sorrindo, o braço envolvendo a mim, miúda e de cintura fina, o rosto impassível e solene, o cabelo puxado para trás. Embaixo, ele escrevera, em sua letra cursiva sinuosa: “Nunca conheci a verdadeira felicidade até encontrar você.”

Liv pisca. Guarda as folhas cuidadosamente na pasta. Mantém-se sentada, pensando. Então, desenrola o retrato de Sophie Lefèvre, e olha para aquele rosto sorridente, de cumplicidade. Como Monsieur Bessette poderia estar certo? Como uma mulher que adorava assim o marido poderia traí-lo, não só com outro homem, mas também com o inimigo? Parece incompreensível. Liv enrola a fotocópia e guarda as anotações em sua bolsa.
Mo puxa os fones do ouvido.
— Então. Meia hora até St Pancras. Acha que conseguiu o que queria?
Liv balança os ombros. Um enorme nó na garganta a impede de falar.
Mo tem o cabelo preto penteado para trás, as maçãs do rosto brancas como leite.
— Está nervosa por causa de amanhã?
Liv engole em seco e dá um sorriso sem convicção. Não pensou em outra coisa nas últimas seis semanas.
— Se isso vale ou não — diz Mo, como se andasse pensando naquilo houvesse algum tempo —, acho que McCafferty não fez uma armação com você.
— O quê?
— Conheço um monte de gente falsa e mesquinha. Ele não é desse tipo. — Ela puxa uma pele do polegar, depois diz: — Acho que o destino simplesmente decidiu fazer uma brincadeira de mau gosto e botar vocês em lados opostos.
— Mas ele não tinha que vir atrás do meu quadro.
Mo levanta uma sobrancelha.
— É mesmo?
Liv olha pela janela enquanto o trem segue para Londres, lutando com mais um nó na garganta.
Do outro lado da mesa, o homem e a mulher completamente enfeitados estão encostados um no outro. Adormeceram de mãos dadas.

* * *

Mais tarde, ela não sabe bem o que a levou a isso. Mo anuncia em St Pancras que está indo para a casa de Ranic, deixando Liv com instruções para não passar a noite inteira na internet pesquisando obscuros casos de restituição, e para fazer o favor de botar aquele Camembert na geladeira antes que ele empesteie a casa inteira. Liv fica parada no saguão movimentadíssimo, segurando uma sacola plástica com um queijo fedorento e observando a pequena figura se dirigindo para o metrô, com uma bolsa pendurada descontraidamente no ombro. Há um tom confiante e firme no jeito que Mo fala de Ranic, dando a impressão de que algo mudou para os dois.
Ela aguarda até Mo sumir na multidão. Os transeuntes passam por ela, uma pedra no meio de um rio de gente. As pessoas todas estão aos pares, de braços dados, conversando, trocando olhares amorosos, animados, ou, se estão sozinhas, andam cabisbaixas, determinadas, a caminho de casa, ao encontro de quem amam. Ela vê alianças de casamento, anéis de noivado, ouve trechos de conversas murmuradas sobre horários de trens, litros de leite de última hora, e Será que você pode me buscar na estação?. Depois ela pensará com sensatez sobre as muitas pessoas que abominam o parceiro para quem voltam, procuram desculpas para não embarcar no trem, se refugiam em bares. Mas, por ora, os entediados, os infelizes, os outros solitários estão invisíveis. Para ela, a multidão só pode ser uma afronta ao seu estado solitário. Eu já fui uma de vocês, pensa, e não consegue imaginar como seria voltar a ser assim.
Nunca conheci a verdadeira felicidade até encontrar você.
O quadro de partidas pisca com seus novos destinos, as lojas de fachada de vidro estão lotadas de pessoas fazendo compras de Natal de última hora. Será que é possível voltar a ser quem se era?, pergunta-se ela. E antes que possa ficar totalmente paralisada pela resposta, Liv pega sua mala e vai meio andando, meio correndo para a estação de metrô.

* * *

O silêncio do apartamento tem algo de peculiar depois que Jake voltou para a mãe. É algo concreto, pesado, totalmente diferente da ausência de barulho que há quando ele passa algumas horas na casa de um amigo. A calma profunda de sua casa nessas horas tem, ele às vezes pensa, um colorido de culpa, uma aura de fracasso. Esse sentimento é agravado pela certeza de que não há chance de o filho voltar em menos de quatro dias. Paul termina de arrumar a cozinha (Jake andou fazendo bolos de chocolate com flocos de arroz, que se espalharam por baixo de todos os equipamentos da cozinha) e depois se senta, olhando para o jornal de domingo que pega toda semana por hábito e invariavelmente não lê.
Logo que Leonie saiu de casa, o que ele mais detestava eram as primeiras horas da manhã. Não sabia quanto gostava de ouvir os passos trôpegos do pequeno Jake pisando descalço e aparecendo no quarto, com o cabelo todo em pé, mal abrindo os olhos, para pedir para se deitar entre eles. A sensação gostosa daqueles pés geladinhos, o calor e o cheirinho de suor da pele dele. Aquela sensação visceral, quando o filho estava enroscado entre eles na cama, de que o mundo ia bem. E então, depois que os dois se foram, aqueles primeiros meses acordando sozinho, sentindo como se cada manhã simplesmente anunciasse mais um dia em que ele sentiria falta do filho. Outra série de pequenas aventuras ou acidentes, o mosaico de acontecimentos banais que ajudariam a transformá-lo em quem ele se transformaria — e dos quais Paul não faria parte.
Paul enfrentava melhor as manhãs agora (até porque, aos nove anos, Jake  raramente acordava antes dele), mas as primeiras horas depois que o menino voltava para Leonie ainda conseguiam desarmá-lo.
Ele vai passar algumas camisas. Talvez vá à academia, depois tome uma chuveirada e coma. Essas poucas atividades darão um sentido à noite. Um pouco de televisão, talvez uma olhada em seus arquivos, só para se certificar de que tudo esteja em ordem, e depois vai dormir.
Está acabando de passar as camisas quando o telefone toca.
— Oi — diz Janey.
— Quem é? — pergunta ele, embora saiba exatamente quem seja.
— Sou eu — diz ela, tentando disfarçar a ligeira reação à afronta na voz. — Janey. Só pensei em dar uma conferida em como estamos para amanhã.
— Estamos bem — afirma ele. — Sean já viu toda a papelada. O advogado está preparado. Não podemos estar melhor.
— Conseguimos mais alguma coisa sobre o desaparecimento inicial?
— Não. Mas temos uma correspondência de terceiros que dá para colocar um grande ponto de interrogação nisso.
Há um breve silêncio do outro lado da linha.
— A Briggs & Sawston está montando a própria agência de localização — diz ela.
— Quem?
— A casa de leilões. Mais um recurso para eles, aparentemente. Eles têm as costas quentes, também.
— Droga. — Paul olha para a pilha de papéis em sua mesa.
— Já começaram a falar com outras agências sobre equipe. Estão pegando ex-membros da Brigada das Antiguidades e Obras de Arte, ao que parece. — Ele ouve a pergunta oculta. — Qualquer um com experiência em trabalho de detetive.
— Bem, eles não me procuraram.
Ela não diz nada. Ele se pergunta se ela acredita nele.
— Temos que ganhar esse caso, Paul. Precisamos aparecer. Mostrar que somos as pessoas que devem procurar para encontrar e devolver tesouros perdidos.
— Eu sei disso — diz ele.
— Eu só quero que... você saiba quão importante você é para a empresa, quero dizer.
— Como eu disse, Janey, ninguém me procurou.
Outro silêncio.
— Tudo bem.
Ela não para de falar, contando-lhe do seu fim de semana, a viagem à casa dos pais, um casamento a que foi convidada em Devon. Fala tanto sobre o casamento que ele se pergunta se ela está arranjando coragem para convidá-lo, e muda de assunto com firmeza. Finalmente, ela desliga.
Paul põe uma música e aumenta o volume para ver se abafa o barulho da rua. Sempre adorou o burburinho, a vitalidade do West End, mas, com o tempo, aprendeu que, se não estiver no estado de espírito certo, aquela boemia escancarada só serve para aumentar a melancolia inerente às noites de domingo.
Pressiona o botão do volume. Sabe por que, mas não admite. Não adianta pensar naquilo que não se pode mudar.
Ele acabou de lavar a cabeça quando ouve vagamente o interfone. Solta um palavrão, pega uma toalha e enxuga o rosto. Ia descer enrolado na toalha, mas tem a impressão de que é Janey. Não quer que ela pense que aquilo é um convite.
Já está ensaiando uma desculpa enquanto desce, com a camiseta colada na pele molhada.
Me desculpe, Janey, eu estava de saída.
É. Precisamos discutir isso no trabalho. Devíamos marcar uma reunião, envolver todo mundo.
Janey, acho você maravilhosa. Mas isso não é uma boa ideia. Me desculpe.
Ele abre a porta com esta última frase quase saindo da boca. Mas não é Janey.
Liv Halston está parada na calçada, segurando uma pequena bolsa de viagem. Acima dela, fios de luzes festivas enfeitam o céu noturno. Ela deixa a bolsa no chão e olha para ele com um rosto sério e pálido, como se tivesse esquecido por um instante o que queria dizer.
— O julgamento começa amanhã — diz ele, diante do silêncio dela. Não consegue parar de olhar para ela.
— Eu sei.
— Não podemos nos falar.
— Não.
— Poderíamos arranjar muitos problemas.
Ele fica ali parado, esperando. O rosto dela está muito tenso, emoldurado pela gola grossa do casaco preto, e seus olhos piscam como se houvesse mil conversas acontecendo em seu íntimo que ele não pudesse saber. Ele começa a pedir desculpas. Mas ela fala primeiro.
— Olhe. Sei que isso não deve fazer o menor sentido, mas será que não daria para a gente esquecer a ação? Só por uma noite? — A voz dela está muito vulnerável. — Será que dá para nos limitarmos a ser duas pessoas de novo?
É a voz ligeiramente embargada dela que o vence. Paul McCafferty abre a boca para falar, depois se abaixa, pega a bolsa dela e a conduz para dentro.
Antes que qualquer um dos dois possa mudar de ideia, ele a puxa, toma-a nos braços e ficam ali até o mundo externo desaparecer.

* * *

— Ei, dorminhoca.
Ela se endireita, registrando aos poucos onde está. Paul está sentado na cama, colocando café numa caneca. Ele a entrega para ela. Parece espantosamente desperto. O relógio marca seis e trinta e dois.
— Trouxe uma torrada também. Achei que você poderia querer um tempo para ir para casa antes...
Antes...
O caso. Ela custa um pouco a absorver essa ideia. Ele espera enquanto ela esfrega os olhos, depois se inclina e a beija de leve. Já escovou os dentes, ela nota e fica inibida por um instante por não ter feito o mesmo.
— Eu não sabia o que você queria na torrada. Tomara que goste de geleia. — Ele pega a torrada da bandeja. — A preferida de Jake. Noventa e oito por cento de açúcar, ou algo assim.
— Obrigada.
Ela pisca ao ver o prato em seu colo. Não se lembra quando foi a última vez que alguém lhe trouxe café na cama.
Eles se entreolham. Nossa, pensa ela, lembrando-se da vez anterior. Todos os outros pensamentos desaparecem. E, como se Paul conseguisse ler a sua mente, os olhos dele se franzem nos cantos.
— Você vai... voltar para cá? — pergunta ela.
Ele se vira para ela, de modo a enroscar suas pernas, quentes e firmes, nas dela. Ela se mexe para ele poder passar o braço em volta de seus ombros, depois se apoia nele e fecha os olhos, limitando-se a se deleitar com a sensação desse contato. Ele tem um cheiro quente e sonífero. Ela só quer encostar o rosto na pele dele e ficar ali, aspirando-o até seus pulmões estarem completamente tomados pelas moléculas de Paul. Ela tem a lembrança repentina de um garoto com quem saiu na adolescência. Ela o adorava. Quando finalmente se beijaram, ela ficou chocada com o cheiro desagradável que ele tinha na pele, no cabelo, no corpo todo. Era como se uma parte fundamental do menino tivesse aquela composição química para repeli-la. Mas a pele de Paul... ela poderia ficar só ali, aspirando-a, como um cheiro realmente muito bom.
— Você está bem?
— Mais do que bem — diz ela.
Ela toma um gole de café.
— Estou começando a gostar das noites de domingo. Não imagino por quê.
— As noites de domingo definitivamente são desvalorizadas.
— Assim como os visitantes inesperados. Eu estava meio preocupado que você fosse uma Testemunha de Jeová. — Ele pensa por um instante. — Embora se uma Testemunha de Jeová fizesse o que você fez ontem à noite, acho que ela seria muito mais bem recebida.
— Você devia dizer a eles.
— Talvez eu diga.
Há um longo silêncio. Enquanto comem a torrada calados e com cumplicidade, eles ouvem o caminhão do lixo dando marcha a ré na rua, o bater abafado das latas de lixo.
— Senti sua falta, Liv — diz ele.
Ela encosta a cabeça nele. Na rua, há duas pessoas falando alto em italiano. Ela sente uma dor gostosa nos músculos, como se tivesse relaxado depois de uma tensão prolongada que ela mal havia percebido. Sente-se como uma pessoa que ela havia esquecido. Pergunta a si mesma o que Mo diria de tudo isso, depois sorri ao se dar conta de que sabe a resposta.
E então a voz de Paul quebra o silêncio:
— Liv, acho que esse processo vai levá-la à falência.
Ela olha para a caneca de café.
— Liv?
— Não quero falar sobre o processo.
— Não vou... entrar em detalhes sobre isso. Só quero dizer que estou preocupado.
Ela tenta sorrir.
— Bem, não fique. Você ainda não ganhou.
— Mesmo que você ganhe. É muito dinheiro em custas legais. Já estive nessa situação algumas vezes e tenho uma boa ideia de quanto vai custar. — Ele pousa a caneca e pega a mão dela. — Olhe. Semana passada falei com a família Lefèvre em particular. Minha diretora, Janey, nem sabe disso. Expliquei um pouco sua situação, disse a eles quanto você gosta do quadro, quanto resiste em abrir mão dele. E consegui fazê-los concordar em lhe oferecer uma compensação adequada. Uma compensação séria, na casa dos seis dígitos. Isso cobriria suas custas legais até agora e ainda sobraria.
Liv olha para as mãos de ambos, a sua envolvida pela dele. Seu bom humor evapora.
— Você... está tentando me convencer a recuar?
— Não pelas razões que você pensa.
— Como assim?
Ele olha para a frente.
— Descobri algumas coisas.
Uma parte dela fica muito serena.
— Na França?
Ele contrai os lábios, como se tentasse calcular quanto lhe contar.
— Descobri um antigo artigo de jornal, de autoria da jornalista americana que era dona do seu quadro. Ela conta como recebeu esse quadro de um armazém de obras de arte roubadas perto de Dachau.
— E então?
— Então essas obras foram todas roubadas. O que reforçaria nosso argumento de que o quadro foi obtido ilegalmente e tomado pelos alemães.
— É uma suposição importante.
— Ela contamina qualquer aquisição posterior.
— Isso é você que está dizendo.
— Sou bom no que faço. Estamos quase chegando lá. E se houver mais provas, você sabe que vou encontrar.
Ela se sente enrijecer.
— Acho que a palavra importante aí é “se”.
Retira a mão da dele.
Ele se vira para olhá-la de frente.
— Tudo bem. É isso que não entendo. À parte o que é moralmente certo e errado aqui, não entendo por que uma mulher muito inteligente, que tem a posse de um quadro que não custou quase nada, não concordaria em devolvê-lo em troca de muito dinheiro. Muito mais do que pagou por ele.
— Não se trata de dinheiro.
— Ora, espere aí, Liv. Estou mostrando o óbvio, aqui. Se você levar esse processo adiante e perder, pode perder centenas ou milhares de libras. Talvez até sua casa. Toda a sua segurança. Por um quadro? Sério?
— O lugar de Sophie não é com eles. Eles não... ligam para ela.
— Sophie Lefèvre já faleceu há mais de oitenta anos. Tenho certeza de que isso não vai fazer qualquer diferença para ela.
Liv se levanta da cama, olha em volta à procura de sua calça.
— Você realmente não entende, não é? — Veste-se, puxando furiosamente o zíper. — Nossa. Você não é nada do homem que imaginei que fosse.
— Não. Sou um homem que, surpreendentemente, não quer ver você perder sua casa por nada.
— Ah, não. Me esqueci. Você é o homem que trouxe essa merda para dentro da minha casa, para começar.
— Acha que outra pessoa não teria feito esse trabalho? É um caso justo, Liv. Existem organizações como a nossa por todo lado que trabalhariam nele.
— Terminamos? — Ela fecha o sutiã e puxa o casaco pela cabeça.
— Olhe. Só quero que você pense sobre isso. Só não quero que perca tudo por uma questão de princípio.
— Ah, então você só está preocupado comigo. Certo.
Ele esfrega a testa, como se tentando manter a calma. Depois, balança a cabeça.
— Sabe de uma coisa? Acho que isso não tem nada a ver com o quadro. Acho que tem a ver com a sua incapacidade de seguir em frente. Abrir mão do quadro significa deixar David no passado. E você não consegue fazer isso.
— Já segui em frente! Você sabe que segui! Que diabo acha que foi esta noite?
Ele olha para ela.
— Quer saber? Não sei. Não sei mesmo.
Quando ela se desvia dele para passar, ele não tenta impedi-la.

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